Os olhares na sala de reuniões estavam fixos nela. Ana não deveria estar ali.
A segurança já estava se movimentando
para retirá-la, mas havia algo em sua postura, algo na urgência da sua voz, que fez todos hesitarem por um segundo. E
esse segundo foi tudo o que ela precisava. — Eu tenho provas. — Ela anunciou, respirando fundo, tentando manter a
calma. — Se você assinar esse contrato, Tomás, estará jogando sua empresa nas mãos da pessoa que sempre quis tomá-
la de você. Ele franziu a testa. — Do que você está falando? Ela ignorou os olhares, as vozes murmurando ao redor.
Caminhou direto até o computador da sala, puxou um pendrive do bolso e conectou à tela principal. Os seguranças
hesitaram. Os gestores também. Mas ninguém a impediu. 119 Porque queriam saber. Porque, no fundo, sabiam que
algo estava errado. Quando os slides apareceram na tela, Ana manteve a voz firme. — Esses documentos foram
alterados. A TechHaus nunca desistiu do contrato por problemas internos. Ela clicou, e na tela apareceu a prova de que
os e-mails haviam sido manipulados. Os horários não batiam. As assinaturas tinham sido forjadas. As decisões haviam
sido coordenadas externamente. Ela virou-se para Tomás, segurando seu olhar. — Isso tudo foi um plano. Um silêncio
pesado caiu sobre a sala. Então, Miguel se levantou calmamente. 120 — Isso é ridículo. — Ele riu, mas havia algo
forçado no seu tom. — Você está há três meses aqui e acha que sabe como essa empresa funciona? Ana não recuou. —
Não sou eu que estou dizendo. São as provas. Os gestores se entreolharam. Tomás não disse nada. A expressão dele era
de alguém que queria duvidar, mas não conseguia ignorar o que estava vendo. E então, a porta se abriu novamente. E
Cecília entrou. A tensão subiu instantaneamente. Mas, para surpresa de todos, Cecília não foi até Miguel. Ela parou ao
lado de Ana. E então, virou-se para Tomás. 121 — Ela está dizendo a verdade. O choque foi instantâneo. — O quê? —
Miguel murmurou, incrédulo. Ela manteve o olhar fixo no irmão. — Foi você que planejou tudo. Você que montou os
documentos falsos. Ela respirou fundo antes de continuar. — Eu ajudei. Eu encabecei as acusações contra Ana. Mas
agora, vendo tudo isso… não posso continuar do seu lado. Miguel parecia não acreditar no que ouvia. — Você
enlouqueceu? Ela segurou a postura. — Não. Apenas me dei conta do que realmente importa. O silêncio na sala era
avassalador. 122 Tomás olhou para Miguel com um misto de descrença e raiva. Por um instante, ninguém se moveu. Até
que Tomás respirou fundo. E, com a voz firme, disse: — Eu não vou fazer nada com você, Miguel. Mas nunca mais quero
ver você na minha frente. Os olhos de Miguel escureceram. Mas ele sabia. Ele havia perdido. Sem dizer mais nada,
pegou seus pertences e saiu. Cecília hesitou, como se esperasse que Tomás dissesse algo a ela também. Mas ele nem a
olhou. E, com isso, ela também se foi. 123 Os gestores permaneceram em silêncio, ainda tentando processar tudo. E
então, lentamente, um a um, começaram a se virar para Ana. Porque ela tinha acabado de salvar a empresa. Tomás saiu
da sala apressado, sem olhar para ninguém. Ana foi atrás. Ela o encontrou em sua sala, de costas, olhando para a cidade
através da enorme janela de vidro. — Tomás… Ele não se virou. Por longos segundos, ele não disse nada. Então,
finalmente falou. — Você salvou minha empresa. A voz dele não era apenas grata. Era algo mais. 124 Ela engoliu em
seco. — Eu só fiz o que precisava ser feito. Ele se virou devagar. O olhar dele estava diferente. — Não. Você fez mais do
que isso. O silêncio entre os dois foi pesado, intenso. E então, ele continuou. — Eu me dediquei a essa empresa por
anos. Achei que minha vida era isso. Mas, então, você chegou. Ele deu um passo à frente. — E tudo mudou. Ana não
conseguia desviar o olhar. — Tomás… 125 Ele ergueu uma das mãos, afastando uma mecha solta do cabelo dela. — Eu
não quero que você seja apenas uma estagiária. O coração dela acelerou. — O que você quer, então? Ele sorriu de leve.
— A mulher da minha vida. Ana sentiu o ar faltar por um segundo. Ele estava falando sério. Ela viu isso nos olhos dele. E
então, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele a beijou. Foi intenso, carregado de tudo que ficou contido por
semanas. E naquele momento, não havia mais dúvidas. 126 Não sobre o que sentiam. Não sobre onde queriam estar.
Ana tinha encontrado seu lugar. E Tomás tinha encontrado nela tudo o que nunca soube que precisava. 127 EPÍLOGO –
O QUE FICA DEPOIS