Sílvio Éder Dias Da Silva, Maria Itayra Padilha: Resumo
Sílvio Éder Dias Da Silva, Maria Itayra Padilha: Resumo
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Este texto é parte da tese - História de vida e alcoolismo: representações sociais sobre o alcoolismo, apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2010.
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Doutor em Enfermagem. Professor Adjunto II da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Pará. Belém, Pará,
Brasil. E-mail: silvioeder2003@[Link]
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Doutora em Enfermagem. Professora Associado do Departamento de Enfermagem e do PEN/UFSC. Pesquisadora do CNPq.
Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: padilha@[Link]
RESUMO: O estudo tem como objetivos descrever as representações sociais de adolescentes sobre alcoolismo e analisar as implicações
do alcoolismo na história de vida dos adolescentes. Trata-se de uma pesquisa qualitativo-descritiva, que utilizou o método de história
de vida para coleta de dados com 40 adolescentes, concomitantemente à técnica de observação livre. A análise de conteúdo temática
levou a duas categorias: ‘O bom e o ruim das bebidas alcoólicas’ e ‘Alcoolismo e suas consequências’. As representações sociais dos
adolescentes sobre o álcool o atrelaram a dois significados simbólicos: a associação da bebida alcoólica com o prazer e a diversão, e a
negatividade do seu uso, relacionada à violência e perda dos sentidos. Conclui-se que o convívio com o alcoolismo na família influencia
o modo como os adolescentes percebem o álcool no decorrer de sua vida.
DESCRITORES: Alcoolismo. Enfermagem. Adolescente. História de vida. Psicologia social.
ABSTRACT: The study aimed to describe adolescents’ social representations of alcoholism and to analyze alcoholism’s implications
in the adolescents’ life histories. It is qualitative-descriptive research, which used the life history method for data collection from 40
adolescents, concomitantly with the technique of non-participant observation. Thematic content analysis led to two categories: ‘Alcoholic
drinks, the good and the bad’, and ‘Alcoholism and its consequences’. Adolescents’ social representations on alcohol couple it to two
symbolic meanings: the association of alcoholic drinks with pleasure and fun, and the negative aspect of its use, related to violence
and the loss of one’s senses. It is concluded that living with alcoholism in the family influences how the adolescents perceive alcohol
throughout their lives.
DESCRIPTORS: Alcoholism. Nursing. Adolescents. Life history. Social psychology.
RESUMEN: El estudio tiene como objetivo describir las representaciones sociales de los adolescentes acerca del alcoholismo y analizar
las consecuencias del alcoholismo en la historia de vida de los adolescentes. Se trata de una investigación descriptiva-cualitativa que
empleó el método de la historia de la vida para recolectar los datos con 40 adolescentes concomitantemente con la observación libre. El
análisis de contenido dirigido a dos categorías: Lo bueno y lo malo del alcohol y el alcoholismo y sus consecuencias. Las representaciones
sociales de los adolescentes sobre el alcohol lo entrelazaron a dos significados simbólicos: la asociación de alcohol con el placer y la
diversión, y la negatividad de su uso, relacionados con la violencia y pérdida del conocimiento. Se llegó a la conclusión de que vivir
con el alcoholismo en la familia influye en la manera en que los adolescentes perciben el alcohol durante su vida.
DESCRIPTORES: Alcoholismo. Enfermería. Adolescentes. Historia de vida. Psicología social.
a partir de seu passado com a construção de suas fundamental para captação de dados de uma
representações sociais sobre o alcoolismo, que se- pesquisa, pois a fala que emerge a partir de sua
rão primordiais para sua tomada de atitude frente realização é reveladora de categorias estruturais,
à prática social de consumo de bebidas alcoólicas. de princípios de valores, normas e símbolos e,
O campo de pesquisa foi o Projeto Tribos ao mesmo tempo, tem a magia de transmitir,
Urbanas, que é um programa da Prefeitura de por meio de um porta-voz, as representações de
Belém-PA, criado em 2006, com o objetivo de grupos determinados, em condições históricas,
atender jovens e adolescentes que se envolvem socioeconômicas e culturais específicas.11 Como
com gangues*. A iniciativa visa retirá-los das ruas forma de respeitar o anonimato dos adolescentes
e envolvê-los em atividades socioeducativas.9 foi empregado o sistema alfanumérico, utilizando-
se E de entrevista, seguida pelo número de ordem
Os sujeitos do estudo foram 40 adolescentes
do depoimento.
de ambos os sexos, sendo 30 do sexo masculino e
10 do feminino, que participam do Projeto Tribos Outra técnica empregada para validar os da-
Urbanas. Os critérios de inclusão foram: estar na dos foi a observação. Esta técnica foi utilizada pelo
faixa etária entre 12 e 20 anos; fazer parte do pro- fato de permitir a captura, por parte do entrevis-
grama da instituição mencionada; ter a permissão tador, do comportamento global do entrevistado,
dos adolescentes e de seus responsáveis legais para durante todo o percurso da entrevista, que servi-
participação no estudo; conviver com um familiar ram como dados importantes para a conclusão
alcoolista; e fazer uso de bebidas alcoólicas. O do estudo. Na observação devem ser valorizados,
número de sujeitos da pesquisa deve ser represen- além dos componentes físicos da palavra, também
tativo de um grupo, e neste sentido empregamos a os múltiplos elementos da apresentação pessoal,
técnica da saturação de dados, que diz respeito à aspectos do comportamento global e em particular
repetição dos discursos, como forma de delimitar a a comunicação (linguagem) não-verbal do infor-
amostragem deste estudo.10 Destaca-se que a satu- mante.12 Esta técnica possibilita um contato pessoal
ração dos dados obteve-se na trigésima entrevista, e estreito do pesquisador com o fenômeno pesqui-
visto já se repetirem as respostas. Mesmo assim, sado. A observação permitiu captar o gestual e a
foram feitas mais 10 entrevistas para reforçar o cri- emergência de sentimentos que surgiam a cada
tério de saturação. Outro aspecto relevante é que a aplicação das técnicas de coletas já mencionadas.
pesquisa do tipo levantamento de dados preconiza Estes dados foram fundamentais para uma melhor
trabalhar com mais de 30 depoentes, o que justifica compreensão do enfoque afetivo que circundava
o total de 40 depoentes. Ressalta-se, também, estes as representações sociais do grupo em questão.12
terem familiares alcoolistas que é um critério para A observação, semelhante à entrevista,
se captar RSs, pois elas somente existem a partir possui várias modalidades, dentre as quais op-
do fenômeno vivenciado. Por conta disso era ne- tou-se pela observação livre. Nesta modalidade,
cessário que os jovens entrevistados convivessem o investigador fica fora da comunidade que deseja
com o fenômeno alcoolismo, por meio da interação observar, anotando espontaneamente tudo que
cotidiana com o familiar alcoolista. lhe parecer conveniente. Para realização desta
A pesquisa foi orientada pela Portaria 196/96 etapa utilizou-se um diário de campo, no qual
do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovada foram anotadas todas as impressões percebidas
pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do no transcorrer do trabalho de campo, evidencia-se
Pará, recebendo o número de protocolo 004/08 que todas foram realizadas logo após o término
CEP-ICS/UFPA. O período da coleta dos dados das entrevistas.12
foi de março a julho de 2009. A técnica de coleta Para trabalhar as informações, optou-se pela
das narrativas dos adolescentes para produção análise temática, a qual consiste na significação que
de fontes orais foi a entrevista semiestruturada, se depreende do texto, permitindo sua interpreta-
orientada por roteiro composto de 15 perguntas, ção sob o enfoque da teoria que guia o estudo. Esta
contextualizando da infância até a adolescência técnica de análise propicia conhecer uma realidade
dos jovens, o que possibilitou compreender a in- por meio das comunicações de indivíduos que
fluência dos seus familiares alcoolistas na adesão tenham vínculos com ela.13 Buscou-se desdobrar
do adolescente ao uso de álcool. Cabe esclarecer a análise temática em três etapas: 1ª) a pré-análise,
que a entrevista semiestruturada é uma técnica que consistiu na seleção e organização do material,
quando realizou-se a leitura flutuante e a consti- mínimo e meio, uma tem dois salários mínimos e
tuição do corpus; 2ª) a exploração do material; e duas têm três salários mínimos.
3ª) o tratamento dos dados.13 Ao final da análise, Percebe-se nesses dados que a maioria dos
chegou-se às seguintes categorias temáticas: O adolescentes pertence a famílias que têm renda
bom e o ruim das bebidas alcoólicas e Alcoolismo de, no máximo, um salário mínimo e meio, o que
e suas consequências. significa fazerem parte da classe econômica e social
considerada baixa. Este fato dificulta o acesso à ali-
Caracterização dos sujeitos mentação adequada, escolas adequadas e cuidado
à saúde orientado.
O caminho teórico que se optou ao produzir
No que se refere ao estado civil, destacou-
este estudo considera relevante a relação entre
se que entre os homens 29 são solteiros e um
sujeito e objeto, favorecendo a compreensão da
mantém união estável. Já entre as mulheres, são
construção simbólica dos adolescentes sobre o al-
oito solteiras, uma mantém união estável e uma é
coolismo. É necessário, ainda, conhecer o contexto
casada. Considerando-se a idade dos sujeitos do
sociocultural do indivíduo, por propiciar o vínculo
estudo, este dado vai ao encontro da realidade
entre o seu universo e suas representações sociais. brasileira, na qual os adolescentes, na sua maioria,
Outro ponto a considerar são as experiências an- são solteiros. Entre os casados, 100% são mulheres
teriores e pontos comuns, que favorecem tanto a que, muitas vezes, assumem o casamento como
adequação dessas construções simbólicas quanto forma de sair de casa ou por terem engravidado
sua aceitação pelo grupo do qual faz parte. neste período.
Cabe enunciar que os sujeitos não são somen- Quanto ao grau de escolaridade, entre os ho-
te receptores pessoais de ideologias dominantes mens observou-se que 16 têm o nível fundamental
produzidas e veiculadas por classes sociais, por incompleto, 13 têm o segundo grau incompleto
meio das instituições sociais, tais como igreja, e um tem o ensino médio completo. Já entre as
estado, escola, entre outras. Existe a opção autô- mulheres, oito apresentam o ensino fundamental
noma, de modo que eles constantemente estão incompleto e duas apresentam o ensino médio
produzindo e comunicando representações que incompleto.
compartilham com seus grupos, que têm influên-
No Projeto Tribos Urbanas, os adolescentes
cia decisiva sobre suas relações, suas escolhas e
fazem cursos profissionalizantes para capacitá-los
suas vidas. Assim, os indivíduos sempre estão
ao primeiro emprego. As profissões nas quais os
trocando conhecimentos que encontram em seu
homens se formaram foram: três como operadores
cotidiano, por meio de discussões que se realizam
de caixa, dois como torneiros mecânicos, quatro
no trabalho e em outros locais.
em informática básica, três em segurança eletrôni-
Nessa perspectiva, buscou-se caracterizar ca, um pintor, um em mecânica automotiva, três
o universo dos sujeitos do estudo com dados re- como eletricista predial e industrial, sendo que 13
ferentes à identificação (nome, endereço, idade, adolescentes ainda estavam fazendo os cursos. En-
sexo, estado civil, número de filhos, procedência, tre as mulheres, três ainda estavam fazendo cursos
naturalidade, escolaridade, profissão e religião). profissionalizantes, três se formaram garçonetes,
Os sujeitos do estudo foram 40 adolescentes, uma cabeleireira, duas operadoras de caixa e uma
sendo 30 do sexo masculino e 10 do feminino. A em informática básica.
faixa etária entre os homens foi de 15 a 20 anos, Quanto à atividade de lazer no Programa
com predominância da faixa etária de 17 a 20 anos. Tribus Urbanas, ocorreu a seguinte distribuição
Já entre as mulheres, a idade variou entre 15 e 19 entre os depoentes do sexo masculino: três não
anos, sendo predominante a faixa etária de 16 e possuem atividade de lazer, 14 jogam futebol,
19 anos. nove têm como forma de lazer as festas, um rea-
No que se refere à renda mensal da família liza passeios e três frequentam igrejas. Entre os
dos sujeitos da pesquisa, notou-se, que entre os depoentes do sexo feminino duas não possuem
homens, 11 têm como renda familiar um salário atividade de lazer, duas jogam futebol, quatro
mínimo, sete têm um salário mínimo e meio, seis possuem as festas como lazer, uma realiza passeios
têm dois salários mínimos, quatro têm meio salário e uma joga capoeira.
mínimo e dois têm três salários mínimos. Entre as No que se refere à religião, observou-se que
mulheres, observou-se que cinco têm renda fami- entre os homens dois referiram não ter religião,
liar de um salário mínimo, duas têm um salário 12 são católicos e 16 são evangélicos. Entre as
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mulheres, uma referiu não ter religião, quatro são sujeitos deste estudo está relacionada ao consumo
católicas e cinco são evangélicas. ocasional, ao entretenimento, embora muitas vezes
o consumo não se restrinja a estas variáveis. O
RESULTADOS E DISCUSSÃO consumo de qualquer bebida alcoólica representa
para as pessoas algo “normal”. Este é considerado
Na primeira unidade temática, O bom e o excessivo quando culmina com pessoas bêbadas
ruim das bebidas alcoólicas, evidenciam-se os e origina condutas agressivas que ultrapassam as
pontos positivos e negativos do consumo de álcool regras do convívio social.14
pelos adolescentes. Na segunda unidade, Alcoo- Uma das características dos adolescentes
lismo e suas consequências, estão presentes os é a percepção de que nada acontecerá e de que
fenômenos representacionais dos adolescentes as podem controlar todas as situações. Esse aspecto
consequências geradas pelo alcoolismo, presente leva-os a ter uma menor percepção do risco, e
em um familiar alcoolista que, na maioria das
pode aumentar o uso de drogas. Dessa forma, as
vezes, era o pai ou a mãe, no seu cotidiano.
sensações obtidas durante o efeito do álcool no
organismo tornam-se prazerosas, porém a busca
O bom e o ruim das bebidas alcoólicas de novas e intensas sensações pode tornar o jovem
um dependente químico.15
Nesta unidade temática, fica notório como os
adolescentes vislumbram em suas RSs da bebida Outro ponto identificado foi de que, apesar
alcoólica algo benéfico, visto esta propiciar espon- de o consumo do álcool fazer parte das atividades
taneidade e descontração. Porém, eles também festivas de determinados grupos sociais e de ser
destacam que o consumo em excesso, que leva considerado normal se ingerido sem provocar em-
à embriaguez, é um fato danoso para sua saúde briaguez, os adolescentes conseguem identificar os
física e mental. seus efeitos negativos quando ele é consumido de
Por ser consumida por vários povos e cultu- forma excessiva, o que pode ser identificado nas
ras diferentes, a bebida alcoólica adquiriu alguns seguintes falas:
significados positivos na população mundial, pois, [...] o álcool é ruim porque deixa a gente de ressaca
por meio de sensações como as de relaxar e de se no outro dia. A gente gasta dinheiro para beber e tudo.
divertir, o indivíduo abstrai a ideia de “bom” no A pessoa acorda no outro dia liso com dor de cabeça,
consumo do álcool. bafo escroto na boca, não sabe o que fez, se brincou ou
O álcool é bom porque faz a gente viajar. Quando arrumou confusão. A gente não sabe o que faz (E10).
a gente bebe, ficamos mais empolgados, se acha o tal. [...] o álcool, quando é bebido de forma excessiva,
Eu bebia muito, porque achava que o meu problema era ocasiona um grande malestar físico e psicológico. Além
em casa, porque a vovó me criticava muito, porque eu do que, a pessoa faz às vezes um monte de besteira sobre
fumava cigarro e bebia, aí eu achava que fazendo aquilo o efeito do álcool, que, depois, se arrepende (E1).
eu ia esquecer os problemas de casa. Outra questão para Diante das falas expostas, apreendeu-se que
gente beber é a influência dos amigos, pois para ficar o significado “ruim” em relação ao consumo do
perto dos moleques lá tinha que beber, porque senão álcool foi relacionado ao não-controle da quantida-
era careta, era mocinha, essas frescuras de macho (E2 ). de ingerida. Em outro momento, o sentido mudou
A bebida alcoólica deixa a gente mais solto, alegre seu enfoque para a perda financeira resultante do
para aproveitarmos as festas, ela acaba com a minha ini- uso excessivo de bebidas alcoólicas.
bidez, mas também ela não pode ser bebida em excesso, O meu pai bebia muito, ele gastava tudo que
porque a gente só faz besteira, e no outro dia o mal-estar ganhava. O álcool fez ele perder o emprego e ele passou
é muito grande (E7). a ser autônomo, mas mesmo assim todo dinheiro que
Durante a fala dos adolescentes, identificou- ele ganhava com os trabalhos, ele gastava com bebidas
se a relação da bebida alcoólica com a sensação de alcoólicas. Ele bebia até cair (E13).
calmaria, com os sentimentos de empolgação e Também foram percebidas RSs que retratam
diversão, com fortalecimento de vínculos afetivos, a bebida alcoólica como algo “ruim”, acarretado
como a amizade, e também a correlação do uso do pelo exagerado e também pela “ressaca”, a qual
álcool com o esquecimento dos problemas. representa um conjunto de sintomas, tais como
Vários subgrupos sociais veem as bebidas náuseas, vômitos, cefaléia, desidratação e amnésia
alcoólicas como forma de proporcionar alegria. A alcoólica. Ressalta-se que, apesar de amplamente
avaliação positiva para o consumo do álcool pelos aceito e até estimulado socialmente, o consumo de
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O alcoolismo na história de vida de adolescentes: uma análise... - 581 -
álcool, quando excessivo, torna-se um problema ção por parte dos profissionais de saúde e solicitam
importante e acarreta altos custos para a socieda- respostas e políticas públicas apropriadas, que se
de. As intercorrências causadas pelo álcool extra- proponham a resolver ou ao menos minimizar
polam as amplamente divulgadas na literatura, esses problemas, nas distintas sociedades. O co-
caracterizando-o como um problema que ocasiona nhecimento sobre as questões relacionadas ao uso
graves consequências sociais e colocando-o entre de substâncias e às dependências químicas possui
os principais problemas de saúde pública da ainda muitas lacunas a serem preenchidas, daí a
atualidade.15 importância de se somarem esforços provenientes
Cabe considerar que as pessoas dependentes de representantes de todos os segmentos sociais:
de álcool apresentam uma série de episódios rela- políticos, legisladores, pesquisadores, profissio-
cionados ao abuso antes de serem diagnosticadas nais de saúde e outros grupos da sociedade civil.14
como alcoolistas e encaminhadas para tratamento Em diversos momentos, quando indagados
específico. Considerando que a porta de entrada sobre o motivo que leva um ser humano a apro-
para os serviços de saúde são as unidades de ximar-se da bebida alcoólica, os entrevistados, em
atenção primária é possível inferir que muitos sua maioria, relatam os problemas de caráter fami-
indivíduos com padrão de consumo abusivo são liar ou social. Sabe-se que os eventos estressantes
atendidos nesses serviços, em decorrência das da vida são subjetivos para cada indivíduo, e que
complicações precoces do alcoolismo, tais como a capacidade de superação depende de fatores que
traumas, mal-estar, dentre outras. implicam, a princípio, a maturidade da pessoa no
O meu pai, quando bebia, ele enchia a cara. Uma contexto sociocultural no qual está inserida. As
vez ele bebeu tanto que ficou desmaiado, aí nos tivemos falas a seguir reforçam tais afirmações:
medo dele morrer e o levamos para a Unidade Básica da [...] eu acho que às vezes é pra esquecer os pro-
Pedreira. Chegando lá, o doutor passou um soro e disse blemas, e começa a beber pra curtir mesmo, beber pra
que o remédio era não beber mais (E12). fazer briga com os outros, criarem coragem, esse é meu
A minha irmã bebia que caía. Uma vez levamos ponto de vista. Eu bebo hoje com a minha namorada,
no Pronto Socorro Municipal, mas o médico disse que mas não bebo com os moleques da rua, porque ali não
o remédio dela era café e água fria (E25). tem futuro não. Através de amizades, através de ver
A relação direta e mais comum entre o ál- todo mundo bebendo, aí vai querer experimentar e vê
cool e a agressão é por meio da intoxicação, que que é gostoso (E12).
ocorre pela falta de inibição do medo, em função eu tomo somente cerveja, eu tomo sempre quando
da ação ansiolítica, podendo também aumentar a eu saio para ir para festa todo final de semana. Eu bebo
percepção da dor, que pode ser uma das causas de para não ficar porre. Um dia desse eu fui para uma festa
maior agressão defensiva. No entanto, pode servir e tinha um menino que pediu que secasse um copo, eu
como um mecanismo de gatilho para desencadear disse que não era tão alcoólatra assim para secar um
reações violentas independentemente de motivos. copo. Na festa eu só bebo para brincar e me divertir, se
Exemplo disso são as alterações nas funções cog- divertir mesmo! Até porque tem gente que bebe para
nitivas que diminuem, assim como a capacidade fazer confusão. Pois é, eu não, eu fico quieta e não mexo
do indivíduo em planejar ações em resposta às com ninguém, e entro na festa meia-noite e saio por
situações de ameaça, ou seja, ele age sem pensar.16 volta das três horas da madrugada, eu só tomo duas
[…] até de mim mesmo, pois ainda bebo. Eu acho latinhas, assim eu não fico porre. Depois que eu bebo,
que a pessoa está só entregando a sua vida. A bebida a festa melhora (E9).
alcoólica não faz bem pra pessoa, mas elas vivem be- Constatou-se nas falas que um dos princi-
bendo. É só a gente ver o jornal, ele sempre traz notícia pais problemas que levam os sujeitos do estudo
de problemas ocasionados por pessoas alcoolizadas, a se aproximarem da bebida alcoólica é para tan-
tipo acidente de trânsito, que o filho bateu na mãe ou o genciar-se de circunstâncias incômodas da vida.
marido na mulher. Coisas desse tipo fazem as pessoas Apesar de a bebida alcoólica obter tal simbologia
que usam o álcool. A bebida muda muito a pessoa. Uma na percepção dos adolescentes entrevistados, sabe-
vez um amigo de porre tentou dar um tiro na namora- se que o álcool pode ocasionar comportamentos
da, aí eu o segurei e a bala pegou na minha perna, ela agressivos como já mencionados neste estudo.
atravessou a minha perna (E2). A adolescência é também um período de cri-
Os vários problemas de saúde associados ao se para os pais, pois eles terão de conviver com o
consumo e à dependência do álcool e de outras adolescente em processo de desenvolvimento para
substâncias lícitas e ilícitas demandam maior aten- a vida adulta. Essas mudanças fazem o adolescente
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sentir a necessidade de estar menos tempo com (últimos 30 dias) ainda se encontrava no patamar
seus pais, permitindo a possibilidade de estabelecer de 43% nas cidades pesquisadas e o consumo
novas relações, principalmente com outros adoles- semanal ou diário chegava a 22% no último ano
centes. O processo de transformação que ocorre pesquisado.17
é, naturalmente, mais complexo. De certo modo, Por meio de um acordo com o Ministério da
podemos dizer que a perturbação do equilíbrio traz Saúde, essa Secretaria recebeu, desde 1988, informa-
sentimentos agradáveis e desagradáveis.16 ções sobre hospitais em todo o país, que admitem
pacientes com transtornos relacionados ao consumo
Alcoolismo e suas consequências na família de substâncias psicotrópicas. Embora aproximada-
mente 450 hospitais devessem enviar informações
Nesta unidade temática se percebe como as sobre seus pacientes – incluindo gênero, idade e
bebidas alcoólicas trazem transtornos nas histórias diagnóstico –, apenas cerca da metade em média
de vida dos adolescentes, impregnando, assim, RSs (variação: 35,5% – 79,6%) o fizeram. No último ano
que destacam como a vida familiar é conflituosa, analisado, 1999, foram relatadas 44.680 admissões,
principalmente levando em consideração que das quais 84,5% referentes a bebidas alcoólicas.18
muitos adolescentes conviviam com familiares A bebida alcoólica, se consumida de for-
alcoolistas. O alcoolismo é uma doença endêmica, ma abusiva, pode acarretar também problemas
porém percebe-se nas RSs dos adolescentes que psiquiátricos e psicológicos, como os quadros de
ele traz consequências para quem é dependente delirium tremens, ilusões e paranoias. Os comporta-
químico, como se observa nas falas a seguir: mentos agressivos têm muito a ver com o consumo
[...] eu vou dar como exemplo do meu pai, que é exagerado de álcool. Vários estudos demonstram
dependente, que nunca bebeu pra brigar conosco. Quan- que mais de 50% dos casos de espancamento de es-
do ele bebe e quer falar as coisas, ele fala pra mamãe, pra posas têm relação direta com o consumo de álcool
ela nos chamar a atenção. Quando é no outro dia que pelo agressor. Abusos sexuais e atos incestuosos
ele não está mais porre aí ele senta e fala o que tem que contra crianças também foram comprovadamente
falar. Tem pessoas que bebem e esperam ficar porre para cometidos sob a influência do álcool. Vítimas de
falar as coisas, espancam mulher e filhos (E36). um estilo de vida baseado na violência doméstica
[...] no meu caso, a minha mãe é alcoolista, pois podem apresentar problemas de longo prazo ou
eu falo com ela e ela faz que nem é com ela, mas eu in- até incuráveis, como doenças de natureza afetiva,
sisto assim mesmo, porque eu não vou deixar ela ficar neurótica e de desenvolvimento.14 Esse momento
bebendo, porque ela serve de palhaço lá, pois ela fala é percebível nos seguintes relatos:
um bocado de besteira, e faz muita confusão. A minha [...] o meu pai, quando bebia, ficava muito bravo,
mãe sempre que bebe serve de palhaço para o pessoal lá ele chegava em casa batia na minha mãe e mandava a
em casa, até porque ninguém lá em casa, ninguém gosta gente dormir para continuar se embebedando (E30).
dela, nem a família da minha avó gosta dela. Só quem [...] o meu pai e minha mãe, no início que come-
gosta é a minha avó, porque é mãe dela, mas os irmãos çavam a beber, era uma maravilha, mais depois, quando
e irmãs dela, não gostam da minha mãe (E1). estavam porres, sempre surgia discussão. Teve uma
Analisando-se as falas dos adolescentes, vez que meu pai bateu na minha mãe que tivemos de
inferiu-se que eles são conscientes dos efeitos do separá-lo, senão ele ia matar ela (E33).
álcool em seu organismo, e também de seus efeitos [...] a minha mãe é alcoolista, pois ela não sabe
sociais. Isso foi expresso pelas palavras vício, vio- beber. Quando ela começa, ela se joga mesmo, só pára
lência, laços familiares abalados e autodegradação. quando cai. Eu também tenho uma irmã que é viciada
Porém, é relevante ressaltar que muitos afirmam na bebida alcoólica, pois todo final de semana ela tá na
não suspender o consumo do álcool porque pos- festa bebendo, ela não sabe beber, se tiver festa todo dia,
suem controle, uma vez que não o ingerem em ela vai para festa, tem vez que ela passa três dias na rua.
grandes quantidades. Eu tenho dificuldade de lidar com ela, porque quando
Segundo levantamento realizado pela Se- ela está porre quer fazer onda com todo mundo (E3).
cretaria Nacional Antidrogas, os cinco estudos A incidência de violência doméstica tem sido
realizados até o momento (1987/1989/1993/1997 considerada maior em abusadores de substâncias
e 2003) apontam que o consumo de álcool é bas- psicoativas na maioria das sociedades e culturas,
tante alto entre crianças e adolescentes de nove a estando presente nos diferentes grupos econômi-
18 anos. Para esses jovens, o álcool não apareceu cos. Um estudo transversal de violência doméstica
como a droga favorita, mas seu consumo recente no qual foram entrevistadas 384 mulheres casadas,
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O alcoolismo na história de vida de adolescentes: uma análise... - 583 -
de diferentes classes sociais, em uma cidade do alcoolista que, no caso da maioria dos adolescen-
México, encontrou uma prevalência de 42% de tes do estudo, era retratado pelo pai ou pela mãe.
violência sexual, 40% de violência física e 38% Essa realidade favoreceu um ambiente familiar
de violência emocional. A pesquisa evidenciou conflituoso para os adolescentes.
que antecedentes de violência e uso de álcool ou Cabe mencionar, também, que essa convi-
outras drogas em algum membro da família são vência com um familiar alcoolista propiciou aos
fatores observados consistentemente nas dimen- adolescentes a aprendizagem de ingerir bebidas
sões exploradas.19 alcoólicas quando se deparavam com problemas
O consumo abusivo de álcool também pro- que levaram os seus pais a se tornarem depen-
voca, direta ou indiretamente, custos altos para dentes químicos. O adolescente assume o papel
o sistema de saúde, pois as morbidades desenca- de aprendiz seguindo os passos do perito, que
deadas por ele são caras e de difícil manejo. Além são seus pais.
disso, a dependência do álcool aumenta o risco para A adolescência é uma fase de mudança na
transtornos familiares.19 Sabe-se, hoje, que a inten- qual se busca romper com os laços familiares, em
sidade e as complicações do consumo de drogas busca de um grupo que aceite a sua atitude mais
psicotrópicas variam ao longo de um continuum independente pelo novo. Este é o momento que
de gravidade. Desse modo, não existe apenas para mais oportunizou ao jovem a aproximação das
o dependente de álcool que ingere duas garrafas bebidas alcoólicas, conforme foi visível nas suas
por dia, tem tremores matinais e cirrose hepática, RSs. Por tal motivo, desvelar o universo do alcoo-
mas também aquele que bebe dentro dos padrões lismo dos adolescentes favorece a implementação
considerados normais, e se acidenta ao dirigir. de estratégias que devem ser aplicadas para im-
Portanto, não basta olhar para o consumo em si, é pedir que esta clientela, tão carente de cuidados,
necessário considerar os danos que ele acarreta aos faça uso de álcool, seja por experimentação ou de
indivíduos e seus grupos de convívio.20 forma abusiva.
Esta pesquisa destaca o fenômeno das RSs
CONSIDERAÇÕES FINAIS como uma forma de conhecimento adequado
para desvelar o universo de interação entre os
As RSs reveladas pelo método de história
adolescentes e as bebidas alcoólicas. Os estudos
de vida propiciaram a compreensão do universo
que trazem a Teoria das Representações Sociais
consensual dos adolescentes que tiveram as be-
como fenômeno e não como constructo teórico, fa-
bidas alcoólicas inseridas no seu cotidiano, o que
vorecem conhecer a realidade que é reapresentada
favoreceu compreender a verdadeira extensão
pelo sujeito social, por tal motivo são relevantes
deste problema.
para o universo acadêmico, visto propiciar ao
Na unidade sobre O bom e o ruim das bebi- pesquisador contemplar a realidade na forma de
das alcoólicas, ficou notório como os adolescentes, conhecimento prático. É essencial conhecer as re-
em suas representações sociais, visualizavam presentações dos adolescentes aqui pesquisados,
os benefícios e os malefícios do álcool. A parte pelo fato de se poder, assim, compreender como o
positiva dessa droga lícita era evidenciada pela conhecimento consensual influencia nas atitudes
sensação de bem-estar e espontaneidade que o e comportamentos dos jovens frente ao objeto
efeito do álcool ocasionava nos adolescentes. Já a psicossocial que é o alcoolismo.
parte negativa era retratada pelos problemas que
Existe a necessidade de se instituir estra-
a embriaguez lhes provocava.
tégias de prevenção ao consumo de bebidas
As bebidas alcoólicas são amplamente difun- alcoólicas de forma abusiva pelos adolescentes
didas, principalmente porque seus apreciadores que não se centrem unicamente em transmitir os
gostam da sensação de prazer que a droga ocasio- conhecimentos científicos, mas em fornecer uma
na. Porém, passam despercebidos pela maioria dos relação de influência mútua com o conhecimento,
consumidores, os malefícios do álcool, tais como a que venha servir aos interesses e necessidades
dependência química, os acidentes automobilísti- do jovem para interagir na sociedade, a fim de
cos e outros problemas de vínculo social. que o adolescente se sinta capaz de utilizar seus
Já na segunda unidade temática, foi per- saberes para participar da sociedade como cida-
cebível como o uso das bebidas alcoólicas causa dão, enfatizando a importância da aplicabilidade
transtornos na vida familiar dos adolescentes, prática desses conhecimentos para sua relação
sendo o principal gerador de problemas o familiar com o mundo.
Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2013 Jul-Set; 22(3): 576-84.
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