screvemos a primeira carta juntos, sentados no chão do meu quarto, o que envolveu uma negociação de vinte minutos
sobre qual das nossas letras era mais legível (a de Davi, decidimos, embora eu discorde até hoje) e outra negociação,
mais longa, sobre o tom. — Não pode parecer que estamos pedindo um favor — disse Davi, rasurando pela quarta vez o
mesmo parágrafo. — Tem que parecer que estamos oferecendo alguma coisa. — A gente não tem nada para oferecer a
um cartógrafo profissional além da nossa admiração — eu disse. — E admiração de dois adolescentes provavelmente
não paga as contas dele. E 22 No fim, a carta que enviamos era mais simples do que qualquer rascunho anterior:
dizíamos que tínhamos lido o Atlas das Fronteiras Móveis, que queríamos saber se o mapa final — o das coisas boas —
algum dia seria terminado, e que, se ele permitisse, gostaríamos de visitálo para conversar sobre isso. Não
mencionamos a doença de nenhum dos dois. Isso foi ideia de Davi, e no começo eu discordei — parecia desperdiçar
nossa "credencial" mais óbvia — mas ele argumentou que queria ser recebido pelo que perguntava, não pelo que sofria,
e isso me calou por tempo suficiente para eu concordar. A resposta não veio. Nem na semana seguinte, nem na outra.
Escrevemos uma segunda carta, um pouco mais longa, onde Davi incluiu uma pergunta específica sobre a ilha que
aparece só na maré baixa, tentando provar que tínhamos lido de verdade, não por cortesia. Também não veio resposta.
— Talvez ele more numa casa sem correio de verdade — sugeri, numa tarde em que dividíamos batatas fritas roubadas
da bandeja de alguém que tinha desistido delas. — Tipo, uma casa que só recebe cartas por acaso. 23 — Ou talvez ele
simplesmente não queira falar sobre o mapa que não conseguiu terminar — disse Davi, e havia nele, pela primeira vez
desde que eu o conhecia, algo que não era ironia nem otimismo teimoso, mas uma espécie de reconhecimento sóbrio.
— Tem gente que carrega um projeto inacabado do jeito que carrega uma ferida que não fecha. Perguntar sobre isso é
cutucar. Achei estranho ele considerar essa possibilidade com tanta facilidade, ele que geralmente insistia em
explicações mais generosas para tudo. Perguntei se ele estava falando do cartógrafo ou de outra coisa. Ele não
respondeu na hora. Só disse, depois de um silêncio comprido o suficiente para eu me arrepender de ter perguntado,
que havia coisas que a gente começa e não sabe se vai ter tempo de terminar, e que isso muda o jeito como a gente fala
sobre elas. Não insisti. Aprendi, naquelas semanas, uma coisa que ninguém tinha me ensinado direito antes: existe uma
diferença entre calar por medo e calar por respeito, e a segunda opção às vezes parece exatamente com a primeira, até
você prestar atenção no rosto de quem está calado. 24 Escrevemos a terceira carta sozinhos, cada um a sua, sem
mostrar ao outro antes de enviar. Não sei o que Davi escreveu. Na minha, além da pergunta sobre o mapa, incluí uma
linha que não estava nos rascunhos anteriores: perguntei se ele achava possível continuar um trabalho depois de ter
perdido a fé de que ele serve para alguma coisa. Terminei de escrever, dobrei o papel, e só depois, olhando para o
envelope fechado, percebi que talvez tivesse escrito aquela pergunta mais para mim mesma do que para um estranho
que desenhava mapas de rios teimosos. Também essa não teve resposta. Mas alguma coisa nela — talvez o próprio ato
de escrevê-la — mudou o jeito como eu esperava pela resposta. Deixei de esperar como quem espera um convite.
Comecei a esperar como quem espera um veredito.