Acordar atrasada no primeiro dia de um estágio importante definitivamente não era o que eu tinha planejado para
minha estreia na Trindade Engenharia. Na noite anterior, eu havia jurado que colocaria pelo menos três alarmes, mas,
no calor do momento — e na temperatura confortável da minha cama — , achei que um só bastaria. Não bastou. 7h45.
Levei um segundo para processar, outro para entrar em pânico e o terceiro para sair da cama como se estivesse
pegando fogo. Tropecei no tapete, bati a canela na quina da cômoda e, ainda assim, consegui vestir uma calça social
levemente amassada e uma blusa branca que estava, no máximo, passável. — Primeira impressão é tudo, Ana. Arruma
esse cabelo. 5 Puxei os fios para trás num coque que não inspirava confiança, joguei um pouco de pó no rosto para
parecer menos exausta e enfiei os pés num salto que, eu tinha certeza, seria meu maior arrependimento no fim do dia.
Se ao menos eu soubesse que esse seria o menor dos meus problemas. Saí de casa praticamente correndo. O ônibus
demorou mais do que deveria e, quando finalmente cheguei ao centro da cidade, uma garoa fina já começava a
transformar a calçada numa armadilha mortal para saltos altos. Equilibrando minha bolsa, um café de última hora e
meu celular vibrando com mensagens da minha melhor amiga me desejando boa sorte (spoiler: eu precisaria), virei a
esquina sem olhar para frente. E foi aí que aconteceu. Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu senti.
Um impacto forte. Duro. Como se eu tivesse batido contra um muro que, por alguma razão, segurava um café quente. O
cheiro de café forte invadiu minhas narinas no exato momento em que senti o calor líquido encharcando o tecido de
outra pessoa. Meus olhos desceram devagar, como se minha mente estivesse tentando me dar tempo para processar a
tragédia. 6 O terno dele. Cinza escuro. Perfeito. Agora com uma mancha marrom gigantesca no peito. — Poxa! — A
palavra escapou antes que eu pudesse pensar. Então, ergui o olhar. E me arrependi imediatamente. Ele era alto, muito
mais do que eu, mesmo com meu salto. O rosto tinha traços austeros, o tipo de homem que não precisava abrir a boca
para impor respeito. Mas o olhar dele... Cinza. Intenso. Nada amigável. Ele respirou fundo, o maxilar travando, como se
estivesse tentando reunir paciência para não me estrangular ali mesmo. — Você só pode estar brincando comigo. O tom
era baixo, controlado, mas carregado daquela exaustão que só alguém que já teve um péssimo dia pode ter. 7 — Eu...
foi um acidente! — Meu instinto de sobrevivência me fez falar rápido, antes que ele decidisse me processar. — Me
deixa pagar a lavagem do seu terno! Ele soltou um riso curto e seco. Não era um riso real. Era mais uma reação de puro
deboche, como se o destino estivesse rindo da cara dele e eu fosse só mais um detalhe nesse dia miserável. — Você
sabe quanto custa lavar um terno como esse? — Imagino que não seja barato... — Não, não é. Ótimo. Maravilhoso. Se a
minha intenção era começar bem o primeiro dia de estágio, eu estava me saindo incrivelmente mal. Abaixei
rapidamente, pegando alguns papéis que tinham caído no impacto. Minha mão tremia um pouco, mas consegui
empilhá-los e entregar de volta. Antes que ele pudesse simplesmente me ignorar e seguir em frente, peguei um dos
cartões de visita recém-impressos da minha bolsa e entreguei a ele. 8 — Aqui. — Disse, ainda meio ofegante. — Me
manda o valor depois que levar para a lavanderia. Sério, eu faço questão. Ele pegou o cartão sem pressa, seus olhos
analisando primeiro o papel, depois a minha cara. E, por um breve segundo, achei que ele parecia surpreso. Surpreso
pela minha ingenuidade? Pela coragem de não sair correndo? Vai saber. Mas ele não disse nada. Apenas me lançou um
último olhar de puro tédio, como se já tivesse gasto energia demais comigo, e se afastou. Ótimo. Primeiro desastre do
dia concluído. Agora só faltava chegar ao estágio e tentar não estragar mais nada. Eu sabia que essa vaga tinha sido
super concorrida, mas eu tinha conseguido. Mesmo que o estágio fosse parte de um programa de incentivo do governo,
que garantisse descontos fiscais para empresas que contratassem estudantes, eu queria acreditar que meu currículo
também contou. Na recepção, me apresentei e a atendente me olhou de cima a baixo antes de dizer: — Ana Motta?
Siga-me. 9 Ela não disse mais nada enquanto entrávamos no elevador. Mas minha empolgação venceu a prudência, e
antes que eu pudesse me conter, perguntei: — O meu serviço aqui será mais para atuar na gerência dos negócios ou na
realização de ações de planejamento e desenvolvimento? Ela me olhou pelo canto dos olhos e sorriu. Um sorriso
debochado. A resposta veio no silêncio. Algo me dizia que eu não ia gostar nada do que me esperava. No andar da
diretoria, fui direcionada para outra recepcionista, uma senhora simpática que sorriu ao ouvir meu nome. — Ah, você é
a nova estagiária! Pode entrar, o senhor Trindade está te aguardando. — Você sabe exatamente qual será minha
função? — perguntei, tentando disfarçar a apreensão. Ela riu. — Você trabalhará diretamente com o Senhor Tomás
Trindade. O CEO da empresa. 10 Meu mundo parou. — O quê? — Eu pisquei, como se ela tivesse falado grego. — Como
assim? O CEO? O dono da Trindade Engenharia? Sem me dar tempo de reagir, a recepcionista apenas apontou para a
porta. Meus pés se moveram sozinhos. Entrei. Ele estava de costas, observando a cidade pela janela. Meu coração já
estava disparado. — Com licença, senhor Trindade, sou Ana, a nova estagiária. Ele não se virou de imediato. — Bem-
vinda. Pode se informar com a senhora Bete sobre o que precisa fazer. Infelizmente, estou em um mau dia hoje. Foi
quando ele se virou.