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O texto narra um momento entre mãe e filha, onde a mãe expressa preocupações sobre a viagem planejada pela filha e seu amigo, revelando um entendimento profundo sobre os desafios que enfrentam. A conversa se aprofunda em temas de amor e medo, com a filha e Davi discutindo a complexidade de amar alguém sabendo dos riscos envolvidos. O diálogo culmina em uma reflexão sobre a responsabilidade que vem com o amor, destacando a importância de lidar com os sentimentos de forma consciente e cuidadosa.

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O texto narra um momento entre mãe e filha, onde a mãe expressa preocupações sobre a viagem planejada pela filha e seu amigo, revelando um entendimento profundo sobre os desafios que enfrentam. A conversa se aprofunda em temas de amor e medo, com a filha e Davi discutindo a complexidade de amar alguém sabendo dos riscos envolvidos. O diálogo culmina em uma reflexão sobre a responsabilidade que vem com o amor, destacando a importância de lidar com os sentimentos de forma consciente e cuidadosa.

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nha mãe tem um jeito de aparecer nas portas sem fazer barulho que eu ainda não decidi se é dom

natural ou técnica
aprendida em quatro anos de hospitais. Foi assim que ela apareceu na noite em que encontrei, sobre a mesa da
cozinha, o mapa rascunhado que Davi e eu tínhamos feito da viagem: quatro horas de ônibus, o nome da cidade
litorânea sublinhado duas vezes, um orçamento otimista demais escrito à lápis. Ela não disse nada por um momento
que pareceu mais longo do que realmente foi. Só olhou o papel, depois olhou para mim, e puxou uma cadeira. — Você
sabe que eu vou dizer não na primeira vez que você me perguntar isso diretamente — ela disse, o que era uma
declaração tão desconcertantemente honesta que M 26 por um segundo esqueci de ficar na defensiva. — E acho que
você também sabe por quê. Eu sabia. Quatro horas de ônibus, sem supervisão médica, para uma condição que exigia
sessões regulares e um cuidado com hidratação que eu mesma, sem ela por perto, tendia a negligenciar por pura
teimosia adolescente. Não era um "não" de controle. Era um "não" que vinha de alguém que já tinha passado noites
inteiras contando minha respiração. — Eu não estou pedindo permissão ainda — eu disse, o que era tecnicamente
verdade e completamente desonesto no espírito. Ela riu, um riso curto, sem gozação. — Está sim. Só ainda não decidiu
como. Ficamos ali por um tempo, ela olhando o mapa, eu olhando ela olhar o mapa. E então ela fez uma coisa que eu
não esperava: perguntou sobre o livro. Não sobre a viagem, não sobre Davi — sobre o Atlas, sobre por que aquele
cartógrafo específico, sobre o que havia naquele mapa inacabado que parecia valer quatro horas de estrada e uma
discussão inevitável com ela. 27 Contei. Contei mais do que pretendia contar, na verdade — sobre a frase que eu tinha
sublinhado três vezes, sobre a pergunta que escrevi na terceira carta e nunca contei a ninguém que tinha escrito. Ela
escutou do jeito que só as mães costumam escutar coisas que não entendem completamente, mas que reconhecem
como importantes pelo peso da voz de quem fala. — Seu pai também tinha um projeto assim — ela disse, depois de um
silêncio. — Antes de você nascer. Uma reforma na casa da avó dele, que ele nunca terminou porque ela morreu no meio
da obra e ele não teve coragem de continuar sozinho. Levei anos para entender que não era preguiça. Era que ele não
sabia mais para quem estava construindo aquilo. Não perguntei mais nada sobre meu pai naquela noite, porque havia,
no jeito como ela contou, uma fronteira que eu reconheci e respeitei, do mesmo jeito que Davi tinha respeitado a minha
semanas antes. O que ela disse a seguir eu não esperava, e ainda hoje considero uma das frases mais importantes que já
ouvi, mesmo tendo sido dita, na época, num tom quase corriqueiro, como quem comenta o tempo: 28 — Eu não vou
deixar vocês irem sozinhos de ônibus. Mas vou pensar em levar vocês eu mesma, se seus exames de terça estiverem
bons e se o pai do Davi topar. Não porque eu ache que aquele homem vai ter alguma resposta mágica para vocês. Mas
porque acho que vocês precisam descobrir por conta própria que ele não tem, e prefiro que descubram isso perto de
mim do que sozinhos numa cidade que nenhum dos dois conhece. Não era o "sim" que eu tinha ensaiado pedir. Era
melhor. Era um "sim" que vinha com ela dentro, não apesar dela. Contei a Davi no dia seguinte, e ele ficou quieto por
um tempo antes de dizer que o pai dele provavelmente ia exigir a mesma coisa, e que havia algo profundamente
humilhante e também, ele admitiu, um pouco reconfortante, em precisar de permissão para ir atrás de uma resposta
que os dois insistíamos, em público, não precisar de ninguém para encontrar. 29 C A P Í T U L O 6 O primeiro “eu te
amo” mal calculado conteceu numa noite comum, o que talvez seja a única coisa previsível sobre esse tipo de
acontecimento: nunca é na cena que você planejou. Estávamos no meu quintal, sentados na escada da varanda,
dividindo um cobertor porque o outono tinha chegado mais cedo naquele ano e nenhum dos dois queria ser o primeiro
a admitir frio. Davi tinha acabado de contar sobre uma competição de natação da qual desistira, meses antes de perder
a perna, porque tinha se machucado o suficiente para perder a vaga — e sobre como, na época, aquilo lhe parecera a
pior coisa que já tinha acontecido com ele. A 30 — Engraçado pensar nisso agora — ele disse, olhando para o próprio
joelho, para a linha onde a perna de verdade terminava e a outra começava. — Achei que fosse o fim do mundo perder
aquela vaga. Hoje eu daria qualquer coisa para meu maior problema ser uma vaga perdida numa competição. Eu disse
que era assim que funcionava: a dor de hoje sempre parece maior que a dor de ontem, porque a de hoje é a única que a
gente sente com o corpo inteiro. Ele me olhou de um jeito diferente do habitual — sem a ironia de sempre, sem a
pergunta filosófica disfarçada de comentário casual — e disse que gostava de mim de um jeito que não sabia bem como
carregar, porque toda vez que tentava imaginar o futuro, esbarrava em duas possibilidades igualmente assustadoras: ou
eu não estaria lá, ou ele não teria coragem de ficar por medo de que eu não estivesse. Eu disse "eu também te amo"
antes mesmo de processar direito o que ele tinha dito, porque era mais fácil devolver a frase do que examinar o que
havia embaixo dela. E ele riu, mas não de escárnio — de reconhecimento, como se tivesse pego uma mentira gentil no
ar. 31 — Você não respondeu ao que eu disse — ele apontou. — Só respondeu ao "eu gosto de você". Não ao medo.
Fiquei em silêncio por um instante mais longo do que gostaria, porque ele tinha razão, e eu não tinha uma resposta
pronta para o medo, só para o sentimento. — Eu também tenho medo — admiti, por fim. — Mas acho que só saber o
tamanho do medo não me ajuda a decidir o que fazer com ele. — E o que você acha que a gente devia fazer com ele?
Foi aí que percebi que a pergunta que ele fazia não era romântica no sentido de "quanto tempo vamos ficar juntos",
mas prática, quase moral: como amar alguém sabendo que esse amor pode custar caro demais para os dois, sem por
isso deixar de amar direito. — Acho que a gente não devia fingir que o medo não existe — eu disse, tateando a resposta
enquanto falava. — Mas também acho que não dá para deixar o medo decidir tudo por nós. Tipo... você pode amar
alguém com cuidado, sem deixar de amar de verdade. As duas coisas não são opostas. 32 Ele ficou quieto, considerando
aquilo com uma seriedade que parecia desproporcional para um garoto de dezoito anos numa escada de varanda, até
dizer, baixinho, que talvez fosse essa a diferença entre o tipo de amor que ele via nos filmes e o tipo que estava
sentindo naquele momento: um não pedia licença para nada, o outro parecia pedir, o tempo inteiro, licença para
continuar existindo com responsabilidade. Não foi romântico do jeito que os livros descrevem. Não houve música nem
clímax perfeito. Mas foi, acho eu, mais verdadeiro do que qualquer cena que eu já tinha imaginado para aquele
momento: dois adolescentes descobrindo, sem holofotes, que amar bem exige mais do que coragem de sentir. Exige a
paciência de perguntar o que fazer com o que se sente. Naquela noite, dormi pensando não na declaração, mas na
pergunta que veio depois dela. E percebi, já quase adormecendo, que talvez fosse exatamente esse o tipo de mapa que
Antero Vilas Boas ainda não tinha conseguido terminar: não um mapa do sentimento, mas um mapa de como carregá-lo
direito

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