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O texto descreve um processo detalhado de conserto de uma porta, incluindo ajustes na mola e na lingueta, além de reflexões sobre o trabalho e a passagem do tempo. O protagonista lida com ferramentas e técnicas específicas, enquanto observa a chuva e suas consequências na cidade. O relato é intercalado com momentos de introspecção e interações cotidianas.

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O texto descreve um processo detalhado de conserto de uma porta, incluindo ajustes na mola e na lingueta, além de reflexões sobre o trabalho e a passagem do tempo. O protagonista lida com ferramentas e técnicas específicas, enquanto observa a chuva e suas consequências na cidade. O relato é intercalado com momentos de introspecção e interações cotidianas.

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centímetros e mudou o ângulo do puxão: em vez de trazer a folha e segurar no fim, ela larga a folha em cima do

batente. O resto é embaixo. Ele se agacha e passa o dedo na bucha da dobradiça de baixo. O pino cavou uma cova no
fundo e a folha desceu — três, quatro milímetros. Com isso o chanfro da lingueta não entra no furo da testa: bate no
lábio de cima, a folha volta uns três dedos, e a mola, mesmo torta, ainda tem sobra para trazer de novo. Aí entra. É essa
a segunda batida. A minuteria do hall acende num botão laranja ao lado da caixa de correio. Ele não aperta. A luz do hall
lava a calçada inteira e põe qualquer um que esteja ali de costas para sete andares de janela. O poste da esquina chega
até a metade da grade. O letreiro verde da farmácia, do outro lado, chega ao resto. Ele abre a caixa e põe as
ferramentas na sacola aberta, no chão, em fila: alicate de bordão, cunha de borracha, a tira de feltro, o saquinho de
rodelas de couro e papelão que ele usa para acertar altura de tecla, a flanela, a chave de afinação. A mola primeiro. Ele
calça a folha aberta com a cunha e desenrola o arame com o alicate de bordão. As garras do alicate são de morder cobre
macio de bordão; no aço da mola elas marcam na primeira mordida, e a marca é para sempre. Ele desmancha a
emenda, encaixa o alicate na última espira inteira e força até formar um gancho novo. A mola sai do olhal antes da hora.
A ponta arrebentada passa pela palma da mão direita, na base do indicador e do médio, e abre. Ele fica olhando a mão
um tempo. Depois enrola a flanela duas voltas e prende a ponta por baixo, aperta o punho e continua com a esquerda
por baixo e a direita só de apoio. Com o gancho novo a mola encurta na medida certa e o ângulo do puxão muda: ela
para de largar e passa a segurar. Ele testa três vezes com a mão. A folha vem inteira e encosta. H E L E N A V A L E N Ç A
100 Falta levantar a folha. O que se faz é tirar o pino, colocar arruela e recolocar — e o pino é soldado. Então ele põe a
cunha de borracha deitada rente ao batente, enfia a haste da chave de afinação por baixo da barra inferior e usa a
cunha de calço. A chave de afinação é uma haste com uma estrela de oito pontas na cabeça e é ajustada à mão dele há
onze anos; ela não é alavanca de nada. Ele sente o metal ceder de leve quando a folha sobe. Uma haste com vício não
mede torque, mente. Ele sabe disso enquanto está fazendo. A folha sobe quatro milímetros. Ele segura assim com o
ombro, enfia a esquerda no vão da bucha e vai empilhando rodelas sobre o pino, couro, papelão, couro, papelão. A
cunha escapa. A folha desce nos dedos da mão esquerda, médio e anelar, contra a soleira. Ele tira a mão. Abre e fecha.
As duas unhas já estão mudando de cor debaixo do poste. Ele recoloca a cunha e termina a pilha com a mesma mão.
Grafite na lingueta: ele passa o lápis 6B no chanfro e na garganta da fechadura até a ponta ficar chata, e ainda alarga o
furo da testa com a lima de unha que carrega para feltro — lima de unha em aço não lima, só pule. Serve para tirar a
rebarba do lábio, que é o que estava pegando. Por último a tira de feltro. Ele corta um pedaço de quarenta centímetros
do rolo de afinação e encaixa no canal do batente, na altura em que a folha encosta, empurrando com a haste da chave.
Feltro em portão de rua, no inverno daqui, encharca e apodrece. Ele calcula que dura até setembro. Depois disso
alguém vai ter que ver. Amarra um pedaço de linha encerada na cunha, cala a folha aberta, desenrola a linha até o
terceiro banco, senta e puxa. A folha vem. Não estala. Encosta, a lingueta entra de primeira e o barulho que fica é um
clique de fechadura. Ele faz isso mais quatro vezes. Na terceira, ao passar a mão por dentro da grade para recolocar a
cunha, raspa os nós da esquerda no D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 101 ferro do batente e tira a pele. Na quinta,
senta no banco e fica ali até uma moça de bicicleta entrar no prédio, às duas e vinte, sem olhar para trás nenhuma vez.
Recolhe as ferramentas. A flanela está encharcada e ele a enfia no bolso do casaco, não na caixa. Às três e dez, na pia do
banheiro do Otávio, a água sai vermelha um tempo. Ele lava, aperta com papel, prende com esparadrapo em duas tiras
cruzadas e deixa a mão esquerda de fora do cobertor. De manhã o Otávio para com a caneca na mão. — O que foi isso?
— Um portão. — Portão de quem? Elias vira a torneira e enche o copo. O caderno de agenda está aberto no peitoril. Ele
passa para a semana, olha a linha do sábado dia cinco, que está em branco desde junho, e destampa a caneta. Fica com
a ponta parada em cima da linha o tempo de a televisão da sala ligar e abaixar. Depois tampa a caneta e fecha o
caderno. Abre e fecha a mão direita duas vezes, do jeito que se testa uma peça depois da cola. A mão fecha. 102
Capítulo 13 Eu saí de casa com dois guarda-chuvas e uma explicação pronta para o segundo. A explicação era técnica e
era verdadeira: o meu tem uma vareta quebrada desde maio e vira do avesso com qualquer coisa. O outro é o grande,
preto, de cabo de madeira, comprado numa banca da Marechal num dia de chuva de 2019 e usado pelos dois durante
seis anos com aquela naturalidade das coisas que não têm dono. Estava no apartamento porque foi ali que ele ficou por
último. Eu enfiei os dois debaixo do braço às nove e vinte da manhã já com a explicação montada, e ninguém monta
explicação para si mesma. Choveu a semana inteira e no sábado a chuva mudou de categoria. A garoa de junho não cai,
fica. A chuva de julho tem hora, direção e barulho: vem em faixas, atravessa a rua na diagonal e a gente ouve ela chegar
no telhado do vizinho antes de sentir no rosto. Às nove e meia a sarjeta da Alferes Poli já era um rio pequeno com folha
de ligustro navegando, e o bueiro da esquina soltava aquele ronco de garganta que bueiro solta quando desiste. São
quinze minutos a pé. Eu cheguei molhada da canela para baixo, que é como a chuva forte molha a pessoa: de baixo para
cima, pela calçada, contra a vontade dela. Vi o banco de longe e entendi a manhã inteira de uma vez. Concreto pintado
não bebe. Foi isso que a repintura fez com aquele banco: em vez de escurecer e absorver, ele agora segura a água em
cima, numa lâmina fina e inteira, com o desenho das gotas caindo dentro dela e sumindo. O assento tem um caimento
errado de

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