O dia anterior não havia sido comum.
Passar tempo com Matheus, ver um Tomás diferente, mais humano, menos
calculista... tudo aquilo mexeu com ela de um jeito que ela ainda não sabia explicar. Enquanto organizava a agenda do
dia, sentiu o olhar de Bete sobre ela. A recepcionista sempre teve um faro apurado para tudo o que acontecia naquela
empresa. E, claramente, sabia que algo havia mudado. — Você foi até o hospital com Matheus. — Bete comentou,
casualmente, enquanto organizava alguns papéis. Ana ergueu os olhos, um pouco surpresa. — Fui. Ele caiu na escola, e
Tomás estava em reunião. Eu tomei a iniciativa. Bete sorriu, um sorriso que carregava mais significado do que parecia à
primeira vista. — Sabe, ninguém nunca teve contato com o filho do Tomás. 78 Ana franziu a testa. — Ninguém? —
Nenhuma secretária, nenhum funcionário. Matheus sempre esteve fora dos limites do escritório. E, de repente, ele
deixa você ir buscá-lo no hospital. Ana desviou o olhar para a tela do computador, tentando disfarçar o impacto daquela
informação. — Talvez ele só não tivesse outra opção. Bete soltou um riso baixo. — Ou talvez ele confie em você de um
jeito que não confia em mais ninguém. Ana não soube o que responder. Porque a possibilidade a deixava inquieta. E,
pior ainda, ela gostava disso. 79 O silêncio entre as duas permaneceu por alguns segundos antes de Bete continuar. —
Você já se perguntou sobre a mulher dele? Ana piscou. — O quê? — A mãe do Matheus. Você sabe alguma coisa sobre
ela? Ela hesitou. — Só que ele é viúvo. — Faz quatro anos. Ana sentiu um aperto no peito sem entender o motivo. — Ele
nunca se relacionou com mais ninguém depois disso? Bete deu de ombros. — Se aconteceu, ninguém ficou sabendo.
Tomás nunca foi o tipo de homem que compartilha sua vida pessoal. Ele mantém tudo sob controle, 80 sempre. Mas,
desde que a esposa morreu, nunca esteve com ninguém de forma pública. Ana absorveu aquela informação em silêncio.
E então veio a pergunta. A pergunta que ela sabia que viria, mas que ainda assim a pegou desprevenida. — Você gosta
dele? Ana travou. O jeito como Bete perguntou foi casual, mas o olhar dela dizia que já sabia a resposta. Ana forçou um
riso curto. — Claro que não. Bete arqueou uma sobrancelha. — Tem certeza? Ana desviou o olhar. 81 — Isso não tem
nada a ver comigo. — Se você diz. Mas Ana sabia que Bete não estava convencida. E, no fundo, nem ela mesma estava.
O dia seguiu normalmente até que, pouco antes do almoço, Tomás apareceu ao lado da mesa de Ana. — Preciso
resolver algo. Venha comigo. Ela piscou, confusa. — Para onde? — Você vai ver. Antes que pudesse protestar, ele já
seguia em direção ao elevador. Ela pegou sua bolsa e o acompanhou. Só percebeu para onde estavam indo quando ele
estacionou no shopping. 82 Ela franziu a testa. — O que estamos fazendo aqui? Ele desligou o carro e saiu, como se
fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Compras. Ela precisou de alguns segundos inteiros para processar. Quando
finalmente saiu do carro e o seguiu, ainda atordoada, disse a primeira coisa que veio à cabeça: — Se isso for sobre os
sapatos, eu já devolvi. Ele não a olhou, mas riu de leve. — Não é sobre os sapatos. — Então é sobre o quê? Ele parou em
frente a uma vitrine, analisando algumas peças. — Você foi ágil e competente ontem. Isso é um agradecimento. 83 Ela
cruzou os braços. — Não preciso de presentes. Tomás finalmente virou-se para encará-la. — E eu não preciso que você
precise. Ela bufou, exasperada. — Você tem essa mania de não aceitar recusas, não tem? Ele deu um meio sorriso. —
Sim. Antes que pudesse insistir mais, o celular dele tocou. Ele atendeu, e Ana percebeu que era Miguel. — E aí, como foi
a noite com Cecília? — A voz do amigo saiu bemhumorada do outro lado da linha. Ana tentou ignorar a própria
curiosidade. 84 Tomás revirou os olhos, exasperado. — Foi um jantar, Miguel. Não uma revolução. Miguel riu. — Ela
pareceu bem satisfeita. — Ela sempre parece satisfeita quando consegue algo. A resposta foi seca, mas havia algo mais
ali. Ana não pôde evitar perguntar. — Vocês se conhecem há muito tempo? Tomás olhou para ela e assentiu. — Desde a
infância. Nossos pais faziam negócios juntos. Crescemos no mesmo ambiente, passamos por muitas coisas juntos. Ele
sempre esteve por perto. Ana achou curioso o tom na voz dele. — Vocês são muito diferentes. 85 — Sim. Mas isso
nunca impediu nossa amizade. Miguel tem um jeito mais... diplomático. Eu sou mais direto. Ana sorriu de leve. — Isso é
uma forma educada de dizer que ele é um manipulador e você é um tirano? Tomás arqueou uma sobrancelha, mas não
negou. — Cada um com suas táticas. Ana gostou da forma como ele falou sobre Miguel. Havia respeito. Havia um
vínculo real. E, de alguma forma, aquilo a fez perceber que Tomás não era tão isolado quanto parecia. Mesmo sendo
fechado, mesmo carregando o peso da empresa sozinho, ele ainda tinha alguém em quem confiar. E isso dizia muito
sobre ele. Depois das compras e da conversa inesperada, o dia se encerrou com um clima diferente. 86 No carro,
enquanto voltavam para casa, Ana percebeu que estava sorrindo mais do que deveria. Havia sido um dia leve. Um dia
onde Tomás não foi apenas um CEO rígido e controlador, mas alguém que podia, de alguma forma, ser... normal. Mas o
clima mudou sutilmente quando ele estacionou na frente da casa dela. Ele observou o bairro simples, o tipo de lugar
que ele nunca teria imaginado que alguém como ela morava. — Você mora aqui? — Sim. Ele assentiu, pensativo. Então,
virou-se para ela. E, por um segundo, houve algo no olhar dele. Algo que não deveria estar ali. 87 Ana sentiu isso. O ar
parecia mais pesado, carregado de algo indefinido. Mas, então, ele desviou o olhar, apertando levemente os dedos no
volante, como se se segurasse. E, em vez de dizer qualquer coisa, apenas murmurou: — Obrigado. A voz dele não
carregava frieza. Carregava sinceridade. E aquilo valia mais do que qualquer outra coisa que ele poderia ter dito. Ana
desceu do carro, sentindo o peito apertado de um jeito novo. E, naquela noite, ela soube que estava perdida. Porque
Tomás Trindade não deveria ser um problema. Mas, a essa altura, ele já era