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O texto narra uma conversa entre duas pessoas que se encontram em uma praça, onde um homem menciona um aquecedor e um piano, enquanto a mulher reflete sobre suas interações passadas e a dinâmica de seu relacionamento. Ela descreve detalhes sobre sua rotina e a mudança em sua vida após a separação, revelando sua solidão e os pequenos momentos que a marcam. A narrativa é marcada por uma introspecção sobre memórias e a percepção do espaço que ocupavam juntos.

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O texto narra uma conversa entre duas pessoas que se encontram em uma praça, onde um homem menciona um aquecedor e um piano, enquanto a mulher reflete sobre suas interações passadas e a dinâmica de seu relacionamento. Ela descreve detalhes sobre sua rotina e a mudança em sua vida após a separação, revelando sua solidão e os pequenos momentos que a marcam. A narrativa é marcada por uma introspecção sobre memórias e a percepção do espaço que ocupavam juntos.

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e embaixo da pia tinha uma bacia — aquela mesma bacia azul de plástico que eu botei ali na terça de manhã,

com o
fundo molhado e mais nada dentro. Eu tinha deixado com três dedos de água. Estava vazia, e estava virada com o cabo
para a frente, para quem abre o armário puxar sem precisar enfiar a mão. E não era só isso que eu queria perguntar. Eu
queria perguntar se ele tinha olhado a junta, se era da porca ou da borracha, se dava para apertar com a mão ou se ia
ter que trocar o sifão inteiro, porque essas são perguntas de encanamento e eu tenho todo o direito de fazer uma
pergunta de encanamento para qualquer pessoa deste país. Só que a resposta não ia ser sobre encanamento. A
resposta ia ser: eu me abaixei na sua cozinha e olhei debaixo da sua pia. E aí a gente já não estava mais falando de sifão.
Então eu perguntei quanto tinha ficado o aquecedor, sabendo que ele já tinha dito, e ele repetiu duzentos e trinta com
a peça, e não olhou para mim de um jeito que eu tivesse que aguentar. Passaram uns minutos. Ele contou de um piano
que atendeu no ano passado com uma nota inteira sem som porque tinha um lápis caído dentro. Eu contei que a atriz
pediu para a maçaneta ser mais leve e eu disse que não. Ele perguntou por quê. Eu disse que maçaneta leve transforma
a porta em desenho, e ele fez que sim duas vezes e disse “tem que pesar”, e por dois segundos ali eu esqueci que a
gente estava sentado em duas folhas de jornal molhado, numa praça, por escrito. Eu quase contei do frango. Foi assim:
eu ia dizendo “o Otávio mandou uma foto de um” e travei no meio da palavra foto, com a boca já aberta, e emendei “de
um lugar lá”, e não terminei a frase, e ele não perguntou que lugar. A cláusula dois fala em recado por terceiro. Eu
escrevi aquilo pensando em amiga ligando para amiga, em sogra ligando para nora; D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I
O 31 não pensei em irmão mandando foto de assadeira às sete da noite. E mesmo assim eu travei, porque eu conheço a
minha própria redação e sei que ela não estava do meu lado. Ele olhou para a rua. Deixou passar. — O Otávio cozinha
mal — foi tudo o que ele disse. — Cozinha. — Ele acha que tempero é quantidade. — É. E foi só. Foi o mais perto que a
gente chegou, naquela primeira semana, de estar dentro da mesma frase. Às dez e cinquenta e sete o homem da banca
começou a recolher as revistas de palavra cruzada que ficam penduradas do lado de fora, que é o que ele faz para
fechar às onze, e foi tirando os pregadores um por um e guardando no bolso do avental. O Elias fechou o jornal e alisou
o vinco com dois dedos. — Então — ele disse. — Então. Levantou. A folha dupla que estava embaixo dele veio junto,
grudada na calça, e ele descolou com a mão, dobrou molhada em quatro e levou até a lixeira do canteiro, que fica a uns
cinco passos. Voltou. Não voltou para sentar: voltou porque a lixeira era do lado de cá e a Comendador é do lado de lá,
e ele tinha que passar na minha frente de qualquer jeito. — Sábado — ele disse. — Sábado. E foi embora na direção da
esquina, sem apressar o passo e sem olhar para trás, e sumiu atrás do prédio do primeiro ano. Eu fiquei sentada. Tirei a
minha folha de jornal, que estava em estado pior que a dele, e a tinta tinha passado para a barra do meu casaco de lã
em duas linhas de letra ao contrário, que eu só fui descobrir à noite e que não saiu na primeira lavagem. H E L E N A V A
L E N Ç A 32 O 22 encostou às onze em ponto. Aos sábados ele passa nessa praça às onze e às onze e vinte e quatro, e
depois do meio-dia enrola e não tem hora nenhuma, e isso eu sei do jeito que se sabe uma coisa que a gente fez todo
dia durante um ano da vida. Sentei do lado da janela, no meio do ônibus, e limpei um círculo no vidro embaçado com a
lateral da mão. Ele levantou às dez e cinquenta e sete. Eu fiz a conta ali, com o dedo ainda no vidro. Três minutos é o
tempo de atravessar a praça e virar a esquina sem correr. Três minutos é o tempo exato de não estar mais na praça
quando o meu ônibus encostar — nem em pé no ponto comigo, nem sentado no banco me vendo subir, nem do outro
lado da rua fingindo ler uma Gazeta que ele não leu nenhuma vez. Ele sabia o horário do meu ônibus de sábado. Eu, que
morei sete anos com aquele homem, não saberia dizer de cabeça a que horas ele almoça. 33 Capítulo 5 Domingo eu
acordei às onze e vinte com o pé esquerdo para fora da cama, do lado errado. Levei um tempo para montar a
informação. A janela estava onde sempre esteve, a mancha do teto estava onde sempre esteve, e quem tinha mudado
de posição no mundo era eu: cabeça no canto do colchão encostado na parede, corpo na diagonal, os pés apontados
para o pé da cama do lado dele. Uma perna inteira de fora. O travesseiro no chão, virado de barriga para baixo. O
edredom torcido feito corda, todo em cima de mim, nenhum centímetro sobrando para ninguém. Eu durmo mal. Não é
queixa, é ficha: tem um vidro de gotas na terceira gaveta do criado-mudo que um clínico da Nossa Senhora da Luz me
receitou em 2021 e que eu tomo sempre pela metade da dose, porque a dose inteira me deixa com a boca de papel até
as duas da tarde. Eu acordo três vezes por noite. Uma das três é sempre entre quatro e quatro e meia, e eu já cheguei a
achar que era barulho de caminhão de lixo, e não é, porque nas semanas em que o caminhão não passa eu acordo do
mesmo jeito. Naquele domingo eu dormi das duas e meia às onze e vinte sem acordar nenhuma vez. A cama é de um
metro e trinta e oito. Eu sei porque fui eu quem mediu o vão da parede em 2018, com a trena, antes de comprar, e
porque foi a única coisa daquele apartamento que a gente escolheu junto numa tarde só, sem discutir e sem pesquisar.
Um metro e trinta e oito dividido por dois dá sessenta e nove centímetros. Eu

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