ISSN 2177-3688
GT – 10 – Informação e Memória
DOCUMENTOS DE ARQUIVO NA FILMOGRAFIA BRASILEIRA SOBRE A DITADURA MILITAR:
USOS E RESSIGNIFICAÇÕES
ARCHIVAL DOCUMENTS IN BRAZILIAN PHILMOGRAPHY ON MILITARY DICTATORSHIP: USES
AND RESIGNIFICATIONS
Rafael Augusto Mendes Rosa – Universidade de Brasília
Georgete Medleg Rodrigues – Universidade de Brasília
Miriam Paula Manini – Universidade de Brasília
Modalidade: Resumo Expandido
Resumo: Este trabalho apresenta parte dos resultados de pesquisa de mestrado em Ciência
da Informação. Com base em um corpus de 45 filmes produzidos entre 1985 e 2014,
relacionados à ditadura militar no Brasil (1964-1985), a investigação buscou identificar os
usos de documentos de arquivo nos filmes selecionados. Como parâmetro de análise
adotou-se a proposta de Antoine Germa que consiste em quatro categorias: documentos de
arquivo como marco do real; como elemento de distanciamento; como elemento de
falsificação; e como elemento de contaminação da ficção. Conclui que os documentos de
arquivo são usados majoritariamente como marco do real.
Palavras-Chave: Documento de arquivo; filmografia; ditadura militar.
Abstract: This paper presents part of the research results from the master's degree in
Information Science. Based on a corpus of 45 films produced between 1985 and 2014,
related to the military dictatorship in Brazil (1964-1985), the investigation sought to identify
the uses of archival documents in the selected films. As an analysis parameter we adopted
Antoine Germa's proposal which consists of four categories: archival documents as a
landmark of the real; as a distancing element; as an element of forgery; and as an element of
contamination of fiction. It concludes that archival documents are mostly used as a landmark
of the real.
Keywords: Archival document; filmography; military dictatorship.
XX ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO – ENANCIB 2019
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1 INTRODUÇÃO
Os documentos de arquivo têm sido cada vez mais utilizados nas narrativas
cinematográficas, mais do que em qualquer outra época (MARTINEZ; SILVA, 2012; MELLO,
2012; PENKALA 2012). Esse uso, principalmente dos documentos iconográficos, se dá em
documentários e, também, em ficções (BIZELLO, 2011), o documento de arquivo servindo de
suporte para a criação artística, prática que vem se tornando mais comum e que promove
discussões no âmbito da Arquivologia, conforme apontado por Yvon Lemay:
[...] o uso de material de arquivo para fins criativos tornou-se uma prática
cada vez mais difundida tanto no meio artístico quanto em toda a cena
cultural. E, enquanto ajuda a desafiar o quadro habitual de arquivos e suas
utilidades sociais, o uso de arquivos para fins criativos permite que a
disciplina arquivística seja vista de uma nova perspectiva. (LEMAY, 2014,
p.7, tradução nossa).
Como representante dos fatos e ações que induziram a sua produção, o documento
de arquivo pode confirmar ou negar o que está sendo narrado nos filmes, tanto quanto
utilizados para concebê-los. Pode, ainda, afastar-se do fato de sua produção, como
distanciamento do real, e servir para separar momentos dentro das narrativas: realizar
cortes temporais, separar falas de personagens e entrevistados ou ilustrar o que está por vir.
Tais usos podem coexistir na mesma narrativa, inclusive para provar uma fala e negar outra.
Assim, o objeto de estudo do presente trabalho é a filmografia brasileira lançada
entre os anos de 1985 e 20141, sobre a ditadura militar no Brasil (1964-1985), que se serviu
de documentos de arquivo para criar sua narrativa. O recorte temporal escolhido se justifica
porque há um certo consenso de que 1985 marca o fim da ditadura militar e o ano de 2014
permite incluir filmes produzidos após dois anos da entrada em vigor da Lei nº 12.5272 e da
Lei nº 12.5283, ambas de 18 de novembro de 2011.
1
Desde o final da ditadura já havia filmografia sobre o período e a Lei nº 12.527 e Lei nº
12.528, ambas de 18 de novembro 2011, podem ter facilitado o acesso aos documentos de arquivo
e, portanto, induzido os diretores ao uso de documentos de arquivo nos filmes.
2
Lei nº 12.527: regula o acesso a informações, previsto no inciso XXXIII do art. 5o, no inciso II
do § 3 do art. 37 e no § 2o do art. 216 da Constituição Federal; altera a Lei no 8.112, de 11 de
o
dezembro de 1990; revoga a Lei no 11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei no 8.159, de 8
de janeiro de 1991; e dá outras providências.
3
Lei nº 12.528: cria a Comissão Nacional da Verdade no âmbito da Casa Civil da Presidência
da República.
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Visto que o cinema, um possível objeto de estudo da Ciência da Informação (CI), é
uma “fonte profícua no tocante ao debate sobre o conceito de informação e documento”
(NASCIMENTO, MARINHO, PINHO, 2015, p. 18), que permite o entendimento de aspectos
sociais, culturais e políticos das comunidades, o registro de memórias e o seu posterior
compartilhamento (NASCIMENTO, MARINHO, PINHO, 2015, p. 18), a pesquisa que originou a
presente comunicação buscou identificar os usos e ressignificações dos documentos de
arquivo na filmografia brasileira a respeito da ditadura militar (1964-1985).
Assim, a pesquisa buscou responder como os documentos de arquivo são usados e
ressignificados na produção cinematográfica sobre o período da ditadura militar (1964-1985)
no Brasil e, decorrente da pergunta, o objetivo geral da pesquisa consistiu em identificar os
usos de documentos de arquivo na filmografia brasileira produzida de 1985 a 2014 sobre a
ditadura militar no Brasil (1964-1985) e em que medida tais arquivos são ressignificados no
contexto dos filmes.
Os objetivos específicos consistiram nas etapas de identificação e seleção, dentre os
filmes levantados, daqueles que usaram documentos de arquivo nas narrativas sobre a
ditadura, seja documentário ou ficção; as razões do uso dos documentos de arquivo pelos
diretores e como se deu o acesso a esses registros; identificar, nos filmes selecionados, os
documentos de arquivo (tipologias e suportes), as instituições e os fundos consultados.
2 USOS E RESSIGNIFICAÇÕES DE DOCUMENTOS DE ARQUIVO NO CINEMA
A qualquer momento, desde que recuperado, o documento de arquivo pode ser
redescoberto, relido – como uma memória que cochila, em latência (SAMAIN, 2012, p. 160)
– e possibilitar o entendimento e reelaboração do passado que representa, especialmente,
quando aliado a outras fontes. Os documentos de arquivo podem até não configurar,
sozinhos, a restauração de memórias. O usuário, apoiado em suas percepções e objetivos,
apreciará o documento, provavelmente considerando outras fontes, orais ou não, e tomará
sua posição acerca do tema tratado. Assim, o sentido não se limitará ao que está
representado no documento: a percepção dos indivíduos e o contexto histórico, com o qual
tiveram contato, terminarão por nela refletir. Ainda, incidirão silêncios e não ditos, em um
enquadramento de memória que “reinterpreta incessantemente o passado em função dos
combates do presente e do futuro” (POLLAK, 1989, p. 8).
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Quando presentes nos filmes, os documentos ganham possibilidades de
reinterpretação, uma vez que a demarcação das memórias acontece pela conjunção do
visível e do não visível, conforme Michael Pollak (1989). Acrescentando à peculiaridade do
filme o caráter histórico, informativo e de prova do documento e a sua capacidade emotiva
e identitária, o diretor potencializa as habilidades da obra e dos documentos e facilita, por
intermédio da linguagem fílmica, a busca da verdade. Tarefa que Ana Paula Penkala (2012)
atribui às imagens de arquivo e, aqui, estendida aos demais documentos.
Antoine Germa (2015) classifica o que ele denomina de prática de inserção de
documentos de arquivo nos filmes da seguinte forma: os arquivos como marca do real
(2015a); os arquivos como elemento de distanciamento (2015b); os arquivos como elemento
de falsificação pela ficção (2015c); e os arquivos como elemento de contaminação da ficção
(2015d).
Ao falar da marca do real, Germa (2015) os caracteriza como fato, algo passado, ou
seja, um meio de prova. Nesta categoria, a representação do documento de arquivo possui o
objetivo de confirmar o narrado, promovendo o retorno memorialístico da história que
sensibiliza os espectadores, de alguma forma (GERMA, 2015a).
Já o emprego dos documentos, como elemento de distanciamento, caracteriza a
separação de momentos dentro da narrativa. Postos aqui, geralmente para demarcar o real
do que é ficção, engendram um distanciamento entre o que aconteceu e o que o cineasta
gostaria que acontecesse – e que é narrado no filme. O documento de arquivo é aplicado
para demarcar um momento que precede outro, dentro da mesma narrativa (GERMA,
2015b).
A aplicação como elemento de falsificação é aquela na qual o documento é
deturpado pela narrativa, fazendo com que as imagens de arquivo digam algo que elas não
expressam ou de maneira que o próprio documento de arquivo contradiga elementos da
narrativa. O cineasta apoia, aqui, o sentido que ele quer conferir ao filme, convencendo o
telespectador da tese que defende (GERMA, 2015c).
Por último, sempre presentes no filme, os documentos de arquivo como elemento de
contaminação da ficção, onde eles dão forma à narrativa. O jogo de metáforas e a linguagem
fílmica se dá precisamente quando ambos se misturam (GERMA, 2015d).
A análise do uso e da ressignificação dos documentos de arquivo, foi efetuada, então,
de acordo com as categorias: marco do real – prova do que está sendo narrado pelo filme;
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elemento de distanciamento – forma de separar a narrativa fílmica da realidade; elemento
de falsificação – meio de contradição à narrativa; e elemento de contaminação – forma de
encadear a narrativa.
Os procedimentos metodológicos da pesquisa consistiram no levantamento dos
filmes relacionados à ditadura e na aplicação de um formulário. Como ponto de partida,
foram adotados os resultados preliminares de pesquisa realizada em disciplina de graduação
sobre a produção fílmica brasileira sobre a ditadura militar no Brasil, até 2014. Esse primeiro
levantamento foi complementado, para a dissertação de mestrado, com outros filmes sobre
a ditadura encontrados nas plataformas e redes sociais voltadas à crítica fílmica, como os
sítios Adoro Cinema, Omelete e Filmow; na Agência Nacional do Cinema (ANCINE); e,
também, em artigos, dissertações e teses que analisam filmes sobre o período. Um
formulário foi elaborado para identificar os usos dos documentos à medida que esses
apareciam no filme, segundo as dimensões apontadas por Germa: documento usado para
negar uma fala ou depoimento, a “falsificação da ficção”, era apontada como motivo de uso;
quando surgia um documento comprovando o narrado, foi considerado como sendo o
“marco do real”; nas ocasiões de separação de cenas por documentos de arquivo, era a
“demarcação do real”; e quando o uso ocorria para formar a narrativa ou quando não se
distinguia o documento da narrativa, considerava-se a categoria “contaminação da ficção”.
3. O RESULTADO DA ANÁLISE SOBRE O USO DE DOCUMENTOS, NA QUALIDADE DE MARCO
DO REAL, DE FALSIFICADOR DA FICÇÃO, DE DEMARCADOR DO REAL E DE CONTAMINADOR
DA FICÇÃO.
Da amostra de 45 (quarenta e cinco) obras, 39 (trinta e nove) usaram, como marco
do real, os documentos para avalizar as narrativas, as várias histórias contadas nos filmes e o
depoimento dos personagens e entrevistados. Delas, 7 (sete) recorreram aos documentos
como meio de falsificação na ficção, ao desmentir a narrativa com o documento ou
contradizer o documento por meio dos depoimentos. Apenas 2 (dois) se valeram dos
documentos como demarcação do real para separar diferentes momentos do filme. O último
modo de uso, o da contaminação da ficção, é onde o documento arquiteta a narrativa.
Nos filmes analisados, 24 (vinte e quatro) lançam mão dessa forma de uso. É o caso
da obra Castelar e Nelson Dantas no país dos generais (2008), que se valeu de outros filmes
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para formar a história do cinema mineiro, no período do regime militar. Ao responder ao
nosso questionamento sobre uso de documentos de arquivo no seu filme, o diretor, Carlos
Alberto Prates, justificou que a obra não tratava da ditadura militar e que, para realizá-la,
não utilizou documentos de arquivo. O entendimento do cineasta é compreensível uma vez
que a repressão militar não aparece em primeiro plano, o filme não trata de aspectos
centrais do período, mas de produções da época da ditadura. Dada a especificidade de se
valer majoritariamente de obras de ficção, o realizador não reconhece o uso de documentos
de arquivo em Castelar e Nelson Dantas. Apesar de ele acreditar não ter usado documentos
de arquivo, ainda assim constam nos créditos: o Arquivo Nacional, o Canal Brasil e o Centro
de Referência Audiovisual. Feitos apenas de documentos de arquivo, o ponto relevante é
que Castelar e Nelson Dantas no país dos generais (2008) e Ação entre amigos (1998), de
Beto Brant, foram os únicos a trabalhar, exclusivamente, com a dimensão contaminação da
ficção.
Ação entre amigos, ao contrário de Castelar e Nelson Dantas no país dos generais,
pouco utiliza documentos de arquivo. O diretor Beto Brant, como ele mesmo afirma,
recorreu a documentos de arquivo apenas para a concepção dos créditos iniciais do filme. A
razão da classificação, nessa categoria, deve-se ao fato de os documentos se confundirem
com a própria narrativa. A forma escolhida, aliás, deixa dúvidas ao espectador, que pode não
perceber a presença dos documentos de arquivo e pensar que são apenas efeitos artísticos.
Ainda que não estejam presentes no filme, Beto Brant inseriu os documentos nos créditos,
de modo que a arte da obra reside justamente no tratamento imagético dos documentos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O uso dos documentos de arquivo tem se ampliado consideravelmente, pelo menos
nos filmes sobre a ditadura militar, como constatado na pesquisa e em sua bibliografia. Entre
os gêneros documentais mais requisitados para a composição dos filmes analisados, figuram
documentos iconográficos e filmográficos – ou seja, imagens fixas ou em movimento – como
aponta Maria Leandra Bizello (2011).
Portanto, os documentos de arquivo, na qualidade de vestígios do passado, animam o
desenvolvimento da filmografia relacionada à ditadura militar brasileira, endossando a
recuperação de memórias silenciadas, fortalecendo ou contradizendo os depoimentos dos
entrevistados nos filmes. Pela análise, os documentos de arquivo foram ressignificados mais
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vezes como marca do real, seguido das demais categorias de Antoine Germa: contaminação da
ficção, falsificação pela ficção e elemento de distanciamento.
Na esteira de Caroline Sodré e Cynthia Roncaglio (2016), hoje não é possível a
dissociação da recuperação de memórias da materialidade da informação, para o que é
necessário discutir e estimular cada vez mais constantemente o acesso aos documentos de
arquivo, principalmente àqueles acumulados pelo estado brasileiro no período da ditadura e
em momentos de repressão e autoritarismo.
REFERÊNCIAS
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[Link] Acesso em: 23 nov. 2018.
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no inciso XXXIII do art. 5º, no inciso II do § 3º do art. 37 e no § 2º do art. 216 da Constituição
Federal; altera a Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990; revoga a Lei nº 11.111, de 5 de
maio de 2005, e dispositivos da Lei nº 8.159, de 8 de janeiro de 1991; e dá outras
providências. Brasil: Presidência da República, [2011]. Disponível em:
[Link] Acesso em: 07
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______. Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011. Cria a Comissão Nacional da Verdade no
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