Major, Spazz...
essa vai ser grandona mesmo,
meu nobre. Daquelas que enchem mais de 10
páginas fácil no bloco de notas do celular.
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A CIDADE ABAIXO DA CHUVA
Quando começou a chover, ninguém estranhou.
Era apenas mais uma madrugada de inverno.
As ruas estavam vazias, os semáforos piscavam
no modo amarelo e os poucos carros que ainda
circulavam levantavam pequenas cortinas de
água enquanto cruzavam as avenidas
silenciosas.
Mas aquela chuva tinha uma característica que
ninguém percebeu no início.
Ela nunca parava.
No primeiro dia, a prefeitura informou que era
consequência de uma frente fria incomum.
No terceiro, os meteorologistas já não
conseguiam explicar.
No sétimo dia, os radares mostravam algo
impossível.
As nuvens permaneciam exatamente no mesmo
lugar.
Imóveis.
Como se alguém as tivesse desenhado no céu.
Mesmo assim, a chuva continuava caindo.
Sem vento.
Sem trovões.
Sem relâmpagos.
Apenas água.
Constante.
Infinita.
Depois de um mês, a cidade inteira já havia se
acostumado.
As pessoas passaram a usar passarelas
cobertas.
Comércios adaptaram entradas.
Carros circulavam mais devagar.
A vida continuava.
Ou pelo menos parecia continuar.
Foi nessa época que Daniel começou a notar
algo estranho.
Ele era fotógrafo.
Gostava de caminhar pela cidade durante a
madrugada registrando ruas vazias.
Achava que as luzes refletidas na água davam
um aspecto bonito às fotografias.
Numa dessas caminhadas, passou por uma
avenida completamente alagada.
Nada incomum.
Mas, quando olhou pelo reflexo da água...
Viu outra cidade.
Não era o reflexo da rua.
Era outro lugar.
Prédios diferentes.
Postes diferentes.
Até o céu parecia diferente.
Daniel piscou.
Olhou novamente.
Tudo havia voltado ao normal.
Pensou que fosse cansaço.
Continuou andando.
Dias depois aconteceu de novo.
Dessa vez numa poça pequena.
O reflexo mostrava uma praça enorme onde
deveria existir apenas um estacionamento.
Havia pessoas caminhando.
Todas usando roupas antigas.
Nenhuma delas olhava para cima.
Nenhuma parecia perceber que estava sendo
observada.
Daniel pegou a câmera.
Fotografou.
Quando analisou a imagem em casa...
A fotografia mostrava apenas a poça d'água
comum.
Nada além disso.
Mesmo assim...
Ele sabia o que tinha visto.
A curiosidade começou a crescer.
Passou noites inteiras procurando outras poças.
Outros reflexos.
E percebeu um padrão.
Quanto mais velha era a rua...
Mais fácil ficava enxergar aquela outra cidade.
Era como se ela existisse logo abaixo da
superfície da água.
Esperando.
Na décima segunda noite de chuva, Daniel
encontrou um senhor sentado sob o ponto de
ônibus.
Velho.
Usando uma capa amarela completamente seca.
O detalhe era impossível.
Tudo ao redor estava encharcado.
Mas nem uma gota tocava aquela capa.
O homem observava uma enorme poça no
asfalto.
Sem piscar.
Daniel aproximou-se.
— O senhor também consegue ver?
O velho não respondeu imediatamente.
Continuou olhando para a água.
Depois de alguns segundos disse apenas:
— Você demorou para perceber.
Daniel sentiu um arrepio.
Sentou ao lado dele.
Os dois permaneceram em silêncio.
Até que o velho apontou para a poça.
— Olha com atenção.
Daniel olhou.
A outra cidade estava lá novamente.
Muito mais nítida.
Era gigantesca.
Muito maior do que a cidade real.
Prédios enormes.
Pontes.
Praças.
Milhares de luzes acesas.
Parecia existir vida normal ali.
Carros.
Pessoas.
Ônibus.
Tudo funcionando.
Como se fosse um reflexo de um mundo inteiro.
— O que é isso?
O velho respondeu calmamente.
— A cidade que existia antes.
Daniel franziu a testa.
— Antes de quê?
— Antes da nossa.
Silêncio.
A chuva continuava caindo.
O velho continuou.
— Toda cidade construída sobre outra acaba
esquecendo o que ficou embaixo.
— Embaixo?
— Sim.
— Você está dizendo que existe outra cidade
enterrada?
O velho sorriu.
— Não enterrada.
Abaixo.
Existe diferença.
Daniel não entendeu.
O homem levantou lentamente.
Apontou novamente para a água.
— Observe as pessoas.
Daniel fez isso.
Foi então que percebeu.
Todas caminhavam olhando para frente.
Mas, de vez em quando...
Algumas levantavam lentamente a cabeça.
Como se conseguissem enxergar através da
água.
Como se estivessem olhando diretamente para
ele.
Daniel recuou.
O velho apenas disse:
— Agora elas também viram você.
Na manhã seguinte, Daniel voltou ao mesmo
lugar.
O banco do ponto de ônibus estava vazio.
Ninguém conhecia o velho.
Nenhuma câmera de segurança registrou sua
presença.
Era como se nunca tivesse existido.
Mas Daniel continuou investigando.
Durante semanas fotografou reflexos.
Fez anotações.
Criou mapas.
Descobriu que a cidade abaixo era muito maior
do que imaginava.
Ela ocupava exatamente o mesmo espaço da
cidade atual.
Como duas realidades sobrepostas.
Separadas apenas por alguns centímetros de
água.
Então veio o primeiro desaparecimento.
Uma mulher atravessava uma faixa de
pedestres durante a chuva.
Testemunhas disseram que ela simplesmente...
afundou.
Não havia bueiro.
Não havia buraco.
Ela apenas desapareceu.
A polícia concluiu que tinha sido arrastada pela
correnteza.
Mas Daniel viu a gravação.
No reflexo da rua...
Era possível ver a mulher caindo na outra cidade.
Alguém a segurava do outro lado.
Dias depois aconteceu novamente.
Depois outra vez.
Sempre durante chuva forte.
Sempre sobre grandes poças.
As autoridades nunca encontravam os corpos.
As notícias diminuíram.
Os casos foram esquecidos.
Mas Daniel sabia.
A cidade abaixo estava levando pessoas.
Numa madrugada particularmente silenciosa,
decidiu fazer algo impensável.
Encontrou uma praça completamente alagada.
A mesma onde sempre via o reflexo da outra
cidade.
Respirou fundo.
E colocou a mão dentro da água.
Ela atravessou.
Não a água.
Mas o reflexo.
Como se tivesse atravessado uma película
invisível.
Do outro lado...
Sentiu outra mão segurando a dele.
Gelada.
Muito gelada.
Daniel puxou imediatamente.
Mas era tarde.
A mão apertou com força.
Algo começou a puxá-lo para baixo.
A superfície da água ondulou violentamente.
E, por um instante, metade do corpo dele já
estava do outro lado.
Ele conseguiu enxergar a cidade subterrânea
diretamente.
Não pelo reflexo.
Mas de dentro.
As ruas eram enormes.
Os prédios infinitos.
As pessoas caminhavam normalmente.
Como se nada fosse estranho.
Exceto por um detalhe.
Nenhuma delas possuía sombra.
Todas olhavam para o chão.
Em silêncio.
A mão soltou Daniel de repente.
Ele caiu para trás na calçada.
Ensopado.
Respirando desesperadamente.
Quando olhou novamente para a poça...
Não havia mais reflexo algum.
Naquela noite ele sonhou.
Estava andando pela cidade subterrânea.
As pessoas finalmente levantavam a cabeça.
Todas sorriam.
E repetiam exatamente a mesma frase.
— Está chovendo aí também?
Daniel acordou assustado.
Seu quarto estava completamente seco.
A chuva havia parado.
Depois de cento e cinquenta e oito dias.
A cidade comemorou.
O sol voltou.
As ruas secaram.
A vida retomou o normal.
Mas algo estava diferente.
Os reflexos continuavam aparecendo.
Mesmo sem água.
Em vidros.
Espelhos.
Janelas.
Telas de celulares desligados.
A outra cidade permanecia lá.
Sempre observando.
Daniel decidiu ir embora.
Mudou de estado.
Mudou de profissão.
Nunca mais fotografou.
Nunca mais comentou sobre o assunto.
Anos depois, um pesquisador encontrou o diário
completo dele escondido dentro de uma parede
falsa do antigo apartamento.
As últimas páginas estavam quase ilegíveis.
Cobertas por manchas de umidade.
Mas a frase final ainda podia ser lida
perfeitamente.
"Nós nunca construímos esta cidade. Apenas
construímos um teto sobre a deles. E, quando
chove por tempo suficiente... o teto fica
transparente."