Marília
Na terça-feira de manhã, lá estávamos nós, reunidos na
grande sala de reuniões da Orum. Toda a equipe criativa,
analistas e assistentes de todas as áreas que englobam o
mundo do marketing estavam presentes: designers e
assistentes de designer (como eu), redatores, analistas
de marketing, assistentes de redes sociais. O ambiente
estava carregado de expectativa, e eu mal conseguia ficar
parada. Batia os pés no chão, inquieta, tentando conter a
ansiedade para saber o que nos esperava. Algo grande
estava por vir, e todo mundo ali sabia disso.
Quando Thiago finalmente entrou na sala, o burburinho
cessou quase que instantaneamente. Ele vestia roupas
sociais pretas impecáveis, elegantes na medida certa.
Nem tão formais a ponto de parecer distante, nem tão
casuais para comprometer a postura de chefe. Ele
exalava confiança.
— Bom dia, pessoal. — Sua voz firme ecoou na sala
enquanto ele tomava seu lugar na extremidade da
enorme mesa de mogno, onde mais de vinte pessoas
estavam sentadas. — Obrigado pela presença de todos.
Tenho uma notícia muito boa para compartilhar com
vocês.
Os olhos dele brilhavam, e aquilo não me surpreendia.
Todo mundo sabia que Thiago era apaixonado pelo que
fazia. Sempre digo que foi um caso de nepotismo que
deu muito certo — ele não ocupava o cargo apenas por
ser filho da dona, mas porque era simplesmente o
melhor no que fazia. Um completo viciado em trabalho.
Não que eu fosse a melhor pessoa para julgar.
— Há alguns meses, recebemos uma proposta de
campanha da Deluxe. Desde então, estivemos
negociando os termos, porque não fomos os únicos a
disputar esse contrato. Mas hoje, posso finalmente dizer
que fomos os escolhidos. — Seu sorriso, de dentes
perfeitos e alinhados, se alargou. Não era para menos. A
Orum vinha crescendo muito nos últimos anos,
conquistando respeito, clientes fiéis e reconhecimento
dentro do mercado. Além disso, era uma empresa
comprometida com representatividade. A maioria de nós
ali era preta, trabalhando para uma agência liderada por
pessoas pretas, que se preocupavam genuinamente em
oferecer salários e benefícios justos para os funcionários.
Isso tornava tudo ainda mais significativo.
A notícia fez a sala explodir em comemorações. As
pessoas se levantaram para aplaudir, parabenizando não
só Thiago, mas também a si mesmas. Afinal, aquele
contrato não foi conquistado por acaso. Foi fruto de
esforço, talento e dedicação coletiva. Eu também não
pude evitar sorrir, me sentindo orgulhosa por fazer parte
de algo tão grandioso.
Quando a empolgação diminuiu um pouco, Thiago
continuou:
— O representante da Deluxe acompanhará todo o
projeto de perto. A ideia central da campanha é o
lançamento de uma nova fragrância inspirada no litoral
nordestino — o que explica a busca deles por uma
agência daqui. Nossa missão será criar campanhas
publicitárias para todos os meios de comunicação:
revistas, redes sociais e TV. — Ele pausou, deixando as
palavras se assentarem. Meu coração já disparava. Era
um projeto de grande porte, e se eu tivesse o hábito de
roer unhas, provavelmente já teria acabado com elas.
Os redatores ficaram encarregados de criar um roteiro
que valorizasse as paisagens nordestinas, conectando-as
com a fragrância cítrica do perfume — que, até aquele
momento, ainda não tinha um nome.
— Também ficamos responsáveis por nomear o novo
perfume — Thiago passou os slides da apresentação,
exibindo detalhes da campanha. — Para isso, abriremos
uma ouvidoria para sugestões. Conto com todos vocês.
Minha mente já fervilhava de ideias para os pôsteres da
campanha. As cores, as sobreposições, os elementos
visuais que transmitiriam a essência do projeto... Era um
tipo de trabalho que me desafiava, mas que eu amava
fazer.
Thiago apoiou as mãos sobre a mesa e varreu a equipe
com o olhar, assumindo um tom mais sério.
— Essa campanha é talvez a mais importante da nossa
história enquanto empresa. Ela representa nossa
entrada definitiva no mercado de marketing nacional.
Então, tanto eu quanto Helena contamos com vocês para
entregarmos o melhor trabalho possível. — Ele fez uma
pausa dramática, então sorriu, aquele sorriso
convencido que ele sabia usar tão bem. — Mas,
sinceramente, nada muito diferente do que já fazemos.
Sei que posso confiar em vocês.
Com essa declaração, ele nos dispensou.
Saí da sala de reuniões com um misto de excitação e
apreensão. Eu adorava desafios, mas sabia que os
próximos dias seriam intensos. Ainda assim, ao invés de
sentir medo, uma onda de adrenalina percorreu meu
corpo. A ansiedade estava me consumindo. Eu precisava
dançar.
Eu precisava da Kitty.