Eu pedi um café e deixei esfriar, que é o que eu faço com café desde os vinte e três anos.
Ele reparou — dava para ver
que reparou, porque olhou a xícara na terceira vez em que eu não peguei a xícara — e não perguntou. A dona ofereceu
trocar por um quente e eu disse que não, obrigada, e ele continuou não perguntando, e eu bebi o café frio às dez e
vinte, de uma vez, como se toma remédio. Foi ali, com a xícara vazia na mão, que ele falou o nome. — O Elias afinou o
piano da Trilogia, em vinte e um. — Afinou. — Naquele teatro da Mateus Leme, com o palco em desnível. Eu lembro
porque ele calçou o pedal com um pedaço de mangueira e funcionou por vinte e duas sessões. — Foi ele. — Ele está
bem? E eu disse: — Está bem. Eu não sei se está bem. Eu vejo aquele homem uma hora por semana, sentada num
banco de concreto, com quatro cláusulas escritas pela minha própria mão, e uma quinta pela dele, proibindo metade
dos assuntos que existem, e está bem foi a coisa mais barata que eu tinha à disposição e foi a que eu usei. E aí, sem que
ninguém tivesse pedido, eu falei o resto. Falei que o Elias estava morando na casa do irmão desde junho. Falei que era
acordo nosso. Falei que em agosto acabava. Três frases, nessa ordem, na mesma voz com que eu tinha falado do corte a
mil e quinhentos, e a xícara vazia continuou na minha mão durante as três. Ele não perguntou nada. Não perguntou por
quê, não perguntou desde quando, não perguntou se eu estava bem, não fez a cara de quem recebeu uma informação.
Encostou na cadeira, com o elástico do caderno ainda H E L E N A V A L E N Ç A 124 no pulso, e o que ele disse depois de
uns segundos foi que o desnível daquele palco da Mateus Leme é de sete centímetros e que ninguém nunca corrigiu, e a
conversa foi para o seu Aparício, o zelador de lá, que guarda a chave da caixa de energia no bolso da calça e não deixa
com ninguém. Minha mãe pergunta do Elias uma vez por semana e eu minto uma vez por semana. Aquele homem não
perguntou nada e eu contei. A conta veio às dez e meia num pratinho, e eu tinha dito na primeira taça que a gente ia
dividir, e ele tinha dito claro, e foi só isso: a máquina passou duas vezes, oitenta e seis reais cada um, o rapaz esperou de
pé, e nenhum dos dois fez um único segundo de teatro em cima daquilo. Eu já vi homem fazer teatro com uma conta de
restaurante a vida inteira. Ele arrancou o pedaço do papel da mesa com os três módulos, dobrou em quatro e me deu.
— As medidas estão comigo — eu disse. — Estão. Mas o Nivaldo vai querer ver o cotovelo. Eu guardei no bolso interno
da bolsa, o que tem zíper, onde vai documento e o que não pode amassar. Está lá até hoje, junto com um programa da
peça com o meu sobrenome escrito errado. Na esquina da Trajano com a Presidente Carlos Cavalcanti estavam três
graus e o céu tinha aquela limpeza de julho seco que a cidade dá umas seis vezes por ano. O carro dele estava do outro
lado, um cinza de que eu não sei o modelo, o que já diz o tamanho da minha atenção naquele momento. — Te deixo. —
Eu pego o ônibus. — Tá bom. Ele não ofereceu de novo. Não disse tem certeza, não disse é rapidinho, não disse mas
está frio, não ficou parado no meio-fio D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 125 esperando eu mudar de ideia — e um
não, com ele, custa uma vez só, e é isso que eu tinha para escrever sobre aquela noite e é isso que eu não consegui
escrever naquela noite. Atravessou, brigou uns bons vinte segundos com a fechadura da porta do motorista, que devia
estar emperrada de frio, entrou e ligou o carro. Buzinou uma vez de leve na esquina, do jeito que se faz. Peguei o ônibus
na Cavalcanti. Desci no meu ponto, o que eu achei digno de nota, o que já é péssimo. Subi os quatro andares e o
apartamento estava com a temperatura de fora, porque quarto andar sem elevador de prédio de 1970 é assim. Botei
água para o chá e não fiz o chá. Fiquei em pé na cozinha, com a mão na quina da mesa de fórmica, e comecei a montar a
frase, porque eu monto frases, é o que eu sei fazer com as coisas: eu pego o que aconteceu e ponho numa forma de
dizer, e a forma cabe num banco de concreto entre dez e onze da manhã de sábado. Jantei com o diretor da peça e a
gente resolveu a itinerância. Verdadeira. Curta. Inútil. Jantei com o Renan. Verdadeira, e do outro lado do banco ia
chegar carregando um homem inteiro, com um tamanho que eu ia ter que decidir no ar. E a terceira eu não terminei,
porque não tem terceira. Não tem fato nenhum. Eu podia fazer a lista de tudo o que aconteceu naquelas duas horas e
quarenta e a lista está certa e a lista é isto: sopa de capeletti, uma panela de polenta empurrada para o meio da mesa,
três módulos desenhados num papel de mesa, seis anos de esquadria, uma lâmpada vermelha de mil novecentos e
noventa e oito, três frases sobre o meu casamento que ninguém tinha pedido, oitenta e seis reais na máquina, um táxi
que não teve, uma carona recusada uma vez só. Não teve toque. Não teve elogio. Não teve nenhuma frase que eu
pudesse repetir para uma pessoa razoável e receber de volta uma cara de espanto. H E L E N A V A L E N Ç A 126 Abri o
caderno de capa preta na mesa da cozinha, na primeira página limpa, deitei o 2B de lado e fiz o breu inteiro, canto a
canto, os dois lados da folha, que é como eu começo tudo. Levei uns quarenta minutos e a mão ficou preta até o pulso
outra vez. Não aconteceu nada. Fiquei com a borracha na mão até quase três da manhã e não tirei nada de lugar
nenhum.