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Democracia Agonística: Prof. Rafael Morais

O documento discute o conceito de democracia agonística, abordando suas críticas a modelos democráticos tradicionais e a complexidade das sociedades contemporâneas. Ele explora a evolução histórica da democracia, destacando as contribuições do liberalismo e dos direitos civis, além de analisar as revoluções que moldaram o pensamento democrático moderno. O texto também examina os desafios atuais enfrentados pela democracia, incluindo questões de direitos humanos e desigualdade social.

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Matheus Mora
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Democracia Agonística: Prof. Rafael Morais

O documento discute o conceito de democracia agonística, abordando suas críticas a modelos democráticos tradicionais e a complexidade das sociedades contemporâneas. Ele explora a evolução histórica da democracia, destacando as contribuições do liberalismo e dos direitos civis, além de analisar as revoluções que moldaram o pensamento democrático moderno. O texto também examina os desafios atuais enfrentados pela democracia, incluindo questões de direitos humanos e desigualdade social.

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Democracia agonística

Você verá o conceito de democracia agonística, projetado a partir de críticas a outros modelos propostos
e fundamentalmente preocupado com a adequação da complexidade e da pluralidade das sociedades
contemporâneas a um regime democrático.
Prof. Rafael Morais
1. Itens iniciais

Propósito
Discutir o conceito de democracia agonística, bem como compreender os fundamentos centrais da
democracia contemporânea, suas contradições e seus principais aportes teóricos.

Objetivos
• Identificar os conceitos elementares da teoria democrática.

• Reconhecer as características da democracia liberal.

• Analisar os pilares do conceito de democracia agonística.

Introdução
A democracia é um conceito polissêmico. Isso significa que não se esgota em apenas uma definição, mas
múltiplas. Neste conteúdo, discutiremos as principais dimensões conceituais da democracia contemporânea,
que geram profundos embates teóricos entre muitos autores. Veremos em amplitude histórica o desenrolar
desses conceitos e as principais críticas e os debates em torno deles, de modo a compreender os
fundamentos, os dilemas e os desafios da democracia.

Além disso, vamos debater as características da democracia liberal ao explorar as noções de democracia
agregativa e democracia deliberativa. Também trataremos dos pilares do conceito de democracia agonística,
em particular, pela crítica aos modelos agregativo e deliberativo e a noção de democracia plural.
1. Introdução à teoria da democracia: história e conceitos importantes

Liberalismo e direitos civis


Compreenda neste vídeo como o liberalismo e os direitos civis se relacionam à formulação da democracia
moderna.

Conteúdo interativo
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As ideias liberais emergiram no século XVII, na Inglaterra, em oposição violenta ao absolutismo. Pautavam-se,
basicamente, na ideia de que o indivíduo é possuidor de direitos naturais que antecedem o Estado e, que,
portanto, deveria ter sua constituição orientada, em primeiro lugar, pela garantia desses direitos.

O Estado absolutista, hobbesiano — cuja única obrigação no contrato social é a segurança coletiva dos
indivíduos que cedem sua soberania e, assim, constituem a soberania do Estado — é retratado na capa da
obra de Hobbes, Leviatã, como um homem constituído por indivíduos. Dessa forma, a soberania do Estado é
constituída pelas soberanias individuais cedidas pelo contrato, que funda o soberano, que, segundo o modelo
absolutista, tem plenos poderes para governar, poder de vida e morte sobre seus súditos, e governa por
direito de sucessão hereditária.
Frontispício da edição original do livro Leviatã, 1651.

John Locke, escrevendo algumas décadas depois de Hobbes, fará o movimento de ruptura com o absolutismo
ao publicar sua principal obra, Segundo tratado sobre o governo civil. A obra é, ao mesmo tempo, o produto
das disputas entre o Parlamento e o Rei na Inglaterra, vencidas pelo primeiro, que representa a burguesia
inglesa em franca ascensão. Locke subscrevera as necessidades burguesas de mais espaço e direitos civis
para escapar das amarras do poder régio a fim de expandir seus negócios e sua participação nos lucros e nos
dividendos da atividade econômica expansiva da Inglaterra do século XVII.

O século XVII marcou a Inglaterra com dois ciclos de guerras civis que, juntos, promoveram a primeira
revolução burguesa e liberal. O primeiro foi encerrado com a subida ao poder de Oliver Cromwell, em 1651,
mesmo ano de lançamento de Leviatã.

O governo despótico de Cromwell, uma espécie


de fase jacobina da revolução inglesa,
implementou uma das mais importantes
políticas públicas inglesas para alavancar a
Inglaterra como a maior potência do mundo: o
Ato de Navegação, ou Leis de Navegação, que
instituíam o monopólio do transporte das
mercadorias vitais para a economia inglesa.

Marcado por muitos conflitos e despotismo, o


governo de Cromwell chegou ao fim com sua Oliver Cromwell.
morte, a qual se seguiu seu filho, que não foi
capaz de sustentar o legado do pai. A
restauração da monarquia teve lugar sob o
compromisso de menos despotismo, que, descumprido, inaugurou a etapa derradeira do processo
revolucionário: a Revolução Gloriosa. A Inglaterra entrou no século XVIII como uma monarquia constitucional,
algo que não mudou até hoje.

Em sua obra Segundo tratado sobre o governo civil (1994), Locke apresenta os fundamentos do individualismo
liberal, advogando por mais mediação entre o poder e os indivíduos, segundo ele, dotados de direitos e
anteriores ao Estado. Sendo, portanto, intocáveis por ele.

A obra de Locke rompe com a de Hobbes, a partir de uma perspectiva diferente do estado de natureza.
Vejamos:

Hobbes Locke

A fase pré-contratual da humanidade é A fase pré-contratual da humanidade


marcada por pessimismo. se dá em relativa harmonia.

Os homens vivem em cooperação justamente pelo entendimento mútuo quanto à insustentabilidade de


viverem em permanente ameaça, desconfiança e, consequentemente, guerra (de todos contra todos) —
apesar de estarem de fato sujeitos a ameaças contra a propriedade, como reconhece Locke, ainda que não o
tipo de ameaça permanente e urgente de Hobbes. Por isso, a importância do Estado como ente garantidor,
por meio das leis e do aparato de segurança, dos direitos naturais do ser humano.

Locke formula seu conceito de propriedade, pedra angular do Liberalismo, desta forma:

• A propriedade é, em primeiro lugar, constituída pela vida, seguida pela liberdade e pelos bens.

• A ordem não é axiomática: é preciso estar vivo para ser livre, e é preciso ser livre para ter direito a
bens, então classificados como o fruto de qualquer trabalho aplicado sobre uma matéria da natureza.

• O trabalho é a única fonte de riqueza, noção que será a base da economia política.
A partir de seu entendimento sobre os direitos naturais, Locke argumentou que o Estado não deve ter poder
absoluto sobre os indivíduos, como defendia Hobbes, mas deve ter seus poderes limitados pela defesa dos
direitos naturais do homem.

É a partir dessa lógica que Locke desenvolve o direito de


resistência, compreendido como o direito (e o dever) do
cidadão de resistir a uma tirania (o exercício do
despotismo), ou a qualquer ameaça vinda do Estado contra
qualquer um de seus direitos (naturais), pois um Estado que
não protege tais direitos perde a sua legitimidade. O
exercício da tirania, nessa acepção, consiste na violação da
propriedade pelo governo, o que coloca o Estado em guerra
com a sociedade. Essas ideias se articulavam com o papel
de um poder legislativo forte e atuante.

Em Locke, os homens pactuam trocando liberdade por


segurança para fundar um poder centralizado que possa
John Locke, considerado o pai do Liberalismo político. garantir seus direitos naturais, então pela lei convertidos no
advento dos direitos civis, promovendo a transição de
súditos para cidadãos e quebrando com a premissa, antes
inquestionável, do poder absoluto dos soberanos. Do conceito de propriedade em Locke surge a noção de
uma sociedade liberal que deverá ser conduzida por um Estado liberal.

O consentimento expresso dos governados é a única fonte de poder legítimo (Locke, 1998).

Segundo Bobbio (2017), a obra de Locke constitui “a primeira e mais completa formulação do Estado liberal”.
Toda essa estrutura teórica e racional foi de fundamental importância para o processo revolucionário que
ganhou corpo no século XVII e abriu a porta para a superação do Antigo Regime.

A Revolução Gloriosa foi a marca do triunfo do liberalismo na Inglaterra, e a primeira de uma onda que
atravessaria gerações pelo velho continente e até aportaria no novo mundo, em 1776, nos EUA. A proclamação
do Bill of Rights, uma carta de direitos civis, em 1689, proclamou o fim do absolutismo na Inglaterra,
substituído por uma monarquia constitucional, vigente até hoje.

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Direitos humanos e sociais


Confira neste vídeo os primeiros debates sobre a humanidade, os direitos do homem e as liberdades e
práticas sociais que influenciam os debates sobre a democracia.

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Em 14 de julho de 1789, uma década após a declaração de independência dos EUA, a França mergulhou no
caos social, e a data é celebrada até hoje como um marco de independência. Nesse dia, os franceses,
revoltados com as péssimas condições sociais pelas quais passavam, invadiram a Bastilha (uma masmorra
que servia como arsenal do exército) e tomaram as armas, dando início à Revolução Francesa.
Prise de la Bastille (Queda da Bastilha), por Jean-Pierre Houël.

A Revolução Francesa marcou a história por ter instituído os direitos sociais e as liberdades individuais com
grau de impacto maior do que a experiência insulada na Inglaterra. O Estado francês, muito endividado por
guerras, aumentava a taxação sobre o seu povo ao mesmo tempo que a grave crise econômica gerava
desabastecimento. A fome avançava entre os franceses, enquanto a monarquia vivia mergulhada em
desperdício e opulência. Devido a essa grave situação econômica e social, a participação ativa do povo
resultou em um processo revolucionário especialmente violento. A revolta contra a monarquia levou a saques,
assassinatos e muita destruição.

Era o direito de resistência de Locke, concebido um século antes, em forma viva e o começo do fim do
absolutismo no continente europeu.

Comentário
Segundo Hobsbawm (1995), o Estado francês gastava cerca de 20% a mais do que deveria no fim da
década de 1780, à beira da revolução, e usava aproximadamente 50% do seu orçamento para pagar
dívidas contraídas, sobretudo em guerras, o que resultou em elevada inflação. A demanda por reformas
era tão urgente quanto ignorada pelas classes dominantes, indispostas a renunciar a seus privilégios.

Governada pelos Bourbons, sob Luís XVI, a França era uma sociedade típica do Antigo Regime em seu estado
ideal. A organização social, herdada do feudalismo, dividia-se em três estados (castas) sociais:

• Clero

• Nobreza

• Povo

O terceiro e mais heterogêneo estado social, o povo, era composto essencialmente por:

Camadas rurais Burguesia

Ligadas ao trabalho na terra sob a Classe em ascensão, fundamental para


propriedade das duas castas superiores (as o fortalecimento dos Estados durante o
classes proprietárias). mercantilismo.
Para tentar debelar a crise econômica, foi convocada a Assembleia dos Estados Gerais, cuja função era reunir
a sociedade francesa, na figura dos seus três estados, em momentos de crise. No entanto, a reunião não foi
capaz de debelar a revolta, pois a estrutura da deliberação correspondia à sociedade estamental, reservando
mínimo peso para o voto do terceiro estado.

Após discordar das elaborações da Assembleia


Nacional, o rei determinou o seu fechamento,
culminando com a revolta contra a monarquia,
em 14 de julho de 1789, data considerada o
marco de origem do processo revolucionário
que conseguiu a abolição dos privilégios
feudais em agosto de 1789 (um mês após o
episódio da Bastilha) e, em setembro, logrou a
proclamação da Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão, que determinava que
todos os homens eram iguais perante a lei,
rompendo com a sociedade estamental. Em
1790, a Assembleia Nacional aprovou a
Constituição Civil do Clero, que eliminava Representação da Declaração dos Direitos do Homem e
privilégios eclesiásticos e visava subordinar a do Cidadão por Jean-Jacques-François Le Barbier.
Igreja ao Estado.

Em 1792, a Assembleia Nacional também


ratificou o estado de guerra contra outras monarquias europeias. As classes poderosas francesas, destituídas
de seus privilégios pela revolução, deram início a um processo contrarrevolucionário com a ajuda de outros
Estados europeus, interessados em conter o “germe” revolucionário. O estado de guerra abriu caminho para a
radicalização da violência interna, pois, com a ameaça da guerra batendo às portas da França, a urgência pela
pacificação se impunha.

Comentário
A revolução passou por diversas fases, assumindo tom mais conservador durante o período napoleônico,
em função da necessidade de segurança. Não obstante, Napoleão consolidou e promoveu diversos
avanços da revolução — e revogou outros, como o fim da escravidão nas colônias, suscitando uma
rebelião no Haiti que culminaria na independência desse país.

Desde a Revolução Francesa, os direitos humanos têm sido objeto de lutas políticas, inclusive das lutas pela
descolonização que tinham como alvo a própria França, detentora, até meados da segunda metade do século
XX, de um imenso império colonial.
Nos dias atuais, o mundo ainda convive com
diversos lugares em que violações sistemáticas
de direitos humanos ocorrem diariamente,
inclusive nos países centrais, como os EUA,
onde o racismo estrutural ainda leva a abusos
policiais e a pobreza cresce, confrontando
cidadãos norte-americanos com condições de
vida cada vez mais difíceis. Um exemplo
recente que gerou protestos no mundo todo foi
o caso George Floyd, um homem afro-
americano brutalmente assassinado em maio
de 2020 durante uma abordagem policial.

Nos países periféricos, tais situações e Marcha contra a violência policial nos EUA organizada
condições são sistêmicas, além de ser possível pelo Movimento Black Lives Matter (Vidas Negras
observar um sensível agravamento nas últimas Importam) em 2020.
décadas.

Dica
Para entender melhor o movimento Vidas Negras Importam, leia a matéria: Como três mulheres criaram o
movimento global Black Lives Matter a partir de uma hashtag, publicada pelo G1 em 20/12/2020.

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A conjuntura da democracia contemporânea


Acompanhe neste vídeo a democracia e suas transformações ao longo do século XX, tais como: valor durante
a Guerra, bem-estar social e princípio neoliberal.

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As origens teórico-epistemológicas da transformação dos direitos liberais e, por consequência, dos


fundamentos democráticos, o que, na década de 1970, seria chamado de neoliberalismo, remontam à década
de 1930, quando liberais se dividiam para tentar propor alternativas à crise do liberalismo que se arrastava
desde a última década do século XIX.

A ascensão dos EUA e da Alemanha ao topo do poder industrial, em fins daquele século, levou as economias
do restante do mundo a intensas rodadas protecionistas para concorrer com as muito bem protegidas
economias norte-americana e alemã. Impulsionados, respectivamente, pelas ideias de Alexander Hamilton e
Friedrich List, os modelos econômicos dos EUA e da Alemanha eram intensamente protecionistas e
caminhavam para a formação de grandes monopólios.
Somado a isso, o contexto da corrida
armamentista que levou à Primeira Guerra
Mundial também colaborou para o fechamento
das economias e para o abandono das ideias
liberais. Com o fim da guerra, alguma
recuperação foi notada, mas logo foi
interrompida pela crise de 1929, que pôs um
freio à tendência financista que o capital vinha
assumindo em decorrência do modelo
monopolista que vigorava desde o fim do
século XIX.
Produção de munição em fábrica de armas e bombas
A crise de 1929 solapou economias no mundo na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial.
todo, sobretudo na Europa, que se recuperava
da Primeira Guerra Mundial. São amplamente
conhecidos os impactos dessa crise na
economia alemã, que já lutava para lidar com as pesadas imposições do Tratado de Versalhes. A crise de 1929
jogou mais lenha na fogueira da crise do liberalismo, consolidando a ascensão dos regimes nazifascistas.

Venda de selos e cartões postais da previdência para acesso ao auxílio emergencial


alemão durante a Grande Depressão, 1929.

No fim da década de 1930, liberais reuniam-se em associações — os embriões dos modernos think thanks —,
para discutir alternativas para o sistema liberal de ideias. Desses debates, emergiram alguns modelos que
viriam a caracterizar o neoliberalismo. No entanto, levaria décadas até serem efetivamente implementados,
em função da hegemonia dos modelos keynesianos desde a crise de 1929 e do pós-Segunda Guerra Mundial,
que contemplavam uma economia com base reformista para produzir um estado de bem-estar social. Esse
modelo foi o responsável pelo período apelidado pelos historiadores de era de ouro do capitalismo, que
corresponde às décadas de 1950 e de 1960.

A crise da década de 1970 — uma combinação


entre a queda da taxa de lucros e o choque do
petróleo que se seguiu à desindexação do dólar
em relação ao ouro, rompendo com o acordo de
Bretton Woods — levou à queda do modelo
keynesiano e ao começo do fim do Welfare
State, processo que segue em curso.

A partir da década de 1980, principalmente, o


Fila de carros para abastecer em posto de gasolina na
mundo passaria à consolidação de uma
cidade de São Paulo durante a crise do petróleo no
hegemonia neoliberal nas políticas econômicas,
Brasil, 1979.
que preconizavam máxima abertura e
desregulamentação como respostas à queda
das taxas de crescimento, problema que era
atribuído, pelos neoliberais, ao custo do Estado de bem-estar social.
Comentário
Após o colapso da União Soviética, a tendência neoliberal foi ainda mais favorecida, agora politicamente,
uma vez que o equilíbrio de forças observou um desequilíbrio nas relações entre o capital e o trabalho.

Na atual conjuntura, observamos os impactos sistêmicos das políticas e dos modelos neoliberais que levaram
à degradação dos direitos sociais e trabalhistas e à desindustrialização nas poucas nações periféricas que
lograram desenvolver um parque industrial durante o século XX, como o Brasil, e também nas nações centrais,
como os EUA. País no qual a transferência de diversas indústrias do setor chamado medium and low tech,
amplamente responsável pelos bons empregos, tem levado ao empobrecimento da classe média norte-
americana, segundo diversos estudos.

Essas fábricas, outrora instaladas no meio-oeste norte-americano, agora estão na Ásia, onde encontraram
mão de obra mais barata e outros incentivos diversos. Nos países periféricos, a situação é ainda pior, dadas as
vulnerabilidades sociais pré-existentes.

Na Europa, apesar da presença do Welfare


State, que atenua os efeitos dessas políticas, a
situação já atinge níveis alarmantes devido ao
avanço da pobreza e às reformas voltadas para
aumentar a idade de aposentadoria e a
flexibilização de leis trabalhistas, gerando
intensos protestos e instabilidade política.

Manifestação contra a proposta do governo de reforma


da previdência, em Paris, 2023.

Dica
Assista ao documentário de curta-metragem Unravel da diretora e produtora indiana Meghna Gupta
(13:35m), disponível legendado na plataforma Vimeo. O filme mostra trabalhadores de fábricas de
reciclagem de roupas na Índia e expõe aspectos do consumo ocidental e a política neoliberal aplicada às
indústrias têxteis.

Verificando o aprendizado

Questão 1

Sobre as ideias de John Locke, considerado o pai do liberalismo, indique a alternativa correta:

A
Para Locke, o Estado deveria garantir os direitos naturais dos indivíduos, entendidos não como súditos, mas
como cidadãos dotados de mais aspirações do que apenas a garantia da segurança.

Para Locke, assim como para Thomas Hobbes, o Estado deveria ser capaz de promover os interesses da
nação visando ao fortalecimento das colônias a fim de promover mais direitos e garantias aos colonos.

Se para Hobbes o Estado deveria ser soberano sobre quaisquer direitos individuais, para Locke ele deveria
observar as garantias de sufrágio universal, garantindo o regime democrático.

Em sua obra Segundo tratado sobre o governo civil, Locke preconiza os primórdios ideológicos do liberalismo,
defendendo o direito de propriedade e a ideia de que os fins justificam os meios.

O contexto social vivido por Locke na Inglaterra era semelhante àquele vivido por Maquiavel na Itália, e os dois
chegaram a reflexões parecidas a partir de seus respectivos contextos.

A alternativa A está correta.


De acordo com Locke, o Estado era visto não apenas como mera contenção à guerra de todos contra
todos, segundo a perspectiva hobbesiana, mas como o resultado de um pacto coletivo pela garantia de
direitos naturais de propriedade (vida, liberdade e bens) que estariam em ameaça no estado de natureza.

Questão 2

O neoliberalismo pode ser considerado uma ameaça à democracia porque

incentiva a tirania.

implementa modelos econômicos que demandam um governo militar.

favorece o poder dos grandes monopólios, levando a um regime oligárquico.

idealiza um regime oligárquico.

ataca as ideias liberais.


A alternativa C está correta.
O neoliberalismo moldou um novo regime de acumulação, institucionalmente, favorecendo a concentração
de capital, o que torna as democracias reféns do poder de grandes grupos econômicos.
2. Democracia liberal

Democracia agregativa
Entenda neste vídeo o conceito de democracia agregativa e os teóricos que contribuíram para essa
formulação.

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“O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor mediano.” A frase
de Winston Churchill (apud Przeworski, 2019) traduz um pensamento conservador que antagoniza com a
democracia, mas não deixa de expor um problema concreto: como garantir estabilidade e funcionalidade à
democracia confiando o poder ao povo, que, presumivelmente, não está capacitado dos amplos
conhecimentos necessários para tomar decisões políticas complexas, típicas de sociedades pós-industriais,
com milhões de habitantes e incontáveis problemas de difícil solução?

A questão é séria, perturba filósofos e teóricos políticos há milênios, e nos leva a uma primeira conclusão: a
democracia só é possível vinculada à educação para a democracia e, principalmente, a uma prática
democrática em microescalas.

É importante pensar que a democracia é uma prática, não um estado, e ela só pode ser realizada a
partir de um aprendizado e prática cotidianos que aproximem as pessoas da política.

Das dificuldades em promover a educação para a democracia em sentido amplo, bem como dos anseios
elitistas das classes dirigentes que buscavam excluir as camadas populares de uma maior participação,
nasceu o modelo agregativo, cujo mote central é a representação.

Max Weber, embora não tenha abordado o tema de forma específica, o tangenciou diversas vezes, sendo um
autor importante para entender os elementos do elitismo democrático. Weber concebia a democracia como
um instrumento de contingenciamento do poder do kaiser e da burocracia — um dos temas centrais de sua
obra —, e entendia o parlamento como um progresso, sendo um instrumento mediador ante o perigo do
autoritarismo.

Comentário
Weber analisa o capitalismo dentro da órbita do progresso da humanidade, e, nesse sentido, a
democracia burguesa seria um ideal de regime político porque impõe um freio à escalada das tensões. A
ideia de desencantamento do mundo, que vê na razão o fundamento central da sociedade moderna,
compõe, na obra weberiana, uma interpretação racional e sistemática dessa sociedade, sendo o regime
democrático liberal a expressão dessa racionalidade como forma de regime político.

Para dar conta da complexidade da sociedade emergente da revolução industrial — que observa o surgimento
do proletariado como uma nova classe social que rapidamente reconfigura as cidades e opera uma profunda
transformação social a partir do intenso conflito entre capital e trabalho —, Weber vê a consolidação da
democracia como necessária. Mas não segundo o modelo clássico, da Grécia Antiga, onde a participação era
o objetivo, e sim a partir do viés liberal promovido pela burguesia agora na condição de classe dominante.
O modelo liberal, posteriormente chamado de agregativo, seria necessário para, sobre bases procedimentais
bem institucionalizadas, servir como mecanismo de promoção dos valores fundamentais da nova sociedade
(burguesa), tais como a competição e a liberdade de escolha.

A preocupação de Weber e de outros autores do mesmo


período é com a necessidade de neutralizar o conflito
social, escalando naquele momento a partir das tensões
sociais produzidas pela revolução industrial. Nessa acepção
de ordem social, a heterogeneidade é encarada como um
fator de desagregação social, devendo ser combatida. Daí a
ideia de afastar a participação, de modo que a sociedade
possa ser governada por instituições racionais que,
necessariamente, devem ser comandadas por sujeitos
racionais — o que presume um dado tipo de sujeito:
educado, erudito e, logo, da elite.

Qualquer ideia de democracia direta é abandonada por esse


Max Weber. raciocínio por não haver nela nenhum mecanismo confiável
para balancear o conflito político entre as facções. Na
prática, essas interpretações da democracia revelam
preocupações conservadoras com a contenção do processo revolucionário, que deveria cessar na ascensão
da burguesia, numa parceria com a aristocracia sobrevivente à queda do Antigo Regime, para barrar as
demandas das classes populares que poriam em risco a propriedade privada.

Em defesa da conservação daquele status quo,


Weber argumenta que a expropriação do
trabalho — denominada por Marx de mais-valia
— consiste em um elemento presente em todas
as organizações burocráticas, sendo parte
inevitável no processo de centralização. Nessa
toada, os indivíduos que se encontram em
escalas inferiores da hierarquia burocrática
perdem controle (poder) sobre o próprio
trabalho, uma vez que as burocracias tendem a
se tornar forças impessoais que ignoram as
necessidades particulares dos indivíduos; um
preço a ser pago para desfrutarmos da
sociedade moderna. Karl Marx.

Essa percepção naturaliza a exploração do


trabalho segundo uma racionalização que
fundamenta a própria sociedade moderna, além de legitimar a dominação política da burguesia, justificando
um modelo de regime político que seja capaz de conter os conflitos sem resolver suas causas, pois estas
estão dadas.

Weber pensa a importância do parlamento para as discussões dos problemas de interesse público — então
tutelados pelos representantes esclarecidos — no sentido de se opor tanto ao autoritarismo do kaiser quanto
ao do povo, segundo a ideia, amplamente difundida no século XIX a partir das obras de Tocqueville e
Rousseau, de tirania da maioria sobre a minoria.

A discussão parlamentar seria o laboratório, na teoria weberiana, de formação dos grandes líderes
políticos capazes de deter o autoritarismo.

O modelo teórico agregativo, desenvolvido a partir do pós-Segunda Guerra principalmente por Schumpeter
(1961), postulava um sistema representativo no qual as pessoas podem aceitar ou rejeitar seus líderes em
processos eleitorais competitivos. Os interesses e as preferências do povo deveriam, então, ser a base da
organização político-partidária. Schumpeter descarta quaisquer potenciais argumentativos de um modelo de
democracia mais popular na era da sociedade de massas, manifesta um repúdio à participação do homem
comum na política e compara a democracia ao mercado.
Schumpeter definiu a democracia moderna como um arranjo
institucional no qual os únicos meios de participação
abertos ao cidadão seriam o voto e a discussão. A
democracia seria um método, não um fim, e seria
necessário evitar que a massa tivesse mais influência no
processo de tomada de decisão. Essa visão consagra o
princípio do homo economicus, segundo o qual os seres
humanos são agentes racionais dotados de um cálculo de
custo/benefício em suas decisões.

Berelson (1952) assume posições semelhantes às de


Schumpeter, a partir do consenso de que há demandas para
a democracia funcionar que não correspondem aos
Joseph Schumpeter.
atributos do cidadão médio, que normalmente é
desinteressado das questões políticas — ou não tem tempo
para abordá-las.

Já para Dahl (2001), a questão central está no


controle que os cidadãos comuns podem
exercer sobre seus representantes eleitos,
tendo como arma de negociação o voto,
enquanto Sartori (1994) reafirma esse mesmo
argumento, enfatizando os problemas inerentes
à participação, com destaque também para a
falta de interesse e conhecimento sobre os
assuntos políticos por parte do cidadão
comum.
Robert Dahl.
Por último, Eckstein (2015) classifica a
democracia como um regime no qual a disputa
se dá entre os representantes eleitos, ou seja,
sua definição não inclui uma maior participação além do voto.

Essa revisão teórica informa algo muito substancial sobre a teoria de democracia: ela não é descritiva, mas
normativa, e de inspiração nas experiências anglo-saxônicas, ou seja, datada historicamente.

Atenção
A democracia liberal — produto histórico desse modelo — aparece como única possibilidade em um
movimento que, em certa medida, naturaliza a experiência da democracia segundo o viés liberal,
contrapondo-se apenas às formas de autoritarismo. Em outras palavras, a escolha estaria apenas entre a
democracia liberal e a ditadura.

O medo das massas marca o contexto dos debates sobre a democracia em sua fase inicial. A Revolução
Industrial produziu uma nova classe, a classe operária, e mudou radicalmente a configuração da vida urbana.
Ortega Y Gasset (1962), em A rebelião das massas, trata da emergência do “homem médio que hoje se vai
apoderando de tudo” (Gasset, 1962, p. 38).

A massa precisa ser contida, pois configura uma ameaça aos valores da civilização.

A resistência das elites — incluindo a emergente burguesia — para admitir o povo em seu projeto se insere em
uma confusão comum. A discussão sobre a democracia liberal se confunde, por vezes, com a do
republicanismo que encampou a luta contra o Antigo Regime.
Segundo Starling (2018), durante a conjuração mineira, no Brasil Colônia, os republicanos na capitania das
Minas Gerais — subversivos à ordem da época — discutiam o problema da liberdade, porém não sem externar
imensas reservas com a questão da inclusão dos negros e das massas mais incautas nos processos políticos
então elaborados no âmbito da conjuração, que visavam substituir a ordem da Coroa.

Exemplo
O padre Carlos Correia de Toledo e Melo, influente nas Minas Gerais do século XVIII, era favorável a
estender a igualdade legal a todos os moradores da capitania. Ao mesmo tempo, “considerava a
extensão da igualdade de poder uma completa irresponsabilidade”, porque, segundo a autora, “no final
do século XVIII, a questão da liberdade e demais direitos, que corroía o Antigo Regime, habitava um
paradoxo com a escravidão, base pouco questionada da economia moderna então se expandindo.”
(Starling, 2018, p. 142).

Monteiro Lobato e Alcibíades Pizza


argumentaram, em um manifesto contra a
universalização do voto em 1924, que o voto
obrigatório conduzia massas incautas para o
processo eleitoral, “distorcendo e viciando os
resultados do pleito, já que os votos da maioria
ignorante esmagam os votos da minoria
pensante” (Costa, 2008, p. 45).

A participação, portanto, tem sido encarada


como um problema de difícil solução por Monteiro Lobato.
diversos teóricos desde a constituição das
primeiras experiências democráticas, ainda
muito ligadas a repúblicas conduzidas por elites
aristocráticas/burguesas.

Na prática, as revoluções liberais foram desaceleradas pela


percepção comum entre a alta burguesia e a nobreza/
aristocracia — inimigas no processo de derrubada do Antigo
Regime — de que era necessário conter o processo
revolucionário antes que ele prosperasse demandas das
classes populares.

É assim que a burguesia passa, rapidamente, em termos


históricos, de classe revolucionária a classe conservadora.
Ideia de representação.
Essa é a discussão de fundo sobre o problema da
representação: uma relação de poder.

Democracia deliberativa
Confira neste vídeo o conceito de democracia deliberativa e os teóricos que contribuíram para essa
formulação.

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Deliberar, etimologicamente, pode significar tanto ponderar quanto decidir, razão pela qual podemos acentuar
pelo menos dois empregos do termo na teoria da democracia:

Schumpeter e Rawls Habermas e Cohen

Momento da tomada de decisão em si. Processo pelo qual dois ou mais agentes
avaliam e discutem os termos de determinada
questão.

A ideia de que a democracia deve ser orientada por um processo de ampla deliberação entre os cidadãos é
antiga, e data dos primórdios democráticos na antiga polis grega, durante o século V a.C.

Podemos dizer que a democracia deliberativa constitui um modelo que advoga por ampliação da
participação da sociedade para além das esferas representativas institucionalizadas.

Teorizado principalmente a partir das obras de John Rawls e Jurgen Habermas, esse modelo apregoa que as
decisões políticas devem ser tomadas por meio de um processo de deliberação entre livres e iguais. A
pretensão da democracia deliberativa é a possibilidade, graças a procedimentos adequados de deliberação,
de alcançar formas de acordos que satisfaçam:

Legitimidade democrática
Racionalidade
Entendida como a soberania popular (a
Entendida como os direitos liberais.
vontade do povo).

Os direitos liberais pressupõem a constituição de uma densa esfera pública na qual se realiza o exercício
coletivo da política, tecido em que se desenrola a deliberação. A partir daí, Rawls e outros teóricos dessa
corrente enfatizam os princípios de justiça, que sempre requerem uma posição de neutralidade. Em suma,
esse modelo é entendido como um sistema de arranjos sociais e políticos capaz de ligar o exercício do poder
ao exercício da razão entre iguais. Consenso é a palavra-chave e a governança figura como um exercício em
busca da harmonia dos interesses sociais.

O modelo deliberativo propõe, portanto, a transcendência dos limites impostos pela representação, e tem
suas fundações conceituais na teoria de Rousseau (a vontade geral, 1973), que se baseia na participação
individual pautada por um modelo capaz de gerar interdependência entre os cidadãos e a coletividade por
meio de instituições mediadoras. Segundo essa corrente, a participação teria um impacto psicológico sobre os
indivíduos, levando-os à preservação do sistema participativo, uma vez que suas propostas requerem um
mínimo quórum para prosperar.

Nenhum cidadão seria capaz de realizar qualquer coisa


sozinho, pois precisa dos demais, o que o levaria a pensar
no bem comum na formulação de suas propostas. A
“vontade geral” é justa de acordo com Rousseau, uma vez
que os interesses individuais estão sempre guarnecidos e
articulados pelo interesse público.

Para garantir esse sistema, seria necessário um mínimo de


igualdade política, por isso existe a necessidade de garantir
a propriedade individual, de modo que haja um equilíbrio
Jean-Jacques Rousseau. socioeconômico. Dentro dessa lógica, o indivíduo teria
garantida também a sua liberdade, pois, para Rousseau, a
sensação de liberdade aumenta quando ele participa do
processo de tomada de decisão. O que Benjamin Constant classificou de liberdade dos antigos, ou seja, a
liberdade pré-moderna, antes do liberalismo e das noções privadas de indivíduo, uma liberdade que
corresponde à participação política. A relação entre a autoridade das instituições e a educação dos indivíduos
para a vida pública é, a rigor, bastante necessária para o funcionamento desse sistema.
John Stuart Mill (2015) também enfatiza esse
ponto. Para ele, o bom governo depende da
promoção de certas características nos
indivíduos que possam compor um todo social
capaz de garantir a estabilidade, e essa
educação se daria pela prática institucional.
Assim, o sujeito deve ser educado para o
interesse público, pois, caso se volte
exclusivamente para seus interesses privados
(como ganhar dinheiro), se tornará alienado do
público e não será capaz de preservar a
sociedade que, em última análise, abriga os
seus interesses privados.
John Stuart Mill.
A história demonstra que, em qualquer
sociedade organizada em larga escala, alguma
forma de representação se faz presente como
uma necessidade. Por isso, a preocupação central de Mill era como garantir que o poder estivesse nas mãos
de uma elite educada. Além disso, seria necessário um mínimo de igualdade econômica para fazer valer a
igualdade política.

O modelo agregador interpreta a democracia como um processo em que as preferências dos


cidadãos são agregadas nas suas escolhas de políticas e de representantes públicos, cujo objetivo é
decidir quais líderes, regras e políticas corresponderão melhor às diversas preferências.

Em uma democracia que funciona bem, são livres as expressões e as competições entre as preferências, com
métodos confiáveis e justos para somá-las e obter resultado. Esse modelo tem muitos problemas, oferecendo
apenas uma fraca base motivacional para aceitação dos resultados de um processo democrático como
legítimo (Young, 2000, p. 64).

Se mesmo no seu melhor a democracia seria simplesmente um mecanismo agregador de preferências que
podem ser subjetivas, e o resultado justo reflete quais preferências são mais fortes ou amplas, não haveria
razão para que aqueles que não têm essas preferências sigam as regras dos seus resultados. Eles,
simplesmente, acatariam por falta de opção, por serem a minoria, mas sempre estariam dispostos a
desrespeitá-las.

Resumindo
O processo não produz consenso e, portanto, tem a instabilidade como seu fator mais genuíno.

A conexão entre democracia e justiça aparenta ser circular, mas Young explica que nenhuma democracia é
absolutamente justa. Inequidades estruturais de riqueza e de poder reforçam os procedimentos democráticos,
marginalizando as vozes e os interesses menos privilegiados.
A questão da inclusão assume o protagonismo
no debate deliberativo, no qual a democracia
aparece significada por uma horizontalidade. O
fator inclusão pode ser usado para quebrar o
círculo em que a desigualdade política
produzida pela inequidade social e econômica
reforça tal desigualdade — precisamente, a
cena contemporânea, em termos globais.

Deliberative Democracy Now (Democracia Deliberativa


A política é a ferramenta de ação para produzir
Agora): manifestantes pedem mais participação no
inclusão e reduzir as inequidades, o que, por
processo, EUA.
sua vez, reforçará o processo de inclusão,
constituindo um círculo virtuoso. Por mais
estrutural que seja um quadro social desigual e
violento, não importa o grau de complexidade, ele está sujeito a soluções políticas e não há caminho fora
delas. Compreender a história é, necessariamente, desviar de respostas fatalistas e simplistas, e entender que
a humanidade é ampla e diversa e se reinventa sempre que as necessidades demandam.

Existem duas formas de exclusão política:

Externa Interna

É aquela que mantém alguns indivíduos ou É aquela cuja interação privilegia tipos
grupos fisicamente distantes dos processos de específicos de expressão e a participação de
tomada de decisão. determinadas pessoas é dispensada.

As desigualdades de poder e de recursos conduzem frequentemente a essas exclusões, nas quais alguns
cidadãos com igualdade de direitos formais têm pouco ou nenhum acesso aos procedimentos e ao fórum de
decisões por meio dos quais poderiam exercer influência sobre os destinos da sociedade. Situações de
comunicação política, em que os participantes reconhecem explicitamente os outros participantes, são
substancialmente mais inclusivas do que aquelas em que não há esse reconhecimento. No caso de líderes
comunitários, por exemplo, o lugar de fala pode servir para deslegitimar as suas demandas e a sua própria
fala.

Uma das principais formas de exclusão política é a negação da fala. Os indivíduos não dotados de educação
formal sofrem esse tipo de exclusão, tendo sua fala deslegitimada antes mesmo de ser concluída ou até
iniciada.

Exemplo
É emblemático o caso do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que por muito tempo encontrou enorme
resistência dos círculos mais abastados por ter origem pobre e fala simples, fora da norma culta. Em um
país com acesso tão restrito à educação formal, esse tipo de exclusão assume papel determinante para
a concentração dos recursos políticos em disputa.
No contexto das complexas políticas da
sociedade de massas, uma reclamação comum
quanto à exclusão invoca normas de
representação e muitas pessoas argumentam
que os grupos sociais em que estão inseridas
não são adequadamente representados em
discussões influentes ou em órgãos de tomada
de decisão.

Manifestantes em protesto pela democracia e


O conceito de sociedade civil vai além dos
igualdade racial em oposição ao governo durante a
movimentos de oposição aos governos
pandemia de covid-19 em 2020.
autoritários — como apregoa a teoria liberal de
Locke sobre o direito de resistência —, e possui
muitas reivindicações para um papel central da
sociedade na promoção da democracia e do bem-estar social sob regimes constitucionais livres.

Uma sociedade civil vibrante, constituída por cidadãos educados para a política e para a vida pública,
promove confiança, escolhas e virtudes democráticas, e permite que os setores sociais se expressem. A vida
política permite que os cidadãos exponham as injustiças, tornando mais confiável o exercício de poder, e
aproximando Estado e sociedade. Os cidadãos podem influenciar as políticas de Estado e as instituições
corporativas, ou catalisar mudanças práticas dentro da própria sociedade civil a partir da discussão pública. É
assim que, por meio do encorajamento plural das atividades associativas, as democracias representativas
podem ser mais participativas, segundo o modelo deliberativo.

Ato em defesa do Estado democrático de direito e contra o vandalismo aos palácios


da Praça dos Três Poderes após a posse do presidente eleito. São Paulo, 2023.

É preciso afirmar, também, que a sociedade civil não se apresenta como alternativa preferível ao Estado como
promotora da democracia e da justiça social, uma vez que as instituições do Estado têm capacidades únicas
para coordenação, regulação e administração em larga escala. Portanto, ainda que a sociedade civil sofra
tensões com as instituições estatais, é necessário reforçar ambos os lados para aprofundar a democracia e
corrigir a injustiça, especialmente aquela que advém da concentração do poder econômico.

A vida associativa da sociedade civil pode fazer muito na promoção da autodeterminação, mas, por conta da
sua pluralidade e da sua relativa falta de coordenação, a sociedade civil só pode avançar minimamente nos
valores de autodesenvolvimento. As instituições estatais são necessárias porque diminuem a opressão e
promovem o autodesenvolvimento.

Verificando o aprendizado

Questão 1
A democracia, como modelo de escolha de representantes políticos que deliberam entre si e desempenham
as funções públicas, se classifica como

modelo deliberativo.

modelo justo.

modelo politicamente correto.

modelo agregativo.

modelo associativo.

A alternativa D está correta.


A democracia agregativa consiste no modelo representativo pautado por certa distância entre a
participação popular e as decisões políticas tomadas por representantes eleitos.

Questão 2

O modelo de democracia deliberativa se pauta pela necessidade de

mais representação popular.

mais justiça entre ricos e pobres.

mais participação.

representantes mais qualificados.

melhores instrumentos de combate à corrupção.


A alternativa C está correta.
O modelo deliberativo defende que se supere os mecanismos convencionais de representação, que deixam
o processo democrático muito limitado ao voto, e se crie mecanismos de participação constantes e
universais.
3. Democracia agonística

Crítica aos modelos agregativo e deliberativo


Assista ao vídeo e confira as críticas aos modelos e as características mais importantes dos modelos
agregativo e deliberativo.

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Modelo agregativo
Baseia-se na representação, constituindo a experiência democrática a partir da participação do cidadão em
eleições competitivas e sob voto universal. Contudo, possui a limitação de afastar o eleitor do processo de
tomada de decisão, marcando a relação entre povo e política exclusivamente pelo voto.

Por mais importante que o voto seja (e ele é fruto de muitos processos de luta, por diversas vezes
sangrentos), os críticos do modelo agregativo salientam que votar não deveria ser a única forma de
participação, uma vez que o voto apenas garante o acesso de um candidato (representante) ao poder político,
e isso, por si só, não garante que tipo de conduta ou que tipos de decisões ele irá tomar. Inclinações políticas
podem mudar, interesses também são intercambiáveis e qualquer político está sujeito à influência de
poderosos lobbies. Além disso, posto de forma simples, pessoas mentem.

O voto constitui uma porta de entrada para um


representante na esfera dos poderes políticos do Estado,
onde a vida das pessoas é decidida por meio de múltiplas
decisões. No entanto, mesmo sendo um instrumento
imprescindível para a experiência democrática moderna —
que observa alguma necessidade de representação,
restando a questão sobre qual é a medida dessa
representação —, o voto sozinho não garante uma
democracia equilibrada e justa.

O modelo agregativo/representativo, portanto, oferece ao


cidadão a oportunidade de decidir quem acessa o poder
político em seu nome, mas não oferece mecanismos
Simulação de voto na urna eletrônica.
ulteriores de controlar a conduta desses representantes, de
modo que a relação entre representantes e representados
submerge à dinâmica da vida cotidiana, que sobrecarrega os cidadãos com seus problemas privados
(trabalho, família) e os afasta de qualquer relação de accountability com os políticos que elegeu.

Ainda que o cidadão busque estreitar a relação, ele não dispõe, nesse modelo, de mecanismos eficazes para
exigir que seu representante permaneça orientado pelos compromissos de campanha. O único poder do
eleitor é, então, o próprio voto, que ele pode negar ao representante que não o agrade em uma próxima
eleição, para o mesmo cargo (reeleição) ou para outro.
Democracy is not for sale (A democracia não está à venda): manifestantes
protestam em frente à Casa Branca nos EUA (2016) contra o sistema de
financiamento de campanha que favorece a classe dominante.

Diversos estudos demonstram o quanto os políticos pautam suas ações a partir de suas preocupações com
certas expectativas do eleitorado, em função de não perderem votos no processo eleitoral. Entretanto, esse
poder do eleitor não garante uma participação mais direta e acarreta um afastamento entre representantes e
representados, na medida em que a representação se insere em um contexto no qual os cidadãos se afastam
da participação política, uma vez que ela não lhes é exigida. Como vimos, a prática da democracia no
cotidiano, como defendem os teóricos do modelo deliberativo, seria pedagógica no sentido de formar os
cidadãos para a participação na vida pública.

Modelo deliberativo
Também chamado de democracia direta por alguns autores, ela se estrutura na ideia de que o modelo
agregativo é insuficiente para garantir a experiência democrática, e tende, no limite, a corromper e desintegrar
a própria democracia. Isso se daria pelo afastamento entre o povo e os representantes, ontológico ao modelo,
o que leva à corrupção da classe política por interesses poderosos, representados pelos lobbies. Esses, por
sua vez, tendem a deteriorar o interesse público gradativamente em prol do interesse privado, gerando
consequências que inevitavelmente piorarão a qualidade de vida da maioria da população.

Comentário
A piora na qualidade de vida produz um quadro perigoso de ressentimentos e de frustrações que
contribuem para desgastar as instituições democráticas junto ao povo, que passa a não ver vantagens
no modelo por se sentir cada vez menos representado.

O modelo deliberativo propõe, a partir da crítica ao modelo agregativo, formas de participação mais amplas,
para além do voto. Inspirado no conceito de vontade geral de Rousseau, esse modelo parte da premissa de
que os cidadãos, dotados de razão, são capazes de deliberar seus interesses e chegar a um consenso. Esse
consenso, sendo racional, não poderia jamais atentar contra o interesse público, pois todos os cidadãos
entendem, empiricamente, que dependem da comunidade para atingir seus próprios interesses privados.

Embora esse raciocínio faça sentido em uma primeira análise racional, há problemas nele. Seus críticos
apontam que, em primeiro lugar, a razão não existe de forma pura, mas sofre contingências históricas, de
modo que os interesses em jogo em qualquer sociedade, em qualquer momento de sua trajetória, implicam
necessariamente em conflitos, e muitos deles inegociáveis. O consenso não seria, segundo essa perspectiva
crítica, almejável de maneira universal e apriorística. Ao contrário, seria possível apenas em circunstâncias
muito específicas e de divergências tênues.
Para os críticos do modelo deliberativo, ele se assemelha a
uma perspectiva autoritária porque contempla a sociedade
como um coletivo que tende à harmonia que, nessa
acepção, corresponde à ausência de conflitos. Essa
configuração social supõe uma ordem rígida, na medida em
que nega a pluralidade e a complexidade dos interesses
humanos, que estão sempre sujeitos ao conflito.

O desafio da democracia não seria eliminar o conflito, mas


Estudantes de universidades públicas de São Paulo
protestam contra cortes no orçamento da Educação, saber mediá-lo, transformar inimigos em adversários, jamais
2022. negando a essência agonística da sociedade.

Para exemplificar o que queremos dizer com autoritarismo,


basta mencionar o aspecto central da ordem idealizada pela Doutrina de Segurança Nacional, produzida pela
Escola Superior de Guerra e pautada em uma compreensão de sociedade diretamente formulada pelas elites
militares.

Segundo a doutrina, o projeto de sociedade


que o Brasil deve concretizar objetiva uma
sociedade harmônica e sem tensões sociais,
vistas pela caserna como sinônimo de
desordem. A Segurança Nacional seria ampla e
daria conta de cuidar de todos os interesses e
vontades nacionais, definidos nos objetivos
nacionais.

Militares brasileiros.
Argumenta-se que a ideologia de segurança
nacional defendida pelos militares é inalienável
do período autoritário, sendo incompatível com
a ordem almejada por uma sociedade democrática — uma ordem necessariamente plural e repleta de
contradições.

Comentário
Os objetivos nacionais pensados pelos militares correspondem a uma noção abstrata, homogênea e
simplificada de ordem, cujo objetivo é estabelecer o controle social e, autoritariamente, o modelo militar
como padrão social. Porém, a Constituição nada mais é do que um pacto de convivência da nação e da
sociedade, que coexistem “sob o signo do conflito da contradição, do jogo de interesse e do conflito
entre capital e trabalho, entre o professor e o aluno, entre o homem da livre iniciativa e o homem do
trabalho público” (Backes, 2009, p. 266).

A ordem almejada pelos militares tratava com desprezo as contradições e os conflitos inerentes a uma nação
complexa e diversificada; contradições previstas no regime democrático. E o modelo deliberativo,
paradoxalmente, se aproxima de uma concepção de ordem similar, baseada na ausência de contradições. A
experiência histórica sugere que tal ordem só poderia resultar de um governo autoritário. Fora dessa
possibilidade (concreta, histórica), a democracia deliberativa tal qual idealizada seria platônica, ideal e inviável
pelo equívoco de suas premissas.

Democracia plural e agonística


Confira neste vídeo o conceito de democracia agonística e veja alguns exemplos que ajudam no
entendimento.

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Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.

A noção de pluralismo agonístico, base da ideia de democracia agonística, encampada principalmente por
Chantal Mouffe, decorre de um diagnóstico crítico a respeito das teorias liberais sobre a democracia, até
então hegemônicas na literatura. Tanto o modelo agregativo quanto o deliberativo, como vimos, partem de
premissas liberais sobre o mundo, que são, em sua ontologia, determinantes para a crise da democracia liberal
que podemos atestar ao redor do globo.

A discussão sobre a democracia agonística toma por base a análise desses modelos:

Modelo agregativo

Tem como principal problema uma perspectiva elitista, que distancia demais a participação popular da
política ao estabelecer o voto como único meio/instrumento de participação.

Modelo deliberativo

Propõe uma mudança radical do agregativo ao defender a ampla participação popular nos processos
de tomada de decisão na esfera pública, porém comete um equívoco ao promover a ideia de
deliberação pelo consenso sem considerar o conflito natural da diversidade presente nas sociedades.

Será impossível produzir uma teoria democrática que possa respaldar um modelo aplicável sem considerar a
realidade em todas as suas dimensões. E uma dimensão elementar dela é o conflito, que tem produzido cada
vez mais antagonismos.

Em uma definição básica, a política pode ser considerada um conjunto de práticas que visam
organizar e administrar os conflitos e as tensões sociais pela via de instituições.

No limite, como escreveram diversos autores da teoria política, tais como Clausewitz (1996) e Schmitt (2018),
a política passa à guerra — outra dimensão do mundo político, não outra forma de relação em si.

Pensar a guerra como política é particularmente necessário porque nos leva a — como propôs Foucault,
invertendo a famosa máxima de Clausewitz — pensar a política como guerra. Se ambas constituem um
continuum, como a melhor literatura e experiência registrada indica, o que as integra? O que unifica a natureza
de ambas? O conflito, o antagonismo. E o que as separa? As formas de mediar o conflito.
Na política
Na guerra
A mediação se dá pela assimilação do
A mediação se dá pela violência e pela
outro como adversário, não como
busca da erradicação do outro.
inimigo.

Para Carl Schmitt (2018), o que denota a natureza do político é a relação amigo/inimigo, que flerta com a
guerra. O antagonismo seria a essência da política, dimensão continuada com a guerra quando falham os
dispositivos diplomáticos de mediação.

De acordo com esse autor, podemos dizer que o político, a


partir da lógica de nós contra eles e de amigo e inimigo,
está sempre relacionado a formas coletivas de
identificação, grupos, alguma coletividade constituindo uma
dimensão antagonista. Essa constatação é particularmente
importante para a análise ontológica da política, porque
afasta a possibilidade de um consenso racional, como
apregoam os defensores do modelo deliberativo.

As últimas décadas marcam uma hegemonia da democracia


liberal e, mais do que isso, de uma cosmovisão neoliberal,
cuja marca é o aprofundamento de um modelo
concorrencial e mercantilizado para todas as dimensões da
Carl Schmitt. vida humana. Uma das características desse modelo é a
ideia de que a razão consiste numa ferramenta capaz de
moldar a realidade e produzir um tempo sem conflito, o “fim
da história” de Fukuyama.

A teoria liberal está profundamente marcada por uma percepção histórica da sociedade, regida por modelos
abstratos pautados no poder das ideias sobre as relações humanas, colocando em segunda ordem relações
de poder e estruturas sociais de hegemonia historicamente produzidas. Tal visão consiste em um raciocínio
teleológico que se forma a partir da ideia de que a humanidade evolui progressivamente até um estágio final,
racionalmente elaborado e capaz de apresentar uma solução final para os conflitos, que seriam datados de
etapas anteriores. Esse destino seria a democracia liberal, o fim da história, e sua maior bonança seria a
harmonia proporcionada por uma sociedade regulada pelas leis do mercado.

O problema com o modelo racional é que ele escanteia a política. A perspectiva liberal concebe uma
sociedade que pode equacionar perfeitamente seus interesses segundo a lógica do mercado, o que
exige pensar as coletividades humanas fora da política.

Os defensores do modelo agonístico alegam que os interesses humanos, coletivos e individuais, não se
pautam por uma quadra exclusivamente racional, mas mobilizam também sentimentos e afetos; e, portanto,
exigem alguma forma de identificação para serem conduzidos politicamente. Essa característica permanente e
substancial das coletividades humanas que constituem a sociedade impõe a política também como elemento
constitutivo da sociedade, a partir da presença incontornável de antagonismos, pois a sociedade se constitui
de pluralidades além da equação racional proposta pela teoria liberal.
Marcha das mulheres em defesa da democracia. São Paulo, 2023.

No texto The returnal of the political, publicado em 1993, Mouffe enuncia que o conflito é inerradicável ao
político, e que o desafio da política democrática é transformar os antagonismos inerentes à política em
agonismos. A política refere-se ao nível ôntico (Mouffe, 2015), como conjunto de práticas, discursos e
instituições por meio das quais uma ordem é moldada para organizar a coexistência humana sob as
contingências específicas de um dado momento histórico.

Atualmente, no neoliberalismo, a falta de compreensão sobre o político (e a política) estaria por trás
da incapacidade de se pensar em soluções institucionais para as crises que estão ocorrendo,
marcadas por crescentes antagonismos que não encontram expressão institucional. Como
resultado, a democracia liberal está sendo colocada sob tensão.

Para essa corrente, o político se define pela forma como a sociedade é fundada, a partir da ideia de que o
antagonismo — tensões, divergências de interesses e identidades — é constitutivo das sociedades humanas.
A principal deficiência das teorias liberais — orientadas pelo racionalismo e pelo individualismo — é a negação
do caráter irredutível do antagonismo. Segundo Mouffe (1993, p. 1), seria “a incapacidade do pensamento
liberal para compreender a sua natureza e o caráter irredutível do antagonismo que explica a impotência da
maioria dos teorizadores políticos na situação atual”.

Mouffe resgata Carl Schmitt, um teórico político


profundamente antiliberal, para pensar o antagonismo.
Apesar da aparente contradição — por se tratar de um autor
oposto à tradição teórica democrática —, seu resgate se
justifica porque o antagonismo é uma dimensão central para
pensar a política, independentemente do rumo que se
queira seguir: autoritarismo ou democracia.

De acordo com Schmitt, a teoria liberal é incompatível com


uma concepção política, porque concebe o antagonismo
Chantal Mouffe. como circunstancial. Para o autor (2018, p. 51), “a
diferenciação especificamente política, a qual se podem
reconduzir as ações e os motivos políticos, é a
diferenciação entre amigo e inimigo”, e “o fenômeno do político só pode se conceber através da referência à
possibilidade real do agrupamento amigo-inimigo, independentemente do que daí se segue para a valoração
religiosa, moral, estética, econômica do político” (p. 67). Assim, inferimos que o político parte da lógica do
amigo e inimigo (nós contra eles). É essa a constatação que afastaria a possibilidade de um consenso racional.
Portanto, o projeto liberal, que consiste na erradicação do antagonismo seria também a erradicação da
política, o que seria impossível de concretizar.
Vidas Negras Importam: manifestantes protestam a favor da democracia e contra a
discriminação racial. São Paulo, 2020.

Mouffe afirma que não se deve buscar a superação da oposição nós/eles, mas formular essa distinção de
forma compatível com o pluralismo imanente das sociedades. A partir daí, a autora apresenta este conceito de
exterioridade constitutiva:

Se aceitarmos que todas as identidades são relacionais e que a condição de existência de qualquer
identidade é a afirmação de uma diferença, determinação de um ‘outro’ que desempenhará o papel de
‘elemento externo constitutivo’, torna-se possível compreender a forma como surgem os antagonismos.

(Mouffe, 1993, p. 2)

E ainda: “A solução autoritária não é uma consequência lógica necessária de tal postulado ontológico; (…) ao
distinguir entre 'antagonismo' e 'agonismo', é possível visualizar uma forma de democracia que não nega a
negatividade radical” (Mouffe, 2013, p. 8).

Contrariando as correntes liberais que têm pautado o centro do debate, não existe uma pacificação para as
tensões sociais em disputa, pois isso equivaleria à extinção da política. Em outras palavras, não seria possível
chegar a este destino final de reconciliação na política, como vislumbra o racionalismo liberal, pois toda
sociedade corresponde a alguma forma de ordem hegemônica politicamente construída e sustentada sobre
contingências históricas e interesses divergentes.

Para cada hegemonia há movimentos e interesses contra-hegemônicos, e essa articulação


antagonista demanda instrumentos de mediação para transformar o conflito em um debate
construtivo (de antagonismo para agonismo).

De acordo com Laclau e Mouffe (2015, p. 46): “É vital à política democrática reconhecer que toda forma de
consenso é o resultado de uma articulação hegemônica, a qual sempre tem um ‘exterior’ que impede a sua
plena realização”. Dito de outra forma, qualquer ordem social “é a articulação temporária e precária de práticas
contingentes” (Mouffe, 2015, p. 17), uma vez que alguma ordem diferente é sempre possível.

As sociedades são determinadas por relações de poder historicamente constituídas. Isso significa que
modelos abstratos pautados pela estabilização do conflito são incompatíveis com a realidade tal qual se
apresenta na história. O ser é movimento e esse movimento é constituído pelas contradições imanentes do
ser.
Dessas contradições ganha vida a política, dimensão
constitutiva das sociedades humanas, por meio da qual
ordens são instituídas, poderes e estruturas de dominação
são erguidos, contestados e derrubados — vide as
revoluções liberais. Qualquer percepção diferente disso,
tomando a visão agonística, seria alimentar a ilusão de que
poderíamos nos libertar do poder.

O objetivo principal de uma política/teoria democrática seria


reconhecer a dimensão política que habita o social,
Manifestação em São Paulo, 2018. compreendendo que a política deve ser encarada como um
meio de domesticar as tensões e as hostilidades
incontornáveis das relações humanas. Segundo Mouffe,
portanto, a questão crucial da democracia seria definir o nós/eles de modo que “seja compatível com a
democracia pluralista” (Mouffe, 2000, p. 101). Prossegue a autora: “Depois de aceitarmos a necessidade do
político e a impossibilidade de um mundo sem antagonismos, será necessário encarar a forma como, nessas
condições, poderemos criar ou manter uma ordem democrática pluralista” (Mouffe, 1993, p. 4).

A ordem democrática pluralista seria baseada, então, numa nova distinção entre inimigo e adversário, de
modo que, para ser aceito como legítimo, o conflito precisa assumir uma forma que “não destrua o ente
político”, e permita a existência de algum vínculo entre as partes em conflito para que elas não se tratem como
inimigas que devem buscar a erradicação recíproca, mas como adversárias.

Atenção
Domesticar os antagonismos e convertê-los em agonismos sob o prisma da disputa entre adversários,
não inimigos, não significa converter as disputas sociais em concorrência de mercado, segundo a lógica
liberal criticada antes, porque, dessa forma, elimina-se a dimensão antagonista e recai-se na linha liberal
do consenso racional (Mouffe, 2000, p. 102).

Na visão agonística, a categoria inimigo é deslocada, e “continua a ser pertinente em relação àqueles que não
aceitam as ‘regras do jogo’ democrático e que, dessa forma, se excluem da comunidade política” (Mouffe,
1993, p. 4). A ideia é que o modelo adversarial, ao viabilizar que as vozes dissonantes se organizem e se
manifestem, diminui a probabilidade de que conflitos mais violentos e inconciliáveis (antagonismos) surjam.
Assim, a indisposição para reconhecer o caráter agonístico da sociedade abre margem para a emergência de
interesses coletivos que podem não compartilhar dos ideais mínimos que sustentam a democracia — algo que
a história contemporânea tem demonstrado.

Segundo Mouffe, foi a ênfase no consenso racional que levou à exclusão da dimensão afetiva e identitária,
inalienável da política, ou seja: “Para agir politicamente, as pessoas precisam ser capazes de se identificar
com uma identidade coletiva que ofereça uma ideia de si próprias que elas possam valorizar” (Mouffe, 2015, p.
24).

São justamente esses afetos que têm sido


mobilizados por partidos e grupos radicais e
populistas, a maioria de extrema-direita, que
prometem reconectar o povo com o poder após
décadas de hegemonia de instituições liberais
pautadas no distanciamento pela
representação típica dos modelos liberal e
neoliberal.

Manifestantes protestam em frente a quartel contra a


Eis o dilema posto, dentro da órbita da
eleição democrática. São Paulo, 2022.
democracia liberal contemporânea:
representação afastada versus participação predatória. A saída para esse dilema seria o reconhecimento do
agonismo para, então, se criar práticas que possam resolver estes dois problemas profundamente
relacionados: aproximar as pessoas da política e preservar a democracia.

Concebida como está, pelo debate liberal, a democracia encontra-se ameaçada pelo incremento da
participação, pois esta não se promove equacionada com o conflito, mas armada por ele, que se torna uma
força antidemocrática.

O reconhecimento do conflito implica no reconhecimento da pluralidade. Só assim será possível conceber um


modelo de democracia coerente com o que nos revela o processo histórico: a história é movimento, e o
movimento da história impede qualquer projeto que consista em esterilizar a política, uma vez que é a
contradição que constitui o movimento das sociedades e, portanto, da própria história.

Verificando o aprendizado

Questão 1

A principal diferença entre o modelo agonístico e os demais é

a busca por uma democracia mais plural.

a compreensão da natureza violenta das sociedades.

a negação do conflito como elemento constitutivo da sociedade.

o reconhecimento da ordem liberal como definitiva.

o reconhecimento de que as sociedades são plurais e é necessário lidar com o antagonismo.

A alternativa E está correta.


A democracia agonística se baseia na ideia de que as sociedades são necessariamente heterogêneas, e é
necessário reconhecer que essa heterogeneidade resulta em conflitos que, não mediados, podem levar à
guerra e à deterioração da democracia. Portanto, é preciso desenvolver instrumentos que permitam que
essas tensões sejam convertidas em disputas legítimas e capazes de respeitar a democracia em primeiro
lugar.

Questão 2

A teoria agonística da democracia parte da premissa de que


A

o conflito pode ser neutralizado com a implementação de instituições mais justas.

não é possível atingir uma democracia plural que contemple os interesses de todas as classes.

não é possível eliminar o conflito social, sendo necessário acomodá-lo de modo civilizado.

não é necessária a instituição de mecanismos de poder, pois estes já estão dados.

as sociedades caminham em direção ao fim da história, e, portanto, somente a democracia liberal pode ser
reconhecida como legítima.

A alternativa C está correta.


Segundo a visão agonística, a sociedade é constituída por conflitos. Logo, qualquer projeto democrático
precisa dar conta de absorvê-los de maneira institucional.
4. Conclusão

Considerações finais
A democracia, hoje hegemônica segundo o modelo liberal, sofre com a tendência à oligarquização nas rédeas
do grande capital. Na prática, o poder do dinheiro compromete seriamente, quando não anula, o processo
democrático, tornando-o inacessível às camadas populares. Como a democracia é um regime baseado
sobretudo no acesso, esse distanciamento tende, no longo prazo, a produzir a erosão das próprias instituições
democráticas, que perdem a legitimidade junto ao povo quando este sente-se encurralado pelo avanço do
grande capital que domina aquelas instituições. A conta fecha, dramaticamente, a favor de saídas autoritárias,
como a realidade contemporânea tem sinalizado perigosamente.

Uma vez que a democracia consiste em uma prática, isso significa uma construção permanente. Portanto, não
existe democracia consolidada. A democracia é frágil e corre sempre muito perigo, pois não está respaldada
por nenhuma teleologia histórica, como o quiseram muitos teóricos liberais (ou neoliberais) no afã do pós-
Guerra Fria.

O mote da teoria agonística é fundamentar uma democracia pautada pela transformação do antagonismo em
agonismo, em um conjunto de práticas institucionais que radicalizem a democracia para salvá-la do desgaste
inerente ao afastamento gerado entre as instituições e o povo pela democracia agregativa, ou das ilusões
presentes no modelo deliberativo, que se baseia em uma impossível racionalidade em busca do intangível
consenso.

A pluralidade das sociedades requer dispositivos institucionais de mediação que civilizem o conflito
(irredutível) e que sejam capazes de proteger a democracia, muito vulnerável às contradições que escalam em
meio à conjuntura de intensa acumulação do neoliberalismo. E essa discussão remonta necessariamente ao
problema da justiça social, sem a qual a horizontalidade indispensável ao processo democrático não pode ser
garantida.

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Ouça agora os principais pontos abordados, desde a construção do conceito de democracia às novas
formulações do pensamento democrático.

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Não perca o documentário Democracia em vertigem (Petra Costa, 2019), que acompanha o processo de
impeachment da ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff, analisando a configuração em desenvolvimento de
um país polarizado, dividido e imerso em profundos desafios para sua jovem democracia.

Confira também o documentário What is democracy? (Astra Taylor, 2019), que faz um apanhado histórico
desde a Grécia Antiga para contar a história da construção do conceito de democracia, passando pela Europa
renascentista até chegar no movimento de direitos civis.
Assista ao filme A onda (Dennis Gansel, 2008), inspirado em fatos reais, conta a história de uma escola alemã
onde um professor simpatizante do anarquismo é escalado para dar aulas sobre autocracia para jovens
alunos. Durante o processo, ele decide demonstrar de que forma um regime fascista é implantado e perde o
controle da situação.

Leia o livro Memórias do cárcere (Graciliano Ramos, 1953). Quando a população brasileira parece desacreditar
das instituições políticas e flertar com o autoritarismo, é importante recordar o relato pessoal de Graciliano,
um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Perseguido por Getúlio Vargas durante o Estado
Novo, o autor foi preso sem processo ou provas no presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro.

Leia a obra Como as democracias morrem e veja como Steven Levistky e Daniel Ziblatt (2018) discutem as
ameaças que pairam sobre as democracias contemporâneas, analisando os fatores e as dimensões da
ascensão de líderes antidemocráticos ao redor do mundo.

Referências
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