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Lyra, uma jovem apaixonada por magia e invenções, ingressa na Torre de Engenharia Arcana, onde busca entender e reinventar a magia através de sua luva mágica. Apesar de sua ansiedade e inseguranças, ela encontra apoio em um professor e faz amizade com Dar, um garoto que compartilha seu desejo de consertar o mundo. Juntos, eles exploram novas ideias e formas de canalizar energia mágica, desafiando as normas tradicionais.

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Lyra, uma jovem apaixonada por magia e invenções, ingressa na Torre de Engenharia Arcana, onde busca entender e reinventar a magia através de sua luva mágica. Apesar de sua ansiedade e inseguranças, ela encontra apoio em um professor e faz amizade com Dar, um garoto que compartilha seu desejo de consertar o mundo. Juntos, eles exploram novas ideias e formas de canalizar energia mágica, desafiando as normas tradicionais.

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Lyra

Capítulo Um – Eu sou Lyra

Eu sempre achei que o mundo fosse uma máquina gigante. Não aquelas máquinas
que funcionam perfeitamente numa fábrica, mas uma coisa bagunçada, cheia de
peças soltas e fios cortados, esperando alguém para consertar. Nunca entendi muito
bem por que as pessoas têm tanto medo da magia, como se fosse algo sagrado
demais para ser tocado. Para mim, magia é energia — uma força que dá para
aprender a controlar, usar e até melhorar. Só que ninguém nunca ensinou assim.

Meu pai era um mago, um antigo mago, para ser exata. Não sei muito sobre ele, e
ele não está mais por perto, mas acho que parte da minha paixão pela magia vem
dele. Talvez eu esteja tentando encontrar nele algo que nunca conheci direito — ou
quem sabe tentando continuar o que ele começou.

Desde pequena, eu desmontava tudo que via pela frente para entender como
funcionava. Minha mãe sempre reclamava da bagunça, mas eu não conseguia
evitar. Tinha que saber, precisava entender. E a magia era a parte mais fascinante
disso tudo. Queria pegar aquela energia invisível e fazê-la funcionar para mim, de
um jeito novo, diferente do que todo mundo fazia.

Aos dezesseis anos, finalmente recebi o convite para entrar na Torre de Engenharia
Arcana. Eu, uma garota de um vilarejo pequeno, com mais ideias malucas do que
amigos, entrando naquele lugar enorme, cheio de magos e engenheiros que
dedicaram a vida toda à magia. Fiquei nervosa, claro — sempre fico — mas a
ansiedade para criar algo diferente e mudar as coisas era maior que o medo.

Quando cheguei na Torre, tudo parecia maior do que eu imaginava. Os corredores,


as salas, as vozes que ecoavam pelos salões. Era como se a magia tivesse peso ali,
como se cada pedra e engrenagem carregasse uma história. Eu, que sempre fui
mais de teoria e invenções, me senti pequena diante da grandiosidade daquele
mundo. Mas uma faísca de esperança acendeu dentro de mim. Estava no lugar certo

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para finalmente dar vida às minhas ideias.

No meu primeiro dia, me perdi pelos corredores, ouvindo olhares curiosos e


sussurros que me sufocavam. Até que encontrei a sala de experimentos vazia —
meu refúgio. Tirei a luva mágica que criei e coloquei. Por alguns minutos, o mundo
ao meu redor parou. A energia pulsava nas pontas dos meus dedos, uma promessa
do que eu poderia criar.

Não vou mentir, me senti deslocada. Os outros alunos pareciam tão seguros,
acostumados com feitiços e encantamentos tradicionais. Eu estava ali, com meu
grimório comum e minha luva, uma invenção que só eu entendia direito. Às vezes,
só de pensar na responsabilidade, meu peito aperta. A ansiedade me visita quase
todo dia, me dizendo que talvez eu não esteja pronta. Mas respiro fundo, lembro por
que estou aqui, e sigo em frente.

Gosto de passar um tempo sozinha, longe da agitação, testando formas de canalizar


energia com a luva. É nesse silêncio que me sinto eu mesma — inventiva, meio
atrapalhada, mas cheia de vontade de fazer a diferença. A luva não é só uma
ferramenta; é um pedaço de mim, a prova de que magia e tecnologia podem andar
juntas, que eu posso ser quem quiser, mesmo com toda essa ansiedade.

Durante uma aula prática, estávamos testando formas de canalizar energia usando
métodos tradicionais, mas eu não conseguia parar de pensar em como poderia
aplicar a magia de um jeito diferente — usando minha luva mágica, que para os
outros parecia apenas uma invenção estranha. Minhas ideias rodavam na cabeça
tão rápido que minhas mãos tremiam.

Quando finalmente tentei fazer o feitiço com a luva, deixei escapar uma faísca
descontrolada que quase atingiu a mesa ao lado. O susto foi imediato: os colegas se
afastaram, e o silêncio se instalou na sala. Meu rosto ficou quente, a ansiedade
tomando conta como uma onda.

Olhei para o professor Elion Tharne, que observava tudo com aquele olhar calmo e
profundo, seus cabelos roxos levemente desalinhados, como se tivessem vida
própria. Eu já tinha ouvido falar muito dele — dizem que ele é um dos magos mais
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poderosos da Torre, especialista nas magias naturais que dominam os elementos,
mas também que é uma pessoa boa, alguém que não impõe medo, só respeito.

Ele se aproximou devagar, e seu rosto cansado, marcado por olheiras, revelou um
sorriso tranquilo.

— Lyra — ele disse com voz suave, sem nenhum traço de reprovação —, a magia
precisa de ousadia para crescer, mas também de paciência para ser compreendida.

Ele fez uma pausa, como se escolhesse cuidadosamente as próximas palavras.

— Você está tentando controlar muita coisa ao mesmo tempo. A mente acelerada
pode ser uma aliada poderosa, mas também um inimigo quando toma conta demais.
A ansiedade que você sente é natural — não se culpe por isso.

Senti meu peito apertar, mas aquela voz calma parecia afastar o peso.

— Errar faz parte do caminho. Você não está aqui para ser perfeita. Está aqui para
aprender, experimentar e encontrar seu jeito único de usar a magia. Não deixe que o
medo de falhar impeça suas ideias de florescer.

Olhei para ele, que parecia entender o turbilhão dentro de mim sem que eu
precisasse dizer uma palavra.

— Confie no seu ritmo — ele continuou —, e lembre-se: a magia não é só técnica, é


também coração. E você tem isso de sobra.

Naquele momento, a sala voltou a ser um lugar de descobertas, e não de


julgamentos. A ansiedade ainda estava lá, mas um pouco mais distante, substituída
por uma fagulha de esperança.

Aquele pequeno acidente não era um fracasso — era o começo da minha própria
forma de magia, mesmo que ainda estivesse meio atrapalhada no caminho.

Às vezes ainda sinto o peso do mundo nas costas, como se todas as expectativas e

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erros do passado estivessem grudados em mim. Talvez seja herança do meu pai,
talvez não. Isso me assusta, mas também me dá força. Quero provar que o futuro da
magia não está preso a regras antigas, mas na coragem de inventar, errar e tentar
de novo.

Meus dias na Torre são cheios de estudos, experimentos e conversas com máquinas
que quase ganham vida. Conheci pessoas incríveis, algumas que compartilham
minha paixão por criar, outras céticas que acham meu jeito arriscado demais. Talvez
estejam certos, mas não posso parar agora.

À noite, quando tudo fica quieto, escrevo no meu diário sobre descobertas, desafios
e medos. A ansiedade é uma companheira constante, mas escrever ajuda a
organizá-la, a não deixar que ela me paralise. Quero que um dia essas páginas
sejam o registro de alguém que ousou mudar o mundo.

Mesmo com dúvidas, quando coloco a luva e sinto a energia fluindo, uma confiança
silenciosa me invade. A luva entende que sou mais do que uma garota ansiosa
tentando se encontrar. Sou alguém com um propósito: renovar o mundo, um feitiço e
uma invenção de cada vez. Quero que magia seja algo acessível, que transforme
vidas. Não importa se o caminho será difícil ou cheio de tropeços. Eu vou seguir
adiante.

Então, aqui estou eu, Lyra Aetherfield — uma garota com uma luva mágica feita em
casa, um grimório comum e uma vontade imensa de transformar tudo. A jornada é
longa, o futuro incerto, mas sei de uma coisa: nada vai me impedir de tentar. Porque,
às vezes, o que o mundo mais precisa é de coragem — e de uma mente que não
tenha medo de sonhar alto.

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Capítulo Dois – A floresta e o estranho

A floresta ao redor da Torre era mais viva do que qualquer sala de aula. As folhas
sussurravam entre si, os galhos rangiam como engrenagens antigas, e pequenos
feixes de luz atravessavam as copas, dançando no ar como magia em estado puro.
Eu sempre me sentia melhor ali, onde a natureza não exigia respostas perfeitas. Era
só... silêncio e tempo.

Estava sentada num tronco largo coberto de musgo, com meu caderno equilibrado
no colo. O projeto de uma nova função para minha luva mágica ganhava forma nas
páginas: uma espiral condutora de energia arcana, adaptada a partir de uma
estrutura inspirada nos nervos de folhas. Era maluco, mas fazia sentido pra mim.

Até que ouvi passos. Leves, mas reais.

Antes que eu pudesse reagir, uma sombra se aproximou pela lateral. Um garoto,
provavelmente com uns dois anos a mais que eu, parou ali perto, olhando por cima
do meu ombro. Me virei bruscamente, quase derrubando o caderno no chão.

— Isso aí é um tipo de feitiço ou alguma armadilha? — ele perguntou, a voz baixa e


sem pressa. Não havia sarcasmo, só curiosidade.

— Hã... não. Quer dizer, não exatamente — respondi, ainda surpresa. — É um


desenho técnico. Para um dispositivo de canalização mágica.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Interessante. Nunca vi um padrão como esse.

— Provavelmente porque ninguém tem coragem de misturar estrutura botânica com


condutores de energia — murmurei, meio sem pensar, e depois me dei conta de que
estava falando com um estranho. — Quem é você?

— Dar — respondeu, curto, com um pequeno sorriso no canto dos lábios. — E


você?
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— Lyra. — Fiz uma pausa. — “Dar” de quê?

— Só Dar — repetiu, com um encolher de ombros como se fosse óbvio.

Desviei os olhos, desconfiada, mas deixei pra lá. Vai ver ele era só mais um
daqueles magos esquisitos que preferem se esconder do resto do mundo. A Torre
tinha muitos assim.

— E você, Dar, costuma assustar garotas desenhando no meio do mato?

Ele soltou um riso leve, quase imperceptível.

— Não era minha intenção. Eu só... precisava de ar.

— Hm. Isso eu entendo.

Voltei a olhar pro meu caderno, mas percebi que ele se sentou ao meu lado, a uma
distância respeitosa, e começou a observar os desenhos com mais atenção.

— Essa linha aqui... é por onde a energia flui? — perguntou, apontando com cuidado
para uma parte do esquema.

Assenti, surpresa.

— Sim. Ela funciona como um condutor auxiliar. Distribui a carga e evita que o
núcleo aqueça demais. Mas ainda estou tentando resolver o problema da dissipação
lateral.

— E se usar um estabilizador de fluxo ao redor do núcleo, como um anel de


contenção? Tipo... isso. — Ele pegou um graveto e desenhou no chão, simples,
direto, mas funcional.

Observei com atenção. Era uma boa ideia. Boa mesmo.

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— Isso poderia funcionar... — murmurei, já pensando nas alterações.

Ficamos um tempo assim. Eu explicando, ele sugerindo, sem que um tentasse


dominar a conversa. Era estranho, mas confortável. E, no meio disso tudo, me dei
conta de que eu não me sentia julgada. Nem observada. Só... ouvida.

— Você não parece um mago tradicional — comentei, meio de lado.

— Nem você — ele retrucou, rápido. — E isso é bom.

Silêncio de novo. Mas não do tipo constrangedor. Era como se nossas mentes
estivessem ocupadas demais processando ideias para precisar de palavras.

Depois de um tempo, ele perguntou:

— Por que você inventa essas coisas?

Demorei um pouco para responder.

— Porque eu não aguento ver o mundo funcionando mal. Parece que todo mundo
aceita as falhas como se fossem inevitáveis. Mas... e se não forem? E se a gente
puder consertar as coisas?

Ele não respondeu de imediato. Apenas observou meu rosto por um segundo — e
quando nossos olhares se cruzaram, senti um arrepio estranho. Os olhos dele...
eram de um vermelho intenso, bonito, mas carregavam algo mais — dor, talvez. Ou
saudade.

— Isso é raro — disse ele por fim.

— O quê?

— Alguém ainda acreditar que dá pra consertar o mundo.

Dei de ombros.

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— Talvez eu seja ingênua.

— Ou corajosa.

O jeito que ele disse aquilo me desconcertou. Baixei o olhar de novo para o caderno,
sentindo meu rosto esquentar, mas não por vergonha — por um tipo de
reconhecimento. Como se, pela primeira vez, alguém tivesse entendido meu motivo
real sem que eu precisasse explicar tudo.

— Foi bom conhecer você, Lyra — ele disse, dando um passo à frente, chegando
mais perto do meu rosto do que eu esperava.

Fiquei meio desconcertada, o coração acelerou sem eu entender bem por quê.

— Acho que esse projeto tem potencial — continuou ele, pegando meu caderno com
cuidado — Mas você precisa pensar mais na dissipação de energia, não só no
controle. Se não, vai acabar queimando tudo.

Ele apontava para algumas partes do desenho, explicando com calma, como se já
visse minha mente correndo atrás das ideias dele.

Eu tentava acompanhar, mas estava meio tonta — não só pelas palavras, mas pela
forma como ele falava, com uma mistura de intensidade e sinceridade que me pegou
de surpresa.

— Você já pensou em usar camadas de proteção baseadas em magia das sombras?


— sugeriu, olhando nos meus olhos — Pode ajudar a manter a energia estável
mesmo quando sua ansiedade tenta te sabotar.

Minha respiração ficou um pouco mais rápida, e por um momento esqueci onde
estava.

— Isso é... interessante — consegui dizer, quase sussurrando.

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Ele sorriu, dessa vez aberto, genuíno.

— Se quiser, posso ajudar a desenvolver. Dois cérebros pensando juntos sempre


funcionam melhor.

Olhei para ele, sem saber se aceitava ou se ficava com medo do que aquilo poderia
significar.

Mas algo dentro de mim dizia que talvez, só talvez, essa fosse a parceria que eu
precisava.

Ficamos ali sentados no tronco, o silêncio da floresta preenchendo os espaços entre


nossas palavras. Ele mexia no meu caderno, analisando com cuidado cada linha,
cada detalhe.

— Essa espiral condutora — ele apontava — é realmente criativa. Nunca vi ninguém


tentar usar um padrão orgânico assim. É quase como se a magia fluísse por veias
vivas.

Senti um arrepio bom. Alguém reconhecendo minha loucura, meu jeito diferente de
pensar.

— Mas… e se a estrutura não aguentar a pressão? — perguntei, querendo mostrar


que não era só uma garota que inventava por inventar. — Tentei pensar em um
material que dissipe calor, mas não encontrei nada que funcione bem com energia
arcana.

Ele franziu a testa, pensativo.

— Você já considerou usar um núcleo duplo? Um para canalizar a energia principal,


outro para absorver o excesso? Pode funcionar como um sistema de segurança.

O brilho nos olhos dele me fez acreditar que ele realmente queria ajudar.

— Por que você quer saber tanto? — perguntei, meio desconfiada.

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Ele deu um sorriso meio triste, olhando para o chão.

— Porque eu também estou tentando consertar o que está quebrado.

Quase não consegui conter a vontade de perguntar mais, mas algo naquele silêncio
carregado me fez respeitar.

— Se quiser — ele continuou — podemos trabalhar juntos. Eu ajudo com a parte


mágica, você com a engenharia. Talvez a gente consiga criar algo realmente novo.

Eu quis rir. Trabalhar em equipe? Nunca tinha pensado nisso direito, mas a ideia não
parecia tão ruim.

— Então… tá combinado — disse, fechando meu caderno e estendendo a mão.

Ele apertou com firmeza, e naquele momento senti que algo importante começava
ali, no meio daquela floresta mágica.

A sombra dele pareceu menos pesada, e a minha ansiedade, por um instante, deu
espaço para uma pequena chama de esperança.

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Capítulo Três – A espiral e o silêncio

Depois daquele dia na floresta, voltei para a Torre com mais energia do que o normal
— o que é curioso, considerando o quanto minha mente já costumava trabalhar em
sobrecarga. O tal “Dar” havia sumido tão rápido quanto apareceu. Não o vi nos
corredores, nas oficinas, nem nas listas de alunos da minha turma. Tive vontade de
perguntar sobre ele, mas parei. Seria estranho — e de qualquer forma, eu nem sabia
o nome completo.

Mas o que ele deixou ficou comigo. A ideia do anel de contenção para estabilizar o
núcleo de energia não só fazia sentido como já estava moldando uma versão
aprimorada da minha luva. Eu redesenhei quase toda a estrutura em poucas horas,
incorporando o que discutimos com tanta clareza que, quando finalizei o novo
esquema, parecia algo que eu mesma já tinha sonhado antes — só precisava de um
empurrão.

Na aula de Teoria de Fluxo, a professora me chamou para apresentar o novo projeto.


Pela primeira vez em muito tempo, eu não hesitei.

Fui até a frente da sala, coloquei o grimório comum na mesa e abri o caderno de
anotações técnicas. Meus colegas ficaram em silêncio. Não por interesse — mas
porque esperavam que eu enrolasse, como sempre acontecia com ideias fora do
comum. Só que eu estava diferente.

— Este é um sistema de canalização arcana inspirado na vascularização de folhas


— comecei, com voz firme. — Ao distribuir a energia em ramificações finas ao redor
de um núcleo estabilizado, conseguimos evitar superaquecimento e vazamentos
laterais. A adição de um anel de contenção secundário, aqui — apontei no desenho
— permite que a energia circule em fluxo controlado mesmo sob pressão.

Perguntaram, claro. Tentaram apontar falhas. Mas respondi com calma, explicando
tudo com termos técnicos e exemplos práticos. E no final, a professora apenas disse:
— Excelente domínio do seu próprio trabalho, Lyra.

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Saí da sala com o coração acelerado. Não era só orgulho — era a sensação de
finalmente ser escutada.

Naquela tarde, fui para a oficina da ala norte, onde sabia que ninguém me
incomodaria. Estava testando a nova versão da luva quando ouvi passos.

— Você realmente arrumou o desvio de fluxo — disse uma voz às minhas costas.

Virei na mesma hora, sem susto, apenas surpresa.

— Dar. — Sorri. — Veio conferir?

Ele deu de ombros, se aproximando com o mesmo ar calmo de antes.

— Queria ver o que você fez com aquela ideia.

— Muito mais do que só "fiz". Ela funciona. Melhor do que eu esperava.

Ele se aproximou da bancada, olhando para a luva com olhos atentos. Pegou o
equipamento com cuidado, observando os circuitos canalizadores, e depois passou
o dedo pela estrutura, como se a sentisse pulsar.

— Está bem mais estável. Mas ainda tem uma oscilação sutil no ponto de
convergência. — Ele indicou com precisão uma parte do desenho.

Sorri. Já esperava aquela observação.

— Exato. Por isso estou criando uma camada de amortecimento entre os fluxos
principais. Algo maleável, que reaja ao aumento de pressão sem bloquear
completamente a circulação.

— Como um núcleo dinâmico — ele murmurou.

Assenti.

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— Só que controlado, para evitar que a energia reverta.

Ele pegou um graveto, desenhou no chão uma estrutura em forma de espiral envolta
por um anel trançado, e sugeriu uma variação na geometria do centro. Uma
abordagem que combinava condutores duplos com canais de sombra.

— Isso aqui... pode estabilizar mesmo com energia de origem instável?

— Pode, se for contido da forma certa. — Ele tirou do bolso uma pedra pequena,
polida, que brilhou levemente em um tom escuro, quase púrpura. — Energia densa,
mas funcional. Uso quando quero compressão direta.

Observei, intrigada.

— Nunca vi um estudante comum carregar essas pedras.

Ele apenas sorriu, um pouco evasivo.

— Talvez eu não seja tão comum.

Voltei ao caderno, mordendo o canto da boca para não fazer mais perguntas. Ele se
sentou ao meu lado, e começamos a discutir as próximas etapas do projeto como
dois inventores em sincronia.

— Sabe — comentei, sem tirar os olhos do papel — gosto de como você me escuta.
Sem me interromper ou duvidar.

— E gosto do jeito que você explica — ele respondeu. — Você fala com clareza. E
com paixão.

Aquilo me pegou de surpresa. O elogio não parecia superficial. Era... genuíno. Olhei
para ele de relance e, pela primeira vez, notei melhor os olhos — vermelhos,
profundos, mas sem aquela frieza que tantas pessoas carregavam. Não, os olhos
dele tinham algo mais. Dor, talvez. Ou solidão.

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— Por que você inventa essas coisas? — ele perguntou de repente.

Respirei fundo antes de responder.

— Porque o mundo funciona mal. As coisas quebram, as pessoas desistem. Mas e


se a gente puder melhorar isso? Se ninguém tentar, tudo continua igual. E eu não
suporto essa ideia.

Ele assentiu, quase como se estivesse ouvindo algo que queria muito acreditar.
Depois se inclinou levemente, os olhos ainda no meu caderno.

— Isso é raro.

— O quê?

— Alguém que ainda acredita que dá pra consertar o mundo.

— Talvez eu seja ingênua.

— Ou corajosa.

Aquilo me desconcertou. E quando ele se aproximou um pouco mais, ainda


apontando melhorias possíveis para o projeto, senti meu rosto aquecer. Não de
vergonha. Mas de reconhecimento.

De que, talvez, eu tivesse encontrado alguém que compreendia exatamente o que


eu queria fazer — mesmo sem saber toda a minha história.

O tempo parecia ter dobrado ao nosso redor. A oficina já estava tomada pelo brilho
âmbar da luz da tarde filtrada pelos vitrais mágicos, e o silêncio confortável que se
formava entre nós era quase tão precioso quanto as ideias que rabiscávamos. Eu
estava completamente imersa — em esquemas, em possibilidades… e, sem querer
admitir, naquela presença ao meu lado.

Dar se recostou um pouco na cadeira, como se estivesse considerando algo. Seus

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olhos vermelhos — agora familiares, mesmo que ainda um pouco enigmáticos —
estavam voltados para o projeto, mas havia algo mais ali. Uma hesitação leve, como
se ele estivesse tentando encontrar o momento certo para dizer alguma coisa.

— Acho que já é hora de eu ir — ele disse enfim, com a voz tranquila, quase suave
demais para o eco metálico da oficina.

Virei o rosto, tentando esconder o pequeno sobressalto que senti com a frase.

— Já?

Ele se levantou devagar, ajeitando a parte inferior do casaco escuro. Durante toda a
conversa, ele nunca havia dito exatamente de onde vinha, ou o que fazia ali. E por
algum motivo, eu não tinha perguntado. Talvez por medo da resposta. Talvez
porque... parte de mim já soubesse que ele não era alguém fácil de encontrar.

— Obrigado por deixar eu ver — ele disse, olhando uma última vez para a luva,
ainda repousada entre papéis e engrenagens. — É raro encontrar alguém que pense
com tanta clareza... e com o coração.

A frase me pegou no contrapé.

— Hm... obrigada? — tentei brincar, mas minha voz saiu um pouco mais baixa do
que o normal.

Ele sorriu — aquele sorriso discreto, que parecia carregar um segredo — e começou
a caminhar em direção à porta da oficina. Quando chegou lá, parou. Virou-se, como
se fosse dizer algo mais. Mas só me encarou por um instante, com aqueles olhos
que pareciam sempre ver mais do que deviam.

— Foi bom te ver de novo, Lyra.

De novo. Ele disse ver, e não conhecer. E tinha algo na entonação... como se aquilo
tivesse significado pra ele também.

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— Até mais, Dar — murmurei, tentando manter o tom neutro. Mas acho que minha
expressão entregou mais do que eu gostaria.

Ele assentiu, apenas uma vez, e então saiu, silencioso como sempre — quase como
se tivesse sido uma parte da oficina o tempo inteiro, e agora simplesmente se
recolhesse.

Fiquei olhando para a porta por alguns segundos depois que ele sumiu. O ar parecia
mais frio de repente. Ou talvez fosse só ausência. O espaço ao meu lado parecia ter
guardado algo — uma presença, um eco do que a gente tinha dividido ali.

Suspirei, tentando me concentrar de novo no projeto, mas meus dedos ficaram


parados sobre o papel.

A verdade é que aquela oficina já não parecia só minha.

E, de algum jeito estranho, eu sabia que não seria a última vez que Dar — quem
quer que ele fosse — apareceria por ali.
Só não sabia se estava pronta para o que viria junto com ele.

O caminho de volta até a Torre foi silencioso. A floresta parecia ainda mais viva
depois da conversa, como se cada folha tivesse absorvido parte daquela energia
compartilhada. Eu andava devagar, os pensamentos girando feito engrenagens
soltas na minha cabeça. O céu estava começando a ganhar tons dourados e
rosados, sinal de que o dia estava perto do fim — e eu ainda sentia a vibração das
palavras dele na pele.

Quando passei pelos portões encantados da Torre, senti a magia se adaptar à minha
presença como sempre fazia — uma leitura suave de identidade, que fazia os
símbolos gravados na pedra pulsarem com luz discreta. Era algo rotineiro, mas
dessa vez, pareceu mais... acolhedor. Talvez fosse eu que estivesse diferente.

O saguão estava quase vazio por causa do feriado. Alguns alunos passavam
apressados, carregando livros ou bandejas de comida embrulhadas, mas ninguém
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notou minha presença. Eu gostava disso. Não ser vista, às vezes, era um alívio.

Peguei o elevador arcano, que subia devagar ao som de um zumbido mágico


constante. Encostei a cabeça na parede espelhada, observando meu reflexo
cansado: os cabelos um pouco bagunçados, manchas de tinta e carvão nos dedos,
olheiras começando a aparecer. Mas havia algo novo nos meus olhos — uma faísca
que eu reconhecia. Era a mesma que surgia toda vez que uma invenção começava
a dar certo.

Quando cheguei ao corredor dos dormitórios dos bolsistas, tudo estava silencioso.
As portas estavam fechadas, as luzes mágicas reduzidas a um brilho suave. Girei a
maçaneta da minha porta e entrei.

O quarto era pequeno, mas meu. Paredes brancas salpicadas de esquemas colados
com fita, engrenagens soltas em prateleiras, uma mesa entulhada de papéis e
componentes mágicos. Um canto do quarto estava tomado por anotações sobre a
luva — o antigo modelo, as falhas, os rabiscos ansiosos de alguém que não
conseguia parar de pensar.

Larguei a pasta sobre a cama, tirei os sapatos com alívio e me joguei de costas
sobre o colchão. Fiquei olhando para o teto por alguns minutos, os braços
estendidos ao lado do corpo, sentindo o coração ainda acelerado, não pela
caminhada, mas por tudo que aquele “Dar” tinha provocado.

Revirei o rosto na direção da parede e encarei um dos desenhos pendurados ali. Um


circuito de energia baseado em raízes, que eu tinha desistido de usar meses atrás.
Agora, olhando com outros olhos, parecia que fazia sentido outra vez. Ele fez sentido
daquilo.

Suspirei. Peguei meu diário do criado-mudo e sentei-me, cruzando as pernas.


Escrevi uma única frase, antes que ela escapasse da minha cabeça:

“Hoje, um estranho me viu de verdade — e por um instante, eu quase me vi


também.”
Fechei o diário, encostei a testa no joelho e sorri sozinha.
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Eu não sabia quem era aquele garoto. Mas sabia o suficiente por enquanto.

E algo me dizia que a gente ainda ia se encontrar de novo

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Capítulo Quatro – Os Ecos e os Ruídos

Nos dias que se seguiram, o projeto da luva parecia crescer por conta própria. Eu
ainda nem havia conseguido construir o novo modelo completo e já tinha outras
ideias derivadas se formando na minha mente — conectores mais leves, redutores
de oscilação em miniatura, formas de conversão mágica que pudessem ser portáteis.
Tudo parecia estar se encaixando.

Mas junto com essa fase criativa inesperada… vieram três figuras novas.

Eu os conhecia de vista. Alunos da mesma ala de bolsistas, todos mais ou menos do


meu ano, mas nunca tínhamos trocado muito mais que acenos apressados — até
agora.

Foi numa aula de Manipulação Básica de Condução que tudo começou. A


professora mal havia começado a escrever no quadro flutuante quando Nilo Vassant,
alto, desgrenhado e com o uniforme mal passado, se jogou na cadeira ao meu lado.

— Ei, Lyra! — disse, como se já fôssemos amigos de infância. — Preciso da sua


opinião. O que você acha de usar um cristal de som invertido dentro de um
conversor de pulso? Eu juro que vi isso funcionar num sonho!

— Num sonho? — repeti, arqueando a sobrancelha.

— Isso! Era tipo... uma luva que estalava e lançava ondas de choque. Literalmente,
ondas. Quase virei água.

Antes que eu pudesse comentar, Jessa Montray apareceu atrás dele. Seus cabelos
lisos e roxos estavam presos em dois coques brilhantes cheios de grampos mágicos
piscando. Ela me lançou um sorriso doce — e barulhento. Tudo nela parecia ter som:
o passo, as pulseiras, o jeito de falar.

— Lyraaa! Você é brilhante, sério. A gente estava falando de você ontem. Eu disse:
"Ela devia ser uma das inventoras oficiais da Torre." Achei até que deviam pintar a
luva no teto do saguão, como homenagem.
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— No... teto? — pisquei, confusa.

— Óbvio! E com glitter encantado que acende quando alguém passa! — E piscou,
orgulhosa da ideia.

No fundo da sala, Toren Gilber chegou correndo, tropeçou no próprio pé, e caiu
sentado na cadeira à minha frente com um baque alto. Ele soltou um “estou bem”
antes mesmo que alguém perguntasse, como se aquilo fosse comum.

— Sério, Lyra — disse ele, com um brilho sincero nos olhos castanhos. — Se quiser
ajuda pra construir uma versão giga da sua luva, me chama. Eu carrego as peças.
Ou os parafusos. Ou qualquer coisa que não envolva magia de precisão... sou meio
desastrado.

Fiquei paralisada por um instante. Eles estavam… tentando conversar comigo. Me


elogiar. Me incluir?

E o mais estranho: nenhum deles parecia fingir.

Era claro que eram exagerados, bagunceiros e definitivamente não tinham ideia do
que estavam falando, mas... havia algo genuíno no entusiasmo deles. Era como se,
de repente, eu tivesse sido jogada num grupo de três pequenos furacões que
decidiram orbitar ao meu redor sem pedir permissão.

Engoli a surpresa, e respondi com um sorriso pequeno, mas real.

— Tá bom. Só me deixem terminar as equações antes de começarem a pintar as


paredes com glitter, por favor.

— Sem promessas! — respondeu Nilo, e os três riram ao mesmo tempo.

Mas em outra parte da sala, à sombra da última coluna, alguém os observava.

Darian estava lá, encostado na parede lateral onde a luz mágica era mais fraca,

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quase invisível à primeira vista. Sua expressão era serena — demais. Como um
espelho liso que não refletia emoção. Mas seus olhos vermelhos, intensos, estavam
cravados na cena: no modo como eu ria, surpresa, ao desviar de mais uma sugestão
absurda de Jessa; em como eu anotava coisas no meu caderno mesmo enquanto
Nilo falava sem parar ao meu lado; na forma como Toren se abaixava para pegar um
pergaminho meu que caiu e me entregava como se tivesse me salvado de um
incêndio.

Darian não se moveu. Nem quando a aula avançou, nem quando os três
continuaram ali, se enroscando em ideias que não faziam sentido. Seus olhos
apenas acompanharam, frios e atentos, cada gesto.

Mas ele não interveio. Nem se anunciou.

Permaneceu apenas ali — como uma sombra que observa, protegendo sem chamar
atenção. Sem que eu notasse. Sem que ninguém percebesse.

Era como se ele estivesse garantindo que aqueles três idiotas — mesmo que
bem-intencionados — não fossem cruzar um limite que nem sabiam que existia.

E eu, sentada no meio daquele caos repentino, ria.

Sem saber.

Sem notar os olhos rubros que, à distância, zelavam em silêncio.


Sempre observando.
Sempre esperando.

Entrei no laboratório da ala norte com a cabeça cheia das ideias que queria testar na
luva. O silêncio do lugar era um alívio depois do burburinho constante dos
corredores e das vozes dos três “amigos” tentando se aproximar. Pousei a mochila
na bancada e comecei a organizar as peças, perdendo-me nos detalhes dos
circuitos mágicos.

Foi quando senti uma presença atrás de mim, e antes que pudesse reagir, uma voz
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baixa e familiar falou:

— Você não devia se expor tanto com eles.

Virei e encontrei Dar, parado ali, os olhos fixos em mim com uma intensidade que
me fez engolir o que ia responder.

— Só estou tentando — disse, um pouco surpresa com a franqueza dele.

Ele se aproximou devagar, olhando para os componentes que eu segurava.

— Sei que eles parecem inofensivos, mas... você sabe, nem sempre é assim.

Sorri, tentando aliviar a tensão no ar.

— Você está com ciúmes?

Dar bufou, meio sem jeito.

— Não é isso. Só me preocupo. Não gosto de te ver tão aberta para gente que pode
não ter as melhores intenções.

Aquela preocupação, mesmo que um pouco possessiva, me deixou estranhamente


confortável.

— Obrigada por se importar — falei, baixinho.

Ele desviou o olhar, mas antes que pudesse virar as costas, estendeu a mão para os
cristais que eu acabara de tirar da bolsa.

— Cuidado com eles — alertou. — São instáveis e podem queimar se manuseados


errado.

Peguei um deles, e ele observava cada movimento meu.

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— Vou tomar cuidado.

Ele assentiu, e por um momento, o laboratório pareceu o único lugar onde o mundo
lá fora não existia.

— Se precisar de ajuda, só chamar — ele disse, a voz mais suave.

Assenti devagar, ainda com os dedos fechados em torno do cristal, quando ele se
aproximou mais — só um passo, mas o suficiente para que o calor do corpo dele
contrastasse com o frio do vidro na minha mão.

— Posso ver como está o novo modelo da luva? — ele perguntou, inclinando o corpo
para espiar a planta sobre a bancada.

— Claro. — Virei para mostrar, estendendo o pergaminho com os novos esquemas.


— Eu adaptei a estrutura como falamos… canalizei as trilhas principais pelas laterais
pra reduzir a sobrecarga, mas ainda estou testando o quanto o revestimento aguenta
de—

Dei um passo para o lado, tentando ajustar o pergaminho mais à luz, mas meu pé
pegou o canto de uma caixa de ferramentas caída no chão. A borda escorregadia
me traiu.

— Ah! — soltei, perdendo completamente o equilíbrio.

O mundo girou por um segundo, e quando voltei a perceber o que estava


acontecendo, meu corpo já tinha colidido contra o dele. Literalmente em cima dele.
Dar cambaleou um pouco, surpreso, e caiu sentado no chão — comigo por cima,
uma perna de cada lado, as mãos espalmadas no peito dele.

O cristal voou da minha mão, rolando para debaixo da bancada, mas por um
segundo ninguém se importou com isso. Porque eu ainda estava ali. Em cima dele.
O rosto tão próximo que eu podia ver, com absurdos detalhes, a forma como os
cílios dele tremiam.

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Me afastei de um pulo, tropeçando de novo até conseguir sentar no chão, desta vez
sozinha, o rosto completamente em chamas.

— Desculpa! — soltei, apressada, sem saber onde enfiar as mãos. — Eu não vi a


caixa! Eu...!

Dar ficou parado por um momento, tão rígido quanto uma estátua. E então levantou
devagar, limpando a poeira da roupa sem olhar diretamente para mim.

— Tá tudo bem — respondeu, mas a voz saiu rouca.

Levantei rápido também, ainda sentindo o calor nas bochechas. Estávamos em


silêncio, e ele ainda evitava contato visual — o que só me deixava mais consciente
da situação absurda de segundos atrás.

— Eu juro que não foi de propósito — murmurei, sem saber se ria, me enfiava
embaixo da bancada ou me transformava em nevoeiro e sumia.

Ele bufou uma risada baixa — uma que quase soava nervosa — e finalmente me
olhou. Os olhos vermelhos estavam brilhando, como se segurassem algo que ele
não deixaria escapar em voz alta.

— Talvez seja melhor você parar de cair em cima de mim, só por precaução —
disse, num tom tão sério que quase pareceu brincadeira.

Quase.

— Não é como se eu tivesse planejado! — rebati, indignada, tentando esconder o


sorriso que ameaçava surgir mesmo assim.

Ele olhou para o lado, como se lutasse com algo dentro da própria cabeça. Então se
aproximou, devagar, e parou a poucos centímetros.

— Mesmo assim... se alguém precisar cair em cima de mim — disse, baixo — que
seja você.

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Aquilo me fez prender a respiração. Ele não esperou resposta. Apenas se abaixou
para pegar o cristal que rolara para longe e voltou a me entregar com a expressão
calma de sempre... mas os dedos que encostaram nos meus ainda tremiam.

E eu sabia. Assim como ele sabia.

Depois daquele momento, alguma coisa entre nós já tinha mudado.

Ainda me recuperando do calor no rosto e da completa humilhação social que foi


aquela queda, abaixei os olhos para o cristal que ele agora estendia para mim.
Peguei com cuidado, e nossos dedos se encostaram de novo — leves, mas tempo o
suficiente para fazer meu estômago dar um nó.

Antes que eu pudesse pensar em fugir da situação, Dar esticou a mão e disse, com
a voz um pouco mais firme:

— Vem. Eu te ajudo.

Hesitei, mas aceitei. Seus dedos envolveram os meus com segurança, e ele puxou
com delicadeza, me ajudando a levantar. Por um instante, desequilibrei de novo, e a
outra mão dele pousou no meu cotovelo, firme, me mantendo estável. Os olhos
vermelhos encontraram os meus.

— Você sempre tão estabanada assim? — ele perguntou, com aquele tom calmo
que tentava esconder a provocação leve.

— Só quando alguém resolve aparecer de fininho atrás de mim — retruquei,


ajeitando a blusa amassada e o cabelo bagunçado.

Ele soltou uma risada baixa, daquela que quase parecia surpresa por ter escapado.
Depois de um segundo, a mão que ainda estava no meu cotovelo escorregou para
longe — mas antes de soltá-la completamente, os dedos dele passaram de leve por
uma mecha solta do meu cabelo, afastando-a do meu rosto com um gesto
cuidadoso.

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Foi tão sutil, tão inesperado, que por um momento esqueci de respirar.

— Tinha... uma faísca — ele explicou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Mas a forma como seus olhos me observavam dizia outra coisa. Eles estavam fixos,
profundos, quase cautelosos.

— Ah — murmurei, baixando o olhar. — Obrigada...

Ele recuou meio passo, finalmente devolvendo ao ar a distância necessária para que
eu pudesse pensar direito. Mas o silêncio entre nós não era desconfortável. Era...
denso. Como se tivesse algo crescendo ali, nas bordas daquilo que nenhum de nós
conseguia nomear ainda.

— Vai continuar o projeto hoje? — ele perguntou, casual, como se nada tivesse
acontecido.

— Acho que sim. Só preciso reorganizar tudo de novo. — Olhei em volta, fingindo
foco enquanto meu coração ainda tentava entender o que tinha sido aquilo.

Dar assentiu e virou de costas, caminhando devagar até a janela da oficina.

— Então fico mais um pouco — disse, com simplicidade.

— Por quê?

Ele não me olhou quando respondeu:

— Porque hoje você não devia trabalhar sozinha.

E foi só isso. Mas eu soube, na mesma hora, que ele ia ficar ali. Mesmo em silêncio.
Mesmo só de canto. Mesmo que tudo entre a gente continuasse sem nome.

E de algum jeito... isso era mais do que suficiente.

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27
Capítulo Cinco – Entre Linhas e Faíscas

Os corredores estavam mais silenciosos que o normal naquela tarde. O som de


meus passos ecoava contra as pedras encantadas do piso conforme me aproximava
da ala norte. O refeitório ficava para trás, cheio de vozes e risos, muitos deles vindos
de Jessa, Toren e Nilo. Eu sorri de leve, educada, quando os vi acenarem enquanto
passava, mas não parei.

Não era por falta de tentativa deles. Desde que nos conhecemos, os três vinham se
esforçando para puxar conversa, me chamar para os intervalos, arrastar-me para
jogos ou piadas. Jessa era elétrica, cheia de perguntas e opiniões. Toren, o mais
relaxado, parecia sempre tentar me fazer rir. E Nilo... bem, Nilo tinha um sorriso fácil
demais. Um jeito que me deixava ligeiramente desconfortável, mas que eu tentava
ignorar.

Talvez fosse só o meu jeito mesmo. Achar o exagero um pouco cansativo. Ou talvez
eu só preferisse as entrelinhas.

A oficina da ala norte era o único lugar onde tudo parecia fazer sentido.

Abri a porta com cuidado, sentindo o cheiro de metal aquecido e verniz mágico que
só aquele espaço tinha. A luz do fim da tarde entrava pelas janelas altas, lançando
linhas douradas sobre as bancadas de pedra. O silêncio ali era vivo. Cheio de
expectativa.

Pousei a mochila sobre a bancada, tirei a luva incompleta com delicadeza e comecei
a organizar os cristais menores. Havia algo reconfortante no gesto de alinhar as
ferramentas, ativar os selos de isolamento, calibrar os fios de condução. Era um tipo
de ordem que não dependia de palavras. Que bastava existir.

Foi quando ouvi a porta ranger levemente atrás de mim.

Virei a cabeça, já esperando ver algum dos três — talvez Nilo, com aquele olhar
casual que tentava parecer distraído demais. Mas não era ele.
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Era Dar.

Ele entrou sem dizer nada. Fechou a porta com um toque leve, e apenas andou até
uma bancada próxima, onde repousavam alguns papéis e componentes.

Seu silêncio não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que preenche um espaço
sem sufocar. Ele não me olhou de imediato. Apenas começou a trabalhar em algo —
uma matriz de condensação de sombras, pelo que pude ver de onde estava.

Pensei em falar algo, mas não encontrei motivo. E acho que ele também não.
Ficamos assim por alguns minutos, cada um envolvido em seu próprio mundo.

— Está mais estável — ele disse, por fim, ainda olhando para a própria bancada.

— O quê?

Ele apontou com o queixo para a luva.

— O modelo. Você mudou os canais laterais?

— Só um pouco... — Respondi. — Comecei a testar dividir a carga entre os dedos.


Menos tensão no central.

Ele assentiu uma vez.

— Boa ideia.

Sorri, baixando os olhos. Era isso. Nada grandioso. Nenhum elogio inflamado. Mas
vindo dele, aquele "boa ideia" era quase como um selo arcano de aprovação.

Voltamos ao trabalho. As faíscas das ferramentas encantadas riscando metal


soavam como pequenos trovões calmos em meio à tarde morna. Em algum
momento, ele se aproximou para ver o desenho da runa que eu traçava, e o ombro
dele quase roçou no meu.

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Quase.

Não houve toque. Só a tensão elétrica do "quase". Como uma faísca que se forma
entre dois fios sem nunca se descarregar.

— Você anda muito com eles — ele comentou, casual.

Não precisei perguntar quem eram "eles".

— Eles... são simpáticos. E eu tô tentando, sabe? Ser... normal.

Dar ficou em silêncio por tempo demais para ser casual.

— Ser normal não é o mesmo que baixar a guarda pra qualquer um — ele disse,
enfim. — Só... toma cuidado.

Olhei pra ele. Não com irritação, nem com gratidão. Com curiosidade.

— Você sempre vê algo que ninguém mais vê?

— Eu só presto atenção. — Ele me encarou, sério. — E... eu não gosto de ver você
com gente que não vê o que você realmente é.

— E o que você acha que eu sou?

Ele desviou os olhos, como se a pergunta o pegasse desprevenido. E por um


segundo, achei que ele não responderia.

Mas então, de forma quase imperceptível, ele murmurou:

— Alguém que constrói nas entrelinhas.

Aquela frase ficou ali, pairando entre nós. Firme e suave como uma ponte invisível.

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Senti o coração bater um pouco mais forte. Não por causa de uma revelação, ou
uma frase romântica. Mas porque ele tinha entendido.

Talvez, pela primeira vez, alguém realmente tivesse visto. Aquilo que eu era entre
esquemas e faíscas.

— Obrigada — sussurrei.

Ele só assentiu.

E continuamos ali. Cada um no seu lado da bancada. Cada um focado no que fazia.
Mas agora havia algo entre nós. Um silêncio mais denso. Uma atenção que crescia
devagar, como um fio encantado percorrendo um circuito que ainda não
entendíamos totalmente.

E, às vezes, quando eu não olhava diretamente, sentia os olhos dele me


observando.

E isso, curiosamente, não me assustava.

O som do metal riscando e do leve zumbido das runas preenchia o ar, mas parecia
que, naquele instante, o verdadeiro ruído vinha daquele espaço invisível entre nós
— como se cada respiração fosse uma pequena faísca prestes a acender algo
maior.

Eu fiquei em silêncio, alinhando alguns cristais, tentando focar no que tinha à minha
frente, mas a consciência daquele olhar estava grudada em mim, uma presença que
parecia repousar ao lado, mesmo sem uma palavra a mais.

De repente, ele falou, baixo, quase um sopro:

— Você tem um jeito de enxergar além do óbvio. — A voz não tinha julgamento, só
uma admiração contida. — Não é qualquer um que consegue fazer isso.

Olhei para ele, meio surpresa. Era raro alguém dizer algo tão simples e, ao mesmo

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tempo, tão direto.

— Talvez — respondi, desviando o olhar para a janela onde as sombras já


começavam a crescer com o cair da tarde.

— Sabe... — ele continuou, ainda sem me olhar — tem algo que eu queria te
mostrar. Algo que talvez faça sentido para você, nesse seu jeito de "construir nas
entrelinhas".

Meu coração acelerou, mas não por medo. Por curiosidade.

— O quê? — perguntei, um pouco hesitante.

Dar levantou a cabeça e finalmente encontrou meus olhos.

— Amanhã, depois da aula, posso te levar para ver.

A promessa ficou pendurada, e mesmo sem entender exatamente o que era, eu


queria acreditar. Queria que ele fosse aquele fio invisível que conecta pontos que só
eu percebo.

Ele voltou a se concentrar no seu trabalho, mas eu fiquei olhando para ele um pouco
mais — para o jeito que as sombras brincavam em seus traços, para o leve franzir
dos olhos quando estava pensativo.

E então, pela primeira vez, o silêncio entre nós não era pesado. Era um espaço
confortável, onde nada precisava ser dito para que algo se formasse.

Eu guardei a luva com cuidado e me levantei, ainda sentindo o calor daquele


momento pairando no ar.

Quando fui até a porta, ouvi a voz dele, quase um convite tímido:

— Até amanhã, Lyra.

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Sorri, segurando a respiração antes de responder:

— Até amanhã, Dar.

E saí, com o som dos meus passos voltando a ecoar, mas agora acompanhados
pela promessa silenciosa de algo que ainda estava por vir.

33
Capítulo Seis – “Lanthir”

A frase dele ainda ecoava em mim.


"Alguém que constrói nas entrelinhas."
Era como se aquelas palavras tivessem encontrado um lugar dentro do meu peito e,
desde então, estivessem lá, vibrando baixinho. Mesmo enquanto eu cruzava os
corredores da Torre em silêncio, sentia aquela presença invisível, como uma magia
que ainda não tinha nome.
Eu não olhava para trás. Nem precisava. A lembrança da conversa no laboratório
bastava para me manter aquecida por dentro, mesmo com o vento fresco do
entardecer entrando pelas janelas altas.

Entrei no dormitório e fechei a porta com cuidado. Não queria ser interrompida.
Larguei a mochila num canto, tirei o casaco e fui direto para a bancada ao lado da
cama. A ideia já estava formada. Não era grandiosa, nem perfeita. Mas era minha. E
seria para ele.
Para o Dar.

Não porque eu devia. Mas porque... queria. Porque havia algo entre nós que crescia
devagar, com cuidado. Uma linha tênue de eletricidade silenciosa, como os fios
encantados que atravessavam minhas criações.
Escolhi o couro mágico que eu mesma tinha tratado semanas antes — uma tira fina,
flexível, de um tom profundo de cinza-vinho, que absorvia a luz de forma sutil. Com o
encantamento certo, ela se ajustaria ao pulso sem apertar,
sem incomodar.
Era discreta.
Como ele.

Depois, escolhi o cristal. Vasculhei minha pequena coleção até encontrar o que
buscava: um quartzo fumê. Não era chamativo, mas havia algo ali... na forma como
as sombras se moviam dentro da pedra. Como se respirassem devagar. Como os
olhos dele quando ele pensava — escuros, mas jamais vazios. Cheios de algo que
nem ele deixava ver completamente.
Segurei o cristal por um tempo. Fechei os olhos.

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Lembrei da magia que minha mãe havia me ensinado quando eu era criança —
antes das cobranças, antes da ansiedade me tornar elétrica demais por dentro. Um
encantamento antigo, que canalizava o sentimento de quem o lançava e se
manifestava através de flores. Cada flor única, moldada pelo feitiço e pelo coração
de quem o lançava.

Comecei a entoar o feitiço em voz baixa, quase como uma canção que só a pedra
ouviria. Desenhei os arcos com os dedos no ar, construindo a estrutura mágica ao
redor do cristal. Um brilho tênue se acendeu em seus veios internos, conforme a
magia se fixava, absorvendo minha intenção, meus sentimentos — e a memória de
uma presença constante, silenciosa, firme.
E então a flor se revelou.

Ela brotou magicamente dentro da pedra, como se estivesse guardada ali o tempo
todo. As pétalas delicadas se desenharam lentamente, tomando forma e cor... um
tom profundo e vibrante de vermelho escuro, quase carmesim, exatamente da cor
dos olhos de Dar.
Um Lírio-da-aranha-vermelho.

Um símbolo antigo. Associado à saudade, à memória, à conexão entre o visível e o


invisível. Às coisas que crescem mesmo quando não podem ser ditas em voz alta. À
coragem de se importar mesmo sem saber o que virá depois.

Era isso que ele era, pra mim.


E era isso que eu estava colocando ali.
Terminei a pulseira com calma. Costurei o fecho encantado com linha reforçada por
runas de resistência, e tracei discretamente um selo de proteção leve. O cristal
lapidado ficou encaixado no centro, e a flor mágica ali dentro parecia flutuar, suave.
Viva. Esperando.
Fiquei olhando por alguns instantes.

A pulseira não dizia tudo. Mas dizia o que importava.


Era como um segredo entre dois encantamentos.
Entre o que eu podia construir...

35
E aquilo que eu mal começava a sentir.

A pulseira estava pronta.


Encantada, costurada, selada. O cristal com o lírio-da-aranha-vermelho flutuava
estável no centro da peça, pulsando em silêncio como um pequeno coração preso
entre fios e couro. Havia calma naquele objeto. E, ao mesmo tempo, tensão — como
se guardasse um segredo.
Eu deveria dormir. Já passava da meia-noite e o céu do lado de fora estava coberto
por nuvens de verão, pesadas e carregadas, como se prestes a chover.

Mas eu não conseguia parar de olhar para ela.


Segurei a pulseira com cuidado. Levei-a até o centro do quarto, onde o piso de pedra
encantada servia de base ideal para testes. Me ajoelhei, os joelhos nus tocando a
superfície fria, e fechei os olhos por um instante.
Eu precisava ver.

Precisava saber se a magia funcionava. Se ela era forte o suficiente. Se ele a


sentiria quando usasse.
Toquei o cristal com dois dedos e, com a voz baixa e firme, sussurrei o comando
antigo:

— Lanthir.

A palavra ativadora fluiu como seda mágica no ar. E então... a magia respondeu.
Um brilho sutil escapou do centro do cristal e se espalhou pelo chão, traçando
padrões que se curvavam como raízes invisíveis. Em segundos, os contornos se
acenderam — e flores começaram a surgir, brotando do nada, como se o quarto
tivesse sido invadido por uma primavera de outro plano. Lírios-da-aranha-vermelhos.
Centenas deles.

Eles dançavam levemente ao redor de mim, como se tivessem sido soprados pelo
vento de um sonho. Pétalas vibrantes, retorcidas com graça, a mesma cor dos olhos
de Dar — aquele tom profundo entre sangue e sombra. O mesmo tom que me fazia
esquecer onde eu estava quando ele me olhava por mais de três segundos.
36
Fiquei imóvel no centro do campo encantado, vendo o quarto desaparecer sob as
flores. Era como estar dentro de um fragmento de memória que ainda nem tinha
acontecido. Um mundo entre a invenção e o sentimento.
Mas então... algo fugiu do controle.

No meio da dança rubra, uma nova cor surgiu. Um único lírio-da-aranha rosa nasceu.
Delicado. Silencioso. Suave demais para ter sido intenção. As pétalas se abriram
com a lentidão de quem pede permissão para existir. O rosa não era tímido — era
íntimo. Era algo que não podia mais ser ignorado.
Eu estremeci.

Aquilo não fazia parte da magia original.


O feitiço — o que minha mãe havia me ensinado — refletia quem você sentia. A flor
se moldava à figura no seu coração.

Mas essa flor... não representava ele. Era minha.


Eu me coloquei ali.
A magia lera mais do que eu permiti. Ela cavou mais fundo. E encontrou aquilo que
nem eu queria admitir: a ternura silenciosa, o afeto sutil, a vulnerabilidade que eu
escondia até de mim mesma.

A flor rosa era a minha presença entre os vermelhos. Não como criadora. Mas como
alguém que sentia. Eu estava no feitiço.

E de repente, era como se ele estivesse ali também — mesmo não estando. O
quarto girava em silêncio mágico, preenchido por algo mais forte que palavras. Algo
que só as flores sabiam dizer.

Talvez ele nunca soubesse o que aquela flor rosa significava. Talvez ninguém
soubesse.
Mas eu sabia.
Eu estava sentindo.
Mesmo com medo.

37
Mesmo sem saber o nome. Mesmo sem querer.
O campo encantado começou a se dissipar aos poucos, pétala por pétala virando
luz, voltando ao cristal, como se nada tivesse acontecido. Mas a lembrança... ficou.
Assim como a flor rosa presa ali dentro. E tudo o que ela revelava.

Me deitei devagar, ainda sem conseguir tirar os olhos da pulseira.


Era mágica. Era bela.
Era perigosa.
Porque dizia mais do que eu podia explicar. Mas também... era verdade.
E entre tudo que eu não disse, tudo que eu ainda nem entendo, ela permanecia.

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Capítulo Sete – “Flores Que Não Mentem”

A pulseira estava pronta.

Encantada, costurada, selada. O cristal com o lírio-da-aranha-vermelho flutuava


estável no centro da peça, pulsando em silêncio como um pequeno coração preso
entre fios e couro. Havia calma naquele objeto. E, ao mesmo tempo, tensão — como
se guardasse um segredo.

Eu deveria dormir. Já passava da meia-noite e o céu do lado de fora estava coberto


por nuvens de verão, pesadas e carregadas, como se prestes a chover.

Mas eu não conseguia parar de olhar para ela.

Segurei a pulseira com cuidado. Levei-a até o centro do quarto, onde o piso de pedra
encantada servia de base ideal para testes. Me ajoelhei, os joelhos nus tocando a
superfície fria, e fechei os olhos por um instante.

Eu precisava ver.

Precisava saber se a magia funcionava. Se ela era forte o suficiente. Se ele a


sentiria quando usasse.

Toquei o cristal com dois dedos e, com a voz baixa e firme, sussurrei o comando
antigo:

— Lanthir.

A palavra ativadora fluiu como seda mágica no ar.

E então... a magia respondeu.

Um brilho sutil escapou do centro do cristal e se espalhou pelo chão, traçando


padrões que se curvavam como raízes invisíveis. Em segundos, os contornos se
acenderam — e flores começaram a surgir, brotando do nada, como se o quarto

39
tivesse sido invadido por uma primavera de outro plano.

Lírios-da-aranha-vermelhos.

Centenas deles.

Eles dançavam levemente ao redor de mim, como se tivessem sido soprados pelo
vento de um sonho. Pétalas vibrantes, retorcidas com graça, a mesma cor dos olhos
de Dar — aquele tom profundo entre sangue e sombra. O mesmo tom que me fazia
esquecer onde eu estava quando ele me olhava por mais de três segundos.

Fiquei imóvel no centro do campo encantado, vendo o quarto desaparecer sob as


flores. Era como estar dentro de um fragmento de memória que ainda nem tinha
acontecido. Um mundo entre a invenção e o sentimento.

Mas então... algo fugiu do controle.

No meio da dança rubra, uma nova cor surgiu.

Um único lírio-da-aranha rosa nasceu.

Delicado. Silencioso. Suave demais para ter sido intenção. As pétalas se abriram
com a lentidão de quem pede permissão para existir. O rosa não era tímido — era
íntimo. Era algo que não podia mais ser ignorado.

Eu estremeci.

Aquilo não fazia parte da magia original.

O feitiço — o que minha mãe havia me ensinado — refletia quem você sentia. A flor
se moldava à figura no seu coração.

Mas essa flor... não representava ele.

Era minha.

40
Eu me coloquei ali.

A magia lera mais do que eu permiti. Ela cavou mais fundo. E encontrou aquilo que
nem eu queria admitir: a ternura silenciosa, o afeto sutil, a vulnerabilidade que eu
escondia até de mim mesma.

A flor rosa era a minha presença entre os vermelhos.

Não como criadora. Mas como alguém que sentia.

Eu estava no feitiço.

E de repente, era como se ele estivesse ali também — mesmo não estando. O
quarto girava em silêncio mágico, preenchido por algo mais forte que palavras. Algo
que só as flores sabiam dizer.

Talvez ele nunca soubesse o que aquela flor rosa significava.

Talvez ninguém soubesse.

Mas eu sabia.

Eu estava sentindo.

Mesmo com medo.


Mesmo sem saber o nome.
Mesmo sem querer.

O campo encantado começou a se dissipar aos poucos, pétala por pétala virando
luz, voltando ao cristal, como se nada tivesse acontecido. Mas a lembrança... ficou.

Assim como a flor rosa presa ali dentro.


E tudo o que ela revelava.

41
Me levantei devagar, ainda sem conseguir tirar os olhos da pulseira.

Era mágica.
Era bela.
Era perigosa.

Porque dizia mais do que eu podia explicar.

Mas também... era verdade.

E entre tudo que eu não disse,


tudo que eu ainda nem entendo,
ela permanecia.

Acordei envolta por uma penumbra serena, como se o mundo ainda estivesse
hesitando entre o sonho e o despertar. As cortinas balançavam com a brisa suave, e
uma luz pálida dourava o teto do dormitório. Havia algo suspenso no ar — um
silêncio que não era vazio, mas carregado. Quase como se o dia esperasse por mim.

Mas a primeira coisa que senti não foi o sol nem o vento.
Foi ele.

Dar.

Não sua presença física, mas a impressão deixada por ela. Como poeira de estrela
que ainda brilha depois que a estrela some.
A lembrança da noite anterior, dos seus olhos vermelhos e da forma como ele me
olhava — como se estivesse tentando me entender por inteiro — ainda estava
comigo.

“Alguém que constrói nas entrelinhas.”

A frase reverberava com ternura. Como se tivesse sido escrita diretamente em mim.

Fiquei deitada por longos minutos, os olhos presos no teto. Um nome martelava

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suavemente na minha mente: Lanthir.
A magia da minha mãe.
A magia que eu tinha transformado.
E que agora... talvez estivesse pronta para encontrar a dele.

Me levantei devagar. Tomei banho, troquei de roupa, e fiz tudo com movimentos
quase cerimoniais — como se preparar para um ritual secreto. No fundo, talvez fosse
mesmo. Eu não sabia o que esperava, mas sabia que não era um dia qualquer.

Esperei o sol cair um pouco antes de sair. Não queria encontrar ninguém. Comi algo
simples no refeitório, sem muito gosto, e fui direto para o único lugar que me
entendia quando eu mesma não conseguia.

A oficina.

O espaço me acolheu com o cheiro de engrenagens aquecidas e pedras


encantadas. A luz da tarde entrava pelas janelas altas, criando manchas douradas
sobre o chão de pedra.
Me sentei. E esperei.

E então ele veio.

Dar.

Entrou em silêncio, como se fizesse parte daquele lugar — sombras e tudo. Seus
olhos encontraram os meus com uma intensidade que me fez esquecer de respirar
por um instante. Ele não disse nada de imediato. Apenas estendeu a mão para uma
estrutura mágica montada no centro da sala, que até então parecia incompleta.

— Eu queria te mostrar uma coisa — ele murmurou, quase sem voz.

Assenti, sentindo o coração bater mais rápido.

Ele tocou o núcleo da estrutura, e o ar ao redor pareceu se dobrar.

43
Do cristal escuro no centro da peça, surgiram fios de luz escura, como fumaça que
dançava contra a gravidade. Mas então, no meio da escuridão, pequenas fagulhas
prateadas começaram a brilhar.

Memórias.

Mas não qualquer memória. As nossas.

Uma risada minha ecoando em uma aula. O brilho nos meus olhos quando falava de
uma invenção. Ele observando meu trabalho em silêncio, como se absorvesse cada
detalhe. Momentos roubados do tempo.
Fragmentos nossos.

A estrutura projetava as cenas como um planetário encantado — luzes se movendo


no ar ao nosso redor. Não era só bonito. Era íntimo. Como se ele tivesse capturado
o que eu mesma não sabia que queria guardar.

— Isso é... — minha voz saiu embargada.

— O que você deixa em mim — ele disse. — Sua presença... registra. Como marcas
no escuro.

Senti vontade de chorar e sorrir ao mesmo tempo.

Mas, ao invés disso, fechei os olhos e toquei a pulseira. O cristal com o


lírio-da-aranha vermelho brilhava suavemente.

— Agora é minha vez — sussurrei. — Lanthir.

A magia saiu de mim com gentileza. Não foi um estouro. Foi uma maré.
Uma onda quente e invisível, que se espalhou como se tocasse as paredes do lugar
por dentro.

Mas eu não parei ali.

44
Puxei mais fundo. Fui até o cerne do que eu sentia — por ele, por mim, por tudo que
não tinha nome. E então soltei a versão verdadeira da magia.
A mais pura.

— Lanthur.

O chão da oficina brilhou com runas ancestrais, linhas delicadas e curvas pulsando
em tons róseos e carmesim. E, de repente, flores começaram a surgir.

Primeiro, centenas de lírios-da-aranha vermelhos, brotando do chão como se


sempre tivessem estado ali, apenas esperando. Flutuavam no ar, repousavam nas
bancadas, cobriam as engrenagens com uma graça silenciosa. Em meio a eles,
rosas douradas, íris azuis, e finalmente — no centro do espaço entre nós dois — um
único lírio-da-aranha rosa.

A flor flutuava como se respirasse.


Como se sentisse.
Era feita de magia pura — minha magia. Mas não só isso.

Era feita de emoção.

Enquanto a magia dele captava momentos... a minha captava sentimentos.

A calma que ele me trazia.


A ansiedade que eu escondia.
O calor que nascia só por tê-lo por perto.

As flores não apenas existiam — elas pulsavam. Cada pétala irradiava sensação,
como se o espaço inteiro estivesse... vivo. Ele deu um passo. E o mundo pareceu
respirar.

— Isso... — ele murmurou, com os olhos presos no campo de magia. — É diferente.


Nunca vi nada assim.

— Porque é meu — disse, com a voz baixa. — E agora é seu também.

45
Dar se aproximou, olhando ao redor como se estivesse tentando memorizar cada
flor, cada brilho, cada sensação. O reflexo do lírio rosa dançava nos olhos vermelhos
dele. E por um segundo, juraria que ele ia me tocar.

Mas não o fez.

Nem precisava.

Estávamos cercados por nossas magias.


Pelos nossos silêncios.
Pelo que nascia entre as linhas.

Ele ainda olhava para o lírio rosa flutuando entre nós, a luz do encantamento
refletida em seus olhos vermelhos. Por um momento, pensei que ele fosse dizer
algo. Um passo a mais. Uma palavra.

Mas Dar apenas fechou lentamente os olhos. Respirou fundo, como se estivesse
gravando tudo dentro de si.

— Isso é... muito mais do que eu esperava. — Sua voz era baixa, quase reverente.
— Não sei se tenho palavras pra isso, Lyra.

— Não precisa. — respondi, e percebi que minha voz saía mais suave do que o
normal. — Algumas coisas foram feitas pra serem sentidas, não explicadas.

Ele assentiu devagar.

O silêncio voltou. Mas agora, era um silêncio leve. Quente. Um silêncio onde
podíamos respirar juntos sem pressa.

— O Mestre vai me procurar — disse ele, um pouco relutante, quase como quem
não queria desfazer o momento.

46
— Eu sei.

— Mas eu volto amanhã.

Essa simples frase, dita com firmeza contida, fez algo dentro de mim se acalmar.
Como se fosse uma promessa deixada entre flores.

— A oficina vai estar aqui. — respondi, segurando o olhar dele. — E eu também.

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas real. Depois se virou, caminhando entre os
lírios ainda flutuantes que reagiam à sua presença com um leve tremor mágico,
como se se despedissem também.

E então, ele desapareceu pela porta.

Fiquei ali por alguns minutos, olhando para o espaço vazio onde ele estivera. Ainda
dava pra sentir o rastro da sua magia se entrelaçando à minha, nas partículas
douradas que flutuavam suavemente, nas flores que aos poucos iam se desfazendo
em luz.

Desativei o núcleo mágico com um toque suave. Um por um, os encantamentos se


retraíram. A oficina voltou ao seu estado normal — pedras encantadas adormecidas,
ferramentas imóveis, o som do vento sussurrando contra as janelas.

Mas dentro de mim… tudo havia mudado.

Peguei minha mochila e saí devagar. O corredor estava calmo, mergulhado no


azul-rosado do entardecer. As janelas refletiam uma luz de despedida, e as sombras
dançavam no chão, como se até o prédio tivesse sentido o que aconteceu ali.

No dormitório
Abri a porta e entrei, sentindo o alívio imediato de estar sozinha. Tirei os sapatos, o
casaco, prendi o cabelo em um coque frouxo e me troquei com movimentos lentos,
quase mecânicos. Cada dobra do tecido parecia mais real do que tudo ao meu redor.

47
Me sentei na cama primeiro.
Depois deitei.

E fiquei ali, olhando para o teto branco, sentindo a maciez dos lençóis contra as
pernas e o silêncio preenchido com tudo que não cabia em palavras.

Meu coração ainda estava em outro lugar.

Revivi tudo. O modo como ele ativou a magia — as memórias projetadas no ar,
como constelações que só nós dois podíamos ver. E a forma como minha própria
magia respondeu, como se Lanthir soubesse, antes mesmo de mim, o que era
preciso ser revelado.

Lanthir não era só uma magia que captava emoções.


Era uma linguagem que eu criei sem perceber.
Uma forma de dizer: “eu te vejo.”

E ele… ele me ouviu.

Nunca imaginei que algo tão silencioso pudesse ser tão alto dentro de mim.

Não sabia que alguém podia tocar a gente mesmo sem encostar.

Fiquei ali por muito tempo, só sentindo.


Sentindo as emoções que minha própria magia libertou — o carinho, a ansiedade, o
conforto, o calor, e algo novo. Algo que eu ainda não tinha nomeado. Mas que
estava ali.

Entre as linhas.

Entre as faíscas.

Entre o que foi dito e o que foi apenas... sentido.

48
Capítulo Oito — Ecos no Espelho

Acordei antes mesmo que o primeiro feixe de luz atravessasse as cortinas.

Meu corpo ainda estava aquecido pelo cobertor, mas minha mente... ela vagava.
Vagava de novo para ele.
Dar.

Era como se a lembrança da oficina ainda me envolvesse, como se aquela magia


feita de memórias e sentimentos tivesse deixado vestígios invisíveis na minha pele.
O campo florido, a calma que nos cobriu — e o modo como ele olhava para mim,
como se soubesse, sem que eu dissesse, o que estava por trás de cada detalhe.

Meu coração apertou levemente.

Me vesti devagar, com o pensamento ainda preso nos olhos vermelhos que agora
pareciam me observar da memória. Amarrei o cabelo em um coque solto, peguei
meu grimório e alguns pergaminhos... e segui para a biblioteca.

Precisava me distrair. Ou talvez... me entender.

Os corredores estavam silenciosos àquela hora. O cheiro de páginas antigas e


magia adormecida me recebeu na biblioteca como um velho abraço. Caminhei entre
as estantes até uma seção que raramente visitava — magias de vinculação
emocional, selos protetores ligados a memórias, algo que talvez pudesse me ajudar
a compreender tudo aquilo que havia florescido dentro de mim.

Foi então que a vi.

No fundo do corredor, uma garota folheava um livro em silêncio, os dedos deslizando


pelas páginas com precisão e leveza. Cabelos longos, rosa claro, caíam como seda
sobre os ombros. Seu rosto... era familiar.
Não como alguém que eu conhecia. Mas como um espelho antigo — onde você vê
algo seu, mesmo sem entender o porquê.

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Ela ergueu o olhar devagar, dourado e firme. E por um instante, senti meu corpo
parar.

Como se algo tivesse sussurrado dentro de mim: Ela.

Não trocamos palavras. Apenas um olhar breve. E então segui, tentando não
parecer abalada.

Depois de pegar alguns livros, deixei a biblioteca com o coração inquieto. Meus pés
me levaram à floresta, como sempre faziam quando o mundo parecia pesado
demais. A brisa balançava as folhas como se contassem segredos que ninguém
mais podia ouvir.

Me sentei entre as raízes de uma árvore antiga, abrindo o grimório no colo. Mas as
palavras pareciam fugir. O rosto da garota... seus olhos dourados... a presença
estranha.
Era como tentar lembrar de um sonho que nunca aconteceu.

Então, ouvi passos. Leves, calculados, quase felinos. Me virei devagar.

Ela estava lá.

A garota da biblioteca. Agora mais próxima, ainda mais parecida comigo. Mas
diferente. Como a noite e o crepúsculo. Como o silêncio e a contenção.

— Você me seguiu? — perguntei, não com hostilidade, mas com um misto de


curiosidade e alerta.

Ela não respondeu imediatamente. Apenas se aproximou, olhando ao redor com um


ar sereno e desconfiado.

— Você parece... com alguém que eu conheci — ela disse, enfim. Sua voz era baixa,
mas clara, firme.

Algo em mim estremeceu.

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— E você também. — As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las.

Um silêncio denso se instalou entre nós, carregado de perguntas sem forma. Ela se
sentou ao meu lado, mas mantendo uma distância segura, como se respeitasse não
apenas o espaço físico, mas algo mais profundo: um limite emocional.

— Qual seu nome? — perguntei.

— Sakura — ela respondeu.


E pela primeira vez, vi um traço de vulnerabilidade em seu rosto.

Sakura.
O nome ficou flutuando em mim como uma nota musical que eu já tivesse ouvido
antes, em outro tempo, outro lugar.

Ela não disse por que me seguiu. E eu não perguntei mais. Porque... de algum
modo, não era necessário.

Duas estranhas, unidas por algo invisível.


Talvez por fios partidos.
Talvez por sangue.
Ou talvez, apenas... por algo que ainda não sabíamos nomear.

E mesmo que o silêncio reinasse ali entre nós, naquela clareira cercada de folhas
douradas, havia algo pulsando embaixo de tudo aquilo.

Como uma raiz antiga.

Como uma conexão que ainda floresceria.

...
O silêncio entre nós era denso, como o ar antes de uma tempestade.

Eu fingia ler o grimório aberto no colo, mas cada célula do meu corpo estava atenta

51
à presença dela. Sakura. O nome ainda vibrava dentro de mim como uma lembrança
que eu não sabia se era minha.

Ela observava a clareira com olhos atentos, como se procurasse algo — ou alguém.
Não era ameaça o que eu sentia vindo dela. Mas havia algo... inquieto. Como se
estivéssemos à beira de descobrir uma verdade que nenhuma de nós queria ver por
inteiro.

— Você estuda na Torre? — perguntei, quebrando o silêncio.

Ela hesitou. Depois assentiu, quase imperceptível.

— Às vezes — disse, como se a resposta escondesse mais do que revelasse. —


Nem sempre nos mesmos lugares.

— Isso não faz sentido — falei, franzindo o cenho. — Eu... eu teria te visto antes.

— Talvez tenha visto — respondeu, olhando diretamente para mim. — E esqueceu.

Senti um arrepio na nuca. Não de medo. De familiaridade. Como quando ouvimos


um nome esquecido e ele ainda nos emociona.

— Por que me seguiu?

— Não sei — ela admitiu. — Só... senti que devia.

Olhei para ela com mais atenção. O contorno do rosto, o modo como ela se sentava,
até a forma de cruzar os braços — tudo lembrava algo em mim. Como se fosse uma
versão minha em outro reflexo, mais contido. Mais... afiado.

— Você parece comigo.

— E isso te incomoda?

Pensei antes de responder.

52
— Me desconcerta.

Sakura assentiu, quase como se estivesse esperando essa resposta.

— Você... — comecei, e parei. — Já sonhou com alguém que parece você, mas não
é você?

Ela não respondeu de imediato, mas o jeito que desviou o olhar denunciava a
resposta.

— Sim — disse por fim. — Sonhos em que estou em outro corpo. Em outro tempo.
Mas sempre com a mesma sensação: algo que me falta. Ou que eu deixei para trás.

Ficamos em silêncio por um tempo. As folhas dançavam no alto das árvores e uma
luz filtrada pelo dossel deixava o chão da floresta salpicado de dourado. Um feitiço
natural, antigo. A própria floresta parecia ouvir.

— Talvez a gente tenha sido algo, em algum lugar — falei, mais pra mim do que pra
ela.

Sakura fechou os olhos. Respirou fundo.

— Ou talvez sejamos agora — ela disse. — Mas ainda não sabemos o quê.

Ela se levantou lentamente, alisando a saia. Me lançou um último olhar — um olhar


cheio de significados não ditos.

— Eu vou voltar, depois…— prometeu.

E então desapareceu entre as árvores como se tivesse vindo de lá.

Fiquei sentada, olhando para o espaço que ela deixara para trás. Meus dedos
tocaram a borda do grimório ainda aberto, mas as palavras pareciam irrelevantes
agora.

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Algo havia começado naquele encontro. Algo que não tinha nome. Mas que, como
tudo em minha vida ultimamente... pulsava como magia silenciosa sob a pele.

O silêncio entre nós era denso, como o ar antes de uma tempestade.

Eu fingia ler o grimório aberto no colo, mas cada célula do meu corpo estava atenta
à presença dela. Sakura. O nome ainda vibrava dentro de mim como uma lembrança
que eu não sabia se era minha.

Ela observava a clareira com olhos atentos, como se procurasse algo — ou alguém.
Não era ameaça o que eu sentia vindo dela. Mas havia algo... inquieto. Como se
estivéssemos à beira de descobrir uma verdade que nenhuma de nós queria ver por
inteiro.

— Você estuda na Torre? — perguntei, quebrando o silêncio.

Ela hesitou. Depois assentiu, quase imperceptível.

— Às vezes — disse, como se a resposta escondesse mais do que revelasse. —


Nem sempre nos mesmos lugares.

— Isso não faz sentido — falei, franzindo o cenho. — Eu... eu teria te visto antes.

— Talvez tenha visto — respondeu, olhando diretamente para mim. — E esqueceu.

Senti um arrepio na nuca. Não de medo. De familiaridade. Como quando ouvimos


um nome esquecido e ele ainda nos emociona.

— Por que me seguiu?

— Não sei — ela admitiu. — Só... senti que devia.

Olhei para ela com mais atenção. O contorno do rosto, o modo como ela se sentava,
até a forma de cruzar os braços — tudo lembrava algo em mim. Como se fosse uma

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versão minha em outro reflexo, mais contido. Mais... afiado.

— Você parece comigo.

— E isso te incomoda?

Pensei antes de responder.

— Me desconcerta.

Sakura assentiu, quase como se estivesse esperando essa resposta.

— Você... — comecei, e parei. — Já sonhou com alguém que parece você, mas não
é você?

Ela não respondeu de imediato, mas o jeito que desviou o olhar denunciava a
resposta.

— Sim — disse por fim. — Sonhos em que estou em outro corpo. Em outro tempo.
Mas sempre com a mesma sensação: algo que me falta. Ou que eu deixei para trás.

Ficamos em silêncio por um tempo. As folhas dançavam no alto das árvores e uma
luz filtrada pelo dossel deixava o chão da floresta salpicado de dourado. Um feitiço
natural, antigo. A própria floresta parecia ouvir.

— Talvez a gente tenha sido algo, em algum lugar — falei, mais pra mim do que pra
ela.

Sakura fechou os olhos. Respirou fundo.

— Ou talvez sejamos agora — ela disse. — Mas ainda não sabemos o quê.

Ela se levantou lentamente, alisando a saia. Me lançou um último olhar — um olhar


cheio de significados não ditos.

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— Eu volto — prometeu.

E então desapareceu entre as árvores como se tivesse vindo de lá.

Fiquei sentada, olhando para o espaço que ela deixara para trás. Meus dedos
tocaram a borda do grimório ainda aberto, mas as palavras pareciam irrelevantes
agora.

Algo havia começado naquele encontro. Algo que não tinha nome. Mas que, como
tudo em minha vida ultimamente... pulsava como magia silenciosa sob a pele.

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Capítulo Nove – Entre Cartas e Pétalas

Depois que Sakura desapareceu entre as árvores, fiquei mais um tempo ali,
tentando entender o que havia acabado de acontecer. Mas as respostas não vinham
— e a floresta, como sempre, não entregava nada de graça.
O sol já começava a subir no céu quando resolvi voltar. O caminho até o dormitório
foi tranquilo, mas minha mente permanecia inquieta. Ainda sentia o peso estranho do
olhar da garota, como se uma parte minha tivesse sido arrancada e devolvida de
forma invertida.

Ao entrar no quarto, fui recebida por algo inesperado.

Sobre a cama, havia duas cartas. Uma delas com o selo oficial da Torre de
Engenharia Arcana — dourado e impecável. A outra... sem selo. Um envelope
simples, dobrado com cuidado.

Senti o coração acelerar. Algo me dizia que elas carregavam direções opostas.

Deixei ambas sobre a mesa, respirei fundo e fui até o banheiro. Precisava de um
banho — para despertar, para esfriar as emoções, para voltar a mim.

A água quente caiu sobre meus ombros como um alívio silencioso. Fechei os olhos.
Pensei em Sakura. Em Darian. Em flores que não mentem.

Quando voltei, vesti uma roupa leve e confortável, os cabelos ainda úmidos
escorrendo pelas costas. Me sentei à mesa e, com os dedos um pouco trêmulos,
abri primeiro a carta oficial.

O papel era grosso, perfumado levemente com essência de flor-de-lótus. A caligrafia


impecável e mágica se escreveu sozinha quando toquei a borda inferior:

Torre de Engenharia Arcana — Comunicado Oficial


Prezada aluna Lyra Aetherfield,

É com honra que informamos sua seleção para representar a Torre de Engenharia
57
Arcana no Grande Banquete de Aniversário da Coroa, que ocorrerá em celebração
ao 214º aniversário do Reino de Ellyndor.

Este evento, realizado anualmente, conta com a presença das casas nobres,
autoridades mágicas e acadêmicas, bem como representantes das instituições de
maior prestígio de todo o continente.

Foram escolhidos, entre todos os estudantes da Torre, os alunos que demonstraram


não apenas excelência acadêmica, mas também comprometimento, criatividade e
potencial mágico.

Sua presença foi solicitada não apenas como estudante, mas como embaixadora do
espírito inovador e sensível da Engenharia Arcana.

Conforme tradição, os selecionados deverão comparecer devidamente trajados para


a ocasião.

As vestes serão fornecidas pela Torre, por meio de parceria com ateliês encantados.
Para isso, haverá um encontro oficial com todos os alunos escolhidos, onde ocorrerá
a prova de vestuário cerimonial e a formação dos pares que representarão a Torre
no evento.

Informações detalhadas sobre datas, locais e instruções serão enviadas


posteriormente por via mágica.

Contamos com sua presença, elegância e responsabilidade.

Atenciosamente,
Conselho Administrativo da Torre de Engenharia Arcana
— “Saber com alma, criar com propósito.”

Lyra leu até o fim com os olhos arregalados. Ficou um momento parada, absorvendo
as palavras. Um sorriso cresceu lentamente em seus lábios — um sorriso surpreso,
meio tímido, meio maravilhado. Ela não esperava aquilo. Não realmente.
Representar a Torre. No Banquete do Reino. Com direito a trajes, pares... e todo
58
aquele brilho cerimonial que ela sempre considerara distante demais da sua
realidade.

Respirou fundo e pegou o segundo envelope. O simples.

O que não tinha selo. Mas que, só pelo cuidado com a dobra e pela leveza do papel,
já dizia mais que qualquer brasão.

Ela deslizou os dedos com delicadeza e retirou o bilhete.

A caligrafia era inclinada, solta, quase como se as palavras tivessem sido escritas
enquanto o autor pensava nelas em voz baixa:

“Para a flor que desabrocha em silêncio.


A rosa apareceu de novo.

Você sabe qual.


Aquela que brota entre lírios vermelhos e não teme ser vista.
A que fala por você antes que você decida falar.

Gostaria de vê-la de novo.


Gostaria de te ver também.

Se puder, venha até a estufa ao entardecer.


Prometo não tocar nas pétalas,
mas talvez... conversar com elas.

— Dar”

O coração de Lyra bateu forte. O bilhete parecia ecoar direto da lembrança da noite
anterior — da pulseira, das flores, do campo encantado. De tudo o que não foi dito,
mas estava lá, pulsando sob a superfície.
Ela encostou o bilhete no peito por um instante, sentindo a vibração das palavras.

Do lado, a carta oficial ainda cintilava sobre a mesa.

59
Duas cartas. Duas direções.

Mas, de alguma forma, tudo parecia entrelaçado.

E ela... estava pronta para seguir as raízes.

Saí do dormitório com passos rápidos, mas não cheguei longe. O reflexo em uma
das janelas altas da Torre me fez parar. A túnica clara ainda grudava levemente no
corpo úmido do banho, e os cachos soltos, molhados, pesavam nos ombros.
Suspirei, voltando para o quarto. Não queria me apresentar diante dele assim — não
quando algo em mim pedia mais.
Fechei a porta atrás de mim, encostei o embrulho sobre a cama e me aproximei do
armário. Meus olhos percorreram as roupas simples que tinha, até que os dedos
encontraram um vestido de tecido leve, em tons azul-escuros com pequenos
bordados prateados. Nunca o usava. Talvez porque parecia... expor demais quem eu
era. Mas hoje, sem que eu entendesse por quê, parecia a escolha certa.

Vesti-o com cuidado. O tecido caía fluido, acompanhando meus movimentos como
água, e o contraste com minha pele trazia uma estranheza doce, quase como se eu
estivesse me vendo pela primeira vez.

Fui até a escrivaninha e peguei o pequeno frasco de óleo perfumado. Esfreguei-o


nas palmas e deslizei delicadamente pelos fios ainda úmidos, amassando os cachos.
Eles começaram a ganhar forma, mas a umidade ainda os deixava pesados.

Abri a mão e evoquei uma pequena chama dançante, flutuando logo acima da pele.
Aproximei-a dos fios com cuidado. O calor suave espalhou-se, secando os cachos
mecha por mecha. O vapor se dissipava no ar, e com ele parecia sumir também
parte da hesitação que me prendia. A chama refletia em meus olhos no espelho,
fazendo-os cintilar de vermelho e dourado, como se houvesse um segredo
escondido ali.

Quando terminei, apaguei a chama com um sopro. Os cachos estavam agora soltos,
definidos, vivos — livres das tranças que sempre os aprisionavam. Toquei-os com a
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ponta dos dedos, estranhando a sensação de vulnerabilidade que vinham junto, mas
sem vontade de prendê-los de novo.

Peguei o embrulho com o presente, segurei-o contra o peito e encarei meu reflexo
pela última vez. O vestido azul, os cabelos cacheados caindo em ondas, o brilho
discreto da chama que ainda parecia arder em mim.

Era eu. Sem amarras.

Respirei fundo, abri a porta e caminhei pelos corredores em direção à estufa.

Dessa vez, não hesitaria.

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