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Mas quando percebem que a palavra não é só decorar, tudo muda — contou, animado. — A voz dá vida ao texto.

Eles
entendem que podem se reconhecer no que dizem. Eun-ha sorriu de leve. Queria dizer que também se reconhecia nas
palavras dos outros, mas que não sabia dar vida às suas próprias. Queria contar que, no bolso, tinha um bilhete escrito
justamente sobre isso. Mas, em vez disso, ficou calada. Min-jun a olhou por um instante, como quem percebe o que não
foi dito. — Você sempre me escuta tanto… mas às vezes penso que guardo só a metade da conversa. Ela desviou os
olhos, mexendo no chá. O bilhete no bolso parecia pesar. Sozinha à noite, deitou-se na cama com o papel ainda
dobrado na mão. Pensou no que Min-jun dissera sobre seus alunos: que a palavra só ganhava vida quando dita. Talvez
fosse isso. O bilhete que não entregava era como uma semente guardada no escuro: tinha dentro de si tudo o que
precisava, mas nunca florescia. Na verdade, ela tinha medo de incomodar. Eun-ha se perguntou se ela mesma não
estava vivendo assim — cheia de pensamentos em potência, mas nunca no ato. E se continuasse assim, não estaria
negando ao mundo aquilo que só ela poderia dar? No dia seguinte, ao sair da aula, encontrou Min-jun esperando diante
do portão da universidade. Trazia um livro nas mãos. 19 — Li ontem e pensei em você. Quero que leia também. O gesto
era simples, mas carregava afeto. Eun-ha segurou o livro devagar, sentindo vontade de dizer muito mais do que um
“obrigada”. Queria falar da admiração que sentia dele, da saudade que às vezes pesava, do medo de não estar à altura.
Mas o que fez foi apenas guardar o presente na mochila, em silêncio. Min-jun sorriu, mas Eun-ha percebeu nos olhos
dele uma sombra breve, quase imperceptível. Era a mesma sombra que surgia sempre que ela respondia com pouco,
quando havia tanto por dentro. Ele suspirou fundo e, pela primeira vez, não deixou o silêncio vencer. — Eun-ha… —
começou, a voz calma, mas firme. — Se você não falar o que guarda, vai perder. Ela o olhou, assustada, como se não
esperasse dureza vinda dele. Ele prosseguiu, sem desviar os olhos: — A permanência não é feita só do que se cala. O
silêncio guarda, sim, mas não sustenta para sempre. O que permanece é aquilo que encontra forma, que se realiza. Se o
pensamento nunca chega a ser dito, ele se apaga como uma semente que nunca rompe a terra. Eun-ha apertou a alça
da mochila. Queria responder, mas a garganta parecia fechada. Min-jun se aproximou um passo. — Eu gosto de você,
mas não posso falar sozinho o tempo inteiro. — A voz era calma, mas firme. 20 Ela arregalou os olhos, surpresa. Não
estava acostumada a ouvir Min-jun romper o tecido macio do silêncio com palavras tão diretas. Ele percebeu o susto,
mas não recuou. Apenas respirou fundo e continuou: — Você é minha melhor amiga. — Disse com convicção, mas o
coração latejava, porque no fundo havia muito mais escondido do que a palavra “amizade” deixava transparecer.
Palavras não ditas, guardadas como pedras no fundo de um rio. Fez uma pausa curta, como quem escolhe com cuidado
o que não pode mais adiar: — Preciso da sua voz. Se ela não vier, não adianta que você sinta muito por dentro… porque
nada vive só em potência. As palavras caíram sobre ela como um peso inesperado. Não havia acusação em sua voz, mas
verdade. Ele saiu. Ela ficou. Eun-ha desviou o olhar, sentindo o coração arder. Ele tinha razão. Talvez, no fundo, sempre
tivera. Naquela noite, Eun-ha abriu o caderno e colou dentro dele todos os bilhetes que não entregara. Páginas e mais
páginas cheias de frases que nunca chegavam ao destino. Ao fechar o caderno, sentiu um aperto no peito: como se
estivesse construindo um muro de silêncio entre ela e o único que realmente queria atravessá-lo. As palavras de Min-
jun ecoavam: “Nada vive só em potência.” E, pela primeira vez, Eun-ha percebeu que o silêncio que sempre fora abrigo
começava a se tornar um cárcere. 21 E, enquanto ainda buscava coragem para dizer o que guardava, o telefone tocou.
Era sua mãe. A voz do outro lado soava tensa, contida: — Sua avó não anda bem. Eun-ha fechou os olhos. De repente,
percebeu que o tempo não esperava. E que talvez o silêncio também pudesse ser uma forma de perda. 22 Capítulo 5 –
O girassol que não desbotou Na manhã seguinte, Eun-ha acordou antes do despertador. A cidade já estava desperta:
buzinas, passos, motores. O barulho parecia ainda mais agressivo do que de costume, como se lembrasse a cada
instante que Seul nunca esperava por ninguém. No quarto, arrumou a mochila com poucas roupas, o caderno de
anotações e o livro que Min-jun lhe dera na véspera. Hesitou antes de guardá-lo. Passou os dedos sobre a capa, como se
buscasse ali um fragmento de coragem, e só então o colocou entre as roupas. No trem para Gwangju, escolheu um
assento perto da janela. A paisagem passava rápida demais: prédios ficando para trás, campos aparecendo, colinas que
pareciam acenar de longe. Encostou a testa no vidro, mas logo retirou o livro da mochila e o abriu. As primeiras páginas
estavam cheias de pequenas anotações de Min-jun, comentários à margem, palavras circuladas. Era como se ele
estivesse ao seu lado, guiando o olhar dela. Um trecho chamava atenção: “As palavras são sementes. Enquanto
guardadas, são apenas promessa. Mas quando ditas, florescem e tocam o mundo.” Eun-ha fechou o livro por um
instante, deixando os olhos vagarem pela paisagem. Pensou em quantas sementes guardava dentro de si, presas ao solo
do silêncio. O quanto já poderia ter florescido se tivesse tido coragem de dar-lhes voz. 23 Percebeu que guardar não era
o mesmo que permanecer. Permanecer era permitir que algo tomasse forma fora de si, mesmo que imperfeito. Voltou
ao livro e leu mais um trecho sublinhado por Min-jun: “O que não é pronunciado, morre consigo; o que é dito, encontra
caminho para além de quem o disse.” Sentiu o coração apertar. Talvez fosse esse o motivo de Min-jun insistir tanto: não
porque precisasse ouvir para si, mas porque sabia que, se ela não falasse, perderia até o que carregava dentro. A cada
página, a viagem parecia mais longa e mais curta ao mesmo tempo. Longa, porque a urgência crescia dentro dela. Curta,
porque as palavras a aproximavam daquilo que sempre temeu enfrentar: a necessidade de falar antes que fosse tarde.
Quando o trem chegou, o ar de Gwangju pareceu diferente. Não havia a pressa ensurdecedora de Seul. Era um silêncio
mais próximo, mais humano, mas que naquela vez não trouxe conforto: trouxe apreensão. Caminhou até a casa da avó,
e o simples ato de atravessar a rua já lhe trouxe uma lembrança: a varanda onde tantas vezes sentara para ouvir
histórias, o cheiro de chá recémfeito, a presença serena que parecia nunca mudar. Mas agora, ao se aproximar, sentiu o
coração apertar. As flores diante da porta estavam menos vivas. Algumas já com as pétalas murchas, caídas ao chão,
como se refletissem a ausência de mãos que costumavam regá-las. Eun-ha ajoelhou-se por um instante e passou os
dedos sobre uma delas, ainda úmida de orvalho. Parecia um retrato delicado da própria avó: bonita mesmo no
enfraquecimento, ainda oferecendo algo, mesmo quando parecia esgotada. 24 Inspirou fundo antes de girar a
maçaneta. O cheiro da casa a envolveu de imediato: mistura de chá verde, madeira antiga e o perfume das flores que
ainda resistiam. Um cheiro de permanência, que agora parecia ameaçado. Na cozinha, encontrou a mãe mexendo em
panelas, mas sem a firmeza de outros tempos. Os movimentos eram automáticos, quase um disfarce para a
preocupação. — Ela está no quarto — disse em voz baixa, como quem teme que a própria fala pudesse quebrar o fio
frágil que mantinha a avó desperta. Eun-ha apenas assentiu. Atravessou o corredor com passos lentos, sentindo o
ranger do piso de madeira sob seus pés. Cada passo parecia aumentar o nó que carregava no peito: o medo de não ter
dito o suficiente, o medo de chegar tarde demais, o medo de que todo o amor que sempre guardara no silêncio fosse
agora tarde para ser pronunciado. A porta estava apenas encostada. Empurrou-a devagar. O quarto estava em meia-luz.
As cortinas filtravam o sol da tarde, deixando entrar apenas um brilho suave. A avó estava deitada, coberta até o peito,
os olhos semicerrados. O rosto parecia menor, como se o tempo tivesse se apressado sobre ela nos últimos dias. Mas,
ao perceber a presença da neta, abriu os olhos e sorriu. Um sorriso frágil, cansado, mas ainda inteiro. Eun-ha sentiu as
pernas vacilarem. Aproximou-se, segurou a mão da avó, e foi nesse gesto simples que entendeu: havia coisas que não
podiam esperar mais para serem ditas. Porque mesmo o mais belo dos sorrisos, um dia, também se cala. 25 Eun-ha se
sentou devagar na beira da cama, segurando a mão da avó. A pele parecia fina como papel, mas o calor ainda estava lá,
firme, como uma raiz que resiste mesmo em solo fraco. — Você veio… — disse a avó, com voz fraca mas alegre. — Já
vale o dia. Eun-ha sorriu, tentando esconder o nó na garganta. — Senti tanta saudade, vó. A avó respirou fundo,
fechando os olhos por um instante, como se cada palavra exigisse cuidado. Depois falou, quase em tom de confidência:
— Sabe o que mais aprendi cuidando das flores? Que nenhuma delas foi feita para durar em silêncio eterno. Elas
desabrocham quando chega a hora, sem pedir licença. Se tentam ficar fechadas demais, apodrecem antes de mostrar a
cor. Eun-ha não respondeu, mas apertou sua mão com força. — É preciso coragem até para as coisas mais simples —
continuou a avó. — Uma flor se abre mesmo sabendo que a chuva pode machucá-la. E ainda assim, abre. Porque
permanecer fechada seria perder a chance de ser o que é. Os olhos de Eun-ha se encheram de lágrimas. — Tenho medo,
vó. A avó abriu os olhos devagar e sorriu, cansada mas serena. — O medo nunca vai embora. Mas a vida não espera até
ele sumir. A gente segue mesmo com ele.

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