CATSAPÁ ESCOLA DE MUSICAIS 2022
ALICE
Da obra de Lewis Carroll
Direção Tânia Nardini
Adaptação João Batista / Músicas originais Paula Leal
2
PRÓLOGO
(Alice e a irmã estão sentadas. A irmã lê um livro de histórias. Alice está
entediada e distraída.)
IRMÃ – Alice!
ALICE – Ahn?
IRMÃ – (mais forte) Alice!!
ALICE – O que é? Estou ouvindo!
IRMÃ – Não está não!
ALICE – Estou, sim!
IRMÃ – Maninha, quando é que você vai aprender a prestar mais atenção às
lições de história?
ALICE – Mas... eu presto atenção.
IRMÃ – Alice!...
ALICE – Eu juro!
IRMÃ – Alice, não se faça de boba!
ALICE – Está bem, eu não presto atenção. Mas como se pode prestar atenção
a um livro que não tem gravuras?
IRMÃ – Isso não é desculpa, Alice! O que mais existe nesse mundo são livros
sem gravuras.
ALICE – Nesse mundo pode ser.
IRMÃ – E por acaso existem outros mundos?
ALICE – Não sei. O que sei é que, por mim, os livros só teriam gravuras.
IRMÃ – E você passaria a vida toda olhando gravuras, sonhando, suspirando...
Não é isso? (Alice faz que sim com a cabeça) Pensando bem minha irmã, eu
acho que existe um outro mundo.
ALICE – (animada) É mesmo? Qual?
IRMÃ – (irritada) O mundo da lua, onde você vive! (sai)
ALICE – Eu vivo no mundo da lua? Pode ser. (folheia o livro, entediada) Se
esse mundo fosse só meu, tudo nele seria muito diferente! (deita-se e
adormece)
3
ABERTURA
E a nossa história começa
Vamos ao que interessa
Que agora iremos apresentar
Olhe quem vem lá
Uma menina que onde passa ilumina
E seus sonhos estão bem no seu olhar... sempre a buscar
Algum lugar sem direção
Onde a fantasia desperte os seus sonhos de criança
Ou serão lembranças? Como iremos saber?
E nessa história
Não se sabe bem o que acontecerá
Mas que fique na memória essa ilusão
Pois os sonhos são e nunca terão... um fim... um fim
4
CENA 1
ALICE – (sozinha) Eu só queria saber o que aconteceu comigo. Eu só me
lembro de estar lendo um livro e... (olha em volta) Que lugar é esse? E como
eu vim parar aqui? (ouve alguém se aproximando) Vem alguém aí! Ah, é um
coelho! Coelho?! Com roupas, sapatos... e relógio?!?
COELHO – É tarde! É tarde!
Tão tarde que até arde!
Ai, ai, meu deus! Ai, ai, adeus
É tarde, é tarde, é tarde!
ALICE – Ele fala? Por favor, gostaria de...
COLEHO – Saia da frente!
ALICE – É que...
COELHO – Não ouviu? É surda? Saia da frente!
ALICE – Mas o que é que esta acontecendo? Que lugar é esse?
COLEHO – Pare de fazer perguntas! Você não sabe de nada! Nada! Nada!
ALICE – Mas eu não tenho culpa!
COELHO – E eu tenho pressa!
ALICE – Espere! Aonde o senhor vai?
COELHO – Não interessa! Não é da sua conta! Não seja inconveniente!
Estou atrasado! Atrasado! Atrasado!
Tenho pressa! Tenho pressa!
Eu tenho pressa a beça!
Ai, ai, meu deus! Ai, ai, adeus!
Eu tenho pressa a beça! (sai)
ALICE – Espere! Espere, por favor! (sozinha) Um lugar onde os coelhos
falam... E sapateiam! Eu nunca vi nada disso em nenhuma das minhas lições
de história, nem de geografia, nem de... Alguém precisa me dizer onde eu
estou! Senhor coelho, volte! Eu preciso lhe fazer muitas perguntas! (Alice sai
correndo. O coelho passa correndo algumas vezes, seguido por Alice, que
finalmente desiste) Aquele coelho anda depressa demais! Eu desisto! (senta-se
no chão para descansar) Ai, por que será que eu não me lembro de como vim
parar aqui? Será que estou num outro país? Aliás, será que isso é um país? Ai,
meu deus! (fala consigo mesma, tentando se acalmar) Calma! Alice, você é
uma menina inteligente! Vai descobrir que lugar é esse e como encontrar o
caminho de volta. Pode ser até divertido! Calma. (respira fundo) Bem, parada
aqui é que eu não vou descobrir nada! (sai decidida)
5
CENA 2
ALICE – (entrando) Que lugar lindo! Parece um jardim! (vê as
pombinhas) Mas... são pombinhas!
POMBINHAS – Uma serpente! Uma serpente! Ela vai roubar
nossos ovos!
ALICE – Eu não sou serpente coisa nenhuma!
POMBINHAS - É sim! Socorro! Socorro!
ALICE - Parem com isso! Eu sou uma menina!
POMBINHAS - Vai dizer que você nunca comeu ovos!
ALICE – Bem, as meninas comem ovos normalmente.
POMBINHAS – Comeu ou não comeu?
ALICE – É claro que já comi ovos!
POMBINHAS – Uma serpente disfarçada! Socorro! (saem correndo)
ALICE – Alguém precisa me dizer que lugar é esse! Os bichos
falam, ninguém diz coisa com coisa, não há nenhuma placa,
nenhum nome escrito em nenhum lugar! (fala para si mesma) Alice,
você é uma menina inteligente! Descubra você mesma que lugar é
esse e como voltar pra casa! (vira-se, decidida, e vê as flores)
6
CENA 3
(Alice se aproxima das flores.)
ALICE – Puxa, que flores enormes! Se elas pudessem falar, podiam me dizer
como faço para voltar pra casa. Que bobagem! As flores não falam!
TODOS – Quem disse?
FLOR - Nós podemos falar!
FLOR - Tanto quanto você!
ALICE- Flores, falando?!?
FLOR - Por que a surpresa?
FLOR - Nós adoramos conversar.
FLOR - Quando tem alguém com quem valha a pena conversar.
FLOR - E você até que é simpática.
ALICE – (assustada) Obrigada.
FLOR - Que espécie de flor é você, meu bem?
ALICE – Eu? Eu não sou uma flor.
TODOS – É claro que você é uma flor.
FLOR - Se não fosse, não estaria aqui!
ALICE – Mas é que eu...
FLOR - Vamos às apresentações!
FLOR - Nós somos lírios!
FLOR - E nós, margaridas!
FLOR - Nós somos violetas!
FLOR - E nós somos rosas, as rainhas das flores!
FLOR - Rainhas? Até parece!
ALICE – O meu nome é Alice.
TODOS – Uma flor chamada Alice!
ALICE – Eu não sou uma flor. E eu vim de um lugar onde as flores não falam.
Elas vivem assim, presas no chão como vocês, mas...
TODOS – Presas no chão? Nós? (Dão gargalhadas, correm pelo palco e
voltam às suas posições)
FLOR - Posso fazer um comentário?
ALICE – (sorrindo) Claro que pode.
FLOR - Para uma flor, você esta muito pálida!
FLOR - É verdade. A sua cor não está nada bem.
7
ALICE – (se irrita) Eu já disse que não sou uma flor!
TODOS – É claro que é.
ALICE – Não sou, não!
FLOR - Ai, você fala alto demais!
FLOR - Nós vamos lhe dar alguns conselhos estéticos.
ALICE – “Conselhos estéticos”?
FLOR - Querida, uma flor precisa ter cuidado com a estética!
ALICE – Mas, eu...
FLOR - Por exemplo: se suas pétalas fossem um pouco mais enroladas, ficaria
bem melhor!
FLOR - As pontas estão meio ressecadas!
FLOR - E as suas hastes estão muito maltratadas! Cuida disso, querida!
FLOR - Eu vou ser sincera: sua corola está horrível!
ALICE – (grita) Eu não sou uma flor! Eu sou uma menina!
TODOS – Uma menina?
FLOR - Daquelas que arrancam flores para colocar nos vasos?
ALICE – Bem, eu já arranquei algumas, mas...
FLOR - Logo vi que ela não era de confiança!
FLOR - Vamos nos afastar dela!
ALICE – Não é preciso! Eu arranquei flores há um tempo atrás. E mesmo
assim, porque eu nunca podia pensar que...
FLOR - Você não tem cara que pensa muito mesmo!
ALICE – E vocês são muito mal-educadas! (vai saindo)
FLOR - Onde vai?
ALICE – Vou embora!
FLOR - Nada disso! Quem vai embora somos nós!
FLOR – (saindo) Ai, você conseguiu cansar a nossa beleza!
FLOR – (saindo) Além de desleixada, é meio burrinha!
FLOR – (saindo) É um caso perdido!
(As flores saem conversando entre si)
ALICE – E eu que achava que se as flores falassem, seriam gentis e educadas!
Ai, o que é que está acontecendo? Isso parece um pesadelo! Que lugar é
esse? Eu quero voltar para minha casa! Agora!! (chora)
8
CENA 4
(Alice se aproxima das lagartas)
ALICE – Vocês são... lagartas?
TODAS – É claro que somos!
LAGARTA 1- E você?
TODAS – Quem é você?
ALICE – Eu... eu acho que... não sei direito.
LAGARTA 2 - Não sabe?
ALICE – Quando me levantei essa manhã, eu sabia quem era. Mas, depois
disso, tudo já mudou tanto que...
LAGARTA 3 - Que é que você quer dizer com isso?
LAGARTA 2 - Vamos! Explique-se!
ALICE – Eu não tenho como me explicar! Como podem ver, eu estou meio...
TODAS – “Como podemos ver”? Não estamos vendo coisa alguma!!
ALICE – Acho que não consigo ser mais clara! Eu mesma não consigo
entender tudo que esta acontecendo. (As lagartas ironizam Alice.)
LAGARTA 3 - Pobrezinha...
LAGARTA 2 - Tão nervosa!
LAGARTA 1 - Tão confusa!
ALICE – São muitas coisas estranhas num só dia! É muito difícil...
TODAS – Não! Não é!
ALICE – Talvez as senhoras ainda não tenham passado por nada parecido,
mas...
LAGARTA 1 - Parecido com o quê?
ALICE – Com isso! Quando chegar o momento, por exemplo, de virarem
crisálidas, e depois borboletas, será que não vão achar meio esquisito?
TODAS – Nem um pouco!
ALICE – Talvez a nossa maneira de sentir seja diferente. Mas isso tudo parece
muito estranho para mim.
LAGARTA 3 - “Mim”? Quem é “mim”?
ALICE – (confusa) Sou eu.
LAGARTA 1 - “Você”?
LAGARTA 2 - E quem é “você”?
ALICE – (saindo) Pra mim, chega!
TODAS – Volte!
LAGARTA 1 - Temos algo muito importante a lhe dizer!
9
ALICE - (volta) O que é?
TODAS – Acalme-se!
ALICE – É só isso que têm para me dizer?
LAGARTA 1 – Acha pouco?
ALICE – Não, mas é que...
LAGARTA 2 – Na verdade, queremos conversar com você.
LAGARTA 3 – Quer dizer que você acha que mudou?
ALICE – Tenho a impressão que sim.
LAGARTA 3 – E como você acha que mudou?
ALICE – Bem, eu não consigo entender muito bem o que está...
LAGARTA 1 – Isso não é mudança, meu bem. É cabeça cansada!
ALICE – Mas eu não consigo me lembrar como foi que...
LAGARTA 2 – Isso também não é mudança. É falta de memória!
ALICE – Em vez de me acalmar, vocês estão me deixando mais irritada!
LAGARTA 3 – O que é que você tem contra as mudanças?
ALICE – Eu? Nada, mas... é que eu não estou acostumada.
TODAS – É melhor se acostumar.
ALICE – Por que?
LAGARTA 1 – Porque tudo esta só começando, meu bem.
ALICE – Tudo o que?
TODAS – Nada, nada, nada, nada... (risos)
ALICE – Vocês estão me achando com cara de boba, é? Pois fiquem sabendo
que de boba, eu não tenho nada! Eu só estou confusa, mas sou muito
inteligente!
LAGARTA 3 – É mesmo? Sorte sua, meu bem.
ALICE – Por que?
LAGARTA 2 – Vai precisar muito da sua inteligência por aqui!
ALICE – (assustada) Vou? Por que?
LAGARTA 1 – Descubra você mesma.
LAGARTA 2 – Vamos indo? Já falamos demais. (As três vão saindo.)
LAGARTA 3 – Só vamos lhe dizer mais uma coisa, meu bem.
ALICE – O que?
TODAS – Acalme-se! (Risos. Saem.)
ALICE – (sozinha) É... até que não é um mau conselho. Ficar esguichando
lágrimas feito um chafariz não vai me adiantar de nada! (Sai. Cruza o palco
algumas vezes) A impressão que eu tenho é que eu ando, ando, ando... e
continuo no mesmo lugar! Ih, vem alguém aí! Vou me esconder! (Esconde-se)
Ué, eu conheço essa gente de algum lugar!
10
CENA 5
(A rainha entra com seu cortejo de cartas. Ela para quando vê Alice.)
RAINHA – (para as cartas) Esperem! (para Alice) Quem é você?
ALICE – Eu...
RAINHA – De onde você vem? Para onde vai?
ALICE – Eu? Eu...
RAINHA – Levante a cabeça! Fale direito!
ALICE – (confusa) Perdão, eu... só estou tentando encontrar o meu
caminho de volta para...
RAINHA – (interrompe, furiosa) “Seu caminho”?!? O que você quer dizer
com “seu” caminho? Todos os caminhos aqui são meus!! Como você
chegou aqui, afinal?
ALICE – Bem, eu...
RAINHA – (interrompe) Faça uma reverência enquanto pensa! Isso
economiza tempo!
ALICE – Está bem! (faz a reverência) Na verdade, eu...
RAINHA – (impaciente) Você já devia ter me respondido!
ALICE – É que eu não sei a resposta.
RAINHA – Não sabe? (para as cartas) Levem-na! Cortem-lhe a cabeça!
(As cartas seguram Alice)
ALICE – (grita) Ninguém vai me levar a lugar nenhum! (todos se assustam)
A senhora...
RAINHA – Diga “Vossa Majestade”, menina idiota!
ALICE – Vossa Majestade não vê que eu estou perdida e preciso de ajuda?
RAINHA – (surpresa) Perdida? (fica amável de repente) Por que não disse
antes? Vou lhe dar algumas instruções. (fala rápido, deixando Alice
confusa) Avançando duas casas nessa direção você chegará à terceira
casa, onde vivem Dee, Dam e Dum. Depois deverá avançar rapidamente
mais duas casas em direção à quarta casa, em seguida recuar mais três
casas em direção à quinta casa, e aí então deverá contornar e avançar
rapidamente cinco casas nessa direção, e logo em seguida atravessar
rapidamente naquela direção e recuar duas casas, porque logo em
seguida...
11
ALICE – Eu não estou entendendo nada! Isso mais parece um jogo de
xadrez!
RAINHA – Jogo? Você disse “jogo”?
ALICE – Disse.
RAINHA – (animadíssima) Eu adoro jogos! Que ótima lembrança! Preciso ir!
ALICE – Mas, e as instruções?
RAINHA – Já lhe dei instruções suficientes! (para as cartas) Vamos! (para
Alice) Adeus! (vai saindo) Ah! (volta-se amável) Não quero vê-la novamente
em nenhum dos “meus” caminhos!
ALICE – Mas...
RAINHA – Adeus!
(Sai com seu cortejo)
ALICE – Mas... são as cartas do baralho da minha irmã! Puxa, elas
pareciam bem menores e mais simpáticas no papel! Bem, o jeito é tentar
lembrar as instruções! Avançar nessa direção! (aponta) Ou seria naquela?
Ai, meu deus! (sai)
12
CENA 6
(Alice se aproxima de um grupo de insetos.)
ALICE – Será que estou no caminho certo? Que lugar estranho! Que bichos
são esses? Que criaturas esquisitas! (ouve os barulhos) E que sons estranhos
eles fazem! (aproxima-se) Por favor, eu...
TODOS – (se juntam, apavorados) Socorro! Que criatura esquisita!
ALICE – “Criatura esquisita”, eu? Vocês é que são esquisitos!
INSETO - Já vi tudo! Ela é uma daquelas criaturas que matam insetos!
INSETO - Cuidado com ela!
ALICE – Insetos? Vocês são insetos?
INSETO - Nunca viu, não é?
INSETO - Que cara de espanto é essa?
ALICE – É que no lugar de onde eu vim, os insetos eram desse tamaninho
(mostra com os dedos) e nenhum deles nunca falou comigo!
INSETO - Você não se dá com eles, não é?
ALICE – Na verdade, eu tenho um pouco de medo. Mas, nas minhas lições da
escola, aprendi os nomes de vários deles.
INSETO - Os nomes?
INSETO - E quando você chama pelos nomes, eles atendem?
ALICE – (confusa) Não... na verdade, eles nem sabem que tem nomes.
INSETO - Não sabem?
INSETO - Então de que serve eles terem nome?
ALICE – É que do lugar de onde eu vim, as coisas e os bichos têm nomes, mas
só nós, as pessoas, é que sabemos esses nomes.
INSETO - Você vem de um lugar bem esquisito, hein?
ALICE – É... talvez.
INSETO - Você acaba de entrar no Bosque do Sem Nome!
ALICE – Como assim?
INSETO - Aqui nada tem nome.
INSETO - Você mesma, acaba de perder o seu!
ALICE – Eu, não! Eu tenho nome!
INSETO - Tinha! Até chegar aqui!
ALICE – Vocês são todos loucos! Eu tenho um nome! E ele é muito meu!
INSETO - Então, diga: qual é o seu nome?
13
ALICE – Ora, o meu nome é... é...
INSETO - Está vendo? Perdeu! Não tem mais!
ALICE – Não perdi, não! Eu vou me lembrar! O meu nome é... é... ai, meu
deus! Eu não consigo me lembrar!
INSETO - Calma! É divertido não ter nome!
INSETO - Quando alguém quer te chamar para fazer alguma coisa chata, por
exemplo, tem que desistir!
INSETO - Porque não tem nenhum nome para chamar!
ALICE – No meu mundo isso nunca aconteceria! Minha irmã, por exemplo, se
quisesse me chamar para estudar, daria um jeito! Gritaria: “venha cá, menina!
Venha estudar”!
INSETO - Que mundo desagradável, o seu!
(Alice se senta, cabisbaixa.)
INSETO - Ficou triste?
ALICE – Estou com saudades da minha irmã. E eu quero o meu nome de volta!
Se não me engano, ele começava com A... ou seria com L? Ou com I... Ai, meu
deus!
INSETO - Fique calma!
INSETO - À medida que for se afastando daqui, seu nome irá voltando aos
poucos.
ALICE – É mesmo? Então, eu vou indo. (vai saindo) Adeus!
TODOS – Adeus!
ALICE – Será que podiam me dizer o caminho para voltar pra minha casa?
TODOS – É claro que não podemos!
INSETO - Isso é pergunta que se faça a quem nem sabe o próprio nome?
ALICE - (sem graça) Desculpem, eu...
INSETO - Tem gente que não se toca!
(saem, criticando Alice)
ALICE – (sozinha) A... A... li... A-li... CE! Lógico! É Alice o meu nome! Nunca
pensei que gostasse tanto dele! Eu estava indo... por aqui!
(sai)
14
CENA 7
(Alice vê Dee, Dan e Dun. Os três estão imóveis.)
Alice – Que bonecos engraçados!
TODOS – (indignados) Bonecos? (falam ao mesmo tempo agitados)
ALICE – (se assusta) Ai, que susto! Não são bonecos? São vivos! O que é
isso?
DEE - Se nos toma como bonecos, pague ingresso para nos ver!
ALICE – Desculpem, eu...
DAN - Mas se acha que estamos vivos, seja educada...
DUN - E diga alguma coisa gentil!
DEE - Como por exemplo: “que prazer em vê-los”!
DAN - Ou: “como têm passado”?
DUN - “Como vão as coisas”?
TODOS – Há tanta coisa gentil pra se dizer!
ALICE – Esperem! Agora entendi! A Rainha falou de vocês. (repara nos nomes
escritos na roupa de cada um) Vocês são Dee, Dan e Dun! Será que podem
me dizer como faço para sair desse lugar?
DEE - Você começou errado!
DAN - Não se começa uma visita perguntando o caminho para ir embora!
DUN - Não! De jeito nenhum!
ALICE – Ah, desculpem! Mas é que...
DEE - A primeira coisa a se fazer é dizer: “prazer em conhecê-los”!
DAN - E depois...
TODOS – (estendem as mãos para Alice) Apertar as nossas mãos!
ALICE – (para Dee) Muito prazer meu nome é Alice! (aperta a mão de Dee.
Para Dan) Muito prazer, meu nome é Alice! (aperta a mão de Dan. Para Dun)
Muito prazer, meu nome é Alice! (aperta a mão de Dun.)
TODOS – O prazer é todo nosso!
ALICE – Puxa! Quanta gentileza! Até que esses três são bem... simpáticos.
DUN – Gosta de poesia?
ALICE – Muito! Mas, no momento, eu preferia que me dissessem o caminho
para...
DEE – O que é que vamos recitar para ela?
DAN – Um poema bem loooongo!!
DEE E DUN – Boa idéia!
15
ALICE – Nãooo!! Perdão, mas se é longo, eu, infelizmente...
(Os três começam a recitar, animados.)
DUN – “O sol brilhava sobre o mar...”
DEE – “Brilhava a seu bel-prazer”
DAN – “E isso era estranho, porque...”
TODOS – “Já ia longe o anoitecer!”
DUN – “Então, a lua...”
ALICE – (cortando) Paaaarem! Parem com isso, por favor! Desculpem, mas eu
não posso ficar aqui ouvindo poesias!
TODOS – Por que não?
ALICE – Porque não! Porque eu preciso voltar pra minha casa, pro mundo real!
TODOS – (assustados) “Mundo real”!?!
ALICE – Talvez isso seja um sonho, um pesadelo, só que...
DEE – Mas tudo é um sonho!
DAN – Você também é um sonho de alguém!
DUN – Quando esse alguém acordar...
ALICE – (se descontrola) É mentira! Eu sou real! Eu sei que sou real! (tem uma
crise de choro)
DEE – O que houve com ela?
DAN – Está chorando!
DUN – Ei! Não é chorando que você vai ficar mais real!
ALICE – É, sim! Se eu não fosse real, não seria capaz de chorar!
DEE – Você está pensando que essas lágrimas são reais, está? (risos)
ALICE – (furiosa) Querem saber de uma coisa? Chega de choro! (enxuga os
olhos) Tudo o que vocês estão dizendo é besteira! Não vale a pena chorar por
isso!
DAN – Não é besteira, não!
ALICE – Ah, não? Então, se eu sou um sonho, o que é que vocês são, hein?
DEE – Idem!
DAN – Idem, idem!
DUN – Idem, idem, idem! (os três desaparecem)
ALICE – Quer dizer que vocês também são um... (vê que eles não estão mais)
Ué! Desapareceram? Ai, meu deus! Nesse lugar acontece de tudo! (sai)
16
CENA 8
(Alice se encontra com um bando de gatos.)
TODOS – Como vai? Vai bem?
ALICE – Será que alguém podia me dizer, por favor, qual é o caminho para sair
daqui?
GATOS - Isso depende
GATOS - Depende muito!
ALICE – De quê?
GATOS - Do lugar para onde você quer ir.
ALICE – Não me importa muito onde...
GATOS - Nesse caso, não importa o caminho.
ALICE – Desde que chegue a algum lugar.
GATOS - Isso vai acontecer!
GATOS - Você vai chegar a algum lugar...
GATOS - Desde que ande durante algum tempo!
ALICE – Mas em que direção?
GATOS - Como você chegou aqui?
ALICE – Acho que... não sei.
GATOS - Está vendo? Não sabe, mas chegou.
GATOS - Qualquer caminho conduz a algum lugar.
ALICE – Quem são vocês? Que espécie de gente vive por aqui?
GATOS - (aponta) Naquela direção mora o Chapeleiro. E na outra, (aponta) a
Lebre de Março. Por que não vai visitá-los? Os dois são loucos.
ALICE – Mas eu não quero me encontrar com gente louca!
GATOS - Isso você não pode evitar.
TODOS – Todos nós aqui somos loucos.
(DANÇA/CANTO INFANTO-JUVENIL)
17
O GATO - Tudo aqui é de pernas pro ar
Tudo aqui é do avesso
Tudo é ao contrário
É como num espelho
Sabe tudo tá por fora
E se não sabe então tá dentro
Porque aqui o fim vem antes do começo
Se você não sabe pra onde ir
Tudo bem, isso não importa
É só seguir em qualquer direção
Por aí e chegará na hora
Se você pretende ir por ali
É melhor seguir pelo outro lado
Não pensar muito é a melhor solução
Então, se mexa, arrisque!
Aqui não tem certo ou errado
Porque aqui o tempo passa, o tempo voa
Ninguém vive a toa
Nesse mundo tudo muda
Mas na pressa de chegar
Talvez se você correr muito não vai sair do lugar
Porque aqui o tempo passa, o tempo voa
Ninguém vive a toa
Nesse mundo tudo muda
Aproveite pra sonhar
Se isso é real ou não você nunca saberá
ALICE – Puxa, até que isso aqui está bem divertido! Mas se todos são loucos...
melhor descobrir depressa o caminho de volta para casa! (vai saindo)
GATOS - Mas você também é louca!
ALICE – Eu, não!
GATOS - Se não fosse, não teria vindo aqui!
ALICE – Mas eu não vim porque quis! Eu nem sei direito como cheguei aqui!
GATOS - Você já disse isso!
GATOS - Está se repetindo!
GATOS - Uhn! Repetição? Sinal de loucura!
18
ALICE – Chega! Eu não sou louca coisa nenhuma!
GATOS - É claro que é!
ALICE - (aos berros) Não sou, não! (tapa os olhos com as mãos) E parem com
essa história de aparecer e sumir de repente! Isso me deixa tonta! (olha em
volta e vê que só restou um gato) O que houve?
O GATO – Não sei, houve alguma coisa?
ALICE – Onde estão os outros?
O GATO – Outros? Que outros? Só estou eu aqui!
ALICE – Não tente me fazer de boba! Havia vários gatos entrando e saindo, e
aparecendo, e sumindo, e...
O GATO – Será?
ALICE – Será o que?
O GATO – Que havia mesmo vários gatos?
ALICE - (confusa) É claro que sim! Quer dizer, eu acho que sim.
O GATO – A nossa imaginação faz coisas! É melhor você seguir o seu
caminho. Até a vista! (Vai saindo.)
ALICE – Mas...
O GATO – Até a vista! (sai)
ALICE – Espere! (sozinha) Ele disse “até a vista”? Será que nos vamos nos ver
de novo? (pensa) O jeito é seguir em frente. Em que direção era a casa do
Chapeleiro? (não sabe que caminho seguir) Ai, meu deus! (tenta se acalmar)
Bem... “Qualquer caminho conduz a algum lugar”. Eu vou... (escolhe) por ali!
(Sai correndo)
19
CENA 9
(Entram um bando de ratos arrumando a mesa do chá)
RATO - Rápido! Precisamos arrumar tudo rápido!
RATO - Eu não entendo. A mesa acabou de ser usada e já precisamos arrumar
tudo de novo?
RATO - A culpa é do tempo!
RATO - De quem?
RATO - Do tempo.
RATO - Desde que teve uma briga com o Chapeleiro, o tempo marca sempre a
mesma hora: cinco horas!
RATO - Ou seja, é sempre a hora do chá!
RATO - Onde será que ele está?
RATO - O tempo?
RATO - Não!
RATO - O chá?
RATO - Não! O Chapeleiro!
RATO - Foi descansar durante um tempo até a hora do chá.
RATO - Mas já é hora do chá!
RATO - (com irritação) É sempre hora do chá!
RATO - E isso não é bom?
RATO - O que?
RATO - Que seja sempre hora do chá!
RATO - Seria ótimo, se nós pudéssemos comer e beber.
RATO - Não está faltando alguém?
RATO - Deixe ver! (conta) 1, 2, 3, 4... 7... 8... Falta alguém!
TODOS – Ah, não! De novo?
(Tiram a tampa de um grande bule, de dentro dele aparece um rato, sonolento.)
DORMINHOCO – (bocejando) Ai, que soninho!
RATO - Escondido aí dentro, de novo?
RATO - Onde é que já se viu? Dormir dentro do chá, na hora do chá?
DORMINHOCO - Eu não estava dormindo.
RATO - Ah, não?
20
DORMINHOCO - Não! Ouvi perfeitamente o que vocês diziam! (voltando para
dentro do bule) Agora, com licença!
RATO - O que é que vai fazer?
DORMINHOCO - Voltar a dormir!
RATO - E essa agora?!
RATO - Eles vem ai! O Chapeleiro e a Lebre de Março!
(Entram o Chapeleiro e a Lebre de Março e se sentam à mesa. Alice entra e os
vê sentados)
CHAPELEIRO E LEBRE – Quem é você? Não tem mais lugar! Não tem mais
lugar!
ALICE – Como não? Tem lugar até demais! (senta-se)
CHAPELEIRO E LEBRE – Não tem, não!!!
LEBRE – Aceita um pouco de vinho?
ALICE – Não vejo nenhum vinho por aqui!
LEBRE – Mas não há nenhum vinho por aqui!
ALICE – Não é nada educado oferecer o que não existe!
LEBRE – E não é nada educado sentar-se à uma mesa sem ser convidada!
CHAPELEIRO – Em vez de ser tão intrometida, você devia pensar em cortar
esse cabelo. Está comprido demais!
ALICE – E você devia aprender a não fazer comentários pessoais. Isso é uma
grosseria, sabia?
CHAPELEIRO – Sabia! E agora, me diga: por que um corvo se parece com
uma escrivaninha?
ALICE – O que é isso?
CHAPELEIRO – Isso, o quê? Um corvo?
ALICE – Não.
LEBRE – Uma escrivaninha?
ALICE – Não! Eu sei o que é um corvo e o que é uma escrivaninha! Eu quero
saber que pergunta é essa? É uma charada?
CHAPELEIRO E LEBRE – Adivinhou!
CHAPELEIRO – E então? Sabe a resposta?
ALICE - Não.
CHAPELEIRO E LEBRE - Ela não sabe a resposta! (todos riem)
ALICE – (confusa) Mas qual a resposta?
21
CHAPELEIRO E LEBRE – Também não sabemos! (risos)
ALICE – (se irrita) Que coisa mais sem graça! Existem formas mais
interessantes de se matar o tempo do que propor charadas sem solução!
CHAPELEIRO – (assustado) Você mata o tempo?
ALICE – Às vezes.
CHAPELEIRO E LEBRE – (para os ratos) Ela mata o tempo!
RATOS – Ela mata o tempo!!!
CHAPELEIRO – Se você conhecesse o tempo tão bem quanto eu, não falaria
em matá-lo. Aposto que nunca falou com ele!
ALICE – Bem, nas minhas lições de música, costumo marcar o tempo batendo
assim!
(marca compasso batendo na mesa)
CHAPELEIRO – Então é isso! De tanto bater no tempo, deve tê-lo deixado
magoado.
LEBRE – Ele agora está de mal com você!
CHAPELEIRO – Eu sei bem o que é isso! Eu briguei com o tempo no último
mês de março, pouco antes dela (refere-se à Lebre) ficar maluca e...
LEBRE – Maluca, eu?
CHAPELEIRO – Shh!! (prossegue) Desde então, o tempo não faz nada que lhe
peço. O meu relógio marca sempre cinco horas.
RATOS – Hora do chá!
LEBRE – (para Alice) Já que está aí, bem-vinda ao nosso ducentésimo
octogésimo chá de não-aniversário!
ALICE – O que é um “chá de não-aniversário”?
CHAPELEIRO – Um chá que comemora um dia que não é do nosso
aniversário, é claro!
ALICE – Isso existe?
CHAPELEIRO – Claro!
LEBRE – Quantos dias tem um ano?
ALICE – 365.
CHAPELEIRO – E quantos aniversários você tem?
ALICE – Um só.
LEBRE – Ou seja, são 364 dias para se festejar um “não-aniversário”, contra
um dia de aniversário! Não é 364 vezes melhor?
ALICE – (confusa) Eu... não sei.
22
DORMINHOCO – (acordando) Ela não sabe de nada, hein?
RATOS – Acordou?
DORMINHOCO – (bocejando) Eu não estava dormindo.
CHAPELEIRO – Já que acordou, conte para nós alguma história.
DORMINHOCO – Está bem. Era uma vez três irmãzinhas que viviam no fundo
de um poço.
ALICE – “Irmãzinhas no fundo de um poço”? Que história maluca!
LEBRE – Não interrompa!
CHAPELEIRO – Tome mais chá e fique quieta!
ALICE – Mais? Como posso tomar mais chá, se ainda não tomei nenhum?
CHAPELEIRO – Se ainda não tomou nenhum, é claro que pode tomar mais.
Tomar menos do que nenhum é que seria impossível! (risos)
DORMINHOCO – Continuando! Uma dia as irmãzinhas começaram a tirar do
poço todas as coisas que começam com M!
ALICE – Melancia, melão, marmelada, memória... e... e... Não estou
lembrando.
DORMINHOCO – Só quatro? Muito fraquinha! (risos)
ALICE – Que mania vocês tem de inventar jogos e charadas! Que coisa
irritante! (levanta-se) Adeus! Chega de ficar aqui perdendo tempo! (sai)
LEBRE – Vocês ouviram o que ela disse?
RATOS – Ouvimos! Ela disse que perdeu tempo aqui.
CHAPELEIRO – Muito bem! Atenção! Quem achar o tempo que ela perdeu,
fica com ele!
RATOS – Oba!
CHAPELEIRO – 1, 2, 3 e já! Procurar!
(Todos saem procurando o tempo)
ALICE – (andando sozinha) Droga! Parece que todos nesse lugar estão
empenhados em me irritar! Que chatice! (olha para longe) O que é aquilo lá
longe? Parece um outro jardim! Eu vou até lá!
23
CENA 10
(Confusão no jardim da rainha. As rosas, algumas brancas, outras vermelhas,
outras metade brancas, metade vermelhas, falam ao mesmo tempo.)
JARDINEIRO – Parem com essa bagunça! Precisamos pintar todas!
JARDINEIRO – É verdade! Se a Rainha encontrar alguma rosa branca, manda
cortar nossas cabeças!
JARDINEIRO – Então, vamos lá!
BRANCA/VERMELHA – Façam o serviço direito! Não quero ficar toda borrada!
BRANCA/VERMELHA – Nem eu! Muito capricho comigo!
BRANCA – Comigo também! Elas ficaram meio estranhas! Eu quero ficar linda!
JARDINEIRO – Nós sabemos o que estamos fazendo! Podem deixar!
VERMELHA – Espera aí! Ela disse que nós ficamos estranhas?
BRANCA – Disse! Eu ouvi muito bem!
BRANCA/VERMELHA – Vocês ficaram péssimas! Mas nós vamos ficar lindas!
VERMELHA – Lindas? Vocês?
VERMELHA – Pra você ficar linda, só com uma plástica geral, querida!
VERMELHA – A tinta pode, no máximo, esconder os defeitos. Mas não faz
milagres!
BRANCA – Uhn, essas aí, depois que foram pintadas, ficaram metidas!
JARDINEIRO – Assim não dá! Essas rosas falam demais! (Alice entra)
BRANCA/VERMELHA – (sendo pintada) Ai, que cheiro forte tem essa tinta!
JARDINEIRO – Vocês reclamam de tudo!
VERMELHA – Nós somos rosas! Flores são frágeis!
BRANCA – Eu vou ficar branca!
JARDINEIRO – Não vai, não!
BRANCA – Eu sou alérgica! Isso deve fazer mal para as pétalas!
VERMELHA – Tudo pela estética, querida! Eu sempre quis ser vermelha!
VERMELHA – Eu também! Estou realizada! Vermelho é tão ousado!...
VERMELHA – Tão sexy!...
VERMELHA – Tão moderno! ...
JARDINEIRO – Vocês têm que ficar quietas! Assim não é possível!
BRANCA – Eu quero ficar branca!
JARDINEIRO – Se você ficar branca, a Rainha corta nossas cabeças...
JARDINEIRO – E corta você pela raiz!
BRANCA – Ai, que horror!
ALICE – (se aproxima) Os senhores podem me explicar por que motivo estão
pintando as rosas?
24
JARDINEIRO – A Rainha só quer rosas vermelhas no jardim!
JARDINEIRO - Mas nós, por engano, plantamos rosas brancas!
JARDINEIRO - Estamos pintando porque se ela descobrir...
RAINHA – (fora de cena) Cortem-lhe a cabeça!!
JARDINEIROS – Ela vem aí! (A rainha entra. Os jardineiros tremem
apavorados e as rosas ficam paralisadas.)
RAINHA – O que é que esta acontecendo aqui? (Vê Alice) Você, de novo? Eu
avisei que não queria vê-la mais!
ALICE – Bem, eu...
RAINHA – Levante a cabeça! Fale direito!
ALICE – É que eu continuo perdida e...
RAINHA – Calada! Não tenho tempo a perder com você!
ALICE – Mas foi a senhora, quer dizer, foi a Vossa Majestade que...
RAINHA – Calada! Mas esse jardim está horrível! Que rosas horrorosas!
ROSAS – (indignadas) Horrorosas? (a Rainha reage furiosa) Perdão,
Majestade!
RAINHA – (vê os jardineiros tremendo) E esses aí, por que tremem tanto?
(para Alice) Você tem alguma coisa a ver com isso?
ALICE – Eu?
RAINHA – Calada! (para os jardineiros) O que é que vocês estavam fazendo?
JARDINEIRO – (tremendo) Para servir a Vossa Majestade...
JARDINEIRO – (tremendo) Nós estávamos...
JARDINEIRO – (tremendo) Estávamos tentando...
RAINHA – Calados! Já entendi tudo! Pois fiquem sabendo que acabo de decidir
que a partir de hoje, esse jardim se transformará num gramado! Um gramado
liso, rasteiro, no qual praticarei croquet! Eu adoro jogos! Portanto, só quero
grama! Grama! Grama e mais nada!
ROSAS – E nós?
RAINHAS – Estão dispensadas! Fora daqui!
ROSAS – Mas, Majestade!
RAINHA – Eu disse fora! (para as cartas) Tirem essas rosas daqui! (As rosas
saem, expulsas pelas cartas, reclamando) Além de tudo, são barulhentas
demais!
JARDINEIROS – (tremendo) Majestade, e nós?
RAINHA – Não preciso mais dos seus serviços. Portanto... (para as cartas)
Cortem-lhes as cabeças! (sai, rindo. As cartas avançam para os jardineiros,
que saem correndo.)
JARDINEIROS – (saindo) Socoroooooo!
ALICE – Não façam isso! Esperem, por favor! (sai)
25
CENA 11
(Alice se reencontra com o Gato).
ALICE – (entrando, exausta) Puxa, essa gente aqui é doida para cortar a
cabeça dos outros! É de admirar que ainda tenha alguém vivo!
GATO – (fora de cena) Como vai? Vai bem?
ALICE – Quem falou comigo? (vê o Gato e reage mal humorada) Ah, é você,
gato? Veio sozinho dessa vez?
GATO – Como assim?
ALICE – (mal humorada) E os outros? Não vão fazer de novo aquela
brincadeira boba de aparecer e sumir para me deixar confusa?
GATO – Puxa, que recepção! Você não é lá muito simpática! (Alice não
responde) E então, como vão indo as coisas?
ALICE – (debochada) Ah, vão muito bem! Já estou atá achando normal que os
bichos falem, que ninguém me diga que lugar é esse, que todos riam das
minhas perguntas...
GATO – Você podia reclamar menos e aproveitar mais.
ALICE – Aproveitar!?
GATO – Você nunca se imaginou vivendo aventuras, viajando...
ALICE – Já. Sempre que eu lia alguma história assim... emocionante, eu me
imaginava dentro dela, mas...
GATO – Pois então... lembre-se disso.
ALICE – Espere aí! Você está querendo dizer que...
GATO – (saindo) Eu não estou querendo dizer nada. Adeus.
ALICE – Mas...
GATO – Adeus.
(sai)
26
CENA 12
(Alice se reencontra com o coelho branco.)
ALICE – (ouve um som) Esperem! Eu conheço esse som! É ele! O Coelho
Branco!
COELHO - (entrando) É tarde! É tarde!
ALICE – (interrompendo) Senhor Coelho, dessa vez o senhor não me escapa!
COELHO – Me deixe passar!
ALICE – O senhor vai me ouvir! Foi seguindo o senhor que eu me perdi, quer
dizer, eu já estava perdida, mas...
COELHO – Cala essa boca! Me deixe passar! Estou atrasado! Atrasado!
Atrasado!
ALICE – Mas o senhor está sempre atrasado?
COELHO – Cuide da sua vida! Se cada um cuidasse da própria vida o mundo
giraria mais depressa! Depressa! Depressa!
ALICE – Mas isso não seria bom! Se em vez de 24 horas, os dias tivessem
apenas 12, eu acho que...
COELHO – (interrompe) Pare com isso! Eu detesto números! Não me
aborreça!
ALICE – Mas...
COELHO – (olha o relógio) Céus! Estou atrasado! Atrasado! Atrasado! A
Rainha vai ficar uma fera! Uma fera! Uma fera!
ALICE – A Rainha? Mas, por que?
COELHO – Não é da sua conta! Preciso ir! Tenho pressa! Tenho pressa! (sai)
ALICE – Eu vou atrás dele! Senhor Coelho! Espere!
27
CENA 13
(As cartas estão esperando o início do julgamento.)
CARTA - Esse julgamento começa ou não começa?
CARTA - O Rei e a Rainha ainda não chegaram.
CARTA - Enquanto isso nos ficamos aqui, parados, feito um dois de paus? Eu
sou um cinco de copas!
(Alice entra, curiosa.)
ALICE – O que será que está acontecendo aqui? (dirige-se as cartas) Por
favor, será que podiam me dizer...
CARTAS – Quem é você?
ALICE – (para si) De novo? (responde) Meu nome é Alice.
CARTA - Qual é o seu naipe?
ALICE – Hein?
CARTA - Se você não é de copas...
CARTA - Não é de ouros...
CARTA - Não é de espadas...
CARTA - Não é de paus...
CARTAS – Não pode ficar nessa área do Tribunal!
CARTA - Se insistir, será julgada como intrometida!
ALICE – (confusa) Tribunal?
CARTA - Isso é um julgamento, você não sabia?
ALICE – Puxa, eu nunca estive num julgamento antes!
(Entra o coelho apressado como sempre.)
COELHO – (anuncia a chegada dos reis) O Rei e a Rainha de Copas!
ALICE - O Senhor Coelho!
COELHO – (pedindo silêncio) Shh!
CARTA - Silêncio! Dirija-se ao seu lugar!
ALICE – Mas qual é o meu lugar?
CARTA - Bem longe daqui! (Alice se afasta, contrariada.)
28
RAINHA - (canto)
Cabeças vão rolar
Se tem amor à vida é melhor se cuidar
É preciso andar na linha
Desde que essa linha passe longe da rainha
E cabeças vão rolar
Cabeças vão rolar
É chegado o julgamento
Preparem-se para momentos
De medo, suspense e tensão
Porque cabeças vão rolar
Se tem amor a vida é melhor se cuidar
É preciso andar na linha
Porque tudo que acontece aqui a decisão é minha
E cabeças vão rolar
Cabeças vão rolar
Será que é assim que a história vai terminar?
Uma tragédia, uma carnificina
Porque se depender dessa rainha
Cabeças vão rolar... vão rolar... vão rolar
29
COELHO – Como eu disse... O Rei e a Rainha de Copas!
VALETE – (entra, reclamando) Eu sou inocente! Eu sou inocente!
REI – Silêncio no tribunal!
VALETE – Eu sou inocente!
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
REI – Ainda não, querida! Ainda não! Leiam a acusação!
CARTAS – A Rainha de Copas fez umas tortas
Certo dia de Verão
O Valete de Copas roubou as tortas
Sem nenhuma hesitação”
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
REI – Ainda não, querida! Ainda não! Onde estão os jurados?
JURADOS – (entrando) Aqui, Majestade!
ALICE – (reconhecendo os jurados) As lagartas, Dee Dan e Dun e o gato?
Todos com quem eu me encontrei? O que será que isso quer dizer?
REI – Silêncio!
VALETE – Majestade, se me permite, eu gostaria de declarar que...
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
VALETE – Eu sou inocente!
REI – Calado! Ninguém lhe pediu declarações! Mandem entrar as primeiras
testemunhas!
COELHO – O senhor Chapeleiro e a Lebre de Março!
(O chapeleiro e a lebre entram tomando chá.)
JURADOS – Tomando chá?!
LEBRE – Nós ainda não tínhamos acabado o chá quando fomos chamados!
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
REI – Calma, querida! (para o Chapeleiro) Você aí! Está num tribunal! Tire o
seu chapéu!
CHAPELEIRO – Meu chapéu? Esse chapéu não é meu.
REI – O chapéu é roubado!
TODOS – Oh!
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
CHAPELEIRO – Eu sou um chapeleiro de profissão! Uso chapéus para vendê-
los! Nenhum deles é meu!
30
REI – (para os jurados) Anotem isso! (para o chapeleiro e a lebre) Façam seus
depoimentos!
CHAPELEIRO – Eu não sei de nada.
REI – (para os jurados) Anotem isso!
CHAPELEIRO – Mas a Lebre de Março me disse que...
LEBRE – Não disse, não!
CHAPELEIRO – Disse, sim!
LEBRE – Não disse, não!
CHAPELEIRO – É claro que disse!
LEBRE – Eu nego isso!
REI – Se ela nega, deixemos esse assunto lado. (para as testemunhas) Têm
mais alguma coisa a declarar?
CHAPELEIRO E LEBRE – Sim! Gostaríamos de acabar de tomar nosso chá.
REI - (para os jurados) Anotem isso! (para os dois) Podem ir embora!
RAINHA – Cortem-lhe...
REI – Calma, querida. (para o coelho) Mande entrar a próxima testemunha!
ALICE – (à parte) Isso parece um hospício! O que é que eu estou fazendo
aqui?
COELHO – Próxima testemunha... Alice!
ALICE – (assustada) Eu?
TODOS – Seu nome não é Alice?
ALICE – É, mas...
TODOS – Então, é você!
RAINHA – (vendo Alice) Você de novo?
ALICE – (fazendo reverência) Como vai, Majestade?
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
REI – Ainda não, querida. Eu vou interrogá-la. (para Alice) Que sabe a respeito
do caso?
ALICE – Nada.
REI – Absolutamente nada?
ALICE – Absolutamente nada.
REI – (para os jurados) Anotem isso!
COELHO – Majestade, acaba de ser descoberta uma nova prova. (mostra um
envelope) Esse documento!
TODOS – Oh!
REI – O que tem nele?
31
COELHO – Tudo indica que seja uma carta do réu para alguém.
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!
VALETE – Sou inocente!
REI – Silencio no tribunal! (para o coelho) A carta é endereçada a quem?
COELHO - (confere) A... ninguém.
TODOS – Oh!
REI – Está assinada pelo réu?
COELHO – Não.
REI – É uma carta anônima!
TODOS – Oh!!
REI – Foi escrita com a letra do réu?
COELHO – Não.
REI - Ele falsificou a letra de alguém!
TODOS – Oh!
REI – (para o valete) A sua situação ficou insustentável!
VALETE – Eu sou inocente!
REI – Silêncio! (para a rainha) Querida, agora sim! (para os jurados) Senhores
jurados, vamos lá!
(Ouve-se um rufar de tambores.)
JURADOS – 1, 2, 3 e...
RAINHA – Cortem-lhe a cabeça!!! (aplausos)
ALICE – Parem com isso! Vocês estão loucos? Eu nunca vi um julgamento
mais injusto!
REI – Silêncio no tribunal!
ALICE – Silêncio coisa nenhuma!
TODOS – Oh!
RAINHA – (para Alice) Dobre essa língua ou...
ALICE – Ou o quê?
RAINHA – Eu corto-lhe a cabeça!
ALICE – Corta coisa nenhuma! Eu não tenho medo de você! Isso tudo é falso!
Você não passa de uma rainha de carta de baralho! E para mim cheeeeega!!!
32
EPÍLOGO
(A irmã tenta acordar Alice.)
IRMÃ – Alice! Alice!
ALICE – (acordando) O que houve?
IRMÃ – Acorde, querida! Você sempre teve sono pesado, mas hoje...
ALICE – (abraça a irmã) Minha irmã! Eu estou de volta?
IRMÃ – De volta?
ALICE – É. Eu não estava aqui!
IRMÃ – Como não?
ALICE – Eu estava num outro mundo.
IRMÃ – Você quer dizer que sonhou que estava num outro mundo!
ALICE – Não! Não era sonho! Eu estou acostumada a sonhar! Não era sonho!
IRMÃ - (não acredita) Ah, não?
ALICE – Não! Eu me encontrei com vários animais e criaturas esquisitas!
Todos eles me diziam coisas...
IRMÃ – Os animais... “diziam coisas”?
ALICE – Todos falavam! Os animais, as flores... todos! E eles me diziam coisas
tão interessantes! Pena que eu estava muito confusa e não conseguia entender
muito bem. Mas, maninha, agora eu tenho certeza!
IRMÃ – De quê?
ALICE – De que existem outros mundos.
IRMÃ – Minha querida, venha cá. Olhe, no nosso mundo, nem sempre as
coisas acontecem como nós gostaríamos. Então, muitas vezes, nossa
imaginação inventa outros lugares, outros mundos, histórias mirabolantes onde
nós somos os personagens principais. E quando se tem a sua idade, é muito
fácil achar que tudo é verdade!
ALICE – Quem te disse isso?
IRMÃ – Eu sei. Eu também sonhei muito, meu bem.
ALICE – E não sonha mais?
IRMÃ – Claro que sim! Só que quando a gente vai ficando adulta, vai
aprendendo a separar direitinho o que é imaginação do que é realidade. Mas
agora, vamos! Já é hora do chá!
ALICE – (se assusta) Hora do chá?
IRMÃ – Por que o espanto?
ALICE – Nada. Eu... me lembrei de uma coisa.
IRMÃ – Vamos indo?
ALICE - Eu já vou. (irmã sai) “Separar direitinho o que é imaginação do que é
realidade”? Uhn, que coisa mais sem graça! Ai, alguma coisa me diz que,
depois de tudo que aconteceu, não vai ser muito fácil aturar esse... “mundo
real”. (sai)
33
FINAL
Solos
Qual será esse final?
Existe lição ou moral?
Ou ficamos somente a pensar
Que estávamos a sonhar?
Como essa menina que é real tudo que ela imagina
E sem medo ou receio de errar se deixou levar
Pra qualquer lugar ou qualquer direção
Se foi um sonho ou não passou de uma lembrança
E pra uma criança talvez não importe saber
Todos
Qual será esse final?
Existe lição ou moral?
Ou ficamos somente a pensar
Que estávamos a sonhar?
Como essa menina que é real tudo que ela imagina
E sem medo ou receio de errar se deixe levar
Pra qualquer lugar ou qualquer direção
Deixe a fantasia despertar seus sonhos ou lembranças
E como uma criança que não importa em saber
E essa história
Não se sabe bem como ela vai terminar
Mas que fique na memória essa ilusão
Pois os sonhos são e nunca terão... um fim... um fim