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Olhou para as palavras no papel.

Eram as mesmas que escrevera com cuidado dias antes, mas, de repente, pareciam
distantes, como se não fossem suas. Abriu a boca. Nenhum som saiu. Engoliu em seco. Tentou outra vez. A voz veio
fraca, quase um sussurro. — Os ecossistemas… — começou, mas parou. As frases seguintes se embaralharam na mente.
O papel tremia em suas mãos. Sentia os olhares dos colegas, alguns impacientes, outros compreensivos. O professor a
observava com calma, como quem dava tempo, mas cada segundo parecia um peso a mais. Finalmente, conseguiu dizer
algumas linhas, rápidas, sem olhar para ninguém. Não explicou o suficiente. Não havia voz, apenas palavras soltas, ditas
como quem pede desculpas por existir. Terminou antes do tempo. Entregou o papel ao professor e voltou ao lugar. O
coração batia como se tivesse corrido uma maratona, mas a sensação não era de vitória. Era de vazio. Na saída, alguns
colegas se aproximaram. — Você fala bem — disse uma das meninas, sorrindo. — Pena que não conseguiu dizer tudo.
Eun-ha sorriu de volta, sem resposta. Não havia resposta. Naquela tarde, não quis almoçar com ninguém. Caminhou
sozinha até o café escondido que costumava frequentar. Sentou-se no canto, diante da janela, e abriu o caderno. Não
para estudar — para escrever o que não dissera. 12 "Os ecossistemas dependem de equilíbrio. E o equilíbrio só
acontece quando cada elemento ocupa seu espaço, cumpre seu papel, mesmo que seja pequeno." Os ecossistemas
dependem de equilíbrio. E o equilíbrio não nasce de forças iguais competindo entre si, mas de cada coisa ocupando o
lugar que lhe pertence. A folha que cai não tenta ser árvore; o inseto que voa não inveja o rio que corre. Cada um
cumpre o que é próprio, e assim o todo permanece. Eun-ha pensava que a vida humana talvez fosse parecida. O vazio
não vinha de ter pouco, mas de não reconhecer o espaço que já lhe cabia. O mundo parecia apressado demais, cheio de
vozes que disputavam atenção. Mas, no fundo, talvez não fosse preciso competir por grandeza. Bastava permanecer fiel
ao que se é, ainda que pequeno. Talvez fosse justamente no cumprimento silencioso da própria função que nascia a
verdadeira harmonia. Como no mar, em que até os seres invisíveis sustentam a vida, também na existência as coisas
mais discretas podem carregar um peso que ninguém vê, mas sem o qual nada se sustentaria. Escreveu mais algumas
linhas, quase febril. E, quando terminou, olhou para as palavras com um peso doloroso: no papel, tudo estava claro; na
boca, tudo se desfazia. De repente, lembrou-se de Min-jun. Da sua voz firme no recital. Da frase dele, dita algumas
semanas antes: “Só queria ouvir você.” Percebeu que havia um abismo entre o que sentia e o que deixava transparecer.
13 E que, se continuasse calada, não só perderia oportunidades na universidade — poderia perder também a chance de
que alguém a amasse por inteiro. Naquela noite, voltou para o quarto, acendeu apenas a luminária da mesa e encarou o
espelho. Pegou o caderno e leu em voz alta as frases que escrevera. A voz saiu trêmula, baixa, quase sem corpo. Mas
saiu. Repetiu de novo. Depois outra vez. Até que o som, ainda imperfeito, começou a ocupar o quarto vazio. Foi então
que compreendeu: se o silêncio sempre fora sua forma de permanecer, agora a vida começava a pedir outra coisa —
uma voz, mesmo pequena, que tivesse coragem de existir. 14 Capítulo 3 – Coisas que voltam O auditório não era
grande. Algumas cadeiras dobráveis, um microfone simples, uma fileira de estudantes que se revezavam para ler
poemas ou pequenos textos que haviam escrito. Ainda assim, para Eun-ha, aquele espaço parecia imenso. Sentada no
fundo, ela observava Min-jun subir ao palco com um caderno nas mãos. Não havia pressa em seus passos, nem
nervosismo aparente. Quando abriu o caderno e ergueu os olhos para o público, parecia já ter estabelecido uma ponte
invisível: todos se calaram. — “O que é dito não precisa ser alto para ser ouvido. Basta ser verdadeiro.” Ele começou
com essa frase, antes mesmo de ler o poema. Eun-ha sentiu o coração bater mais forte. Não era apenas o conteúdo das
palavras, mas a calma com que ele as pronunciava. Como se cada sílaba tivesse lugar, como se a voz ordenasse o que
antes era apenas um emaranhado. Min-jun lia versos sobre o tempo, sobre o modo como as estações se repetiam sem
nunca serem iguais. Sua voz era firme, mas não dura; clara, mas não fria. A cada pausa, parecia dar espaço para que o
silêncio fosse parte da fala — um silêncio que não afastava, mas acolhia. Eun-ha o comparava a si mesma. Ela, que
sempre tinha muito por dentro, mas travava na hora de expor. 15 Ele, que conseguia alinhar pensamento e palavra
como quem coloca flores em um vaso: cada uma em seu lugar, sem excesso, sem falta. Não era apenas eloquência. Era
clareza. E, naquela clareza, havia uma ordem que ela reconhecia, mas ainda não sabia viver. Depois do recital,
caminharam lado a lado pelas ruas iluminadas. Seul ainda vibrava, mesmo tarde da noite, mas o barulho da cidade não
apagava o eco do que ele havia dito. — Você escreve bonito, Eun-ha — disse Min-jun, segurando o caderno junto ao
peito. — Mas a palavra não é só escrita. É também voz. Ela abaixou os olhos. Não sabia como responder. Ele continuou,
sem pressa, como quem expõe um pensamento em voz alta mais para partilhar do que para convencer: — Quando não
falo, o que penso fica confuso. Quando falo, mesmo imperfeito, começa a ganhar forma. Eun-ha ouviu aquilo como se
fosse uma explicação daquilo que mais temia. Para ela, a palavra parecia perigosa — podia expô-la, podia fazê-la falhar.
Para ele, a palavra era libertação. No silêncio da caminhada, ela refletia: se cada coisa na criação tinha um fim — a
árvore que dá sombra, a água que corre, a abelha que poliniza — talvez a voz também tivesse o seu lugar próprio. E não
falar, quando se devia falar, era como recusar ao mundo a parte que lhe cabia. Quando chegaram à estação, Min-jun
sorriu. 16 — Você não precisa falar como eu, Eun-ha. Só precisa ser você. E deixar que eu ouça. Ela acenou, mas não
respondeu. O silêncio foi sua escolha mais uma vez. E, sozinha no quarto naquela noite, repetiu a frase dele em voz
baixa, como se fosse ensaio: “Só precisa ser você.” Foi então que percebeu: o silêncio guardava, mas a palavra tinha o
dom de aproximar. E se queria permanecer de verdade, não poderia calar para sempre. 17 Capítulo 4 – Entre bilhetes e
silêncios Na biblioteca, o silêncio era quase absoluto. O som mais alto vinha das páginas viradas e do arrastar de
cadeiras. Eun-ha estava sentada em uma mesa próxima à janela, rabiscando em seu caderno. Não eram anotações de
Biologia dessa vez, mas linhas soltas que tinham mais de confissão do que de estudo. "Admiro como você fala. Eu queria
conseguir." Dobrou a folha, como sempre fazia. O costume de escrever bilhetes permanecera, como uma parte de
Gwangju que resistia em Seul. Mas, diferente dos primeiros anos, em que os bilhetes eram sua única ponte com Min-
jun, agora pareciam quase uma fuga. Guardou o papel no bolso e fechou o caderno. Ainda não sabia se teria coragem de
entregá-lo. Encontrou Min-jun mais tarde, num café discreto que ficava entre a universidade e a estação. Ele já estava
lá, sentado com um livro aberto e o olhar tranquilo de quem sabia esperar. — Você demorou hoje — disse, fechando o
livro. Ela pediu apenas um chá e se sentou. Min-jun começou a falar sobre seus alunos de literatura, sobre como muitos
tinham vergonha de ler em voz alta no começo.

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