olhando para a rua o tempo de o ônibus da linha 22 parar, abrir, fechar e sair.
Eu tinha três respostas prontas para “e se
eu não quiser”. Tinha uma para “isso é chantagem” e duas para “você já decidiu tudo sozinha, como sempre”. Passei a
semana inteira montando aquilo como se monta uma marcação de palco: onde cada frase entra, de que lado, com
quanto de luz. Não usei nenhuma. Fiquei com aquele material todo na mão, sem cena para pôr dentro. O rapaz do
balcão gritou uma senha. Uma mulher com dois filhos passou empurrando a porta com o quadril, porque estava com as
duas mãos ocupadas, e o mais novo derrubou uma moeda que rolou até debaixo da nossa mesa. Elias se abaixou, pegou
a moeda e devolveu ao menino sem dizer nada, e o menino também não disse nada, e a mãe agradeceu por todo
mundo. — Doze é fechado? — ele perguntou. — Como assim. — Doze semanas. É um número fechado ou tem folga. —
É fechado. — Tudo bem. Foi a única coisa que ele negociou. Não perguntou por que doze, não perguntou o que
acontece na décima terceira, não perguntou se eu tinha falado com alguém, não perguntou se aquilo tinha nome.
Perguntou se o número era firme, do mesmo jeito que pergunta se o cliente quer 440 ou 442 hertz, e depois disse tudo
bem. — E o Otávio? — falei, porque o silêncio estava ficando comprido e eu precisava tirar alguma coisa de mim. — O
quarto dos fundos dele está vazio desde março. Eu não perguntei como ele sabia disso. Eu não perguntei como ele sabia
disso, e essa frase eu ia repetir muito para mim mesma nas semanas seguintes, sempre em pé, sempre na cozinha,
sempre com a porta da geladeira aberta. H E L E N A V A L E N Ç A 6 — Me empresta a caneta — ele disse. Estava na
mesa, entre nós, com a margarida de plástico virada para cima. Ele podia ter pegado. Empurrei a caneta na direção dele
com um dedo e ele levou mais tempo para desdobrar o guardanapo do que tinha levado para ler as quatro cláusulas.
Escreveu apoiado no mesmo cardápio plastificado, sem pedir, porque tinha visto de onde eu tinha tirado. Letra de
forma miúda, letra de quem preenche formulário de banco, cada letra dentro de um quadradinho invisível. Escreveu
devagar por causa do papel. A caneta furou numa vírgula e ele contornou o furo. 5. Continuamos casados. Nenhum dos
dois vai fazer, nestas doze semanas, nada que precise ser escondido do outro na décima terceira. Depois assinou. Elias
Bonfim, o nome inteiro, do jeito que ele assina cheque e nota fiscal, e embaixo a data: 07/06/2025. Girou o guardanapo
na minha direção e devolveu a caneta com a margarida virada para mim. Eu li a cláusula cinco duas vezes. Não foi de
propósito. Na primeira vez eu li as palavras e na segunda vez eu li a ordem delas: primeiro continuamos casados, que é
uma afirmação, e depois o resto, que é uma promessa que não pede nada em troca e por isso não dá para recusar. Se
ele tivesse escrito “nenhum dos dois vai se envolver com ninguém”, eu teria uma discussão. Ele escreveu “nada que
precise ser escondido”, que é uma frase de tamanho diferente e cobre coisas que eu ainda nem sabia que eu ia querer
fazer. — Isso é bem mais largo que as minhas — falei. — É. — Você tem alguma objeção às quatro? — Não. —
Nenhuma. — Nenhuma. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 7 Assinei. A caneta rasgou o papel na perna do J e eu
escrevi por cima do rasgo, então na minha assinatura tem um buraco no meio do nome. Escrevi só Júlia, porque a mão
estava com pressa de acabar aquilo, e depois achei que ficava desigual, ele com o nome inteiro e eu com metade, e
acrescentei Sanches num tamanho menor, espremido, encostado na borda. Ficamos os dois olhando para o
guardanapo. — Levo as coisas antes ou depois do jantar? — ele perguntou. Eu tinha tirado a carne do congelador às
sete da manhã. Por hábito. Tinha descido, comprado pão, subido, posto a carne na pia e vindo para cá com o contrato
na cabeça, e em nenhum momento das quatro últimas horas ocorreu a mim que eu tinha organizado o dia de modo que
ainda houvesse um jantar. — Tanto faz — falei. — Não tanto faz. Se for antes, eu levo o carro do Otávio e faço uma
viagem só. Se for depois, ele vai estar no futebol e eu levo o que couber a pé. — Depois. — Depois, então. Ele fez que
sim duas vezes, uma para mim e uma para ele. Depois pegou o guardanapo, dobrou ao meio, dobrou de novo, e
guardou no bolso de dentro do casaco, o bolso onde ele guarda os recibos, e alisou o tecido por cima com dois dedos
para ver se tinha ficado plano. Eu ia dizer que o guardanapo era meu. Que a caneta era minha, que o papel era da casa,
que a ideia tinha quatro meses e vinha do meu chuveiro. Fiquei com a boca em posição de dizer isso e não disse. Quem
escreve um contrato numa mesa de padaria não pensa em quem vai ficar com a via. Ele levantou a mão para a Vanda e
fez aquele gesto de assinar no ar, que é o gesto que eu mais detesto no mundo e que naquela manhã H E L E N A V A L E
N Ç A 8 me pareceu apenas uma pessoa pedindo a conta. Pagou. Ele sempre paga com o dinheiro contado e vai
empilhando as moedas em ordem de tamanho enquanto conta, e eu sempre olho. Doze reais e sessenta. Sobrou uma
moeda de dez centavos que ele empurrou para debaixo do pires. Na calçada o sol batia de frente e não fazia nada. Uma
mulher passou com um cachorro de casaquinho xadrez. O 22 estava parado no ponto, com o motor ligado, soltando
aquele bafo de diesel que embaça o ar frio. — Terça eu venho por causa do técnico — ele disse. — Depois disso, é como
está aí. — É como está aí. — Você vai para o ateliê? — Vou. — Você vai a pé? — Vou. — Está bom — ele disse. E ficou
parado. Eu é que fui primeiro. Atravessei antes do sinal, o que ele odeia e nunca falou que odeia, e andei duas quadras
sem olhar para trás, com a mão fechada dentro do bolso, apertando uma coisa que não estava lá, porque a caneta tinha
ficado na mesa e o guardanapo tinha ido no casaco dele. Foi na esquina da Amintas de Barros que a conta se fez sozinha
na minha cabeça, do jeito que eu calculo metragem de tecido: doze semanas dão oitenta e quatro dias. Oitenta e quatro
dias em que eu tinha escrito de próprio punho que não haveria mensagem, nem ligação, nem e-mail, nem recado pela
minha mãe. Doze encontros de sessenta minutos num banco de concreto em que era proibido falar de casamento, de
contrato, de terapia, de futuro e de decisão. Eu tinha desenhado aquilo com um