Está — ele disse. — Pela conta, está. — Mas você não faria. — Eu não faço a conta dela.
— Isso não é resposta. — É a
resposta que eu tenho. — Ele juntou as mãos de novo. — Eu falei o preço do bloco. Falei quanto tempo segura sem
trocar. Falei o que acontece se ela não fizer nada. Aí ela decide. — E se ela decidir errado? — Aí ela decidiu. — E você vai
lá tirar o piano da casa dela? — Eu não tiro piano. Tem gente que tira. — Mas você vai estar lá. — Se ela me chamar, eu
vou. — Para quê? — Para dizer o que tem dentro do que ela está vendendo. — Ele empurrou a manga para trás com o
pulso. — A pessoa que compra pergunta. Aí eu falo o que eu vi. A gente estava falando de um piano de armário de uma
mulher do Portão que eu nunca vi na minha vida. Eu quero deixar isso registrado com todas as letras, porque naquele
momento a coisa mais verdadeira que existia naquela praça era um bloco de cravelhos ressecado, e nós dois estávamos
sentados de queixo levantado olhando para a copa da araucária como dois idiotas que acabaram de ganhar uma
discussão que ninguém teve. Tinha um fio branco no ombro dele. Do casaco do Otávio, na altura da costura, uns quatro
centímetros, desses de máquina de lavar. Eu levantei a mão. Cheguei a levantar — uns vinte centímetros, o suficiente
para o meu punho sair de cima do meu joelho. E parei, e desci a mão, e apoiei ela outra vez no mesmo lugar. — Tem um
fio no seu ombro. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 85 Ele deu um tapinha no ombro esquerdo. — No outro. Ele
deu no direito, pegou o fio entre dois dedos, olhou, e ficou com ele na mão. Depois enrolou no indicador e botou no
bolso da calça. No da calça, que é dele. Dez para as onze. O homem da banca saiu com a chave do cadeado presa num
pedaço de barbante e ficou parado na calçada olhando o céu, que era o mesmo céu desde segunda-feira, antes de
começar a fechar. — Está frio para esse casaco — eu falei. Foi assim que eu entrei. Não foi bonito. Ele olhou para a
manga, como se estivesse conferindo uma informação que eu tinha trazido de fora. — Está indo. — É do Otávio. — É. —
Ele é maior que você. — Ele diz que é o contrário. Eu ri. Aí eu falei, e falei rápido, do jeito que se fala uma frase que a
pessoa vem construindo desde a quinta-feira e que ficou mole de tanto ser construída: — Eu trago o seu sábado que
vem. O de lã. Está no gancho da cozinha. Ele não respondeu na hora. Ele fez uma coisa com a boca que eu conheço de
sete anos e que não quer dizer nada: é a cara dele de estar lendo alguma coisa duas vezes. Depois desencostou as
costas do banco e ficou olhando para o portão do prédio do primeiro ano, do outro lado da rua, onde não estava
acontecendo absolutamente nada. — Fica com ele — ele disse. — Aquele apartamento é frio de manhã. H E L E N A V A
L E N Ç A 86 E foi só isso. Eu esperei o resto. Não veio resto. Ele bateu duas vezes com a palma no joelho, do jeito de
quem está encerrando, levantou, procurou o cursor de baixo do zíper com a mão errada de novo, achou na segunda, e
ficou em pé na minha frente com as mangas do irmão dele cobrindo metade das mãos. — Sábado. — Sábado. Foi
embora pela Comendador com as mãos nos bolsos da calça, que é onde elas cabiam, e a esquina levou ele em três
passos. O 22 encostou às onze em ponto. Eu sentei do lado esquerdo, que é o lado da praça, e não olhei para a praça.
Uma frase de nove palavras. Eu trabalho com texto o suficiente para saber que nove palavras dão para muita coisa, e
passei da praça até a Sete de Setembro abrindo aquilo como quem abre uma caixa de ferramentas. Do primeiro jeito, é
assim: fica com ele. O casaco agora é seu. É uma coisa a menos dele naquela casa, e a devolução é justamente o que ele
não quer, porque devolver obriga a receber, e receber obriga a ter onde pôr. Um homem que planeja voltar em
setembro não passa três meses de inverno com o casaco do irmão para não subir quatro andares. E aquele
apartamento. Não lá em casa. Não o nosso. Aquele — que é a palavra que a pessoa usa para um endereço onde ela já
não guarda nada, e que ele escolheu com o mesmo cuidado com que escolhe uma peça de reposição. Do segundo jeito,
é assim: ele sabe que eu acordo antes das seis e que eu tomo o primeiro café em pé na cozinha, que é o cômodo mais
frio da casa, e sabe que o casaco de lã é o mais quente que existe naquele apartamento, e o deixou pendurado a dois
passos de onde eu ia estar às seis da manhã, e não vai buscá-lo, e prefere passar o inverno inteiro dentro de uma coisa
que não é dele. E disse aquele D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 87 apartamento porque um homem que dorme na
cama de solteiro do irmão pode achar que perdeu o direito de dizer o nosso, e que dizer o nosso naquele banco seria
cobrar uma coisa que ele mesmo assinou que não ia cobrar. Duas leituras, as duas inteiras, as duas de pé. Eu fiquei com
uma. Não pesei, não conferi, não voltei atrás — peguei a que estava mais perto, do mesmo jeito que eu tinha pegado a
folha de jornal mais perto no primeiro sábado, e depois passei quatro semanas sentada nel