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2011
Mestrado em Turismo e Património apresentado
ao Departamento de Letras do Centro Regional
das Beiras da Universidade Católica Portuguesa.
Orientação
Co-orientação
A todos os Peregrinos…
iii
AGRADECIMENTOS
Ainda que o caminho seja longo e com etapas difíceis, quando é percorrido com a
companhia certa, tudo se torna bem mais simples.
Por isso, quero agradecer a todos aqueles que me ajudaram a trilhar o caminho, pois
sem eles não teria sido possível chegar ao fim desta caminhada:
À minha orientadora, Prof. Doutora Fátima Eusébio, sobretudo uma Amiga que
sempre acreditou em mim e me transmitiu grande coragem e confiança ao longo da sua
orientação dedicada. Sempre disponível para escutar as minhas dúvidas e apontar os melhores
caminhos quando me sentia mais desanimada e desorientada.
À minha co-orientadora, Prof. Doutora Ana da Piedade Pinheiro, que me incentivou
para este Caminho, tendo sempre uma palavra amiga a dizer.
Ao Prof. Doutor Inês Vaz, que sempre se disponibilizou para me ajudar e que me
indicou algumas obras, cruciais, para o desenvolvimento da tese.
A todos os Professores, que muito me incentivaram para a realização deste trabalho,
mostrando-se sempre disponíveis.
Aos funcionários do Pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa e das
Faculdades da Universidade de Santiago de Compostela, pelo seu apoio e carinho que sempre
me dispensaram.
A todos os meus Amigos, que sempre acreditaram em mim e que me apoiaram nos
bons e nos maus momentos, dando-me palavras de incentivo e de coragem, nunca me
deixando perder a força e a garra necessárias.
iv
A todos os meus Amigos Escuteiros, em especial, aos que partilham comigo a
“paixão” pelo Caminho de Santiago e que me acompanharam em muitas aventuras,
incentivando-me a dar mais um passo em frente, ainda que pudesse tropeçar, sem nunca
perder o sentido de que o caminho é assim mesmo... nem sempre é fácil, mas são as
dificuldades que nos dão força para continuar.
À minha família, especialmente aos meus Pais e aos meus Irmãos que, nestes últimos
anos, viveram comigo a redescoberta do Caminho de Santiago, sempre com fascínio e com
uma elevada dedicação, apoiando-me nos meus momentos de fraqueza, e acreditando sempre
no sucesso deste trabalho e na recompensa do meu esforço.
v
ABREVIATURAS
vi
ÍNDICE
Resumo ………………………………………………………………………...11
Abstract ………………………………………………………………………...12
Introdução ……………………………………………………………………...13
I Parte
Capítulo I
São Tiago, Apóstolo
1. Dados Biográficos ………………………………………………... 17
2. Trasladação do Corpo do Apóstolo ………………………………. 25
3. Descoberta do Corpo do Apóstolo ……………………………….. 27
4. Milagres do Apóstolo ………………………………………………. 29
5. Fontes: Complexidade e Contradições ……………………………. 29
Capítulo II
As Peregrinações
1. As Peregrinações …………………………………………………... 41
2. Motivos da Peregrinação …………………………………………... 47
3. “Impacto” da Peregrinação nos Territórios ……………………… 49
vii
Capítulo III
A Peregrinação a Compostela
1. Peregrinação a Compostela: Origem e Evolução ………………... 52
1.1. Dinâmicas em torno da Peregrinação a Compostela …………... 57
1.2. Motivos da Peregrinação ………………………………………. 61
1.3. Formas de Peregrinação ……………………………………….. 64
1.4. Estruturas e Instituições ligadas à Peregrinação …………….. 65
1.5. Ano Santo …………………………………………………….... 72
Capítulo IV
O Caminho de Santiago
1. Rotas de Peregrinação …………………………………………...… 89
1.1. Caminho Francês ………………………………………………. 90
1.2. Caminho Primitivo …………………………………………….. 91
1.3. Caminho do Norte ……………………………………………... 91
1.4. Caminho Inglês ………………………………………………... 92
1.5. Caminho Português ……………………………………………. 93
1.6. Caminho do Sudeste / Via da Prata ……………………………. 93
1.7. Caminho do Mar de Arousa e Rio Ulla ………………………... 94
1.8. Caminho de Fisterra / Muxía …………………………………... 94
viii
2. Sinalização ……………………………………………………….... 95
3. Itinerário Cultural Europeu e Património da Humanidade…………. 96
Capítulo V
Iconografia
1. Iconografia de São Tiago …………………………………………... 99
1.1.São Tiago Apóstolo …………………………………………. 101
1.2.São Tiago Peregrino ………………………………………… 101
1.3.São Tiago Cavaleiro ………………………………………….. 103
II Parte
Capítulo I
Turismo e Peregrinação
1. Conceitos de Turismo ……………………………………………… 108
1.1. Evolução Histórica do Turismo …………………………… 113
2. Turismo Cultural e Turismo Religioso …………………………….. 116
2.1. Turismo Cultural …………………………………………… 116
2.2. Turismo Religioso ……….……………………………….... 120
3. Potencialidades turísticas ………………………………………….. 123
Capítulo II
Os Caminhos Portugueses de Santiago
1. Os Caminhos Portugueses de Santiago ao longo dos séculos …..…. 127
1.1. Os Caminhos Portugueses marcados ………………………... 130
2. O Caminho Português Interior de Santiago ………………………... 133
ix
Capítulo III
O Caminho de Santiago entre Viseu e Chaves – proposta para uma rota
iconográfica: “Peregrinar com a iconografia de São Tiago”
1. Projecto e seus Objectivos …………………………………………. 136
2. O Traçado ………...………………………………………………... 136
3. Descrição do Percurso ……………………………………………... 137
4. Elementos Iconográficos no Caminho …………………………….. 144
5. Difusão e Divulgação …………………………………………….... 152
6. Articulação com a envolvente ……………………………………... 154
x
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
RESUMO
11
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
ABSTRACT
Considering the importance of Saint James Way, as a pilgrimage route and also as a
cultural itinerary, the present dissertation discusses historically Saint James life and his
important “action” in the Iberian Peninsula, which caused a pilgrimage movement to
Compostela, since medieval times to the present day.
Synthesizing the history of pilgrimages, it is presented the pilgrimage to Santiago de
Compostela, with its peculiarities, including its unique pilgrims.
The Saint James Way becomes a system of ways spread throughout Europe, that living
under the same spirit, becomes the first European Cultural Itinerary and later in a World
Heritage Site.
The dichotomy between tourism and pilgrimage allows addressing the concepts of
tourism, cultural tourism and religious tourism.
Being one of the Portuguese Ways to Santiago, the Way that connects Viseu to Chaves
is the starting point for the presentation of an iconography route proposal, in which is
explored the iconography associated to Santiago, that can be found in the Way.
Key-words: Saint James, Pilgrimage, Saint James Way (Camino de Santiago), Iconography,
Tourism.
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A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
INTRODUÇÃO
A nossa forte ligação ao Caminho de Santiago, e dentro deste, aos símbolos que lhe
estão associados, desempenhou um papel primordial na escolha do tema da presente
dissertação de Mestrado, tanto mais que, na actualidade, o mesmo tem suscitado um grande
interesse, não só pelos Peregrinos que o percorrem, mas também pelos investigadores que
pretendem conhecer mais profundamente esta realidade e as instituições, sobretudo públicas,
que têm promovido estratégias de dinamização associadas aos Caminhos.
Na mesma linha, foi escolhido um tema que abordasse, necessariamente, a região de
Viseu, uma vez que é nesse espaço que se encontram as nossas raízes culturais. No mesmo
sentido, esperamos que este tema possa constituir uma mais-valia do próprio Mestrado em
Turismo e Património que, tão honrosamente, frequentámos.
A vastidão do tema levou-nos a especificar a nossa abordagem e, graças à nossa
formação em História, direccionada para o Património, resolvemos abordar o aspecto da
iconografia no Caminho Português de Santiago que liga Viseu a Chaves.
Para tal, houve a necessidade de conhecer mais profundamente a génese do Caminho
de Santiago e tudo aquilo que a ele se encontra subjacente. Nesse sentido, uma vez que ainda
é escassa a bibliografia em português, recorremos maioritariamente a bibliografia em
espanhol e em outras línguas, muita da qual só encontrada na Universidade de Santiago de
Compostela, onde dedicámos um período de tempo para a pesquisa bibliográfica, tempo esse
crucial para o desenvolvimento do trabalho.
Paralelamente, a nossa “experiência” enquanto Peregrinos de Santiago, tanto a pé
como de bicicleta, permitiram uma maior envolvência no trabalho, interiorizando o espírito, o
sentido e a essência do Caminho de Santiago.
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A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
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A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
I PARTE
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A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
CAPÍTULO I
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Subsídios para a criação de uma rota turística
1. Dados Biográficos
Poucos são os registos da biografia de São Tiago (fig.1), a não ser em algumas
passagens dos Evangelhos. Os aspectos biográficos que vamos apresentar têm como principal
fonte os textos bíblicos. Filho de Zebedeu e Salomé, Tiago (Maior1) terá nascido na região da
Galileia (norte da actual Israel), território situado entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão.
Juntamente com os seus pais e o seu irmão mais novo, João (Evangelista), viveu na cidade
piscatória de Betsaida, junto ao mar da Galileia e próxima das cidades de Corazim e de
Cafarnaum, locais onde decorreu grande parte da vida pública de Jesus.2 (mapa 1)
Desde tenra idade, Tiago e João acompanhavam o seu pai no ofício de pescador, ainda
que este tivesse condições para ter a seu cargo funcionários3 que o ajudavam nas lides
piscatórias. De acordo com a tradição judaica, a educação dos filhos recaía sobre os pais, que
assumiam o papel de educadores no mais lato sentido da palavra, sendo estes os responsáveis
pelo ensino e preparação para a vida religiosa bem como para a vida profissional.
Paralelamente ao ensino da religião, todo o judeu deveria ensinar um ofício aos seus filhos4,
sendo fortemente censurado quem o não fizesse, independentemente da situação económica
da família. Assim sendo, juntamente com o seu pai, Zebedeu, Tiago e João aprenderam os
segredos e as artes da pesca bem como as dificuldades oferecidas pelo mar.
A religião assumia-se como componente essencial à sua educação, principalmente a
partir da adolescência. De facto, a religião era o pilar fulcral de toda a família tradicional
judaica: rezavam e escutavam juntos as leituras bíblicas, agradeciam o alimento diário e
1
É referenciado como Tiago Maior para se distinguir do apóstolo Tiago Menor, filho de Alfeu, e de outros santos com o
mesmo nome.
2
SANDERS, E. P., A verdadeira história de Jesus. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2005, p.140.
3
Possivelmente, Simão Pedro, natural de Betsaida, seria um dos funcionários de Zebedeu.
4
Tal como José que ensinou o seu filho, Jesus, o ofício de carpinteiro.
17
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ofereciam a Deus o seu trabalho. De acordo com a tradição judaica, e chegada a idade da
adolescência (entre os 11 e os 12 anos), deslocavam-se várias vezes a Jerusalém com o
sentido da tradicional peregrinação, e tomavam parte da vida pública.
Tiago e João deveriam ser homens de educação média, de acordo com os parâmetros
da vida judaica, tendo em conta a classe social dos seus pais. Paralelamente à educação
recebida em casa, Tiago e João deverão ter frequentado alguma das afamadas escolas de
Jerusalém, localidade onde é mencionada a existência de uma casa da família, estando em
contacto directo com a cultura grega, fortemente divulgada na época.
Num tempo de alguma inquietação religiosa, em que alguns pregadores não
concordavam com as linhas de actuação dos sacerdotes de Jerusalém, Tiago e João tiveram
contacto com João Baptista5, filho de Zacarias e de Isabel.
Tal como muitos outros jovens, também eles se deslocaram às margens do Rio Jordão
para assistir às palestras de João Baptista, que, tal como outros “pregadores” judeus nesse
período, atraíam inúmeras pessoas. Porém, João Baptista tinha um carisma muito acentuado,
transmitindo os seus ideais com modéstia, lembrando os antigos profetas, purificando as
pessoas com as águas do Rio Jordão que assim o desejassem, como se de um banho de
purificação ou baptismo de penitência se tratasse.
Ainda antes de se encontrarem pessoalmente com Jesus, Tiago e João já teriam ouvido
falar sobre ele, uma vez que a sua fama rapidamente se começou a espalhar por toda a
Palestina.
Quando Tiago e João se encontraram junto de João Baptista, André, irmão de Pedro, e
João, irmão de Tiago, assistiram ao momento em que João Baptista intitulou Jesus como
“Cordeiro de Deus”6, tendo ido ao encontro de Jesus e passado o dia com Ele7, provavelmente
trocando impressões sobre a Sua “missão”.
Tiago e João teriam a ideia de regressar a Betsaida, mas, juntamente com Pedro e
André, resolveram acompanhar Jesus na sua visita à região da Galileia, e assim vivenciar de
perto o seu mistério e misticismo, iniciando-se a sua relação próxima com o Mestre. Nessa
5
João Baptista era um desses predicadores de austeridade e de justiça, tendo aberto uma escola ao ar livre, junto às margens
do Rio Jordão, onde habitualmente pregava.
6
“Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus!«” Jo 1, 36.
7
“Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus. Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam,
perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi – que quer dizer Mestre – onde moras?» Ele respondeu-lhes:
«Vinde e vereis.»Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Eram as quatro da tarde.” Jo 1, 37-39.
18
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viagem de regresso, terão ainda acompanhado Jesus nas Bodas de Caná8, onde terão assistido
ao milagre da conversão da água em vinho.
Juntamente com Jesus, terão chegado a Jerusalém, assistindo à expulsão dos
mercadores no templo e às palavras proferidas por Jesus. Após terem cumprido as suas
obrigações religiosas em Jerusalém, terão regressado a casa e ao seu ofício.
Mais tarde, encontrando-se nas lides piscatórias com o seu pai Zebedeu, Tiago e João
foram escolhidos por Jesus para seus discípulos, quando se encontravam a pescar no mar da
Galileia, juntamente com Simão Pedro e seu irmão André9, que os convidou a serem
“pescadores de homens”10. Tudo então largaram para seguir o Mestre.
Jesus denominou os irmãos Tiago e João como “filhos do trovão”11, graças ao seu
carácter impetuoso e à sua dedicação à nova “corrente religiosa”. Assim, o primeiro grupo de
Apóstolos de Jesus Cristo foi constituído por Pedro, André, Tiago e João, dos quais Pedro,
Tiago e João se destacam como sendo os preferidos de Jesus12.
De acordo com Elisardo Temperán13, ao contrário de “outros” Mestres, era Jesus quem
escolhia os seus discípulos, vinculando-os a Si e não a uma determinada tendência ou
tradição.
Seriam muitos os discípulos de Jesus, que terão aceitado o desafio de O seguir e
cumprir as suas instruções14, mas apenas Doze15 foram escolhidos16 por Jesus,
8
“Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e
os discípulos creram nele. Depois disto, desceu a Cafarnaúm com sua mãe, os irmãos e os seus discípulos, e ficaram ali
apenas alguns dias.” Jo 2, 11-12.
9
“Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as
redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: «Vinde após Mim e Eu farei de vós pescadores de homens». E eles,
imediatamente, deixaram as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e
seu irmão João, os quais, com seu pai, Zebedeu, compunham as redes dentro do barco. Chamou-os, e eles, deixando no
mesmo instante o barco e o pai, seguiram-n’O.” Mt 4, 18-22;
“Enchera-se de espanto ele e todos os que com ele estavam, por causa da pesca que tinham feito, acontecendo o mesmo a
Tiago e a João, filhos de Zebedeu e companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não tenhas receio; de futuro, serás
pescador de homens». E depois de terem reconduzido as barcas para terra, deixaram tudo e seguiram-n’O.” Lc 5, 9-11.
10
Esta metáfora utilizada por Jesus Cristo vai ao encontro do seu tipo de discurso pedagógico, simples e claro, de forma a
chegar a todas as pessoas, instruídas ou não.
11
“Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais deu o nome de Boanerges, isto é, filhos do trovão;” Mc 3, 17.
12
Estes três apóstolos serão cruciais na História do Cristianismo, uma vez que Pedro será o pilar da Igreja, João o primeiro
teólogo e Tiago o primeiro mártir do Cristianismo.
13
TEMPERÁN, Elisardo, “Santiago Apóstol: Discípulo, Maestro y Mártir” in Santiago el Mayor y la Leyenda Dorada
(catálogo da exposición – Museo de Belas Artes da Coruña). Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1999, p.37.
14
“Depois disto, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e
lugares aonde Ele havia de ir.” Lc 10, 1.
19
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acompanhando-O durante todo o Seu percurso evangélico e que, após a Sua morte,
continuaram a Sua missão. (fig.2)
Curiosamente, o termo Apóstolo17 surge com os primeiros cristãos que lhe atribuem
um novo sentido: os enviados de Deus, que terão a responsabilidade de transmitir a
mensagem evangélica de Jesus. E este termo é apenas aplicado aos Doze que, de facto,
receberam essa missão e que, tendo acompanhado Jesus, puderam dar testemunho da Sua vida
e mensagem.
Ainda que os Apóstolos tenham acompanhado de perto a vida de Jesus, apenas Pedro,
João e Tiago assistiram a episódios extremamente marcantes do Cristianismo, tais como a
ressurreição da filha de Jairo18, a Transfiguração19 e a agonia no Monte das Oliveiras20, e que
foram posteriormente relatados pelos Evangelistas.
Possivelmente todos os Apóstolos, à excepção de Judas Iscariotes que, entretanto se
tinha enforcado, terão acompanhado Jesus no Calvário, mas somente temos nota de que
apenas João terá acompanhado o Mestre até ao momento do Seu derradeiro suspiro,
encontrando-se aos pés da Cruz, juntamente com Maria21 e outras mulheres, entre as quais
Salomé, mãe de João e Tiago, ambos filhos de Zebedeu.
15
Segundo Manuel Precedo Lafuente, os doze discípulos foram chamados de diferentes localidades e distintos ofícios, ainda
que a maioria fossem pescadores. Curioso é também o número de apóstolos, que acaba por estabelecer algum paralelismo
com as doze tribos do Povo de Israel, que “assumem” a Igreja. PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y
Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid: Aldeasa, 1999, p.22.
16
“Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: Simão, a
quem chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago, João, Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão,
chamado o Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.” Lc 6, 13-15. Factos igualmente
relatados noutros passos: Mt 10, 1-4; Mc 3, 13-19; Jo 1, 40-49; e Act 1, 13.
17
Com o sentido de “enviado” ou “embaixador”.
18
“Quando regressou, Jesus foi recebido pela multidão, pois todos estavam à Sua espera. Veio ao Seu encontro um homem
chamado Jairo, que era chefe da sinagoga. Caindo aos pés de Jesus suplicava-Lhe que entrasse em sua casa, porque tinha uma
filha única, quase de doze anos, que estava a morrer. E, indo Ele, a multidão apertava-O a ponto de O sufocar. (…) Ao chegar
a casa, não deixou entrar ninguém com Ele, a não ser Pedro, João, Tiago, o pai e a mãe da criança. Todos choravam e
pranteavam. «Não choreis, disse Jesus, porque ela não está morta, mas dorme». E, por saberem que ela tinha morrido,
troçavam de Jesus. Mas Ele, tomando-a pela mão, chamou-a, dizendo em voz alta: «Menina, levanta-te». Voltou-lhe o
espírito e imediatamente se levantou. Ele mandou que lhe dessem de comer.” Lc 8, 40-42, 51-55.
19
“Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os em particular, a um alto monte.
Transfigurou-Se diante deles: O Seu rosto resplandeceu como o Sol, e as Suas vestes tornaram-se brancas como a luz.” Mt
17, 1-2.
20
“Então, Jesus chegou com eles a um lugar chamado Getsemani e disse aos discípulos: «Ficai aqui, enquanto Eu vou além
orar». E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se.” Mt 26, 36-37.
Factos igualmente relatados noutros passos: Mc 14, 32-34.
21
“Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» E, desde
aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua.” Jo 19, 26-27.
20
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22
“Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, adoraram-no;
alguns, no entanto, ainda duvidavam. Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra.
Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a
cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos».” Mt 28, 16-20.
Factos igualmente relatados noutros passos: Mc 16, 15-20.
23
“(…) Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto. Depois, levou-os até junto de Betânia e,
erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu. E eles, depois de de se teem
prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria. Estavam continuamente no templo a bendizer a Deus.” Lc
24, 49-53.
24
“Ao ouvirem tais palavras, encheram-se intimamente de raiva e rangeram os dentes contra Estêvão. Mas este, cheio do
Espírito Santo e de olhos fixos no Céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé, à direita de Deus. «Olhai, disse ele, eu vejo o Céu
aberto e o Filho do Homem de pé, à direita de Deus.» Eles, então, soltaram um grande grito e taparam os ouvidos; depois, à
uma, atiraram-se a ele e, arrastando-o para fora da cidade, começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram as capas aos
pés de um jovem chamado Saulo. E, enquanto o apedrejavam, Estêvão orava, dizendo: «Senhor Jesus, recebe o meu
espírito.» Depois, posto de joelhos, bradou com voz forte: «Senhor, não lhes atribuas este pecado.» Dito isto, adormeceu.”
Act 7, 54-60.
25
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.19.
26
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), Santiago. Para conocerte y no olvidarte. A Coruña: Hércules Ediciones, 2003,
p.14.
27
Idem.
28
CHAO REGO, Xosé, Camiñando a Compostela. Santiago de Compostela: Angueira, 1992, p.15.
21
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Ainda da mesma época, o Breviarum Apostolorum, breve narração sobre a vida e festa
litúrgica de cada Apóstolo, refere que Santiago, filho de Zebedeu, predica em Espanha e nas
terras ocidentais, facto igualmente referido num calendário do Mosteiro de Santa Catalina no
Monte Sinai.29
Uma outra obra de referência pertence a Santo Isidoro de Sevilha, De ortu et obitu
Patrum, na qual se sustenta a ideia da predicação de São Tiago em terras hispânicas, dando
mote a outras publicações, referindo que Santiago predicou o Evangelho em Espanha e nas
terras ocidentais, levando a luz da predicação ao fim do mundo.30
Por outro lado, as Actas Etíopes de Santiago indicam que o Apóstolo terá iniciado a
sua missão de evangelizar na Palestina, tendo regressado posteriormente, e indicando o seu
enterramento na Judeia ou na Cesareia.
Tendo em conta as diversas fontes, e existindo um considerável hiato, Tiago poderia
ter realmente iniciado e terminado a sua missão de evangelização no território de Jerusalém,
mas teria tido tempo para visitar outros locais, nomeadamente a Península Ibérica.
De acordo com a tradição cristã, Tiago terá pregado as ideias do Mestre pela Judeia e
Samaria, percorrendo as rotas comerciais já existentes no Mar Mediterrâneo, chegando
mesmo à Galiza, dado que as rotas de viagem já se encontravam definidas.
Segundo Precedo Lafuente, São Tiago poderá ter viajado por mar, considerando que,
naqueles tempos “ (…) siglo I de la Era Cristiana, el tráfico marítimo era frecuente y tenía tres
metas principales: costas mediterrâneas de España, Galicia y Britania. Eran lugares
implicados en el comercio del estaño. Santiago pudo venir a culquiera de ellos. Pudo también
entrar por Andalucía y subir, por Portugal haciendo el viaje por tierra, hasta Galicia. Asturias
y Cartagena guardan sendas tradiciones, más fundada la segunda, del desembarco de
Santiago. Aunque yo pienso que lo más lógico habrá sido el comienzo por Galizia.”31
Tiago terá sido ainda acompanhado por dois discípulos, Teodoro e Atanásio, que o
seguiram na sua missão evangelizadora, acompanhando-o até à sua morte.32
29
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.39.
30
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.31.
31
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.45.
32
Serão estes dois discípulos que, segundo a tradição cristã, terão transportado o corpo de Tiago até à Galiza, depois de ter
sido decapitado.
22
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No entanto, o Codex Calixtinus33(fig.3) indica que Tiago terá tido inúmeros apóstolos,
destacando-se, além de Teodoro e Atanásio, outros dez: Torcuato, Tesifonte, Segundo,
Indalecio, Cecilio, Hesiquio y Eufrasio. (…) Hermóneges, Fileto y Josias,34 ainda que estes
três últimos não tenham acompanhado Tiago na sua predicação por terras hispânicas, uma vez
que foram convertidos pelo Apóstolo pouco tempo antes da sua condenação à morte. À
semelhança de Jesus, também Tiago terá escolhido doze apóstolos para o acompanharem.
Tiago poderá ter permanecido em terras ibéricas cerca de seis anos35, tendo regressado
a Jerusalém, não pelo infrutífero resultado da sua pregação, mas talvez pela necessidade de se
reencontrar com os seus “colegas de apostolado”.
Porém, e segundo a Leyenda Áurea, da autoria de Jacobo de Voragine (1230-1293),36
não seriam muitos os que adoptaram a fé cristã na Península Ibérica, tendo por isso Tiago
regressado a Jerusalém para continuar a sua missão evangelizadora que, nesta zona, era muito
mais frutífera, além de que os milagres por ele realizados que lhe dariam bastante fama, vindo
a ser, talvez, a causa da sua perseguição e morte.
Vivia-se um período de instabilidade religiosa e temia-se inclusivamente uma revolta.
A pedido dos Fariseus, o mago Hermógenes enviou o seu discípulo, Fileto, para confrontar
Tiago sobre a veracidade e fundamentação da doutrina que pregava, que se tornava cada vez
mais “incómoda” junto da comunidade. Mas Fileto acabou por ser convencido, e
posteriormente convertido, graças aos argumentos racionais que Tiago empregou, bem como
à veracidade dos milagres ocorridos, confirmando assim a autenticidade da doutrina que
pregava. No encontro com Hermógenes, Fileto descreveu os acontecimentos que teve
oportunidade de testemunhar, aceitando a doutrina que Tiago pregava, desafiando o seu
mestre a ter a mesma postura.
Porém, Hermógenes, furioso com a atitude do seu discípulo e recorrendo a magias,
imobilizou Fileto, desafiando Tiago a “curá-lo” da imobilização, o que acabou por acontecer.
Mais furioso ainda pelo facto de Fileto o ter abandonado e ter ido ao encontro de Tiago,
33
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, pp.385-388.
34
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.46.
35
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.39.
36
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), Santiago. Para conocerte y no olvidarte. A Coruña: Hércules Ediciones, 2003,
p.14.
23
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Hermógenes recorreu a demónios para trazerem Tiago e Fileto, mas o seu plano não correu
conforme o previsto. Ao invés de lhe trazerem os “prisioneiros”, foi ele conduzido à presença
de Tiago, que o libertou, alertando-o de que não era sua intenção obrigá-lo a seguir a sua
doutrina. Hermógenes acabaria por se prostrar aos pés de Tiago, convertendo-se à sua
doutrina, tornando-se temente a Deus e discípulo de Tiago, realizando “obras” em nome do
Senhor.
Muitos foram os que criticaram Tiago pela doutrina que pregava, mas a sua forma
apaixonada de transmitir a palavra de Deus, citando os Livros Sagrados, era tão poderosa que
muitos acabaram por se converter.
Entre os anos 42 e 44 d.C.37, numa fase em que Herodes Agripa I (10-44), filho de
Aristóbulo IV (31 a.C.-7 a.C.) e Berenice, e neto de Herodes, o Grande (73 a.C.-4 a.C. ou 1
a.C.), empreendia uma fervorosa perseguição aos Apóstolos e aos discípulos de Jesus, deu
ordem para prenderem Tiago. Condenado à morte38, Tiago curou ainda um paralítico e
converteu Josias, um escriba que acompanhava o “cortejo”, tendo sido inclusivamente
baptizado pelo Apóstolo39, e que foi igualmente decapitado40 graças à sua conversão à fé
cristã. Em rigor, a nova Igreja começava a tornar-se uma grande ameaça para os judeus.
De acordo com Codex Calixtinus41, no momento imediato à morte de Tiago, alguém
exclamou: “Hacia la hora tercia fue juzgado y hacia la nona, como Cristo, fue muerto. Es
decir, en igual día y hora que el Maestro, murió yambién el discípulo.”
Em rigor, Tiago foi o primeiro Apóstolo Mártir do Cristianismo.
37
Uma vez que nem mesmo a Bíblia é precisa na data da execução de Tiago, consideramos este período de tempo, indo ao
encontro de outras fontes consultadas.
38
“Por esse tempo, o rei Herodes maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João.” Act
12, 1-2.
39
No local onde Tiago foi decapitado, em pleno centro do antigo bairro arménio em Jerusalém, terá sido erigida uma
Catedral dedicada ao Apóstolo, na qual se encontra uma capela, assente no local do martírio. Ainda que a actual Catedral date
de meados do século XII, já no século VII havia notícia deste importante santuário.
40
A decapitação era uma das sentenças de morte usual naqueles tempos. Segundo o Antigo Testamento, a decapitação era
aplicada aos culpados de idolatria colectiva e de homicídio; no Novo Testamento, há apenas três casos de decapitação: a de S.
João Baptista, a da multidão que se negou a abandonar as suas crenças em terras profanas e a de S. Tiago. “La de Santiago
podría ser por su predicación, que facilmente se tipificaba entre los judiós como incitación a la idolotría colectiva. Aunque
también podemos pensar que se trató de un procedimiento sin proceso, como el del Bautista, con el que se intentó dar un
golpe de efecto ante los judíos.” PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral
compostelana. Santiago de Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, pp.52-53.
41
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, p.401.
24
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
42
Neste sentido, translatio significa trasladação, nomeadamente a do corpo de Tiago.
43
De acordo com as obras antigas De ortu et obitu Patrum e Breviarium Apostolorum, o corpo de Tiago terá sido sepultado
num local denominado de “Arca Marmorica” que, segundo Guerra Campos, se poderá contudo referir à própria estrutura
sepulcral. PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana.
Santiago de Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.54.
44
Actualmente, a suposta coluna, onde foi amarrada a barca, encontra-se por debaixo do altar-mor da Igreja de Santiago,
nesta localidade. Este “pedrón” terá dado origem, não só ao mito de Santiago, mas também ao topónimo de Padrón. A coluna
tem uma inscrição romana, cuja transcrição é incerta, não fornecendo dados concretos para a investigação.
25
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
acabaram por se tornar mansos, ao verem o sinal da cruz. Após este acontecimento, Lupa
converteu-se ao Cristianismo.
Teodoro e Atanásio seguiram viagem até ao local designado por Lupa para o
monumento funerário, denominado de Liberum Donum, actualmente Libredón. Ali
permaneceram, velando o corpo do Apóstolo, seu Mestre: “(…) aquellos dos discípulos,
inseparables por reverencia hacia su maestro, mientras com todo cariño vigilaban sin
interrupción el citado sepulcro, mandaron que, después de su muerte, fuesen enterrados por
los cristianos junto a su maestro, uno a su derecha y outro a su izquierda. (…)”45.
Provavelmente, os povos vizinhos terão tido conhecimento deste importante enterramento,
fazendo-nos supor o início do culto a Tiago.
Não tão amplamente divulgada como a tradição cristã, é um texto, datado do século
IX, atribuído ao Bispo Leão, presumivelmente de Jerusalém, no qual relata a transladação do
Apóstolo Tiago, ainda que tardia, apontando-a para finais do século V ou inícios do século
VI. De acordo com o referido texto, “(…) los siete discípulos del apóstol habían recogido el
cuerpo decapitado de su maestro, lo transportaron durante siete días en una nave guiada por la
mano de Dios, hasta que llegaron al lugar de Bisria, sito en la confluencia de los rios Ulla y
Sar. Ocurrió allí un nuevo prodigio: en medio de un fenómeno luminoso, el cuerpo les fue
arrebatado por los Aires. Ellos, apenados por la perdida del cuerpo, echaron a andar
profundamente apenados en medio de constantes súplicas y oraciones. A doce milas de Bisria
se encontraron con el cuerpo de Santiago, ya sepultado sub arcis marmoricis. Tres de los
discípulos, Torcuato, Tesifonte y Anastasio, gracias a los méritos del apóstol, dieron muerte al
dragón del monte Illicino, que desde entonces mudó el nombre por Montesacro, y se quedaron
junto al cuerpo de su maestro, mientras que los otros cuatro volvían a Jerusalén. La carta
finaliza con una exhortación del obispo León a toda la cristiandad occidental para que acuda
confiadamente al sepulcro de Santiago.”46
Santiago de Compostela comemora anualmente esta translatio a 30 de Dezembro47,
“encerrando” assim o ciclo de “viagem” do corpo do Apóstolo, com especial relevo em anos
jubliares48.
45
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, p.399.
46
LOPEZ ALSINA, Fernando, “La «inventio» del cuerpo de Santiago” in Historia de Galicia.1. De la Prehistoria a la Alta
Edad Media. Vigo: Faro de Vigo / Xunta de Galicia / Caixavigo, 1991, pp.249-250.
47
Segundo La Leyenda Dorada, da autoria de Voragine, apesar de o corpo de Tiago ter sido trasladado de Iria Flavia
(Padrón) para Compostela a 25 de Julho (data da comemoração do Apóstolo), os seus restos mortais foram apenas sepultados
26
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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a 30 de Dezembro, poucos dias antes de terminarem o seu sepulcro. Ainda hoje, a cerimónia da trasladação é imponente,
reconstruindo-se, através de uma pequena procissão, o percurso do corpo do Apóstolo até Compostela; já no interior da
Catedral, a homília é toda ela dedicada a este momento da historiografia jacobeia, ainda que refira igualmente alguns
aspectos mitológicos e lendários. VORAGINE, J. de la, La Leyenda Dorada. Madrid: Edición F.J.M. Macías, 1982.
48
O ano jubilar/xacobeo comemora-se sempre que o dia 25 de Julho, dia do Apóstolo, seja Domingo. No ano passado,
comemorou-se o ano Xacobeo, que só voltará a repetir-se em 2021.
49
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, pp.58-59.
27
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
50
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.59.
51
Oriundo de Iria Flavia (actual Padrón), Prisciliano chegou a ser Bispo de Ávila, ainda que não tivesse sido reconhecido
oficialmente. Acusado de heresia por defender a interpretação livre das Sagradas Escrituras e dos Evangelhos Apócrifos
(desconhecidos do público em geral), foi condenado à morte pelo Imperador Teodósio, tendo sido decapitado, aos quarenta
anos de idade, na cidade de Tréveris, em 385.
52
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), Santiago. Para conocerte y no olvidarte. A Coruña: Hércules Ediciones, 2003,
p.25.
28
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
4. Milagres do Apóstolo
“Es de suma importancia encomendar a la escritura y dar a perpetua memoria para
honor de nuestro Señor Jesucristo los milagros de Santiago. Porque al ser narrados por
expertos los ejemplos de los santos, son movidos piadosamente al amor y dulzura de la pátria
celestial los corazones de los oyentes. (…) Mas nadie piense que he escrito todos los milagros
y ejemplos que he oído de él, sino los que he considerado verdaderos por veracísimas
afirmaciones de hombres veracísimos. Porque si escribiese todos los milagros que de él oí en
muchos lugares de boca de muchos, más les faltaría a mis manos y a mi afán pergamino que
ejemplos suyos. Por lo cual ordenamos que este códice sea contado entre los códices verídicos
y autênticos y que sea leído atentamente en las iglesias y refectorios los dias festivos del
Santo Apostól y otros, si place.”53
O Codex Calixtinus relata-nos vinte e dois milagres protagonizados pelo Apóstolo
Tiago, milagres de cura, perdão e de ressurreição, em favor dos seus devotos e peregrinos.
Segundo López Ferreiro, durante o século XVII, persistiam os relatos de milagres
realizados por São Tiago, referindo alguns deles na sua obra Historia de la S.A.M. Iglesia de
Santiago.54 Esta crença em milagres realizados por ele persiste até à actualidade.
53
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, pp.327-328.
54
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.77.
29
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
“As notícias, citações e narrações orais sobre a pregação apostólica jacobéia nos
confins ocidentais não poderiam ser bem-vistas por aqueles que salientavam que as origens
das igrejas e comunidades cristãs do Ocidente tinham como referência São Pedro e os seus
sucessores. O papa queria evitar, desta forma, qualquer discussão sobre a primazia da sé
fundada pelo primeiro bispo de Roma, e destacou-se a autoridade do mesmo sobre a
totalidade da Igreja ociedantal. As bases da primazia romana foram estabelecidas por Calixto
I (217-222), criador da idéia do Papado, acobertado pelos Padres Irineu e Tertuliano, que
defendiam a suprema autoridade apostólica de Roma.”55
Provavelmente, haveria um claro desinteresse pela pregação de São Tiago e de todos
os outros Apóstolos no Ocidente, ainda que se reconhecesse a tradição oral sobre a mesma.
Entretanto, o papa Inocêncio I (401-417), na sua Epístola a Decêncio, bispo de Gubbio, diz
que “ao rejeitar toda a tradição oral, pedia provas escritas da fundação das igrejas por algum
outro apóstolo que não fosse São Pedro. Mas também não se deve interpretar literalmente a
epístola de Inocêncio I, porque se cairia em contradição com os Atos dos Apóstolos e com a
Epístola aos Romanos, já que consta que São Paulo pregou em Malta e em Roma.”56
A partir da segunda metade do século V, difunde-se por toda a Europa a obra Passio
Sancti Iacobi, com a paixão e a morte de São Tiago, tendo como referência textos antigos que
“(…) não representavam mais que detalhes piedosos e milagrosos que satisfaziam a
sensibilidade da fé popular sem acrescentar mais do que dizem os textos bíblicos sobre o
martírio de São Tiago.57”
Segundo Elisardo Temperán58, as Pasiones de Santiago: la modica passio y la magna
passio apresentam dados sobre a vida de Tiago; a primeira referência é o texto da Historia
Eclesiástica59, da autoria de Eusebio de Cesareia (cc 270-339/340), sobre a morte de Tiago,
que se socorre do já narrado nos Actos dos Apóstolos; a segunda apresenta um carácter mais
hagiográfico, enfatizando o narrado na Historia Eclesiástica de Eusebio, referindo-se à
actividade apostólica de Tiago até à sua morte, incluindo alguns episódios como, por
55
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.21.
56
Idem, p.22.
57
Idem, p.22.
58
TEMPERÁN, Elisardo, “Santiago Apóstol: Discípulo, Maestro y Mártir” in Santiago el Mayor y la Leyenda Dorada
(catálogo da exposición – Museo de Belas Artes da Coruña). Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1999, p.44.
59
Obra publicada no sítio [Link]
(consultada a 28 de Dezembro de 2010).
30
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
60
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.23.
61
Idem, p.25.
62
PLÖTZ, Robert, “O desenvolvimento histórico do culto de Santiago” in I Congresso Internacional dos Caminhos
Portugueses de Santiago de Compostela. Lisboa: Távola Redonda, 1992, p.55.
31
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
63
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.27.
64
PLÖTZ, Robert, “O desenvolvimento histórico do culto de Santiago” in I Congresso Internacional dos Caminhos
Portugueses de Santiago de Compostela. Lisboa: Távola Redonda, 1992, p.56.
65
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.31.
32
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
hagiografia ocidental de uma nova pista, talvez bizantinam sobre a pregação jacobéia na
Península Ibérica.”66
Entre finais do século VII e o primeiro terço do século VIII, Beda, o Venerável (†735),
que detinha um conhecimento aprofundado das várias versões ocidentais que circulavam do
Breviarium apostolorum, nomeadamente no que diz respeito às áreas de evangelização por
parte dos Apóstolos, mantém a tese da evangelização de São Tiago na Penísnula Ibérica, mas
apresenta factos inéditos nos seus textos. Como sintetiza Francisco Singul Lorenzo, “O mais
importante nas notícias de Beda é a referência, nada menos – um século antes do
descobrimento do sarcófago apostólico –, à localização na Galiza do sepultamento de São
Tiago. Há que destacar, de saída, que Beda seria o primeiro a escrever sobre o sepulcro de
São Tiago na Hispania, no extremo ocidental do país, mais concretamente no litoral do Mar
Britânico. (…) na Homilia XCII, Beda diz que o corpo de São Tiago foi levado à Hispania
depois do seu martírio na Palestina: Iste est frater beati Jacobi cuius in Hispania corpus
requiescit - «Este (São João Evangelista) é o irmão do bem-aventurado São Tiago, do qual o
corpo descansa em Hispania» (…). O Martirilógico de Beda completava a informação, ao
explicar que a sepultura apostólica, depois de um segundo translado dentro dos limites
hispânicos, encontra-se nos seus confins. Diz o texto: Huius beatissimi sacra ossa ab Hispani
translata sunt, et in ultimis earum finibus, videlicet, contra mare britanicum condita – «Os
sagrados restos mortais deste bem-aventurado foram trasladados de lugar na Hispania e
escondidos nos seus últimos limites frente ao mar britânico.» (…) Assim aconteceu que, 100
anos antes de o rei das Astúrias, Alfonso II, ir em direcção aos limites ocidentais do seu
pequeno reino, atendendo ao chamado do bispo Teodomiro de Iria Flávia, já existia no
Ocidente um monge erudito que sabia que o sepulcro de São Tiago se encontrava bem
escondido num lugar afastado do território astúrio-galaico, não muito longe do mar ocidental.
E ali haveria de ficar até ao momento do seu descobrimento, não se sabe se acidental ou não,
nas primeiras décadas do século IX.”67
No início da reconquista cristã, no século VIII, o Beato de Liébana, na obra
Comentario al Apocalipsis, refere a preferência de Tiago por Espanha, chegando mesmo a
apelidá-lo de patrono de Espanha no hino O Dei Verbum Patris, dedicado ao rei Mauregato e,
por sua vez, igualmente dedicado a Tiago: “Oh, apóstol digníssimo y santísimo, cabeza
66
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.29.
67
Idem, p.31.
33
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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68
CARMONA MUELA, Juan, Iconografia de los santos. Madrid: Ediciones Istmo, 2003, p.409.
69
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.34.
70
CARMONA MUELA, Juan, Iconografia de los santos. Madrid: Ediciones Istmo, 2003, p.409.
71
PLÖTZ, Robert, “O desenvolvimento histórico do culto de Santiago” in I Congresso Internacional dos Caminhos
Portugueses de Santiago de Compostela. Lisboa: Távola Redonda, 1992, p.58.
34
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
72
PLÖTZ, Robert, “O desenvolvimento histórico do culto de Santiago” in I Congresso Internacional dos Caminhos
Portugueses de Santiago de Compostela. Lisboa: Távola Redonda, 1992.
73
Esta conotação refere-se principalmente ao “papel” de Santiago Matamouros, enquanto defensor dos Cristãos e da Pátria de
Espanha. (este tema será tratado no capítulo V, dedicado à Iconografia)
74
Existem algumas dúvidas relativamente ao autor desta carta, sabendo apenas tratar-se de um papa Leão, identificado por
alguns autores como o papa Leão III (795-816).
75
Este documento apresenta dados sobre as origens da Catedral de Compostela, bem como do seu Patrono: morte,
trasladação, enterramento e descoberta do sarcófago.
76
CARRO GARCIA, Jesus, “Estudios Jacobeos. Arca Marmorica, Cripta, Oratorio o Confesion, Sepulcro y Cuerpo del
Apostol” in Cuadernos de Estudios Gallegos. Santiago de Compostela: Ed. Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos,
1954, p.97.
77
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.41.
35
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78
CARRO GARCIA, Jesus, “Estudios Jacobeos. Arca Marmorica, Cripta, Oratorio o Confesion, Sepulcro y Cuerpo del
Apostol” in Cuadernos de Estudios Gallegos. Santiago de Compostela: Ed. Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos,
1954, p.97.
79
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, p.584.
80
Por iniciativa do Bispo de Santiago de Compostela, Diego Gelmírez, esta obra tem por objectivo promover a vida e obra do
Bispo de Santiago, estabelecendo os direitos e domínio da arquidiocese.
81
CARRO GARCIA, Jesus, “Estudios Jacobeos. Arca Marmorica, Cripta, Oratorio o Confesion, Sepulcro y Cuerpo del
Apostol” in Cuadernos de Estudios Gallegos. Santiago de Compostela: Ed. Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos,
1954, p.98.
36
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82
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, pp.34-35.
83
CARRO GARCIA, Jesus, “Estudios Jacobeos. Arca Marmorica, Cripta, Oratorio o Confesion, Sepulcro y Cuerpo del
Apostol” in Cuadernos de Estudios Gallegos. Santiago de Compostela: Ed. Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos,
1954, p.98.
84
Idem, p.106.
37
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ante los cuales com profundo respeto y grandíssima devoción se fueron uno a uno
prosternando los concurrentes, en la creencia, por lo que habían visto y oído, de que eran los
sagrados restos del Apóstol Santo Patrono de las Españas.”85
Porém, estes testemunhos foram contestados por investigadores como Casares, Freire
Barreiro e Timoteo Sánchez Freire, apresentando os respectivos factos, questionando a
veracidade das ossadas enquanto pertença do Apóstolo Tiago e seus discípulos, Teodoro e
Atanásio.
Posteriormente, a 12 de Março de 1879, o Arcebispo Miguel Payá y Rico, através de
Decreto, apresentou o seguinte testemunho: “Canónicamente declaro que las mismas
verdadera y realmente pertenecen a los Cuerpos del santo Santiago Apóstol Zebedeo,
hermano de S. Juan Evangelista, y de sus discípulos los santos Atanasio y Teodoro, y que, por
tanto son dignas de culto religioso, según lo prescrito por la Iglesia, y del honor de los
altares.”86
Em Julho de 1884, Monsenhor Agustín Caprará ter-se-á deslocado a Santiago de
Compostela, a mando do papa Leão XIII (1878-1903), tendo como principal incumbência
analisar a veracidade das relíquias. Em sequência dessa análise, a 1 de Novembro de 1884, a
bula de Leão XIII, Deus Omnipotens, acabou por confirmar a veracidade das sagradas
relíquias em Compostela, anteriormente apresentada pelo Arcebispo de Compostela,
ratificando igualmente a graça jubilar87.
López Ferreiro publicou, em 1891, um folheto no qual descreveu com preciosidade a
cripta do Apóstolo Tiago.
Já no século XX, precisamente entre 1946-1959, realizaram-se escavações
arqueológicas na Catedral de Compostela, contribuindo não só para a história da Catedral,
mas também de Compostela, com a descoberta de uma necrópole que compreendia o período
romano (séculos I-IV) e o período suevo-visigótico (séculos V-VII), indicando um abandono
parcial no século VIII, tendo sido retomada no século seguinte aquando da descoberta do
corpo do Apóstolo. Paralelamente à necrópole, foram ainda descobertos vestígios das
primeiras igrejas compostelanas, mandadas erguer pelos reis Afonso II e Afonso III, grandes
impulsionadores do culto a Tiago.
85
CARRO GARCIA, Jesus, “Estudios Jacobeos. Arca Marmorica, Cripta, Oratorio o Confesion, Sepulcro y Cuerpo del
Apostol” in Cuadernos de Estudios Gallegos. Santiago de Compostela: Ed. Instituto P. Sarmiento de Estudios Gallegos,
1954, p.107.
86
Idem, pp.108-109.
87
Esta graça é apenas concedida aos peregrinos que cumpram a sua peregrinação a Santiago de Compostela, cumprindo
igualmente os rituais que estão associados à comemoração do ano jubilar/xacobeo.
38
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CAPÍTULO II
As Peregrinações
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1. As Peregrinações
Partindo do significado primário da palavra, peregrinação é o acto de peregrinar, cuja
origem etimológica assenta em duas palavras latinas: per e ager, podendo ser traduzido como
“por campo ou por território”, ou seja, peregrino é quem se desloca de um local para outro.
Assim sendo, a peregrinação é encarada como uma viagem, particularmente associada a uma
finalidade e motivação religiosas.
De facto, o fenómeno da peregrinação é tido como sendo o símbolo máximo da
religiosidade, comum a todas as civilizações e culturas. “A peregrinação é uma caminhada em
direcção a um centro no qual se vai realizar o encontro esperado e preparado pelo homo
religiosus. Esse centro constitui, de modo simbólico, o espaço da salvação. O homem deixou
o espaço no qual se desenrola a sua vida quotidiana, “o espaço profano”, e caminha para uma
outra realidade espacial, pois para o homo religiosus o espaço não é homogéneo.”88
Muitos dos lugares sagrados, sendo eles edifícios ou não, são conhecidos
mundialmente, não só pelo seu especial simbolismo, pelos seus rituais, mas também pela sua
História.
Locais como Meca, Jerusalém, o Monte Sinai, entre outros, continuam, ainda hoje, a
ser uma referência em termos de peregrinações e estão associados a determinados
comportamentos dos fiéis, que ocorrem em conformidade com calendários próprios.
Com efeito, o peregrino parte em direcção ao local sagrado para se colocar diante do
sepulcro de um santo ou da imagem de alguém que se crê ter um poder especial, ou de um
local onde aconteceu determinado milagre ou um evento marcante no seio da religião que se
professa, ou seja, peregrina-se a locais intrinsecamente ligados à História das Religiões89.
88
RIES, Julien, “O universo das peregrinações” in Communio – Revista Internacional Católica (Ano XIV, nº. 4 –
Julho/Agosto). Lisboa: Reflexão Teológica / Mundividência Cristã, 1997, p.311.
89
No caso âmbito deste trabalho, iremos apenas tratar as peregrinações cristãs, uma vez que é nestas que se insere a
Peregrinação a Compostela, que será tratada no capítulo III.
41
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
90
“O SENHOR disse a Abraão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei
de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te
abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da Terra serão por ti abençoadas.» Abraão
partiu, como o SENHOR lhe dissera, levando consigo Lot. Quando saiu de Haran, Abraão tinha setenta e cinco anos.” GN
12, 1-4.
91
RAVASI, Gianfranco, “Abraão e o povo de Deus peregrino” in Communio – Revista Internacional Católica (Ano XIV, nº.
4 – Julho/Agosto). Lisboa: Reflexão Teológica / Mundividência Cristã, 1997, p.295.
92
“Sou estrangeiro e hóspede entre vós;”. GN 23, 4.
93
RAVASI, Gianfranco, “Abraão e o povo de Deus peregrino” in Communio – Revista Internacional Católica (Ano XIV, nº.
4 – Julho/Agosto). Lisboa: Reflexão Teológica / Mundividência Cristã, 1997, p.296.
42
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
trascendente, o êxodo é presença constante que desenha a fisionomia de Israel como povo
sempre peregrino em direcção a um horizonte escatológico, sabendo nós quanto esta tipologia
é fundamental para a visão neotestamentária da Igreja.”94
Após a morte de Moisés, Josué assumiu a liderança do povo de Israel, conduzindo-o
através do Rio Jordão.95 Entretanto, o povo torna-se sedentário e espalhou influência na
região, elegendo alguns locais de culto, paralelamente a Jerusalém.
A religião judaica considerava a peregrinação como algo inerente à vivência religiosa,
tanto que impunha a peregrinação a Jerusalém em três momentos marcantes da História do
povo de Israel: na “Páscoa”, associada à libertação e fuga do povo de Israel, escravizado no
Egipto, no “Pentecostes”, em ligação com a proclamação da Lei de Deus no Monte Sinai, e
nos “Tabernáculos”, assinalando as viagens através do deserto.
O Cristianismo absorveu imensas influências do ambiente judeu, como seria de
esperar. Aliás, são conhecidas as peregrinações do próprio Jesus e de alguns dos seus
Apóstolos a Jerusalém, centro da vida judaica.96 Segundo a tradição, os judeus deveriam ir
três vezes ao ano em peregrinação ao Templo.
Aos doze anos, por ocasião da Páscoa judaica, Jesus foi com seus pais, Maria e José, a
Jerusalém97. Ele próprio pode ser tido como exemplo de peregrino, solicitando aos seus
Apóstolos que tomassem o mesmo exemplo e atitude de desprendimento98. Assim, o
Cristianismo herdou a tradição de peregrinação da cultura judaica, assumindo o Mestre o
exemplo máximo da peregrinação. Aliás, uma das expressões mais famosas do Cristianismo é
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, muitas vezes utilizada nas parábolas e nas
afirmações de Jesus.
94
RAVASI, Gianfranco, “Abraão e o povo de Deus peregrino” in Communio – Revista Internacional Católica (Ano XIV, nº.
4 – Julho/Agosto). Lisboa: Reflexão Teológica / Mundividência Cristã, 1997, p.298.
95
“Os sacerdotes que transportavam a Arca da aliança do SENHOR conservaram-se de pé, sobre o leito seco do Jordão, e
todo o Israel o atravessou sem se molhar. Permaneceram ali até todo o povo ter acabado de atravessar o Jordão.” JS 3, 17.
96
Segundo a tradição judaica, quando as crianças chegavam à idade da adolescência eram conduzidas, por seus pais, a
Jerusalém para integrarem a vida pública, participando nesta peregrinação. “Três vezes por ano, todos os varões se
apresentarão diante do SENHOR, teu Deus, no santuário que ELE tiver escolhido: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas
e na festa das Tendas. Ninguém aparecerá com as mãos vazias diante do SENHOR.” DT 16, 16. “Porque Eu expulsarei as
nações da tua presença, ampliarei as tuas fronteiras e ninguém cobiçará o teu campo enquanto subires para te apresentares,
três vezes por ano, diante do SENHOR teus Deus.” EX 34,24.
97
“Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele chegou aos doze anos, subiram até lá,
segundo o costume da festa.” Lc 2, 41-42.
98
“e disse-lhes: «Nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas.”;
“Depois, dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e
siga-me. Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la.” Lc
3, 23-24.
43
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
99
SANDERS, E. P., A verdadeira história de Jesus. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2005, p.10.
100
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales. A Coruña: Xuntanza Editorial, 1993, p.84.
44
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Subsídios para a criação de uma rota turística
como o Peregrino de Bordéus, que assistiu, em 333, à dedicação do Santo Sepulcro, e São
Jerónimo, que contribuiu para a divulgação da peregrinação a Jerusalém101.
Gradualmente, começaram a surgir testemunhos das peregrinações, através de diários
de viagens dos próprios peregrinos, especialmente à Terra Santa, como por exemplo o de
Egéria, datado do século V.
Fruto das invasões bárbaras, normandas, húngaras e muçulmanas no ocidente, as
peregrinações tornaram-se perigosas, chegando mesmo a significar perigo de vida. Este
contexto determinou uma quebra significativa nas peregrinações a Jerusalém, abrindo espaço
para o aparecimento e desenvolvimento de outros locais de peregrinação no Ocidente.
Um dos locais que se assume como grande centro de peregrinação foi Roma, por se
tratar do local onde os apóstolos Pedro e Paulo, os dois grandes pilares da Igreja Católica,
evangelizaram e foram martirizados em defesa da fé cristã, ainda que Paulo tivesse tido uma
importante missão evangelizadora nas suas três grandes viagens pelo oriente, acabara por ser
morto em Roma, tal como Pedro que aí permanecera.
A descoberta do túmulo do Apóstolo Tiago, em Compostela, suscitou a emergência de
um novo local de peregrinação102, localizado na Península Ibérica, para onde começam a fluir
peregrinos no século IX.
Paralelamente, começam a surgir igualmente, atraindo inúmeros peregrinos, santuários
marianos, que, curiosamente, se encontram perto de algumas vias de peregrinação já
existentes, bem como de mosteiros, que se assumiram como locais de apoio aos peregrinos,
de recolhimento espiritual e de cultura.
Nos séculos XI e XII, as peregrinações assumem uma outra perspectiva com o
movimento das Cruzadas103, uma vez que se pretende defender os Lugares Santos dos
“infiéis”, envergando uma cruz, símbolo máximo do Cristianismo, e uma espada, como se de
uma “peregrinação armada” se tratasse. Posteriormente, seriam as Cruzadas a criar alguma
tensão no seio da Igreja Católica, fruto da luta pelo poder entre os intervenientes, o que
acabou por favorecer a própria divisão na Igreja.
101
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales. A Coruña: Xuntanza Editorial, 1993, p.86.
102
Trataremos especificamente a Peregrinação a Compostela no capítulo III.
103
Em 27 de Novembro de 1095, o papa beato Urbano II (1088-1099), por ocasião do Concílio de Clermont (em Clermont-
Ferrand, França), organizou a Primeira Cruzada. Em 15 de Julho de 1099, os cruzados tomariam Jerusalém aos muçulmanos
pela primeira vez. Durante mais de dois séculos outras Cruzadas se seguiriam. HAMILTON, Bernard, As Cruzadas. Lisboa:
Temas e Debates, 2000.
45
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Com o anúncio do primeiro Jubileu Cristão, em 1300, pelo papa Bonifácio VIII (1294-
1303)104, as peregrinações a Roma, referenciada como a “Nova Jerusalém”, tomaram um novo
sentido e dimensão, acolhendo milhares de peregrinos ao centro da cristandade ocidental.
Gradualmente, o sentido da peregrinação foi evoluindo, à semelhança da própria
sociedade, que criou novos Estados e igrejas. Ou seja, com a descoberta dos Novos
Mundos105, são muitas as pessoas que se deslocam para terras descobertas, interagindo com
novas culturas e novas religiões e crenças. Presencia-se uma multiplicação dos locais de
peregrinação, emergindo em locais mais próximos, com especial incidência em Santuários
Marianos, associados a aparições de Maria, e em mosteiros associados à presença de relíquias
de Santos.
Apesar das profundas e das múltiplas inovações e transformações na sociedade dos
séculos XVIII e XIX, em paralelo com um nascente e progressivo processo de globalização, a
tradição da peregrinação manteve-se na comunidade cristã.
Este fenómeno foi fomentado no Concílio do Vaticano II (1962-1965), apelando-se à
consciência de cada cristão enquanto peregrino. Na verdade, o Concílio abordou essa questão
no Decreto Cristus Dominus, acerca do múnus pastoral dos Bispos na Igreja, que foi
promulgado em 28 de Outubro de 1965. Nesse documento, era solicitado aos bispos que
fossem solícitos para com os peregrinos em geral106, onde, naturalmente, se incluiriam os
peregrinos de Santiago. Essa consciência acabou por ser firmada com o próprio exemplo dos
papas João XIII (1958-1963), a Loreto, e Paulo VI (1963-1978), à Terra Santa, respondendo
ao apelo que Jesus tinha feito e que está expresso em várias passagens bíblicas. Porém, o
maior exemplo de “peregrino” entre os papas foi o papa João Paulo II (1978-2005), que, além
das peregrinações aos Lugares Santos e Santuários, percorreu grande parte do mundo, em
nome do Evangelho.
Actualmente, as Peregrinações dividem-se entre Santuários, Cidades e outros locais de
relevância no seio do Cristianismo.
Com efeito, na perspectiva cristã, a vida humana é uma caminhada espiritual na busca
de Deus, ou seja, uma peregrinação ao encontro de Deus. O cristão reconhece que, no seu
caminhar, Deus o acompanha a caminho da pátria celeste.
104
Graças à enorme afluência de peregrinos a Roma, o Papa Bonifácio VIII decretou convocar um Jubileu a cada cem anos.
Posteriormente, foi reduzido o intervalo de tempo para cinquenta anos e mais tarde para vinte e cinco anos.
105
Entenda-se as Américas, África e o Ocidente mais longínquo.
106
MARQUES, Valentim (coord.), Concílio Ecuménico Vaticano II Documentos Conciliares: Constituições, Decretos,
Declarações. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2002, pp.316-318.
46
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Subsídios para a criação de uma rota turística
2. Motivos da Peregrinação
Cada peregrino possui motivos de âmbito pessoal que provocam a sua iniciativa e
entrega a uma acção tão exigente e com algum cariz de aventura como é uma peregrinação.
Enfrenta medos e inquietudes diversos que exigem uma atitude de coragem e de audácia.
Com certeza que a devoção se assume como principal razão de uma peregrinação,
envolvendo nalguns casos o cumprimento de uma promessa ou a penitência por um pecado
cometido, mas também em forma de agradecimento pelas graças recebidas e a esperança no
futuro.
107
SILVA, José Antunes, A Caminho de Santiago. Como quem procura uma fonte ou uma estrela. Prior Velho: Paulinas,
2004, p.13.
47
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
108
Curiosamente, ainda hoje na Bélgica, é permitido ao condenado “substituir” a pena de prisão pela “pena” da peregrinação
a Compostela. PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago el Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos
caminos. Madrid: Aldeasa, 1999, p.87.
109
Este tipo de punição chegou a verificar-se na Bélgica, em que a “peregrinação curta” era até Tours.
48
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
peregrinação se tratasse de uma viagem ao seu próprio interior, mas sempre com uma índole
acentuada de religiosidade e de espiritualidade.
Porém, começa a haver quem procure determinada rota de peregrinação com o intuito
de turismo cultural ou turismo religioso110, descobrindo na rota um destino turístico acessível
e com muitas ofertas culturais.
110
Tratar-se-à desta temática na Parte II, no capítulo I, subcapítulo 2.
111
Muitas informações são obtidas nos albergues, muitas vezes em conversa entre peregrinos “novatos” e outros mais
experientes, ou até mesmo através do “hospitaleiro” (pessoa que recebe os peregrinos no albergue).
49
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Subsídios para a criação de uma rota turística
peregrinação vêem-se obrigados a responder a todos os que ali passam, tendo o cuidado de
disponibilizar informação acessível a todos os que a procuram, além de promoverem a sua
própria cultura e tradições.
Com efeito, muitos são os peregrinos que regressam a determinado país pela boa
experiência que tiveram aquando da realização da sua peregrinação, explorando outros locais
de atracção.
50
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
CAPÍTULO III
A Peregrinação a Compostela
51
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Subsídios para a criação de uma rota turística
112
SILVA, José Antunes, A Caminho de Santiago. Caminho Português. Como quem procura uma fonte ou uma estrela. Prior
Velho: Paulinas, 2004, p.18.
113
As peregrinações a Jerusalém, Roma e a Compostela são denominadas de maiores.
114
De facto, a via mais tradicional da peregrinação jacobeia é o chamado Caminho Francês, salientando assim o papel que
França assumiu no seio das peregrinações.
52
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Assim, acabaram por espalhar a sua influência, fundando novos espaços beneditinos, dos
quais destacamos San Juan de la Peña, Leyre, Irache, Nájera, San Millán de la Cogolla,
Cardeña, Frómista, Carrión, El Cebrero e Samos, que, ainda hoje, são uma referência para
apoio aos Peregrinos.
O primeiro peregrino conhecido é o Bispo Gotescalco, da diocese de Le Puy, que, em
951, partiu em direcção a Compostela, tendo o relato da viagem sido escrito pelo Monge
Gómez do Mosteiro de Albelda, também participante na peregrinação. De facto, no prólogo, o
Monge Gómez esclarece que “Forzado por el obispo Gotescalco, que, por motivo de oración,
saliendo de la región de Aquitania, com una gran devoción y acompañado de una gran
comitiva, se dirigia apresurado a los confines de Galicia para implorar humildemente la
misericórdia de Dios y el sufrágio del apóstol Santiago, escribí de buen ánimo el pequeño
libro…”115, acompanhou o bispo na sua Peregrinação, partilhando o espírito de devoção pelo
Apóstolo. A cidade de Le Puy passou a ser um local de concentração de algumas vias de
peregrinação relacionadas com santuários franceses e começou a ser um dos pontos de partida
para a peregrinação jacobeia.
Passados nove anos, o Abade de Montserrat, Cesáreo, foi igualmente peregrino a
Compostela. Não questionando o cariz religioso da sua peregrinação, ela ficou conhecida
essencialmente pela sua motivação política, uma vez que era sua intenção restaurar a diocese
tarraconense; assim, com o aval dos bispos galegos, Cesáreo confrontou os bispos catalães,
invocando a “apostolicidade” do bispado de Iria-Compostelana, uma vez que Tiago estaria
sepultado em Compostela.116
Não obstante as primeiras peregrinações de que há notícia terem ocorrido em plena
reconquista cristã, na altura em que se travavam batalhas entre cristãos e muçulmanos, apesar
das dificuldades e de algum clima de instabilidade, a peregrinação a Compostela, ao contrário
de outras vias, permanecia relativamente segura, atraindo peregrinos da Europa central, sendo
muitos os peregrinos que procuraram Compostela como meta de peregrinação, com o sentido
de uma prática piedosa e gratificante.
Com o apoio de Sancho Garcés III de Navarra (reinado entre 1004 e 18 de Outubro de
1035), a peregrinação a Compostela foi incentivada, uma vez que foram eliminadas barreiras
físicas, tornando os trilhos mais seguros, além dos benefícios fiscais que os peregrinos
115
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.102.
116
Idem, pp.103-104.
53
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
detinham. Paralelamente, foram fundadas cidades, nas quais foram construídos hospitais (para
acolhimento de peregrinos), mosteiros e catedrais.
A política régia de protecção à peregrinação a Compostela é adoptada igualmente
pelos monarcas Sancho Ramírez117 de Aragão e Navarra e Afonso VI118 de Castela e Leão,
que contavam com o crucial apoio do Mosteiro de Cluny, principal responsável pelo
acolhimento dos peregrinos.
No final do século XI, a peregrinação já se encontrava bem firmada e, logo no início
do século XII, em 1120, é atribuída a titularidade de arcebispado a Compostela e nomeado o
seu primeiro arcebispo, D. Diego Gelmírez119, grande promotor da peregrinação jacobeia,
tendo sido “ (...) o prelado compostelano que mais fez por engrandecer a sé apostólica
jacobéia, o artífice da profunda remodelação vivida na cidade de Santiago na primeira metade
do século XII e o mais ardente defensor da peregrinação e do culto ao apóstolo São Tiago.”120
A conjuntura era bastante favorável, “se organizó y promovió la infraestructura física
y asistencial de un camino de peregrinación de felices alcances morales y culturales. Un
camino trazado ex novo, protegido y dinamizado por los reyes cristianos desde los pasos
pirenaicos hasta el santuario compostelano, atravesando Aragón, Navarra, La Rioja, Castilla,
León y Galicia. Un camino que será vía devocional y sacra com capacidad para vehicular,
durante siglos, buena parte de los valores espirituales y culturales generados por la
civilización Cristiana occidental: religiosidad, hospitalidad y generosidad recíproca, amén de
favorecer una eclosión cultural y artística sin precedentes en el norte peninsular.”121
Com o apoio incondicional da monarquia e da nobreza, além do apoio e “patrocínio”
do clero, a peregrinação a Compostela afirma-se como via de peregrinação, disponibilizando
aos seus peregrinos apoio e assistência permanentes.
A peregrinação a Compostela conta, inclusivamente, com o apoio do papado, além do
contínuo apoio da Abadia de Cluny, merecendo destaque o Abade São Hugo que promoveu,
117
Reinado em Aragão entre 1063 e 1094, e em Navarra entre 1076 e 1094.
118
Reinado em Leão entre 1065 e 1109, em Castela entre 1072 e 1109, e na Galiza entre 1073 e 1109.
119
Arcebispo de Santiago de Compostela entre 1100 e 1140.
120
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.101.
121
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.50.
54
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
juntamente com as ordens religiosas militares, a defesa e segurança do caminho e dos seus
peregrinos.
O século XII é, sem dúvida, o “Século do Caminho”. A peregrinação aumenta
consideravelmente, acolhendo peregrinos de toda a Europa, contribuindo em muito a
publicação do Codex Calixtinus, no qual se inclui o livro V, Liber Peregrinationis, atribuído a
Aymeric Picaud, um guia para o Caminho de Santiago122, dando indicações práticas sobre o
itinerário, hospedagem, entre outras, apresentando a peregrinação a Compostela como algo
generalizado, aberto a todas as pessoas, independentemente da sua condição social e
económica. Posteriormente, foram publicados outros guias (não tão completos como o Livro
V do Codex Calixtinus), indicando essencialmente os itinerários.123
No século XIII, a peregrinação a Compostela amplia-se, graças à expansão geográfica
de que é alvo, bem como ao crescente interesse e divulgação desta via de peregrinação através
de guias. Além disso, há que valorizar o facto de se encontrar subjacente à peregrinação a
Compostela o apoio eclesiástico ao mais alto nível, nomeadamente na celebração dos Anos
Santos que muito contribuiu para a difusão e crescente importância do Caminho.
Curiosamente, desde o século XV, paralelamente à devoção religiosa, há notícia de
que membros da nobreza percorriam o Caminho no sentido de se enriquecerem culturalmente,
uma vez que contactavam com diferentes povos e, consequentemente, com diferentes
culturas, conhecendo melhor o Caminho que os conduzia a Compostela. Além disso, era
frequente o encontro ao desafio entre cavaleiros, disputando o seu valor entre eles.124
Uma das aventuras mais conhecidas é a do “Paso Honroso”, protagonizada por D.
Suero de Quiñones, no Rio Órbigo, ocorrida entre 10 de Julho e 9 de Agosto de 1434. “Tras
una batalla en la que se quebraron ciento sesenta y seis lanzas, don Suero, herido en su cuerpo
pero reforzado en su espíritu, peregrinó a Compostela para agradecer al Apóstol su respaldo y
ofrendarle una cinta de plata que, a modo de gargantilla, adorna el cuello del busto que
122
Este tema será tratado no capítulo IV.
123
AUGUSTO, Sara, “Peregrinações: Roma e Santiago de Compostela” in Separata de Condicionantes Culturais da
Literatura de Viagens. Estudos e Bibliografias. Lisboa: Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de
Lisboa, Edições Cosmos, 1999, p.100.
124
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago el Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.87.
55
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
contiene la reliquia del cráneo de Santiago el Menor. Una inscripción grabada en la misma
cinta recuerda el hecho histórico.”125
Na Época Moderna, a peregrinação a Compostela continuou a ser uma das principais
metas de peregrinação, sendo muito procurada por devotos do Apóstolo, que procuravam
viver uma experiência enriquecedora, não só em termos espirituais, mas também em termos
culturais e sociais.
Apesar dos problemas causados pela Reforma protestante, a peregrinação a
Compostela teve um importante impulso na época da Contra-Reforma católica, nos séculos
XVII e XVIII, beneficiando do impacto que a reforma da Catedral provocou, deslumbrando
os fiéis com a exuberância e aparato do barroco.
No século XIX, a peregrinação a Compostela conta com um importante fluxo de
peregrinos, muitos deles portugueses, aumentando consideravelmente a partir de 1879, data
da re-descoberta do túmulo de São Tiago, momento em que é aberta ao público a cripta
apostólica (sita por debaixo do altar-mor) e quando o papa Leão XIII (1878-1903), concede a
célebre Bula Deus Omnipotens.
Com algumas condicionantes, como a I Guerra Mundial (1914-1918), a Guerra Civil
de Espanha (1936-1939), a II Guerra Mundial (1939-1945), entre outras, a Época
Contemporânea retrai muitos peregrinos a Compostela, mas recupera a sua essência, na
segunda metade do século XX, com o impulso do Padre Elías Valiña126, pároco de O Cebreiro
(na fronteira entre a região de Leão e a região da Galiza), e de outros sacerdotes que, ao
recuperarem a via, recuperam igualmente a peregrinação e o seu sentido.
Após um período de uma crise acentuada, a Europa começa a consolidar a ideia de um
continente unido, sem fronteiras e com interesses comuns. Com a criação da União Europeia,
este processo reafirmou-se; os Estados europeus tinham como objectivo aprofundar os valores
culturais comuns, fomentar um espírito de confiança, trabalho e solidariedade, entre outros.
Com o sentido de futuro europeu partilhado, nos finais do século XX, existe um
crescente interesse sobre os valores da peregrinação, bem como a valorização do espiritual e
do social, além do aspecto cultural, turístico e desportivo que começa a revigorar no seio dos
peregrinos a Compostela.
125
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago el Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.87.
126
O Padre Elías Valiña é o principal impulsionador do Caminho de Santiago, principalmente no território galelgo, e a ele se
deve a sinalização do mesmo, a partir de 1984, com as famosas setas amarelas (“las flechas amarillas”). Este assunto será
aprofundado no capítulo IV, no subcapítulo 3., dedicado à sinalização do Caminho de Santiago.
56
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Muitos foram os factores que contribuíram para este novo “impulso peregrino”: as
Jornadas Mundiais da Juventude, em 1989, presididas pelo Papa João Paulo II, apelando à
participação dos jovens nesta via de peregrinação; a declaração do Caminho de Santiago
como Património Mundial da Humanidade, em 1993; o livro “O Diário de um Mago”127 de
Paulo Coelho que contribuiu para a difusão do Caminho de Santiago, principalmente em
território brasileiro; o primeiro Ano Santo no século XXI, em 2004, que atraiu inúmeros
peregrinos de todo o mundo; entre outros.
De facto, já em pleno século XXI, Santiago de Compostela continua a ser uma das
metas de peregrinação mais importantes, atraindo cada vez mais peregrinos; “(…) un
fenómeno de masas – espontáneo, alegre, solidario, mestizo en lo cultural – como lo había
sido en los siglos XI y XII. La esperanza en una Europa unida, trabajadora, solidária y abierta
al mundo tiene, por fuerza, que basarse en aquellos aspectos éticos y culturales, en aquelles
valores universales, que definen la esencia de Occidente y su posición moral en el mundo de
hoy. El legado histórico y espiritual de las peregrinaciones a Santiago, lejos de manifestarse
como un hecho castizo y cerrado, producto supersticioso de un pasado medieval y de un
mundo muerto y perdido, evidencia la fuerza de los valores inmutables de hospitalidad,
solidariedad y ayuda mutua que dignifican al género humano.”128
128
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.59.
129
Este tema será tratado no capítulo IV.
57
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
130
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.49.
131
Idem, pp.52-53.
132
Idem, p.53.
58
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
133
Este tema será tratado no capítulo IV.
134
Este tema será tratado no capítulo III, no subcapítulo 2.2.1.
59
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Mas são as unidades de restauração quem mais consegue atrair os peregrinos (fig.7),
não só pelas suas iguarias135, mas principalmente pelos tradicionais “menús de peregrino”,
com os quais, por uma reduzida quantia, variando entre os 6€ (seis euros) e os 9€ (nove
euros), se pode ter uma refeição bastante completa.
O Caminho de Santiago assumiu, desde cedo, um papel importantíssimo enquanto via
comercial, através da qual os comerciantes transportavam as suas mercadorias, promoviam
importantes mercados, além do abastecimento dos locais por onde passava o Caminho e da
própria cidade de Santiago de Compostela, recebendo privilégios e regalias por parte da
Igreja. “Os arcebispos composteláns tiveron que se preocupar de garanti-lo abastecemento da
Cidade do Apóstolo, que non estaba preparada para responder á demanda da poboación
flotante de peregrinos. Houbo exencións e franquias para os mercadores que viñan com
aprovisionamento e máis dunha vez a xente do arcebispado tivo que reprimilos atropelos dos
nobres galegos, que pasaban por riba dos privilexios arcebispais en favor dos comerciantes.
No Camiño existían provedores de todo o que necesitaban os peregrinos, tanto para a súa
vestimenta coma para o seu sustento e aloxamento.”136 Um grupo importante no Caminho de
Santiago eram também os “cambiadores”, que tinham como principal função cambiar os
diferentes dinheiros dos peregrinos, dado atravessarem diversos reinos no Caminho, “(…) con
la consiguiente necesidad de proveerse de la moneda propia del território con la que hacer sus
transacciones. Este trabajo tenía especial importancia en Santiago, en donde los cambeadores
esperaban a los romeros con sus mesas instaladas al final del Camino, en la Plaza del Paraíso.
Allí se hacían las correspondientes operaciones, en las que no es difícil que alguno de los
profesionales, haciendo gala de no serlo tanto, buscara la manera de engañar al extranjero y de
sacarle mayor provecho a la operación de trueque.”137
Hoje, destacam-se ainda os estabelecimentos comerciais (fig.8) que têm muitas ofertas
para os peregrinos, sejam vieiras, chapéus, t-shirts, azulejos, medalhas, canecas, porta-chaves,
pin’s, entre outros, desde que tenham a simbologia associada ao Caminho de Santiago:
Apóstolo, vieira, bordão e a seta.
135
A título de exemplo, apresentamos uma experiência pessoal tida, em Agosto de 2003, no Caminho Francês: chegados ao
Cebreiro (localidade fronteiriça entre a Galiza e Leão e Castela), tínhamos a indicação do local de “Venta Celta” para
saborear o famoso caldo galego; esta informação foi recebida no Albergue de Ponferrada, na etapa anterior.
136
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.119.
137
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, pp.111-112.
60
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
138
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.57.
139
Ainda que este tema já tenha sido tratado no capítulo II, no subcapítulo 2., consideramos importante a sua inclusão no
contexto da peregrinação a Compostela, até porque conseguimos identificar outros motivos.
140
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.99.
61
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
del ambiente psicosocial próprio del mundo medieval. Las motivaciones que los peregrinos
demostraban eran de índole devocional, piadosa y/o penitencial.”141
Na peregrinação a Compostela, o peregrino entrega-se totalmente ao Caminho,
recebendo as indulgências oferecidas pela Igreja e alcançando as graças pedidas ao Apóstolo,
abdicando das comodidades e oferecendo esse sacrifício a Deus.
Tal como já referido anteriormente142, um outro motivo da peregrinação prendia-se
com motivos de penitência. Segundo Vásquez de Parga, “La peregrinación no fue, en la Edad
Media, una práctica que respondiese únicamente a la satisfacción de un acto individual de
devoción, ya fuese espontánea u obligada por un voto formulado en un momento de grave
peligro o enfermedad. Muchos peregrinos emprendían el viaje forzados por una penitencia
canónica o por una sentencia civil, y, cuando se admitió el principio de la sustitución, hubo
peregrinos a sueldo y peregrinos por manda testamentaria… Santiago de Compostela fue
preferida manifiestamente como una meta impuesta a los sancionados por la Iglesia o por la
autoridad civil, reflejándose en ello su situación preeminente en la devoción del mundo
Cristiano.”143 Como já referido, a tradição cristã faz alusão à peregrinação penal, não só como
uma forma de remissão de pecados, mas também como a tomada de consciência dos pecados
cometidos, imposta tanto a leigos como a eclesiásticos. Normalmente, era atribuído o local da
peregrinação ou indicado o tempo de peregrinação, deixando ao critério do “pecador” o local
da peregrinação; durante a peregrinação, a visita aos santuários tinha um duplo sentido: a
oferta do sacrifício da viagem e o pedido de ajuda aos santos visitados.144
No entanto, associados aos motivos de penitência, encontram-se outro tipo de factores,
tais como a deslocalização do “pecador” da sua comunidade, evitando represálias por parte
das famílias das vítimas, e a publicidade da punição do(s) pecado(s) cometido(s), servindo
como exemplo à comunidade.
Paralelamente aos motivos “tradicionais” da peregrinação, nomeadamente o
devocional, o piedoso e o penitencial, encontramos a referência de peregrinos que se dirigem
a Compostela na procura de saúde. “O Calixtino, logo de recorda-la presencia de Santiago
141
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.58.
142
No capítulo II, dedicado às Peregrinações.
143
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.114.
144
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.100.
62
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
nalguns feitos ós que convidou especialmente Xesús, en compañia de Xoán e de Pedro, relata
que o Apóstolo «devolvia la vista a los ciegos, el paso a los cojos, el oído a los sordos, el
habla a los mudos, la vida a los muertos y curaba a las gentes de toda clase de enfermedades
para gloria y alabanza de Cristo” e facíao “no com algunos medicamentos o elacterios o
composiciones o jarabes o diversos emplastos, o pociones o soluciones, vomitivos u otros
antídotos de los médicos, sino por la acostumbrada gracia que Dios le concedia». A lista de
curacións amplíase, lembrándolle ó lector alguns dos enfermos que recoñeceron na
recuperación da súa saúde un favor do Apóstolo: «leprosos, frenéticos, nefríticos, maniosos,
sarnosos, paralíticos, artéticos, escotomáticos, flegmáticos, coléricos, energúmenos, devios,
tremulosos, celafárgicos, emigránicos, podágricos, estranguiriosos, disuriosos, febriciantes,
caniculosos, hepáticos, fistulosos, tísicos, disentéricos, mordidos por serpientes, ictéricos,
lunáticos, estomáticos, reumosos, amentes, epifrosos, alguginosos».”145 Muitos eram os
peregrinos que acorriam a Compostela na procura da saúde, não só a título individual, como a
título colectivo, como é o exemplo das cidades de Barcelona e Xirona, em 1484.
Vasquez de Parga apresentou um outro tipo de peregrinação: a cavaleiresca;
definindo-a da seguinte forma: “con el siglo XV se inicia un nuevo tipo de peregrino
caballaresco, para el que la meta piadosa del viaje era poco menos que un pretexto para tener
ocasión de ver países y costumbres exóticas, frecuentar cortes extranjeras y lucir su valor,
habilidad y destreza en los torneos”146. Este tipo de peregrinação prende-se com motivos
culturais, além de constituir uma aventura, por si só.
De facto, toda a peregrinação é um enriquecimento cultural, não só para os peregrinos,
mas também para quem os acolhe. “Calquera que sexa o motivo da viaxe ó santuario, no
nosso caso ó compostelán, quen o leva a cabo ten a oportunidade de coñecer xente, costumes
(…) linguas, cancións, comidas, terras, etc…, o que non cabe dúbida de que contribúe a
aumenta-lo caudal cultural do peregrino. Póñeno de manifesto as crónicas ou itinerarios de
viaxes escritos por moitos romeiros. O Camiño serviu de fonte cultural para o peregrino; pero
tamén ós habitantes do mesmo Camiño cousas que eles descoñecían ata entón. Os peregrinos
agrupábanse e, moitas veces co fin de conseguiren axudas da caridade da xente dos pobos por
onde pasaban, interpretaban cancións e bailes dos seus propios países, co que a rota de
145
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.113.
146
Citado por RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico
Gallego. 1. Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.117.
63
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
64
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
que não seja obrigatório, de forma a promover o sucesso físico da peregrinação, é conveniente
promover um treino prévio de caminhadas, aumentando progressivamente a distância
percorrida, bem como o peso da mochila a transportar.
A peregrinação em bicicleta (fig.10) começa a ganhar cada vez mais adeptos150, até
porque as bicicletas actualmente “estão na moda”. De facto, ao peregrino de bicicleta é-lhe
atribuído, carinhosamente, o título de “bicigrino” e, para que receba igualmente a
Compostela, terá que percorrer os últimos 200 kms do Caminho de Santiago, o que nem
sempre é fácil. Em média, os “bicigrinos” pedalam cerca de 60 kms por dia, dependendo da
dificuldade da etapa e da distância entre os albergues, e tendo em conta as condições físicas
dos próprios. A opção de efectuar a peregrinação por este meio requer um treino prévio:
inicialmente com a bicicleta por carregar, e gradualmente com os alforges carregados na
mesma. Para além disso, será importante possuir um conhecimento técnico sobre bicicletas,
ainda que existam cada vez mais oficinas específicas ao longo do Caminho.
Actualmente, a peregrinação a cavalo é muito rara, uma vez que não existem muitas
condições para apoiar esta modalidade de peregrinação, nomeadamente no que diz respeito ao
estabular os cavalos durante a noite, sendo necessário recorrer a acampamentos ou a quintas
particulares que possam acolher os peregrinos e os seus cavalos, além de um veículo de apoio
para o transporte de ração e de palha. Em média, os peregrinos a cavalo cavalgam entre 30 a
50 kms por dia, dependendo da dificuldade da etapa e das condições de “alojamento”.
Obviamente, a opção pela peregrinação a cavalo requer um treino bastante adequado.
150
A título de curiosidade, na última peregrinação no Caminho Português (desde Valença do Minho) efectuada durante o mês
de Junho de 2011, cerca de 40% dos peregrinos eram “bicigrinos” (peregrinos de bicicleta), tendo feito parte da “estatística”
em igual período no ano passado, ainda que percorrendo o Caminho Francês (desde Astorga).
65
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
de piedade e oração muito propícia para o exercício da caridade cristã, com um hóspede – o
peregrino – que podia ser tomado como um enviado do Céu.”151
Dois dos exemplos mais emblemáticos no Caminho de Santiago pela assistência
prestada e que, rapidamente, alcançaram a canonização foram Santo Domingo de la Calzada e
São João de Ortega.152 Actualmente, os locais da sua acção são “paragem obrigatória” para
quem faz o Caminho Francês153.
A própria Catedral de Santiago é o exemplo máximo da hospitalidade, funcionando
como albergue e centro de acolhimento. “A catedral estava sempre cheia de gente que fazia a
vigília do Apóstolo. Os peregrinos juntavam-se debaixo das abóbadas românicas em veladas
muito longas, fazendo oração, comendo, descansando e, muitos dos que chegavam enfermos,
morrendo à beira do Apóstolo. No Liber Sancti Jacobi já se dizia, em cerca de 1135, que as
portas da catedral permaneciam abertas dia e noite, e que a compreensão dos eclesiásticos
catedralícios era muita, ao entenderem que os devotos do Apóstolo, chegados de terras muito
distantes e dos países mais díspares do Ocidente, tinham direito de permanecer na Casa do
Senhor São Tiago.”154
Muitos foram os monarcas que se empenharam no acolhimento aos peregrinos, além
dos privilégios concedidos, permitindo-lhes a livre circulação e facilitando-lhes o seu
acolhimento.
Em 886, uma acção régia de Afonso III (866-910), promoveu a criação de uma
instituição destinada ao acolhimento de peregrinos, o “xenodoquio, do latino xenodoquium,
que ó mesmo tempo, responde á palabra grega que significa “hospedería”. Estaba
perfectamente regulada a atención ós peregrinos ata a concreción mesma das cantidades
mínimas de carne, pan e viño que había que lles dar, así como a dotación das habitacións,
ainda que non se pode responder de que se realizara sempre o preceptuado. Pero, ó mesmo
tempo, os peregrinos tiñan o deber de cumpriren coas súas obrigacións mentres recibiran as
151
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.84.
152
Santo Domingo de la Calzada (1019-1109) e São João de Ortega (1080-1163) foram dois sacerdotes que dedicaram parte
da sua vida à assistência aos peregrinos do Caminho de Santiago, além de melhorar as condições do Caminho, construindo
pontes e limpando os trilhos.
153
Este tema será tratado no capítulo IV, no subcapítulo 1.1.
154
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.87.
66
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
155
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.106.
156
Na hospedaria actual, existem doze quartos, simbolizando os pequenos abrigos de peregrinos da Idade Média.
157
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.86.
158
Actualmente, o Hospital dos Reis Católicos funciona como um hotel de luxo, ainda que permaneça com o vínculo ao
acolhimento e hospitalidade para com os peregrinos de Santiago, acolhendo-os e oferecendo as refeições aos primeiros dez
peregrinos, mediante a apresentação da sua Credencial.
67
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
159
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.93.
160
Idem, p.94.
161
Referida no capítulo III, subcapítulo 2.4.
162
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.95.
68
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Além destas três Ordens, merecem também destaque a Ordem de São Jerónimo e a
Ordem de Santo Agostinho, que também se encontram no Caminho de Santiago, dando
igualmente assistência e acolhimento aos peregrinos.
Como sublinhou Singul Lorenzo, também as ordens religiosas militares foram
acolhedoras dos peregrinos: “A fundação das ordens de cavaleiros é consequência das
peregrinações cristãs à Terra Santa e das sucessivas cruzadas orgazinadas para libertar os
Santos Lugares e lutar contra o Islão; em geral, confluem nas ordens de cavalaria o ideal
ascético dos monges com o ideal guerreiro dos cavaleiros de Cristo, tendo como filosofia de
vida os votos monásticos de pobreza, castidade e obediência, a caridade de atender os pobres
e aos enfermos e a obrigação militar de proteção aos fiéis que peregrinam aos Santos Lugares:
a Jerusalém e a Santiago de Compostela.”163
Fundada na Palestina, em 1002, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de
Jerusalém dedicou-se à defesa dos peregrinos na Terra Santa e no Caminho de Santiago. Foi
reconhecida como irmandade hospitalária em 1113, pelo papa Pascoal II (1099-1118), mas só
foi transformada em ordem militar em 1120, pelo francês Raimundo de Puy, então o grão-
mestre da Ordem. Chegados à Península Ibérica em 1155, com o apoio dos monarcas e
nobres, foram sendo fundadas Casas da Ordem ao longo do Caminho Francês, com o intuito
de acolher e dar assistência aos peregrinos, entre as quais: Pamplona, Estella, Atapuerca,
Puente de Fitero, Léon, Hospital de Órbigo, Puerto de Manzanal, Sarria, Portomarín e
Santiago de Compostela.
A Ordem dos Templários, fundada em Jerusalém, em 1119, inspirava-se igualmente
nos ideais da caridade, da hospitalidade e da defesa dos peregrinos, mas com um vínculo mais
guerreiro em defesa dos valores cristãos e de Jesus Cristo. Fruto da herança recebida de
Afonso I, rei de Aragão, aquando da sua morte, em 1119, esta Ordem recebeu o reino de
Aragão, além de outras propriedades que detinha ao longo do percurso do Caminho de
Santiago, assegurando assim o acolhimento, a segurança e protecção dos peregrinos. “(…)
sabemos que os templários cuidavam do Caminho e davam hospitalidade aos mais
necessitados, e leito a todos, mas também que não duvidaram em ter pequenas ganâncias, com
a venda de pão e vinho aos peregrinos, privilégio concedido por García Ramírez em 1146. No
trecho do Caminho que atravessa as terras de La Rioja e Castela há um bom número de
lugares em que se menciona haver restos de centros templários; os restos em ruínas da Granja
163
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.89.
69
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
de Buradón parecem que pode ser um deles; a igreja de São Miguel de Arlanzón também
conta com atribuição templária. Villalcázar de Sirga (ou Villa Sirga), uma das pequenas
cidades do Caminho não perderam o seu encanto popular e mistério medieval, contou com o
estabelecimento de uma comenda da Ordem.”164
Além desta importante Ordem Militar, merece destaque a Ordem dos Cavaleiros de
Santiago, cuja origem é remota, sendo atribuída a sua fundação ao tempo de Ramiro I, rei das
Astúrias (842-850), de acordo com Precedo Lafuente.165 No entanto, e de acordo com J.
Martín, “a igreja galega de Santa Maria de Loio foi a Casa-Mãe da Ordem dos Cavaleiros de
São Tiago da Espada, fundada em 1170 com o nome de «freyles de Cáceres», por ter este
núcleo inicial o mandato régio de Fernando II de defender a cidade extremenha (1171). O
arcebispo de Santiago, Dom Pedro, apadrinhou e apoiou a irmandade, dando-lhe o nome de
São Tiago Apóstolo.”166 A 5 de Julho de 1175, a Ordem dos Cavaleiros de Santiago recebe a
aprovação do papa Alexandre III (1159-1181). “El distintivo es la cruz de color sangre en
forma de espada de hoja ancha y corta, con el testero rematado en forma de punta de lanza y
los brazos florenzados. Por un acuerdo entre el Cabido compostelano y la Orden de los
Caballeros, los canónigos compostelanos llevan sobre su sotana la cruz de los Caballeros, y
éstos tienen el privilegio de sentarse com los capitulares compostelanos en el coro de la
Basílica. Los Caballeros de Santiago fueron siempre protectores de los Caminos de
peregrinación.”167
Bem presente no Caminho de Santiago está igualmente a Ordem de São Lázaro, com
um sentido estritamente assistencial, até pela sua presença em hospitais ao longo do Caminho.
Merecem destaque quatro hospitais desta Ordem: Sarria, Portomarín, Melide e Santiago de
Compostela.
Uma outra instituição importante associada à peregrinação a Compostela é a
Confraria. No final do século XIII, é fundada, em Paris, a primeira Confraria em Paris, com o
intuito de juntar os que peregrinaram a Compostela, celebrando o dia do Apóstolo, a 25 de
164
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.92.
165
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago el Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.90.
166
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.92.
167
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago el Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.91.
70
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Julho, com uma missa solene. Esta ideia foi igualmente adoptada em inúmeros países. No
caso espanhol, “sede” do Caminho de Santiago, “(…) las Confradías de Santiago no eran de
antiguos peregrinos, sino de gentes de los Caminos que se agrupaban para proteger y acoger a
los romeros. Así tenemos, como ejemplo más relevante, la de los Falifos, en la provincia de
Zamora, nacida de la voluntad de varios párrocos vecinos de la localidad de Rionegro del
Puente, que se pusieron de acuerdo para ayudar a los que caminaban hacia Compostela. En
Santiago de Compostela nació la Archicofradía en tiempos del Papa Alejandro VI para ayudar
a las obras de construcción del Hospital de los Reyes Católicos. Cuando dejó de tener esta
finalidad, se dedico, como viene haciéndolo, a un fin espiritual, el de la difusión del culto
jacobeo.”168
Paralelamente a esta questão, tornava-se imperativo estabelecer uma legislação própria
que abrangesse todos os aspectos intrínsecos a esta peregrinação. Segundo Lacarra, chegou a
existir uma espécie de direito internacional do peregrino169. De facto, pretendia-se que os
Peregrinos circulassem livremente e que as populações que os acolhessem fossem benévolas,
dando-lhes privilégios e isenções. “Se les permitía la circulación libre y, en alguna
disposición legal como es el caso de Las Partidas, se advierte que se debe tener aún mayor
consideración con el peregrino que con el mercader, con el que la mayor parte de las veces se
le homologaba en lo que se refiere al respaldo legal. Se les otorgaron privilegios y
exenciones, por ejemplo en cuanto a prestamos, empeños y portazgos, y se legisló de modo
que se sintieran protegidos contra las tropelías de los aprovechados.”170
Actualmente, a Xunta da Galicia é uma das entidades que assume parte desse corpo
legislativo, articulando com entidades, públicas e privadas, o melhor acompanhamento dos
peregrinos.
168
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago el Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos. Madrid:
Aldeasa, 1999, p.91.
169
Idem, p.89.
170
Idem, p.89.
71
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
171
O primeiro Jubileu Cristão foi comemorado em 1300, decretado pelo Papa Bonifácio VII.
172
O primeiro Ano Santo do século XXI aconteceu em 2004.
173
A Porta Santa encontra-se esculpida no seu interior com as passagens da vida e trasladação de S. Tiago até Compostela.
174
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.148.
72
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Santa, as duas esculturas românicas que ladeiam Santiago anunciam que “Vendrán todos los
pueblos y dirán: Gloria a ti, Señor”.175
A maior graça que se pode obter no Ano Santo é a indulgência plena que, para os
cristãos, significa o perdão de Deus a todos os pecados; paralelamente, exige-se aos cristãos
uma atitude de mudança, estando mais disponíveis para os outros, com maior sentido de
justiça e de caridade. Esta indulgência plena, extensível aos defuntos, é atribuída todos os
dias, desde a tarde de 31 de Dezembro do ano anterior até à tarde do dia 31 de Dezembro do
Ano Santo, desde que sejam cumpridos os seguintes requisitos176:
- Visita à Catedral de Santiago, orando no seu interior, individualmente ou em
comunidade, pelas intenções do Papa, sendo recomendadas as orações do Pai Nosso e
do Credo;
- Confissão (devendo a mesma não ultrapassar os 15 dias até à visita da Catedral);
- Comunhão eucarística para cada indulgência.
Além dos rituais tradicionais177, os peregrinos participam nas cerimónias próprias do
Ano Santo. A peregrinação e a chegada a Santiago de Compostela, num Ano Santo, assumem
um especial significado e simbolismo para os fiéis, diferente de uma peregrinação num ano
comum.
175
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.165.
176
No interior da Catedral, e em Ano Santo, encontram-se afixados estes requisitos para a obtenção da indulgência plena.
177
Este tema será tratado no capítulo III, subcapítulo 2.3.
178
FIORAVANTI, Celina, Santiago pela Via Lunar – Peregrinação pelo Caminho Português. Lisboa: Pergaminho, 2001,
p.20.
73
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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Dante Alighieri refere “(…) na Vita Nuova, cap. XL (1293), que romeiro é aquele que
vai a Roma por devoção; palmeiro, o que vai a Jerusalém, para orar nos Santos Lugares; e
peregrino, o que vai à Casa de São Tiago, na Galiza, ou retorna dela.”179
Ainda que existisse uma distinção entre os diferentes peregrinos e as suas metas de
peregrinação180, curiosa é a distinção entre os verdadeiros peregrinos e os falsos peregrinos,
sendo frequente a utilização da indumentária do peregrino para poder usufruir de cuidados e
hospedaria gratuitos.
De facto, as pessoas iam fixando os atributos que os peregrinos e devotos de São
Tiago transportavam a caminho de Compostela, ajudando assim a identificá-los. “Os
peregrinos usavam um tipo de roupa e carregavam objectos tão característicos e originais, que
formaram os atributos – alguns deles usados até hoje – pelos quais se caracterizaram para
sempre (…).”181
Segundo o Codex Calixtinus, nomeadamente no sermão Veneranda dies, são indicadas
as principais características da indumentária do peregrino de Compostela. “Pues cuando los
enviamos con motivo de hacer penitencia al santuario de los santos, les damos un morral
bendito, según el rito eclesiástico, diciéndoles: En nombre de nuestro Señor Jesucristo, recibe
este morral hábito de tu peregrinación, para que castigado y enmendado después de haber
hecho el viaje vuelvas al lado nuestro com gozo, con la ayuda de Dios, que vive y reina por
los siglos de los siglos. Amén También cuando le damos el báculo, así décimos: Recibe este
báculo que sea como sustento de la marcha y del trabajo, para el camino de tu peregrinación,
para que puedas vencer las catervas del enemigo y llegar seguro a los pies de Santiago, y
después de hecho el viaje, volver junto a nos con alegria, con la annuencia del mismo Dios
que vive y reina por los siglos de los siglos. Amén” 182
179
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.57.
180
Considerando apenas as principais, também chamadas de “maiores”, Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela.
181
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.58.
182
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, p.196.
74
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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183
ADRIÃO, Vitor Manuel, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Lisboa: Livros Dinapress, 2011,
p.207.
184
Idem, p.208.
75
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
185
FERNÁNDEZ ARENAS, José, “Elementos Simbólicos de la Peregrinación Jacobea” in Actas del Congreso de Estudios
Jacobeos. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.272.
186
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.59.
187
Há notícia, por exemplo, de que, em vida, os peregrinos pedem que, na sua morte, lhes coloquem a vieira, ínsignia das
boas obras, de forma a identificá-los no Juízo Final.
188
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004.
189
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.60.
76
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
191
ADRIÃO, Vitor Manuel, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Lisboa: Livros Dinapress, 2011,
p.209.
192
FERNÁNDEZ ARENAS, José, “Elementos Simbólicos de la Peregrinación Jacobea” in Actas del Congreso de Estudios
Jacobeos. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.272.
193
ADRIÃO, Vitor Manuel, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Lisboa: Livros Dinapress, 2011,
p.212.
77
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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expresados na caridade dos homes, evocando a recollida de restos que mandou facer Cristo
despois da multiplicación dos pans e dos peixes, no que temos que ver unha invitación ó
respecto ós bens creados.”194 Hoje, os peregrinos utilizam os cantis, ainda que se encontrem
alguns transportando a tradicional cabaça, muitas das vezes com carácter somente decorativo.
O chapéu de aba larga protegia o peregrino do sol, da chuva e do frio, representando a
atitude humilde do peregrino, inclinando-se perante a bondade divina.
Associado à Via Láctea, constituída por inúmeras estrelas, o Caminho de Santiago é
também conhecido como o “Caminho das Estrelas”, até porque, segundo a lenda, como
começou por ser referido no início deste trabalho, terá sido depois de uma chuva de estrelas
que o corpo do Apóstolo foi descoberto.
A Cruz de Santiago é também um dos símbolos dos peregrinos, que se assemelha a
uma espada, remontando-nos para as batalhas em nome de Cristo, simbolizando a espada a
milícia e a cruz o caminho, em que cada um carrega a cruz de Cristo. (fig.17)
194
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.132.
78
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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195
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales. A Coruña: Xuntanza Editorial, 1993, p.128.
79
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longínquos. Logo, os peregrinos poriam a sua mão onde o próprio Deus a pusera para que a
catedral do apóstolo São Tiago fosse bem feita e orientada.”196
O toque com a cabeça na escultura de Mateo, mestre que terá construído o Pórtico da
Glória, é um dos rituais que o peregrino deve cumprir, não só para apreciar a obra por ele
realizada, mas também por se inspirar no seu exemplo de humildade e gratidão pela
inspiração divina recebida. “La creencia adscrita a este rito, que no tiene nada de religioso, es
la de que se contagia la inteligencia de Mateo a quien entra en contacto com su cabeza.”197
Segundo a tradição, o báculo de São Tiago, encontrado pelo Bispo Teodomiro, entre
as relíquias do Apóstolo e do peregrino São Francisco de Siena, que recuperou a visão em
Compostela, encontra-se numa coluna de cobre, coroada por uma imagem de São Tiago, sita
no transepto da Catedral. “Unha vella columna de cobre, se cadra do século XI ou comezos do
XII, coroada por unha imaxe de Santiago, do século XVI, encerra, segundo din, os báculos de
Santiago o Maior, encontrado pólo bispo Teodemiro xunto coas relíquias do Apóstolo e de
San Francisco de Siena, peregrino penitente que recuperou en Compostela a vista perdida. O
peregrino adoita tocar, pola parte de abaixo, o regatón. Neste rito hai que ve-la imaxe do
sacrifício da peregrinación, comezando pola de Santiago mesmo, que trouxo ata Fisterra a
mensaxe do Evanxeo, e gratitude de quen se sente favorecido por Deus, como o peregrino de
Siena.”198
O abraço ao Apóstolo é, sem dúvida, o ritual mais significativo de todos os outros,
sendo que o peregrino, após a sua longa jornada, abraça o Apóstolo, sito no altar-mor (fig.23,
24), recordando uma das frases mais trocadas entre os peregrinos: “Antes de abraçares o
Apóstolo, já ele te abraçou ao longo do Caminho”. De facto, o abraço “tiene un significado
religioso que es preciso destacar. El abrazo se daba tradicionalmente después de haber
cumplido los requisitos para ganar las indulgencias de la peregrinación. Los dos últimos se
llevaban a cabo en la capilla de la Magdalena, detrás del altar mayor, y, posteriormente, desde
el siglo XVI, en la capilla del Salvador. Se trataba de la confesión y la comunión, a las que
seguía la entrega al peregrino del certificado correspondiente, la compostela. Los peregrinos,
en esse momento, como el hijo pródigo de la parábola, se acercaban a darle el abrazo de paz
196
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.154.
197
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos.
Madrid: Aldeasa, 1999, p.105.
198
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales. A Coruña: Xuntanza Editorial, 1993, pp.128-129.
80
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al amo de la casa, el apóstol Santiago. Se ha escrito incluso que cada peregrino, al darle el
abrazo – en lengua gallega, aperta o apreta –, le diría a Santiago: «Encomiéndame a Dios,
amigo».”199
A visita ao sepulcro de São Tiago (fig.25, 26) é um momento muito especial para
todos os peregrinos que chegam a Compostela. Situado debaixo do altar-mor da Catedral,
encontra-se uma urna de prata, na qual se encontram os restos mortais de São Tiago e dos
seus dois discípulos, Atanásio e Teodoro. “La presencia de la cripta debajo del altar mayor
responde al deseo de celebrar la Eucaristía sobre el sepulcro del mártir, que en este caso es
además Apóstol de Cristo. Aunque mejor se diría que el altar mayor está donde está para
mantener la conexión com el sepulcro manifestativo de la confesión de Cristo por parte de
Santiago a través de la propia vida, en cumplimiento de la palabra dada a Jesús.”200
A Missa do Peregrino (fig.27) é celebrada diariamente ao meio-dia, sendo que o
peregrino participa dela e tem o privilégio de ouvir anunciada a sua chegada201 perante os
demais presentes. No final da Eucaristia, os peregrinos são presenteados com o botafumeiro
(fig.28), um grande incensário, que balança por todo o transepto da Catedral, ao som de
música litúrgica, perfumando toda a Catedral. “Se pone en funcionamiento para incensar la
imagen del Apóstol o las relíquias que se llevan en la procesión en las grandes solemnidades.
Cuando se acciona el Botafumeiro sin que haya procesión, por ejemplo, com motivo de una
peregrinación, es un homenaje a la Eucaristía celebrada y recibida, de modo que puede
considerarse como un modo de dar gracias a Dios. Es posible que en algún tiempo, además, se
haya utilizado el Botafumeiro como un ambientador, sobre todo en los siglos en los que la
Catedral, abierta día y noche, servía de dormitorio para muchos peregrinos.”202
199
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos.
Madrid: Aldeasa, 1999, p.105.
200
Idem, p.57.
201
No momento de acolhimento inicial, o sacerdote dá conta dos peregrinos que chegaram a Santiago de Compostela,
referindo a sua nacionalidade e o seu ponto de partida, dividindo-os pelos diversos Caminhos. Estes dados são fornecidos
pela Oficina do Peregrino, à qual os peregrinos se deslocam para receber a sua Compostela.
202
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos.
Madrid: Aldeasa, 1999, p.102.
81
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
204
Esta referência encontra-se no capítulo III, dedicado à Peregrinação a Compostela.
205
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.70.
206
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.108.
207
Idem, p.107.
82
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expansão da Ordem por ele fundada, bem como a construção do Convento de Santa Maria de
Bonaval. Curiosamente, São Domingo de Gusmão “(…) tenía familiares en Santiago, los
Traba, con lo que sus dos viajes a Compostela seguramente tuvieron el doble objetivo de
visitar la tumba de Santiago y de reunirse con sus parientes, que tuvieron una influencia
notable en la política gallego-leonesa.”208
A rainha Santa Isabel (c.1270-1336) empreendeu, em 1326 e em 1335, a peregrinação
a Compostela, tendo recebido um tratamento especial pelo prelado compostelano.209
Apenas cinco anos depois da segunda peregrinação da rainha portuguesa a
Compostela, em 1340, foi a vez da Santa Brígida da Suécia (1303-1373) realizar a sua própria
peregrinação.
A Compostela também peregrinou São Franco de Sena que foi alvo de um milagre do
Apóstolo, pois chegou cego a Compostela e recuperou a visão, deixando como sinal de
gratidão pela graça recebida o seu bastão de peregrino.
Ainda no século XIV, há o registo da peregrinação do Duque de Lancaster, que após
ter conquistado A Coruña, se dirigiu a Santiago de Compostela com o mesmo objectivo,
agradecendo a graça concedida ao Apóstolo, juntamente com a sua família210.
No século XV, merece destaque a famosa história do “Paso Honroso”, protagonizada
por D. Suero de Quiñones211, no Rio Órbigo, que, em agradecimento ao Apóstolo, ofereceu
uma gargantilha em prata, “(…) relíquia venerada en la Catedral desde los tiempos del
arzobispo Gelmírez.”212
Mas, uma das mais famosas peregrinações foi a empreendida pelos Reis Católicos:
Isabel I de Castela (1451-1504) e Fernando II de Aragão (1452-1516), em 1498, na qual os
reis “Hicieron numerosas limosnas a los romeros que encontraron en el camino y en la ciudad.
Y debió de ser tanta la impresión que les causaron el número de los romeros y las condiciones
en que se encontraban los que llegaban hasta Santiago, que tomaron la decisión de mandar
208
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.71.
209
Este tema será tratado no capítulo III, subcapítulo 2.5.
210
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.72.
211
Defensor da integridade dos peregrinos a Compostela.
212
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.73.
83
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construir el Hospital que llevaba su nombre y lo mantiene ahora desde que se há convertido
en hotal de lujo.”213
De facto, são muitos os famosos que peregrinaram até Santiago de Compostela e,
alguns deles, são hoje venerados na Igreja.
213
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.73.
214
AUGUSTO, Sara, “Peregrinações: Roma e Santiago de Compostela” in Separata de Condicionantes Culturais da
Literatura de Viagens. Estudos e Bibliografias. Lisboa: Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de
Lisboa, Edições Cosmos, 1999, p.102.
215
MARQUES, José, “O culto a S. Tiago no Norte de Portugal” in Actas del II Encuentro sobre los Caminos Portugueses a
Santiago. Vigo: Associación Amigos de los Pazos, 1994, p.65.
84
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O bispo do Porto, D. Hugo, “(…) havia de voltar à cidade das peregrinações para ver o
seu amigo D. Gelmirez e rezar junto do sepulcro do apóstolo.”216
Foram igualmente peregrinos a Santiago de Compostela: D. Afonso II (1212-1223),
em 1220, tendo deixado registado no seu testamento a sua devoção para com São Tiago; e D.
Sancho II (1223-1247), em 1244, igualmente devoto de São Tiago até por ser o patrono dos
exércitos cristãos.
Talvez a peregrinação mais conhecida, e provavelmente a mais mediática, foi a
realizada pela Rainha Santa Isabel, em 1325, fazendo uma parte por mar e as últimas etapas a
pé. “A primeira vez que veu a Compostela fíxoo a pé dende o Milladoiro, o lugar no que, por
esta rota, a dos camiños portugueses, se albiscaban por vez primeira as torres da catedral
santiaguesa. Participou nas celebracións solemnes do día 25 de xullo e, no ofertório da Misa
que oficiaba o arcebispo Berenguel de Landoria, presentou como ofrenda a rica coroa e os
vestidos máis elegantes que usara na súa vida oficial de consorte do rei portugués, así como
ornamentos sagrados. O prelado santiaguês regaloulle unha ‘escarcela’, que é a mochila do
peregrino, e un bordón, do que se di que foi instrumento de moitos milagres.”217 Por se tratar
de Ano Santo218, solicitou indulgência, “sedo este anno Iubileu de Sanctiago da Galiza, ella
por aver do tizouro da misericórdia, e piedade de Deus indulgencia, e remissão de seus
pecados foy a elle, e tornou de pé aforada, e muy desconhecida, pedindo pello caminho
esmolas aos fieis christãos com seu bordão na mão, e fardel às costas como hua bem pobre
romeyra”219, oferecendo grandes riquezas à catedral compostelana, em honra do Apóstolo, e
por alma do seu marido, D. Dinis. Regressou, em 1335, como uma simples peregrina, “(…)
profundamente marcada pela virtude da humildade, a pé, sem aparato externo, trajando com
simplicidade e com um reduzidíssimo número de acompanhantes. Não era já a peregrinação
da rainha, que indubitavelmente, acabaria por assumir um aspecto oficial, político, que temos
216
MARQUES, José, “O culto a S. Tiago no Norte de Portugal” in Actas del II Encuentro sobre los Caminos Portugueses a
Santiago. Vigo: Associación Amigos de los Pazos, 1994, p.65.
217
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Catedral de Santiago de Compostela. I. Patrimonio Histórico Gallego. 1.
Catedrales, Xuntanza Editorial, A Coruña, 1993, p.109.
218
O Ano Santo foi tratado no capítulo III, no subcapítulo 1.5.
219
AUGUSTO, Sara, “Peregrinações: Roma e Santiago de Compostela” in Separata de Condicionantes Culturais da
Literatura de Viagens. Estudos e Bibliografias. Lisboa: Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de
Lisboa, Edições Cosmos, 1999, p.104.
85
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
de compreender e aceitar. Agora, era a religiosa, que, aos 64 anos, mais sentia a necessidade
de se aproximar do túmulo deste Apóstolo, que foi um dos confidentes de Jesus.”220
Outra peregrinação conhecida foi a de D. Manuel I (1469-1521), em 1502, que
peregrinou a Compostela, dando graças pelo sucesso dos Descobrimentos. “Saindo de Lisboa,
passou por Tomar, parou em Coimbra, seguiu por Montemor-o-Velho e Aveiro, em direcção
ao Porto, Dume, Ponte de Lima, Valença, e depois por Tui, em direcção a Compostela.”221
Ainda no século XVI, são conhecidas as peregrinações de Simón Fogaza (fidalgo da
casa real) e da sua família, em 1519; dos jesuítas Melchior Carneiro e Martin da Cruz, em
1543; de Francisco de Holanda e do Infante D. Luís, em 1544.
Nos séculos seguintes, são raros os relatos das peregrinações, reaparecendo no final
dos séculos XIX e XX.
Relativamente aos inúmeros peregrinos anónimos não temos dados que nos permitam
avaliar a quantidade, a sua origem social e as especificidades da sua acção durante a
peregrinação.
220
MARQUES, José, “O culto a S. Tiago no Norte de Portugal” in Actas del II Encuentro sobre los Caminos Portugueses a
Santiago. Vigo: Associación Amigos de los Pazos, 1994, p.66.
221
AUGUSTO, Sara, “Peregrinações: Roma e Santiago de Compostela” in Separata de Condicionantes Culturais da
Literatura de Viagens. Estudos e Bibliografias. Lisboa: Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa da Universidade de
Lisboa, Edições Cosmos, 1999, p.105.
86
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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CAPÍTULO IV
O Caminho de Santiago
87
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
O Caminho de Santiago
222
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago Apóstol. Vida. Peregrinaciones. Catedral compostelana. Santiago de
Compostela: Coedición Follas Novas / Monte Casino, 1999, p.74.
223
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.212.
224
REY CASTELAO, Ofelia, Los Mitos del Apóstol Santiago. Santiago de Compostela: Consorcio de Santiago / Nigratrea,
2006, p.96.
88
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
incorporarse a un camiño que non é físico e que el vai asumindo progresivamente como tal
desde antes mesmo de comezar a viaxe. Os peregrinos mostran o seu rexeitamento á vida nas
cidades, desenténdense das noticias dos medios de comunicación, incluso moitas veces dos
familiares, dormen en refuxios compartidos, comen en horas e alimentos inhabituais, visten
incluso de xeito diferente.”225
Com a expansão geográfica da peregrinação a Compostela, em pleno século XIII, são
definidos os caminhos que convergem nos Pirinéus e se unem no chamado Caminho
Francês226 (mapa 4), o mais conhecido e imponente, principalmente pelo impulso crucial dado
pelo Mosteiro de Cluny que, além da vincada impressão religiosa dada ao Caminho, também
imprimiam a sua influência e “cultura”. De facto, “(…) aprovechando en un primer momento
que Compostela estaba bajo el cetro de Alfonso VI, muy inclinado hacia Francia, los de
Cluny vinieron a prestigiar la peregrinación, pero también a hacer realidad sus deseos de
adquisición de influencia, de captación de mitras y de fundación de nuevos cenobios de la
familia benedictina. (…) Tiene razón Teodoro Martínez cuando escribe que, en el campo de la
peregrinación a Compostela, el monasterio de Cluny fue «la primera agencia turística
exclusivamente religiosa.» El monasterio francés dio lugar a muchas instituciones similares
en el Camino.”227
1. Rotas de Peregrinação
Apesar de existirem imensas ramificações, o Caminho de Santiago apresenta oito rotas
históricas principais, ainda que se cruzem ou unam em determinado ponto do Caminho, a
saber: Caminho Francês, Caminho Aragonês, Caminho Primitivo, Caminho do Norte,
Caminho Inglês, Caminho Português, Caminho do Sudeste/Via da Prata e Caminho do Mar de
Arousa e Rio Ulla. (mapa 5) No entanto, só os Caminhos Francês, Inglês e Português chegam
directamente a Santiago de Compostela, os restantes unem-se a estes três durante o percurso.
225
HERRERO, Nieves, “Camiño de Santiago, metáfora da vida humana” in Compostellanum (vol. XL, nº. 3-4, Julio-
Diciembre). Santiago de Compostela: Archidiócesis de Santiago de Compostela, 1995, p.471.
226
Tradicionalmente, quando é referido no singular ao Caminho de Santiago, refere-se ao Caminho Francês.
227
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos.
Madrid: Aldeasa, 1999, p.84.
89
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Subsídios para a criação de uma rota turística
228
MORALEJO, Abelardo (dir); TORRES, Casimiro; FEO, Julio, Liber Sancti Iacobi. Codex Calixtinus. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia / Conselleria de Cultura, Comunicación Social e Turismo / Xerencia de Promoción do Camiño
de Santiago, 2004, p. 527.
90
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
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91
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
230
SINGUL, Francisco, Os Caminhos de Santiago na Galiza. Caminho do Norte. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia,
2004, p.4.
231
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. I:
“Peregrinación y caminos”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.218.
232
SINGUL, Francisco, Os Caminhos de Santiago na Galiza. Caminho Inglês. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia,
2004, pp.4-5.
92
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
233
O tema do Caminho Português de Santiago será mais desenvolvido na Parte II, no capítulo II.
234
SINGUL, Francisco, Os Caminhos de Santiago na Galiza. Caminho Português. Santiago de Compostela: Xunta de
Galicia, 2004, p.3.
93
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original árabe Bal’latta, com o qual os muçulmanos designaram aquela larga via pública
empedrada e de sólido traçado que se encaminhava em direcção ao norte cristão.”235
O Caminho da Via da Prata, também chamado de Caminho Leonês, tem início em
Sevilha, percorrendo as comunidades autónomas da Andaluzia, Estremadura, Castela e Leão e
Galiza.
235
SINGUL, Francisco, Os Caminhos de Santiago na Galiza. Caminho do Sudeste – Via da Prata. Santiago de Compostela:
Xunta de Galicia, 2004, p.3.
236
SINGUL, Francisco, Os Caminhos de Santiago na Galiza. Rota do Mar de Arousa e Rio Ulla. Santiago de Compostela:
Xunta de Galicia, 2004, p.3.
94
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Subsídios para a criação de uma rota turística
e simbólico que tinha no impressionante volume do cabo Fisterra (“Finisterre”) a sua parte
mais extrema. Era um lugar carregado de todo o tipo de crenças e ritos pagãos, no qual os
romanos ([Link] a.C.) se surpreenderam ao ver o enorme sol a desaparecer entre as águas.”237
Esta zona extrema da Península Ibérica tem grande ligação à peregrinação jacobeia,
além de possuir diversas tradições e lendas associadas a S. Tiago, como, por exemplo, a
aparição de Nossa Senhora ao Apóstolo, na sua “barca de pedra”, incentivando-o na sua
predicação.
O Caminho de Fisterra/Muxía parte de Santiago de Compostela, atravessando
Pontemaceira, Negreira e chegando a Hospital (mais precisamente a Dumbría), os peregrinos
optam por tomar o Caminho até ao Cabo Fisterra (ou Finisterra) ou até Muxía (onde se
encontra o Santuário A Barca, uma importante referência no culto jacobeu).
2. Sinalização
Uma das particularidades do Caminho de Santiago é a sua sinalização, cuja marca
principal é a seta amarela. Esta opção deve-se à acção do Pároco de O Cebreiro238, Elias
Valiña Sampedro239, que, graças ao seu interesse pelo Caminho de Santiago, e conversando
imenso com os peregrinos que passavam pela localidade de O Cebreiro e lhe perguntavam
qual o caminho a seguir, decidiu, em 1984, sinalizar o Caminho de Santiago, desde a fronteira
entre França e Espanha, até Santiago de Compostela, com setas amarelas (aproveitando os
restos de tinta amarela de umas obras na sua paróquia). Questionado pelas autoridades sobre o
que estava a fazer, dizia frequentemente: “estou a preparar uma grande evasão”, algo que
ainda hoje os Peregrinos recordam ao passar pela localidade de O Cebreiro.
237
SINGUL, Francisco, Os Caminhos de Santiago na Galiza. Caminho de Fisterra-Muxía. Santiago de Compostela: Xunta
de Galicia, 2004, p.3.
238
Sito na fronteira entre as regiões autónomas da Galiza e de Leão.
239
Nascido a 2 de Fevereiro de 1929, em Lier, no Município de Sarria, Elias Valiña ingressa, aos 12 anos, no Seminário de
Lugo, terminando os seus estudos eclesiásticos em 1953. Mais tarde, em 1957, matricula-se na Faculdade de Direito
Canónico da Universidade Pontíficia de Comillas, licenciando-se em 1959. A partir deste momento, Elias Valiña dedica a sua
vida à comarca de O Cebreiro e também ao estudo e investigação do Caminho de Santiago, tendo elaborado a tese de
doutoramento dedicada ao tema “O Caminho de Santiago. Estudo Histórico e Jurídico”, defendida, em 1965, na Universidade
de Salamanca. Com a “feliz coincidência” de lhe terem oferecido a tinta amarela (restos de umas obras na Paróquia), resolveu
sinalizar o Caminho de Santiago, sendo ainda a seta amarela a grande referência da sinalização. A Elias Valiña também se
deve a institução das primeiras Associações do Caminho de Santiago, com o intuito do estudo do Caminho, bem como do
apoio aos Peregrinos de Santiago. Acaba por falecer em Dezembro de 1989, sendo ainda hoje uma referência na história do
Caminho de Santiago.
95
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Curiosamente, esta sinalização acabou por se espalhar por todos os Caminhos que
ligavam a Europa a Santiago de Compostela, contribuindo para a uniformidade do Caminho
de Santiago e ajudando milhares de peregrinos a seguirem uma rota histórica de peregrinação,
fruto do trabalho e investigação do Pároco de O Cebreiro, figura marcante no
desenvolvimento do Caminho de Santiago.
Posteriormente, a sinalização complementou-se com a colocação de painéis
institucionais, sinais de trânsito, placas e marcos de granito, com a indicação da localidade, a
vieira (símbolo máximo do Caminho de Santiago) e a informação dos quilómetros que faltam
para chegar a Santiago de Compostela. (fig. 30, 31, 32, 33)
A partir do momento em que o Caminho de Santiago foi classificado como Primeiro
Itinerário Cultural Europeu, em 1987, pelo Conselho da Europa, e Património da
Humanidade, em 1993, em Espanha, e em 1998, em França, pela UNESCO, a vieira sobre o
fundo azul (fig.34) tornou-se o símbolo de identificação do Caminho de Santiago.
Para além da sinalização oficial, é frequente encontrar marcações feitas por
Peregrinos, principalmente quando a “oficial” se encontra em mau estado de conservação ou
até mesmo desaparecida… além de alguns “recados” para os Peregrinos, como por exemplo,
Animo, Peregrino! (fig.35), sendo praticamente impossível um Peregrino perder-se no
Caminho de Santiago.
240
VIÑAYO GONZÁLEZ, Antonio, Camino de Santiago. Guía del Peregrino. A pie, a caballo, en bicicleta y en coche.
Léon: Edilesa, 1999, p.24.
96
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
241
Com efeito, a declaração europeia refere que “O Conselho da Europa propõe hoje a revitalização de um dos caminhos,
aquele que conduz a Santiago de Compostela. Este caminho, altamente simbólico no processo da construção europeia, servirá
de referência e exemplo a acções futuras. Para tal, apelamos às autoridades, instituições e indivíduos, a:
1. Prosseguir o trabalho de identificação dos Caminhos de Santiago em todo o território europeu;
2. Estabelecer um sistema de sinalização dos principais pontos do itinerário através da utilização do emblema proposto pelo
Conselho da Europa;
3. Desenvolver uma acção coordenada tendente a restaurar e a valorizar tanto o património arquitectónico como o natural,
situados nas proximidades destes caminhos;
4. Lançar programas de animação cultural a fim de redescobrir o património histórico, literário, musical e artístico criado
pelas peregrinações a Santiago de Compostela;
5. Promover a implementação de programas de intercâmbio permanente entre as cidades e as regiões situadas ao longo dos
caminhos;
6. Estimular, no quadro deste intercâmbio, a criação artístico-cultural contemporânea a fim de renovar esta tradição e
testemunhar os valores intemporais da identidade cultural europeia;
7. Que a fé que, ao longo dos tempos, animou os peregrinos e, para além das diferenças e interesses nacionais, os reuniu
numa aspiração comum, nos inspire hoje, e muito particularmente os jovens, a percorrer estes caminhos, em ordem a
construirmos uma sociedade fundada na tolerância, no respeito do outro, na liberdade e na solidariedade.” in ALMADA,
Lourenço José de (Conde de), A Caminho de Santiago – Roteiro do Peregrino. Porto: Lello Editores, 2000, pp.9-11.
242
FERNÁNDEZ ARENAS, José, “Elementos Simbólicos de la Peregrinación Jacobea” in Actas del Congreso de Estudios
Jacobeos. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.268.
243
UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, fundada a 16 de Novembro de 1945,
com o principal objectivo de contribuir para a paz e segurança no mundo através da educação, da ciência, da cultura e das
comunicações.
244
LOPES, Flávio; CORREIA, Miguel Brito, Património Arquitectónico e Arqueológico: Cartas, Recomendações e
Convenções Internacionais. Lisboa: Livros Horizonte, 2004, p.11.
97
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
CAPÍTULO V
Iconografia
98
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
245
ALVES, Natália Marinho Ferreira, “Iconografia e Simbólica cristãs. Pedagogia da Mensagem” in Theologica (II Série,
Vol. XXX, Fasc. 1). Braga: Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Teologia – Braga, 1995, p.57.
246
ANDRES ORDAX, Salvador, “La Iconografia Artistica Jacobea” in El Camino de Santiago. Camino de Europa. Curso de
Conferencias. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 22-26 Julho de 1991, p.148.
99
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
247
JACOMET, Humbert, “Iconografia de Santiago” in Santiago el Mayor y la Leyenda Dorada (catálogo da exposición –
Museo de Belas Artes da Coruña). Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1999, p.27.
248
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, Santiago El Mayor y Compostela. Un apóstol, una ciudad, unos caminos.
Madrid: Aldeasa, 1999, p.97.
249
SINGUL LORENZO, Francisco, “Las Edades del Camino: Iconografia del Apóstol: escrito en el arte” in Peregrino –
Revista del Camino de Santiago (nº. 96, Diciembre). Santiago de Compostela, 2004, p.16.
100
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Na Idade Moderna, este tema continua a ser representado nas diferentes vertentes
artísticas, em paralelo com a representação de São Tiago como peregrino e como cavaleiro.
Em suma, a representação de São Tiago subdivide-se em três tipos: o apóstolo, o
peregrino e o cavaleiro250 (conhecido igualmente como Matamouros).
250
Cada uma destas representações será tratada em subcapítulo próprio. Assim, dedicado a São Tiago Apóstolo, temos o
subcapítulo 1.1; dedicado a São Tiago Peregrino, o subcapítulo 1.2; e dedicado a São Tiago Cavaleiro/Matamouros, o
subcapítulo 1.3.
251
SINGUL LORENZO, Francisco, “Las Edades del Camino: Iconografia del Apóstol: escrito en el arte” in Peregrino –
Revista del Camino de Santiago (nº. 96, Diciembre). Santiago de Compostela, 2004, p.18.
101
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Divina, trilhando caminhos que, mais tarde, terão o seu nome. “Santiago aparece entonces
como el primero de los peregrinos de su propio camino (…).”252
Na realidade, São Tiago foi “(…) o primeiro peregrino a Compostela. E fai o camiño
polas duas vías que, antes da aparición dos modernos medios de comunicación, podían
emprega-los romeiros: o mar e a terra. Foi tamén peregrino, porque veu a terras afastadas, que
é o que significa, na sua primeira acepción, a palabra peregrinus.”253
Nas suas origens, “esta concepção iconográfica nasce quando se produz a identificação
entre a figura do apóstolo São Tiago como mais um dos peregrinos que acorrem a
Compostela. São Tiago, nestas imagens que o representam com os seus atributos dos seus
mais íntimos devotos, é mais do que nunca o apóstolo andarilho que evangeliza os confins do
Ocidente. Nas representações de peregrino, a iconografia de São Tiago mostra a indumentária
característica da peregrinação a Compostela. O apóstolo veste um manto até aos pés, está
descalço, leva a escarcela em bandoleira e chapéu decorado com vieira; porta numa das mãos
o bordão com a cabaça (ou uma inscrição do doador, em caso dos ex-votos de ourivesaria) e,
na outra, o Livro das Sagradas Escrituras.”254
De acordo com Figueira Valverde255, a iconografia de São Tiago Peregrino aparece
subdividida em quatro formas: “Santiago de manto” (próxima à ideia de Apóstolo,
apresentando a simbologia da peregrinação jacobeia, apesar de não adoptar qualquer atitude
de marcha); “Santiago em traje de caminhante” (também conhecido como “Santiago de
pernas”, uma vez que se apresenta com um traje curto); “Santiago sedente” (como Mestre da
Fé); e “Santiago Peregrino diante a Virgem” (intimamente ligada à tradição da evangelização
na Península Ibérica e à aparição de Maria a São Tiago).
Tradicionalmente, São Tiago Peregrino apresenta-se com o manto, o báculo, a cabaça
e a vieira (que tanto poderia estar envergada ao peito como no centro do chapéu de aba larga).
A representação de São Tiago Peregrino é reconhecida desde o século XI, apresentando-o
252
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), Santiago. Para conocerte y no olvidarte. A Coruña: Hércules Ediciones, 2003,
p.30.
253
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, “Santiago, Apóstolo, Peregrino e Cabaleiro” in Todos com Santiago: Patrimonio
Eclesiástico (catálogo de exposición). Santiago de Compostela: Mosteiro de San Martiño Pinario / Museo Diocesano / Xunta
de Galicia, 1999, p.146.
254
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.73.
255
FIGUEIRA VALVERDE, Xosé, “La Iconografia de Santiago y el Grabado Compostelano” in Cuadernos de Estudios
Galegos. Santiago de Compostela: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas / Instituto Padre Sarmiento, 1944, pp.189-
195.
102
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
com o báculo, túnica, manto e bolsa decorada com uma vieira, símbolo das boas obras e que,
posteriormente, se tornará o elemento identificador do santuário compostelano e dos
peregrinos jacobeus.256 (fig.37)
Estas imagens de São Tiago Peregrino surgem com frequência na transição do
românico para o gótico, generalizando-se o fenómeno a partir do século XIV. “Tamén é
frecuente que a imaxe na que se representa deste xeito nos ofreza un rostro máis xuvenil de
Santiago, en contraposición ó venerable ancián que esixía a condición apostólica. É, por outra
parte, un momento no que a peregrinación, aproveitando o tempo de paz, adquire un novo
auxe, por iso resulta oportuno contar cun santo peregrino que sirva de estímulo e de modelo
ós romeiros santiaguistas.”257
256
SINGUL LORENZO, Francisco, “Las Edades del Camino: Iconografia del Apóstol: escrito en el arte” in Peregrino –
Revista del Camino de Santiago (nº. 96, Diciembre). Santiago de Compostela, 2004, p.21.
257
PRECEDO LAFUENTE, Manuel Jesús, “Santiago, Apóstolo, Peregrino e Cabaleiro” in Todos com Santiago: Patrimonio
Eclesiástico (catálogo de exposición). Santiago de Compostela: Mosteiro de San Martiño Pinario / Museo Diocesano / Xunta
de Galicia, 1999, p.147.
258
FIGUEIRA VALVERDE, Xosé, “La Iconografia de Santiago y el Grabado Compostelano” in Cuadernos de Estudios
Galegos. Santiago de Compostela: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas / Instituto Padre Sarmiento, 1944, pp.196-
199.
259
SINGUL LORENZO, Francisco, O Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro:
EdUERJ – Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.73.
103
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
260
ANDRES ORDAX, Salvador, “La Iconografia Artistica Jacobea” in El Camino de Santiago. Camino de Europa. Curso de
Conferencias. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 22-26 Julho de 1991, pp.154-156. Apesar de na citação se
encontrar referida a Batalha de Clavijo como tendo acontecido em 834, o facto é que a referida Batalha ocorreu em 844.
261
“Aconteceu na segunda metade do século XI, pouco antes da tomada de Coimbra (1064) pela mão das forças do rei
Fernando I de Leão. Dois textos capitais, algo posteriores, relatam a decidida ação de combate protagonizada pelo santo
padroeiro na conquista da cidade islâmica. E foi a partir da Galiza que se foi difundindo a notícia da intervenção divina do
Senhor São Tiago nos acontecimentos bélicos da conquista cristã de Coimbra. (…) Chegara por aquele tempo a Compostela
um peregrino grego que, ao ouvir certas invocações de outros peregrinos na igreja de Santiago, revoltou-se contra eles,
porque o faziam tratando a São Tiago como santo cavaleiro. O grego, recorrendo irritado ao Evangelho, destacava que de
todos era bem sabido que a profissão de São Tiago, filho de Salomé e Zebedeu, era a de pesacador como seu pai e não a de
cavaleiro. Depois da querela, quando todos foram dormir, o peregrino grego teve em sonhos um encontro com São Tiago, no
qual o Apóstolo lhe assegurava a sua condição de Miles Christi e para comprová-lo faz-lhe a predição de que, no dia
seguinte, Coimbra cairia em mãos do rei cristão e os muçulmanos perderiam a luta, graças à sua celestial intervenção. E
assim acontece. O peregrino grego assegurou, desde aquele dia da vitória de Coimbra, que o cavaleiro celeste São Tiago
acudirá sempre a lutar pela causa da Cristandade, ao ser invocado devotamente.” SINGUL LORENZO, Francisco, O
Caminho de Santiago. A Peregrinação Ocidental na Idade Média. Rio de Janeiro: EdUERJ – Editora da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, 1999, p.74.
104
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
carácter poco adecuado para un apóstol del Señor, sin entrar en más consideraciones acerca de
la autenticidad o inautenticidad históricas de la aparición de Santiago en la citada batalla.”262
De facto, algumas pinturas e esculturas chegaram mesmo a ser ocultadas dos fiéis e
substituídas por outra representação iconográfica de São Tiago.
Ultimamente tem vindo a ser bastante discutida esta questão, porque foi associado a
um carácter intolerante que os espanhóis têm querido apagar da sua história, ainda que a sua
devoção pelo Apóstolo seja imensa.
262
RODRIGUEZ-BORDALLO, Ramón; RÍOS-GARCIA, Ana Maria, “Aportación a la iconografia jacobea” in Atti del
Convegno Internazionale di Studi. Il Pellegrinaggio a Santiago de Compostela e la Letteratura Jacopea. Perugia: Università
Degli Studi di Perugia, 23-24-25 Settembre 1983, p.220.
105
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
II PARTE
106
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
CAPÍTULO I
Turismo e Peregrinação
107
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
1. Conceitos de Turismo
Considerando que o turismo é uma área multidimensional, multifacetada e complexa,
são possíveis “(…) múltiplas abordagens, sob o ponto de vista sociológico, cultural,
geográfico, económico, psicológico e tecnológico. Cada uma destas disciplinas estuda o
turismo conforme a sua perspectiva, entendendo-o e conferindo-lhe uma abordagem
108
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
263
SAER (Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco), Reinventando o Turismo em Portugal. Estratégia de
Desenvolvimento Turístico Português no I Quartel do Século XXI. Lisboa: Confederação do Turismo Português, 2005, p.219.
264
HENRIQUES, Cláudia, Turismo, Cidade e Cultura. Planeamento e Gestão Sustentável. Lisboa: Edições Sílabo, 2003,
p.21.
265
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.19.
266
Idem.
109
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
soma das relações e dos serviços que resultam de uma alteração de residência, temporária e
voluntária, não motivada por razões de negócios ou profissionais.”267
Mais tarde, em 1982, a definição de Mathieson e Wall aponta o turismo como o
“movimento temporário de pessoas para destinos fora dos seus locais normais de trabalho e de
residência, as actividades desenvolvidas durante a permanância nesses destinos e as
facilidades criadas para satisfazer as suas necessidades.”268
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU)269, “turismo é o conjunto de
relações e fenómenos produzidos pelo deslocamento e permanência de pessoas fora do seu
local habitual de residência, desde que esses deslocamentos e permanância não sejam
motivados por uma actividade lucrativa principal, permanente ou temporária.”
Em 1985, a Organização Mundial de Turismo (OMT)270 define que “O turismo
engloba todas as deslocações temporárias de pessoas fora do seu habitual local de residência
ou de trabalho, seja qual for o motivo concreto da deslocação, a duração da estadia, e o lugar
de destino. As duas manifestações principais do turismo são as deslocações realizadas durante
o tempo livre motivadas pela necessidade humana de diversidade e as viagens por motivos
profissionais ou de obrigação. (…) O conceito de turismo engloba também a oferta turística,
na qual se incluem todos os produtos e serviços criados para satisfazer as necessidades
nascidas com as deslocações das pessoas.”
Na Conferência de Otava, em 1991, a OMT refere que “o turismo é o conjunto de
actividades desenvolvidas por pessoas durante viagens e permanências em locais situados fora
do seu ambiente habitual por um período consecutivo inferior a um ano, por motivos de lazer,
negócio e outros.”
Desde o início do século XX, a preocupação em definir turismo é constante, no
entanto, ainda não se chegou a nenhum consenso, sendo opção para alguns autores em adoptar
o conceito de turismo na perspectiva da procura ou na perspectiva da oferta.
267
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.20.
268
Idem.
269
Fundada em 1945, após a II Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas tem como principal objectivo a
cooperação, entre todos os seus membros, no sentido do direito internacional, segurança internacional, desenvolvimento
económico, progresso social, defesa dos direitos humanos e estabelecimento da paz mundial. (a partir deste momento, sempre
que nos referirmos à Organização das Nações Unidas será indicada como ONU)
270
Pertencente à ONU, a Organização Mundial de Turismo é, desde 2003, uma agência especializada na gestão e organização
do turismo a nível internacional, funcionando como um fórum global para as políticas turísticas e como fonte de
conhecimento prático sobre o turismo. (a partir deste momento, sempre que nos referirmos à Organização Mundial de
Turismo será indicada como OMT)
110
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
271
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.21.
272
Idem, p.22.
273
BAPTISTA, Mário, Turismo Competitividade Sustentável. Lisboa: Editorial Verbo, 1997, p.40.
274
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.24.
111
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
275
MATIAS, Álvaro, Economia do Turismo. Teoria e Prática. Lisboa: Instituto Piaget, 2007, p.28.
112
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Turista, é todo o visitante que passa pelo menos uma noite num estabelecimento de
alojamento colectivo ou num alojamento privado no local visitado;
Visitante de dia (excursionista), é todo o visitante que não passa noite no local visitado.”276
Esclarecidos os conceitos de turismo e de turista, é possível identificarem-se várias
classificações de turismo, considerando as suas causas e influências. Assim sendo, as
principais classificações de turismo prendem-se com a origem dos visitantes (dividindo-se em
turismo doméstico ou interno – resultante das deslocações de residentes no próprio país;
turismo receptor – resultante das visitas a um país por não residentes; turismo emissor –
resultante das visitas de residentes de um país a outros países); a repercussão na balança dos
pagamentos (considerando o impacto económico, positivo ou negativo, dos turistas); a
duração da permanência (dividindo-se em turismo de passagem e turismo de permanência –
local escolhido); a natureza dos meios utilizados (respeitante aos meios de transporte
utilizados); o grau de liberdade administrativa (dividindo-se em turismo limitado e turismo
livre, resultante das regulamentações existentes nos países); e a organização da viagem
(diferenciando-se turismo individual e turismo colectivo ou de grupo).
Paralelamente às classificações de turismo, torna-se premente referir as diversas
tipologias de turismo, a saber: turismo de recreio (tendo subjacente a ideia da viagem por
prazer), turismo de repouso (direccionado para locais tranquilos), turismo de saúde
(direccionado para locais com tratamentos de saúde, destacando-se o termalismo), turismo
desportivo (direccionado para as grandes actividades desportivas, como, por exemplo, os
Jogos Olímpicos), turismo de negócios (englobando viagens de negócios, feiras, exposições,
seminários, entre outros), turismo político (direccionado para reuniões ou acontecimentos
políticos), turismo cultural277 (direccionado para o património cultural) e turismo religioso
(direccionado para as tradições religiosas, englobando as peregrinações).
276
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, pp.24-25.
277
Este tema será abordado mais profundamente no subcapítulo 2.
278
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006.
113
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
114
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
mundo, assumindo-se assim como a primeira organização turística mundial que prevalece até
aos dias de hoje.
Neste período, “o turismo inicia a sua expansão mundial, caracterizando-se pela
procura de diversão e descanso pelas viagens culturais. Inicia-se o desenvolvimento dos
transportes modernos com o lançamento de redes internacionais de caminho-de-ferro, de
barco, a criação das primeiras companhias aéreas e o nascimento do automóvel e do
autocarro. Surgem as primeiras organizações nacionais e internacionais de turismo das quais
se destaca a Federação Franco-Hispano-Portuguesa de Sindicatos de Iniciativa e Propaganda,
primeira organização internacional de turismo, e que está na origem da actual Organização
Mundial de Turismo (OMT) depois de ser ter transformado na União Internacional dos
Organismos Oficiais de Turismo (UIOOT).”280
A idade contemporânea compreende o período entre o início do século XX e a
actualidade, caracterizada pela tomada de consciência da importância do turismo na
sociedade, não só a nível económico, mas também social. A nível internacional, o turismo
alcança dimensões significativas, ainda que acontecimentos como a I Guerra Mundial, a
Grande Crise de 1929, a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial tenham provocado
instabilidade.
De acordo com Licínio Cunha281, a partir da II Guerra Mundial, o turismo evolui
significativamente, graças às principais características: democratização (abertura do turismo a
todos); planetarização (turismo global, ignorando fronteiras, estendido por todos os
continentes); desenvolvimento do turismo social (tido como factor de compensação de
trabalho, acedido por todas as camadas sociais); inquietação (opção de visita a vários destinos
no caso de viagens intercontinentais; frequente procura de viagens curtas, as chamadas
“escapadinhas”); valorização (preocupação com aspectos imateriais do turismo, existindo uma
valorização e afirmação pessoal); e diversificação da oferta (abrangente a todo o tipo de
públicos).
“O século XXI inicia-se com um turismo consolidado a nível mundial, porque se
democratizou, porque se transformou num fenómeno planetário e porque passou a fazer parte
do modo de vida da maior parte dos países que vão ascendendo a níveis de desenvolvimento
280
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.44.
281
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, pp.53-54.
115
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
282
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.54.
116
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
consideram um conjunto de valores que receberam dos seus antepassados, pelos quais devem
velar, prevenindo tentativas de uma formização, sejam elas estatais ou económicas.”283
De facto, “La contemplación, la comprensión, el disfrute, la motivación, el respeto son
algumas de las experiencias y sensaciones que un ademirador del patrimonio tiene que sabe
manejar y procurar transmitir. El patrimonio no tiene setido al margen de la sociedad. En el
mundo globalizado de hoy el patrimonio confiere, a los que quieren y saben apreciarlo, un
elemento distintivo y diferenciador que es muy fácil de transformar en foco de atracción y en
lugar de encuentro.”284
O património cultural desempenha um papel principal não só na identidade de um
povo, assente nas suas raízes, reforçando a sua importância, mas também no desenvolvimento
de uma região e país, promovendo o turismo e o diálogo intercultural, além de revitalizar a
identidade cultural e preservar os bens culturais materiais e imateriais.
De acordo com Ashworth, é possível materializar a relação entre turismo e cultura em
três grandes formas: a relação entre turismo e a arte consubstanciada no designado turismo de
arte, a relação entre turismo e património monumental assente no designado turismo
patrimonial/turismo de património, e a relação entre turismo e um lugar específico,
denominado de turismo étnico.285
Na relação entre turismo e arte, a cultura é materializada em museus, galerias e
exposições de arte, além de manifestações artísticas como a música, o teatro e a dança; neste
caso, a arte assume-se como importante recurso cultural, fomentador de atracção turística286.
A relação entre turismo e património monumental preconiza uma acção mais
direccionada para o património histórico construído, enquanto memória histórica e cultural,
assumindo-se como importante produto turístico287.
283
LACOSTE, Yves, Dicionário de Geografia. Lisboa: Teorema, 2003, p.300.
284
HERNÁNDEZ, Josep B.; TRESSERRAS, Jordi J., Gestión del patrimonio cultural. Barcelona: Editorial Ariel, 2011,
p.270.
285
HENRIQUES, Cláudia, Turismo, Cidade e Cultura. Planeamento e Gestão Sustentável. Lisboa: Edições Sílabo, 2003,
p.47.
286
A título de exemplo, indicam-se as exposições de Paula Rêgo, que constituem uma atracção turística onde quer que se
encontrem patentes.
287
A título de exemplo, indica-se a emblemática Torre de Belém que, além do seu valor patrimonial arquitectónico, tem
presente a história dos Descobrimentos Portugueses.
117
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
288
A título de exemplo, apresenta-se a Festa dos Tabuleiros em Tomar, onde a tradição agrega em si o folclore e os usos e
costumes.
289
HENRIQUES, Cláudia, Turismo, Cidade e Cultura. Planeamento e Gestão Sustentável. Lisboa: Edições Sílabo, 2003,
p.48.
290
Idem, pp.48-49.
291
Idem, p.49.
118
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
292
HENRIQUES, Cláudia, Turismo, Cidade e Cultura. Planeamento e Gestão Sustentável. Lisboa: Edições Sílabo, 2003,
p.50. (ambas as transcrições do parágrafo)
293
Esta ideia pertence a Mercouri que, em 1983, propôs que se designasse anualmente uma “Capital da Cultura”. A
Comunidade Europeia adoptou a ideia, em 1985, designando Atenas como a primeira Capital Europeia da Cultura. Portugal,
em 2012, apresenta Guimarães como Capital Europeia da Cultura.
294
SAER (Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco), Reinventando o Turismo em Portugal. Estratégia de
Desenvolvimento Turístico Português no I Quartel do Século XXI. Lisboa: Confederação do Turismo Português, 2005, p.634.
119
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
295
CUNHA, Licínio, Perspectivas e Tendências do Turismo. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 2003, p.229.
296
MARQUES, Maria Olinda, Turismo e Marketing Turístico. Mem Martins: Cetop, 2005, p.48.
120
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Roma em Itália, ou Fátima em Portugal, são exemplos do passado e de hoje que originam a
movimentação de milhões de pessoas em cada ano.”297
Frequentemente, o turismo religioso e a peregrinação são confundidos, distinguindo-se
pelas suas motivações e finalidades, muito distintas, embora os processos sejam próximos ou
idênticos, processos tais como as viagens, os alojamentos, os guias, entre outros.
No entanto, “alguns recusam a designação «turismo» para as peregrinações e não
aceitam designar o peregrino por turista mas trata-se de um preconceito sem sentido. Aliás, o
próprio Papa João Paulo II considerou o «turismo como um meio para implementar certos
valores religiosos», dando como exemplo as peregrinações.”298
O turismo religioso engloba não só as grandes manifestações religiosoas e as
peregrinações, mas também as festas e as romarias. De facto, as grandes manifestações
religiosas e as peregrinações permitem a estruturação de correntes turísticas, abrangendo,
além do local de peregrinação, os circuitos de locais sagrados ligados à peregrinação
desenvolvida; por outro lado, as festas e romarias permitem uma atracção pontual.
Em todo o caso, “Para algumas regiões, o turismo religioso pode ser uma base para o
seu desenvolvimento turístico e, consequentemente, económico. Para elas as atracções mais
importantes e que lhes concedem uma assinalável vocação turística são constituídas pelo
património e pelas manifestações religiosas.”299
Em 1960, na Conferência Mundial de Roma, o turismo religioso é definido como
“uma atividade que movimenta peregrinos em viagens pelos mistérios da fé ou da devoção a
algum santo. Na prática, são viagens organizadas para locais sagrados, congressos e
seminários ligados à evangelização, festas religiosas que são celebradas periodicamente,
espetáculos e representações teatrais de cunho religioso.”300
O turismo religioso pode ser entendido em três vertentes: espiritual, cultural e
intermédia. Na vertente espiritual, associada às peregrinações, “(…) a motivação principal da
deslocação/estadia é a fé e os lugares directamente relacionados, chamados santuários («lugar
por excelência da proximidade de Deus»).” Na vertente cultural, denominada de “«Turismo
em lugares religiosos e Turismo de objectos religiosos» (…) a principal razão das visitas «não
297
CUNHA, Licínio, Economia e Política do Turismo. Lisboa: Editorial Verbo, 2006, p.234.
298
Idem.
299
Idem, p.235.
300
SILVEIRA, Emerson J. Sena da, “Turismo Religioso Popular? Entre a ambiguidade conceitual e as oportunidades de
mercado” in Revista de Antropologia Experimental (nº. 4), 2004, p.4. ([Link]
121
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
é conhecer o objecto religioso como tal, mas como um produto da cultura humana», i.e., é
uma abordagem sociológica de «acesso à cultura emanada das grandes religiões».” Na
vertente intermédia, “a componente religiosa é menor e em que a peregrinação é sobretudo
pretexto para fazer turismo, i.e., visitar lugares e monumentos que de outra forma não se
visitariam; nesta categoria o Turismo Religioso pode-se definir como «um complemento do
cultural e do espiritual que dá lugar a uma interacção valorizante para o homem».”301
De facto, o turismo religioso, além dos motivos religiosos e espirituais, impele os
turistas a deslocarem-se igualmente por motivos de cultura, considerando o património
existente em torno do “sagrado”, no qual o património religioso assume um importante
recurso turístico de uma região ou país, que, além do seu valor histórico e artístico, tem uma
forte componente religiosa ou espiritual.
Segundo Katharina Maak302, o turismo religioso pode situar-se entre a peregrinação e
o turismo, uma vez que agrega elementos religiosos, turísticos e económicos, apresentando
assim as tipologias de turistas/peregrinos:303
Peregrino puro Peregrino > Turista Peregrino = Turista Turista > Peregrino Turista secular
301
SAER (Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco), Reinventando o Turismo em Portugal. Estratégia de
Desenvolvimento Turístico Português no I Quartel do Século XXI. Lisboa: Confederação do Turismo Português, 2005, p.645.
(as três transcrições do parágrafo)
302
MAAK, Katharina, “El Camino de Santiago como posible motor turístico en zonas rurales de escasos recursos: el caso de
Brandeburgo” in Cuadernos de Turismo (nº. 23). Murcia: Universidad de Murcia, 2009, p.155.
303
Esquema adaptado, tendo por base o consultado na referência bibliogáfica anterior (Katharina Maak).
304
Ainda se pode apontar uma “subtipologia” do peregrino: peregrino-piedoso (que sai de casa com motivação religiosa),
peregrino-devoto (que vai em peregrinação e devoção todo o caminho), peregrino-turista (que parte com intenção religiosa e
turística em simultâneo), turista-peregrino (que se deixa envolver pelo sagrado do lugar visitado) e turista-secular (que visita
lugares sagrados).
122
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
3. Potencialidades Turísticas
Retomando a dicotomia turismo/peregrinação e enquadrando-a nos conceitos de
turismo religioso e de turismo cultural, o Caminho de Santiago (independentemente da rota
escolhida) assume um papel muito importante enquanto impulsionador de turismo.
Além do património histórico que envolve o Caminho de Santiago, conta igualmente
com o título e as acções que lhe estão adjacentes enquanto Primeiro Itinerário Cultural da
Europa, declarado em 1987 pelo Conselho da Europa, atribuindo “uma forte carga simbólica
de união, fazendo votos para «que a fé que animou os peregrinos ao longo de toda a história e
que os reuniu em torno de uma aspiração comum, para além das diferenças e dos interesses
nacionais», inspirasse também a Europa moderna «e muito particularmente os jovens a
percorrer esses caminhos na construção de uma sociedade estabelecida nas bases da
tolerância, do respeito pelo outro, da liberdade e da solidariedade»”.306
De acordo com Vera Rebollo, a partir do momento da declaração do Conselho da
Europa, na qual o Caminho de Santiago se torna no Primeiro Itinerário Cultural, está
subjacente o impulso para uma nova fórmula turística, entendendo o Caminho de Santiago
305
SAER (Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco), Reinventando o Turismo em Portugal. Estratégia de
Desenvolvimento Turístico Português no I Quartel do Século XXI. Lisboa: Confederação do Turismo Português, 2005,
pp.648-649.
306
PINHEIRO, Ana Elias, “Itinerários Culturais: viajando pela História” in Mathésis (16). Viseu: Universidade Católica
Portuguesa, 2007, p.221.
123
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
como um verdadeiro produto, definindo para tal uma estratégia integrada e uma comunicação
de imagem diferente.307
Posteriormente, em 1993, a UNESCO308 declara o Caminho de Santiago Património
da Humanidade, dando-lhe assim mais projecção.
Importa referir que, para a constituição de um verdadeiro itinerário cultural com
interesse turístico, são necessárias as seguintes componentes: tema; suporte de rede viária ou
outra via de comunicação; regulamento; local de apoio; sinalização; e mapa com conteúdo
explicativo.309 No caso do Caminho de Santiago, estas condicionantes encontram-se
devidamente cumpridas.
Enquanto itinerário cultural, o Caminho de Santiago não se cinge apenas à vertente
cultural, explorando igualmente outras vertentes, entre as quais, a social e a económica. De
facto, ao promover o Caminho, é dado a conhecer o património cultural existente, além de
permitir a sua valorização e preservação, contando igualmente as populações com um
acréscimo em termos económicos, dada a passagem de peregrinos de Santiago.
De facto, em pleno século XXI, denota-se um crescente fluxo de peregrinos, que
influencia o percurso de todo o Caminho, independentemente do itinerário escolhido
(considerando as diferentes rotas do Caminho).
O Caminho de Santiago agrega milhares de peregrinos que se deslocam a Santiago de
Compostela não só com o sentido espiritual e religioso, mas também com outros sentidos e
motivos, até porque é um fenómeno mundial, unindo pessoas de diferentes culturas e
eliminando fronteiras religiosas.
Na verdade, o Caminho de Santiago é uma importante atracção turística, contribuindo
para tal a política turística para a promoção do Caminho de Santiago e da cidade de Santiago
de Compostela, implementada em 1993, aquando do Xacobeo, tal como refere Santos Solla:
“El camino de Santiago se convirtió en el producto estrella. Se mejoran notablemente las
distintas rutas, se abren albergues, se inauguran casas de turismo rural cerca de las vías más
transitadas, se construyen hoteles y, sobre todo, se acompaña de una fuerte campaña
promocional. A todo esto se le unen fuertes inversiones en la ciudad de Santiago para renovar
307
VERA REBOLLO, J. Fernando, “El Camino de Santiago en el contexto de las nuevas motivaciones de la demanda
turistica” in Congreso Internacional de Geografia. Los Caminos de Santiago y el território. Santiago de Compostela: Xunta
de Galicia, Conselleria de Relaciones Institucionais e Portavoz do Goberno, 1993, p.714.
308
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
309
PINHEIRO, Ana Elias, “Itinerários Culturais: viajando pela História” in Mathésis (16). Viseu: Universidade Católica
Portuguesa, 2007, p.222.
124
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
la oferta alojativa y complementaria así como para mejorar la accesibilidad. Al tiempo se crea
un entramado institucional en torno al turismo y al xacobeo entre los que figuran Turgalicia,
la S.A. para la Gestión del Xacobeo o el Consorcio de la ciudad de Santiago, pasando el
departamento autonómico de turismo a depender directamente de la presidencia de la Xunta.
Por tanto se puede decir que en 1993 se inaugura una nueva etapa en el turismo de Galicia que
tiene como eje principal el fenómeno jacobeo.”310
É nessa mesma altura que o Caminho de Santiago é declarado Património da
Humanidade, afirmando-se assim como um dos principais destinos turísticos espanhóis,
despertando o interesse a nível mundial, considerando a já notável promoção anterior.
De acordo com Campesino Fernández, o “ (…) Camino de Santiago como eje cultural
europeo y su inserción en los circuitos de agencias de viajes internacionales auguran un
relanzamiento de las peregrinaciones jacobeas a finales del segundo milenio, bajo las
motivaciones de siempre, pero con nuevos medios de transporte y modalidades diversas según
usuarios y exigencias al hijo de los tiempos.”311
Nesse sentido, o “produto” Caminho de Santiago é algo singular e com especificidades
muito particulares, dadas as suas distintas dimensões (espiritual, cultural, desportiva,
ecológica, entre outras), chegando assim a públicos distintos. “El Camino puede ser así
fórmula de turismo alternativo para demandas cualificadas y todavía emergentes, entre las que
priman motivaciones auténticas de tipo cultural, artístico, religioso o tipológico-tradicional. A
la vez el Camino encaja en las preferencias del turismo joven, donde se valora la actividad
deportiva y el contacto con la naturaleza. A todo ello cabe añadir una demanda más masiva
orientada puntualmente a Compostela. Y, desde luego, la valoración de un significado
espiritual que desde hace más de un milenio justifica la existencia misma de este verdadero
Itinerario Europeo.”312
310
SANTOS SOLLA, Xosé Manuel, “El Camino de Santiago: turistas y peregrinos hacia Compostela” in Cuadernos de
Turismo (nº. 18). Murcia: Universidad de Murcia, 2009, p.139.
311
CAMPESINO FERNÁNDEZ, Antonio José, “Los Caminos de Santiago: ciudades y recursos turísticos” in Congreso
Internacional de Geografia. Los Caminos de Santiago y el território. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, Conselleria
de Relaciones Institucionais e Portavoz do Goberno, 1993, p.694.
312
VERA REBOLLO, J. Fernando, “El Camino de Santiago en el contexto de las nuevas motivaciones de la demanda
turistica” in Congreso Internacional de Geografia. Los Caminos de Santiago y el território. Santiago de Compostela: Xunta
de Galicia, Conselleria de Relaciones Institucionais e Portavoz do Goberno, 1993, p.723.
125
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
CAPÍTULO II
126
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
127
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
saída para a Galiza frequentemente feita por Valença do Minho (Tui), Chaves (Verín) e
Portela do Homem (Serra do Gerês). (mapa 14)
Desde o século XIII, é possível identificar os principais itinerários de peregrinação a
Santiago de Compostela:
“- o primeiro ia de Lisboa a Coimbra, por Alcobaça ou com desvio por Santarém, seguindo
depois para o Porto de onde derivava para Braga-Ponte de Lima-Valença-Tui ou pela Ponte
do Ave-Rates-Barcelos-Ponte de Lima-Valença-Tui;
- o segundo ligava as Beiras (Viseu e Lamego) a Braga, desdobrando-se também após a
travessia do Douro, quer em direcção ao Minho, quer por Chaves e Orense;
- o terceiro, referente apenas à província de Trás-os-Montes, levava os peregrinos a Chaves,
com o mesmo desvio para Orense, ou a prosseguir pelas agrestes paragens da Serra do Bouro
até à sede Metropolitana de Portugal.”314
As informações documentais e os relatos das peregrinações a Compostela por
caminhos portugueses são escassos, sendo o mais completo “(…) o do padre Confalonieri
que, em finais do século XVI, foi de Lisboa a Compostela acompanhando monsenhor Fabio
Biondo da Montalto, patriarca de Jerusalém e representante papal no nosso país. Mas já muito
antes, no século XII, o geógrafo árabe Edrisi, autor de uma extraordinária obra intitulada
Recreio do que anseia percorrer os horizontes do mundo, descrevera dois itinerários
portugueses para Compostela: Coimbra-Compostela por mar e Coimbra-Compostela por terra.
Edrisi conhecia possivelmente Lisboa, que também descreveu, mas aqueles percursos devem
ter-lhe sido narrados por vários viajantes, entre eles um marinheiro galego-português e um
muçulmano da região de Coimbra. Dos relatos conhecidos de peregrinações de importantes
personagens portuguesas a Compostela não podemos retirar grandes informações sobre o
trajecto.”315
No que concerne à cartografia dos caminhos portugueses, encontra-se traçada desde o
século XVI, “(…) baseada no relato documental fornecido por Juan Bautista Confalonieri
(1594), que apesar de não corresponder integralmente à peregrinação feita a pé de Lisboa a
Compostela, e sim a marcos considerados emblemáticos no caminho português, ainda assim
não deixa de ser preciosa fonte de informações. Além dessa, há as fontes anteriores dos
314
CORREIA, João Rosado, “Monsaraz nos Caminhos de Santiago?” in I Congresso Internacional dos Caminhos
Portugueses de Santiago de Compostela. Lisboa: Távola Redonda, 1992, p.240.
315
GIL, Carlos; RODRIGUES, João, Por Caminhos de Santiago. Itinerários Portugueses para Compostela. 3ª edição.
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.15.
128
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
316
ADRIÃO, Vitor Manuel, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Lisboa: Livros Dinapress, 2011,
p.271.
317
MORENO, Humberto Baquero, “Vias Portuguesas de Peregrinação a Santiago de Compostela na Idade Média” in Revista
da Faculdade de Letras. História. II Série, Vol. III, Porto, 1986, p.79.
318
ADRIÃO, Vitor Manuel, Santiago de Compostela – Mistérios da Rota Portuguesa. Lisboa: Livros Dinapress, 2011,
pp.230-232.
129
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
A partir de Coimbra, seguia-se pelo litoral para chegar ao Porto (por Albergaria) ou
pelo interior para chegar a Viseu (por Santa Comba Dão).
De Viseu, seguia-se a estrada para Lamego e Chaves, ainda que em Peso da Régua se
pudesse optar pela alternativa de seguir a estrada de Guimarães, em direcção a Braga.
Seguindo a estrada de Vila Velha de Ródão, optava-se pelo interior do país,
atravessando os territórios de Castelo Branco, Covilhã e Belmonte, e chegando à cidade da
Guarda, onde se abriam três caminhos: o de Pinhel (tendo por meta Barca de Alva), o de
Marialva (tendo por meta o Vale da Vilariça) e o de Trancoso (tendo por meta Lamego).
Ao Porto chegavam estradas de todo o país e partiam estradas por todo o Minho, sendo
as mais percorridas pelos peregrinos de Santiago de Compostela as que seguiam em direcção
a Viana do Castelo (mais litoral) ou a Ponte de Lima (mais interior), entrando ambas na
Galiza, por Tui.
Braga, como centro episcopal, sempre foi um ponto de referência nas peregrinações,
podendo partir daí a estrada que seguia até à Portela do Homem, entrando em território
galego, ou seguir até Ponte de Lima e ingressar o Caminho oriundo do Porto, entrando em
Espanha por Tui.
Por Trás-os-Montes, as entradas em território galego eram feitas por Miranda do
Douro, Bragança e Chaves, unindo-se ao Caminho do Sudeste ou Via da Prata, que seguia
para Santiago de Compostela.
De facto, eram inúmeras as vias portuguesas de peregrinação a Santiago de
Compostela, evidenciando a importância que este santuário e o apóstolo representavam no
quadro da religiosidade e das devoções dos portugueses. Alguns desses caminhos continuam a
ser vias de peregrinação e possuem as estruturas necessárias para essa funcionalidade,
enquanto outras foram abandonadas e estão actualmente a ser objecto de investigações,
estudos e projectos de reabilitação e de valorização.
130
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Actualmente, o Caminho Português tem início em vários pontos do país, sendo que, na
actualidade, o mais percorrido o que sai do Porto e entra em território galego pela cidade
fronteiriça de Tui. Na verdade, “(…) entre todos assume particular relevo a estrada real Porto
– Barcelos – Valença, onde confluem quase todos os demais, reforçando este percurso como a
espinha dorsal dos caminhos portugueses de Santiago. Verificamos, assim, que há uma
continuidade na utilização deste itinerário, que era escolhido pela maior parte dos peregrinos
que demandaram Santiago, pelo menos a partir do início do séc. XIV, o que bem se
demonstra pelos inúmeros relatos que se conservam nos arquivos compostelanos e nas
referências conhecidas aos seus caminheiros mais ilustres – a Rainha Santa Isabel, Leão de
Rotzmithal, Jerónimo Münzer, el-Rei D. Manuel, Confalonieri, Albani, e provavelmente
também S. Francisco de Assis, o Beato Francisco Pacheco e tantos outros egrégios peregrinos
que a memória não registou.”319
De facto, o percurso mais afamado e popular é o que liga Porto a Tui, atravessando as
localidades de Vilarinho (Vila do Conde), S. Pedro de Rates, Barcelos, Ponte de Lima,
Rubiães, Valença do Minho e Tui; a partir de Tui, entra-se em território galego, atravessando
as localidades de O Porriño, Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis, Padrón, Iria Flavia,
Milladoiro até chegar a Santiago de Compostela, entrando na Porta Faxeira (entrada
tradicional do Caminho Português no casco histórico de Santiago), tendo sido o primeiro
itinerário a ser estudado e sinalizado, na década de 1990, graças ao trabalho voluntarioso das
Associações dos Amigos do Caminho de Santiago, nomeadamente a de Valença do Minho (a
primeira associação nascida em Portugal), a de Ponte de Lima (que contribuiu na investigação
do Caminho Português de Santiago) e a Asociación Galega Amigos do Camiño de
Santiago320.
Outros Caminhos têm a cidade do Porto como ponto de partida, nomeadamente, o
“Caminho do Noroeste ou Caminho da Costa” que atravessa as localidades de Vila do Conde,
Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Vila Praia de Âncora, Caminha, Vila Nova
de Cerveira e Valença; o denominado “Caminho do Norte” que atravessa as localidades de
Vila do Conde, Barcelos, Deão, Vilar de Mouros, Vila Nova de Cerveira e Valença; e o
“Caminho da Geira Romana” que atravessa as localidades de Braga, Caldelas, Covide, Portela
319
LIMA, João Gomes de Abreu de, Caminho Português Porto – Santiago. Ponte de Lima: Associação dos Amigos do
Caminho Português de Santiago, 2004, p.4.
320
SUÁREZ TRIGO, Ramón (coord), Caminho Central Português. Lisboa – Santiago. Vigo: Associación Galega Amigos do
Camiño de Santiago, 2008, pp.4-5.
131
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Subsídios para a criação de uma rota turística
132
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Penacova, Santa Comba Dão, Tondela, São Miguel de Outeiro – onde se sabe que Edrisi
esteve, Vil de Moinhos e Viseu, de onde partiam caminhos para norte e para outros
destinos.”323
Com efeito, a Viseu chegavam importantes vias, como a antiga via romana que ligava
Coimbra (Aeminium) a Viseu e onde passava a estrutural via entre Mérida (Emerita Augusta)
e Braga (Bracara Augusta). Parte da via Emerita Augusta-Bracara Augusta ainda hoje se
conserva, denominando-se de estrada romana de Pousa Maria (topónimo), pertencente ao
traçado324 do Caminho Português Interior de Santiago.
Partindo de Viseu, “(…) floreció el Camino Portugués Oriental o de Tras-os-Montes,
una de las más importantes vías portuguesas de peregrinación a Compostela que, después de
pasar por Lamego, Peso da Regua, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas, Vidago
y Chaves, entra en Galicia por Verín, para seguir hacia Orense y Santiago. A pesar de la
excepcional dureza de este Camino (…) fue utilizado con gran intensidad en la Edad Media,
por lo cual no sorprende la acrisolada devoción que se tiene al Apóstol en la zona; así lo
testimonian iglesias, imágenes, tradiciones y la propia toponímia.”325
Chegando à cidade de Chaves, importante cidade romana e cidade fronteiriça, o
Caminho segue para Verín, unindo-se à Via da Prata (que tem como ponto de partida a cidade
de Sevilha) para seguir até Santiago de Compostela.
Presentemente, este Caminho está a ser objecto de um projecto de reabilitação e de
valorização. Iniciado o projecto do “Caminho Português Interior de Santiago” em 2007,
apesar de algumas interrupções durante um longo período de tempo, os Municípios de Viseu,
Castro Daire, Lamego, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Vila Pouca de
Aguiar e Chaves, em 2010, retomaram o projecto em conjunto, tendo efectuado o
levantamento da antiga via de peregrinação que ligava Viseu a Chaves, que, por sua vez, liga
em Verín à Via da Prata.
Os Municípios envolvidos neste projecto já procederam à limpeza de todos os trilhos
por onde passa o Caminho, encontrando-se, actualmente, na fase de sinalização e na
323
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. X: “Caminho
português II: os caminhos do sul e do interior”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.340.
324
Este tema será abordado no capítulo III, subcapítulos 2 e 3.
325
LÓPEZ-CHAVES MELÉNDEZ, Juan M., El Peregrino y el Escudo de Viseu. Vigo: Associación Amigos de los Pazos,
2006, p.37.
133
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CAPÍTULO III
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A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
2. O Traçado
Atravessando os territórios de Viseu, Castro Daire, Lamego, Peso da Régua, Santa
Marta de Penaguião, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar e Chaves, a rota iconográfica segue,
maioritariamente, o traçado do chamado “Caminho Português Interior de Santiago”.
326
PEREIRA, Fernando Micael, “A peregrinação, fenómeno humano e religioso” in Communio – Revista Internacional
Católica (Ano XIV, nº. 4 – Julho/Agosto). Lisboa: Reflexão Teológica / Mundividência Cristã, 1997, p.319.
136
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
3. Descrição do Percurso
Tomando como ponto de partida Viseu, descobre-se uma cidade cheia de História,
Património e Cultura, “(…) é uma das povoações portuguesas com antiguidade romana mais
que garantida. (…) Aos Romanos sucederam os Suevos e os Visigodos, que se instalaram
naquela colina. Era povoação com força suficiente para ser Diocese, o que veio a acontecer
ainda no século VI, pois em 669, um Bispo seu, de nome Remissol, participou no Concílio de
Lugo. Uma lenda antiga diz que a capela de São Miguel de Fetal serviu de refúgio e depois de
túmulo ao Rei Rodrigo, o último dos Visigodos a governar a Península Ibérica antes das
invasões muçulmanas. Foi com dom Fernando Magno, em 1058, que Viseu voltou ao domínio
cristão, após a razia que Almansor fez no território português que reconquistou. A Rainha
Dona Teresa concedeu-lhe o seu primeiro foral em 1123 e há quem defenda que foi nesta
cidade que nasceu seu filho, o Rei dom Afonso Henriques.”328
Enquanto centro episcopal, Viseu foi vincando a sua importância no panorama
nacional, desenvolvendo-se em torno da Catedral, sendo conhecido igualmente pelo génio de
Vasco Fernandes, pintor renascentista, que deu nome ao Museu de Grão Vasco, onde se
encontram as suas principais obras (merecendo destaque os catorze painéis do retábulo da
Catedral, as pinturas de S. Pedro, do Calvário, do Pentecostes e do Baptismo de Cristo) e da
escola por ele dirigida (que inclui artistas como Gaspar Vaz, entre outros). Destacam-se ainda
os monumentos mais emblemáticos de Viseu que se situam no período renascentista (Claustro
da Catedral), manuelino (abóbadas no interior da Catedral), barroco e rococó (igreja dos
Terceiros, igreja do Carmo, igreja da Misericórdia), entre outros.
De seguida, segue-se por Santiago, uma povoação localizada nos arredores da cidade,
onde se encontra uma capela dedicada ao Apóstolo, seguindo o troço por Abraveses, Baltar
(Moure de Madalena), Campo de Madalena até chegar a Pousa Maria, onde se localiza um
dos melhores troços de estrada romana (pertencente à via que ligava Viseu a Braga e a
327
Título atribuído pela UNESCO a 14 de Dezembro de 2001.
328
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. X: “Caminho
português II: os caminhos do sul e do interior”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, pp.350-352.
137
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Astorga), onde os “Romeiros antigos de Santiago pisaram pedras deste caminho e o bordão de
peregrino bateu compassado estes caminhos de paz onde às vezes saltava um bandido atraído
por bolsa fácil. Aqui e além levantaram-se cruzeiros assinalando ou precavendo perigos nas
encruzilhadas.”329
Desce-se até à localidade do Almargem, atravessando o rio Vouga, e depois o caminho
faz-se, através de pinhais, até chegar a Cabrum, aldeia actualmente desabitada, onde se
encontra erigida a capela de S. José, datada de 1735, construída pelos habitantes da aldeia,
justificando-se este acto pela grande distância que os separava da igreja matriz (sita em
Moledo) e pelo próprio isolamento em que a aldeia vivia.
Subindo a serra, chega-se a Vila Meã, onde a capela chegou a ser dedicada ao
Apóstolo São Tiago, apesar de actualmente apresentar uma invocação mariana, concretamente
Nossa Senhora da Saúde.
Seguindo até Moledo, localidade que chegou a pertencer ao senhorio de D. Egas
Moniz, aio do Rei D. Afonso Henriques, a paisagem é marcada pela igreja de Santa Maria,
datada do século XVIII, de estilo rococó, ainda que a sua construção remonte à época
medieval, sem que existam actualmente vestígios da mesma.
Mões é a localidade que se segue, tendo sido sede de concelho, entre o século XVI
(através de foral manuelino) e o século XIX (em 1855, é extinto o concelho e incorporado no
concelho de Castro Daire), perpetuando essa memória através do seu pelourinho patente no
centro da vila; além disso, destaca-se a igreja de São Pedro, construção do século XVIII,
ainda que tenha sido restaurada, entre 1887 e 1924, fruto de um incêndio que deflagrou em
1856, tendo destruído a maior parte da igreja; bem como importantes casas senhoriais,
datadas do século XVII e XVIII.
Depois da extinta sede de concelho, o caminho segue para Vila Boa, onde se
encontram vestígios de sepulturas e lagaretas escavadas na rocha, remetendo-nos para a época
medieval, além da notícia de uma inscrição romana dedicada aos deuses Manes. A sua capela,
dedicada a S. Pelágio, foi alvo de obras de beneficiação em 1748, mandadas executar por
Manuel José Xavier.
Seguindo até Vila Franca, atravessa-se os rios Paiva e Paivó, chegando a Fareja e a
Fareijinhas para subir até Baltar. Esta pequena localidade de Baltar destaca-se pela singular
capela de São Tiago, situada no cimo de um arruamento íngreme.
329
CORREIA, Alberto, “Os passos sobre as pedras” in Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de Compostela.
Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.163.
138
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
330
GARCIA TERRÓN, Ángeles; PORTUGAL, José (coord.), Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de
Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.168.
331
À construção desta Igreja, encontra-se ligado o ”Cisma de Penude”, protagonizado pelo Padre Justino entre cerca de 1917
e 1935, que impôs uma contínua mortificação corporal, apresentando-se como modelo a seguir; de facto, muito foram os seus
seguidores que acabaram por criar uma verdadeira seita, chegando a “ultrapassar” o Padre Justino. A autoridade eclesiástica
acaba por ditar a interdição da Igreja e excomunga o Padre Justino, acabando o movimento por esmorecer aquando da sua
morte. GARCIA TERRÓN, Ángeles; PORTUGAL, José (coord.), Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de
Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, pp.174-175.
139
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
origem seja românica, merecem destaque a sua fachada e o seu interior, este último com
pinturas da autoria de Nicolau Nasoni); e do barroco (interior da Catedral; Museu de
Lamego332; Santuário de Nossa dos Remédios, ainda que pertença ao estilo rocaille); entre
outros.
Toma-se a via para Souto Covo, descendo até Sande, paróquia dedicada a São Tiago,
donde se começa a avistar o rio Douro.
É inevitável pensar no rio como parte integrante deste itinerário. “A descida para o
Douro fazia-se por trajecto sinuoso e atingido o rio, que corria em torrente caudalosa ao longo
de todo o Inverno ou com rápidos, galgando penhascos numa fúria indomável durante o resto
do ano, a travessia fazia-se de barca, que as havia em sítios certos, onde o pego era mais
remansoso. (…) A barca de passagem da Régua funcionou até à construção da ponte em
1872.”333
A localidade de Peso da Régua, banhada pelo rio Douro, não tinha qualquer
importância no panormana nacional até ao século XVIII, altura em que os ingleses
“descobriram” o Vinho do Porto e em que foi criada a Real Companhia das Vinhas do Alto
Douro, durante o reinado de D. José I: “A instalação da Companhia e a criação, neste local, de
um entreposto dos vinhos da Região Demarcada, a primeira a sê-lo em todo o mundo, vinhos
estes que eram depois conduzidos em barcos rabelos, rio abaixo, até às caves de Vila Nova de
Gaia, frente à cidade do Porto, despertaram uma intensa actividade comercial, originando uma
vila nova que desceu até ao Douro, onde estavam os cais e os armazéns.”334
Já na saída de Peso da Régua, encontra-se a localidade de Fontaínhas, onde se inicia a
via romana para Vila Real, podendo observar-se a capela de Nossa Senhora do Desterro.
Subindo até S. Gonçalo de Lobrigos, encontra-se a pequena capela de S. Gonçalo de
Lobrigos, e segue-se até S. João de Lobrigos, onde se encontra um bom exemplo da
arquitectura barroca na sua igreja matriz, obra do século XVIII, com extraordinário
património artístico no interior.
O caminho segue por S. Miguel de Lobrigos, Santa Comba, Banduge, Pousada,
subindo até Covelo, Santa Bárbara e Cumieira, onde merece destaque a sua igreja matriz,
332
Antigo Paço Episcopal, tendo sido adaptado para albergar o Museu de Lamego, onde se destacam o núcleo de pintura de
Vasco Fernandes (pertencente ao antigo retábulo da Catedral), a colecção de tapeçarias flamengas, a colecção de ourivesaria
e a colecção de arqueologia.
333
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. X: “Caminho
português II: os caminhos do sul e do interior”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.362.
334
Idem, p.363.
140
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
construída em 1729, cujo interior é preenchido por talha dourada do período joanino, além de
ter tido pinturas no tecto, obra de Nicolau Nasoni, mas, que, infelizmente foram substituídas
por madeira, retirando-lhe assim valor artístico.
De Silhão, segue-se para Relvas, atravessando o rio Sordo por uma ponte medieval,
chegando a Parada de Cunhos, onde merece visita a igreja matriz, bem como o altar de S.
Gonçalo, um santo peregrino.
Em 1289, D. Dinis atribuiu foral a Vila Real, um dos pontos “obrigatórios” de
passagem para quem empreendia a peregrinação a Compostela, não admirando que esta região
“(…) esteja carregada de lugares de culto de Santiago, e particularmente de S. Gonçalo de
Amarante, a dizer quanto a passagem de peregrinos jacobeus foi intensa por toda a região.”335
Em Vila Real, existem referências a esta via de peregrinação, nomeadamente no antigo
Campo do Tavolado, onde existiu uma capela dedicada a São Tiago, além de imagens do
Apóstolo, bem como de santos relacionados com a peregrinação como São Gonçalo de
Amarante, São Roque e São Sebastião, que se podem encontrar em igrejas e capelas de Vila
Real. A cidade foi-se desenvolvendo, sendo uma referência no século XV, enquanto local de
habitação de famílias nobres. Um dos monumentos mais emblemáticos de Vila Real é a Casa
de Mateus, um belo palácio barroco, construído na primeira metade do século XVIII; além
disso, merecem destaque alguns monumentos religiosos como a capela de São Brás, a
Catedral, a igreja da Misericórida, a igreja de São Pedro e a igreja dos Clérigos (obra de
Nicolau Nasoni), entre outros.
Toma-se a direcção de Calçada, Vila Seca, Gravelos e Escariz, onde se destaca a igreja
matriz que alberga uma imagem de S. Gonçalo. Atravessando-se uma ponte antiga, chega-se a
Benagouro e a Vilarinho da Samardã, que merece a nossa atenção, uma vez ter sido morada
do escritor Camilo Castelo Branco (1825-1890)336, encontrando-se bem presente nesta aldeia
335
GARCIA TERRÓN, Ángeles; PORTUGAL, José (coord.), Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de
Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.186.
336
“Camilo nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825,conforme os registos oficiais e também por ironia do Destino. (…)
Pascoaes tem razão: as raízes do escritor – a sua pátria adoptiva, como ele dizia – situam-se sobretudo em Vila Real e seu
termo, onde a família era conhecida pelos “Brocas”. De facto, «onde Camilo nasceu, ou, antes, renasceu, foi em Samardã, de
Trás-os-Montes.» (…) São inúmeras as referências transmontanas nas obras de Camilo Castelo Branco. Quem não leu ou
ouviu falar na Morte do Lobo no fojo da Samardã, no Fidalgo Mendigo, na História de Uma Porta, no macabro e suposto
desenterramento de Maria do Adro, na Maria Moiséssalva de morrer afogada nas águas do Tâmega, na raça pitoresca dos
“Macários” que povoam várias novelas? (…) Camilo é por excelência o novelista evocador do norte rural do século passado,
ora crítico, ora enternecido. E «o conjunto de romances camilianos – escreve Leite de Vasconcelos – tem tanto valor para o
conhecimento geral dos costumes populares que quem os aproveitasse todos, classificando e comentando os extractos,
formaria, só com eles, riquíssimo manual de Etnografia».” SIMÕES, Manuel, “Camilo e as Terras Transmontanas” in
Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta
de Galicia, 1995, pp.197-199.
141
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
a sua memória, bem como a memória da Confraria de S. Gonçalo, outrora existente na aldeia,
perpetuando essa memória através da imagem de S. Gonçalo, patente na igreja paroquial.
Seguindo para Tourencinho e Gralheira, encontram-se nesta última localidade
vestígios de uma albergaria novecentista, seguindo o caminho por Zimão, onde se encontra
mais uma capela dedicada a S. Gonçalo, ainda que pertença à freguesia de Telões, cujo orago
é São Tiago.
Atravessando Parada do Corgo (que, pelo seu topónimo, nos indica a paragem de
peregrinos e viajantes naquela localidade) e Montenegrelo, e pouco antes de chegar a Vila
Pouca de Aguiar, encontra-se “(…) o derruído castelo da Terra de Aguiar, erguido no cimo de
um penhasco, autêntica sentinela no alto Corgo. Com uma ampla história militar, com papel
preponderante no apoio à causa de dom Afonso Henriques, o castelo deixou de ter préstimo
depois das campanhas da Guerra da Independência, no final do século XIV. Como tantos
outros, foi soçobrando lentamente, chegando à actualidade uns escassos panos da sua
muralha.”337
Actualmente, em Vila Pouca de Aguiar, ainda é possível encontrar vestígios de
ocupação castreja e romana, além do interessante edifício dos Paços do Concelho, datado do
século XVIII, contendo no seu interior painéis de azulejos do artista Jorge Colaço, de 1912.
Segue-se para Vila Meã, onde existe uma pequena capela dedicada a São Tiago;
tomando o caminho para Pedras Salgadas (conhecida estância termal), seguindo para Águas
Romanas, atravessando, por uma ponte romana, o ribeiro de Avelames, até chegar a Sabrosa
de Aguiar.
Sucede-se a pequena e interessante aldeia de Oura, que tem como padroeiro São
Tiago, seguindo o caminho em direcção a Salus, Vidago338 (importante estância termal),
Valverde, Pereira de Selão e Redial, onde se encontra uma capela dedicada a São Tiago,
seguindo por Vila Nova da Veiga, Outeiro Jusão, chegando a Chaves.
337
RODRIGUEZ IGLESIAS, Francisco (dir), La Gran Obra de Los Caminos de Santiago: Iter Stellarum. Vol. X: “Caminho
português II: os caminhos do sul e do interior”. A Coruña: Hércules Ediciones, 2004-2007, p.372.
338
À semelhança de Pedras Salgadas, Vidago é outra importante estância termal, sendo ambas conhecidas pelas propriedades
das suas águas minero-medicinais, indicadas para o tratamento de afecções dermatológicas e gastro-intestinais. “Em Vidago e
em Pedras Salgadas algumas lápides e fragmentos de cerâmica encontrados nas cercanias destas povoações levam alguns
autores a crer que estas águas teriam sido conhecidas e utilizadas pelos romanos, não obstante não existirem testemunhos de
banhos ou estabelecimentos antigos. (…) A notoriedade e desenvolvimento alcançados por estas duas estâncias termais já nos
finais do século XIX leva a que sejam frequentadas pela nobreza e pela própria família real. (…)”. NEVES, Fernanda, “O
Termalismo” in Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de
Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.206.
142
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
A cidade de Chaves, antiga cidade romana de “Aquae Flaviae”339, continua a ser uma
referência no cruzamento de caminhos. Ainda que detenha vestígios de ocupações castrejas, a
extrema romanização que sofreu encontra-se bem patente na cidade (tendo como expoente
máximo a ponte sobre o rio Tâmega), além de inúmeros monumentos que nos remetem para
outras épocas históricas e artísticas, merecendo destaque a igreja matriz (que agrega diferentes
estilos artísticos, desde o românico ao renascentista), o Forte de S. Francisco e a igreja da
Misericórdia (exemplar barroco). Paralelamente à sua importância histórica, Chaves é
igualmente importante na história da peregrinação jacobeia, uma vez que terão existido duas
albergarias e um hospital que acolhiam e tratavam dos peregrinos a caminho de Santiago de
Compostela.
Tendo como ponto de partida a cidade de Chaves, o caminho apresenta-se com três
itinerários possíveis: Vilarelho da Raia, Seara Velha e Ervededo.
Para a primeira opção, toma-se o caminho por Outeiro Seco, passando próximo à
igreja da Senhora da Azinheira, datada dos finais do século XIII, seguindo pela Senhora da
Portela e chegando a Vilarelho da Raia, paróquia dedicada a São Tiago, entrando em Espanha
pela localidade de Verín.
Na segunda opção, segue-se para Vale da Anta, Soutelo, até chegar a Seara Velha,
onde a paróquia e a igreja são dedicadas a São Tiago, merecendo igual destaque o cruzeiro
que se situa junto à igreja. De seguida, toma-se o caminho para os santuários da Senhora da
Aparecida e da Senhora das Necessidades, seguindo por Castelões, Meixide, até Soutelinho
da Raia, onde se encontra uma imagem de São Roque, santo peregrino. Chegando a Vilar de
Perdizes, temos a referência de uma albergaria para peregrinos de Santiago, uma vez ser esta
uma das vias de peregrinação escolhidas, atravessando a fronteira em Xironda.
Finalmente, a terceira opção dirige-se para Seara, passando por Couto de Erveredo,
onde a tradição da peregrinação jacobeia ainda hoje é lembrada na aldeia, até pela anterior
existência de uma escultura em pedra do Apóstolo340 que terá sido entregue ao Santuário de
São Caetano (localidade próxima), aquando da construção da capela de Couto. Seguindo por
Agrela, chega-se a Cambedo, onde se encontra uma capela dedicada a São Gonçalo,
prosseguindo para território espanhol, em Casas dos Montes.
339
Fundada pelo imperador Flávio Vespasiano, em 78 d.C., de acordo com uma inscrição gravada numa das colunas da ponte
romana, dedicada ao imperador Vespasiano em 104 d.C.
340
Durante a investigação, tentou-se identificar esta escultura, solicitando informações aos habitantes locais, mas não foi
possível identificá-la nem encontrar o seu paradeiro.
143
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
4.1. Viseu
Curiosamente, e segundo Juan López-Chaves Meléndez, a própria heráldica de Viseu
remete para a iconografia jacobeia, confirmando assim a importância que Viseu assume na
peregrinação até Santiago de Compostela. Na Fonte de S. Francisco (fig.39, 40), é possível
observar uma das mais antigas representações heráldicas viseenses, onde “(…) sobre las
ondas representativas del río Duero que ocupan la punta del escudo, la diestra del mismo
(izquierda del espectador) está ocupada por un hombre con báculo de peregrino en su mano
izquierda, al tiempo que toca una bocina que sujeta con su mano derecha (esta figura, según la
tradición popular, es el rey Ramiro disfrazado de peregrino). Siguiendo con la descripción de
las armas del escudo, el centro está ocupado por el castillo de un rey moro y, en la siniestra
(derecha del espectador), se ve perfectamente un árbol, que representa el bosque donde se
ocultaron las tropas del monarca. La leyenda procede, al parecer, de la actividad de los
trovadores portugueses del siglo XIII y, en sus dos versiones, aparece recogida en los “Libros
Velhos de Linhagens de Gaia”, cuyo contenido puede calificarse como la saga amorosa del
rey Ramiro.”341
Considerando a importância de Viseu no Caminho de Santiago, “(…) la devoción al
Apóstol ganó fuerza y la figura del peregrino jacobita se hizo habitual, admirada y respetada,
lo que explica, como es lógico, que la tradición popular haya acogido el hecho jacobeo. Que
todo un rey elija el hábito de peregrino para caminar libremente por un territorio hostil, nos
devuelve a las primeras acepciones de peregrino como pobre a quien todos los religiosos
341
LÓPEZ-CHAVES MELÉNDEZ, Juan M., El Peregrino y el Escudo de Viseu. Vigo: Associación Amigos de los Pazos,
2006, p.41.
144
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
ayudan y que, en el caso del jacobita, esse pobre representa a Cristo. No hay, pues, para la
realeza hábito mas digno ni salvoconducto más seguro.”342
Além da heráldica, ainda que Viseu seja um ponto de confluência de caminhos,
existem poucas referências iconográficas relacionadas com São Tiago.
De facto, o Museu Grão Vasco (fig.41) alberga duas pinturas a óleo sobre madeira,
datadas do século XVI, atribuídas a Vasco Fernandes e à Escola de Grão Vasco.
O quadro de São Pedro343 (fig.42), obra de Vasco Fernandes (1475-1542), incluiu na
sua predela, na qual Gaspar Vaz (1514-1569) colaborou, as figuras de São João Evangelista e
Santo André, São Bartolomeu e São Tomé, São Paulo e São Tiago; nesta representação
(fig.43), São Tiago apresenta-se como Peregrino, identificado pelas suas vestes, bordão e
chapéu de aba larga com vieiras incrustadas, que, juntamente com São Paulo, observa o Livro
das Sagradas Escrituras.
Atribuído a Gaspar Vaz, a pintura de São Tiago (fig.44) retrata-o como Apóstolo,
identificado pela toga e pelo Livro das Sagradas Escrituras (que segura com a mão direita), e,
simultaneamente, como Peregrino, identificado pelas suas vestes, bordão e chapéu de aba
larga com vieiras incrustadas.
Ainda que pertencente à colecção do Museu Almeida Moreira (fig.45), encontra-se em
exposição, no Museu Grão Vasco, uma pintura a óleo de São Tiago (fig.46), datada do século
XVI, atribuída a Henrique Fernandes (act.1524-1542), pertencente à Escola de Grão Vasco.
Neste caso, a pintura apresenta, em simultâneo, São Tiago Apóstolo, identificado pela toga e
pelo Livro das Sagradas Escrituras (que segura com a mão direita), e São Tiago Peregrino,
identificado pelo bordão (que segura na mão esquerda) e pelo chapéu de aba larga, ainda que
este se encontre pendurado no seu pescoço.
Apesar de a construção ser relativamente recente, a igreja de Santiago (fig.47), sita na
paróquia de São José (Viseu), apresenta vestígios exteriores de uma anterior capela,
nomeadamente no vão de uma das portas da igreja, onde se encontra uma vieira ladeada por
cabaças (fig.48), dois elementos associados aos peregrinos de São Tiago e ao próprio
Apóstolo.
No seu interior, o altar mor é preenchido por um vitral, no qual está representado o
convite que Jesus fez a Tiago e João, encontrando-se inclusivamente retratada a citação
342
LÓPEZ-CHAVES MELÉNDEZ, Juan M., El Peregrino y el Escudo de Viseu. Vigo: Associación Amigos de los Pazos,
2006, pp.48-49.
343
Obra de referência da pintura renascentista, na qual S. Pedro é apresentado como líder espirirual do Cristianismo.
145
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
bíblica: “Viu Tiago e seu irmão João na barca com o pai Zebedeu e chamou-os…
imediatamente deixando a barca, as redes e o pai, seguiram-nO…” (fig.49, 50).
O altar lateral direito é dedicado a São Tiago, com uma escultura em madeira
policromada, apresentando iconograficamente São Tiago Peregrino/Apóstolo, uma vez que
partilha os atributos de Peregrino e de Apóstolo. Assim, São Tiago Peregrino enverga uma
túnica, com uma pequena capa, decorada com duas vieiras, segurando na mão direita o bordão
e a cabaça; São Tiago Apóstolo é identificado pela presença do Livro das Sagradas Escrituras,
que segura com a mão esquerda (fig.51, 52, 53, 54, 55).
344
CORREIA, Alberto; ALVES, Alexandre; VAZ, João L. Inês, Castro Daire. Viseu: Câmara Municipal de Castro Daire,
1986, p.269.
146
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
4.3. Baltar
Em Baltar, encontramos uma capela dedicada a São Tiago (fig.61), edificada por
iniciativa do Abade João de Moura de Andrade (1685-1724), que, à semelhança de outras
capelas345, apresenta, no seu interior, o Santo nas suas três vertentes iconográficas: Apóstolo,
Peregrino e Cavaleiro.
No altar-mor, do lado esquerdo, a escultura em madeira policromada apresenta São
Tiago Peregrino/Apóstolo, descalço, envergando a túnica, e na mão direita, o bordão com a
cabaça (tendo acopulada uma figura pequena do Menino Jesus) e coroado com o chapéu de
aba larga com uma vieira incrustada; e segurando com a mão esquerda o Livro das Sagradas
Escrituras. (fig.62, 63, 64, 65, 66, 67)
No ambão, encontra-se uma pintura que retrata São Tiago Cavaleiro, apresentando São
Tiago montado num cavalo branco, envergando a espada na mão direita e a bandeira da Cruz
de Cristo na mão esquerda, vestindo uma túnica, cuja gola se encontra decorada com vieiras.
Aos pés do cavalo, estão depositados três corpos que, pelo uso de turbantes nas suas cabeças,
nos remetem para os muçulmanos e para a intervenção de São Tiago na reconquista cristã
(fig.68).
4.4. Mouramorta
Nesta localidade, ainda subsiste a capela de São Tiago (fig.69), apesar do acesso
interdito e de se encontrar despojada no seu interior. Desconhecemos onde se encontra o seu
espólio, nomeadamente a imagem do Apóstolo.
4.5. Mezio
Datada do século XVIII, a igreja paroquial do Mezio apresenta o seu tecto totalmente
preeenchido por caixotões, onde estão retratados inúmeros santos, merecendo destaque São
Tiago, enquanto nosso objecto de estudo (fig.70, 71).
345
CORREIA, Alberto; ALVES, Alexandre; VAZ, João L. Inês, Castro Daire. Viseu: Câmara Municipal de Castro Daire,
1986, p.228.
147
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
Neste caso, São Tiago aparece referenciado como “S. Jacobus” (o nome latino de
Tiago), apresentando-se como Apóstolo, vestido com a toga e tendo, ao seu lado direito, o
Livro das Sagradas Escrituras, não possuindo qualquer elemento alusivo à sua condição de
peregrino (fig.72).
4.6. Magueija
Carlos Gil e João Rodrigues referem-se a este espaço religioso: “O actual edifício da
matriz apresenta os frontais das portas e janelas ornados de lavores bem cinzelados no granito
regional, mais elaborado sobre a entrada lateral voltada para o povo, que é sobrepujada por
um nicho com a imagem do padroeiro Santiago.”346 (fig.73, 74, 75, 76)
De facto, ainda antes de se entrar no edifício, uma construção do século XVIII, pode
observar-se a escultura em granito de São Tiago, associando as tipologias de Peregrino (pela
presença do bordão na mão direita, do chapéu de aba larga na cabeça e pela capa com as
vieiras) e de Apóstolo (identificado pelo Livro das Sagradas Escrituras na mão esquerda).
No seu interior, merecem destaque os caixotões do tecto, datados do século XVIII,
onde se encontram retratados santos, entre os quais São Tiago (fig.77, 78). Nesta
representação, São Tiago é referenciado como “S. Jacob” (um nome latino de Tiago),
apresentando-se como Apóstolo, vestindo a toga e segurando com a mão direita a Bíblia, e
como Peregrino, segurando o bastão com a mão esquerda (fig.79).
No altar-mor, do lado esquerdo, encontra-se uma escultura, em madeira policromada,
de São Tiago Peregrino/Apóstolo, envergando a túnica com a capa decorada com duas vieiras,
na mão direita, o bordão com a cabaça; e segurando, com a mão esquerda, o Livro das
Sagradas Escrituras (fig.80, 81, 82, 83).
4.7. Sande
Originalmente construída no século XII, a igreja de São Tiago foi, posteriormente,
reconstruída no século XVIII (fig.84). Tendo como padroeiro São Tiago, no altar-mor, do
lado esquerdo, encontra-se uma escultura, em madeira policromada, da autoria de José
Thedin, oferecida por Eduardo José Pinto Lobão e Idina Celeste de Almeida Lobão, em 1967,
346
GIL, Carlos; RODRIGUES, João, Por Caminhos de Santiago. Itinerários Portugueses para Compostela. 3ª edição.
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.158.
148
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
na qual se retrata São Tiago Peregrino/Apóstolo, usando a tradicional túnica com a capa
decorada com duas vieiras, na mão direita, o bordão com a cabaça; e segurando, com a mão
esquerda, um rolo de pergaminho347 (fig.85, 86, 87, 88).
347
À semelhança da iconografia existente na Catedral de Santiago de Compostela.
348
Um aspecto curioso nesta figuração é a luz emanada do Espírito Santo, como se representasse a escolha que Jesus fez de
Tiago como seu discípulo.
349
Foram diversas as vezes que nos deslocámos a Vila Real na tentativa de encontrar esta Igreja aberta, mas infelizmente não
foi possível. Segundo GARCIA TERRÓN, Ángeles; PORTUGAL, José (coord.), Caminhos Portugueses de Peregrinação a
Santiago de Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.188, no seu interior
existe também uma escultura de São Tiago, que, embora não tenhamos conseguido ver, será apresentada no índice de figuras
e abordada neste texto em termos iconográficos.
149
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
cabaça; com a mão esquerda, o Livro das Sagradas Escrituras (fig.95, 96, 97, 98, 99, 100).
4.11. Oura
Na igreja de São Tiago, no altar-mor, do lado esquerdo, encontra-se uma escultura, em
madeira policromada, de São Tiago Peregrino/Apóstolo, envergando a túnica, segurando, na
mão direita, o bordão com a cabaça; e segurando, com a mão esquerda, o Livro das Sagradas
Escrituras (fig.101, 102, 103, 104, 105).
4.12. Redial
À entrada da pequena localidade de Redial, descobre-se um nicho, que alberga a
imagem de São Tiago, representado como Peregrino/Apóstolo, através do chapéu de aba larga
e do bordão, seguro na mão esquerda, e do Livro das Sagradas Escrituras, seguro na mão
direita (fig.106, 107, 108, 109, 110).
Objecto de requalificação, em 1962, a capela de São Tiago apresenta no altar-mor, do
lado esquerdo, a imagem de São Tiago Peregrino/Apóstolo, envergando a túnica, o chapéu de
aba larga, o bordão e a cabaça presa ao mesmo, na mão direita, e a bolsa a tiracolo; e
segurando, na mão esquerda, o Livro das Sagradas Escrituras (fig.111, 112, 113, 114, 115,
116).
Graças à devoção popular, um restaurante local ostenta uma pintura, assinada por D.
Silva, datada de 1965, dedicada a São Tiago, representando-o em sinal de caminhada, como
Peregrino/Apóstolo, envergando a túnica, com a capa decorada com duas vieiras, o chapéu de
aba larga com a vieira incrustada a meio, segurando, com a mão direita, o bordão com a
cabaça presa ao mesmo; e segurando, com a mão esquerda, o Livro das Sagradas Escrituras
(fig.117).
4.13. Chaves
A cidade de Chaves tem uma longa tradição na peregrinação jacobeia. “Ergue-se ali,
com dois mil anos, a ponte romana, Ponte de Trajano, que cruza o Tâmega e liga os dois lados
da cidade. Na margem esquerda, a rainha Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, mandou
construir uma capela (1160) e uma albergaria destinada aos peregrinos que por aqui passavam
150
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
a caminho de Santiago de Compostela.”350 (fig.118) Além desta albergaria, terá existido uma
outra, junto à igreja matriz, tendo sido posteriormente ocupada pela Irmandade da
Misericórdia (fig.119).
Paralelamente, “Sabe-se também que em Chaves foi fundado um hospital da
invocação da Nossa Senhora de Rocamador (Roquemadour), onde os peregrinos podiam
repousar ou tratar-se quando adoeciam.”351
350
GIL, Carlos; RODRIGUES, João, Por Caminhos de Santiago. Itinerários Portugueses para Compostela. 3ª edição.
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.162.
351
GARCIA TERRÓN, Ángeles; PORTUGAL, José (coord.), Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de
Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.212.
151
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
referenciado com “S. Thiaguo”, apresentando-se como Peregrino e Apóstolo, segurando, com
a mão direita, o bordão, e usando um chapéu de aba larga; vestindo a toga e segurando, com a
mão esquerda, o Livro das Sagradas Escrituras (fig. 136, 137, 138, 139, 140).
5. Difusão e Divulgação
Aliando a rota de peregrinação aos elementos iconográficos associados a São Tiago, é
possível a construção de uma rota iconográfica, que, além do seu valor artístico, permite a
352
GARCIA TERRÓN, Ángeles; PORTUGAL, José (coord.), Caminhos Portugueses de Peregrinação a Santiago de
Compostela. Itinerários Portugueses. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 1995, p.223.
353
GIL, Carlos; RODRIGUES, João, Por Caminhos de Santiago. Itinerários Portugueses para Compostela. 3ª edição.
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.164.
152
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
difusão do património histórico, natural e cultural que a envolve, podendo ser encarado
igualmente como uma oferta turística da região atravessada por este Caminho de Santiago
(tido como “produto turístico”, actualmente muito em voga).
Nesta rota não deve ser esquecido o simbolismo dos espaços e dos elementos
identificativos da iconografia de São Tiago, bem como a associação entre as existências
materiais e a espiritualidade associada ao Caminho. Ainda que nem todos os peregrinos sejam
católicos e que as motivações que sustentam a peregrinação podem ser alheias à componente
religiosa, a compreensão do simbolismo e da espiritualidade é fundamental para a fruição do
Caminho de forma integrada.
Paralelamente à sinalética do Caminho de Santiago, deverá ser concebida uma
sinalética própria, diferenciando os elementos iconográficos, estando disponível não só nos
locais, mas também nos materiais de informação (mapas e folhetos) e nos materiais de
comunicação.
Neste âmbito, a rota iconográfica poderá ser valorizada através de um guia, no qual se
inclui a informação relativa aos elementos iconográficos do Caminho, bem como aos espaços
que albergam os mesmos, além da informação de outros locais de interesse, divulgando assim
a região que compreende Viseu e Chaves, não esquecendo a própria história do Caminho de
Santiago, subjacente a este projecto.
Além do tradicional guia (em papel), a rota iconográfica poderá ser complementada
com áudio-guias, nos quais se faria uma abordagem histórica de São Tiago, a história das
peregrinações e o próprio Caminho de Santiago, referenciando lendas, tradições, poesias,
entre outros elementos do património imaterial, enquadrando melhor esta rota.
Paralelamente, deverá ser contemplada uma página Web, na qual incorpore todas as
informações relativas ao Caminho, sendo possível o seu download.
Nos espaços religiosos dedicados a São Tiago e onde se podem encontrar imagens do
próprio, seria interessante criar um “canto de leitura” dedicado a São Tiago, apresentando as
principais passagens bíblicas e outras referências bibliográficas com interesse. Nesses
mesmos espaços, estaria disponível informação mais específica sobre aquele espaço, mas
também sobre os restantes espaços inseridos na rota iconográfica.
Tal como o tradicional peregrino detém a sua credencial, na qual vai recolhendo os
carimbos dos locais emblemáticos do Caminho, seria interessante criar uma “credencial
iconográfica”, na qual o peregrino/turista iria recolhendo os diversos carimbos associados à
rota iconográfica que se encontra a percorrer.
153
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
354
PENTEADO, Pedro, “A construção da memória nos centros de peregrinação” in Communio – Revista Internacional
Católica (Ano XIV, nº. 4 – Julho/Agosto). Lisboa: Reflexão Teológica / Mundividência Cristã, 1997, p.341.
154
A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
CONCLUSÃO
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sociedade de então, bem como peregrinos portugueses que aceitaram o apelo do Apóstolo,
além de muito ter contribuído para a riqueza de Compostela, além da dinamização da
peregrinação em terras portuguesas em direcção a Santiago.
O Caminho de Santiago tornou-se num ícone das peregrinações, transformando a
Europa que rasga inúmeras rotas de peregrinação em direcção a Compostela. Apresentadas as
principais rotas de peregrinação – Caminho Francês, Caminho Primitivo, Caminho do Norte,
Caminho Inglês, Caminho Português, Caminho do Sudeste/Via da Prata, Caminho do Mar de
Arousa e Rio Ulla e Caminho de Fisterra/Muxia – analisámos a sua particular sinalização,
comum a todas as rotas, além da importância do Caminho de Santiago enquanto Itinerário
Cultural Europeu e Património da Humanidade.
Além da importância do Caminho de Santiago, como via de peregrinação, e dado ser o
tema principal do nosso trabalho, importou referir a iconografia de São Tiago, referindo o
conceito de iconografia e apresentando as tipologias iconográficas de São Tiago enquanto
Apóstolo (túnica, manto e Evangelho), Peregrino (túnica, escarcela, bordão, cabaça, chapéu
de aba larga e vieira) e Cavaleiro (túnica, espada, escudo com cruz de Santiago e cavalo).
Na segunda parte, abordámos a dicotomia entre turismo e peregrinação, tentando
contrapor os dois termos, apresentando para tal os conceitos inerentes ao turismo, explorando
os conceitos de turismo cultural e de turismo religioso, além de apresentar as potencialidades
turísticas do Caminho de Santiago, enquanto importante “produto turístico”.
Apresentámos os Caminhos Portugueses de Santiago, explorando as várias rotas,
merecendo especial atenção o chamado Caminho Português Interior de Santiago, que liga
Viseu a Chaves, uma vez que este faz parte do objecto do nosso trabalho.
Por fim, propusemos uma rota iconográfica para o Caminho de Santiago entre Viseu e
Chaves, de forma a promover o conceito de “Peregrinar com a iconografia de São Tiago”.
Nesse sentido, explorámos o traçado e o respectivo percurso, descrevendo os diversos
elementos iconográficos no Caminho, nomeadamente os encontrados em Viseu, Vila Meã
(Castro Daire), Baltar, Mouramorta, Mezio, Magueija, Sande, São João de Lobrigos, Vila
Real, Vila Meã (Vila Pouca de Aguiar), Oura, Redial, Chaves, Vilarelho da Raia, Seara Velha
e Vilar de Perdizes.
A ligação entre a iconografia e a peregrinação constitui, a nosso ver, um grande valor
do próprio Caminho Português, entre Viseu e Chaves. Tal união dota o próprio trilho de uma
linguagem visual relevante, o que promove o seu enriquecimento artístico das diferentes
esculturas e pinturas de São Tiago que existem ao longo do Caminho.
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Subsídios para a criação de uma rota turística
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YÁZIGI, Eduardo; CARLOS, Ana Fani Alessandri; CRUZ, Rita de Cássia Ariza da (org),
Turismo. Espaço, Paisagem e Cultura. São Paulo: Editora Hucitec, 2002.
YZQUIERDO PERRÍN, Ramón, “El Camino Francés en su recoorido gallego: obras artísticas
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e Portavoz do Goberno, 1993.
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A Antevisão do Peregrino na Iconografia de São Tiago no Caminho Português de Santiago entre Viseu e Chaves
Subsídios para a criação de uma rota turística
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Figura 57 Altar-mor
Figura 58 Escultura de São Tiago
Figura 59 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 60 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 61 Capela de São Tiago, Baltar
Figura 62 Altar-mor
Figura 63 Escultura de São Tiago
Figura 64 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 65 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 66 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 67 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 68 Pintura de São Tiago
Figura 69 Capela de São Tiago, Mouramorta
Figura 70 Igreja Paroquial, Mezio
Figura 71 Interior da Igreja
Figura 72 Caixotão de São Tiago
Figura 73 Igreja Matriz, Magueija
Figura 74 Nicho de São Tiago
Figura 75 Escultura de São Tiago
Figura 76 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 77 Interior da Igreja
Figura 78 Caixotões do tecto
Figura 79 Caixotão de São Tiago
Figura 80 Altar-mor
Figura 81 Escultura de São Tiago
Figura 82 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 83 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 84 Igreja de São Tiago, Sande
Figura 85 Altar-mor
Figura 86 Escultura de São Tiago
Figura 87 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 88 Escultura de São Tiago (pormenor)
Figura 89 Igreja Matriz, São João de Lobrigos
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