identificar, e depois o caminhão dobrou a esquina e levou a música junto.
— Eu fui numa casa na Vila Izabel quinta-feira
— ele disse. — Piano bom? — Piano fechado há quinze anos. — Quinze. — A dona Marlene contou os quinze anos para
mim antes de eu tirar o casaco. — Ela toca? — Ela não toca. Tocava a irmã dela. — E a irmã? — Morreu em 2010. Eu não
disse nada, e ele também não fez nada com aquilo, e o vento deu uma rajada e o pedaço de jornal preso no ligustro
bateu quatro ou cinco vezes seguidas, um barulho de aplauso ruim. — E ela quer o piano afinado por quê? — eu
perguntei. — Por causa de uma foto. Eu virei a cabeça. — Foto. — Vem um fotógrafo no domingo. Setenta anos dela.
Vão fazer retrato de família na sala. — E o piano aparece na foto. — Aparece. — Elias. — O quê. — Piano desafinado
aparece na foto? — Segundo ela, aparece. — E você falou o quê? — Eu falei que não aparece. — E ela? — Ela disse que
aparece. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 55 — E você? — Eu afinei. Eu ri de um jeito que me obrigou a segurar na
beirada do banco, e o frio da pedra subiu pela palma da mão, e o vento escolheu aquele momento exato para virar e
jogar cabelo na minha boca, e eu tirei com as duas mãos e continuei rindo. — Quatro horas — ele disse. — Duas cordas
arrebentaram. Quinze anos parado, corda velha, é o que acontece. Tive que voltar sexta de manhã para assentar. —
Você cobrou? — Cobrei a hora e cobrei a corda. — E domingo eles tiram a foto. — Domingo eles tiram a foto e fecham a
tampa. — E na segunda o piano está lá. — Na segunda o piano está lá, afinado, com a tampa fechada, e ninguém
encosta nele até a próxima foto. Ele disse isso sem nenhuma intenção. Eu quero registrar que ele disse aquilo sem
nenhuma intenção, porque eu conheço a cara dele quando tem intenção, e não tinha. Ele estava falando de um piano
na Vila Izabel. Ficamos os dois olhando a araucária. — Dez e meia — eu disse, sem olhar as horas, porque a sombra da
araucária tinha chegado no braço esquerdo do banco. — Deve. E aí eu tive que me mexer, porque a sombra chegou em
mim antes de chegar nele, e sombra de inverno em cima de perna parada é uma coisa que não se discute. Eu me
arrastei um palmo para a direita. Não falei nada e ele não falou nada, e nos vinte minutos seguintes a sombra andou o
passo dela, que é o passo mais lento que existe, e ele se arrastou um palmo também, e depois eu de novo, e quando o
homem da banca saiu para molhar o pé da árvore com o H E L E N A V A L E N Ç A 56 resto de uma garrafa de água nós
dois estávamos sentados no último pedaço de sol do terceiro banco a contar da banca, e entre a minha manga e a
manga dele cabia uma mão aberta. Ninguém tinha decidido isso. A sombra decidiu. — Do meu lado o dia todo bate sol
— ele disse. — No quarto. — Bate sol. — De manhã. Depois some. — E o Otávio? — O Otávio comprou uma máquina de
fazer pão. — Não. — Comprou. Faz pão de noite. O prédio inteiro sabe a que horas ele faz pão. — E é bom? — É pão.
Uma rajada levantou poeira do canteiro e nós dois viramos a cara para o mesmo lado ao mesmo tempo, e eu aproveitei
o movimento para dizer uma coisa que eu vinha empurrando desde as dez e meia. — A torneira da minha mãe está
pingando. Ele não respondeu na hora. — Pingando como? — Ela falou que é de um jeito novo. Não sei o que é um jeito
novo de pingar. — É diferente de antes. — Deve ser isso. — É da cozinha? — Da cozinha. Aquela de parede, com o bico
comprido. — É o courinho — ele disse. — Ou é a sede. Se for o courinho é dois reais. Se for a sede, tem que fresar. —
Veio um homem olhar. — E aí? — Cobrou cento e vinte para olhar. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 57 Ele fez um
som pelo nariz, uma vez. — Cento e vinte para olhar. — Cento e vinte para olhar. Ela pagou e mandou embora. — Claro
que pagou. E aí ficou uma coisa em cima do banco que nenhum dos dois pegou. Estava tudo ali, montado, sem que
ninguém precisasse dizer: a chave de grifo dele, o domingo de manhã, a minha mãe fazendo café forte demais e ficando
em pé do lado da pia enquanto ele trabalhava, sem falar com ele e sem sair de perto. Isso aconteceu umas nove ou dez
vezes em sete anos. Ele olhou para as próprias mãos e virou uma, e depois a outra, como quem confere se estão limpas.
— Courinho é dois reais — ele disse de novo. — É o que eu vou falar para ela. O portão do prédio do outro lado bateu.
Bateu do jeito que sempre bateu, e eu não virei a cabeça, e não porque tenha me segurado: eu simplesmente não virei,
e reparei nisso, e reparar nisso foi uma novidade. — Continua — eu disse. — Continua. — Aquilo é de antes da gente. —
É de antes da gente. — A mola é do tamanho do meu braço. O síndico dizia todo mês que ia trocar. — Não troca. — Não
troca. Um dia alguém arruma. — Alguém arruma — ele disse. Uma senhora atravessou a praça com dois sacos de pão e
um guarda-chuva fechado, num dia de sol, e nós dois acompanhamos o guarda-chuva com os olhos até ela sumir, e
ninguém precisou explicar para o outro que estava acompanhando o guarda-chuva