1.
CATARATA
## Definição
Opacificação parcial ou total do cristalino, causando redução progressiva da acuidade visual. É a
principal causa de cegueira tratável no mundo.
## Anatomia
O cristalino é uma lente biconvexa transparente localizada atrás da íris e à frente do vítreo, suspensa
pelas fibras zonulares ligadas ao corpo ciliar.
## Estrutura
* Núcleo
* Córtex
* Cápsula anterior e posterior
## Função
* Refração da luz para focalização na retina
* Acomodação visual (visão de perto e longe)
## Tipos
### Pela idade
* Senil
* Congênita
### Pela localização
* Nuclear
* Cortical
* Subcapsular anterior
* Subcapsular posterior
## Como se desenvolve (Fisiopatologia)
Envelhecimento e estresse oxidativo promovem desnaturação proteica e formação de proteínas
insolúveis que dispersam a luz, causando opacidade do cristalino.
## Como as estruturas são afetadas
* Dispersão da luz
* Perda da transparência
* Alteração refracional
* Diminuição da focalização retiniana
## Classificação
### Nuclear
* Opacificação do núcleo
* Evolução lenta
* Miopia lenticular
### Cortical
* Opacidades radiais
* Hiperidratação cortical
* Deslumbramento importante
### Subcapsular Posterior
* Migração celular posterior
* Piora da visão próxima
* Localização no eixo visual
### Subcapsular Anterior
* Metaplasia fibrosa do epitélio anterior
## Maturidade
* Imatura: opacidade parcial
* Madura: opacidade total
* Hipermadura: contração capsular
* Morgagniana: liquefação cortical e afundamento do núcleo
## Morfologia
Aspecto esbranquiçado ou amarelado do cristalino com perda progressiva da transparência.
## Fatores de risco
* Idade avançada
* Diabetes
* Tabagismo
* Corticoides
* Radiação UV
* Trauma ocular
* Uveítes
## Quadro clínico
* Baixa visual progressiva
* Visão embaçada
* Deslumbramento
* Diplopia monocular
* Miopização
* Alteração da percepção das cores
## Exames
* Acuidade visual
* Biomicroscopia (lâmpada de fenda)
* Fundoscopia
* Reflexo vermelho alterado
* Ausência de defeito pupilar aferente
## Tratamento
Cirúrgico:
* Facoemulsificação (padrão-ouro)
* Extração extracapsular
* Extração intracapsular
* Implante de lente intraocular
## Indicação cirúrgica
* Limitação das atividades diárias
* Dificuldade para tratar outra doença ocular
* Motivo cosmético
# 2. DEGENERAÇÃO MACULAR RELACIONADA À IDADE (DMRI)
## Definição
Doença degenerativa da mácula associada ao envelhecimento, acometendo epitélio pigmentado da
retina e coroide. Principal causa de cegueira irreversível em idosos nos países desenvolvidos.
## Anatomia
Compromete:
* Mácula
* Fóvea
* Epitélio pigmentado da retina
* Membrana de Bruch
* Coroide
## Estrutura
A mácula é responsável pela visão central de alta resolução.
## Função
* Leitura
* Reconhecimento facial
* Visão detalhada
* Percepção fina das cores
## Tipos
### DMRI seca (não exsudativa)
90% dos casos.
### DMRI úmida (exsudativa)
10% dos casos, porém mais grave.
## Como se desenvolve
### Forma seca
Acúmulo de resíduos metabólicos formando drusas entre EPR e membrana de Bruch.
### Forma úmida
Neovascularização coroideana anormal com edema, exsudação e hemorragias.
## Como as estruturas são afetadas
* Degeneração dos fotorreceptores
* Atrofia do EPR
* Fibrose macular
* Perda da visão central
## Classificação
### Seca
* Drusas duras
* Drusas moles
* Atrofia geográfica
### Úmida
* Neovascularização coroideana
* Cicatriz fibrovascular
## Maturidade
Progressão:
1. Drusas
2. Atrofia do EPR
3. Neovascularização
4. Cicatriz macular
## Morfologia
### Seca
* Drusas amarelas
* Áreas atróficas
### Úmida
* Hemorragias
* Exsudatos
* Descolamento do EPR
## Fatores de risco
* Idade
* Tabagismo
* Genética
* Radiação UV
* Luz azul
* HAS
* Dislipidemia
* Obesidade
* Raça caucasiana
## Quadro clínico
### Forma seca
* Redução lenta da visão central
* Metamorfopsia
* Discromatopsia
### Forma úmida
* Perda visual súbita
* Escotoma central
* Metamorfopsia intensa
## Exames
* Grade de Amsler
* Fundoscopia
* Angiofluoresceinografia
* OCT (tomografia de coerência óptica)
## Tratamento
### Forma seca
* Controle de fatores de risco
* Óculos com filtro UV
* Acompanhamento
### Forma úmida
* Anti-VEGF intravítreo
* Fotocoagulação a laser
* Terapia fotodinâmica
## Indicação cirúrgica
Não existe cirurgia curativa clássica. Casos selecionados podem receber terapias invasivas para
neovascularização.
# 3. CERATOCONE
## Definição
Doença degenerativa progressiva da córnea que perde sua forma esférica e adquire formato cônico,
produzindo astigmatismo irregular.
## Anatomia
Compromete a córnea, especialmente sua região central e paracentral.
## Estrutura
Camadas da córnea:
* Epitélio
* Bowman
* Estroma
* Descemet
* Endotélio
## Função
Principal superfície refrativa do olho.
## Tipos
* Leve
* Moderado
* Grave
(Classificação baseada na topografia e espessura corneana)
## Como se desenvolve
Enfraquecimento das fibras colágenas provoca afinamento e protrusão da córnea.
## Como as estruturas são afetadas
* Afinamento estromal
* Aumento da curvatura
* Astigmatismo irregular
* Distorção óptica
## Classificação
Sistema de Amsler-Krumeich:
* Grau I
* Grau II
* Grau III
* Grau IV
## Maturidade
Progressão:
* Inicial
* Moderada
* Avançada
* Hidropsia corneana
## Morfologia
* Cone central ou inferior
* Afinamento corneano
* Estrias de Vogt
* Anel de Fleischer
## Fatores de risco
* História familiar
* Atopia
* Alergia ocular
* Coçar os olhos
* Uso prolongado de lentes de contato
* Síndrome de Down
## Quadro clínico
* Visão borrada
* Fotofobia
* Astigmatismo irregular
* Miopia progressiva
* Deslumbramento
* Edema corneano
## Exames
* Topografia corneana
* Ceratometria
* OCT de córnea
* Paquimetria
## Tratamento
* Óculos
* Lentes rígidas
* Crosslinking
* Anéis intracorneanos
* Transplante de córnea
## Indicação cirúrgica
* Progressão documentada
* Intolerância às lentes
* Afinamento grave
* Cicatriz corneana
* Perda visual importante
# 4. RETINOSE PIGMENTAR
## Definição
Grupo de doenças hereditárias degenerativas da retina caracterizadas por perda progressiva de
cones e bastonetes.
## Anatomia
Compromete:
* Retina periférica
* Bastonetes
* Cones
* Epitélio pigmentado
## Estrutura
Retina composta por células fotorreceptoras responsáveis pela conversão da luz em impulsos
nervosos.
## Função
* Visão noturna
* Visão periférica
* Visão central
* Percepção de cores
## Tipos
Segundo padrão hereditário:
* Autossômica dominante
* Autossômica recessiva
* Ligada ao X
## Como se desenvolve
Mutações genéticas causam morte progressiva dos fotorreceptores.
## Como as estruturas são afetadas
* Degeneração inicial dos bastonetes
* Posterior acometimento dos cones
* Redução progressiva do campo visual
## Classificação
* Típica
* Sindrômica (ex.: síndrome de Usher)
* Não sindrômica
## Maturidade
Progressão:
1. Nictalopia
2. Visão tubular
3. Perda da visão central
4. Cegueira
## Morfologia
Fundoscopia clássica:
* Pigmentação em espículas ósseas
* Atenuação vascular
* Palidez papilar
## Fatores de risco
Principal fator:
* Herança genética
## Quadro clínico
* Cegueira noturna
* Redução progressiva do campo visual
* Visão em túnel
* Fotopsias
* Discromatopsia
* Perda visual progressiva
## Exames
* Fundo de olho
* Campo visual
* Eletrorretinograma (ERG)
* OCT
* Teste genético
## Tratamento
Não existe tratamento curativo comprovado atualmente. Acompanhamento e reabilitação visual são
as principais medidas.
## Indicação cirúrgica
Não há cirurgia curativa estabelecida. Transplante de retina permanece experimental.
# 1. DESCOLAMENTO DE RETINA (DR)
## Definição
Separação da retina neurossensorial do epitélio pigmentado da retina (EPR), permitindo acúmulo de
líquido no espaço sub-retiniano. É causa importante de perda visual súbita.
## Anatomia
A retina está aderida principalmente em dois pontos:
* Ora serrata
* Disco óptico (papila)
## Estrutura
Retina composta por:
* Epitélio pigmentado da retina (EPR)
* Retina neurossensorial
* Cones
* Bastonetes
* Camadas neuronais
## Função
* Conversão da luz em impulsos nervosos
* Visão central e periférica
## Tipos
### Regmatogênico
Mais frequente. Decorre de ruptura retiniana.
### Tracional
Tração vítrea por membranas fibrovasculares.
### Exsudativo
Acúmulo de líquido sem ruptura retiniana.
## Como se desenvolve
### Regmatogênico
Rasgadura → entrada de humor vítreo → separação retiniana.
### Tracional
Membranas puxam a retina até descolá-la.
### Exsudativo
Extravasamento vascular coroideano.
## Como as estruturas são afetadas
Os fotorreceptores perdem contato com sua fonte nutricional coroideana, sofrendo dano isquêmico
progressivo.
## Classificação
* Regmatogênico
* Tracional
* Exsudativo
## Maturidade/Progressão
1. Rotura
2. Entrada de líquido
3. Descolamento periférico
4. Progressão para mácula
5. Perda visual importante
## Morfologia
Fundoscopia:
* Retina elevada
* Esbranquiçada
* Ondulante
* Móvel
* Com pregas
## Fatores de risco
* Miopia
* Trauma ocular
* Degenerações periféricas
* Afacia/pseudofacia
* DR prévio
* História familiar
* Descolamento posterior do vítreo
## Quadro clínico
### Sintomas iniciais
* Moscas volantes (miodesopsias)
* Fotopsias (flashes luminosos)
### Evolução
* "Cortina preta" periférica
* Perda progressiva do campo visual
* Baixa visual quando atinge mácula
## Exames
* Acuidade visual
* Fundoscopia
* Reflexo vermelho
* Avaliação pupilar
* Ultrassonografia ocular quando necessário
## Tratamento
* Encaminhamento imediato ao oftalmologista
* Laser para bloquear roturas
* Cirurgia retiniana
## Indicação cirúrgica
Praticamente todo DR confirmado necessita tratamento especializado urgente.
# 2. OCLUSÃO DA ARTÉRIA CENTRAL DA RETINA (OACR)
## Definição
Obstrução súbita da artéria central da retina, geralmente por êmbolo, causando infarto retiniano
agudo.
## Anatomia
A artéria central da retina irriga as camadas internas retinianas.
## Estrutura
Origina-se da artéria oftálmica.
## Função
Fornecer oxigênio e nutrientes à retina interna.
## Tipos
* Oclusão da artéria central
* Oclusão de ramo arterial
## Como se desenvolve
Êmbolo ou hipoperfusão interrompe o fluxo arterial → isquemia → necrose retiniana.
## Como as estruturas são afetadas
* Edema retiniano
* Necrose dos fotorreceptores
* Atrofia óptica secundária
## Classificação
### Embólica
Mais comum.
### Hipoperfusão
Hipotensão grave ou colapso circulatório.
## Maturidade/Progressão
1. Oclusão
2. Edema retiniano
3. Mancha vermelho-cereja
4. Atrofia óptica
## Morfologia
* Retina pálida
* Mancha vermelho-cereja
* Artérias afiladas
## Fatores de risco
* Aterosclerose
* Doença carotídea
* Fibrilação atrial
* Valvulopatias
* Arterite temporal
* Idade avançada
## Quadro clínico
* Perda visual súbita
* Indolor
* Unilateral
* Amaurose fugaz prévia pode ocorrer
## Exames
* Fundoscopia
* Campimetria
* Doppler carotídeo
* Ecocardiograma
* VHS/PCR quando suspeita de arterite temporal
## Tratamento
Emergência oftalmológica:
* Redução da PIO
* Massagem ocular
* Avaliação vascular sistêmica
* Controle dos fatores de risco
## Indicação cirúrgica
Não há cirurgia padrão específica.
# 3. HEMORRAGIA VÍTREA
## Definição
Presença de sangue na cavidade vítrea proveniente da retina, coroide ou corpo ciliar.
## Anatomia
Compromete o humor vítreo.
## Estrutura
Gel transparente composto principalmente por água e colágeno.
## Função
* Sustentação ocular
* Transparência óptica
## Tipos
* Pequena
* Moderada
* Maciça
## Como se desenvolve
Ruptura vascular → extravasamento sanguíneo → opacificação vítrea.
## Como as estruturas são afetadas
O sangue impede a passagem da luz até a retina.
## Classificação
Pode ser classificada conforme volume e etiologia.
## Morfologia
Visualização de sangue disperso no vítreo.
## Fatores de risco
* Trauma ocular
* Retinopatia diabética proliferativa
* Oclusão venosa retiniana
* Uveítes
* Tumores oculares
## Quadro clínico
* Mancha escura súbita
* Visão avermelhada
* Perda visual indolor
* Reflexo vermelho diminuído ou ausente
## Exames
* Fundoscopia
* Ultrassonografia ocular
* Acuidade visual
## Tratamento
* Repouso semissentado 45°
* Avaliação oftalmológica urgente
* Tratamento da causa de base
## Indicação cirúrgica
### Vitrectomia
Indicações:
* Hemorragia persistente
* Descolamento de retina associado
* Retinopatia diabética avançada
# 4. NEUROPATIA ÓPTICA ISQUÊMICA (NOI)
## Definição
Infarto do nervo óptico causado por obstrução das artérias que o irrigam.
## Anatomia
Compromete principalmente:
* Cabeça do nervo óptico
* Artérias ciliares posteriores curtas
## Estrutura
Feixes axonais que conduzem informação visual ao cérebro.
## Função
Transmissão dos impulsos visuais.
## Tipos
### Não arterítica
Mais comum.
### Arterítica
Relacionada à arterite temporal.
## Como se desenvolve
### Não arterítica
Hipoperfusão do nervo óptico.
### Arterítica
Vasculite inflamatória grave.
## Como as estruturas são afetadas
Isquemia → edema → morte axonal → atrofia óptica.
## Classificação
* Arterítica
* Não arterítica
## Morfologia
* Papila edemaciada
* Edema unilateral
## Fatores de risco
### Não arterítica
* DM
* HAS
* Tabagismo
* Aterosclerose
### Arterítica
* Idade >55 anos
* Arterite temporal
## Quadro clínico
* Perda visual súbita
* Indolor
* Unilateral
* Escotoma central ou altitudinal
* DPAR positivo
## Exames
* Fundoscopia
* Campimetria
* VHS
* PCR
* Biópsia da artéria temporal
## Tratamento
### Não arterítica
* Controle dos fatores de risco
* AAS 100 mg/dia
### Arterítica
* Metilprednisolona EV
* Prednisona oral prolongada
* Biópsia da temporal
## Indicação cirúrgica
Não possui tratamento cirúrgico específico.
# 5. NEURITE ÓPTICA
## Definição
Inflamação aguda do nervo óptico, geralmente desmielinizante, infecciosa ou idiopática.
## Anatomia
Compromete o nervo óptico.
## Estrutura
Feixes axonais mielinizados.
## Função
Condução visual entre retina e cérebro.
## Tipos
### Papilite (neurite anterior)
Compromete a cabeça do nervo óptico.
### Neurite retrobulbar
Compromete o nervo atrás da papila.
## Como se desenvolve
Inflamação → desmielinização → bloqueio da condução nervosa.
## Como as estruturas são afetadas
* Edema neural
* Lentificação da condução
* Alteração visual progressiva
## Classificação
* Papilite
* Retrobulbar
## Morfologia
### Papilite
* Papila hiperêmica e edemaciada
### Retrobulbar
* Fundo de olho normal
## Fatores de risco
* Esclerose múltipla
* Doenças autoimunes
* Infecções virais
## Quadro clínico
* Perda visual aguda
* Dor à movimentação ocular
* Escotoma central
* Discromatopsia vermelho-verde
## Exames
* Teste de Ishihara
* Campimetria
* Fundoscopia
* RM de encéfalo e órbitas
* Potenciais evocados visuais
## Tratamento
* Metilprednisolona EV 1 g/dia por 3 dias
* Prednisona oral subsequente
* Investigação de esclerose múltipla
## Indicação cirúrgica
Não possui indicação cirúrgica.
# GLAUCOMA
Antes de entrar nos tipos, é importante entender a base da doença.
# ANATOMIA E FISIOLOGIA ESSENCIAL
## Humor aquoso
É um líquido transparente produzido pelos processos ciliares. Possui pressão média de
aproximadamente 15 mmHg e é fundamental para manter a forma do globo ocular e nutrir
estruturas avasculares como córnea e cristalino.
## Trajeto do humor aquoso
Produção:
* Corpo ciliar
Fluxo:
* Câmara posterior
* Pupila
* Câmara anterior
Drenagem:
* Malha trabecular
* Canal de Schlemm
Se houver dificuldade de drenagem:
⬆ Pressão intraocular (PIO)
⬆ Compressão do nervo óptico
⬇ Campo visual
⬇ Visão
# DEFINIÇÃO DE GLAUCOMA
Grupo de neuropatias ópticas progressivas caracterizadas por:
* Dano irreversível do nervo óptico
* Escavação papilar progressiva
* Perda do campo visual
* Frequentemente associadas ao aumento da pressão intraocular (PIO)
# TEORIAS DA FISIOPATOLOGIA
## 1. Teoria mecânica
Aumento da pressão intraocular comprime diretamente as fibras nervosas do nervo óptico.
Consequências:
* Compressão axonal
* Isquemia local
* Apoptose das células ganglionares
## 2. Teoria vascular
Redução do fluxo sanguíneo para a papila óptica gera lesão isquêmica crônica do nervo óptico.
Importante:
Existem pacientes com glaucoma e PIO normal (glaucoma de pressão normal), sustentando essa
teoria.
# CLASSIFICAÇÃO GERAL
## Glaucoma Primário de Ângulo Aberto (GPAA)
Mais comum.
## Glaucoma Primário de Ângulo Fechado (GPAF)
Emergência oftalmológica.
## Glaucoma Congênito
Doença da infância.
# 1. GLAUCOMA PRIMÁRIO DE ÂNGULO ABERTO
## Definição
Neuropatia óptica crônica progressiva causada por dificuldade de drenagem do humor aquoso
através da malha trabecular, apesar do ângulo permanecer aberto.
## Anatomia afetada
* Malha trabecular
* Canal de Schlemm
* Papila óptica
* Células ganglionares da retina
## Estrutura comprometida
Principalmente:
* Sistema de drenagem trabecular
* Nervo óptico
## Função comprometida
* Drenagem do humor aquoso
* Condução visual
## Como se desenvolve
Deterioração lenta da drenagem trabecular:
↓ saída de humor aquoso
↑ pressão intraocular
↑ dano papilar
↓ campo visual
↓ visão permanente
## Como as estruturas são afetadas
### Papila
Escavação progressiva.
### Retina
Perda das células ganglionares.
### Campo visual
Escotomas progressivos.
## Classificação clínica
### Inicial
Escotomas discretos.
### Moderado
Defeitos periféricos evidentes.
### Avançado
Visão tubular.
### Terminal
Cegueira.
## Morfologia
Fundoscopia:
* Escavação aumentada
* Relação escavação/disco > 0,6
## Fatores de risco
### Fortemente associados
* História familiar
* Idade >40 anos
* Raça negra
* Miopia >5 dioptrias
* Uso crônico de corticoides
* Retinose pigmentária
* Oclusão venosa retiniana
* Descolamento de retina
## Quadro clínico
### Grande pegadinha de prova
**É assintomático por anos.**
Sintomas tardios:
* Visão embaçada
* Cefaleia
* Halos coloridos
* Perda periférica progressiva
* Visão em túnel
## Exames
### Tonometria
Normal:
10–20 mmHg
> 21 mmHg:
> Hipertensão ocular.
### Oftalmoscopia
Avalia papila.
### Gonioscopia
Mostra ângulo aberto.
### Campimetria
Exame mais importante para acompanhar progressão.
### OCT (informação complementar importante)
Avalia camada de fibras nervosas antes mesmo de alterações campimétricas.
## Tratamento
### Primeira linha
Análogos de prostaglandina:
* Latanoprosta
* Bimatoprosta
* Travoprosta
Aumentam drenagem uveoescleral.
### Outras opções
Betabloqueadores:
* Timolol
Alfa-agonistas:
* Brimonidina
Inibidores da anidrase carbônica:
* Dorzolamida
Pilocarpina:
* Uso menos frequente atualmente
## Indicação cirúrgica
Quando:
* Progressão apesar dos colírios
* Intolerância medicamentosa
* PIO fora da meta
Cirurgias:
* Trabeculectomia
* Implantes de drenagem
* MIGS (cirurgias minimamente invasivas)
# 2. GLAUCOMA PRIMÁRIO DE ÂNGULO FECHADO
## Definição
Bloqueio súbito do ângulo iridocorneano pela raiz da íris, impedindo drenagem do humor aquoso.
Emergência médica.
## Anatomia
* Íris
* Malha trabecular
* Canal de Schlemm
## Como se desenvolve
Íris encosta na córnea:
↓ drenagem
↑ PIO abruptamente
45–60 mmHg
↓ perfusão do nervo óptico
↓ perda visual rápida
## Morfologia
* Câmara anterior rasa
* Midríase fixa
* Ângulo fechado
* Escavação papilar aumentada
## Fatores de risco
* Mulher
* > 60 anos
* Hipermetropia
* História familiar
* Raça branca
## Quadro clínico
### Clássico de prova
* Dor ocular intensa
* Olho vermelho
* Baixa visual súbita
* Halos coloridos
* Náuseas
* Vômitos
* Lacrimejamento
* Blefaroespasmo
## Exames
* Tonometria
* Gonioscopia
* Oftalmoscopia
* Campimetria
## Tratamento
### Emergência
Pilocarpina 2%
Timolol 0,5%
Acetazolamida EV
Manitol EV
## Tratamento definitivo
### Iridotomia a laser
Padrão-ouro.
### Iridoplastia
Alternativa complementar.
# 3. GLAUCOMA CONGÊNITO
## Definição
Anomalia congênita da malha trabecular que impede drenagem adequada do humor aquoso desde o
nascimento.
## Anatomia
* Malha trabecular
* Canal de Schlemm
## Estrutura afetada
Sistema de drenagem ocular.
## Como se desenvolve
Malformação trabecular:
↓ drenagem
↑ PIO
↑ aumento do globo ocular infantil
## Morfologia
### Búftalmo
Aumento do globo ocular.
### Megalocórnea
Diâmetro >12 mm.
### Opacidade corneana
Por edema.
## Fatores de risco
* Herança autossômica recessiva
* Sexo masculino
* História familiar
## Quadro clínico
### Tríade clássica de prova
1. Fotofobia
2. Lacrimejamento
3. Blefaroespasmo
## Exames
* Tonometria
* Gonioscopia
* Avaliação do diâmetro corneano
## Tratamento
Encaminhamento urgente.
## Indicação cirúrgica
Praticamente todos os casos.
### Cirurgias
* Trabeculotomia
* Goniotomia
* Trabeculectomia pediátrica
# PULOS DO GATO PARA PROVA
### Glaucoma de ângulo aberto
* Mais comum (60–70%)
* Crônico
* Indolor
* Assintomático
* Visão em túnel tardia
### Glaucoma de ângulo fechado
* Emergência oftalmológica
* Dor intensa
* Náuseas e vômitos
* Midríase fixa
* PIO muito elevada (45–60 mmHg)
### Glaucoma congênito
* Fotofobia + lacrimejamento + blefaroespasmo
* Megalocórnea
* Búftalmo
APARELHO LAGRIMAL
Definição
O aparelho lacrimal é responsável pela produção, distribuição e drenagem das lágrimas. Divide-se
em:
Sistema secretor → produção lacrimal
Sistema excretor → drenagem lacrimal
ANATOMIA
Sistema Secretor
Composto por:
Glândula lacrimal principal
Glândulas acessórias de Krause e Wolfring
Localização
A glândula lacrimal principal localiza-se:
Quadrante superolateral da órbita
Fossa lacrimal do osso frontal
Irrigação
Artéria lacrimal (ramo da artéria oftálmica)
Inervação
Parassimpática → nervo facial
Sensitiva → nervo lacrimal (V1)
Simpática → plexo carotídeo
Sistema Excretor
Composto por:
Pontos lacrimais
Canalículos lacrimais
Saco lacrimal
Ducto nasolacrimal
Drenagem
Lágrima: Olho → ponto lacrimal → canalículo → saco lacrimal → ducto nasolacrimal → meato
inferior nasal
FUNÇÃO
Filme lacrimal
Possui três camadas:
Camada Origem Função
Lipídica Glândulas de Meibômio Evita evaporação
Aquosa Glândula lacrimal Nutrição e defesa
Mucosa Células caliciformes Aderência ao epitélio
TIPOS DE LÁGRIMAS
Basal
Produzida continuamente.
Reflexa
Produzida por estímulos dolorosos, irritativos ou emocionais.
CANALICULITE
DEFINIÇÃO
Inflamação/infecção do canalículo lacrimal.
Frequentemente associada a:
conjuntivites recorrentes
epífora persistente
ANATOMIA ENVOLVIDA
Canalículos lacrimais
Estruturas finas que conectam os pontos lacrimais ao saco lacrimal.
Relações anatômicas
Medial às pálpebras
Próximos ao canto medial
Revestidos por epitélio escamoso estratificado
FISIOPATOLOGIA
Canalículo normal ↓ Colonização bacteriana/fúngica ↓ Inflamação local ↓ Edema + obstrução ↓
Acúmulo de secreção ↓ Conjuntivite recorrente e epífora
AGENTES ETIOLÓGICOS
Principal:
Actinomyces israelii
Outros:
Candida albicans
Aspergillus
Nocardia
Herpes simples
COMO AS ESTRUTURAS SÃO AFETADAS
Tecidos
Inflamação crônica
Fibrose canalicular
Vasos
Vasodilatação local
Eritema
Glândulas
Alteração do escoamento lacrimal
EPIDEMIOLOGIA
Mais comum:
Adultos
Mulheres
Pacientes com obstrução lacrimal crônica
QUADRO CLÍNICO
Sintomas
Dor no canto medial
Epífora
Sensação de corpo estranho
Sinais
Eritema
Tumefação do ponto lacrimal
Secreção ao comprimir canalículo
PULOS DO GATO PARA PROVA
Canaliculite + concreções + secreção = pensar em Actinomyces
Confunde facilmente com conjuntivite crônica
Expressão de secreção pelo ponto lacrimal é clássico
EXAMES
Compressão do saco lacrimal
Avalia saída de secreção.
Cultura e Gram
Identifica agente.
Dacriocistografia
Avalia dilatação canalicular.
Sondagem/Irrigação
Avalia permeabilidade.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Conjuntivite
Dacriocistite
Carunculite
Obstrução do ducto lacrimal
TRATAMENTO
Medidas gerais
Compressas mornas
Procedimentos
Marsupialização canalicular
Tratamento medicamentoso
Fármaco Mecanismo Dose Via Observações
Penicilina V Anti-Actinomyces 500 mg 6/6h VO 7 dias
Fluconazol Antifúngico 600 mg/dia VO Candida
Itraconazol Antifúngico 200 mg 12/12h VO Aspergillus
TMP-SMX Antibacteriano Dose dupla diária VO Nocardia
Trifluridina Antiviral 0,1% Tópico HSV
COMPLICAÇÕES
Precoces
Abscesso
Tardias
Fibrose
Obstrução permanente
PROGNÓSTICO
Bom quando tratado precocemente.
RESUMO DE 30 SEGUNDOS — CANALICULITE
Inflamação do canalículo lacrimal
Actinomyces é o principal agente
Epífora + secreção pelo ponto lacrimal
Diagnóstico clínico
Tratamento: compressa + antibiótico + marsupialização
OBSTRUÇÃO DA VIA LACRIMAL
DEFINIÇÃO
Bloqueio parcial ou total do sistema de drenagem lacrimal.
CLASSIFICAÇÃO
Por localização
Estenose do ponto lacrimal
Obstrução canalicular
Obstrução do ducto nasolacrimal
Por origem
Congênita
Adquirida
ANATOMIA
Válvula de Hasner
Localizada:
extremidade distal do ducto nasolacrimal
meato inferior nasal
Importante na forma congênita.
FISIOPATOLOGIA
Congênita
Membrana imperfurada na válvula de Hasner ↓ Falha de drenagem ↓ Acúmulo lacrimal ↓ Epífora
↓ Infecção secundária
TIPOS
Congênita
Bilateral frequentemente
Pode resolver espontaneamente em 1–2 meses
Adquirida
Associada a:
sinusite
trauma
dacriocistite
neoplasias
sarcoidose
granulomatose de Wegener
QUADRO CLÍNICO
Sintomas
Epífora
Secreção
Crostas palpebrais
Sinais
Eritema medial
Conjuntivite recorrente
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Outras causas de epífora:
glaucoma congênito
conjuntivite
ceratite
paralisia facial
entrópio
ectrópio
EXAMES
Teste de fluoresceína
Retenção indica obstrução.
Irrigação lacrimal
Avalia permeabilidade.
Dacriocistografia
Mostra local da obstrução
TRATAMENTO
Congênita
Medidas gerais
Massagem de Crigler
Cirúrgico
Sondagem após 12–13 meses
Dacrioplastia com balão
Intubação com silicone
Adquirida
Fármaco Mecanismo Dose Via Observações
Neomicina Antibiótico 4x/dia Tópico Obstrução parcial
Dexametasona Anti-inflamatório 4x/dia Tópico Associada
PULOS DO GATO PARA PROVA
RN com epífora persistente → obstrução congênita
Tratamento inicial = massagem de Crigler
Sondagem só após falha da resolução espontânea
COMPLICAÇÕES
Dacriocistite
Celulite orbitária
Fibrose canalicular
RESUMO DE 30 SEGUNDOS — OBSTRUÇÃO DA VIA LACRIMAL
Principal causa de epífora crônica
Congênita: válvula de Hasner imperfurada
Tratamento inicial = massagem
Sondagem se persistente
DACRIOCISTITE AGUDA
DEFINIÇÃO
Infecção do saco lacrimal secundária à obstrução do ducto nasolacrimal.
ANATOMIA
Saco lacrimal
Localiza-se:
fossa lacrimal
medial à órbita
anterior ao septo orbitário
FISIOPATOLOGIA
Obstrução do ducto ↓ Estase lacrimal ↓ Proliferação bacteriana ↓ Inflamação do saco ↓ Abscesso
↓ Celulite orbitária
AGENTES ETIOLÓGICOS
Principais:
Staphylococcus aureus
Streptococcus beta-hemolítico
QUADRO CLÍNICO
Sintomas
Dor
Epífora
Secreção
Sinais
Tumoração dolorosa no canto medial
Eritema
Material purulento à compressão
EMERGÊNCIA
Sinais de gravidade:
Febre
Proptose
Restrição ocular
Dor intensa
Baixa visual
→ suspeitar celulite orbitária
EXAMES
Cultura
Importante em casos recorrentes.
TC de órbita
Se suspeita de complicação orbitária.
TRATAMENTO
FASE AGUDA
Fármaco Dose Via Observações
Amoxicilina-clavulanato 500 mg 8/8h VO 10 dias
Ampicilina-sulbactam 15–30 mg/kg 6/6h IV Casos graves
TMP-SMX 12/12h VO Alternativa
Eritromicina 12/12h Tópico Se conjuntivite
PROCEDIMENTOS
Aspiração
Incisão e drenagem do abscesso
FASE CRÔNICA
Cultura
Dacriocistorrinostomia
CIRURGIAS
Dacriocistectomia
Retirada do saco lacrimal.
Dacriocistorrinostomia
Cria nova drenagem entre saco lacrimal e cavidade nasal.
PULOS DO GATO PARA PROVA
Massa dolorosa no canto medial = dacriocistite
NÃO comprimir vigorosamente se abscesso importante
DCR é tratamento definitivo
COMPLICAÇÕES
Precoces
Abscesso
Celulite orbitária
Tardias
Fístula lacrimal
Fibrose
RESUMO DE 30 SEGUNDOS — DACRIOCISTITE
Infecção do saco lacrimal
Associada à obstrução do ducto
Dor + eritema + secreção purulenta
Tratamento antibiótico
DCR resolve definitivamente
DACRIOADENITE
DEFINIÇÃO
Inflamação da glândula lacrimal.
ANATOMIA
Glândula lacrimal
Localização:
superolateral da órbita
dividida em lobo orbital e palpebral
CLASSIFICAÇÃO
Aguda
Geralmente infecciosa.
Crônica
Mais associada a doenças inflamatórias sistêmicas.
ETIOLOGIAS
Aguda
Staphylococcus
Caxumba
Epstein-Barr
Herpes zoster
Gonococo
Crônica
Sarcoidose
Sjögren
Oftalmopatia tireoidiana
Tuberculose
Sífilis
FISIOPATOLOGIA
Infecção/inflamação ↓ Edema glandular ↓ Compressão orbitária ↓ Deslocamento ocular ↓
Restrição motora
QUADRO CLÍNICO
Aguda
Dor
Febre
Edema
Eritema temporal
Adenopatia pré-auricular
Crônica
Tumefação
Restrição ocular
Deformidade palpebral em “S”
PULO DO GATO PARA PROVA
Ptose em “S” é clássico de dacrioadenite
Dor superolateral sugere acometimento da glândula lacrimal
EXAMES
TC/RM de órbita
Avalia:
extensão
abscesso
tumor diferencial
Sorologias
Quando suspeita sistêmica.
TRATAMENTO
Etiologia Tratamento
HSV/VZV Aciclovir 800 mg 5x/dia
Bacteriana Amox-clav
Grave Ampicilina-sulbactam IV
Gonococo Ceftriaxona IV
Tuberculose RIPE
Sífilis Penicilina G cristalina
COMPLICAÇÕES
Celulite orbitária
Abscesso
Restrição ocular permanente
PROGNÓSTICO
Bom na forma infecciosa tratada precocemente.
RESUMO DE 30 SEGUNDOS — DACRIOADENITE
Inflamação da glândula lacrimal
Dor superolateral + ptose em “S”
Aguda geralmente infecciosa
Crônica ligada a doenças sistêmicas
MACETES DE MEMORIZAÇÃO
Canaliculite
“CANAL com concreções = Actinomyces”
Dacriocistite
“CISTO doloroso medial”
Dacrioadenite
“ADEN = glândula aumentada”
Obstrução congênita
“Hasner fechada = bebê chorando”
ERROS QUE NÃO PODEM SER COMETIDOS
Confundir canaliculite com conjuntivite simples
Ignorar epífora crônica unilateral
Não investigar causas sistêmicas na dacrioadenite crônica
Atrasar drenagem em abscesso lacrimal
ACHADOS CLÁSSICOS DE PROVA
Achado Diagnóstico
Ptose em “S” Dacrioadenite
Secreção ao comprimir ponto lacrimal Canaliculite
Epífora neonatal Obstrução congênita
Massa dolorosa medial Dacriocistite