Marília
Mais tarde, naquele mesmo dia, recebemos um e-mail
corporativo convocando toda a equipe criativa para uma
reunião sobre um novo projeto.
A coisa devia ser séria para chamarem todo mundo para
uma reunião presencial. Não pude evitar a ansiedade. A
verdade é que a Orum é uma das empresas mais
tranquilas para se trabalhar nessa área aqui em Recife –
não que eu conheça muitas, mas as notícias correm, e dá
para saber facilmente quais são os melhores e os piores
lugares para ser funcionário. Tínhamos certos privilégios
por fazer parte da equipe, mas isso não significava que
estávamos livres de momentos tensos e de grande
pressão. Algo me dizia que a visita do representante da
Deluxe provocaria exatamente esse tipo de situação.
A reunião foi marcada para a manhã seguinte, então
resolvi parar de pensar no assunto e focar nos projetos
que já estavam em andamento, não adiantava sofrer por
antecipação.
Perto do fim do expediente, quando achei que poderia
comemorar mais um dia concluído em paz, recebo um
telefonema da sala da diretoria. Era Thiago solicitando
minha presença para esclarecer alguns pontos de um
projeto que finalizei e enviei para sua aprovação.
Roberto e Mônica me olham preocupados enquanto
confirmo minha presença. Assim que termino a ligação,
os encaro, meio em pânico, meio conformada. Não era
raro esse tipo de coisa acontecer por aqui – todo mundo
passava por isso –, mas provavelmente não com a
mesma frequência que eu. E o problema é que eu tinha
dado meu sangue nesse projeto. Para mim, estava tudo
muito bom. O pensamento de que eu poderia ter
cometido algum erro começou a martelar na minha
cabeça e despertar meu lado inseguro que não precisava
de muito estímulo para me torturar.
— Mari, vai ficar tudo bem. Eu mesma vi o projeto antes
que você o enviasse para ele. Tenho certeza de que não é
nada demais — Mônica tenta me confortar assim que
termino de explicar a situação.
Sempre faço com que ela e Roberto analisem meus
projetos antes de enviá-los ao chefe. Primeiro, porque
eles são bem mais experientes que eu. Segundo, porque
eu sou uma desgraçada insegura. Terceiro, porque tento
evitar ao máximo uma reprovação de Thiago – coisa
que, infelizmente, não é difícil de acontecer.
— Isso mesmo, Marilinha, vai dar certo — diz Roberto
carinhoso.
Eu adorava aqueles dois. Eles simplesmente me
adotaram quando eu ainda era uma estagiária mais
medrosa do que sou hoje e cuidam de mim desde então.
Assenti e me levantei, fazendo um joinha e sorrindo para
os dois, fingindo que conseguiria passar por aquilo
numa boa, enquanto percorria o tão infelizmente curto
caminho até sua sala.
Não me entenda mal, Thiago não é nenhum monstro de
sete cabeças nem um chefe abusivo. Ele só… cobra muito
de mim. Está sempre revisando meus projetos, pedindo
alterações – coisa que sei que ele não faz com todo
mundo. Alguns projetos nem passam por sua aprovação;
são analisados diretamente pelos analistas das áreas.
Isso me deixa insegura em relação à minha competência.
Queria que ele me deixasse mais livre e não fosse tão
duro comigo.
Respirei fundo antes de bater na porta de sua sala. Logo
ouvindo um pedido para entrar.
— Boa tarde, Thiago — cumprimentei ao me sentar na
cadeira à sua frente.
A sensação era a de estar diante de um juiz prestes a me
condenar à pena máxima.
Thiago era um cara cuja presença gerava impacto. Alto,
ombros largos, sobrancelhas grossas e cílios longos,
cabelo cacheado curto, mandíbula marcada e lábios
grossos, com o que parecia ser um ombré lips natural. O
homem era, sem dúvidas, uma das pessoas mais bonitas
e intimidadoras que eu já tinha visto na vida. Ter seus
olhos escuros sobre mim me deixava esquisita – minhas
pernas pareciam gelatina, minhas mãos suavam. De
repente, me senti extremamente desarrumada, com o
cabelo preso e tão pouca maquiagem para disfarçar a
falta de uma boa noite de sono.
— Boa tarde, Marília. Como já estamos próximos do fim
do expediente, serei breve — disse ele, sem desviar os
olhos. Eu admirava isso nele, a forma que falava com
tanta segurança… Diferente de mim, que precisava lutar
para manter a cabeça erguida durante uma conversa e
encarar as pessoas nos olhos. — Quero lhe dar os
parabéns pelo seu projeto. Acabei de enviá-lo para o
cliente, e ele aprovou sem problemas, na verdade,
também fez questão de elogiar o seu trabalho.
— Como?
Arregalei tanto os olhos que Thiago deve ter ficado com
medo de que eles caíssem sobre sua mesa superchique e
supercara. Além disso, juro que vi a sombra do que
parecia ser um sorriso em seu rosto.
— Você quer dizer que não será necessário nenhum
ajuste?
— Acabei de dizer que o cliente aprovou o projeto, não
foi? — devolveu ele, num tom quase divertido.
Algo estava errado. Abduziram meu chefe. Só podia ser
um impostor.
— Quero destacar que estou muito satisfeito por você ter
seguido minhas recomendações e corrigido os erros que
costumava cometer. Mais uma vez, parabéns.
Devo ter passado tempo demais em silêncio, com uma
expressão de completo choque, porque Thiago levantou
uma sobrancelha de um jeito sugestivo, esperando que
eu dissesse algo.
Pisquei três vezes para me orientar. Pelo amor de Deus,
eu sou uma mulher adulta perfeitamente capaz de lidar
com situações inesperadas, não sou??
— Eu… eu agradeço o feedback, Thiago. Fico muito…
muito feliz que tenha… que tenha suprido suas
expectativas.
Estava nervosa demais. Mais tarde, com certeza, me
torturaria mentalmente pensando em jeitos melhores de
responder e agradecer.
— Realmente tenho me esforçado muito. É gratificante
saber que tem feito diferença — completei, tentando
olhar diretamente nos olhos dele, como Mônica vinha
tentando me ensinar.
Senti em seu olhar um misto de divertimento, orgulho e
até um pouco de admiração? Esse último que devia ser
coisa da minha cabeça.
— Sempre soube da sua capacidade, Marília. É por isso
que não espero qualquer coisa vinda de você — disse ele,
estendendo a mão enorme, cheia de aneis prateados que
contrastavam com sua aparência tão formal. — Posso
contar com você em outros projetos?
— É… é claro que pode! Pode sim. — Pelo amor de Deus,
eu não cansava de passar vergonha não?!
Devolvi o gesto e apertei sua mão. Seu toque era áspero,
mas surpreendentemente gentil.
Saí da sala meio inerte, meio incerta sobre o que tinha
acabado de acontecer, mas feliz comigo mesma pelo
sucesso do projeto e com o coração estranhamente
quente pelo reconhecimento de Thiago.