Ana acordou com um peso estranho no peito. Não era tristeza. Não era felicidade.
Era algo entre as duas coisas, um
estado indefinido que a fez encarar o teto do quarto por alguns minutos antes de finalmente sair da cama. Já fazia um
mês e meio desde que começara seu estágio na Trindade Engenharia, e ela não era mais a mesma pessoa que havia
chegado ali insegura, sem saber como funcionava aquele mundo. Agora, ela entendia muito mais do que apenas as
regras do escritório. Entendia dinâmicas invisíveis. Entendia Tomás Trindade. E talvez, no fundo, esse fosse o real motivo
desse peso silencioso dentro dela. Porque entender Tomás significava enxergar coisas que ele mesmo tentava esconder.
67 E agora, depois daquilo, depois daquele jantar com Cecília, depois daquele jogo de poder que ela assistiu sem dizer
nada, Ana não sabia o que fazer com esse conhecimento. Mas uma coisa era certa: ela não era a mesma Ana que
começou esse estágio. E talvez nunca mais voltasse a ser. O escritório estava como sempre: organizado, calculado,
eficiente. Nada parecia diferente. Mas Ana estava. Quando abriu seu e-mail naquela manhã, encontrou uma nova
mensagem. Remetente: Cecília Norten Assunto: Retorno urgente "Ana, peça para Tomás responder minhas mensagens.
Preciso falar com ele sobre algo importante." Ana ficou olhando para o e-mail por um momento, sem saber se o
incômodo que sentia era racional ou completamente sem sentido. 68 Respirou fundo, pegou o tablet com a agenda do
dia e seguiu até a sala de Tomás. Ele estava concentrado em alguns documentos, como sempre, e nem ergueu os olhos
quando ela entrou. — Cecília enviou um e-mail. Quer que você responda as mensagens dela. Ele continuou escrevendo,
sem pressa, antes de finalmente responder: — Responda você. Algo genérico. Ana franziu a testa. — Algo genérico? Ele
fez um leve movimento de cabeça, confirmando. — Diga que estou ocupado e que falaremos outra hora. Ela piscou.
Esperava qualquer coisa, menos indiferença. Cecília era uma mulher intensa, determinada. Ela não era do tipo que
aceitaria ser ignorada. 69 E então, sem que ela precisasse perguntar, Tomás continuou: — Eu só fui ao jantar porque foi
uma forma de agradecê-la. Ela me deu os sapatos, então era educado da minha parte. Mas não há nada além disso. Ana
não sabia exatamente o que esperava ouvir. Mas não era isso. — Então... foi só isso? Ele finalmente ergueu os olhos,
analisando-a como se tentasse entender o motivo da pergunta. — Sim. Cecília é a irmã do meu melhor amigo. Eu gosto
dela, tenho respeito, carinho. Mas nada além disso. Ana assentiu lentamente. Era a resposta certa. A resposta racional.
Mas, por algum motivo, isso não diminuiu o incômodo. A tarde seguiu como qualquer outra. 70 Tomás tinha uma
reunião importante marcada, e Ana esperava do lado de fora da sala, revisando a agenda do dia seguinte, quando seu
telefone tocou. Ela estranhou. Quase ninguém ligava para ela durante o expediente. Atendeu sem pensar muito. — Ana
Motta, quem fala? — Aqui é da escola de Matheus Trindade. O menino caiu no recreio e se machucou. O mundo
pareceu girar um pouco mais devagar. — Ele está bem? — Sofreu um corte no joelho. Não foi grave, mas como não
conseguimos falar com o Sr. Tomás, achamos melhor informar alguém da empresa. Ana segurou o celular com mais
força. Olhou para a porta fechada da sala de reuniões. 71 Tomás estava no meio de algo importante. Ela sabia que ele
odiava interrupções, ainda mais quando se tratava de negócios. Mas Matheus... Matheus era diferente. Sem pensar
muito, tomou uma decisão. Foi até a recepção e encontrou Bete. — Avise Tomás que fui buscar Matheus no hospital.
Ele caiu na escola e se machucou. O rosto da recepcionista se transformou em preocupação. — Você tem certeza? Quer
que eu espere e avise quando ele sair? Ana balançou a cabeça. — Não. Ele vai querer saber que alguém já está
resolvendo isso. E, sem mais delongas, pegou a bolsa e partiu. 72 Matheus estava sentado na maca, com um curativo no
joelho e uma expressão de desinteresse absoluto. Ele olhou para Ana quando ela entrou e ergueu uma sobrancelha. —
Meu pai mandou você? Ana sorriu de leve e puxou uma cadeira. — Não exatamente. Mas estou aqui. Ele a estudou por
um momento, como fazia sempre. Então, relaxou um pouco. — Dói? — Ela perguntou. Matheus deu de ombros. — Já
doeu mais. Ana não sabia se ele estava sendo corajoso ou apenas tentando minimizar a situação. Mas então, baixinho,
ele soltou uma frase que a pegou de surpresa. 73 — Quando eu caía antes, minha mãe vinha me buscar. O coração dela
pesou um pouco. — Imagino que ela fosse muito boa com você. Ele assentiu. — Ela sabia contar histórias legais. Ana
sorriu. — E o que mais ela fazia? — Ela cantava quando eu não conseguia dormir. O silêncio entre eles foi diferente
depois disso. Menos desconfortável. Mais real. Foi então que a porta se abriu e Tomás entrou. Havia algo diferente nele.
74 O homem que sempre controlava tudo, que nunca demonstrava emoções desnecessárias, parecia... fora de controle.
Os olhos passaram imediatamente por Matheus e depois por Ana. Ela viu o alívio mascarado no fundo da expressão
dele. — Está tudo bem? — A voz saiu firme, mas com um leve resquício de preocupação. Matheus assentiu. — Foi só um
corte. Tomás suspirou, passando uma mão pelo rosto. Então, olhou para Ana. — Você veio sozinha? — Não ia esperar.
Ele não disse nada. Apenas assentiu, como se, pela primeira vez, aceitasse que alguém fizesse algo por ele sem que
fosse um problema. 75 Saíram juntos do hospital. O clima estava diferente. Quando Matheus pediu sorvete, Tomás não
recusou. Foram para uma sorveteria pequena, e, por um breve momento, nada parecia ter a ver com trabalho, negócios
ou contratos. Matheus ria mais do que de costume. Tomás parecia menos tenso. E Ana percebeu que gostava daquela
versão deles. Quando Tomás finalmente a levou para casa, perguntou onde ela morava. Quando chegaram, ele
observou a rua, as casas simples. Não fez comentários. Apenas olhou para ela. — Obrigado. 76 Foi a primeira vez que
ele agradeceu sem obrigação. E aquilo valeu mais do que qualquer jogo de poder. Ana desceu do carro. E, pela primeira
vez em muito tempo, sentiu que estava exatamente onde deveria estar. 77 CAPÍTULO 9 Na manhã seguinte, Ana chegou
à Trindade Engenharia sentindo que algo dentro dela havia mudado. O dia anterior não havia sido comum. P