Capítulo I - Fundamentação Teórica
Capítulo I - Fundamentação Teórica
O conceito de capital humano ganhou relevância central nas ciências económicas e sociais a
partir da segunda metade do século XX. Inicialmente, esse desenvolvimento esteve associado a
teorias que passaram a reconhecer características individuais como educação, formação,
habilidades, conhecimentos e saúde, como recursos decisivos para a produtividade e para o
crescimento económico. Assim, elementos antes considerados puramente pessoais passaram a ser
entendidos como autênticos fatores de produção.
Nesse contexto, Theodore Schultz destacou-se como um dos primeiros economistas a estruturar
esta abordagem. Segundo Schultz (1961), o capital humano é formado pelos recursos de
conhecimento, capacidades e condições humanas adquiridas que potencializam a produtividade
do trabalhador. Por conseguinte, tais recursos contribuem diretamente para o crescimento
económico. Além disso, o autor sublinha que a educação constitui a forma mais significativa
desse investimento, uma vez que os indivíduos não nascem dotados das competências
necessárias para serem produtivos; pelo contrário, essas competências precisam de ser
desenvolvidas ao longo da vida. Dessa forma, o trabalhador deixa de ser visto como mero
executor de tarefas e passa a ser entendido como agente ativo, cujo conhecimento representa um
tipo de capital valioso. Como resultado, Schultz defende que países que investem fortemente em
educação e saúde tendem a apresentar maior crescimento económico, influenciando políticas
educacionais e de desenvolvimento em várias regiões.
Paralelamente, Gary Becker (1964) aprofundou o conceito ao definir capital humano como o
conjunto de habilidades, conhecimentos e competências que aumentam a produtividade ao longo
da vida. Para Becker, investir em educação formal, formação profissional e cuidados de saúde
representa uma decisão racional, pois eleva o rendimento futuro dos indivíduos. Nesse sentido, o
autor afirma que o capital humano corresponde às capacidades produtivas incorporadas nas
pessoas (Becker, 1964). Assim como qualquer tipo de capital, envolve custos como tempo,
esforço e investimento financeiro, mas gera retornos económicos, dado que trabalhadores mais
qualificados tendem a obter salários mais elevados. Em consequência, essa abordagem serviu de
base para políticas de formação técnica e universitária, sobretudo em países em
desenvolvimento.
Além disso, Brown critica a visão individualista que sustenta a teoria tradicional do capital
humano. Segundo o autor, o retorno educativo depende não apenas das competências adquiridas,
mas também de condições estruturais mais amplas, tais como: o funcionamento dos mercados
globais, o acesso a redes profissionais, a oferta de empregos qualificados e as políticas industriais
de cada país. Portanto, num cenário marcado por desigualdades globais e por dinâmicas
económicas cada vez mais voláteis, a perspetiva de que o investimento educacional funciona
como garantia automática de sucesso económico revela-se insuficiente.
Desta feita, no âmbito deste trabalho, definimos capital humano como o conjunto de capacidades
e conhecimentos dos indivíduos que, combinados com características pessoais e com o esforço
despendido, ampliam as possibilidades de produção de bem-estar pessoal, social e económico.
Em suma, trata-se de um conceito dinâmico, multifacetado e profundamente influenciado tanto
por fatores individuais quanto por estruturas económicas mais amplas
Os primeiros estudos sobre o Capital Humano urgiram nos Estados Unidos, na década 1950, a
partir dos postulados da conhecida Escola de Chicago. Os primeiros a se destacar nessa teoria
foram Mincer (1958), Schultz (1962) e Stigler (1982), na qual, procuravam tornar mais
consistente o modelo de crescimento econômico. Esses autores, ao analisarem o modelo de
crescimento econômico verificaram que, apesar de um alto investimento em capital físico em
alguns países como Estados Unidos e Reino unido, os rendimentos desses eram desuniformes.
Além demais, Schultz e Stigler, julgavam ser necessária a instituição de um novo espírito
capitalista para o Desenvolvimento das novas sociedades (OSPINA, 2014).
A partir dessa análise, a economia passou a se concentrar nos modos mediante os quais os
indivíduos buscam produzir e acumular capital humano. Desta forma, as análises da Escola de
Chicago giram em torno de questões como: como se produz e se acumula o chamado capital
humano? De que ele se compõe? Quais são seus elementos inatos ou hereditários? Como ele
pode ser adquirido por meio de políticas educacionais? (FONSECA, 2007).
Em meio a essas questões, os teóricos da ciência econômica defendem que, para que exista
acumulação de capital humano é necessário existir um investimento sério na capacitação humana
e na formação educacional e profissional dos indivíduos, no intuito de garantir o aumento da
produtividade e acrescimos maiores da capacidade produtiva, sendo este, um novo modo de
Governamentalidade (CATANI, 2002).
Em suma, a estreita interface dessa teoria do Capital Humano com a educação está, portanto, na
importância que a primeira atribui à segunda, no sentido desta última funcionar como
investimento cuja acumulação permitiria não só o aumento da produtividade de indivíduo-
trabalhador, mas também a maximização crescente de seus rendimentos ao longo da vida.
De acordo com Schultz (1964), o investimento básico no ser humano se dá por meio da
educação. Segundo o autor, as pessoas valorizam as suas capacidades, tanto como produtores,
quanto como consumidores, pelo investimento que fazem em si mesmas. Sendo a educação a
melhor forma de se investir em capital humano, pois, enquanto o nível de bens de produção tem
declinado em relação à renda, o capital humano tem aumentado. Assim sendo, este enfatiza que,
o capital humano pode ser analisado na óptica do aumento do nível educacional e o aumento do
nível de instrução, sendo que, cada elemento da análise completa o outro.
No caso da Educação, este argumenta que, a caracterização desse elemento se dá por meio do
ensino e do aprendizado, sendo que seu significado decorre da extração de algo potencial ou
latente de uma pessoa, aperfeiçoando-a, moral e mentalmente, a fim de torná-la susceptível a
escolhas individuais e sociais.
A instrução pode produzir e causar benefícios no presente ou no futuro, sendo que, no último
caso, ela passa a ter característica de investimento, afectando tanto as futuras despesas quanto as
futuras rendas, passando a assemelhar-se a investimento em outros bens de produção. Sempre
que a instrução, associada com a educação, eleva as rendas futuras, há uma ampliação da
produtividade, considerando-se como resultado do investimento em capital humano.
Conforme Blaug (1975), a educação tem impacto sobre a economia, levando em conta diversos
factores, tais como:
A principal contrariedade à teoria do capital humano surge mesmo dessa ideia, de tratar o
homem como capital, ou seja, segundo Crawford (1994) os seres humanos não podem ser vistos
como meramente meios de trabalho, mas o fim do exercício desses. Esse autor relata que, essa
terminologia “capital” contraria questões éticas e morais aos seres humanos.
Assim sendo, Lima (1980) afirma que entre as diversas críticas sobre essa teoria, as principais
consideravam-na sob duas formas: a primeira seria que a educação significa somente uma forma
de qualificação da mão-de-obra para inserção no mercado de trabalho, servindo como uma
ferramenta para aproveitar o excedente do trabalhador ao sistema capitalista; a outra considera
que existem outros factores que influenciam na renda dos indivíduos, além da escolaridade,
como sua própria inteligência individual, seu nível social e, até mesmo, a segmentação dos
mercados⁴ (ALMEIDA; PEREIRA, 2000).
Para Sen (1999), a Economia do Bem-Estar fundada na moral utilitária combina uma fase
informacional pobre, uma análise estreita do comportamento humano e uma falta de distinção
entre os meios e os fins, bem como da relação entre eles.
Becker (1993) menciona que, mesmo havendo diversas pesquisas que evidenciam as
contribuições positivas do capital humano ao indivíduo e à população, alguns autores
argumentam que a teoria do capital humano não é concisa, uma vez que essa forma de capital
também é um mecanismo de exploração do trabalho pelo capital. Assim, os detentores do capital
“físico” e “financeiro” utilizariam esse outro tipo de capital “humano” como mais uma
alternativa de exploração da mão-de-obra trabalhadora, fazendo com que o capital humano seja
somente uma ferramenta de manipulação do conhecimento a favor do capital. Existem ainda
outras teorias que discutem o capital humano como uma forma de seleccionar os indivíduos,
pouco contribuindo para a redução das desigualdades socioeconómicas e para o aumento dos
rendimentos pessoais como um todo. O exemplo disso pode-se citar a teoria da socialização, da
segmentação, a teoria credencialista (Screening Hypothesis), e a teoria do “filtro”. Para Almeida
e Pereira (2000), a teoria da socialização pressupõe que as pessoas sejam socializadas,
principalmente, na escola, com intuito de que sejam trabalhadoras e se comportem de maneira
conformada, estando sempre dispostas a aceitar e cumprir ordens, sendo pontuais e sabendo os
momentos de falar e de se calar.
Sadeck Filho (2001) em relação à teoria da segmentação, comenta que ela pode ser observada a
partir de dois indivíduos diferentes, em que ambos possuem as mesmas características em
relação à sua escolaridade, produtividade e até mesmo o tempo de serviço, mas que, mesmo
assim, recebem salários diferentes. Já o segundo grupo considera que as escolas seleccionam,
mas também socializam, sendo que os estudantes seriam seleccionados de acordo com sua
origem familiar e status socioeconómico, adquirindo experiência e tornando-se socializados em
um determinado tipo de actividade futura, de acordo com suas características. De acordo com
Almeida e Pereira (2000), os marxistas, críticos da teoria do capital humano, concordam que o
aumento da escolarização contribui para elevar a produtividade no trabalho, mas não por
proporcionar novos conhecimentos e habilidades.
Becker (1993), corrobora com a teoria do credencialismo quando menciona que o mesmo,
obviamente, existe. Mas, mesmo assim, poucas evidências apresentam de que não há associação
positiva entre rendimentos e escolaridade. Para ele, o principal problema do credencialismo é o
desinteresse das empresas no desempenho escolar dos indivíduos, privilegiando apenas as
habilidades específicas e seu desempenho na vida profissional, como agradar clientes,
relacionamento entre colegas, entre outras questões. A partir da teoria do credencialismo, surge a
Teoria do Sinal e a Teoria do Filtro, frutos da identificação de várias inconsistências nos diversos
trabalhos, que tinham por objectivo calcular as taxas de retorno de investimento em capital
humano, tanto de forma individual, quanto colectiva (ALVES, 2005).
1.4. A ABORDAGEM DE CAPITAL HUMANO E SEU EFEITO SOBRE O CRESCIMENTO
ECONÓMICO
O capital humano permite ao trabalhador obter rendimentos e melhorar sua condição de vida.
Além disso, Schultz (1964) afirma que aumentos nas aptidões adquiridas pelas pessoas no
mundo inteiro e avanços em conhecimentos úteis detêm a chave da futura produtividade
económica, bem como de suas contribuições ao bem-estar humano. Assim, o investimento em
capital humano determina as futuras perspectivas da humanidade, sendo que os factores
decisivos de produção para a melhoria do bem-estar das pessoas pobres são os avanços em seus
conhecimentos. Investimentos na assistência à infância, experiência no lar e no trabalho, na
aquisição de informações e aptidões por meio do ensino escolar, investimentos na saúde e na
educação melhoram significativamente as perspectivas económicas e o bem-estar das pessoas
pobres, impactando numa melhor condição de vida para toda a população.
De acordo com Schultz (1964), o investimento básico no ser humano se dá por meio da
educação. Segundo o autor, as pessoas valorizam as suas capacidades, tanto como produtores,
quanto como consumidores, pelo investimento que fazem em si mesmas. Sendo a educação a
melhor forma de se investir em capital humano, pois, enquanto o nível de bens de produção tem
declinado em relação à renda, o capital humano tem aumentado. Por isto para Schultz, sempre
que a instrução, associada com a educação, eleva as rendas futuras, há uma ampliação da
produtividade, considerando-se como resultado do investimento em capital humano.
Blaug (1975) também ressalta o impacto que a educação exerce sobre a economia, levando em
conta estes factores:
Blaug (1975), assim como Schultz, busca mostrar os benefícios advindos da educação, tomando
como exemplo a variação nos rendimentos dos trabalhadores. Para ele, em todas as economias,
existem diferentes proporções de remunerações entre indivíduos da mesma idade com diferentes
níveis de escolaridade. Mesmo diante dos possíveis benefícios futuros advindos de um maior
nível de educação, é importante ressaltar seu custo para adquiri-la. Segundo Schultz (1964), esse
custo é o custo de oportunidade, ou seja, o custo de deixar de ser remunerado por um período de
tempo, além do seu próprio custo com a educação, para buscar novos conhecimentos e aumentar
suas chances de obter melhores resultados/rendimentos no futuro. Ainda é importante considerar
que esse futuro é incerto, uma vez que não se consegue obter precisão em sua previsão.
Para Schultz (1964), a investigação do valor económico da educação revela partes suplementares
importantes do processo da acumulação do capital e crescimento, influenciando na sua
mensuração e na possibilidade de planeamento dos países para o seu progresso económico. Para
analisar essa questão, faz-se necessário entender se há algum benefício de crescimento aos países
oriundos do investimento na educação. Nos estudos de Schultz (1964), são identificadas
pesquisas que demonstram indícios de forte associação entre nível de educação e aumento nos
rendimentos individuais e nacionais. Esse nível de associação é a chave para equilibrar a
distribuição da renda pessoal. Dessa forma, o investimento em educação seria uma alternativa
para a redução das desigualdades económicas.
Para Becker (1993), é mais fácil quantificar o lado monetário, bem como os resultados ou
benefícios advindos do capital humano. Porém há outros aspectos a considerar, pois a educação
promove resultados positivos na área da saúde, por exemplo, uma vez que indivíduos mais
conscientes tendem a desenvolver actividades de prevenção a doenças.
Há, também, resultados positivos no nível de democracia da sociedade, fazendo com que os
indivíduos interajam de forma mais consciente com seus governantes, maior conhecimento de
políticas de controle de natalidade. Enfim, a educação propicia resultados positivos tanto no
contexto económico (benefícios monetários), quanto no político, social e cultural, (não
monetários).
Becker (1993), da mesma forma, alega que o capital humano é um conjunto de capacidades
produtivas que uma pessoa pode adquirir devido à acumulação de conhecimentos gerais ou
específicos que podem ser utilizados na produção de riqueza. Assim, sua principal preocupação é
decorrente de que os indivíduos tomam a decisão de investir em educação, levando em conta
seus custos e benefícios, atribuindo, entre estes melhores rendimentos, maior nível cultural e
outros benefícios não monetários.
Deste modo, o nível de capital humano de uma população influencia o sistema económico de
diversas formas, com o aumento da produtividade, dos lucros, do fornecimento de maiores
conhecimentos e habilidades, e também por resolver problemas e superar dificuldades regionais,
contribuindo com a sociedade de forma individual e colectiva. Por este facto, para Schultz
(1964), há duas formas de se mensurar ou dimensionar o capital humano entre diferentes regiões:
A partir desta análise Schultz (1964), passou a utilizar um conjunto de factores para mensurar e
compreender o processo de formação de capital humano, considerando cinco categorias de maior
importância: recursos relativos à saúde e serviços; treinamento realizado no local do emprego;
educação formalmente organizada nos níveis elementar, secundário e de maior elevação;
programas de estudos para os adultos; migração de indivíduos e de famílias. Para medir o
estoque de educação (capital humano), o autor leva em conta três aspectos:
• a) Anos de escola completados: neste aspecto, porém, tal medida deixa de considerar o
aspecto qualitativo da educação, o que pode gerar falhas de mercado.
Nesta senda, Becker (1993), afirma que o capital humano de um indivíduo é formado pelos
investimentos, com intuito de melhorar a sua habilidade produtiva e seu estoque de
conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, especialmente pelo seu nível de escolarização, de
aprendizado, entre outros. Ou seja, o autor justifica a razão pela qual esse capital é considerado
como de carácter humano, uma vez que o fato de ser humano é devido à impossibilidade de
separar do indivíduo o seu conhecimento, sua habilidade, saúde e outras formas que podem
definir esse tipo de capital. Entre os principais factores que integram o capital humano estão a
saúde, a migração e, de forma especial, a educação. Como exemplo, Becker refere-se aos
diversos estudos e pesquisas empíricas quantitativas, que evidenciam a disparidade de
rendimento entre pessoas mais qualificadas e menos qualificadas, argumentando que a maioria
dos estudos atribui ao capital humano a explicação de grande parte do crescimento económico de
longo prazo de alguns países ou regiões.
Corroborando com os apontamentos de Schultz e Becker, Blaug (1975) reitera que a economia
da educação está atrelada não somente aos problemas de custeio e financiamento das escolas,
mas também a questões como a migração dos trabalhadores, estrutura da força de trabalho,
treinamentos no próprio trabalho, formas de selecção e promoção dos empresários, distribuição
da renda pessoal e da perspectiva de crescimento económico. Entre os indicadores mais
utilizados para se mensurar capital humano, estão a média de escolaridade por região e faixa
etária, o percentual da população que possui o nível primário, secundário, médio ou superior e o
número de matrículas por categoria de estudo.
Em síntese, a abordagem do capital humano estabelece uma relação intrínseca e causal entre a
qualificação dos indivíduos e a expansão da riqueza nacional. Ao tratar a educação e a saúde não
como meros consumos sociais, mas como investimentos estratégicos, conclui-se que o
crescimento económico sustentado é diretamente proporcional à capacidade de um país em
potenciar as competências da sua força de trabalho, gerando ganhos de produtividade e inovação
a longo prazo.
Nesta perspectiva, o Governo angolano tem vindo a mostrar “algumas” intenções sendo que o
compromisso político do Estado Angolano para com a Educação de Qualidade para Todos,
remonta desde Março de 1990, mas infelizmente, esta pretensão não tem vindo a se reflectir nos
orçamentos que o mesmo Estado tem vindo a disponibilizar para o presente sector.
Para o efeito, fazemos uma revisão das políticas orçamentais implementadas no sistema
educativo em Angola a partir do ano 2002 até à actualidade (UNICEF, 2018, p.8).
Em sustentação ao exposto, ainda, Giddens (2004) salienta que “(...) a educação envolve
questões políticas, económicas, sociais e culturais complexas” (p.944). Então, as principais
decisões institucionais por serem políticas e económicas, têm grande parte de resolução destes
desafios o Governo.
De facto, são vários os autores que, adoptando uma perspectiva crítica na análise do investimento
que se faz ao sistema educativo em Angola, denunciam a falta de vontade, por parte do poder
político como por exemplo como refere Ferreira (2013) a situação de ausência de uma política de
educação, não tem como causa o pouco conhecimento da situação real do funcionamento da
educação no território ou a falta de conhecimento do rumo a seguir, mas antes a falta de
empenhamento e decisão a nível político. Na intenção de melhorar essa adopção desencontrada,
tendo em conta o que é recomendado pela UNESCO, o que recomenda melhoria no Investimento
a esse Sector.
Para um melhor entendimento, procuramos compilar os orçamentos dos anos que nos
propusemos analisar, como segue abaixo:
Gráfico 1.
Orçamento (%)
10,47%
7,91% 7,91%
7,14%
6,24%
5,61%
5,19%
3,82%
Analisando outros indicadores como se observa no Orçamento atribuído à Educação, está muito
abaixo da média da SADC e aquém da proposta mundial, 20% (Forom Mundial de Educação,
2000). É necessário reflectir seriamente sobre os investimentos voltados para a educação.
No quadro desta observação, facilmente se constata que a educação em Angola esta relegada
para o segundo plano, enfrentando enormes desafios, por isso, investir nela é um imperativo
inegável.
Gráfico 2.
8,90% 8,80%
8,10% 8,18% 8,30% 8,30%
6,60%
6,16%
5,83% 5,83%
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019
Olhando para o gráfico acima, podemos claramente notar que de 2018 à 2019 foram os anos que
a dotação orçamental para o sector da educação mais registou declínio, o que, constitui
grandemente constrangimentos no seu desnvolvimento.
Analisando o gráfico, podemos entender que estamos muito aquém dos 20%, estipulado nos seus
compromissos internacionais (Compromisso de Dakar, 2000). Analisando ainda o mesmo gráfico
n° 2, é possível verificar que em 2015, foi o ano em que a dotação orçamental para educação
aumentou, mas ainda a sua despesa excedeu o valor orçamentado.
Gráfico 3.
Orçamento %
7,73%
6,92%
6,47% 6,40%
Observando o gráfico acima, podemos verificar que os orçamentos são oscilantes, ou seja, o mais
baixo verificou-se 2022, com uma percentagem de 6,4%, valor aproximado ao orçamento de
2020 com 6,47, verificou-se uma redução de 0,07%, estas oscilações no sentido descendente, o
não geram crescimento assim como desenvolvimento no sistema educativo.
O valor orçamental alto verificou-se no ano de 2023 com uma percentagem de 7,73%. É lícito,
afirmar que relacionando o orçamento de 2022 com o de 2003, contata-se que há um incremento
de 1,33%, que julgamos insignificante tendo em conta os inúmeros desafios do sector. "é
necessário rever a dotação deste sector, uma vez que a educação é fundamental Para garantir o
capital humano necessário para o crescimento do pais" (OGE, 2023).
Os resultados da sondagem de todos os dados apresentados ao longo dos anos que nos propomos
analisar, oscilam entre 3,82% a 10,47%. E esta é a percepção que os angolanos têm da sua
educação e das políticas que nela são implementadas.
Os resultados da sondagem de todos os dados apresentados ao longo dos anos que nos propomos
analisar, oscilam entre 3,82% a 10,47%. E esta é apercepção que os angolanos têm da sua
educação e das políticas que nela são implementadas.
Yosvany, Inidia, Acácio (2024), salientam que, devemos banir os velhos preconceitos
relacionados com a centralização, o que em muitos casos corrói a fiabilidade de estabelecer
acordos com padrões de qualidade estabelecidos pela Organização Internacional. Desta forma,
podemos reafirmar que o impacto dos sistemas educativos é fundamental para o
desenvolvimento do País, tendo em conta os aspectos significativos.
Assim sendo, o investimento em capital humano deve ser feito preferencialmente por iniciativa
do Estado, por se tratar de uma estratégia de governo decorrente de políticas públicas, visando a
promoção do desenvolvimento, deve ser assumida e desenvolvida por este, a fim de direccionar
os objectivos que serão alcançados no futuro, e não apenas por interesse do mercado. Deste
modo, o desenvolvimento económico é resultante de investimentos feitos não só no sector
económico, como também no sector social tal como afirma Sachs (2015), o desenvolvimento
económico depende de investimentos, por exemplo, em infra-estruturas, com a construção de
estradas, portos, e vias de comunicação, porém, argumenta ainda que, o mais importante
investimento é na própria população, especialmente nas crianças, na formação do capital
humano, do mesmo modo que, o capital físico pode ser acumulado, o capital humano, individual
ou colectivamente também pode ser acumulado.
Países como a Noruega, Coreia do Sul e Canadá, perceberam que, mais importante do que os
recursos naturais, seria então a aposta na qualificação dos recursos humanos, pois em termos
competitivos neste período de pós-modernidade, a vantagem de um país sobre o outro sendo
melhor educado e formado aproveita ao máximo as tecnologias existentes. (MORAES, 2016).
A Constituição da República de Angola de 2010, no seu artigo 21º, consagra de forma minuciosa
o compromisso do Estado para com a população no que toca a Educação. Dentre os pontos
constantes neste artigo, pode-se citar aqueles que convergem com o objectivo do trabalho⁵:
Assim sendo, torna-se imperioso o governo fazer investimentos cada vez mais na qualidade de
ensino e não em quantidade de Instituições de Ensino com níveis cada vez menores. Pois a
ignorância do factor qualidade reflecte negativamente no processo de crescimento e
desenvolvimento económico sustentável do país, causando estrangulamento de modo geral no
país, sabendo que o capital humano é o recurso mais importante de qualquer sociedade.
2.2.1. Abordagem no contexto angolano
Estudar a questão da formação académica não é um processo simples quando o foco é um país
subdesenvolvido, e torna-se mais difícil quando este país antagoniza as variáveis "Qualidade e
Quantidade" causando hostilidade ao sistema de ensino de modo geral, como é o caso de Angola.
Discutir estas duas variáveis, obriga-nos analisar os discursos dos ex-presidentes de Angola, de
modo a identificar até que ponto, ambos convergiram e qual foi o nível de praticidade daquilo
que por eles foi proferido. Neste âmbito Agostinho Neto a quando da proclamação da
independência de Angola em 1975, sublinhou que o país precisava de quadros qualificados para
manter a economia num ritmo crescente ao longo do tempo.
Convergindo com esta abordagem, Dos Santos no seu discurso em 1979 completou a ideia de
seu antecessor argumentando que:
Neste âmbito, sempre houve claras intenções de se fazer investimentos sérios no sistema de
ensino nacional de modo a alavancar a economia do país, porém as intenções limitaram-se nos
discursos, ou seja o que potencialmente seria um sector estrategicamente usado para resolução
dos problemas económicos e sociais do país, passou a ser um dos maiores problemas, pois parece
que o governo não fez os investimentos necessário para tornar forte e competitivo o sistema de
ensino em geral.
Tendo Dos Santos, assumido em seu discurso a 15 de Outubro de 2013, que 79% das crianças
tinham acesso ao ensino, isto é, 7,4 milhões de alunos matriculados no sistema de ensino não
universitário, dos quais 5,1 milhões no ensino primário e 2,3 milhões no ensino secundário. A
meta era elevar a taxa líquida de escolaridade para cerca de 100%, facto que para além de estar
muito distante da efectivação, permitiu que o maior investimento nesse sector fosse direccionado
para a variável quantidade, deixando para lá o aspecto qualitativo, tal como deixa transparecer
Dos Santos (2012), argumenta ainda que nos últimos dez anos Angola atingiu os lugares
cimeiros da África subsaariana em termos de estabelecimentos de ensino, pois abriu-se, no país
17 universidades e 44 institutos superiores. Indo além, José Eduardo dos Santos argumenta que
houve investimento equivalente a mais de 480 milhões dólares em 53 novas instituições
escolares para o ensino secundário técnico-profissional.
A valorização dos angolanos, a ideia de torna-los cada vez mais capazes pela via da escolaridade
e da formação profissional e a académica de modo a atingir níveis elevados de bem-estar e de
realização profissional afim de poderem prestar um contributo mais qualificado ao
desenvolvimento económico e social, não passava certamente pela abertura desordenada de um
número elevado de instituições de ensino, quer universitário, quanto não universitário. Basta
olharmos para a actual realidade de Angola, pois desde o alcance da independência até aos dias
de hoje tem-se notado que as qualidades das instituições se têm degradado. Tendo como
consequência uma fraca qualidade do ensino como um todo.
Começou-se a investir para aumentar a quantidade, agora impõe-se que haja mais investimento
para melhorar a qualidade do ensino prestado nas nossas escolas.
A variável quantidade não é um problema no seu todo, pois deve o governo manter foco na
erradicação do alfabetismo, porém sugere-se uma atenção especial a variável qualidade uma vez
que tem se verificado um forte desacompanhamento das referidas variáveis, ou seja, deve será
dotado pelo governo um padrão qualitativo de nível internacional que pudesse tornar o sistema
nacional de ensino competitivo a nível regional e internacional.
O governo deveria tomar as decisões mais assertivas para mudar as políticas do sistema de
ensino do país, no entanto não o fez atempadamente e Angola incorreu no fracasso, não sendo o
seu ensino reconhecido pela UNESCO. Desta feita, percebe-se que tanto Agostinho Neto, quanto
José Eduardo Dos Santos não tiveram aplicabilidade dos seus discursos causando hostilidade
entre o que se foi dito, e o que efectivamente foi aplicado.
Conclui-se que a análise dos investimentos no setor educacional em Angola revela um cenário de
desafios estruturais, onde a oscilação das dotações orçamentais, muitas vezes dependentes das
receitas petrolíferas, condiciona a continuidade das políticas públicas. Embora existam esforços
para aumentar a cobertura escolar, a eficiência do gasto público ainda enfrenta barreiras que
limitam a transformação total desses recursos em capital humano produtivo, evidenciando a
necessidade de uma gestão financeira mais resiliente e focada na qualidade do ensino.
O Plano de Desenvolvimento do Capital Humano (PDCH) 2023-2037 não deve ser lido como
um mero plano sectorial de educação, mas como uma tentativa de ruptura com a "Doença
Holandesa" que historicamente fustiga Angola. Academicamente, a trajetória económica do país
tem sido definida por um modelo de enclave petrolífero, onde o crescimento do Produto Interno
Bruto (PIB) apresentava uma correlação nula com a criação de empregos qualificados. Este
plano surge, portanto, como uma ferramenta de "Semeação do Petróleo" em ativos humanos.
O impacto económico destes programas deve ser analisado através de três dimensões principais:
Uma análise académica honesta não pode ignorar os riscos de falha sistémica que ameaçam a
eficácia do PDCH:
Contudo, uma análise criticista e hermenêutica do documento revela que a viabilidade desta
"grande transformação" enfrenta barreiras estruturais que transcendem a excelência do
planeamento técnico, residindo fundamentalmente na dialética entre a ambição das metas como
os 739 mil diplomados no ensino técnico até 2037 e a fragilidade institucional de um Estado
cujas receitas fiscais permanecem reféns da volatilidade extrema do mercado internacional de
commodities. A crítica incide, primeiramente, sobre o risco de um "fetichismo do diploma",
onde a obsessão pelo cumprimento de indicadores quantitativos de escolarização possa eclipsar a
qualidade substantiva do ensino, resultando numa inflação de certificados sem a devida
proficiência operacional, o que geraria um desajuste estrutural (mismatch) entre as expectativas
dos graduados e a capacidade de absorção de um setor privado ainda embrionário e dependente
do investimento público.
Além disso, a conclusão crítica deve sublinhar a lacuna existente na articulação entre a formação
e a infraestrutura tecnológica das instituições, pois o plano pressupõe uma rápida digitalização e
modernização de laboratórios que exige fluxos constantes de moeda estrangeira, muitas vezes
escassa em períodos de baixa do preço do petróleo, o que pode condenar as escolas técnicas das
províncias periféricas a uma obsolescência precoce em relação ao eixo Luanda-Benguela,
aprofundando as assimetrias regionais que o plano teoricamente visa mitigar. Outro ponto de
tensão dialética reside na "Alfabetização Dual" e na educação de adultos; embora o foco na
empregabilidade imediata seja pragmático, corre-se o risco de reduzir o cidadão a uma mera
função técnica de subsistência, negligenciando a formação humanística e crítica necessária para a
consolidação de uma cidadania ativa e participativa no processo de governação. Em última
análise, o impacto económico do PDCH só será maximizado se o Estado angolano conseguir
blindar o financiamento do capital humano contra os ciclos políticos e económicos de curto
prazo, garantindo que a Unidade Técnica de Gestão (UTG/PNFQ) possua autonomia real para
corrigir os desvios de execução identificados na monitorização permanente. A conclusão
académica final é que o plano é um instrumento de soberania necessário, mas a sua eficácia não
será medida pela quantidade de salas de aula construídas, mas pela capacidade de Angola em
criar um ecossistema de inovação interna que retenha os cérebros formados e converta o
conhecimento em desenvolvimento humano real, dignidade social e estabilidade
macroeconómica duradoura