e você quer saber que horas são sem olhar para nenhum relógio, basta prestar atenção em quem
está sentado ao seu
redor numa sala de espera de hospital. Às oito da manhã todo mundo ainda finge que vai ser um dia normal. Ao meio-
dia já ninguém finge mais nada, e ao final da tarde as pessoas olham para o chão com uma espécie de paciência que não
existe em nenhum outro lugar do mundo. Eu conheço essa escala de horas melhor do que conheço a tabuada. Meu
nome é Inês, tenho dezessete anos, e há quatro deles meus rins decidiram, sem me consultar, que iriam trabalhar
apenas meio período. É uma condição com um nome comprido que ninguém pronuncia direito da primeira vez, e que se
resume, na prática, a três manhãs S 6 por semana ligada a uma máquina que faz por mim o que meu corpo não quer
mais fazer sozinho. Se isso soa trágico, eu discordo educadamente. Trágico é quando alguém não sabe o que vai
acontecer. Eu sei exatamente o roteiro da minha terça-feira. Existe um tipo estranho de conforto nisso, do mesmo jeito
que existe conforto em decorar o caminho de casa mesmo no escuro. Minha mãe insiste que eu deveria frequentar o
grupo de apoio da ala de nefrologia, e eu insisto que grupos de apoio são compostos inteiramente por duas categorias
de pessoas: as que choram cedo demais e as que fazem piada tarde demais. Eu me encaixo, sem orgulho, na segunda
categoria. Foi por isso — e porque discutir com minha mãe gasta mais energia do que eu tenho disponível às
quintasfeiras — que lá estava eu, numa cadeira de plástico azul, ao lado de um cartaz desbotado que dizia "Você não
está sozinho", escrito numa fonte que parecia ter sido escolhida especificamente para tornar a frase menos
convincente. O grupo se reunia num porão que a coordenadora insistia em chamar de "Sala da Esperança", nome que
nenhum dos presentes usava sem uma pausa irônica antes ou depois. Éramos oito, mais ou menos, dependendo de 7
quem estava internado naquela semana. Eu tinha o hábito de classificar mentalmente os presentes pelo tipo de olhar
que tinham: os que olhavam para o centro do círculo como se ali houvesse uma resposta, os que olhavam para a porta
como se calculassem a distância até a saída, e os que olhavam para o próprio colo, que eram, geralmente, os que
tinham praticado mais silêncio do que qualquer outra habilidade na vida. Foi numa dessas tardes, sentado exatamente
na cadeira em frente à minha, com uma perna que terminava um pouco antes de onde as pernas normalmente
terminam, que eu vi Davi pela primeira vez. Ele não olhava para o centro, nem para a porta, nem para o colo. Ele olhava
para o cartaz da "Sala da Esperança" com uma expressão que eu levaria semanas para aprender a decifrar
completamente, mas que naquele primeiro dia interpretei, de forma apressada e não totalmente errada, como o rosto
de alguém tentando decidir se uma frase é boba o suficiente para rir dela ou verdadeira demais para isso. — Você acha
que quem escreveu esse cartaz acreditava mesmo nisso — ele me perguntou, sem se apresentar antes, o que deveria
ter sido estranho e não foi 8 — ou só precisava preencher um espaço em branco na parede? Eu disse que
provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo, porque é raro encontrar alguém que acredite em algo sem também
precisar, um pouco, que aquilo seja verdade. Ele sorriu como quem anota um ponto a favor de um argumento que ainda
não tinha terminado de construir. Eu não sabia, naquele momento, que aquela frase — solta, meio por acaso, mais para
preencher o silêncio do que para dizer algo importante — seria a primeira pedra de uma conversa que duraria mais do
que qualquer tratamento, mais do que qualquer prognóstico, mais, talvez, do que eu. Existe uma coisa que ninguém
explica direito sobre viver com um corpo que tem prazo de validade marcado: você não passa o tempo todo pensando
nisso, do mesmo jeito que uma pessoa saudável não passa o dia pensando que também vai morrer um dia, só que
provavelmente mais tarde e com menos aviso prévio. A diferença entre mim e a maioria das pessoas na rua não é que
eu penso na morte e elas não. É que o prazo delas está escrito com uma letra pequena demais para ler, e o meu veio
com uma fonte 9 maior, encadernado, com data prevista de revisão a cada três meses. Isso não é queixa. É só geografia.
Eu moro num território que tem fronteiras mais visíveis que a maioria, e aprendi, do jeito difícil, que reclamar do mapa
não muda o terreno. O que muda é como você anda dentro dele. Naquela tarde, quando a reunião da "Sala da
Esperança" terminou e todo mundo recolheu os copos de plástico com suco que ninguém realmente queria, Davi me
alcançou no corredor mancando de um jeito que já parecia mais curiosidade do que dificuldade, e me perguntou se eu
tinha lido alguma coisa boa recentemente. Eu disse que estava no meio de um livro estranho, sobre um homem que
passou a vida inteira desenhando mapas de lugares que mudam de lugar — rios que abandonam o próprio curso, ilhas
que aparecem só na maré baixa, fronteiras que os mapas oficiais teimam em ignorar porque ninguém quer admitir que
elas se moveram. Ele parou de andar por um segundo, só um segundo, e disse que aquilo parecia o tipo de livro que ele
precisava ler antes de morrer, não porque fosse sobre morrer, mas 10 porque parecia ser sobre a única coisa que valia a
pena entender antes. Eu não sabia ainda o quanto essa frase ia nos custar, nem o quanto ia nos dar. Só sabia que, pela
primeira vez em quatro anos de salas de espera, eu não estava contando as hora