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Annika termina um relacionamento com um músico, refletindo sobre a falta de compatibilidade e a atração física que sentia por ele. Enquanto isso, a narradora lida com seus próprios sentimentos confusos em relação a Gabriel, um amigo que a inspira, mas também provoca culpa. Após um período de introspecção, Annika se recupera rapidamente e a narradora decide seguir em frente, dedicando-se ao design de moda.

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Annika termina um relacionamento com um músico, refletindo sobre a falta de compatibilidade e a atração física que sentia por ele. Enquanto isso, a narradora lida com seus próprios sentimentos confusos em relação a Gabriel, um amigo que a inspira, mas também provoca culpa. Após um período de introspecção, Annika se recupera rapidamente e a narradora decide seguir em frente, dedicando-se ao design de moda.

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provisoriamente.
“Você estava certa sobre os músicos.” Sentamos lado a lado, com as costas
encostadas na cabeceira da cama, para conversar sobre o que tinha acontecido.
“Não dá para confiar neles.”
Meus ombros ficaram tensos. “Ele te traiu?”
“Não.” Ela balançou a cabeça. “Não acho que ele seja do tipo que trai. Ele é
honesto demais para isso. Mas eu fiz a coisa mais idiota do mundo. Disse a ele
que o amava. Falei aquelas três palavras.”
Ela escondeu o rosto nas mãos e gemeu. “Foi horrível, Cleo. Não consigo
nem pensar nisso sem me sentir envergonhada. Ele não disse o mesmo para mim.
Dá para acreditar?” Ela ergueu as mãos. “Eu digo as palavras e ele simplesmente
me deixa na mão.”
“Que idiota”, eu disse, furiosa em nome da minha amiga. “Ele não disse
nada?”
“Ele disse: ‘Acho que precisamos conversar’. Na história da humanidade,
essas palavras nunca foram um bom sinal. Dá pra acreditar nisso, porra? Ficou
um silêncio sepulcral e então… ‘Acho que precisamos conversar’”, disse ela,
imitando a voz dele.
“Tínhamos acabado de voltar pra cá depois de uma noite desastrosa fora e
estávamos os dois bêbados. A noite toda, ele ficou mal-humorado, pensativo e
bem quieto. Mas achei que talvez ele fosse apenas um daqueles caras que não
curtem aniversários e não queria que eu fizesse alarde por causa dele. Era o pior
momento possível para dizer essas palavras. Então, depois que eu disse isso,
mandei ele dar o fora, simplesmente ir embora, porque nenhum de nós dois
estava no clima certo para uma conversa séria.”
Ela soltou um suspiro trêmulo. “Na manhã seguinte, acordei com uma
ressaca terrível, mas decidi que a melhor maneira de lidar com tudo aquilo era
evitar o assunto até que eu parasse de me sentir péssima. Então fui para o estúdio
de dança, fiz todos aqueles treinos intensos e suei bastante. Depois voltei para
casa e desmaiei. Só acordei quando ele me ligou à meia-noite.”
Annika puxou um travesseiro peludo verde-menta para o colo e o apertou
contra o peito. “O final foi meio anticlimático. Fomos ao Leshko’s porque é
barato e ele nunca tem dinheiro. Foi como se o ciclo tivesse se fechado.
Terminou onde tudo começou.” Sua voz falhou ao dizer essas palavras.
“Ah, Annika”, eu disse baixinho, passando o braço em volta dos ombros
dela. “Sinto muito.”
“É uma droga. Eu gostava muito dele.” Ela encostou a cabeça no meu ombro.
“Mas acho que é melhor assim. Enquanto conversávamos ontem à noite, percebi
que nem éramos tão compatíveis assim. Eu só fingia estar interessada nos livros
que ele estava lendo. Nós nem gostamos dos mesmos filmes. Na metade das
vezes, eu nem
sabia do que diabos ele estava falando. Eu só ficava balançando a cabeça e
pensando: ‘Meu Deus, para de falar desse poeta francês idiota e me beija logo!’”
Eu sorri. “Bem, pelo menos você não vai mais ter que ouvir isso.”
Ela ergueu a cabeça. “Acho que era principalmente atração física. Quer dizer,
vamos lá, o cara é lindo. O sexo também era incrível. Tipo, não era só ‘bum,
bum’ e acabava em dois minutos. Ele realmente sabia se mexer muito bem”,
disse ela com saudade.
Felizmente, eles tinham passado muitas noites no apartamento dele, então eu
fui poupada de ter que ouvi-los transando a noite toda.
“No final, a gente só se olhou e disse: ‘Isso já chegou ao fim, não é?’ E então
ele me acompanhou até em casa, me deu um daqueles beijos carinhosos na testa e
disse: ‘Bons sonhos, Annika’. Parecia um filme. Um pouco triste, romântico e
agridoce.”
“Você está bem?”
“Sim. Vou ficar bem.” E eu acreditei nela, porque ele não era o grande amor
da vida dela. “Mas, de agora em diante, chega de músicos. Dão muito trabalho.”
Ela pulou da cama e pegou uma Polaroid enfiada em uma gravura
emoldurada de Degas acima da cômoda. “Eu deixei passar uma.”
Ela jogou a foto no meu colo e voltou para o lugar ao meu lado.
A foto deve ter sido tirada no dia em que fomos ao The Cloisters. Gabriel
estava encostado em uma coluna de mármore, olhando para longe. Eu olhei para
a foto com os olhos semicerrados. Na extrema direita, bem na borda do quadro,
consegui distinguir meu casaco com estampa de leopardo.
Ele estava olhando para mim.
A culpa me atingiu como uma facada no estômago. Rapidamente enfiei a
foto no bolso de trás para esconder a prova.
“Sabe o que eu realmente odiava nele?”
“Conta pra mim.” Eu já sabia como funcionava. Essa era a parte do processo
de rompimento em que a gente se concentrava no que não gostava no cara com
quem acabávamos de terminar.
“Eu odiava o cheiro daquele incenso idiota de Nag Champa”, disse ela.
“Odiava aquelas botas idiotas que ele usava. Uma vez, comprei cadarços novos
para ele, e ele os enfiou em uma gaveta e se esqueceu deles.”
Ela arrancou um fio do edredom florido e continuou seu desabafo. “Eu
odiava que ele nunca me deixasse entrar de verdade. Como se eu nunca o tivesse
conhecido de verdade.
Às vezes, eu me sentia apenas mais uma das fãs dele”, disse ela. “Eu era meio
obcecada por ele… e ele era… simplesmente muito bom em se esquivar.”
“Parece que a perda foi dele”, eu disse. “Como ele não conseguiu te amar?
Você é incrível.”
“Exatamente. Ele não tem ideia da sorte que teve.”
Annika era linda, engraçada, carinhosa e solidária, e tratava ele como um rei.
O que mais um cara poderia querer?
“Sabe o que mais eu odiava?”, ela disse. “Ele nunca escreveu nenhuma
música para mim. De que adianta namorar um músico se você nem é a musa
dele? Sem falar que ele é um cara muito temperamental. Acho que ele tem sérios
problemas.”
Ficamos em silêncio, pensando no músico temperamental que talvez tivesse
ou não escrito uma música sobre mim.
Eu era oficialmente a pior amiga do mundo.
Mas continuei dizendo a mim mesma que não tinha feito nada de errado e
que nunca tínhamos agido de forma inadequada.
Nenhum de nós dois jamais fez qualquer insinuação ou sugestão sexual e,
exceto por alguns toques acidentais de braço, nunca nos tocamos.
Claro, eu sonhava com ele de vez em quando, mas isso não contava. Eu não
tinha controle sobre meu cérebro enquanto dormia.
Não havia absolutamente nenhuma traição envolvida. Era o que eu ficava
dizendo a mim mesma, pelo menos.
Mas não conseguia me convencer totalmente de que isso era verdade.
Havia algo ali. Uma conexão emocional impossível de negar.
Eu sabia disso. Minha consciência culpada sabia disso. E ele também sabia.
CAPÍTULO ONZE

L6HER HH6H NICHH, dei uma olhada na minha estante e encontrei um pacote
embrulhado em jornal.
Sentei-me de pernas cruzadas na cama e desembrulhei uma fita cassete e um
exemplar surrado de “The Dharma Bums” em brochura. Tirei um bilhete de
entre as páginas. Papel pautado, dobrado em forma de quadrado.
Eu reconheci a caligrafia dele. Tinta azul. Sulcos profundos no papel sempre
que ele queria enfatizar um ponto.
Tive a sensação de que, assim que lesse essa carta, não conseguiria mais
fingir que não significávamos nada um para o outro.
Depois de respirar fundo algumas vezes, comecei a ler.

Querida Jane,

Este era o livro que eu estava lendo na primeira vez que te vi, sentada na janela de uma
lanchonete. Foi há dois anos e meio, mas ainda me lembro daquele momento com muita
clareza.
Você me lembrou uma jovem Jane Birkin (na capa do álbum *Je T’Aime… Moi Non
Plus*). Eu queria correr atrás de você, pegar sua mão e levá-la para sentar à minha mesa. Eu
já tinha a sensação, mesmo naquela época, de que poderíamos ter conversado a noite toda
sem nunca nos cansarmos.
Mas você estava com outro idiota, então não fui atrás de você. Uma grande parte de
mim achava que não precisava fazer isso. Eu tinha aquela ideia maluca de que te veria de
novo em breve. Que, de alguma forma, você apareceria na minha vida exatamente na hora
certa.
A piada acabou sendo contra mim.
Pouco tempo depois, fui obrigado a voltar para Detroit. Sem um centavo e arrasado, sem
nada para mostrar dos meses que passei em Nova York.
No ônibus da Greyhound rumo a Michigan, escrevi uma música para uma garota que
nunca conheci. Escrevi outra música no meu quarto no sótão, cheio de correntes de ar, e mais
uma enquanto meu pai estava morrendo.
Hoje me refiro àquela época como a temporada que passei no inferno, percorrendo as
esferas do Inferno de Dante. Morte, impostos e trabalhar para o patrão.
Mas você me fez seguir em frente. Ou, melhor dizendo, aquele momento fugaz e perfeito
em que vi seu rosto e isso me deu esperança.
Quando finalmente te vi de novo... bem, você sabe o resto. Não reagi bem, e peço
desculpas por isso.
Acho que o timing não é nosso forte.
E quem era aquele idiota de merda com quem você estava naquela noite? Ele estava
usando uma blusa de gola alta, Jane. Isso por si só já deveria ter sido um sinal de alerta.
Nenhum cara de blusa de gola alta jamais vai te fazer feliz.
Você é uma balada em mi menor. Você fala ao meu espírito inquieto. Introspectiva,
dramática, intensa. Uma balada de tensão e emoções não resolvidas.
Você foi o sonho mais lindo, Jane.
Obrigado pela música.
Nesse sentido, feliz aniversário.
Pare de ser tão medrosa. Você ouviu a Simone. Moda é arte, então supere isso. Você
não está se vendendo. Está usando seu talento para criar algo único que só a Cleo Babington
poderia criar.
Seja corajosa. Seja ousada. Voe alto.
Grite se precisar de mim. A qualquer hora. Em qualquer lugar. No Kiev à meia-noite ou
em um banco de igreja na Sexta-feira Santa, me ligue. Vou largar tudo para estar ao seu
lado, só pelo privilégio de segurar sua mão e nunca mais soltá-la.
Enquanto isso, te vejo nos meus sonhos.
Gabriel

Depois de ler a mensagem uma dúzia de vezes e riscar o número de telefone dele
com uma caneta Sharpie preta para evitar a tentação, dobrei o bilhete, guardei-o
de volta no livro e ri até chorar.
Então, coloquei a fita cassete no meu Walkman, coloquei meus fones de
ouvido e ouvi a voz do Gabriel. Havia apenas duas músicas, ambas originais.
Annika deve ter se confundido e misturado as letras de duas músicas
diferentes. Uma delas, eu suspeitava, foi inspirada no Cântico dos Cânticos.
A doce fragrância de vinho do seu perfume / beije-me, amante, com seus
lábios de mel e boca safada / pérolas leitosas e suspiros intermináveis…
A outra música era sobre ver a deusa banhada pelo luar pela janela, com a
chuva cintilando nas ruas iluminadas por néons.
Por que você assombra meus sonhos cafeinados / e não está aqui comigo
falando francês / enquanto leio sua triste poesia / e a noite nunca vai acabar até
envelhecermos e você enxergar minha alma / e eu nunca vou esquecer seu
sorriso / que me mostrou todos os segredos do universo…
Ouvi as músicas repetidamente até saber cada letra e cada nota de cor.
Prova de que sou masoquista.
Se doía tanto assim ouvir a música dele sem nunca tê-lo conhecido
intimamente, sem saber como era a sensação de seu carinho ou das noites
intermináveis de paixão, pele contra pele, lençóis emaranhados, seu cheiro
almiscarado e seu corpo firme, todo o peso dele me prendendo ao colchão…
Quão pior seria se ele tivesse sido meu e eu o tivesse perdido?
Você também foi o sonho mais lindo, Gabriel.
Mas será que ele era, de verdade? Arranquei os fones de ouvido das orelhas.
O presente de aniversário dele só confirmou o que eu já sabia. Nada disso era
inocente. Nem o bilhete, nem a fita cassete, nem o telefonema na sexta-feira.
Nem a camisa que fiz para ele, nem nossas conversas.
Você não precisa transar com o namorado de outra pessoa para ser uma
traidora.
Vai se foder, Gabriel Francis, por usar sua voz e suas palavras como armas
de destruição em massa.
Arranquei a fita do Walkman e a esmaguei com o salto da minha bota;
depois, desenrolei a fita até ficar emaranhada em longas fitas pretas.
Por favor, vá se foder, muito obrigada.
Só depois de ter destruído completamente a fita cassete é que o remorso se
instalou.
Rastejei para a cama e puxei o cobertor por cima da cabeça. Foi melhor
assim.
Eu precisava esquecê-lo.
CAPÍTULO DOZE

FEVEREIRO DE 1993

Annika se recuperou do término mais rápido do que eu poderia esperar. Quando


chegamos à virada do ano, ele já estava praticamente esquecido.
O que foi um alívio. Longe dos olhos, longe do coração, e hora de seguir em
frente.
À medida que as semanas e os meses passavam, consegui me convencer de
que nada disso importava mesmo. Obviamente, eu tinha romantizado toda a
situação. Era tudo apenas um sonho bobo.
Além disso, eu não namorava músicos.
Então, deixei um sonho para trás e fui atrás de um novo.
Com um empréstimo da minha mãe e a promessa de pagá-la de volta,
comecei a criar minha primeira coleção cápsula. Alimentada por cafeína e
criatividade, trabalhei sem parar, mal parando para comer ou dormir.
Eu tinha encontrado uma nova paixão e não conseguia acreditar que tinha
resistido ao design de moda por tanto tempo. Foi isso que disse à minha mãe
quando nos encontramos para um jantar mais cedo. Ela tinha vindo à cidade para
se encontrar com seu agente, que iria divulgar o livro dela para as editoras.
“Por que resisti a isso por tanto tempo?”, perguntei a ela enquanto comíamos
hambúrgueres de tofu com hijiki no Dojo.
Ela riu. “Porque você é teimosa.”
Minha mãe me contou que, quando eu era bebê, só engatinhava, embora já
fosse perfeitamente capaz de andar. Ela disse que costumava me segurar
e depois me soltava, mas, em vez de andar, eu olhava para ela com raiva e me
sentava de novo, recusando-me a me mover. Finalmente, depois de meses assim,
ela desistiu.
“Um dia, levei você ao mercado e virei as costas por um minuto”, disse ela.
“Quando me virei, seu carrinho estava vazio, e você estava correndo pelo
corredor. Correndo. Eu não conseguia acreditar. Você queria mesmo aqueles
Froot Loops.”
“Eu devo ter sido um verdadeiro pé no saco.” Eu nem conseguia imaginar ser
mãe aos dezoito anos e ainda ter que lidar com a minha atitude? Minha mãe
merecia uma medalha.
“Não. Você simplesmente sempre soube exatamente o que queria e se
recusava a se contentar com menos. Você não ia começar a andar até conseguir
correr.”

Depois do jantar, subimos a St. Mark’s Place. Era um dia frio e ventoso de
fevereiro, e tinha começado a nevar.
Um homem que vendia fitas piratas sobre um cobertor sujo assobiou quando
passamos por ele. “Tenham uma boa noite, lindas.”
“Você também!”, minha mãe gritou por cima do ombro, passando o braço
pelo meu. “Vamos dar uma passada lá para visitar o Sean.”
Meu corpo ficou tenso. “Você não tem um trem para pegar?”
Ela riu e deu um empurrãozinho de ombro no meu. “Você está tentando se
livrar de mim?”
“Não. Claro que não. Mas está nevando”, ressaltei.
“São só alguns flocos. Um café e você já pode voltar aos seus projetos”, ela
me garantiu, como se essa fosse a razão pela qual eu tivesse hesitado.
Vai dar tudo certo, disse a mim mesma. Eram cinco horas da tarde de uma
quarta-feira. Não havia motivo algum para ele estar no Monks.
Mesmo assim, dei uma olhada cautelosa ao redor do café e soltei um suspiro
de alívio depois de confirmar que ele não estava lá.
Sean cumprimentou minha mãe com um grande abraço e puxou uma cadeira
para a nossa mesa. “Quando você vai voltar para a cidade?”, ele perguntou.
“Tenho pensado nisso”, disse minha mãe, me surpreendendo. Ela nunca tinha
mencionado isso para mim. “Sinto falta da cidade.”
“Fica no sangue, não é? Toda vez que vou embora, fico louca para voltar.
Mas, quando estou aqui, sonho em dar o fora. Quem
escolhe morar nessa cidade infestada de ratos, cara pra caramba e cheia de crimes
deve ter um parafuso a menos. Mas pra onde eu vou?”
“Não tem nada pra você lá fora”, eu disse, mexendo o açúcar mascavo no
meu cappuccino e adicionando uma pitada de canela. “Fique com os malucos de
Nova York. É a melhor cidade do mundo.”
“Você teria que arrastar a Cleo daqui aos gritos e aos pontapés”, disse minha
mãe. “É, bem, ela é jovem. Ainda é uma criança. O que ela sabe?”, ele
brincou e, em seguida, apontou o queixo para mim. “Então, por que você parou
de vir nas noites de segunda-feira?”
“Gabriel era o namorado da minha melhor amiga, e eles terminaram.” Dei de
ombros como se essa fosse a única explicação necessária.
“E daí? Você adora a música dele. Não tem motivo para não dar uma
passada por aqui de vez em quando.” “De quem estamos falando?”,
perguntou minha mãe.
“Gabriel Francis”, disse Sean. “O garoto entrou aqui um dia com a cabeça
baixa, carregando um violão, e me pediu para lhe dar uma chance. Ele era só
mais um garoto desleixado que aparecia vindo da rua distribuindo demos
caseiras. Bem, deixa eu te dizer uma coisa, Alice. Esse cara tem magia. Ele
começou tocando para uma sala vazia e agora tem um público fiel, quase como
uma seita, de fãs dedicados.”
“Mágico, hein?”, minha mãe me lançou um olhar que eu ignorei
cuidadosamente. Sem dúvida, ela queria saber por que eu nunca tinha
mencionado esse mágico.
“Ele trata esse lugar como se fosse a sala de estar dele”, disse Sean.
“Simplesmente aparece a qualquer hora do dia e da noite ‘para clarear a cabeça e
relaxar com gente legal’.” Sean fez aspas com os dedos. “Quando não está se
apresentando em qualquer café aleatório do Lower East Side, ele está aqui
fazendo cappuccinos e lavando pratos.”
Meu olhar apavorado se voltou para a porta da frente. Ele poderia aparecer a
qualquer momento. “A gente devia ir...”
“Que tipo de música?”, minha mãe perguntou a Sean.
Sean recostou-se na cadeira como se fosse passar a noite ali. “Caramba, se eu
soubesse. Varia de noite para noite. Às vezes parece um cabaré aqui dentro. Ele
toca de tudo, desde músicas próprias até Nina Simone, Led Zeppelin, Dylan…
Acho que você ia adorar.”
“Sean!”, gritou o barista, por cima do chiado da máquina de cappuccino. “O
Clive está ao telefone.”
Ele se levantou e colocou a mão no ombro da minha mãe. “Preciso atender.
Mas fique por aqui um pouco. Adoraria colocar o papo em dia.”
Depois que o Sean saiu, fiz uma careta para minha mãe. “Ele gosta de você.”
Ela riu e revirou os olhos. “Não seja boba. Nós nos conhecemos há anos.”
“É, mas ele é divorciado e você está solteira, então…”
Ela riu de novo e me deu um tapinha no braço. “Pare de bancar a
casamenteira.” Mas eu tinha quase certeza de que ela estava corando. “Me conte
sobre esse músico. Ele é mesmo tão bom assim?”
Suspirei. Todos os caminhos levavam a Gabriel Francis. “Sim. Ele é
bom mesmo.” “Por que você nunca falou dele?”
Tomei um gole do meu cappuccino para ganhar tempo. “Porque eu… ele é…
quer dizer…” Agitei a mão no ar, de repente incapaz de formar uma frase
coerente.
Ela ergueu as sobrancelhas. “Então é isso?”
“Não. Não é assim. Ele é o ex da Annika. Eu mal conheço o cara.” Dei de
ombros. “Além disso, ele não é meu tipo.”
Não sei bem por que senti a necessidade de acrescentar isso, mas mal as
palavras saíram da minha boca, a porta da frente se abriu de repente e Gabriel
entrou dançando.
Desviei rapidamente o rosto e me escondi atrás de uma cortina de cabelos,
rezando em silêncio para que ele não me notasse se eu continuasse olhando para
a parede.
Já fazia três meses que ele e a Annika tinham terminado. Ele provavelmente
já tinha esquecido tudo sobre mim a essa altura.
“Gabriel”, disse a barista num tom cantado. Acho que o nome dela era Karen.
“Café?
Ou já é hora do vinho?”
Eles riram como se fosse uma piada entre eles.
Talvez ele estivesse dormindo com a Karen, e ela o estivesse enchendo de
vinho de graça e doses de uísque. Aposto que a Karen adorava todas as músicas
que ele compunha e nunca criticava a música dele. Ela provavelmente adorava o
chão que ele pisava.
Por que eu não podia ser a Karen? Uma barista despreocupada e alegre, livre
para conquistar o mágico das noites de segunda-feira.
“Você está se escondendo de mim, Cleo?”
Soltei um suspiro e apertei os olhos com força, como se pudesse fazê-lo
desaparecer. Mas não, lá estava ele, agachado ao lado da minha cadeira com um
sorriso divertido no rosto. Seu cabelo estava mais comprido, saindo por baixo de
um gorro preto e tocando a gola da camisa, e suas bochechas estavam coradas
pelo frio, mas, fora isso, ele parecia o mesmo.
Cílios ridiculamente longos. Lábios carnudos. O rosto de um poeta romântico.
Ele não é o seu tipo.
Ah, é? Então por que estou tão atraída por ele?
Ele sorriu, e todo o seu rosto se iluminou como se estivesse tão feliz em me
ver que não conseguisse conter toda a alegria. “Oi. Senti falta do seu rosto.”
“Oi.” Também senti sua falta.
Não! Não, você não sentiu. Cleo malvada. Ele mal passou pela sua cabeça.
“Posso me sentar aqui?” Sem esperar por uma resposta, ele tirou a jaqueta
militar e sentou-se na cadeira na diagonal à minha.
Ele usava um suéter de lã azul-marinho com a gola esticada e um buraco bem
acima do coração. Dava para ver a camiseta branca por baixo, e, por algum
motivo, achei isso cativante.
Depois de tirar o gorro e passar as mãos pelo cabelo bagunçado, tentando dar
um pouco de volume, ele se virou para minha mãe, a quem eu ainda não tinha
apresentado. “Oi. Sou o Gabriel.”
Ela apertou a mão que ele estendeu. “Prazer em conhecê-lo, Gabriel. Sou a
Alice, mãe da Cleo.”
“Você parece jovem demais para ser mãe dela. Eu teria achado que você era
a irmã mais velha ou uma prima distante.”
“Que charmoso”, disse minha mãe com um sorriso. “Na verdade, estávamos
falando justamente de você.”
“E você é britânico.” Ele assentiu como se estivesse confirmando algo que já
suspeitava.
Seu olhar se voltou para mim. “Então vocês estavam falando de mim, Cleo?”
Ele me lançou um sorriso juvenil. Foi adorável.
Mas tentei me manter firme diante de seus encantos.
Abanei a cabeça. “Não. Foi o Sean.” Meu olhar se voltou para o violão dele.
O estojo era mais robusto do que o da Telecaster dele e estava coberto de
adesivos. “Você não vai tocar aqui agora, vai?” Eu soei horrorizada, como se não
conseguisse imaginar nada pior do que ser submetida à música dele.
“Isso?” Ele olhou para o violão. “Não. Só ando com ele por aí pra parecer
legal.”
“Que posador.”
“Você me entendeu direitinho.” Ele tamborilou os dedos na mesa. “Então,
como está indo o trabalho de design de moda?”
“Ótimo. Estou criando minha primeira coleção
cápsula.” Ele ergueu as sobrancelhas. “É mesmo?
Você está mesmo fazendo isso?”
Não pude deixar de sorrir com orgulho. “Sim. Estou mesmo fazendo isso.
Seja como for, estou totalmente comprometida.”
“Não adianta fazer as coisas pela metade”, disse ele. “Mas não duvide de si
mesma nem por um minuto. Vai ser incrível.”
“Você parece tão confiante.”
“Porque sei do que você é capaz.”
Antes que eu tivesse tempo de responder, ele se virou para minha mãe,
deixando-me de lado.
O que foi bom. Eu precisava de um minuto para me recompor. “A Cleo
disse que você é jornalista musical?”
“Eu era. Há anos.”
“Como você começou nessa área?”
Minha mãe disse que era jovem e determinada e simplesmente pensou: por
que não?
O que eu tenho a perder?
Gabriel fez um milhão de perguntas a ela sobre os músicos que ela havia
entrevistado e quais foram os mais memoráveis. Ela falou sobre Bob Dylan, que
era famoso por ser esquivo. Janis Joplin, que ela conheceu em Woodstock e com
quem tomou um drinque. E algumas outras lendas da música que ela conheceu
nos anos 70 e 80.
Felizmente, nenhuma menção a Nick Ashby ou aos Rogue Prophets.
“Entrevistei Robert Plant em sua suíte no Park Lane, na Central Park South”,
ela contou a Gabriel. “Ele andava mancando com muletas, com seus cachos
dourados. Era adorável. Muito simpático. Tinha sofrido um acidente de carro nas
ilhas gregas. Conversamos um pouco sobre isso e sobre a banda, é claro.”
Gabriel não conseguia acreditar. Ele era louco pelo Led Zeppelin. “Jimmy
Page é um dos meus heróis. Aprendi sozinho a fazer vibrato com os dedos por
causa dele.”
“Consigo te imaginar como um adolescente angustiado no seu quarto no
sótão, cheio de correntes de ar, tocando ‘Stairway to Heaven’”, brinquei.
Ele assentiu solenemente. “Com lágrimas escorrendo pelo rosto.”
“Que alma sensível.”
“Você se lembrou do quarto no sótão cheio de correntes de ar.” Ele sorriu
como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
Mudei rapidamente de assunto, voltando a falar da minha mãe. “Minha mãe
escreveu um livro e é absolutamente brilhante.”
“Absolutamente brilhante”, disse Gabriel com um sorriso. “Deve ser coisa de
família.”
Senti minhas bochechas corarem.
Minha mãe nos observava com um sorriso divertido e então se levantou da
mesa. “Vou buscar mais alguns cappuccinos para nós.”
Meus olhos imploravam para que ela ficasse — por favor, não me deixe
sozinha com o Gabriel —, mas ela não entendeu a mensagem.
CAPÍTULO HHIRHEEN

“VOCÊ ESTÁ LINDA.” Seu olhar desceu até minha boca. “Dá vontade de beijar.”
“Não diga essas coisas.” Desenhei um padrão no açúcar derramado sobre a
mesa. Quando percebi que havia escrito um G em letra cursiva, varri o açúcar
para a palma da mão e o esvaziei no cinzeiro.
Gabriel apoiou o cotovelo na mesa e inclinou a cabeça na mão, estudando
meu rosto. “Você nunca ligou.” Soou como uma acusação.
“Annika é minha melhor amiga.”
“Eu sei disso. Mas a gente não está mais junto”, ele argumentou.
“Não importa. Você ainda é o ex-namorado dela. Então isso torna tudo
errado.”
“É mesmo?”
“Sim. Nada pode acontecer entre a gente.” O joelho dele roçou minha coxa, e
eu me afastei de repente, como se tivesse acabado de tocar em um fogão quente.
“Não agora. Nunca.”
Depois de alguns segundos de silêncio pesado, em que eu fiquei olhando para
a mesa enquanto o olhar dele percorria meu rosto, ele colocou a mão sobre a
mesa, com a palma para cima, e mexeu os dedos. “Me dá a mão, Cleo.”
Enfiei as mãos debaixo das coxas e balancei a cabeça.
Ele soltou um suspiro exasperado. “Pare de ser covarde. Deixe-me segurar
sua mão.”
“Por quê?”
“Porque você está me dizendo que não posso ficar com você, então vou ter
que me contentar com um prêmio de consolação. Vamos lá”, ele insistiu. “Só
quero segurar sua mão.”
Ele fez parecer que iria perecer e morrer se não pudesse, então coloquei
minha mão direita sobre a esquerda dele e disse a mim mesma que não era
grande coisa, que não significava
nada.
Mas eu podia sentir a corrente elétrica percorrendo meu corpo como se
estivéssemos conectados a uma rede de energia.
Química. Não era o tipo de coisa que se pudesse fingir. Ou você tinha ou não
tinha.
Para meu desespero, nós tínhamos isso de sobra.
Meu olhar se voltou para nossas mãos entrelaçadas. Seus dedos longos e sua
palma maior envolvendo a minha. Suas mãos calejadas de guitarrista, ásperas
contra minha pele mais macia.
Uma coisa tão simples, dar as mãos, mas tão íntima.
Um calor se espalhou pelo meu corpo e se concentrou na minha barriga e,
inexplicavelmente, comecei a tremer. Ele segurou minha mão com as duas mãos,
segurando-a como se fosse um passarinho pequeno e frágil que precisava
proteger.
Senti que ia chorar.
Puxei minha mão com força e me levantei tão abruptamente que derrubei
minha cadeira. Gabriel a endireitou e eu peguei meu casaco, minha bolsa e meu
cachecol, abraçando-os contra o peito.
Ele agarrou meu braço para me impedir de sair. “Não vá ainda. Quero que
você ouça minha música.” Ele mordeu o canto da boca, vulnerável. “Por favor,
fique.”
“Gabriel...”
“Não vou te tocar de novo.” Ele ergueu as mãos. “A menos que você me
peça”, acrescentou.
Olhei ao redor para as mesas cheias de pessoas tomando café, lendo livros,
fumando sem parar, conversando. “Você vai simplesmente subir lá e tocar agora
mesmo?”
“Claro. Por que não? É o que eu faço.” Ele se virou para o Sean, que tinha
parado na nossa mesa com minha mãe. “O Sean não se importa, se importa?”
“Você já age como se fosse o dono do lugar”, resmungou Sean, mas dava
para perceber que ele não se importava. Droga.
“Sou só o lavador de pratos”, disse Gabriel.
“Não espere nenhum tratamento de estrela da minha parte. Você não é o
Bono.”
“Nunca quis ser uma estrela do rock. Quando você menos espera, tá no palco
rasgando a camisa e fazendo um piercing no mamilo. Só estou nisso pela
música.” Gabriel pegou seu violão e se dirigiu ao suporte do microfone na parede
do fundo, como um trovador errante.
“Ele vai conseguir”, disse Sean. “Ele vai conseguir aquele contrato com a
gravadora. Mas não vai saber como lidar com isso.”
“De que jeito?”, perguntei.
“Sua moral. Seus ideais elevados. Ele quer manter sua música pura e
inalterada”, disse Sean. “Mas ele precisa entender de uma vez por todas que a
música é um negócio, assim como tudo o mais.”
“Talvez ele esteja feliz com as coisas do jeito que estão”, argumentei.
“Talvez ele não queira mais do que isso.”
Sean soltou uma risada irritada. “Se ele não quisesse mais, estaria em casa
tocando para as quatro paredes. Nem precisaria de público. Ele quer permanecer
anônimo, mas também quer divulgar sua música. Não dá para ter as duas coisas.”
“O Sean está certo”, disse minha mãe. “Se ele…”
Não sei o que ela estava prestes a dizer, porque Gabriel começou a cantar
“Just Like A Woman” e minha mãe se sentou na ponta da cadeira para ouvir.
Como em todos os seus covers, ele fez a música sua, mudou a composição e
cantou em um tom diferente.
Acho que nunca tinha ouvido nenhum músico colocar tanta paixão na música
como o Gabriel fez. Esse set acústico fez com que a música dele parecesse ainda
mais íntima.
Sempre que ouvia a voz dele, meu coração doía. Me dava arrepios. Me
enchia de saudade, desejo, mágoa e alegria.
Esse era o superpoder dele. A música dele fazia a gente sentir tantas coisas.
Uma enxurrada de emoções.
A julgar pela expressão da minha mãe, ela também estava encantada.
Depois do cover do Dylan, ele cantou “Reel Around the Fountain”, do The
Smiths, e “All Tomorrow’s Parties”, do Velvet Underground, seguida por uma
música original que não estava na fita que ele me deu.
A música falava dos arrependimentos que permaneciam depois que alguém
se ia. Ele lamentava ter decepcionado essas pessoas e nunca ter correspondido às
expectativas delas.
Achei linda.
Dava para sentir a dor dele enquanto cantava, e tive a impressão de que ele a
escreveu para o pai. Não que eu soubesse alguma coisa sobre o pai dele. Ele
nunca tinha falado nele. Eu estava me baseando no que tinha lido no caderno —
apenas algumas linhas, mas o suficiente para transmitir que eles tinham um
relacionamento conturbado.
Ele terminou com um suspiro e inclinou o queixo em agradecimento pelos
poucos aplausos, depois se inclinou para o microfone e falou.
“Escrevi a próxima música para a Jane”, disse ele. “Esse não é o nome
verdadeiro dela. É só o nome que inventei na primeira vez que vi o rosto dela.
Havia algo nessa garota que me atingiu bem aqui.” Ele bateu com o punho no
peito. “Boom! Lembro de ter pensado… e se ela for a única da minha vida?”
Ele riu de si mesmo. Então, seus olhos encontraram os meus. “Acho que
nunca saberemos, não é? Agora ela sempre será aquela que escapou.”
Nossos olhares se cruzaram e permaneceram fixos um no outro do outro lado
da sala, e eu amaldiçoei o destino mais uma vez por ser tão incrivelmente cruel.
Caras como ele não apareciam todo dia. Ele não era um idiota. Não era arrogante,
condescendente nem egocêntrico. Gabriel era especial.
E se ele fosse o “único na vida” para mim?
“Espero que você encontre sua Jane”, gritou uma garota da mesa ao lado,
tirando-me de vez do meu transe. “Mas, se não, eu estaria disposta a substituí-la.”
Ela lançou-lhe um sorriso radiante e se ofereceu numa bandeja de prata.
Lancei um olhar fulminante para a loira magricela com um piercing dourado
no nariz, que não conseguia tirar os olhos dele. Eu queria dar um chute na canela
dela. Ou melhor ainda, arrancar os olhos dela.
Quando meu olhar voltou para Gabriel, o canto da boca dele se curvou em
um meio sorriso, como se tivesse lido minha mente.
Meu Deus, esse cara. Ele despertava meu lado violento. Eu nunca tinha tido
um pingo de ciúme, e agora olha só para mim, procurando meu spray de pimenta.
Não literalmente, é claro. Eu não era totalmente maluca.
— Estou mantendo a fé — disse ele, com os olhos ainda fixos em mim. —
Acho que ainda há esperança.

Antes de sairmos, Gabriel escreveu um bilhete em um guardanapo de papel e


enfiou-o no bolso do meu casaco.
Saímos do café e nos despedimos na esquina. Ele disse à minha mãe que foi
ótimo conhecê-la. Ela disse que foi um prazer e que a música e a voz dele eram
extraordinárias.
Ao se despedir, ela disse: “O mundo precisa de boa música. Se te oferecerem
um contrato com uma gravadora, não recuse na hora. Sempre há espaço para
negociação. Lembre-se disso.”
Ele assentiu solenemente e disse que se lembraria. Acho que ele respeitou a
opinião da minha mãe. Acho que essa foi metade do motivo daquela
apresentação espontânea no Monks. O outro incentivo foi, obviamente, para me
torturar.
“Ah, ei”, disse ele. “Alguém sabe que horas são?”
Minha mãe disse que eram sete e meia.
“Ah, droga. Eu tinha que encontrar alguém...” Seus olhos encontraram os
meus e ele fez uma careta.
Por que você simplesmente não me diz que ia se encontrar com uma garota
sem me contar nada?
“Preciso ir correndo. Vou tocar no Cornelia Street Café”, disse ele, como se
tivesse acabado de se lembrar que tinha um show naquela noite.
Com um último olhar para mim, ele atravessou a rua correndo na neve,
atrasado como sempre, usando um gorro e uma jaqueta militar que não era grossa
o suficiente para mantê-lo aquecido no meio do inverno.
Não é problema meu. Tenho certeza de que ele encontraria muitas garotas
para mantê-lo aquecido. Tenho certeza de que a loira no café ou a garota com
quem ele deveria se encontrar ficariam mais do que felizes em dividir a cama
com ele.
Não que eu estivesse amargurada.
“Vamos lá”, disse minha mãe. “Quero ver seus desenhos antes de ir embora.”
Enquanto subíamos a Avenida A, passando pelo parque, o bilhete no bolso
do meu casaco parecia estar queimando um buraco bem no forro. Eu queria
desesperadamente lê-lo, mas, ao mesmo tempo, não queria.
Eu havia me apaixonado por suas palavras há tantos anos. Tinha idealizado
tanto a imagem dele na minha cabeça que ele não teria como corresponder à
minha visão idílica.
E, no
entanto.
E, no
entanto…
Como você conseguia se impedir de desejar alguém que não deveria desejar?
“Você é a Jane”, adivinhou minha mãe.
“É.” Suspirei. “Sou a Jane. E ele é o garoto que perdeu o caderno no parque
há três anos.”
“O caderno dele...” Ela parou no meio da calçada e segurou meu braço. “O
garoto dos seus sonhos?”
“Não é ele. Eu só… Eu era jovem e boba quando disse isso.”
Ela riu. “Você ainda é jovem.” Ela inclinou a cabeça e examinou meu rosto
sob o brilho nebuloso e ácido do poste de luz. “Então, o que você vai fazer a
respeito?”
“Nada. Não há nada que eu possa fazer.” Exceto esquecê-lo.
Segui com passos pesados pela rua e tentei me livrar da decepção e daquela
ridícula sensação de desesperança.
Parecia uma piada de mau gosto. Um bobo da corte balançando uma cenoura
na minha frente só para arrancá-la de repente, rindo e zombando: “Ha ha ha,
você não pode ter isso.”
Minhas botas deixavam marcas na lama, enegrecida pela fumaça dos
escapamentos e pelos pedestres. Nada ficava limpo e imaculado nesta cidade,
nem mesmo a neve recém-caída.
“Por que você não fala com a Annika? Tenho certeza de que ela entenderia.”
Fiquei olhando para minha mãe como se ela tivesse de repente crescido três
cabeças e estivesse cuspindo fogo. “E dizer o quê, exatamente? Que o Gabriel é
meu ‘Garoto do Caderno’, e que ele escreveu músicas sobre mim e as cantou
enquanto ainda estava com você?” Levantei as mãos. “Como você acha que isso
seria recebido?”
“Gabriel é o seu ‘Garoto do Caderno’?” Annika gritou.
Eu congelei. Meu estômago deu um salto mortal e caiu aos meus pés com um
baque.
De onde ela tinha surgido?
Fiquei imóvel, com medo demais de me virar ou de dizer uma única palavra,
como se fosse um jogo de “Estátuas” e eu fosse perder se movesse um músculo
sequer.
Por que, Deus, por que eu não tinha mantido minha boca grande fechada?
Minha mãe cumprimentou Annika com um sorriso, mas Annika nem
percebeu.
Seus olhos estavam fixos em mim.
“Vou pegar um táxi”, disse minha mãe, apertando meu braço. “Ligo para
você amanhã de manhã. Tudo vai ficar bem”, ela me garantiu.
Quem me dera poder acreditar nela.
“Diga que está brincando”, disse Annika. “Diga que você nunca esconderia
algo assim de mim. Diga!”
“Eu…” Uma coisa era esconder a verdade, mas outra bem diferente era
mentir na cara dela. Engoli em seco. “Desculpe”, sussurrei. “Sinto muito
mesmo.”
CAPÍTULO QUATRO

Sentei-me na beirada do sofá com o estômago revirado e torci as mãos enquanto


Annika andava de um lado para o outro na sala com passos rápidos e irritados.
Para lá e para cá. Para lá e para cá.
“Tive um dia péssimo e tudo o que eu queria era chegar em casa e conversar
com você, e aí eu ouço isso? Meu Deus.”
“O que aconteceu? Você quer...”
“Nada disso faz sentido”, disse ela. “Você nem sabia o nome dele.
Como você sabia que era ele? Quando você descobriu?”
“Eu meio que...” Cruzei as mãos no colo, tentando impedir que tremessem.
“Eu meio que sabia desde aquela primeira noite...”
“Meu Deus.” Ela se virou e colocou os punhos nos quadris. “Você sabia
desde agosto e nunca pensou em me contar?”, gritou ela.
Minha garganta apertou, e eu forcei as palavras a saírem. “Eu não tinha
certeza.”
“Você disse pra sua mãe que ele escreveu aquelas músicas sobre você. Mas
ele me disse que escreveu essas músicas há anos”, disse ela. “Você já o conhecia
antes de eu te apresentar a ele?”
“Não.” Balancei a cabeça. “Não. Ele me viu pela janela de uma lanchonete e
escreveu sobre isso. É isso. Foi só isso.”
“Ele escreveu um monte de músicas pra você depois de te ver só uma vez?
Uau.” Ela deu uma risada amarga. “Você deve ter causado uma boa e tanto
impressão.” “Eu...”
“Meu Deus, sou tão burra. Fiquei insistindo para vocês ficarem juntos porque
achava que você não gostava dele. No fim das contas, você gostava muito dele.”
Seus olhos se estreitaram
fendas e ela apontou o dedo para mim. “Você dormiu com ele? Você estava
dormindo com ele esse tempo todo?”
“O quê? Não.” Levantei-me do sofá e me aproximei, levantando as mãos
como se dissesse que vinha em paz. “Eu nunca faria isso com você. Nunca.”
Ela riu com desdém. “É, claro. E eu deveria acreditar nisso.” “Annika, você
me conhece...”
“Eu achava que te conhecia. Não é à toa que ele gostava tanto daquela
camisa. Você
fez essa camisa para ele.”
Lágrimas encheram seus olhos e eu quis consolar-a, então estendi a mão para
ela, tentando puxá-la para um abraço, mas ela deu um passo para trás e ergueu a
mão, afastando-me. “Fica longe de mim”, disse ela com os dentes cerrados.
Abaixei as mãos ao lado do corpo e soltei um suspiro trêmulo. “Só me diga o
que posso fazer para melhorar isso.”
“Você deveria ser minha melhor amiga.”
“Eu sou sua melhor amiga. Nunca quis te magoar...”
“E, mesmo assim, você machucou. Você mentiu para mim e me fez passar
vergonha. Aposto que você e o Gabriel deram boa risada disso, não é? Vocês
estavam rindo pelas minhas costas?”
“Não. Meu Deus.” Eu sabia que ela tinha todo o direito de estar com raiva,
mas, francamente, ela estava realmente atacando abaixo da cintura. “Não sou
esse tipo de pessoa, e ele também não.” “Claro que não”, disse ela. “Ele é
exatamente o tipo de pessoa que ficou de olho na minha melhor amiga o tempo
todo em que estive com ele. E você é exatamente
o tipo de pessoa que esconde segredos da melhor amiga!”
Abri a boca para falar, mas a fechei de novo. Não podia falar pelo Gabriel,
mas era cem por cento culpada por ter mantido tudo isso em segredo. Sem falar
que, secretamente, também sentia desejo por ele.
Eu ia direto para o inferno.
“Você deveria ter me contado, Cleo. Deveria ter sido honesta comigo.”
Ela foi a passos largos para o quarto e bateu a porta com força, enquanto eu
ficava parada no meio da sala tentando descobrir como consertar aquilo.
Alguns minutos depois, bati suavemente na porta dela e encostei a testa na
madeira. “Se precisar de alguma coisa… se quiser conversar… estou aqui, tá
bom?”
“Eu ficaria muito grata se você pudesse simplesmente me deixar em
paz, porra.” “Tudo bem.” Dei um passo para trás. “Tudo bem. Eu
vou… vou ficar no meu quarto.”
No meu quarto, peguei um livro, depois o larguei e tentei trabalhar nos meus
desenhos, mas não conseguia me concentrar.
Por fim, desabei na cama e fiquei olhando para o teto, imaginando como eu
poderia ter lidado com as coisas de maneira diferente. Não que eu não tivesse
lutado com isso. Não que minha consciência pesada não estivesse me
atormentando. É só contar para ela.
Mas quando eu deveria ter contado a ela? Antes de minhas suspeitas serem
confirmadas? Depois que ele terminou com ela? Na véspera de Ano Novo,
quando ela ergueu a taça e brindou a “novos começos, não ficar mais remoendo o
passado e chega de músicos idiotas?”
Em todos esses anos em que nos conhecíamos, Annika e eu nunca tínhamos
tido nada de importante para discutir.
Até o Gabriel aparecer.

Na manhã seguinte, acordei ainda vestida com as roupas da noite anterior.


Annika já tinha saído para o estúdio de dança, então tomei um banho e fui a pé
para o trabalho com um nó no estômago.
Quando enfiei as mãos nos bolsos, tirei o guardanapo amassado e li o bilhete
dele enquanto esperava na fila pelo meu bagel e café da manhã.

Olha, eu estive pensando nisso… não tem motivo para a gente não ser amigo, né? O fato é
que eu realmente quero você na minha vida. EU PRECISO que você esteja na minha vida
de alguma forma, e se tiver que ser como amigos, que seja (o que não quer dizer que eu não
queira mais — EU QUERO, PORRA).
Mas prefiro me contentar com algumas migalhas do que com nada. E se você me conhece
um pouco, sabe que isso é uma concessão enorme da minha parte.
Sou só um homem, Jane. Me joga uma porra de uma migalha antes que eu pereça e morra de
fome.

“Ei, moça, você vai pedir ou não? Não tenho o dia todo aqui.” Quando não
consegui fazer meu pedido rápido o suficiente, o cara atrás do balcão apontou
para o cliente atrás de mim. “Ei, cara. É, você aí. Me dá o seu pedido.”
Esses nova-iorquinos, cara, são tão impacientes.
Você não vê que estou no meio de uma crise aqui?
Se eu parasse pra pensar direito, tudo isso era culpa do Gabriel.
Se ele tivesse simplesmente vindo atrás de mim na primeira vez que me viu,
a gente poderia ter evitado toda essa confusão.
Eu teria dado um fora no David, que usava gola alta, e sairia para tomar um
café com o Gabriel; e, a essa altura, já saberíamos com certeza se fomos feitos
um para o outro ou se, afinal, não combinávamos.
Droga, Gabriel.
CAPÍTULO QUINZE

Ele estava me esperando quando saí do trabalho, encostado no prédio ao lado da


House of Simone.
Passei direto por ele, como se nem tivesse notado sua presença.
Sem se deixar abalar, ele passou a andar ao meu lado, então, é claro, acelerei
o passo e praticamente corri pela rua.
Na pressa de fugir, desci do meio-fio para a Broadway, bem no meio do
tráfego que vinha em minha direção. Gabriel agarrou a manga do meu casaco e
me puxou para um lugar seguro, bem na hora em que uma van branca passou
zunindo, a meros polegadas de onde eu estava.
Meu coração batia acelerado. Coloquei a mão sobre ele e tentei recuperar o
fôlego. Meu Deus. Foi isso que esse cara fez comigo. Eu poderia ter morrido.
Eu me virei e o encarei com raiva. “Por que você está aqui?”, perguntei,
colocando as mãos na cintura e estreitando os olhos. “Você está tentando me
matar ou algo assim?”
“Acabei de salvar sua vida”, ele protestou. “E de nada.”
“Eu não teria pisado na rua se você não tivesse me deixado tão… tão…”
Levantei as mãos no ar.
Ele sorriu. “Você está tão louca por mim que não consegue enxergar direito.
Mal consegue falar.” Seu sorriso se ampliou.
Dei meia-volta e atravessei na faixa de pedestres. Estava tentando manter a
raiva. Ela sempre superava a mágoa, em qualquer dia da semana.
“Falei com a Annika hoje”, disse ele, com naturalidade.
Meu olhar se voltou para o rosto dele. “Como assim, você falou com ela?”
“Ela apareceu no meu apartamento hoje de manhã. Me disse que
ouviu você conversando com sua mãe sobre mim, então a gente esclareceu tudo.”
Ele
deu de ombros como se não fosse grande coisa. Como se eu não tivesse perdido o
sono e a sanidade por causa disso.
“E o que você disse? O que ela disse?”, insisti. “Vamos
comer alguma coisa e eu te conto tudo.”
Parei e me virei para encará-lo. “Conta pra mim agora mesmo.”
Ele bateu os pés com as botas e soprou nas mãos. Sua respiração saía em
nuvens brancas e, como sempre, ele estava lamentavelmente mal vestido para o
tempo que fazia.
“Está fazendo vinte graus aqui fora e estou morrendo de fome. Não consigo
pensar quando estou com fome.”
Eu não queria que ele tivesse hipotermia ou morresse de fome, então cedi.
Fomos à lanchonete na Astor Place, um espaço cavernoso com paredes
amarelas, pilares vermelhos e pinturas cafonas, e nos acomodamos em uma
cabine ao lado das janelas que iam do chão ao teto.
Depois que fizemos nosso pedido a um garçom mal-humorado, Gabriel
passou o braço por cima do encosto da cadeira e sorriu como o Gato de Cheshire.
“Foi aqui que eu estava sentado na primeira vez que te vi e agora, aqui estamos
nós.”
“É, aqui estamos nós”, respondi, abatida. “Vou perder minha melhor amiga
por causa disso.”
“Você não vai perder a Annika. A situação não parece muito boa agora, mas
ela vai mudar de ideia”, ele me garantiu.
Eu não estava me sentindo tão otimista assim.
Ontem à noite, mal consegui dormir. Nossa discussão passava sem parar na
minha cabeça, mas, por mais que eu a revivesse, não conseguia dar o retrocesso e
mudar o desfecho.
Magoei a Annika com minha mentira por omissão e, se a situação fosse ao
contrário, eu também ficaria com raiva.
“Você pertencia a ela primeiro”, eu argumentei.
“Ninguém pertence a ninguém”, ele zombou. “Não sou propriedade exclusiva
dela.
Não dá para possuir ninguém.”
Embora eu entendesse a lógica dele, era dolorosamente óbvio que ele não
sabia como funcionavam as amizades entre mulheres. Talvez os homens
simplesmente brigassem e fizessem as pazes tomando algumas cervejas, mas as
mulheres não funcionam assim.
Quando você trai uma amiga (por causa de um cara, ainda por cima), isso
cria um abismo emocional que é quase impossível de superar.
Claro, Annika e eu tínhamos uma história a nosso favor, mas será que isso
seria suficiente? Eu realmente não sabia.
“Tem certeza de que não quer nada para comer?”, ele perguntou quando o
garçom trouxe seu cheeseburger com batatas fritas.
Abanei a cabeça e tomei um gole de café. O gosto era de lama amarga. A
cafeteira provavelmente estava no fogão desde a manhã. “Preciso saber o que
aconteceu com a Annika.”
“Ela queria saber por que eu a enrolei por quatro meses”, disse ele, batendo
na lateral do frasco de Heinz e servindo ketchup no prato. “Por que não terminei
tudo assim que percebi quem você era?”
“Argumento válido. Por que você não terminou?”
Ele pensou nisso por um momento. “No começo, você era apenas… Eu não
te conhecia, Cleo. Eu conhecia a garota que eu havia imaginado na minha
cabeça, mas não conhecia você. E eu gostava da Annika. Por falta de uma palavra
melhor, ficar com ela era fácil. Não havia preconceitos. Nenhum castelo no ar.
Mas você…”
Ele enfiou algumas batatas fritas na boca e mastigou, com o olhar vagando
para a janela, enquanto eu fitava seu perfil e me distraía momentaneamente.
Ele tinha a boca mais sensual. Cílios escuros. Rosto expressivo.
Gabriel era uma alma velha. Ele exibia suas emoções como um soldado
cansado da batalha que havia lutado nas trincheiras e testemunhado o melhor e o
pior da humanidade, mas ainda se agarrava à esperança de que o mundo fosse um
lugar lindo.
Eu ansiava por traçar as curvas e os contornos de seu rosto com as pontas dos
dedos.
Desenhá-lo. Capturar sua alma e seu espírito em uma tela.
“Parecia que eu te vi em um sonho e então você se materializou diante dos
meus olhos, e eu não sabia bem o que fazer com isso”, disse ele. “Você não é
nada como eu esperava e, ainda assim, é tudo e muito mais. Nós não nos
conhecemos de verdade, mas sinto como se te conhecesse há uma eternidade.”
Ele estendeu as mãos. “Interprete isso como quiser, Jane.”
O que eu queria dizer a ele era que havia uma grande chance de eu não ser a
garota dos sonhos que ele imaginava, mas tudo o que eu disse foi: “Meu nome
não é Jane.”
“Eu sei quem você é”, disse ele. “Você é Cleo Babington. A artista. A musa.
A garota que finge ser durona, mas gasta seu último dólar em uma xícara de café
para um morador de rua a quem trata como amigo. A garota de coração rebelde e
sagacidade afiada que escolhe homens que jamais seriam capazes de apreciar as
maravilhas de sua mente. Você é a garota que fez uma camiseta para mim.”
O morador de rua era Chuck, aquele que encontrou o caderno do Gabriel. No
dia em que fomos ao Yaffa Café, Chuck estava na esquina reclamando sobre
gentrificação e de como o East Village estava indo por água abaixo. Comprei
uma xícara de café para ele e fiquei conversando com ele por um tempo, mas
Annika e Gabriel tinham ido na frente, então eu nem tinha percebido que ele
tinha visto aquilo.
“Eu não deveria ter feito aquela camiseta idiota para você”, murmurei.
Ele riu, divertido, e terminou seu hambúrguer em três mordidas, depois
recostou-se na cadeira. “E agora? Para onde vamos a partir daqui?”
“Para casa. Separadamente. Mas só depois que você me contar o resto da sua
conversa com a Annika.”
Ele me contou que Annika estava chateada, o que era compreensível, e que
ela não conseguia entender por que eu tinha escondido isso dela. “Ela também
mencionou que você encontrou meu caderno e que já o tem há anos. Quer
explicar?”
Eu me contorci na cadeira, mas não deveria ter ficado surpresa que Annika
tivesse contado a ele sobre isso. Aquele caderno era o motivo de todo o meu
engano.
Depois que contei a história para ele, omitindo a parte em que cheirei a
camisa dele, obviamente (não precisava parecer uma esquisita total), Gabriel
ficou me olhando com uma expressão atordoada e então começou a rir.
Eu não conseguia ver o que havia de tão engraçado nisso tudo.
“De quantos sinais mais você precisa?”, ele disse. “Até o universo acha que a
gente foi feito um para o outro. Não dá pra simplesmente deixar isso de lado sem
ver aonde isso vai nos levar.”
Vai em frente, incitou o diabinho no meu ombro. Você sabe que o quer.
Mas o anjo chato no meu outro ombro se intrometeu. Pare com isso.
Os caras vêm e vão, mas os amigos são para sempre.
Mesmo assim, eu hesitei. Estava tão tentada a me lançar por cima da mesa,
agarrar a camisa dele e beijá-lo até ele ficar tonto que foi um milagre meu
traseiro ter permanecido firmemente plantado na cadeira.
Eu queria que ele me empurrasse contra a parede e enfiasse a língua na
minha boca, enquanto suas mãos percorriam meu corpo e meus dedos puxavam
as pontas do cabelo dele, implorando por mais.
Eu queria vê-lo dormir e queria acordar nos braços dele e dançar um tango
embriagado.
“Venha para casa comigo”, ele disse.
Meu Deus. Eu queria muito. Eu o queria mais do que já havia querido
qualquer outra pessoa. Não apenas fisicamente, mas de todas as maneiras
imagináveis.
Queria ficar acordada a noite toda conversando sobre livros, música, arte e
vida. Nossas esperanças, nossos sonhos, nossos medos e nossas conquistas.
Eu queria segui-lo por toda parte como uma fã e nunca perder um único
show. Queria fazer uma camisa para ele para cada dia da semana, enquanto ele
tocava violão e compunha músicas no quarto ao lado.
Eu queria ser a garota a quem ele dava um beijo de boa noite.
Eu queria algo real e bom. Algo extraordinário.
Não queria me contentar com migalhas. Queria o bolo inteiro e queria comê-
lo também.
Mas o universo deu uma sacanada. Eu não podia me apaixonar por ele
porque isso magoaria a Annika, então eu precisava ir embora agora, antes que
fosse tarde demais.
Saí da cabine e peguei meu casaco, determinada a permanecer forte, mesmo
enquanto minha mente repetia silenciosamente: “Eu te quero. Eu te quero. Eu te
quero. Eu te quero tanto que chega a doer fisicamente.”
“Desculpa. Não posso. Adeus, Gabriel.”
Contendo as lágrimas, saí correndo da lanchonete e atravessei a rua com o
coração pesado e um milhão de “e se” passando pela minha cabeça.
Quando cheguei em casa, encontrei um bilhete da Annika que apagou meu
último lampejo de esperança.
Vou ficar com meu pai por um tempo. Não posso ficar perto de você agora,
então, por favor, fique longe e não tente entrar em contato comigo.
CAPÍTULO 6

TRÊS SEMANAS depois que Annika me abandonou, a tempestade do século


varreu a Costa Leste e despejou um pé de neve sobre a cidade de Nova York.
A tempestade de neve, acompanhada por ventos de força de vendaval e
trovões, foi bíblica.
Ficamos sem energia por três dias e tive que finalizar meus projetos à luz
fraca e cinzenta do dia e à luz de velas à noite. Então, um cano estourou no
telhado e começou a vazar água pelo teto da sala, então tive que empurrar todos
os móveis para o meio da sala e colocar panelas e frigideiras para coletar o
excesso de água.
Mas, apesar do transtorno, eu tinha suéteres e cobertores suficientes para me
manter aquecida e ainda tinha um teto sobre minha cabeça. Eu tinha sobrevivido.
Nem todo mundo teve tanta sorte.
Segundo as notícias, o número de mortos estava aumentando.
Quando finalmente me aventurei a sair para procurar Chuck, montes de neve
na altura da cintura se alinhavam nas ruas, e fazia tanto frio que uma fina camada
de gelo se formou no cachecol de lã enrolado em volta do meu nariz e da minha
boca. Percorri todo o Lower East Side e o Bowery, verificando abrigos para sem-
teto e perguntando a todos se tinham visto o homem da foto. Todos balançaram a
cabeça e disseram que não.
Depois de esgotar minha lista de lugares onde Chuck poderia ter se
refugiado, eu já estava prestes a voltar para casa para ligar para os hospitais
quando me lembrei de ele ter mencionado uma igreja na East Twelfth Street que
frequentava, apesar de ser ateu.
Valia a pena tentar, então subi a Second Avenue com o rosto enfiado no
cachecol.
“Cleo?”
Levantei a cabeça. Gabriel e um cara loiro com rabo de cavalo estavam do
lado de fora do Moishe’s, a padaria kosher. Gabriel passou o braço pelos meus
ombros e me apresentou ao amigo dele. “Cleo, esse é o Devin, meu fornecedor
de maconha. Ele também é um guitarrista e tanto.”
“Quer ficar chapada?”, perguntou Devin. Seus olhos estavam vidrados, e ele
já parecia chapado.
“Hum, não, por enquanto estou bem,
obrigada.” “Aonde você está indo?”,
perguntou Gabriel. “Para a igreja.”
“Não é Sexta-feira Santa, mas tudo bem, vamos lá”,
disse ele. Lancei um olhar para ele. “Você está
chapado?”
“Chapado de vida”, ele disse, e ele e o Devin caíram na gargalhada, enquanto
eu balançava a cabeça como se não tivesse ficado bêbada de vodca ontem
mesmo. Meu café tinha acabado, mas encontrei uma garrafa meio vazia no
armário. Momentos de desespero.
“Por que você vai à igreja?”, perguntou Gabriel, bem na hora em que Devin
disse: “Cara, vou dar o fora. Vejo você à noite. Traga a Cleo. E, Cleo, traga suas
amigas”, gritou ele por cima do ombro.
“Vou à igreja procurar o Chuck”, respondi, apontando com o polegar por
cima do ombro. “Então, nos vemos por aí...”
“Ei. Vou com você”, disse ele, acompanhando meu passo. “Chuck e eu
somos amigos agora.”
Lancei-lhe um olhar de soslaio. “Você tá mesmo chapado, né?”
“Não.” Ele riu. “Talvez. Mas encontrei o Chuck há algumas semanas. Ele
estava na esquina recitando o Kaddish, e eu disse a ele que sou um discípulo leal
de Ginsberg. Também disse que sou amigo de você. Ele soube quem você era na
hora. É um cara legal. Tivemos uma longa conversa e colocamos o mundo nos
eixos.”
“Aposto que sim”, disse eu secamente, mas, no fundo, gostei que ele tivesse
parado para conversar com o Chuck.
“Hoje você parece a heroína de um romance russo.”
Eu estava enrolada em um casaco de pele vintage felpudo, com um gorro de
lã na cabeça. “Me sinto como uma. Com uma ressaca trágica. Ainda consigo
sentir a vodca balançando no meu estômago. Ontem ouvi Coltrane e pintei minha
alma em uma tela. Usei muitos tons de cinza.”
“Uau. Você vai para um lugar sombrio quando está bêbada”, disse ele. “É
como se falássemos a mesma língua alimentada por bebida. Espero que tenha
sido o ‘A Love Supreme’ Psalm.”
“Claro que foi.” No meio do meu torpor alcoólico, liguei para o Xavi e disse
a ele que ia morrer sozinha e que ninguém encontraria meu corpo por semanas
porque eu estava tãããão sozinha. Também pedi que ele lesse o
poema de W.H. Auden sobre parar todos os relógios no meu funeral, mas que
mudasse o “ele” para “ela”.
Eu só sabia disso porque Xavi me ligou esta manhã para se certificar de que
eu ainda estava viva e me contou toda a conversa, fazendo questão de me lembrar
que ele se ofereceu para sair de seu apartamento aquecido e caminhar com
dificuldade pelas nevascas e pelo frio cortante para me fazer companhia.
Aparentemente, eu o tinha assegurado de que o que conta é a intenção e que eu
nunca pediria que ele fizesse tal sacrifício.
Mas essa era a versão dele da história. Eu não conseguia me lembrar da
minha.
O vestíbulo da igreja católica romana com cúpula de cobre cheirava a
incenso e lírios murchos. Um clima fúnebre. Eu esperava que aquilo não fosse
um mau presságio.
Uma senhora hispânica mais velha, carregando uma pilha de hinários, nos
cumprimentou. “Sinto muito, mas a confissão acabou de terminar.”
Devíamos parecer os dois maiores pecadores da cidade. “Estamos
procurando nosso amigo”, disse Gabriel. “Um morador de rua...” Era
minha deixa para mostrar a foto.
A mulher deu uma olhada na foto. “Ele me parece familiar. O padre Francis
talvez possa ajudá-los. Sigam-me.”
“Padre Francis”, Gabriel articulou com os lábios enquanto seguíamos a
mulher por um labirinto de corredores escuros e estreitos. Eu tentava não criar
muitas expectativas, mas se o padre Francis não pudesse nos ajudar, quem
poderia?
No fim do corredor, a mulher bateu em uma pesada porta de madeira e
espiou para dentro. Alguns segundos depois, ela nos informou que o padre
Francis ficaria feliz em falar conosco. Agradecemos e entramos em uma pequena
sala com painéis, carpete cinza surrado e cadeiras de madeira dispostas em
semicírculo. Havia um livreto de orações no assento de cada cadeira.
O padre Francis levantou-se para nos cumprimentar. Ele parecia mais um
boxeador do que um padre, com um físico robusto, cabelos escuros cortados bem
rente ao couro cabeludo e um nariz proeminente que parecia ter sido quebrado
uma ou duas vezes.
Ele nos convidou a sentar em frente a ele, e eu cruzei as mãos e os
tornozelos. Me senti como uma criança do ensino fundamental sendo chamada à
sala do diretor
escritório. Gabriel parecia completamente relaxado, encurvado na cadeira com o
braço apoiado no encosto da minha, como se fôssemos um casal.
“Em que posso ajudar…?”
“Cleo. Este é o Gabriel.”
“Você gostaria de se confessar?”
“Ah. Não.” Fiquei olhando para o crucifixo na parede. Sempre tive uma
queda por Jesus. Um rebelde, um marginalizado, um homem que se manteve fiel
às suas convicções, apesar das consequências. Ele era a verdadeira estrela do
rock. “Não sou católica.” Soou como um pedido de desculpas.
“Eu costumava ser corista”, comentou Gabriel. “Mas agora sou um católico
não praticante. Não acredito em religião organizada nem em toda a culpa que a
Igreja Católica impõe a você...”
Dei uma cotovelada nas costelas dele e lancei um olhar de soslaio. É isso que
você diz para um padre?
Gabriel ergueu a mão. “Sem ofensa, padre.”
O padre Francis parecia estar contendo um sorriso. “Sem problema”, disse
ele. “Então, o que os traz aqui hoje?”
“Na verdade, estamos procurando alguém.” Tirei a foto do Chuck do bolso e
a entreguei ao padre Francis. “Ele é um morador de rua e estamos preocupados
com ele por aí nesse frio”, expliquei. “Esperávamos que o padre tivesse visto
ele?”
O padre olhou para a foto por apenas dois segundos antes de devolvê-la.
“Mais um que não acredita em religião organizada”, disse ele com um sorriso.
“E, mesmo assim, ele aparece quase todos os dias. Charles e eu tivemos algumas
discussões bem animadas ao longo dos anos. Vocês ficarão felizes em saber que
seu amigo está seguro e aquecido. Ele tem dormido em um colchão no porão.” O
padre Francis se levantou, então nós também nos levantamos. “Vocês podem até
encontrá-lo sentado em um dos bancos da igreja.”
Soltei um suspiro de alívio. Por que eu sempre esperava más notícias?
“Muito obrigado.”
“Obrigado, padre”, disse Gabriel, apertando a mão do padre. Ao sairmos pela
porta, Gabriel perguntou: “A propósito, esta igreja tem um órgão?”
“Na verdade, sim.”
CAPÍTULO SETE

NÃO SEI como ele conseguiu, mas Gabriel, o descrente, encantou o padre Francis
a ponto de convencê-lo a deixá-lo tocar o órgão.
Sentei-me no banco da frente ao lado de um padre católico enquanto o Anjo
Gabriel nos transportava para os céus. Brincadeira.
Só o Gabriel tocaria “Light My Fire” no órgão de uma igreja católica na
frente de um padre. Uma música que fez com que os Doors fossem banidos do
The Ed Sullivan Show. Não que eu acreditasse em censura, mas, vamos lá, há um
momento e um lugar para tudo.
Felizmente, ele era um padre legal, e Gabriel tocou lindamente, mas eu mal
podia esperar para sair dali.
Na saída, o padre Francis nos incentivou a voltar. Gabriel disse que ele
provavelmente era fã de Jim Morrison. “Olha só, um padre que aprecia um
rebelde poético.”
Tive a sensação de que ele estava apenas sendo educado.
Dez minutos depois, eu me vi sentada em frente ao Gabriel no Kiev. Ele
ainda estava empolgado por ter tocado órgão, e eu estava com tanto frio e tanta
fome que mal resisti.
E tudo bem, eu adorava estar com ele. Como amigos, porém. Apenas amigos,
nada mais. Certamente, não havia mal nenhum nisso.
Ele estava especialmente bonito hoje, com um moletom preto com capuz, o
cabelo todo despenteado e um sorriso torto que era só para mim.
“Boas notícias sobre o Chuck”, disse ele depois que pedimos comida
suficiente para alimentar um pequeno exército. “Ele me contou como te
conheceu. Disse que você teria sido uma revolucionária e tanto.”
Dei de ombros. “Só fiz o que qualquer um faria.”
Gabriel deu uma risadinha. “Você não pode estar falando sério. A maioria
das pessoas teria feito vista grossa. Você tinha, o quê, dezessete anos, e estava
bem ali no meio dos distúrbios, no meio daqueles policiais a cavalo, lutando
pelos direitos de um morador de rua? Isso não é algo que qualquer um faria.”
“Eu só me deixei levar pela situação e, quando vi aquele policial acertar
Chuck na cabeça, fiquei com tanta raiva”, disse eu. “Ele nem estava fazendo
nada, Gabriel. Tinha um corte enorme na cabeça, com sangue escorrendo pela
testa. Ele não merecia aquele tratamento.”
“Bem, vou te dizer uma coisa: se algum dia acontecer um apocalipse zumbi,
quero Cleo Babington lutando ao meu lado. Caramba, você vai liderar toda a
brigada desorganizada.”
Eu sorri. “Vamos torcer para que não chegue a esse ponto. Não vamos
sobreviver com a comida dos meus armários, isso é certo. Comi uma lata de
pedaços de abacaxi no café da manhã e acabei com o pote de manteiga de
amendoim e minha última lata de sopa durante a tempestade do século. Agora
tudo o que tenho é um pote de cerejas maraschino, um saco de marshmallows e
uma lata de azeitonas.”
“Tenho uma caixa de cereal, uma lata de feijão refrito e duas latas de
sardinha que estão na minha despensa desde o governo Reagan”, disse ele. “Elas
vieram com o apartamento. Assim como as baratas.”
“Que vidas glamorosas levamos.”
“Como dois revolucionários russos.”
“Tem sido um inverno longo e cruel.” Suspirei dramaticamente, levando a
mão ao coração. Tinha sido uma piada, mas Gabriel assentiu com ar sombrio.
“O mais longo e o mais cruel”, disse ele, seus olhos encontrando os meus e
transmitindo a mensagem de que não estávamos falando sobre o tempo.
Gabriel se mexeu na cadeira e nossos joelhos se tocaram.
Eu poderia ter me afastado. Poderia ter garantido que nenhuma parte do meu
corpo tocasse em nenhuma parte do dele. Poderia ter baixado os olhos.
Não fiz nada disso.
A intensidade do seu olhar refletia a minha e nós dois nos inclinamos quase
imperceptivelmente, como flores se curvando em direção ao sol.
O tempo deixou de existir, e o barulho dos pratos e talheres, além das
garçonetes gritando “Mama! Preciso de duas tigelas de borscht e kasha
varnishkes” para o cozinheiro robusto, transformou-se em um zumbido distante.
Quando a comida chegou, nos afastamos, mas nossos joelhos ainda se
tocavam.
Devorei uma panqueca de batata regada com creme azedo e compota de
maçã, espetei um pierogi e comi uma tigela de borscht fumegante e fatias de pão
challah como uma heroína de um romance russo que acabara de sobreviver ao
inverno mais longo e cruel de sua vida.
Não me lembro de já ter sentido tanta fome assim.
“Como estão as coisas com a Annika?”, perguntou Gabriel. Essa foi uma
maneira de estragar meu apetite. “Vocês resolveram as coisas?” Ele parecia tão
esperançoso.
Annika ainda era um assunto delicado, então tomei meu café e evitei
completamente a pergunta. “Vamos falar de você.”
Ele afastou o prato vazio e recostou-se na cadeira, esticando os braços acima
da cabeça e estalando os dedos como se estivesse se preparando para subir no
ringue para a luta de sua vida. “O que você quer saber?”
“Ah, você sabe, o de sempre. Relacionamentos passados, sua infância, o que
você faz todo dia, seus segredos obscuros e prazeres culposos… Me conte a
história toda da sua vida.”
“Uau. Tudo bem.” Gabriel riu e tamborilou os dedos na mesa. “Vamos ver.
Não me sinto culpado por nada que me dê prazer. Vou invocar a Quinta Emenda
quanto aos segredos obscuros. Por enquanto”, acrescentou. “Minha infância foi
solitária. Meus relacionamentos passados me tornaram mais humilde, me
iluminaram, me elevaram e me derrubaram. No fim das contas, eles me
ensinaram que eu precisava crescer de uma vez por todas e descobrir quem eu
sou.”
“E você já descobriu? Já descobriu quem é?”
“Sei quem eu não sou”, disse ele, deixando por isso mesmo. “E o que faço
todos os dias? Canto para ganhar o pão. Toco órgão em igrejas. Escrevo letras em
lavanderias. Ouço música. Todos os dias. Rock, punk, metal, soul, jazz. Cantoras
francesas, percussionistas africanos e poetas sufistas paquistaneses. Toco meu
violão religiosamente e, se não tivesse a música…”
“Você pereceria e morreria”, completei.
Ele assentiu solenemente. “Uma vida sem música não valeria a pena ser
vivida.”
Eu não queria ouvir isso, mas havia boas chances de que ele sempre tivesse
música em sua vida, então me contentei com isso.
Mas, só por precaução, perguntei se ele era viciado em drogas.
“Viciado? Não. Já experimentei um pouco. Cocaína não é pra mim.
Experimentei cogumelos algumas vezes e consigo ver os méritos, mas não estou
ansioso pela próxima dose. Acredito que a maconha deveria ser legalizada e
nunca experimentei heroína.”
Gabriel apoiou o cotovelo na mesa, descansou a cabeça na mão e ficou me
encarando pelo que pareceu uma eternidade. Normalmente, eu me sentiria auto-

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