Ana passou a noite em claro.
Não porque queria, mas porque não conseguia parar de pensar em tudo que havia
acontecido. Ela não tinha feito nada. Não tinha traído ninguém. Mas estava sendo acusada de um crime que não
cometeu. E se havia uma coisa que Ana Motta não ia aceitar, era ser tratada como culpada sem lutar pela verdade. Na
manhã seguinte, pegou o telefone e ligou para Bete. — Bete, preciso da sua ajuda. A voz da recepcionista veio do outro
lado da linha, mais preocupada do que hesitante. — Eu sabia que algo estava errado. Vi a forma como você saiu da
empresa ontem. O que está acontecendo? 109 Ana engoliu em seco, sentindo o peso da incerteza no peito. — Eu fui
demitida, Bete. Me acusaram de vender informações do projeto para a TechHaus. Mas eu não fiz isso. Do outro lado da
linha, o silêncio foi carregado. Então, finalmente, Bete respondeu: — Diga o que precisa que eu faça. Ana sentiu um
alívio momentâneo. Se havia alguém em quem podia confiar ali dentro, era Bete. Com a ajuda da recepcionista, Ana
conseguiu acesso a alguns documentos internos que mostravam os registros de negociação com a TechHaus. Ela
espalhou os papéis sobre a mesa da cafeteria em que estava e começou a analisar cada detalhe. E, então, as
incongruências começaram a aparecer. Havia datas que não batiam. 110 Reuniões que teoricamente haviam acontecido
em horários que Tomás não estava disponível. E-mails enviados em seu nome que ela nunca redigiu. Havia algo errado.
Muito errado. Mas ela ainda não conseguia conectar os pontos. Então, decidiu ir mais fundo. Ana passou horas
pesquisando tudo o que podia sobre a Trindade Engenharia. Os sócios. As parcerias. As movimentações financeiras. E
então, encontrou algo que a fez gelar. A Norten Engenharia sempre esteve próxima da Trindade. Muito mais próxima do
que deveria. 111 A pressão para que a Trindade se unisse à Norten não era recente. Já fazia anos que Miguel tentava
convencer Tomás de que juntos seriam mais fortes. E, de alguma forma, essa tentativa nunca cessava. Agora, Ana via
tudo com novos olhos. Não era apenas sobre um contrato rompido. Era um jogo bem maior. E a TechHaus desistir tinha
beneficiado apenas uma pessoa. Miguel Norten. Ana ainda não tinha provas concretas. Mas então, uma memória
atravessou sua mente. No dia em que a TechHaus cancelou o contrato, quem estava lá? Cecília. 112 No mesmo prédio.
Na mesma hora. Isso poderia ser coincidência? Poderia. Mas Ana não acreditava em coincidências. Não quando Cecília e
Miguel estavam sempre um passo à frente. Eles estavam planejando isso há muito tempo. E agora, ela precisava
descobrir o quanto eles estavam envolvidos. Ana não hesitou. Ela foi até a Norten Engenharia. Entrou na recepção sem
marcar horário, passou pelos seguranças e foi direto ao andar onde Cecília trabalhava. Quando a viu, Cecília ergueu os
olhos lentamente, sem demonstrar nenhuma surpresa. — Ana Motta. — Ela cruzou os braços. — O que devo à honra?
113 Ana respirou fundo, mantendo a voz firme. — O que você fez? Cecília sorriu, o tipo de sorriso de quem já venceu
antes mesmo da batalha começar. — Fiz o que era necessário. Ana se recusou a se abalar. — Você armou tudo isso, não
foi? Você e Miguel queriam destruir a parceria com a TechHaus para que Tomás não tivesse outra escolha além de
vender a Trindade para vocês. Cecília apoiou o cotovelo na mesa e estudou Ana por um longo momento. Então, sorriu
ainda mais. — Você é esperta. Mais esperta do que eu imaginava. Mas ainda não o suficiente. Ana apertou os punhos.
114 — Você não quer o bem de Tomás. Se quisesse, não tentaria destruir o que ele construiu. Cecília levantou-se
lentamente, aproximando-se de Ana com um olhar frio e calculista. — E você acha que pode protegê-lo? Que pode
salvar a empresa dele? O que você é, Ana? Apenas uma estagiária. Um nome que ninguém vai lembrar daqui a algumas
semanas. Ana sentiu o sangue ferver. — A diferença entre nós duas, Cecília, é que eu me importo com ele. O olhar da
outra mulher mudou por um instante. Mas então, o sorriso voltou. — Então você está atrasada. Ana franziu a testa. — O
que quer dizer? Cecília pegou um papel da mesa e o empurrou na direção dela. 115 — Tomás assina o contrato com
Miguel amanhã à tarde. O mundo de Ana parou. Se isso acontecesse, seria o fim da Trindade Engenharia. E Tomás não
sabia. Ele não fazia ideia de que estava caindo em uma armadilha. Ana pegou o papel, olhou para Cecília uma última vez
e saiu dali com um único objetivo. Impedir essa assinatura. No dia seguinte, o ambiente na Trindade Engenharia estava
carregado. A reunião estava prestes a acontecer. A sala estava cheia de executivos, advogados, e Miguel Norten sentado
na cabeceira da mesa. Tomás entrou com a expressão fechada, mas decidido. Ele iria assinar. Mas então, a porta se
abriu bruscamente. 116 E Ana entrou. Afobada, ofegante, com os olhos carregados de algo que ninguém conseguiu
ignorar. — Tomás, não assine isso. O silêncio na sala foi ensurdecedor. Todos os olhares se voltaram para ela. Miguel
arqueou uma sobrancelha, como se já soubesse que isso aconteceria. Tomás se virou lentamente, surpreso, mas sério.
— O que você está fazendo aqui? Ana engoliu em seco. Mas não recuou. — Eu posso explicar. E, naquele instante, sabia
que essa era sua última chance. 117 Se falhasse agora, Tomás perderia tudo. E ela perderia muito mais do que apenas
um emprego