Na terça-feira o cenário subiu inteiro pela primeira vez, e eu passei as duas primeiras horas embaixo do palco, de
joelhos, com uma lanterna na boca, conferindo sapata por sapata. O Teatro Marumbi tem cento e oitenta e dois lugares,
um camarim coletivo com espelho de sete lâmpadas das quais quatro funcionam, e uma coxia esquerda de sessenta
centímetros por causa de um cano que passa ali desde antes de eu nascer. Cheira a pó de serra, a látex que ainda não
secou e ao café da máquina do saguão, que é um café que ninguém elogia e todo mundo toma. Tem uma pomba
morando no urdimento desde março. A produção mandou pôr uma tela e a pomba aprendeu a entrar por baixo da tela.
Quem Bate tem sete personagens, dois atos e nenhuma parede. Só as nove portas, em pé numa estrutura de metalon
preto, com as maçanetas de latão de verdade que eu briguei quatro reuniões para conseguir. Latão pesa. Foi o
argumento que eu usei e foi o argumento que quase me derrubou: cada porta ficou dezoito quilos mais pesada do que
estava no projeto, e a estrutura, que é leve de propósito, começou a responder. — A nove treme — disse o Nivaldo. —
Treme quando? — Bate a três que a nove treme. Bati a três. A nove tremeu. Levamos até as quatro da tarde para
resolver isso com duas mãos-francesas parafusadas no gradil e quatro sacos de areia que a gente pegou emprestado da
companhia de dança do andar de cima e nunca devolveu. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 89 O Renan chegou ao
meio-dia e não subiu no palco. Ele nunca sobe. Dirige de pé, na quarta fila, com um caderno de capa dura apoiado no
encosto da poltrona da frente, e escreve com lapiseira, apagando com aquela borrachinha da ponta, que é um jeito de
quem já foi outra coisa antes de ser diretor. Não dá nota em voz alta. Ele desce, atravessa, chega perto do ator, fala
quatro ou cinco palavras e volta para a quarta fila, e a gente da coxia fica sem saber nunca o que foi dito, o que é uma
decência que eu levei uns anos para reconhecer como decência. Comigo ele fala de longe, porque cenógrafa não é ator.
— Júlia. A cinco está acendendo antes. — Meio segundo antes. É o Zuza. — Antes da mão. — Eu peço para ele corrigir.
Ele ficou olhando para a porta cinco o tempo de a Bel atravessar o palco duas vezes. — Deixa. — Está adiantada. — Está
adiantada. Deixa. E foi só isso. Anotou alguma coisa no caderno e chamou a Fabiana para falar de bilheteria, e o meio
segundo errado da porta cinco ficou. Na quarta-feira a gente fez o ensaio geral com luz, som e figurino, das duas da
tarde às sete da noite, com uma parada de vinte minutos porque a Sandra passou mal de comer pastel do saguão. O
cenário funcionou. Não é uma frase bonita, mas é a frase exata: as nove abriram, as nove fecharam, nenhuma
emperrou, nenhuma bateu fora do tempo, e quando a Bel veio correndo do fundo, no fim do segundo ato, e jogou o
corpo na porta sete, a sete cedeu na primeira tentativa e fechou atrás dela com um clique de casa de gente. H E L E N A
V A L E N Ç A 90 A sete é a que inchou em junho. A sete é a que o Nivaldo lixou e selou por conta própria depois de
perder a discussão comigo. Hoje ela fecha melhor que as outras oito e nenhum de nós dois nunca disse uma palavra
sobre isso. Minha mãe ligou à uma da tarde, no intervalo do pastel. — É amanhã? — Amanhã, oito e meia. — Oito e
meia da noite. — Oito e meia da noite, mãe. — Aí eu já jantei. — Você pode jantar antes. — Eu não desço à noite, filha.
Não é isso. É que depois eu não durmo. — Eu chamo um carro. — Carro para quê. — Ela mexeu em alguma coisa de
metal do outro lado da linha. — Tem domingo? — Tem domingo. — Então eu vejo o domingo. Ela não viu o domingo.
Não é reclamação, é informação: minha mãe assistiu três peças minhas em onze anos e das três só falou do preço do
estacionamento. Ficamos mais um pouco na torneira dela, que continua pingando, e no homem que quer cento e vinte
só para olhar, e quando eu já estava com o dedo no botão vermelho ela perguntou. — E o Elias, vai? — Vai tentar. — Ele
gosta. — Ele gosta. Isso é verdade, aliás. Ele gostava. Ele senta na terceira fila, do corredor, e nas duas horas seguintes
não mexe uma vez no telefone, e sai de lá com uma pergunta técnica sobre alguma coisa que eu nem D O Z E S E M A N
A S DE S I L Ê N C I O 91 tinha percebido que era uma decisão. Uma vez ele quis saber por que uma cadeira estava virada
para a parede. Eu não sabia. Passei três dias pensando por que aquela cadeira estava virada para a parede. Minha mãe
não perguntou de novo. Nunca pergunta. Desliguei e fui até a bilheteria, que é uma janelinha ao lado da porta do
saguão com um vidro que não fecha inteiro, e na lista de cortesias da estreia estava escrito, com a minha letra, do meu
próprio punho, na segunda-feira: SANCHES, 2. Eu tinha escrito dois sem pensar em nada. É o número que eu escrevo
nessa lista desde que existe essa lista. Fiquei ali com a caneta na mão o tempo de a Fabiana atender um telefonema
inteiro sobre nota fiscal. Depois eu botei a caneta no bolso e voltei para o palco sem mudar o número, porque riscar um
algarismo e escrever outro na frente de uma moça de bilheteria é uma coisa que eu não ia conseguir fazer com a mão
firme. Quinta-feira, dia três de julho, eu cheguei ao teatro às três da tarde, cinco horas e meia antes de precisar. Um
teatro vazio de tarde faz barulho de geladeira. É o arcondicionado, é um refletor que estala quando esquenta, é a Cida
arrastando a mesa de contrarregra para a marca dela na coxia direita. A mesa da Cida é forrada de fita silver preta e tem
o contorno de cada objeto desenhado a giz branco, com o nome escrito dentro do contorno: BULE. CHAVE. CARTA 1.
CARTA 2. GUARDACHUVA. Ela confere aquilo três vezes por sessão e conferiu quatro naquele dia. Perguntei se ela
queria café. Ela disse que café dá vontade de ir ao banheiro na hora errada. Passei a tarde fazendo coisa que não
precisava. Lixei uma rebarba na base da porta dois. Apertei os quatro parafusos da mão-francesa que eu já tinha
apertado na terça. Passei flanela nas nove maçanetas, uma por uma, de cima para baixo, e o latão devolve a cara da
gente