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Capítulo I - Fundamentação Teórica

O capital humano é um conceito central nas ciências econômicas, que reconhece a educação e habilidades individuais como fatores decisivos para a produtividade e crescimento econômico. Teóricos como Schultz e Becker destacam a importância do investimento em educação, mas críticos como Brown apontam que a globalização e a competição podem reduzir a eficácia desse investimento. A teoria do capital humano é multifacetada e deve considerar não apenas as competências individuais, mas também as condições estruturais e sociais mais amplas que influenciam a mobilidade e sucesso econômico.

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Capítulo I - Fundamentação Teórica

O capital humano é um conceito central nas ciências econômicas, que reconhece a educação e habilidades individuais como fatores decisivos para a produtividade e crescimento econômico. Teóricos como Schultz e Becker destacam a importância do investimento em educação, mas críticos como Brown apontam que a globalização e a competição podem reduzir a eficácia desse investimento. A teoria do capital humano é multifacetada e deve considerar não apenas as competências individuais, mas também as condições estruturais e sociais mais amplas que influenciam a mobilidade e sucesso econômico.

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CAPÍTULO I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1 CONCEITO E EVOLUÇÃO TEÓRICA DO CAPITAL HUMANO

O conceito de capital humano ganhou relevância central nas ciências económicas e sociais a
partir da segunda metade do século XX. Inicialmente, esse desenvolvimento esteve associado a
teorias que passaram a reconhecer características individuais como educação, formação,
habilidades, conhecimentos e saúde, como recursos decisivos para a produtividade e para o
crescimento económico. Assim, elementos antes considerados puramente pessoais passaram a ser
entendidos como autênticos fatores de produção.

Nesse contexto, Theodore Schultz destacou-se como um dos primeiros economistas a estruturar
esta abordagem. Segundo Schultz (1961), o capital humano é formado pelos recursos de
conhecimento, capacidades e condições humanas adquiridas que potencializam a produtividade
do trabalhador. Por conseguinte, tais recursos contribuem diretamente para o crescimento
económico. Além disso, o autor sublinha que a educação constitui a forma mais significativa
desse investimento, uma vez que os indivíduos não nascem dotados das competências
necessárias para serem produtivos; pelo contrário, essas competências precisam de ser
desenvolvidas ao longo da vida. Dessa forma, o trabalhador deixa de ser visto como mero
executor de tarefas e passa a ser entendido como agente ativo, cujo conhecimento representa um
tipo de capital valioso. Como resultado, Schultz defende que países que investem fortemente em
educação e saúde tendem a apresentar maior crescimento económico, influenciando políticas
educacionais e de desenvolvimento em várias regiões.

Paralelamente, Gary Becker (1964) aprofundou o conceito ao definir capital humano como o
conjunto de habilidades, conhecimentos e competências que aumentam a produtividade ao longo
da vida. Para Becker, investir em educação formal, formação profissional e cuidados de saúde
representa uma decisão racional, pois eleva o rendimento futuro dos indivíduos. Nesse sentido, o
autor afirma que o capital humano corresponde às capacidades produtivas incorporadas nas
pessoas (Becker, 1964). Assim como qualquer tipo de capital, envolve custos como tempo,
esforço e investimento financeiro, mas gera retornos económicos, dado que trabalhadores mais
qualificados tendem a obter salários mais elevados. Em consequência, essa abordagem serviu de
base para políticas de formação técnica e universitária, sobretudo em países em
desenvolvimento.

Apesar disso, o avanço da globalização e das transformações tecnológicas levou autores


contemporâneos a questionar certas premissas clássicas da teoria. Entre eles, destaca-se Phillip
Brown. Em The Global Auction, Brown, Lauder e Ashton (2011) argumentam que as promessas
centrais de Schultz e Becker, de que mais qualificação garante melhores empregos e
remunerações, já não se aplicam plenamente ao século XXI.

De acordo com Brown (2011), a globalização produziu uma “super-oferta” de trabalhadores


qualificados em diversas regiões do mundo, o que intensificou a competição e reduziu a
capacidade da educação formal de assegurar mobilidade social. Consequentemente, empresas
transnacionais passaram a procurar trabalhadores altamente qualificados em mercados com
custos laborais mais baixos, contrariando a expectativa de retorno automático sobre o
investimento educacional.

Além disso, Brown critica a visão individualista que sustenta a teoria tradicional do capital
humano. Segundo o autor, o retorno educativo depende não apenas das competências adquiridas,
mas também de condições estruturais mais amplas, tais como: o funcionamento dos mercados
globais, o acesso a redes profissionais, a oferta de empregos qualificados e as políticas industriais
de cada país. Portanto, num cenário marcado por desigualdades globais e por dinâmicas
económicas cada vez mais voláteis, a perspetiva de que o investimento educacional funciona
como garantia automática de sucesso económico revela-se insuficiente.

Desta feita, no âmbito deste trabalho, definimos capital humano como o conjunto de capacidades
e conhecimentos dos indivíduos que, combinados com características pessoais e com o esforço
despendido, ampliam as possibilidades de produção de bem-estar pessoal, social e económico.
Em suma, trata-se de um conceito dinâmico, multifacetado e profundamente influenciado tanto
por fatores individuais quanto por estruturas económicas mais amplas
Os primeiros estudos sobre o Capital Humano urgiram nos Estados Unidos, na década 1950, a
partir dos postulados da conhecida Escola de Chicago. Os primeiros a se destacar nessa teoria
foram Mincer (1958), Schultz (1962) e Stigler (1982), na qual, procuravam tornar mais
consistente o modelo de crescimento econômico. Esses autores, ao analisarem o modelo de
crescimento econômico verificaram que, apesar de um alto investimento em capital físico em
alguns países como Estados Unidos e Reino unido, os rendimentos desses eram desuniformes.
Além demais, Schultz e Stigler, julgavam ser necessária a instituição de um novo espírito
capitalista para o Desenvolvimento das novas sociedades (OSPINA, 2014).

Desse modo, as perspectivas econômicas não mais poderiam basear-se em mecanismos de


produção, trocas e dos factos de consumo dentro de uma estrutura social, mas sim basear-se na
análise do custo-benefício, ou seja, naquele que trabalha, naquele que pode tomar decisões
racionalizadas, isto é, homo o economicus , al como Smith já o fez em a “Teoria dos Sentimentos
Morais” (FOUCAULT, 2008). Sob essa perspectiva, o conhecimento na virtude desse homo o
economicus – incorporado no trabalho do homem se transforma em um só tempo, um capital e
uma renda. Ou melhor, a competência e a aptidão são concebidas como capital, porque além de
produzir, geram rendimentos cada vez mais altos.

A partir dessa análise, a economia passou a se concentrar nos modos mediante os quais os
indivíduos buscam produzir e acumular capital humano. Desta forma, as análises da Escola de
Chicago giram em torno de questões como: como se produz e se acumula o chamado capital
humano? De que ele se compõe? Quais são seus elementos inatos ou hereditários? Como ele
pode ser adquirido por meio de políticas educacionais? (FONSECA, 2007).

Em meio a essas questões, os teóricos da ciência econômica defendem que, para que exista
acumulação de capital humano é necessário existir um investimento sério na capacitação humana
e na formação educacional e profissional dos indivíduos, no intuito de garantir o aumento da
produtividade e acrescimos maiores da capacidade produtiva, sendo este, um novo modo de
Governamentalidade (CATANI, 2002).
Em suma, a estreita interface dessa teoria do Capital Humano com a educação está, portanto, na
importância que a primeira atribui à segunda, no sentido desta última funcionar como
investimento cuja acumulação permitiria não só o aumento da produtividade de indivíduo-
trabalhador, mas também a maximização crescente de seus rendimentos ao longo da vida.

1.2. A TEORIA DO CAPITAL HUMANO

De acordo com Schultz (1964), o investimento básico no ser humano se dá por meio da
educação. Segundo o autor, as pessoas valorizam as suas capacidades, tanto como produtores,
quanto como consumidores, pelo investimento que fazem em si mesmas. Sendo a educação a
melhor forma de se investir em capital humano, pois, enquanto o nível de bens de produção tem
declinado em relação à renda, o capital humano tem aumentado. Assim sendo, este enfatiza que,
o capital humano pode ser analisado na óptica do aumento do nível educacional e o aumento do
nível de instrução, sendo que, cada elemento da análise completa o outro.

No caso da Educação, este argumenta que, a caracterização desse elemento se dá por meio do
ensino e do aprendizado, sendo que seu significado decorre da extração de algo potencial ou
latente de uma pessoa, aperfeiçoando-a, moral e mentalmente, a fim de torná-la susceptível a
escolhas individuais e sociais.

A instrução pode produzir e causar benefícios no presente ou no futuro, sendo que, no último
caso, ela passa a ter característica de investimento, afectando tanto as futuras despesas quanto as
futuras rendas, passando a assemelhar-se a investimento em outros bens de produção. Sempre
que a instrução, associada com a educação, eleva as rendas futuras, há uma ampliação da
produtividade, considerando-se como resultado do investimento em capital humano.

Conforme Blaug (1975), a educação tem impacto sobre a economia, levando em conta diversos
factores, tais como:

a) A influência na composição e utilização na força de trabalho;


b) A distribuição de renda pessoal e poupança;
Para Barros, Henriques e Mendonça (1997), o impacto de investimentos na educação não
influencia apenas aqueles que se educam, mas também aqueles que os rodeiam, pois impacta na
produtividade, aumenta a expectativa de vida das pessoas, devido à maior disponibilidade de
recursos, além de, possivelmente, fazer com que os indivíduos reduzam o número de filhos,
aumentando a qualidade de vida e reduzindo a pobreza no futuro. O exemplo disso, os autores
apresentam alguns exemplos da influência da educação em diversos aspectos, como na
mortalidade infantil, a partir dos estudos de Barros e Sawyer (1993), na fecundidade, como
apontam Lam e Durreya (1995), e nos salários, conforme pesquisa de Barros e Mendonça
(1996). Enfim, a educação propicia resultados positivos tanto no contexto económico (benefícios
monetários), quanto no político, social e cultural, (não monetários).

1.3. VISÃO CRÍTICA

A principal contrariedade à teoria do capital humano surge mesmo dessa ideia, de tratar o
homem como capital, ou seja, segundo Crawford (1994) os seres humanos não podem ser vistos
como meramente meios de trabalho, mas o fim do exercício desses. Esse autor relata que, essa
terminologia “capital” contraria questões éticas e morais aos seres humanos.

Assim sendo, Lima (1980) afirma que entre as diversas críticas sobre essa teoria, as principais
consideravam-na sob duas formas: a primeira seria que a educação significa somente uma forma
de qualificação da mão-de-obra para inserção no mercado de trabalho, servindo como uma
ferramenta para aproveitar o excedente do trabalhador ao sistema capitalista; a outra considera
que existem outros factores que influenciam na renda dos indivíduos, além da escolaridade,
como sua própria inteligência individual, seu nível social e, até mesmo, a segmentação dos
mercados⁴ (ALMEIDA; PEREIRA, 2000).

Para Sen (1999), a Economia do Bem-Estar fundada na moral utilitária combina uma fase
informacional pobre, uma análise estreita do comportamento humano e uma falta de distinção
entre os meios e os fins, bem como da relação entre eles.

Sen (1997) enfatiza o equívoco de entender o desenvolvimento da educação ou da saúde, por


exemplo, como somente uma forma de tornar as pessoas mais produtivas, considerando somente
a melhoria dos recursos humanos, levando em conta que as pessoas são apenas os meios de
produção e desconsiderando que elas são os fins últimos do processo de melhoria na educação e
saúde. Nesse caso o autor considera que o melhoramento em variáveis como educação e saúde
não é apenas uma forma de geração do crescimento económico (valor instrumental), mas
também um elemento constitutivo das capacitações das pessoas (valor intrínseco). Diante disso,
Sen (2000) caracteriza a diferença entre o capital humano e a capacitação humana, apresentando
a distinção de valor que se relaciona com a diferença entre os meios e os fins humanos, pois para
o autor, o uso do conceito de “capital humano”, por representar um alargamento na consideração
dos recursos produtivos, é certamente enriquecedor.

Becker (1993) menciona que, mesmo havendo diversas pesquisas que evidenciam as
contribuições positivas do capital humano ao indivíduo e à população, alguns autores
argumentam que a teoria do capital humano não é concisa, uma vez que essa forma de capital
também é um mecanismo de exploração do trabalho pelo capital. Assim, os detentores do capital
“físico” e “financeiro” utilizariam esse outro tipo de capital “humano” como mais uma
alternativa de exploração da mão-de-obra trabalhadora, fazendo com que o capital humano seja
somente uma ferramenta de manipulação do conhecimento a favor do capital. Existem ainda
outras teorias que discutem o capital humano como uma forma de seleccionar os indivíduos,
pouco contribuindo para a redução das desigualdades socioeconómicas e para o aumento dos
rendimentos pessoais como um todo. O exemplo disso pode-se citar a teoria da socialização, da
segmentação, a teoria credencialista (Screening Hypothesis), e a teoria do “filtro”. Para Almeida
e Pereira (2000), a teoria da socialização pressupõe que as pessoas sejam socializadas,
principalmente, na escola, com intuito de que sejam trabalhadoras e se comportem de maneira
conformada, estando sempre dispostas a aceitar e cumprir ordens, sendo pontuais e sabendo os
momentos de falar e de se calar.

Em contraposição, outras pessoas são educadas com intuito de se tornarem independentes e


criativas, a fim de tomarem decisões adequadas diante dos problemas propostos. Essa teoria
pressupõe que a educação prepararia as pessoas de diferentes origens para exercer papéis
distintos na vida, sendo as escolas uma forma de agência da socialização.

Sadeck Filho (2001) em relação à teoria da segmentação, comenta que ela pode ser observada a
partir de dois indivíduos diferentes, em que ambos possuem as mesmas características em
relação à sua escolaridade, produtividade e até mesmo o tempo de serviço, mas que, mesmo
assim, recebem salários diferentes. Já o segundo grupo considera que as escolas seleccionam,
mas também socializam, sendo que os estudantes seriam seleccionados de acordo com sua
origem familiar e status socioeconómico, adquirindo experiência e tornando-se socializados em
um determinado tipo de actividade futura, de acordo com suas características. De acordo com
Almeida e Pereira (2000), os marxistas, críticos da teoria do capital humano, concordam que o
aumento da escolarização contribui para elevar a produtividade no trabalho, mas não por
proporcionar novos conhecimentos e habilidades.

Isso se deve a três factores:

a) fornecer credenciais, situação que facilitaria a supervisão autoritária, já que a escola


moldaria o indivíduo para a disciplina, tornando-o mais preparado para desenvolver as
actividades, de acordo com as normas do sistema capitalista;

b) A escolarização aumentaria o leque de opções do empregador para a escolha de seus


empregados;

c) O indivíduo com maior grau de escolaridade, ao receber um maior nível de


remuneração, estaria segmentado, de acordo com sua renda e status, fato que impediria a
formação de coalizões, de trabalhadores contra o sistema capitalista.

Becker (1993), corrobora com a teoria do credencialismo quando menciona que o mesmo,
obviamente, existe. Mas, mesmo assim, poucas evidências apresentam de que não há associação
positiva entre rendimentos e escolaridade. Para ele, o principal problema do credencialismo é o
desinteresse das empresas no desempenho escolar dos indivíduos, privilegiando apenas as
habilidades específicas e seu desempenho na vida profissional, como agradar clientes,
relacionamento entre colegas, entre outras questões. A partir da teoria do credencialismo, surge a
Teoria do Sinal e a Teoria do Filtro, frutos da identificação de várias inconsistências nos diversos
trabalhos, que tinham por objectivo calcular as taxas de retorno de investimento em capital
humano, tanto de forma individual, quanto colectiva (ALVES, 2005).
1.4. A ABORDAGEM DE CAPITAL HUMANO E SEU EFEITO SOBRE O CRESCIMENTO
ECONÓMICO

O capital humano permite ao trabalhador obter rendimentos e melhorar sua condição de vida.
Além disso, Schultz (1964) afirma que aumentos nas aptidões adquiridas pelas pessoas no
mundo inteiro e avanços em conhecimentos úteis detêm a chave da futura produtividade
económica, bem como de suas contribuições ao bem-estar humano. Assim, o investimento em
capital humano determina as futuras perspectivas da humanidade, sendo que os factores
decisivos de produção para a melhoria do bem-estar das pessoas pobres são os avanços em seus
conhecimentos. Investimentos na assistência à infância, experiência no lar e no trabalho, na
aquisição de informações e aptidões por meio do ensino escolar, investimentos na saúde e na
educação melhoram significativamente as perspectivas económicas e o bem-estar das pessoas
pobres, impactando numa melhor condição de vida para toda a população.

De acordo com Schultz (1964), o investimento básico no ser humano se dá por meio da
educação. Segundo o autor, as pessoas valorizam as suas capacidades, tanto como produtores,
quanto como consumidores, pelo investimento que fazem em si mesmas. Sendo a educação a
melhor forma de se investir em capital humano, pois, enquanto o nível de bens de produção tem
declinado em relação à renda, o capital humano tem aumentado. Por isto para Schultz, sempre
que a instrução, associada com a educação, eleva as rendas futuras, há uma ampliação da
produtividade, considerando-se como resultado do investimento em capital humano.

A caracterização da educação se dá por meio do "ensino" e do "aprendizado", sendo que seu


significado decorre da extracção de algo potencial ou latente de uma pessoa, aperfeiçoando-a,
moral e mentalmente, a fim de torná-la susceptível a escolhas individuais e sociais. Preparando-a
para uma profissão, por meio de instrução sistemática e exercitando-a na formação de
habilidades.

Diferente da educação, a instrução decorre de serviços educacionais ministrados em escolas


primárias e secundárias, abrangendo o esforço de aprender. Já a educação é um conceito mais
amplo, pois, além de produzir a instrução, ela progride nos conhecimentos, por meio da pesquisa.
A instrução pode produzir e causar benefícios no presente ou no futuro, sendo que, no último
caso, ela passa a ter característica de investimento, afectando tanto as futuras despesas quanto as
futuras rendas, passando a assemelhar-se a investimento em outros bens de produção.

Blaug (1975) também ressalta o impacto que a educação exerce sobre a economia, levando em
conta estes factores:

• a) A influência na composição e utilização na força de trabalho;

• b) A distribuição de renda pessoal e poupança;

• c) As formas e padrões de comércio internacional, influenciando nas expectativas do


crescimento económico.

Blaug (1975), assim como Schultz, busca mostrar os benefícios advindos da educação, tomando
como exemplo a variação nos rendimentos dos trabalhadores. Para ele, em todas as economias,
existem diferentes proporções de remunerações entre indivíduos da mesma idade com diferentes
níveis de escolaridade. Mesmo diante dos possíveis benefícios futuros advindos de um maior
nível de educação, é importante ressaltar seu custo para adquiri-la. Segundo Schultz (1964), esse
custo é o custo de oportunidade, ou seja, o custo de deixar de ser remunerado por um período de
tempo, além do seu próprio custo com a educação, para buscar novos conhecimentos e aumentar
suas chances de obter melhores resultados/rendimentos no futuro. Ainda é importante considerar
que esse futuro é incerto, uma vez que não se consegue obter precisão em sua previsão.

Para Schultz (1964), a investigação do valor económico da educação revela partes suplementares
importantes do processo da acumulação do capital e crescimento, influenciando na sua
mensuração e na possibilidade de planeamento dos países para o seu progresso económico. Para
analisar essa questão, faz-se necessário entender se há algum benefício de crescimento aos países
oriundos do investimento na educação. Nos estudos de Schultz (1964), são identificadas
pesquisas que demonstram indícios de forte associação entre nível de educação e aumento nos
rendimentos individuais e nacionais. Esse nível de associação é a chave para equilibrar a
distribuição da renda pessoal. Dessa forma, o investimento em educação seria uma alternativa
para a redução das desigualdades económicas.

Para Becker (1993), é mais fácil quantificar o lado monetário, bem como os resultados ou
benefícios advindos do capital humano. Porém há outros aspectos a considerar, pois a educação
promove resultados positivos na área da saúde, por exemplo, uma vez que indivíduos mais
conscientes tendem a desenvolver actividades de prevenção a doenças.

Há, também, resultados positivos no nível de democracia da sociedade, fazendo com que os
indivíduos interajam de forma mais consciente com seus governantes, maior conhecimento de
políticas de controle de natalidade. Enfim, a educação propicia resultados positivos tanto no
contexto económico (benefícios monetários), quanto no político, social e cultural, (não
monetários).

Na mesma linha, Schultz (1964), argumenta que a qualificação e o aperfeiçoamento da


população advindos do investimento em educação, elevariam a produtividade dos trabalhadores e
os lucros dos capitalistas, impactando na economia como um todo. Diante disso, a inclusão do
capital humano nos modelos de crescimento económico é uma questão chave para se
compreender a dinâmica da economia a longo prazo, uma vez que, até então, esse fenómeno era
explicado somente pelo capital natural e capital construído existente entre regiões e países.

Becker (1993), da mesma forma, alega que o capital humano é um conjunto de capacidades
produtivas que uma pessoa pode adquirir devido à acumulação de conhecimentos gerais ou
específicos que podem ser utilizados na produção de riqueza. Assim, sua principal preocupação é
decorrente de que os indivíduos tomam a decisão de investir em educação, levando em conta
seus custos e benefícios, atribuindo, entre estes melhores rendimentos, maior nível cultural e
outros benefícios não monetários.

Deste modo, o nível de capital humano de uma população influencia o sistema económico de
diversas formas, com o aumento da produtividade, dos lucros, do fornecimento de maiores
conhecimentos e habilidades, e também por resolver problemas e superar dificuldades regionais,
contribuindo com a sociedade de forma individual e colectiva. Por este facto, para Schultz
(1964), há duas formas de se mensurar ou dimensionar o capital humano entre diferentes regiões:

• a) Forma quantitativa: a forma quantitativa baseia-se no número de pessoas. Por


exemplo, sua proporção inserida na população economicamente activa e no número de
horas no trabalho.
• b) Forma qualitativa: a forma qualitativa aborda aspectos como a capacitação técnica,
os conhecimentos e atributos específicos que afectam as habilidades humanas e sua
produtividade.

A partir desta análise Schultz (1964), passou a utilizar um conjunto de factores para mensurar e
compreender o processo de formação de capital humano, considerando cinco categorias de maior
importância: recursos relativos à saúde e serviços; treinamento realizado no local do emprego;
educação formalmente organizada nos níveis elementar, secundário e de maior elevação;
programas de estudos para os adultos; migração de indivíduos e de famílias. Para medir o
estoque de educação (capital humano), o autor leva em conta três aspectos:

• a) Anos de escola completados: neste aspecto, porém, tal medida deixa de considerar o
aspecto qualitativo da educação, o que pode gerar falhas de mercado.

• b) Anos escolares completados constantes em um período de tempo: leva em conta


períodos de estudo das populações, em diferentes momentos do tempo ( A quarta classe
de antigamente... ensino da década de 90 ou a reformulação do ensino de base que
piorou)

• c) Os custos de educação como medida: leva em consideração as diferentes proporções


de investimento em cada categoria de estudo, além de apresentar a diferente proporção de
investimento per capita em cada região.

Nesta senda, Becker (1993), afirma que o capital humano de um indivíduo é formado pelos
investimentos, com intuito de melhorar a sua habilidade produtiva e seu estoque de
conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, especialmente pelo seu nível de escolarização, de
aprendizado, entre outros. Ou seja, o autor justifica a razão pela qual esse capital é considerado
como de carácter humano, uma vez que o fato de ser humano é devido à impossibilidade de
separar do indivíduo o seu conhecimento, sua habilidade, saúde e outras formas que podem
definir esse tipo de capital. Entre os principais factores que integram o capital humano estão a
saúde, a migração e, de forma especial, a educação. Como exemplo, Becker refere-se aos
diversos estudos e pesquisas empíricas quantitativas, que evidenciam a disparidade de
rendimento entre pessoas mais qualificadas e menos qualificadas, argumentando que a maioria
dos estudos atribui ao capital humano a explicação de grande parte do crescimento económico de
longo prazo de alguns países ou regiões.

Corroborando com os apontamentos de Schultz e Becker, Blaug (1975) reitera que a economia
da educação está atrelada não somente aos problemas de custeio e financiamento das escolas,
mas também a questões como a migração dos trabalhadores, estrutura da força de trabalho,
treinamentos no próprio trabalho, formas de selecção e promoção dos empresários, distribuição
da renda pessoal e da perspectiva de crescimento económico. Entre os indicadores mais
utilizados para se mensurar capital humano, estão a média de escolaridade por região e faixa
etária, o percentual da população que possui o nível primário, secundário, médio ou superior e o
número de matrículas por categoria de estudo.

Em síntese, a abordagem do capital humano estabelece uma relação intrínseca e causal entre a
qualificação dos indivíduos e a expansão da riqueza nacional. Ao tratar a educação e a saúde não
como meros consumos sociais, mas como investimentos estratégicos, conclui-se que o
crescimento económico sustentado é diretamente proporcional à capacidade de um país em
potenciar as competências da sua força de trabalho, gerando ganhos de produtividade e inovação
a longo prazo.

No tópico a seguir, abordaremos a Análise dos Investimentos no Sector Educacional no Contexto


Económico de Angola, onde será examinado de que forma os recursos financeiros têm sido
efetivamente aplicados no sistema de ensino angolano e qual o impacto dessa execução
orçamental no panorama económico nacional.
2. ANÁLISE DOS INVESTIMENTOS NO SECTOR EDUCACIONAL NO CONTEXTO
ECONÓMICO DE ANGOLA.

O investimento na educação como forma de potencializar o capital humano é muito importante,


na medida em que com os novos desafios globais, exige-se que a sociedade seja mais preparada,
para enfrentar os problemas sociais, o que necessariamente deve passar por uma planificação que
proporcione a formação integral do indivíduo, onde o conhecer, saber fazer, saber ser e saber
estar, são pressupostos a ter em conta, para enfrentar e minimizar os problemas do quotidiano.

Nesta perspectiva, o Governo angolano tem vindo a mostrar “algumas” intenções sendo que o
compromisso político do Estado Angolano para com a Educação de Qualidade para Todos,
remonta desde Março de 1990, mas infelizmente, esta pretensão não tem vindo a se reflectir nos
orçamentos que o mesmo Estado tem vindo a disponibilizar para o presente sector.

Para o efeito, fazemos uma revisão das políticas orçamentais implementadas no sistema
educativo em Angola a partir do ano 2002 até à actualidade (UNICEF, 2018, p.8).

Como foi referenciado, a discussão em torno da pouca valorização que se dá ao ensino em


Angola, não é recente. Há muito que a educação constitui um campo de luta política, esse que se
tem constituído num dos principais elementos enfraquecedor do actual sistema educativo. “A
questão da educação é um tema caro quer para as famílias quer para os políticos” (Ferreira, 2017,
p.5).

Em sustentação ao exposto, ainda, Giddens (2004) salienta que “(...) a educação envolve
questões políticas, económicas, sociais e culturais complexas” (p.944). Então, as principais
decisões institucionais por serem políticas e económicas, têm grande parte de resolução destes
desafios o Governo.

Escrever sobre o processo histórico da educação em Angola, “avanços e retrocessos”, é muito


desafiador, visto que o mesmo está ligado a processos políticos do país. Conforme salienta
Nguluve (2006), requer hoje responsabilidade política por parte dos dirigentes, pois, se por um
lado, justifica-se o mau estado educacional de Angola pela colonização, intervenção externa,
destruição das suas infra-estruturas pela guerra que se desencadeou de 1976 a 2002. Por outro
lado, o investimento a partir do Orçamento do Estado neste sector. Ainda pode-se notar
claramente o pouco interesse em desenvolver este sector, tão fundamental para o
desenvolvimento e crescimento do País.

De facto, são vários os autores que, adoptando uma perspectiva crítica na análise do investimento
que se faz ao sistema educativo em Angola, denunciam a falta de vontade, por parte do poder
político como por exemplo como refere Ferreira (2013) a situação de ausência de uma política de
educação, não tem como causa o pouco conhecimento da situação real do funcionamento da
educação no território ou a falta de conhecimento do rumo a seguir, mas antes a falta de
empenhamento e decisão a nível político. Na intenção de melhorar essa adopção desencontrada,
tendo em conta o que é recomendado pela UNESCO, o que recomenda melhoria no Investimento
a esse Sector.

Como refere Nguluve ( 2006), a responsabilidade política por um sistema educacional


preocupado com o desenvolvimento da cultura de paz, democracia e respeito mútuo significa
também responsabilidade pela dignidade do ser humano. Como já nos referimos, a educação é a
base do desenvolvimento de qualquer sociedade e constitui responsabilidade do poder político,
rever a quota que a ela é atribuída

Tendo em conta os caminhos pecorridos durante o processo de investigação por meio de


documentos, verificou-se que os orçamentos que se tem vindo a disponibilizar para o Sistema
Educativo resultante do OGE, não vtem respondido às necessidades deste sector,, o que ao nosso
ver tem sido motivos de vários problemas que o mesmotem atravessado.

Para um melhor entendimento, procuramos compilar os orçamentos dos anos que nos
propusemos analisar, como segue abaixo:
Gráfico 1.

Variação do Orçamento Geral do Estado afeto a educação entre 2002 à 2009

Orçamento (%)
10,47%

7,91% 7,91%
7,14%
6,24%
5,61%
5,19%
3,82%

2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009

O quadro em referência demonstra o indicador de financiamento da educação relacionado com o


orçamento da Educação em percentagem do Orçamento Geral do Estado (OGE). O mesmo,
permite-nos analisar que, há uma certa oscilação na alocação dos recursos a este sector no seu
percurso histórico, para além dos valores estarem muito abaixo dos valores recomendados pela
UNESCO, ainda assim, vemos claramente que não houve ao longo destes anos alguma tendência
no sentido ascendente, de modo a alcáçar os objectivos propostos pela UNESCO.

Analisando outros indicadores como se observa no Orçamento atribuído à Educação, está muito
abaixo da média da SADC e aquém da proposta mundial, 20% (Forom Mundial de Educação,
2000). É necessário reflectir seriamente sobre os investimentos voltados para a educação.

No quadro desta observação, facilmente se constata que a educação em Angola esta relegada
para o segundo plano, enfrentando enormes desafios, por isso, investir nela é um imperativo
inegável.
Gráfico 2.

Variação do Orçamento Geral do Estado afeto a educação entre 2010 à 2019

8,90% 8,80%
8,10% 8,18% 8,30% 8,30%

6,60%
6,16%
5,83% 5,83%

2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019

Esta baixa percentagem em termos orçamentais, naturalmente provoca sérios problemas no


sistema educativo. Portanto, vemos ainda assim, que o investimento dirigido ao atendimento à
educação, relativamente aos investimentos, observa-se a partir do gráfico acima que o ano de
2015 foi o de maior registo.

Olhando para o gráfico acima, podemos claramente notar que de 2018 à 2019 foram os anos que
a dotação orçamental para o sector da educação mais registou declínio, o que, constitui
grandemente constrangimentos no seu desnvolvimento.

Analisando o gráfico, podemos entender que estamos muito aquém dos 20%, estipulado nos seus
compromissos internacionais (Compromisso de Dakar, 2000). Analisando ainda o mesmo gráfico
n° 2, é possível verificar que em 2015, foi o ano em que a dotação orçamental para educação
aumentou, mas ainda a sua despesa excedeu o valor orçamentado.
Gráfico 3.

Variação do Orçamento Geral do Estado afeto a educação entre 2020 à 2023

Orçamento %

7,73%
6,92%
6,47% 6,40%

2020 2021 2022 2023

Observando o gráfico acima, podemos verificar que os orçamentos são oscilantes, ou seja, o mais
baixo verificou-se 2022, com uma percentagem de 6,4%, valor aproximado ao orçamento de
2020 com 6,47, verificou-se uma redução de 0,07%, estas oscilações no sentido descendente, o
não geram crescimento assim como desenvolvimento no sistema educativo.

O valor orçamental alto verificou-se no ano de 2023 com uma percentagem de 7,73%. É lícito,
afirmar que relacionando o orçamento de 2022 com o de 2003, contata-se que há um incremento
de 1,33%, que julgamos insignificante tendo em conta os inúmeros desafios do sector. "é
necessário rever a dotação deste sector, uma vez que a educação é fundamental Para garantir o
capital humano necessário para o crescimento do pais" (OGE, 2023).

Os resultados da sondagem de todos os dados apresentados ao longo dos anos que nos propomos
analisar, oscilam entre 3,82% a 10,47%. E esta é a percepção que os angolanos têm da sua
educação e das políticas que nela são implementadas.
Os resultados da sondagem de todos os dados apresentados ao longo dos anos que nos propomos
analisar, oscilam entre 3,82% a 10,47%. E esta é apercepção que os angolanos têm da sua
educação e das políticas que nela são implementadas.

Yosvany, Inidia, Acácio (2024), salientam que, devemos banir os velhos preconceitos
relacionados com a centralização, o que em muitos casos corrói a fiabilidade de estabelecer
acordos com padrões de qualidade estabelecidos pela Organização Internacional. Desta forma,
podemos reafirmar que o impacto dos sistemas educativos é fundamental para o
desenvolvimento do País, tendo em conta os aspectos significativos.

2.2. FORMAÇÃO ACADEMICA: QUANTIDADE VERSUS QUALIDADE

Para que se atinja um crescimento económico desejável, e consequente efectivação do


desenvolvimento, seja em sua concepção mais tradicional, ou em sua concepção e
sustentabilidade, um dos pontos comuns é que o investimento em "educação", um elemento
sempre presente, quer seja como um resultado proveniente do desenvolvimento seja como
pressupostos de novos ciclos (OLIVEIRA; MORAES, 2016).

Assim sendo, o investimento em capital humano deve ser feito preferencialmente por iniciativa
do Estado, por se tratar de uma estratégia de governo decorrente de políticas públicas, visando a
promoção do desenvolvimento, deve ser assumida e desenvolvida por este, a fim de direccionar
os objectivos que serão alcançados no futuro, e não apenas por interesse do mercado. Deste
modo, o desenvolvimento económico é resultante de investimentos feitos não só no sector
económico, como também no sector social tal como afirma Sachs (2015), o desenvolvimento
económico depende de investimentos, por exemplo, em infra-estruturas, com a construção de
estradas, portos, e vias de comunicação, porém, argumenta ainda que, o mais importante
investimento é na própria população, especialmente nas crianças, na formação do capital
humano, do mesmo modo que, o capital físico pode ser acumulado, o capital humano, individual
ou colectivamente também pode ser acumulado.

Os países desenvolvidos comprovariam tal afirmação por possuírem um elevado estoque de


capital físico, mas também, por investirem fortemente no capital humano, que é altamente
qualificado, com resultados positivos na facilidade para operar novas tecnologias e na produção
de ideias. Assim sendo, esta qualificação dar-se-ia na busca de conhecimentos apostando na
qualidade da formação oferecida aos cidadãos, que viria mais tarde a se r [sic] comprovada
através da resolução dos problemas, quer sejam conjunturais, como estruturais.

Países como a Noruega, Coreia do Sul e Canadá, perceberam que, mais importante do que os
recursos naturais, seria então a aposta na qualificação dos recursos humanos, pois em termos
competitivos neste período de pós-modernidade, a vantagem de um país sobre o outro sendo
melhor educado e formado aproveita ao máximo as tecnologias existentes. (MORAES, 2016).

A Constituição da República de Angola de 2010, no seu artigo 21º, consagra de forma minuciosa
o compromisso do Estado para com a população no que toca a Educação. Dentre os pontos
constantes neste artigo, pode-se citar aqueles que convergem com o objectivo do trabalho⁵:

a) Promover políticas que assegurem o acesso universal ao ensino obrigatório gratuito,


nos termos definidos por lei;

b) Efectuar investimentos estratégicos, massivos e permanentes no capital humano, com


destaque para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens, bem como na
educação, na saúde, na economia primária e secundária e noutros sectores estruturantes
para o desenvolvimento auto-sustentável.

A aposta no capital humano, ou se quisermos na "educação" de qualidade revela-se como sendo


fraca, quer por parte do sector privado, quanto do Estado, tendo em conta que este último tem
por obrigação constitucional, não só a promoção, como também a garantia do acesso livre e
gratuito.

Assim sendo, torna-se imperioso o governo fazer investimentos cada vez mais na qualidade de
ensino e não em quantidade de Instituições de Ensino com níveis cada vez menores. Pois a
ignorância do factor qualidade reflecte negativamente no processo de crescimento e
desenvolvimento económico sustentável do país, causando estrangulamento de modo geral no
país, sabendo que o capital humano é o recurso mais importante de qualquer sociedade.
2.2.1. Abordagem no contexto angolano

Estudar a questão da formação académica não é um processo simples quando o foco é um país
subdesenvolvido, e torna-se mais difícil quando este país antagoniza as variáveis "Qualidade e
Quantidade" causando hostilidade ao sistema de ensino de modo geral, como é o caso de Angola.

Discutir estas duas variáveis, obriga-nos analisar os discursos dos ex-presidentes de Angola, de
modo a identificar até que ponto, ambos convergiram e qual foi o nível de praticidade daquilo
que por eles foi proferido. Neste âmbito Agostinho Neto a quando da proclamação da
independência de Angola em 1975, sublinhou que o país precisava de quadros qualificados para
manter a economia num ritmo crescente ao longo do tempo.

Neste sentido Neto (1975) argumenta que:

É evidente que numa primeira fase a nossa economia se ressentirá com a


falta de quadros. Para responder a esta carência, será elaborado um plano
expedito de formação de quadros nacionais, ao mesmo tempo em que se
apelará para a cooperação internacional nesse domínio. As nossas
escolas, a todos os níveis, deverão sofrer uma remodelação radical para
que possam de facto servir o Povo e a reconstrução económica.
(ANGOLA, 1975).

Convergindo com esta abordagem, Dos Santos no seu discurso em 1979 completou a ideia de
seu antecessor argumentando que:

Nos sectores da Educação e Formação Profissional, o país irá enfrentar


com sucesso os desafios do desenvolvimento com quadros nacionais
altamente qualificados e com uma classe de trabalhadores bem formada
tecnicamente, capaz de se adaptar rapidamente ao ambiente de mudanças
e às necessidades impostas pelos novos sistemas de produção.
(ANGOLA 2, 1979 apud LUSA, 1981).

Neste âmbito, sempre houve claras intenções de se fazer investimentos sérios no sistema de
ensino nacional de modo a alavancar a economia do país, porém as intenções limitaram-se nos
discursos, ou seja o que potencialmente seria um sector estrategicamente usado para resolução
dos problemas económicos e sociais do país, passou a ser um dos maiores problemas, pois parece
que o governo não fez os investimentos necessário para tornar forte e competitivo o sistema de
ensino em geral.

Tendo Dos Santos, assumido em seu discurso a 15 de Outubro de 2013, que 79% das crianças
tinham acesso ao ensino, isto é, 7,4 milhões de alunos matriculados no sistema de ensino não
universitário, dos quais 5,1 milhões no ensino primário e 2,3 milhões no ensino secundário. A
meta era elevar a taxa líquida de escolaridade para cerca de 100%, facto que para além de estar
muito distante da efectivação, permitiu que o maior investimento nesse sector fosse direccionado
para a variável quantidade, deixando para lá o aspecto qualitativo, tal como deixa transparecer
Dos Santos (2012), argumenta ainda que nos últimos dez anos Angola atingiu os lugares
cimeiros da África subsaariana em termos de estabelecimentos de ensino, pois abriu-se, no país
17 universidades e 44 institutos superiores. Indo além, José Eduardo dos Santos argumenta que
houve investimento equivalente a mais de 480 milhões dólares em 53 novas instituições
escolares para o ensino secundário técnico-profissional.

A valorização dos angolanos, a ideia de torna-los cada vez mais capazes pela via da escolaridade
e da formação profissional e a académica de modo a atingir níveis elevados de bem-estar e de
realização profissional afim de poderem prestar um contributo mais qualificado ao
desenvolvimento económico e social, não passava certamente pela abertura desordenada de um
número elevado de instituições de ensino, quer universitário, quanto não universitário. Basta
olharmos para a actual realidade de Angola, pois desde o alcance da independência até aos dias
de hoje tem-se notado que as qualidades das instituições se têm degradado. Tendo como
consequência uma fraca qualidade do ensino como um todo.

Começou-se a investir para aumentar a quantidade, agora impõe-se que haja mais investimento
para melhorar a qualidade do ensino prestado nas nossas escolas.

A variável quantidade não é um problema no seu todo, pois deve o governo manter foco na
erradicação do alfabetismo, porém sugere-se uma atenção especial a variável qualidade uma vez
que tem se verificado um forte desacompanhamento das referidas variáveis, ou seja, deve será
dotado pelo governo um padrão qualitativo de nível internacional que pudesse tornar o sistema
nacional de ensino competitivo a nível regional e internacional.

O governo deveria tomar as decisões mais assertivas para mudar as políticas do sistema de
ensino do país, no entanto não o fez atempadamente e Angola incorreu no fracasso, não sendo o
seu ensino reconhecido pela UNESCO. Desta feita, percebe-se que tanto Agostinho Neto, quanto
José Eduardo Dos Santos não tiveram aplicabilidade dos seus discursos causando hostilidade
entre o que se foi dito, e o que efectivamente foi aplicado.

Do ponto, de vista do crescimento económico exógeno, em que é definido pelo crescimento de


longo prazo, dada por uma taxa determinada por forças que são externas ao sistema económico,
nesta mesma teoria, mostra que no longo prazo o crescimento é determinado pelo avanço do
progresso técnico, não explicando quais os factores que o determinam, por isso a denominação
de exógeno. Neste sentido, com base nas argumentações apresentadas acima, a taxa de
crescimento do progresso técnico tenderá a zero. Assim com base o modelo em questão, se
olharmos na fonte do crescimento de curto prazo, onde é determinada pela acumulação de capital
físico, fazendo com que o investimento em capital humana [sic] seja crucial para o crescimento
económico.

Para Angola, segundo o modelo de Solow, o desenvolvimento económico deve a relevância da


acumulação do capital físico, apresentando o progresso técnico através do capital humano, sendo
este o motor do crescimento económico sustentado. Respondendo à questão, porque alguns
países são mais ricos que outros? As condições estilizadas deste modelo neoclássico são a
existência de retornos decrescentes, crescimento da população e da oferta de trabalho a uma taxa
constante. Entretanto, neste modelo é observado que não referencia as relações entre instituições.
Mas devido à sua complexidade, o ambiente humano é permeado de incerteza. Como existe
insegurança em relação ao futuro, devido às limitações cognitivas dos agentes, surgem os custos
de transacção. Então, os seres humanos desenvolvem instituições, compostas de restrições
informais, em grande parte determinadas pela cultura da sociedade, e normas formais, que dizem
respeito, entre outras, à definição dos direitos de propriedade que amenizam a incerteza dos
investimentos produtivo.
Por outro lado, Segundo Mendes (2012):

Para o país caminhar para o desenvolvimento geral e equitativo não só no tocante


aos aspectos económicos ligados à produtividade e eficiência das firmas, mas
também ao nível do bem-estar social, através da melhoria das condições de
habitação, saneamento básico, saúde e educação públicas, reduzindo assim o
número daqueles que vivem abaixo do limiar de pobreza. O Governo Angolano,
através da concessão de um conjunto alargado de incentivos fiscais ao
investimento, deve promover o desenvolvimento prioritário de regiões
desfavorecidas, a reabilitação e a modernização das infra-estruturas, o aumento
da produção de bens de primeira necessidade, bem como o desenvolvimento
tecnológico e científico. Actualmente.

Conclui-se que a análise dos investimentos no setor educacional em Angola revela um cenário de
desafios estruturais, onde a oscilação das dotações orçamentais, muitas vezes dependentes das
receitas petrolíferas, condiciona a continuidade das políticas públicas. Embora existam esforços
para aumentar a cobertura escolar, a eficiência do gasto público ainda enfrenta barreiras que
limitam a transformação total desses recursos em capital humano produtivo, evidenciando a
necessidade de uma gestão financeira mais resiliente e focada na qualidade do ensino.

No tópico a seguir aboradremos sobre. O Contexto Ontológico: Da economia de Enclave à


Economia do Conhecimento (Uma análise do PDCH). Examinaremos a essência dessa mudança
de paradigma. Discutiremos como o país pretende abandonar a dependência do setor extrativista
caracterizado por enclaves que pouco interagem com o restante da economia para adoptar um
modelo onde o saber, a inovação e as competências técnicas se tornam o principal motor de valor
e desenvolvimento social.
3. O CONTEXTO ONTOLÓGICO: DA ECONOMIA DE ENCLAVE À ECONOMIA DO
CONHECIMENTO (UMA ANÁLISE DO PDCH)

O Plano de Desenvolvimento do Capital Humano (PDCH) 2023-2037 não deve ser lido como
um mero plano sectorial de educação, mas como uma tentativa de ruptura com a "Doença
Holandesa" que historicamente fustiga Angola. Academicamente, a trajetória económica do país
tem sido definida por um modelo de enclave petrolífero, onde o crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB) apresentava uma correlação nula com a criação de empregos qualificados. Este
plano surge, portanto, como uma ferramenta de "Semeação do Petróleo" em ativos humanos.

A visão estratégica fundamenta-se na Teoria do Crescimento Endógeno, que postula que o


capital humano é o único factor de produção com retornos crescentes à escala. Ao contrário do
capital físico, que sofre depreciação, o conhecimento acumulado gera externalidades positivas
que elevam a produtividade total dos fatores (PTF). O PDCH é o mecanismo que visa converter
o "stock" demográfico jovem de Angola num fluxo de competências produtivas.

3.2. DISSECAÇÃO DOS PROGRAMAS E A LÓGICA DE ESPECIALIZAÇÃO

A arquitetura do plano é segmentada para atacar as falhas de mercado em diferentes níveis da


pirâmide educacional:

1. A Redenção do Ensino Técnico-Profissional (ETP): O Programa de Ação foca-se na


formação média técnica com uma meta audaciosa de mais de 739 mil diplomados.
Economicamente, este é o segmento com maior impacto no PIB Não Petrolífero. A
especialização em áreas industriais e agrícolas visa criar uma "classe média técnica" que
reduza a necessidade de importação de serviços especializados, retendo divisas no
mercado interno e fortalecendo o balanço de pagamentos.

2. O Ensino Superior como Motor de Inovação: A estratégia aqui afasta-se do


"diplomatismo" (obtenção de diplomas sem competência) para focar na investigação
aplicada. O impacto económico reside na redução do diferencial tecnológico (gap
tecnológico) entre Angola e as economias emergentes. A formação de quadros de alta
performance em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é a condição
sine qua non para a soberania técnica em setores como as energias renováveis e a
mineração crítica.
3. A Alfabetização Dual e a Inclusão Produtiva: A inovação do PDCH reside no
pragmatismo da alfabetização funcional. Ao ligar a literacia à formação prática, o Estado
reconhece que o capital humano não pode ser construído no vácuo da pobreza extrema. O
objetivo é transformar o "setor informal de subsistência" num "setor informal produtivo",
facilitando a transição futura para a economia formal e alargando a base tributária.

3.3. APROFUNDAMENTO NO IMPACTO ECONÓMICO: O MULTIPLICADOR DO


CAPITAL HUMANO

O impacto económico destes programas deve ser analisado através de três dimensões principais:

• O Efeito de Spillover (Transbordamento): A formação massiva de técnicos não


beneficia apenas as empresas que os contratam, mas cria um ambiente de competividade
que obriga o setor privado a modernizar-se. Estima-se que o aumento da escolaridade
média da população ativa em apenas um ano pode elevar a taxa de crescimento do PIB a
longo prazo em cerca de 0,5% a 1,2%.

• A Atratividade de Investimento Direto Estrangeiro (IDE): Atualmente, grandes


investidores internacionais apontam a falta de mão de obra qualificada como a principal
barreira para investir fora do setor petrolífero em Angola. Ao garantir um fluxo de 58 mil
novos técnicos médios anualmente (projeção para 2037), o PDCH reduz os custos de
transação para multinacionais, incentivando a instalação de fábricas e centros de serviços
no país.

• Sustentabilidade das Contas Públicas: A longo prazo, o investimento em capital humano


é a forma mais eficaz de reduzir a despesa com assistência social e subsídios, uma vez
que uma população mais qualificada possui maior poder de compra e menor dependência
do Estado, gerando um ciclo virtuoso de consumo e arrecadação de IVA.
3.4. VISÃO CRITICISTA: AS CONTRADIÇÕES E AS FRAGILIDADES DO PLANO

Uma análise académica honesta não pode ignorar os riscos de falha sistémica que ameaçam a
eficácia do PDCH:

1. O Risco da Dualidade Educacional: Existe um perigo iminente de o plano criar um


sistema de duas velocidades: centros de excelência financiados por parcerias
internacionais para uma elite técnica, enquanto a massa populacional continua em
infraestruturas precárias. A desigualdade no acesso à qualidade de ensino pode anular o
efeito de coesão social pretendido pelo plano.

2. A Dependência do Ciclo de Commodities: O PDCH prevê uma "Integração com o


OGE" (Orçamento Geral do Estado). No entanto, a economia angolana ainda é refém da
volatilidade do Brent. Se as receitas petrolíferas caírem drasticamente, o financiamento
de programas de longa duração (como a formação técnica de 4 anos) tende a ser
interrompido, gerando "gerações perdidas" de estudantes que iniciaram, mas não
terminaram a formação devido a cortes orçamentais.

3. O Descompasso entre Oferta e Procura (Mismatch): Há uma crítica latente sobre se o


tecido industrial de Angola terá capacidade de absorver 700 mil novos técnicos. Se o
crescimento do setor privado não acompanhar o ritmo da formação, Angola poderá
enfrentar um fenómeno de "Fuga de Cérebros" ou de "Desemprego Qualificado", onde
técnicos formados pelo Estado acabam no mercado informal ou emigram para países
vizinhos com economias mais dinâmicas.

4. A Qualidade dos Formadores: O plano é ambicioso nas metas de alunos, mas


relativamente vago na estratégia de retenção de talentos pedagógicos. Sem professores e
formadores com salários competitivos e atualização técnica constante, as escolas técnicas
tornar-se-ão "museus de máquinas obsoletas", ensinando processos que o mercado global
já descartou.
O Plano de Desenvolvimento do Capital Humano (PDCH) de Angola para o período 2023-2037
configura-se, sob uma ótica de economia política e sociologia do desenvolvimento, como uma
arquitetura estratégica de elevada sofisticação teórica que visa operar uma transição
paradigmática na estrutura produtiva do país, deslocando o eixo da acumulação de riqueza da
mera extração de rendas petrolíferas para a valorização dos ativos intelectuais e técnicos da sua
população. Academicamente, o plano fundamenta-se nas teorias do crescimento endógeno e no
modelo de Solow-Swan, onde o capital humano não é tratado como uma variável exógena de
assistência social, mas como o determinante endógeno da produtividade total dos fatores,
essencial para que Angola consiga capturar o seu dividendo demográfico antes que este se torne
um passivo social devido à pressão populacional sem a correspondente oferta de emprego
qualificado.

Contudo, uma análise criticista e hermenêutica do documento revela que a viabilidade desta
"grande transformação" enfrenta barreiras estruturais que transcendem a excelência do
planeamento técnico, residindo fundamentalmente na dialética entre a ambição das metas como
os 739 mil diplomados no ensino técnico até 2037 e a fragilidade institucional de um Estado
cujas receitas fiscais permanecem reféns da volatilidade extrema do mercado internacional de
commodities. A crítica incide, primeiramente, sobre o risco de um "fetichismo do diploma",
onde a obsessão pelo cumprimento de indicadores quantitativos de escolarização possa eclipsar a
qualidade substantiva do ensino, resultando numa inflação de certificados sem a devida
proficiência operacional, o que geraria um desajuste estrutural (mismatch) entre as expectativas
dos graduados e a capacidade de absorção de um setor privado ainda embrionário e dependente
do investimento público.

Além disso, a conclusão crítica deve sublinhar a lacuna existente na articulação entre a formação
e a infraestrutura tecnológica das instituições, pois o plano pressupõe uma rápida digitalização e
modernização de laboratórios que exige fluxos constantes de moeda estrangeira, muitas vezes
escassa em períodos de baixa do preço do petróleo, o que pode condenar as escolas técnicas das
províncias periféricas a uma obsolescência precoce em relação ao eixo Luanda-Benguela,
aprofundando as assimetrias regionais que o plano teoricamente visa mitigar. Outro ponto de
tensão dialética reside na "Alfabetização Dual" e na educação de adultos; embora o foco na
empregabilidade imediata seja pragmático, corre-se o risco de reduzir o cidadão a uma mera
função técnica de subsistência, negligenciando a formação humanística e crítica necessária para a
consolidação de uma cidadania ativa e participativa no processo de governação. Em última
análise, o impacto económico do PDCH só será maximizado se o Estado angolano conseguir
blindar o financiamento do capital humano contra os ciclos políticos e económicos de curto
prazo, garantindo que a Unidade Técnica de Gestão (UTG/PNFQ) possua autonomia real para
corrigir os desvios de execução identificados na monitorização permanente. A conclusão
académica final é que o plano é um instrumento de soberania necessário, mas a sua eficácia não
será medida pela quantidade de salas de aula construídas, mas pela capacidade de Angola em
criar um ecossistema de inovação interna que retenha os cérebros formados e converta o
conhecimento em desenvolvimento humano real, dignidade social e estabilidade
macroeconómica duradoura

.Em última análise, o PDCH 2023-2037 é um documento de vanguarda que diagnostica


corretamente o problema: Angola não é pobre por falta de recursos naturais, mas pela
subutilização do seu potencial intelectual. Contudo, a transição do "papel" para a "fábrica" exige
uma vontade política que transcenda ciclos eleitorais. O sucesso deste plano definirá se Angola
chegará a 2050 como uma potência regional diversificada ou como uma nação que, tendo todas
as ferramentas para o sucesso, permaneceu prisioneira do seu subsolo. A monitorização
permanente e a correção de rumo, conforme mencionadas no documento, não podem ser apenas
processos burocráticos, mas sim um compromisso ético com as futuras gerações

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