Major, Spazz... toma mais uma.
Essa aqui vai
naquela pegada de "lugar comum que esconde
alguma coisa impossível".
───
A Biblioteca Central da cidade nunca fechava
completamente.
Oficialmente, ela funcionava das oito da manhã
às dez da noite.
Mas existia um horário em que as luzes
voltavam a acender sozinhas.
03:33.
Exatamente.
Nem um minuto antes.
Nem um depois.
Os moradores dos prédios ao redor
comentavam isso havia anos.
As janelas do terceiro andar sempre iluminavam
naquele horário.
Mesmo sem funcionários.
Mesmo com o sistema de energia desligado.
Ninguém investigava.
Porque ninguém permanecia acordado para ver.
Até que Henrique viu.
Ele era estudante de História e passava
praticamente todos os dias naquela biblioteca
pesquisando documentos antigos.
Numa noite, perdeu completamente a noção do
tempo enquanto escrevia sua monografia.
Quando levantou da cadeira, todas as luzes já
estavam apagadas.
O silêncio era absoluto.
A biblioteca havia fechado.
Henrique caminhou até a recepção.
Vazia.
As portas principais estavam trancadas.
Tentou chamar alguém.
Nenhuma resposta.
Pegou o celular.
Sem sinal.
O relógio marcava 03:32.
Então todas as luzes acenderam ao mesmo
tempo.
Sem aviso.
Sem barulho.
Como se alguém tivesse ligado o prédio inteiro.
Uma voz metálica ecoou pelos alto-falantes
antigos.
— Bem-vindo ao expediente da madrugada.
Henrique franziu a testa.
Nunca tinha ouvido aquele anúncio.
Olhou ao redor.
As estantes pareciam... diferentes.
Mais altas.
Muito mais altas.
Subiam tanto que desapareciam na escuridão
do teto.
O corredor entre elas também parecia mais
comprido.
Como se a biblioteca tivesse aumentado de
tamanho.
Então ouviu o primeiro livro cair.
THUMP.
Algum lugar distante.
Depois outro.
THUMP.
Outro.
Outro.
Como um efeito dominó.
Centenas de livros começaram a cair sozinhos
pelas estantes.
Mas nenhum atingia o chão.
Eles simplesmente desapareciam no meio da
queda.
Henrique recuou.
Sentindo um frio estranho.
Foi então que viu alguém.
Um homem de terno cinza caminhava
lentamente entre as estantes.
Segurava um livro enorme de capa preta.
Quando passou sob uma luminária, Henrique
percebeu que o homem não possuía rosto.
Onde deveria haver olhos, nariz e boca...
Existiam apenas páginas.
Folhas de papel formando uma cabeça.
As páginas se moviam lentamente, como se
fossem sopradas por um vento invisível.
O homem parou.
Virou na direção de Henrique.
E abriu o livro que carregava.
Ao mesmo tempo, os alto-falantes anunciaram:
— Novo leitor identificado.
Henrique correu.
Entrou no primeiro corredor que encontrou.
As estantes pareciam não terminar nunca.
Livros antigos enchiam todas as prateleiras.
Alguns tinham títulos estranhos.
"Pessoas Que Nunca Nasceram."
"Cidades Esquecidas."
"Dias Que Não Aconteceram."
Henrique passou a mão rapidamente por um
deles.
O livro caiu da estante.
Abriu sozinho.
Na primeira página havia uma fotografia.
Era dele.
Ainda criança.
Brincando num parque.
Uma fotografia que nunca havia sido tirada.
Virou outra página.
Sua formatura do ensino médio.
Outra.
Seu primeiro emprego.
Outra.
O casamento dele.
Henrique fechou o livro imediatamente.
Ele nunca tinha se casado.
Os passos do homem sem rosto ecoavam pelo
corredor.
Calmos.
Sem pressa.
Como se soubesse exatamente onde Henrique
estava.
Os alto-falantes voltaram.
— Registro incompleto localizado.
As luzes começaram a apagar atrás dele.
Estante por estante.
Corredor por corredor.
Henrique entrou numa sala pequena tentando se
esconder.
Era um arquivo.
Milhares de fichas catalográficas ocupavam
gavetas de madeira.
Cada ficha tinha um nome.
Ele puxou uma ao acaso.
Um desconhecido.
Outra.
Outra.
Até encontrar uma com seu próprio nome.
Henrique Oliveira.
Data de nascimento.
Nome dos pais.
Endereço.
Tudo correto.
Exceto pela última linha.
"Data prevista para arquivamento: Hoje."
As gavetas começaram a abrir sozinhas.
CLACK.
CLACK.
CLACK.
Centenas delas.
Papéis voavam pela sala inteira.
Então Henrique percebeu algo pior.
As fichas estavam mudando.
Seu nome começava a desaparecer lentamente.
Letra por letra.
Como tinta sendo apagada.
Primeiro sumiu o sobrenome.
Depois parte do nome.
Em poucos segundos restava apenas uma letra.
"H."
Os alto-falantes anunciaram novamente.
— Processo de esquecimento iniciado.
Henrique correu de volta para os corredores.
Mas agora não havia mais livros.
As prateleiras estavam vazias.
Completamente.
Milhares de estantes sem nenhum volume.
No fim do corredor havia apenas uma mesa.
E um bibliotecário.
Muito velho.
Usando luvas brancas.
Ele sorriu.
Dessa vez havia um rosto.
Mas era o rosto de Henrique.
Mais velho.
Muito mais velho.
O homem empurrou um único livro sobre a
mesa.
Na capa estava escrito:
"A Última Pessoa Que Ainda Lembra de Você."
Henrique abriu a primeira página.
Estava em branco.
Virou a segunda.
Também.
Terceira.
Quarta.
Todas vazias.
Até chegar na última folha.
Havia apenas uma frase escrita à mão.
"Quando este livro terminar de ser apagado...
ninguém se lembrará que você existiu."
Nesse instante, todas as luzes da biblioteca se
apagaram.
E, no escuro, Henrique ouviu milhares de
pessoas fechando livros ao mesmo tempo.