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EU DRE6MH HH6H VOCÊ ME AMOU
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eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer sistema de armazenamento e recuperação
de informações, sem a permissão por escrito do autor.
Esta é uma obra de ficção. Quaisquer nomes ou personagens, empresas ou locais, eventos ou incidentes são
fictícios ou foram utilizados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas,
ou com eventos reais é mera coincidência.
Design da capa: Books and Moods
Edição: Rebecca Fairest; Sarah Plocher, All Encompassing Books
Para Carolyn, que esteve presente em tudo isso. A vida nos transformou, mas
nossa amizade resistiu ao teste do tempo.
Te amo para sempre.
Se continuamos sendo a mesma pessoa antes e depois de amarmos, isso significa
que não amamos o suficiente.
ELIF SH6F6K
Parte Um: Cleo –
O Diário
Capítulo 1
Capítulo 2 O
Diário
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Parte II: Cleo e Gabriel
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Capítulo 54
Capítulo 55
Capítulo 56
Capítulo 57
Capítulo 58
Capítulo 59
Capítulo 60
Capítulo 61
Capítulo 62
Capítulo 63
Capítulo 64
Capítulo 65
Capítulo 66
Capítulo 67
Capítulo 68
Capítulo 69
Capítulo 70:
Epílogo
Agradecimentos Sobre a
autora
Outras obras de EMERY ROSE
“Here” – Pavement
“Throw Your Arms Around Me” – Hunters & Collectors
“Just Like Honey” – Jesus and Mary Chain
“Come As You Are” – Nirvana
“Hunger Strike” – Temple of the Dog
“I Wanna Be Adored” – The Stone Roses “Seven” –
Sunny Day Real Estate
“Lover, You Should’ve Come Over” – Jeff Buckley “Grace”
– Jeff Buckley
“Last Goodbye” – Jeff Buckley
“High and Dry” – Radiohead “Let
Down” – Radiohead
“Nothing Compares 2 U” – Sinead O’Connor “Colorblind” –
Counting Crows
“Killing Me Softly With His Song” – Fugees
“Halah” – Mazzy Star
“Flowers in December” – Mazzy Star
“You Don’t Know Nothing About Love” – Lorraine Ellison “Kiss
Me” – Sixpence None the Richer
“Feeling Good” – Nina Simone
“Eu não era do tipo que se contentava com pequenas coisas. Eu queria o mundo
inteiro ou nada.” –
Charles Bukowski
Trecho do caderno encontrado por Cleo Babington no
Tompkins Square Park
em 17 de junho de 1990
27/05/90 East Village, Nova York
A chuva brilhava nas ruas iluminadas por néons, e eu estava sentado no
banco da janela, observando-a através de lentes cor-de-rosa. Delineador
borrado. Cabelos castanhos-mel. Lábios que pareciam ter sido picados
por uma dúzia de abelhas… Uma deusa da lua. Ela guardava todos os
segredos do universo em seu sorriso.
Ela gesticulava ao falar, e eu nos imaginava compartilhando os segredos
de nossas almas e conversando por horas sem dizer uma única palavra,
mas nos entendendo perfeitamente.
Eu queria bater com os punhos na janela ou, melhor ainda, correr para a
rua e gritar para ela parar, para se virar e olhar para mim, para largar
aquele cara que teve a audácia de soltar a mão dela.
Se eu segurasse sua mão, Jane, nunca mais a soltaria.
Mas a garçonete mal-humorada e sem dormir encheu minha xícara de
café com uma careta, e eu fiquei onde estava, pensando na garota que se
foi e tentando, em vão, fazer a garçonete esboçar um sorriso.
Voltei à mesma lanchonete, sentei-me exatamente no mesmo lugar noite
após noite durante semanas, e teria continuado aparecendo se a vida real
não tivesse se intrometido.
Ontem à noite, briguei com um viciado. Minha pele está cheia de picadas
de insetos (nem quero saber por onde esse colchão já passou), então
tenho dormido no chão. Estou sem um tostão para alugar um
apartamento, mas é cedo demais para desistir.
Detroit. Los Angeles. Nova York. Elas me espancam, quebram meus
ossos e me abandonam como um cachorro de rua à beira da estrada.
Para citar Bukowski: “…o preço da criação nunca é alto demais.” Mas tô
morrendo aqui, cara. Sufocando com a fumaça do fósforo que joguei na
gasolina.
Desculpa por não ter sido o filho que você esperava, pai. Que decepção
de merda… pra você… pra mim.
Mas, ei, ainda tenho minha arte. Meus livros. Minha música. Meu
coração ferido. Meus ossos quebrados. Minha alma. Isso não está à
venda. Vou me banquetear com as migalhas das minhas convicções e
queimar, queimar, queimar até que me joguem no chão frio e duro e
joguem a última mão cheia de terra e pétalas de rosa murchas sobre meu
caixão perolado.
CAPÍTULO UM
6UGUSH DE 1992
“Estou te dizendo que ele é diferente”, insistiu Annika.
“Foi o que você disse sobre o Dick e veja no que isso deu.” Passei kohl nos
olhos enquanto ela passava rímel nos cílios diante do espelho acima da pia do
banheiro.
“Ele realmente era um idiota”, disse ela. “O que eu vi nele, afinal?”
Na verdade, o nome dele não era Dick. Era Mick. Ou Mitch. Jim? Tanto faz.
Nós o chamávamos de Dick porque ele tinha um piercing no pênis e porque ele
era um idiota.
Sempre que ele dormia aqui, eu tinha que usar fones de ouvido com música
no volume máximo. Quando eles faziam sexo, parecia sempre que ele estava
sendo assassinado.
E era exatamente assim que a música dele soava. Ele era o vocalista de uma
banda de heavy metal. O “sucesso” deles era “Women are Vipers”.
Eu não fazia a menor ideia do que Annika via nele.
“A boa notícia é que o Gabriel não tem nada a ver com o Dick.”
“Então ele é mais parecido com aquele roqueiro punk com quem você
namorou no ensino médio?” A obsessão da Annika por músicos era lendária, mas
ela ainda não tinha namorado nenhum que tivesse talento de verdade.
“Aquele com o moicano verde?” Ela desenrolou o cabelo dos rolos aquecidos
e penteou as ondas soltas com os dedos. Annika mudava a cor do cabelo a cada
estação. No momento, estava prateado. “Ou o cara que prendia o lábio com um
alfinete de segurança?”
“Acho que os dois eram a mesma pessoa.”
Ela pensou nisso por um momento. “É, acho que você tá certa. Ele trabalha
na Gap agora. Trocou os alfinetes de segurança por calças cáqui.”
“Sério?” Ela assentiu e nós duas caímos na gargalhada. “Ele era tão contra o
sistema. Que vendido.”
“Só não julgue o Gabriel antes de conhecê-lo melhor”, ela advertiu quando
estávamos saindo pela porta. “Ele é autêntico.”
“Então ele realmente sabe cantar e tocar violão?”
“Sim.” Ela mexeu as sobrancelhas. “E ele é um garoto bonito.”
A ideia que a Annika tinha de um garoto bonito era bem diferente da minha.
Eu gostava dos caras quietos e nerds que escondiam sua genialidade atrás de
óculos grossos de armação preta.
Annika gostava dos garotos rebeldes que sempre pareciam precisar de um
banho e de um exorcismo.
E eu nunca, jamais, me interessava por músicos. Não só porque tinha
problemas com meu pai, mas porque não confiava neles. Eles são movidos pelo
ego e querem ser adorados. Você nunca vai ser a prioridade de um músico.
Mas a Annika estava louca por um cara que conheceu no mês passado. Um
encontro casual no caminho de volta para casa, vindo do estúdio de dança, que
culminou às quatro
da manhã, quando, bêbados, entraram cambaleando no Leshko’s para tomar café
e comer um café da manhã gorduroso.
Eu ainda não tinha conhecido esse garoto misterioso, mas hoje à noite era a
noite certa.
Gabriel tinha um show no Monks Café, na St. Mark’s Place, bem na esquina
do nosso apartamento.
“Ah, esqueci de te contar…” Annika passou o braço pelo meu enquanto
avançávamos com dificuldade sob a garoa, contornando poças e frascos
quebrados na calçada cheia de lixo. Quando viramos na Avenida A, um homem
segurando uma garrafa dentro de um saco de papel pardo saiu cambaleando da
porta, abriu o zíper da calça e urinou na parede coberta de grafites.
Annika torceu o nariz. “Eca, é a terceira vez neste mês.”
Se eu ganhasse cinco centavos cada vez que testemunhasse alguém urinando
em público, poderia largar meu emprego.
“Gabriel perguntou se você faria uma camisa para ele”, disse ela. “Usei esse
vestido há duas semanas e ele está loucamente apaixonado por ele.”
Pelo que Annika dizia, Gabriel estava loucamente apaixonado por tudo.
Fiz o vestido para o22ºaniversário dela. Uma colagem de tecidos costurados
com linha prateada. Ela ficava deslumbrante com ele, mas Annika poderia usar
um saco de estopa sem forma e ainda assim ficar incrível.
Seu cabelo brilhava como o luar e sua pele tinha um brilho úmido. Eu não
estava nem úmida nem brilhante.
Sempre achei que parecia um pouco suja.
O Monks Café era um minúsculo cantinho com paredes de tijolos pintadas com
efeito esponja, piso de madeira rangente e algumas mesas espalhadas pela sala.
Era um refúgio para escritores, artistas e músicos — o tipo de lugar onde
você podia pedir um cappuccino e passar o dia inteiro lendo um livro ou o jornal
sem que ninguém te incomodasse.
Minha mãe e eu costumávamos passar o tempo por lá nos dias frios de
inverno, quando os radiadores do nosso apartamento chiavam e faziam barulho,
mas não emitiam calor algum. Sean, o dono, nos servia ensopado irlandês de uma
panela elétrica.
Durante o dia, era uma cafeteria; à noite, aconteciam recitais de poesia e
shows de música ao vivo. O “palco” era um espaço ao longo da parede do fundo,
onde os garçons retiravam as mesas.
Hoje à noite, havia apenas cerca de uma dúzia de pessoas no salão, incluindo
a gente. Não era exatamente uma multidão.
“Estou tão animada.” Annika agarrou meu braço e me arrastou até o bar
enfeitado com luzes de Natal ao lado da vitrine de doces. “Você vai ficar
impressionada.”
Mordi a língua e reprimi a vontade de lembrá-la de que ela tinha dito a
mesma coisa sobre o Dick.
Annika pediu um cigarro ao barista que nos serviu garrafas de Rolling Rock
e registrou no caixa como cappuccinos com creme extra. Sean não tinha licença
para vender bebidas alcoólicas.
Passamos o cigarro de um para o outro e bebemos nossas cervejas enquanto
Annika ficava olhando para a porta da frente, esperando que seu astro do rock
aparecesse.
Essa era outra característica dos músicos. Eles sempre te deixavam esperando.
Mais dois cigarros pedidos depois, a porta se abriu de repente e um cara com
um violão entrou correndo — atrasado. Annika me passou o cigarro e correu
direto para os braços dele.
“Você vestiu o vestido”, disse ele, segurando o rosto dela com as mãos e
beijando seus lábios.
O beijo foi tão íntimo que me senti suja só de observá-los. Desviei
rapidamente o rosto e apaguei o cigarro em um cinzeiro recortado quando Sean
apareceu dos fundos com uma bandeja de copos limpos e me cumprimentou.
— Cleo Babington. Faz tempo que não te vejo. — Ele se abaixou por baixo
do balcão e me deu um grande abraço. Sean era um homem grandalhão, com
cabelos pretos ondulados e bochechas coradas. Ele cheirava a Irish Spring. —
Como está sua mãe?
“Ela está bem. Está isolada em uma cabana escrevendo um livro. Vive como
um ouriço.”
Ele riu. “Ahh, a vida criativa. Tenho inveja dela. Então, o que te trouxe aqui
hoje à noite?”
“Minha amiga tá namorando o músico.” Abaixei a voz. “Ele é bom mesmo?”
“Acho que vamos ver. Ele apareceu na semana passada e disse que queria
tocar. Eu mandei ele ir lá atrás lavar alguns pratos e que veríamos depois”, disse
Sean com uma risadinha.
Alguns minutos depois, Annika se juntou a mim, sozinha, e Sean nos serviu
mais duas cervejas por conta da casa. Levamos as cervejas até uma mesa de
madeira surrada encostada na parede e nos acomodamos para assistir à
apresentação.
Todo mundo continuava conversando, ignorando o cara que conectava sua
Telecaster ao amplificador Marshall, com a cabeça inclinada enquanto afinava o
instrumento. Uma fita adesiva preta mantinha a alça no lugar.
Quando ele entrou no centro dos holofotes, pude vê-lo bem pela primeira vez.
Ele era todo maçãs do rosto salientes, cílios longos e cabelo artisticamente
despenteado. Parecia um anjo demoníaco com uma camiseta branca de decote em
V, jeans preto e grandes botas pretas sem cadarços.
Annika estava certa. Ele preenchia todos os requisitos de um garoto bonito.
Mas eu não tinha ideia do que esperar. Grunge? Outro Kurt Cobain ou Eddie
Vedder tentando a sorte na Costa Leste em vez de em Seattle?
Não sabia dizer, pois ele ainda não tinha tocado uma única nota. Sua cabeça
estava baixa, os olhos fechados, com uma mecha teimosa de cabelo escuro
caindo sobre a testa.
A risada estrondosa de uma mulher abafou o zumbido da máquina de
cappuccino, e o tempo foi passando, mas ele continuava ali, de olhos fechados,
como se estivesse em uma sala de meditação em vez de conectado a um
amplificador.
“Você vai tocar ou vai ficar aí parado?”, gritou um cara. Algumas pessoas
soltaram risadas zombeteiras.
Limpei as palmas suadas nas minhas calças largas de camuflagem e engoli
minha cerveja como se estivesse perdido no deserto há semanas e estivesse
morrendo de sede.
Eu estava tendo flashbacks.
Há alguns anos, Annika e eu fomos a um show de stand-up comedy. O
comediante estava tão nervoso que precisou enxugar o suor do rosto com uma
toalha. Seu timing estava errado, e ele começou a gaguejar. O público vaiou-o tão
impiedosamente que ele congelou como um veado diante dos faróis de um carro
antes de fugir do palco no meio de uma piada.
Depois disso, jurei nunca mais ir a outro show de comédia. Agora
eu tinha aquela mesma sensação de mal-estar no estômago.
Esse cara ia ser péssimo. Eu não queria ficar por lá assistindo a isso.
Meus olhos se voltaram para a porta, planejando uma saída rápida. Talvez eu
pudesse simplesmente… Annika agarrou meu braço e me puxou de volta
para o meu lugar. “Para onde
você vai?”, ela sussurrou. “Sente essa bunda aí.”
“Tenho duas palavras para você. Stand-up.
Comédia.”
Ela estremeceu. “Não dê azar pro Gabriel assim. Preciso que você fique.
Apoio.
Apoio.”
Mais duas palavras. Melhor. Amiga.
Annika estava segurando minha mão como se eu fosse sua tábua de salvação.
Até ela estava nervosa, quando, há pouco tempo, ainda elogiava ele aos quatro
ventos.
Felizmente, a sala estava escura, então nosso constrangimento por
procuração passaria despercebido.
“Preciso de um cigarro”, disse Annika, procurando alguém que estivesse
fumando pela sala.
Há quanto tempo ele estava ali em pé, com os olhos fechados? Meu Deus,
cara, acabe com o nosso sofrimento e desista de uma vez por todas.
Então ele começou a dedilhar o violão. Não era suave nem tímido. Era forte e
agressivo. O som atravessou meu corpo como um estrondo sônico e o ar crepitou
de eletricidade. Tudo o que ele fazia era dedilhar os mesmos acordes
repetidamente, mas agora tinha toda a minha atenção.
Quando ele abriu a boca e começou a cantar, eu morri.
Todos os pelos dos meus braços se arrepiaram. Arrepios de verdade. Eu
nunca tinha ouvido nada parecido na minha vida.
Eu conhecia a música. Sabia a letra. Era minha música favorita do The
Smiths. Mas o cover que Gabriel fez de “Last Night I Dreamt That Somebody
Loved Me” não se parecia em nada com a versão do Morrissey.
A voz dele era o instrumento mais lindo que eu já tinha ouvido. Etérea, crua,
apaixonada. Cheia de dor e saudade, tristeza e exaltação. Ela
subia e descia com facilidade, e ele mantinha as notas por tanto tempo que eu
ficava sem fôlego, como se fosse eu quem estivesse cantando.
Sua música não era grunge, nem rock, nem soul, nem blues. Ou talvez fosse
tudo isso junto.
De qualquer forma, eu estava hipnotizada sem querer. Atraída pela chama
como uma mariposa relutante.
Mesmo quando ele gritava no microfone, atingindo notas loucas de falsete, e
improvisava por quinze minutos seguidos em uma música de blues ao estilo de
Hendrix que eu nunca tinha ouvido antes, eu continuava fascinada. Encantada.
Nossa, aquela voz. Aquela voz.
Parecia que todo mundo na sala estava prendendo a respiração, observando e
esperando para ver o que ele faria a seguir. Ele nos levou a todos nessa viagem
em seu tapete mágico, e acho que teríamos seguido ele a qualquer lugar.
Ele tocou por mais de duas horas, parando apenas para tomar um gole de
cerveja e conversar com o público. Ele encantou. Ele brincou. Ele divagou,
contando histórias sobre como teve que pedir uma guitarra emprestada porque,
quando chegou a Nova York, foi roubado.
O ladrão roubou seu violão e toda a sua coleção de músicas. “Já que está
nisso, roube minha alma também.”
Ele falou sobre a música ser uma experiência mística. “A música é minha
religião, meu despertar espiritual, meu caminho para a autodescoberta. Num dia
chuvoso, bebi uísque barato demais e simplesmente fiquei sentado ali, deixando
toda essa tristeza tomar conta de mim, sabe? Quando cheguei a um café para
tocar, estava chorando. Adoro essa merda. Ficar mergulhado nas próprias
emoções, deixando a dor tomar conta de você.”
Ele estava vulnerável, mas consciente de si mesmo. Ele devia saber bem
como estava parecendo. Dava para perceber pela maneira como inclinava a
cabeça e lançava olhares de soslaio para o público. Um coquetel inebriante de
vulnerabilidade e sedução, tirado diretamente do manual dos garotos bonitos.
Mas não levei isso a mal. Ele era um artista. Por que não usar todos os
talentos que Deus lhe deu?
Quando o show acabou, a sala inteira ficou em silêncio. Até que um cara
disse: “É, cara.”
O que mais se poderia dizer depois de uma apresentação como
aquela? Apenas: “É isso aí, cara”.
Acho que todos nós tivemos a sensação de que acabávamos de testemunhar o
nascimento de uma lenda.
Annika me lançou um sorriso triunfante. Não eram necessárias
palavras. Eu estava oficialmente impressionado.
CH6PHER HWO
G6BRIEL PARECIA EXAUSTO, com o suor colando o cabelo à cabeça, mas
mantinha um sorriso no rosto. Com a guitarra em uma mão e o braço em volta de
Annika, os dois seguiram em direção ao bar.
Quando pararam na minha frente, Annika colocou a mão no peito dele e
sorriu para ele. “Gabriel, esta é minha amiga Cleo. Minha melhor amiga”,
acrescentou ela.
O sorriso desapareceu de seus lábios e seus olhos se estreitaram até ficarem
em fendas. “Você é a Cleo?”
Ele me encarou com um olhar tão acusador que dava para pensar que Annika
tivesse acabado de dizer a ele que eu havia afogado uma ninhada de filhotes.
Balançando a cabeça, ele passou a mão pelo rosto e ri baixinho. “Claro que é
você.” Ele murmurou um palavrão e, em seguida, soltou um suspiro cansado,
como se não acreditasse que Annika esperasse que ele fosse educado comigo.
“Prazer em conhecê-la, Cleo.”
Lá se foi o charme. Que diabos era o problema desse cara?
Eu o examinei da cabeça aos pés, sem ficar nem um pouco impressionada.
Ele não era nenhuma lenda. Era apenas mais um idiota.
“Uau. Isso foi tão convincente. Você parece absolutamente encantado em me
conhecer.”
Ele abriu a boca para falar, mas pensou melhor e caminhou até o bar, onde
perguntou a Sean se havia uísque lá atrás. Ele tomou dois shots em rápida
sucessão e bateu o copo no balcão enquanto Annika e eu observávamos.
“Um idiota e um alcoólatra. É engraçado como os músicos sempre parecem
muito menores quando não estão no palco”, comentei. Fiz questão de falar alto o
suficiente para que ele também ouvisse. Porque sim, eu era mesquinha assim
mesmo.
Annika me deu uma cotovelada nas costelas e articulou com os lábios: “Seja
legal”.
Levantei as mãos. Não fui eu quem começou isso. Foi o seu namorado
perdedor.
Gabriel se virou do balcão, passou a mão pelo cabelo e respirou fundo
algumas vezes antes de sorrir para Annika e me ignorar completamente.
“Vamos ao Kiev”, disse ele, acrescentando que estava morrendo de fome
enquanto conduzia Annika para fora da porta.
Segui os dois até a calçada, pronta para ir embora. “Até mais tarde, Annika.
Preciso ir para casa.” Apontei o polegar por cima do ombro, depois me virei e saí
andando.
“Ah, não, você não vai.” Annika agarrou meu braço e me puxou na direção
oposta. “Você vem com a gente.”
“Não. De jeito nenhum.” Eu não queria ter que aturar nem mais um minuto
da atitude chata daquele idiota. “Vou pra casa.”
Discutimos sobre isso, e eu inventei um milhão de desculpas, mas Annika
estava tão insistente que Gabriel se sentiu compelido a dizer: “Não, sério. Venha
conosco. Queremos que você venha.”
Annika me lançou um sorriso radiante, como se algumas palavras dele
tivessem resolvido tudo. Mas não resolveram. “Dá uma chance a ele”, implorou
Annika.
Naquele momento, quase parecia meu dever passar um tempo com eles, nem
que fosse só para garantir que ele não estivesse sendo um idiota com minha
amiga.
Então, lá fomos nós para a lanchonete ucraniana.
Pedimos café e rabanada, e Annika se aconchegou ao lado de Gabriel, seus
dedos brincando distraidamente com o cabelo dele enquanto ela o contemplava
com admiração e maravilha, e um sorriso de adoração.
Eu já a tinha visto assim antes, com inúmeros caras por quem ela se
apaixonou e de quem se desapaixonou, então sabia que, com o tempo, o sorriso
dela desapareceria e ela não estaria mais tão encantada. Mas, naquele momento,
ela estava nos estágios iniciais da paixão, e ele ainda era perfeito aos olhos dela.
Com um pouco de sorte, ela voltaria à razão rapidamente.
— Então, você e a Annika estudaram juntos no ensino médio? — perguntou
Gabriel, tentando puxar conversa educadamente.
Guardei minha adaga e acenei com a cabeça. “Mmhmm. LaGuardia.”
Annika pegou o assunto e seguiu em frente, me elogiando como se estivesse
tentando convencer o novo namorado dos méritos da melhor amiga dela.
“Cleo era a artística. Ela comprava todas as roupas em brechós, e suas obras
de arte sempre traziam mensagens importantes. Ela era ativista contra a AIDS,
feminista, contestadora. Ela simplesmente fazia o que queria e seguia seu próprio
ritmo. Eu achava ela muito legal, mas meio intimidadora.”
“Eu não era intimidadora. Era mais do tipo solitária. Annika era uma das
garotas populares. Todo mundo a adorava.”
“Eu não diria que era popular. Eu fazia parte de um grupo muito fechado”,
ela disse a Gabriel. “Todas nós andávamos por aí com coques apertados e roupas
no estilo Flashdance, como um bando de clones. É tão constrangedor pensar
nisso agora.”
“Você tá brincando?”, eu disse. “Você arrasou com aquelas camisetas curtas
e leggings como ninguém.”
“Gostaria de ter sido mais como você, em vez de uma dessas ovelhas.”
Annika empurrou um pedaço de rabanada pelo prato com o garfo, juntando o
xarope no pão challah antes de trocar seu prato meio comido pelo prato vazio de
Gabriel. “Cleo não se importava com o que os outros pensavam.”
Isso não era totalmente verdade. Eu me importava. Mas havia muitos
extrovertidos na LaGuardia, e a pressão para se expor e ser a melhor era tanta que
eu achava isso opressivo.
Mas não disse nada. Gabriel estava estudando meu rosto atentamente, como
se eu fosse um quebra-cabeça que ele estivesse tentando resolver. Não queria
revelar demais.
Eu não sabia o que pensar desse cara.
Por que ele foi tão rude quando nos conhecemos? Será que ele esperava que a
amiga da Annika fosse diferente de alguma forma? Mais animada, vibrante e
extrovertida?
Desculpe te decepcionar, Gabriel.
“Só nos tornamos amigas no final do nono ano”, continuou Annika. “Um dia,
a Cleo chegou na escola com uma camiseta superdescolada, e eu perguntei onde
ela tinha comprado. Eu queria uma igualzinha. Em tons pastéis de amêndoas com
as palavras ‘I am, I am, I am’ escritas em vermelho.”
“Sylvia Plath”, disse Gabriel.
“Sim!”, Annika sorriu radiante para ele. “Eu nunca tinha ouvido falar de
Sylvia Plath até conhecer a Cleo. Uma garota de 14 anos lendo Sylvia Plath e
toda essa poesia profunda.” Annika balançou a cabeça como se não conseguisse
acreditar nisso.
Ela pegou o garfo e comeu do prato de Gabriel.
“Enfim, acontece que foi ela quem desenhou a camiseta e fez a serigrafia. Ela
também pintou à mão suas Doc Martens.” Annika sorriu para mim. “Minha
amiga brilhante e talentosa.”
“Você é que é brilhante. A Annika é incrivelmente talentosa”, eu disse ao
Gabriel. “Ela é uma dançarina e coreógrafa incrível.”
“Ela é mesmo.” Gabriel passou o braço ao redor dela. “Quando passei no
estúdio na semana passada, fiquei impressionado.”
Annika riu e deu um tapinha no braço dele. “Você viu dois minutos do meu
ensaio.”
Ele sorriu. “Foi o suficiente.”
Gabriel estava sendo carinhoso com a Annika, então comecei a me soltar um
pouco. Não que eu estivesse apaixonada por ele, mas pelo menos ele a valorizava
e não estava sendo um idiota completo.
“Você lê muita poesia?”, ele me perguntou.
“Eu só leio bastante, de modo geral. Minha mãe é escritora e uma leitora
voraz, então cresci cercada de livros, e costumávamos ir a muitas recitais de
poesia”, respondi. “E você?”, pensei em perguntar.
“Minha mãe não é escritora nem leitora voraz. Pelo que eu saiba”,
acrescentou ele, com o rosto se contorcendo antes de sorrir. “Mas me interessei
por poesia por causa do meu professor de inglês do ensino médio. Um cara legal.
Ele costumava ler as letras do Bob Dylan como se fossem poesia e me apresentou
ao Rimbaud.”
“Adoro Dylan e Rimbaud”, eu disse. “Eles foram minha porta de entrada
para a poesia beat e a literatura.”
“Eu também”, disse Gabriel, parecendo empolgado por termos encontrado
um ponto em comum. Ele olhou ao redor da lanchonete e então se inclinou para
mim, com ar de cumplicidade. “Vi o Ginsberg tomando uma tigela de caldo aqui
há algumas semanas e estava na esperança de vê-lo de novo.”
“Ah, sim, ele é um frequentador assíduo”, eu disse. Eu também era um
grande fã do poeta beat e já o tinha visto várias vezes ao longo dos anos. “Nunca
falei com ele, mas se algum dia falar, sei exatamente o que vou dizer.”
Gabriel ergueu as sobrancelhas, me incentivando.
“E aí, Al?”, Um dos poemas mais famosos de Allen Ginsberg se chamava
“Howl”.
Gabriel soltou uma gargalhada e então apontou para si mesmo. “Tá falando
comigo? Tá falando comigo? Tá falando comigo?”, disse ele, fazendo uma
imitação muito boa de um De Niro enlouquecido em “Taxi Driver”.
“Bem, sou o único aqui.” Eu estava tentando imitar um sotaque de durão,
mas o meu não chegava nem perto do de Gabriel. “Com quem você acha que tá
falando, porra?”
“Escutem, seus idiotas, seus malucos… escuta, Al, é só uivar se precisar de
mim.”
Eu nem sei por que foi tão engraçado, mas eu estava rindo tanto que meu
estômago doía. Toda vez que olhávamos um para o outro, começávamos a rir de
novo.
“E aí, Al?”, repetiu Gabriel, enxugando as lágrimas dos olhos como se fosse
a coisa mais engraçada que já tivesse ouvido.
“Dá pra acreditar?”
“Eu daria a vocês todas as gorjetas que ganhei hoje à noite só para ver isso.”
Annika cruzou o olhar com o meu e me lançou um sorriso presunçoso.
Viu? Ele é incrível. Eu não iria tão longe. Foi só um momento engraçado.
“Então você é estilista?”, ele perguntou.
“Na verdade, não. Sou uma artista em busca de reconhecimento que trabalha
em uma boutique. Uma garota precisa se sustentar”, respondi com uma risada.
“Então, por que Nova York? Por que não Los Angeles?”
Ele estremeceu. “Los Angeles não é minha praia. Eu tocava guitarra em uma
banda em Detroit, e todos aqueles caras queriam ir para Los Angeles. Eles
ficavam falando tão bem da cidade como se fosse algum tipo de Terra Prometida.
Isso sugou toda a minha energia. Acabei fazendo trabalhos como músico de
estúdio e bicos só para pagar uma passagem de avião para sair de lá. A primeira
vez que vim para Nova York, senti que finalmente tinha encontrado o lar que
sempre procurei. Agora não consigo imaginar morar em nenhum outro lugar.”
Detroit. Los Angeles. Nova York.
“Quando me mudei para Nova York, fui
assaltado…” Será que foi…?
Não. NÃO. De jeito nenhum. Foi só uma coincidência. Centenas,
provavelmente milhares de pessoas tinham uma história parecida.
Recostei-me na cadeira enquanto a garçonete reabastecia nossos cafés e
retirava nossos pratos. Quando ela se afastou, coloquei um fio de creme no meu
café e tomei um gole.
Minha perna direita não parava de tremer e eu precisava usar as duas mãos
para segurar a xícara de café. Cafeína era a última coisa de que eu precisava.
Coloquei a xícara na mesa e enfiei as mãos debaixo das coxas.
Dois anos atrás, encontrei um caderno no Tompkins Square Park. Ou, melhor
dizendo, foi o Chuck, o veterano do Vietnã com quem eu tinha feito amizade,
que o encontrou. Ele achou que eu poderia usá-lo em uma das minhas colagens.
Quando perguntei de onde ele tinha tirado aquilo, ele me contou que viu um
viciado, desarrumado e desdentado, remexendo em uma mochila. O viciado ficou
com os objetos de valor e jogou o resto fora.
Chuck também resgatou do lixo uma camisa de flanela xadrez. Ela era macia
e surrada, e ainda cheirava a sabão em pó e ao aroma almiscarado de um menino.
O caderno tinha a capa rasgada, com um padrão marmorizado em preto e
branco, e as páginas do início estavam tão danificadas pela água que as palavras
estavam ilegíveis. Mas, mais adiante, encontrei um tesouro.
Em um banco do parque, folheei páginas manchadas de café e impregnadas
da paixão de uma alma intensamente romântica. Apaixonei-me por suas palavras
e, em parte, por ele. Ele escrevia como um poeta beat, cruzando o país de costa a
costa em busca da iluminação e do verdadeiro sentido da vida.
Agora, repassei todas as razões pelas quais Gabriel não poderia, de jeito
nenhum, ser o meu “Garoto do Caderno”.
Número um. A camisa de flanela era tamanho extragrande. Gabriel era mais
alto do que eu, um pouco acima da altura média, mas era magro demais e tinha
ossos finos demais para uma camisa extragrande.
Número dois. Annika sabia tudo sobre o “Garoto do Caderno”, mas isso não
havia provocado nenhuma reação nela.
É verdade que ela só tinha dado uma olhada rápida em algumas passagens, e
isso tinha acontecido há dois anos, logo após o drama do divórcio dos pais dela.
Mas a gente costumava falar do “Garoto do Caderno” o tempo todo,
imaginando como ele seria (como o James Dean, mas mais nerd, sem a morte
prematura) e como a gente se conheceria (pegando o mesmo livro em uma
livraria de usados).
Depois de combinarmos de dividir o livro, iríamos a uma lanchonete 24
horas e conversávamos a noite toda, para depois voltarmos cambaleando para
casa ao amanhecer, embriagados de amor e beijos, e cairmos na cama. E assim
começava um relacionamento.
Anos depois, sempre que as pessoas perguntavam como a gente tinha se
conhecido, contávamos a história do caderno. “Estávamos destinados a ficar
juntos”, dizíamos, tentando não parecer muito presunçosos por, entre todos os
bilhões de pessoas no mundo, termos nos encontrado.
“Talvez a Cleo esteja com ele.”
Meu olhar se voltou rapidamente para o rosto de Annika. “Tem o quê?”
“O caderno que o Gabriel deixou no bar.” Ela riu. “O que você achou que eu
quis dizer?”
Talvez a Cleo tenha o seu caderno.
Ou sua camisa de flanela que é claramente grande demais para você, então
não poderia ser sua.
Ou talvez ela só tenha um azar danado e o destino tenha jogado uma pedra
nela.
Mas não, eles estavam falando sobre um livro perdido, uma conversa que eu
obviamente tinha perdido enquanto estava ocupada surtando e, ao mesmo tempo,
imaginando meu futuro com o Garoto do Caderno.
Controlei minha imaginação fértil e olhei para Gabriel, aliviada ao ver que
ele não se parecia nem um pouco com James Dean. Também não conseguia
imaginá-lo de óculos. “Que livro era?”
“Milan Kundera. A Insuportável Leveza do Ser. Preciso comprar outro
exemplar pra descobrir como termina.”
“Ah, é mesmo.” Acenei com a cabeça. “Você precisa terminar de ler. Não faz
ideia do que está perdendo.”
Ele ergueu a mão. “Não me conte o final.”
Fiquei boquiaberta. “O que você acha que eu sou? Uma bárbara? Daqui a
pouco você vai me acusar de ler o final primeiro.” Ele riu. “Acho que você pode
pegar o meu emprestado”, disse eu, relutante. “Mas só se você prometer devolvê-
lo.”
“Uau. Esse é um grande momento.” Annika levou a mão ao coração. “Você
nunca empresta seus livros.”
“Porque nunca os recebo de volta!”, ri.
“Se você me emprestar o livro, prometo devolvê-lo. Não sou ladra”, disse
Gabriel, olhando nos meus olhos. Olhos expressivos. Olhos sedutores. Cílios
longos e cabelo sensual.
Esse cara tinha “desilusão amorosa” escrito na testa.
Mas eu também não era ladra, então rapidamente desviei o olhar.
Ele era o namorado da Annika, o que o tornava proibido para toda a
eternidade.
Por mim, tudo bem. Meu garoto misterioso ainda estava por aí e, a essa
altura, nenhum outro cara jamais poderia se comparar a ele.
Ele não era músico. Não seria rude quando finalmente nos encontrássemos.
E, com certeza, não estaria dormindo com minha melhor amiga.
Não, ele estava procurando ativamente pela garota que havia escapado. Eu.
Eu era aquela garota de cabelos castanhos-mel e delineador borrado. E, na
semana passada, Xavier não tinha me dado dicas de maquiagem para realçar
meus lábios carnudos?
Quando nossos caminhos se cruzassem exatamente no momento certo, em
circunstâncias ideais, eu agradeceria ao destino por tê-lo colocado no meu
caminho.
Ei, Destino, esse seria o momento perfeito. Estou bem solteira. Bem
disponível. Pronta e ansiosa para conhecer o amor da minha vida.
Trecho do caderno encontrado por Cleo Babington no
Tompkins Square Park
em 17 de junho de 1990
9/6/90 East Village, Nova York
Falei com o Eddie hoje. Ele ainda está em Los Angeles vendendo a alma
para falsos deuses, mas não consegue entender por que eu fui embora.
“A Kat fica perguntando por você”, ele disse. “Ela ainda está apaixonada por
você.”
“A Kat amava a ideia de mim”, eu disse. “Ela nunca conheceu o meu
verdadeiro eu.”
“Quem conhece, cara? Sabe como é? Você tem todas essas garotas legais
se apaixonando por você porque você é tipo aquele herói trágico de um
maldito romance…” Ouvi ele estalar os dedos. “Você é tipo o Holden
Caulfield.”
Eu não tinha nada a ver com o Holden Caulfield, mas o Eddie não era
muito de ler e dava pra perceber que ele estava orgulhoso de si mesmo
por ter pensado nisso, então deixei pra lá.
Eddie me perguntou o que há de tão incrível em Nova York. Eu disse a
ele que me sinto como se estivesse conectado a uma rede de energia e
todas as minhas sinapses estivessem funcionando a todo vapor, a
adrenalina correndo pelas minhas veias e aterrissando com força no
centro do meu peito, onde meu coração se debate contra a caixa torácica,
lutando para se libertar e dançar um tango embriagado.
O Lower East Side é onde tudo acontece, querida.
Diferente de Los Angeles, aquela cidade da indústria sem alma nem
consciência, o LES ainda tem um pulso que bate forte e abre os braços
para os esquisitos, os marginalizados, os artistas e as mentes criativas da
nossa geração.
Não tem essa merda plástica e fantástica, nem posers, nem executivos da
indústria, nem viciados em fama gritando: “Olha pra mim, sou tão bonito
pra caralho, me coloca no seu filme! Me coloca na sua banda pop de
chiclete com suas porcarias artificiais, fabricadas e falsas, com seus
jingles comerciais superproduzidos, pra que todo mundo possa me ver na
MTV!”
O East Village abraça a originalidade, exige isso pra caramba, e, pela
primeira vez na minha vida, encontrei um lugar onde me sinto em casa.
O Eddie me disse que eu estava ficando louco e perguntou onde ele
poderia comprar o que quer que eu estivesse fumando.
Depois que desligamos, vaguei pelas ruas procurando a garota que
fugiu…
Uma artista com um portfólio pendurado na alça do ombro, um tubo (de
telas?) saindo dele.
Você gosta de ler, Jane? Tolstói, Rilke, Ayn Rand, Baudelaire…
Kerouac? Nos meus sonhos, você fala francês fluentemente com sotaque
britânico e me lê poemas que escreveu em um caderno Moleskine, igual
ao do Hemingway.
Suas piadas são picantes, sua alma é pura e seu coração está marcado
pelas cicatrizes de batalha de todos os amantes e falsos profetas que te
decepcionaram.
Só te vi uma vez e agora você assombra meus sonhos… talvez eu
realmente esteja enlouquecendo…
Mas todos os artistas não são tocados pela loucura?
Será que é mesmo boa arte se você não passar fome por ela, não sangrar
por ela, não dançar nu pelas ruas, embriagado pela vida e balançando um
laço, tentando capturar aquele momento fugaz e indescritível no tempo
em que sua alma se inflama e seu coração se incendeia… e traduzir essa
linguagem enigmática para o papel, o pergaminho ou a tela… moldá-la
em argila… esculpi-la em
pedra e gravá-la nas paredes das cavernas, como os humanos têm feito desde o
alvorecer da civilização…
Aproveite toda a loucura. Escreva letras acompanhadas de acordes secretos.
CAPÍTULO TRÊS
“O QUE VOCÊ ACHARIA de ser minha compradora de moda?”, perguntou
Simone. “Compradora de moda?” Ajustei a boina de lantejoulas na cabeça de
um dos manequins
e ajeitei uma saia de tule magenta. Eu a havia combinado com uma camiseta do
Keith Haring e uma jaqueta de couro azul-petróleo estilo motoqueiro.
Enquanto alguns estilistas adotavam o minimalismo, Simone estava
firmemente no campo do maximalismo. A boutique do West Village era um local
onde se podia encontrar de tudo e um ponto de encontro para drag queens, Club
Kids, celebridades, artistas e o público de vanguarda.
Eu adorava trabalhar na House of Simone, mas nunca tinha planejado fazer
disso uma carreira.
Desci da plataforma e me virei para encará-la. “Mas eu nem tenho as
qualificações necessárias.”
“Venho te orientando há anos”, disse ela, destrancando a porta e fazendo um
gesto para que eu a seguisse. “Essas são todas as qualificações de que você
precisa.”
Peguei a xícara de café que havia deixado perto da caixa registradora, e meu
olhar se fixou na data carimbada em uma nota fiscal. Verifiquei novamente o
calendário de mesa só para ter certeza.
Não era à toa que tudo parecia tão
estranho hoje. Era 24 de setembro.
Durante 364 dias do ano, eu mal pensava nele, mas sempre que esse dia
chegava, parecia que uma nuvem negra pairava sobre minha cabeça. O que era
uma grande bobagem. Por que eu ainda me importava, se nunca deveria ter me
importado?
A data não significa nada para você. É só mais uma quinta-feira.
Eu sacudi a cabeça para afastar esses pensamentos e segui Simone até a
Oitava Rua, enquanto um mensageiro de bicicleta passava voando e um táxi fazia
uma manobra brusca, buzinando e gritando palavrões. Observei um cara de
cabeça raspada e rosto tatuado conduzindo uma garota pela rua com uma coleira
presa ao colar de cachorro em volta do pescoço dela. Ela usava um saco de lixo
preto transformado em um vestido assimétrico e latia quando mandavam.
“Será que ela também dá uma rolada?”, pensei em voz alta. “Ou será que só
senta e pede?”
Simone deu uma gargalhada. “Você é safada. É por isso que eu te amo.” Ela
acenou para “Jackie Onassis”, que estava passeando com um cachorro de
verdade. Um poodle francês com um jeito mal-humorado. “Como vai hoje,
Jackie?”
Jackie, cujo nome não era realmente Jackie, mas que só respondia por esse
nome, acenou com a mão no ar de forma teatral. Ela usava óculos escuros estilo
Jackie O, um chapéu tipo pillbox e um vestido justo preto com pérolas ao redor
do pescoço. “Ah, Simone. Fiquei acordada a noite toda com meu pobrezinho.”
Seu “pobrezinho” rosnou e mostrou os dentes para mim. Eu não sabia por
que aquele cachorro me odiava tanto.
Meu amigo Xavi me disse que é porque eu emito uma forte energia felina.
“Vamos encarar os fatos, Cleo. Você é uma gata preta.”
“Coco”, murmurou Jackie. “Não rosne para a nossa adorável Cleo. A mamãe
vai te dar um petisco quando chegarmos em casa. Que menina boa… tchau,
queridos”, ela disse por cima do ombro.
É. Era só mais uma quinta-feira.
Fiquei em um raio de sol e tomei meu café, que já estava frio, enquanto
Simone inclinava a cabeça e examinava a vitrine da minha loja. Cortinas de
veludo amarelo mostarda serviam de pano de fundo, contrastando com as perucas
rosa neon dos manequins e uma profusão de joias vintage.
“Esse trabalho vai ser uma boa experiência para quando você lançar sua
própria marca”, disse Simone enquanto voltávamos para dentro, depois de
considerar que meu arranjo da vitrine havia sido aprovado.
“Minha própria marca? Não sou estilista. Sou artista.” Tecnicamente, eu era
vendedora e vitrinista, com um trabalho paralelo como artista.
Eu adorava criar coisas — desenhar, pintar, fazer colagens, tecer e costurar
—, mas nunca tive qualquer aspiração de me tornar uma estilista.
“E o que você acha que é moda? É uma forma de autoexpressão.” Ela passou
a mão pela própria roupa — shorts curtos verde-limão e uma
que contrastava com seu cabelo vermelho-cereja, mas ela combinava muito bem.
Simone sempre parecia descolada. “É arte que se veste.”
“Não, eu sei, mas...”
“O emprego vem com um aumento. Deus sabe que você está sempre
sem grana.” Eu poderia usar o dinheiro extra, mas ainda não estava
pronta para me comprometer.
Munida de Windex e toalhas de papel, limpei os cubos de acrílico rosa
choque que exibiam a “arte que se veste” — botas de lona de salto agulha
altíssimas que eu mesma havia pintado à mão com um desenho xadrez em preto e
branco.
“O que está te impedindo?”, perguntou Simone, percebendo minha hesitação.
“Não sei.” Mordi o lábio, tentando entender por que não estava aproveitando
a oportunidade. Abandonei a Columbia no ano passado para me dedicar à arte,
mas, até agora, tudo o que tinha para mostrar eram empréstimos estudantis para
um diploma da Ivy League que nunca concluí e as paredes cobertas de colagens
no meu apartamento. Não estava exatamente conquistando o mundo da arte.
Ainda.
“Acho que estou com medo de que, se seguir esse caminho, acabe
abandonando minha arte.”
“Isso é bobagem. Isso só vai alimentar sua criatividade. Além disso, não é tão
diferente do que você já está fazendo. Você tem um bom olho.” Ela colocou as
mãos nos meus ombros e os apertou levemente. “Tenho total confiança de que
você vai se sair muito bem.”
Simone acreditava em mim desde o primeiro dia em que entrei na boutique
dela pedindo um emprego, aos dezesseis anos. Ao longo dos anos, ela sempre me
incentivou a seguir minha carreira artística.
Meus grafites cobriam os provadores e duas das minhas colagens estavam
penduradas nas paredes.
Há alguns anos, eu até havia criado uma coleção de camisetas. “Beijar não
mata: ganância, discriminação e ignorância sim.”
Doamos todo o lucro para a luta contra a AIDS, e foi bom fazer minha parte,
mesmo que pequena.
Mas sempre achei que esse trabalho seria temporário. Um meio para atingir
um fim, até que eu expusesse meu próprio trabalho em galerias. Não queria me
acomodar demais.
No meu intervalo de almoço, parei em um caixa eletrônico para sacar
dinheiro. Saldo insuficiente. Bati com a palma da mão na tela, mas, para minha
surpresa, a máquina não soltou nenhum dinheiro.
Não consegui nem tirar vinte dólares daquela maldita máquina.
Sentei-me em um banco no Washington Square e contei o dinheiro da minha
carteira. Uma nota de um dólar amassada e vinte e sete centavos. Puxei minha
bolsa tipo balde para o colo e vasculhei o fundo, procurando por algum trocado.
Encontrei um balinha Lifesaver de wintergreen coberta de fiapos, dois
grampos de cabelo, uma lata de spray de pimenta e um preservativo em uma
embalagem de alumínio. É melhor prevenir do que remediar, mas isso não daria
para pagar um sanduíche de peru na lanchonete.
No caminho de volta para o trabalho, parei em uma banca de jornais e
comprei uma barra de Snickers para o almoço. Depois de entregar meu dinheiro,
virei-me e fiquei olhando bem no rosto do meu pai estampado na capa brilhante
da revista Avant-Garde.
Era o sétimo aniversário de sua morte. Era também seu aniversário. Ele teria
completado quarenta e um anos hoje.
Segundo as manchetes, o mundo ainda lamentava a perda do lendário
roqueiro britânico e enigmático vocalista dos Rogue Prophets, que morreu aos 34
anos.
Na foto, Nick Ashby usava jeans desbotados, botas surras e uma camiseta
regata sob um casaco de pele. Seu cabelo loiro empoeirado roçava a gola. Um
cigarro preso entre os lábios. Ele estava encostado em uma parede de tijolos
amarelos em um beco de paralelepípedos de Londres, com a cabeça inclinada
para trás, olhando para a câmera por entre os cílios.
Enquanto crescia, eu sempre quis me parecer mais com minha mãe. Uma
rosa inglesa com olhos à la Elizabeth Taylor. Mas eu era a cara dele. Havia
herdado seus olhos verde-grama, sua pele morena e sua estrutura óssea.
Eu o chamava de Nicky. Ele me chamava de Baby Blue, como a música que
escreveu para mim. Eu nem conseguia ouvir aquela música. Nem qualquer outra
música dele, na verdade.
Mas eu era masoquista, então peguei a revista da prateleira e fui direto para
“ENTREVISTA EXCLUSIVA COM O EX-BAIXISTA DOS ROGUE PROPHETS : IAN REES-JONES
FALA ABERTAMENTE SOBRE SEU QUERIDO COLEGA DE BANDA FALECIDO E O PROFETA
AUTO-PROCLAMADO ”.
“Éramos só um bando de rapazes se divertindo, mas o nome da banda acabou pegando.
Chamávamos o Nicky de nosso profeta. Ele sempre tinha uma visão. Tinha um dom
especial para enxergar as coisas de uma maneira que ninguém mais enxergava. Lembro-me
de uma vez em que deveríamos subir ao palco em Glastonbury e o Nicky não estava em
lugar nenhum. Todo mundo estava procurando por ele por toda parte. Finalmente o
encontramos sentado no meio de um campo lamacento, apenas olhando para o vazio. Ele
disse, e eu nunca vou esquecer isso… ‘Como você consegue, Ian? Como você
segue em frente quando o mundo fica insuportável?’ Dava para perceber que ele estava
sofrendo. Eu só gostaria de ter sido um amigo melhor…”
Em todas as entrevistas que ele já deu, Nicky dizia aos jornalistas que não
ficaria por aqui por muito tempo. Acho que foi isso que fez dele um profeta.
Enfiei a revista de volta na prateleira e fui embora, tentando me livrar
daquele peso que sempre se instalava no meu peito sempre que me lembrava
dele.
Já fazia sete anos que ele se fora, mas meu pai ainda me assombrava.
Mais tarde naquela noite, subi as escadas até meu apartamento. Morávamos no
quinto andar, ou, como minha mãe sempre dizia, na “cobertura”.
Mas se você tivesse a sorte de conseguir um apartamento com aluguel
estabilizado no East Village, não reclamava de pequenos inconvenientes como
canos com vazamentos, radiadores instáveis ou a banheira com pés em forma de
garra no meio da cozinha. Você aceitava de bom grado o piso de madeira que
rangia quando você andava sobre ele, as molduras originais caídas e as
rachaduras no reboco.
Quando cheguei ao patamar do quarto andar, o aroma do incenso Nag
Champa descia pelas escadas. Um sinal inconfundível de que Gabriel estava no
nosso apartamento.
Ótimo. Era exatamente o que eu precisava agora.
No último mês, eu tinha tentado evitá-lo sempre que possível, mas Annika
estava sempre nos forçando a passar tempo juntos.
Duas semanas atrás, Gabriel e eu aparecemos no Yaffa Café, achando que
iríamos nos encontrar com a Annika a sós. Mas não, eu era a terceira roda do
carro de novo.
Enquanto Annika servia baba ghanoush para o namorado, fui paquerada por
um imitador do Elvis. Não era o Elvis jovem. Um Elvis de meia-idade, com
óculos escuros escuros, costeletas e strass, que tentou me conquistar com uma
versão desafinada de “Burning Love”. Isso teve o mesmo efeito em mim que
aquela apresentação de comédia fracassada.
Gabriel achou “divertidíssimo”.
No domingo passado, Annika e eu combinamos de ir ao The Cloisters, e ela
levou o Gabriel junto, então eu saí por conta própria e me conectei com os
jardins medievais.
E todas as segundas-feiras à noite, eu acompanhava Annika obedientemente
ao Monks para assistir à apresentação do namorado dela.
A essa altura, mais valia me acostumar com isso. Gabriel tinha vindo para
ficar.
CAPÍTULO QUATRO
“CLEO!”, Annika me cumprimentou com um sorriso grande e bobo e tentou se
levantar, mas caiu de volta na cadeira. Ela deu uma gargalhada, enquanto Gabriel
balançava a cabeça com um sorriso divertido.
Uma caixa de pizza estava sobre a mesinha de centro e uma névoa de
maconha pairava no ar.
Por insistência da Annika para que eu me juntasse a eles, me sentei na
poltrona de couro verde-oliva em frente ao sofá, cansada demais para resistir e
sem dinheiro para recusar a fatia de pizza de calabresa que o Gabriel me
ofereceu.
Dobrei a fatia ao meio e dei uma grande mordida.
“Lembra como eu ficava toda paranóica sempre que fumava maconha?”,
perguntou Annika, levantando um dedo e me olhando com os olhos
semicerrados. “Bem, agora não mais. Estou muuuito relaxada.” Ela soltou um
suspiro, se enrolou no sofá e adormeceu na hora.
Gabriel e eu rimos.
“Ela mal fumou”, disse ele. “Duas tragadas e já ficou chapada.” “É, ela não
aguenta nada.” Sorri para minha amiga. Mesmo dormindo, ela estava
tão bonita, com o cabelo lilás espalhado pelo sofá de veludo roxo e as bochechas
coradas de um rosa lindo.
“Ela teve um dia difícil”, disse ele.
“Ah, não.” Eu me inclinei sobre a caixa de pizza para comer. “O que
aconteceu?”
“As coisas não correram bem nos ensaios hoje e aquele idiota do Trent estava
enchendo o saco dela de novo.”
“Nossa. Ele é um verdadeiro divo. Eu adoraria dar uma lição nele.”