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DIÁRIO DE UMA FAVELADA: A PESQUISA NARRATIVA
Este trabalho tem como base analítica a obra “Quarto de Despejo: Diário de uma
Favelada”, escrita por Carolina Maria de Jesus entre os anos de 1955 e 1960, na cidade
de São Paulo. Utilizou-se, para a análise, a décima edição da obra, publicada pela Editora
Ática em 2019.
A pesquisa está ancorada em um referencial teórico e epistemológico marxista,
especialmente a partir da concepção de espaço social desenvolvida por Henri Lefebvre
(1991) e da visão de literatura como produção social de Antonio Candido (2004).
Esses autores nos ajudam a entender que tanto o espaço quanto a literatura não são
neutros. São construções sociais que expressam as contradições do mundo, especialmente
quando observadas sob a ótica dos grupos marginalizados.
Assim, a narrativa de Carolina Maria de Jesus é lida a partir de uma perspectiva dialética,
que nos permite compreender as tensões entre o sujeito e o espaço que o cerca — ou seja,
como a favela e a cidade se refletem na sua vida, e vice-versa.
O conceito de vida social organizada aparece como uma chave para entender como a
autora interage com esse espaço urbano. A organização social, nesse caso, está fortemente
atravessada por elementos como raça, classe, gênero e território.
No que se refere ao método, os autores optaram pela pesquisa narrativa de abordagem
qualitativa, por entenderem que esse caminho permite uma escuta mais sensível e
profunda das experiências de vida e das visões de mundo narradas.
De acordo com Merriam (2002), esse tipo de abordagem busca compreender fenômenos
a partir das experiências dos sujeitos. E, segundo Alencar (1999), é especialmente eficaz
para captar os sentidos atribuídos às vivências narradas.
Utiliza-se a narrativa como unidade de análise, como propõem Lieblich, Tuval-
Mashiach & Zilber (1998). Isso significa que a trajetória de vida da autora é interpretada
não apenas como experiência individual, mas como representação coletiva de um grupo
social.
Saraiva (2021) destaca que vivemos em uma sociedade onde a narrativa ocupa um lugar
central na organização dos discursos. E como mostram Saraiva & Carrieri (2012), os
grupos sociais disputam esses discursos que, por sua vez, moldam a memória coletiva.
À medida que essas histórias pessoais se acumulam, surge uma rede de significados
compartilhados, que nos permite entender como experiências individuais revelam
dinâmicas sociais mais amplas.
Neste artigo, foi adotada uma pesquisa narrativa do tipo autobiográfica, já que a forma
literária de Quarto de Despejo é o diário íntimo da autora. Isso nos remete aos gêneros
do testemunho e da memória, como argumenta Sousa (2011).
Embora haja críticas quanto ao uso de narrativas autobiográficas — como as de Stanfiel
(1987), que questiona a seletividade da memória e possíveis omissões — Sousa nos
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lembra que a memória mistura vivido e imaginado. Assim, entre o real e o ficcional, se
revela como o “eu” reage ao mundo e como o mundo reage ao “eu”.
A análise narrativa foi feita por meio da leitura holística de conteúdo, também baseada
na proposta de Lieblich et al. (1998). Ou seja, não se trata apenas de interpretar trechos
isolados, mas de entender a narrativa como um todo — sua coerência, suas emoções, seus
temas recorrentes.
Por fim, a análise da obra se estrutura em quatro dimensões analíticas principais:
(i) Segregação socioespacial
(ii) Classe social
(iii) Raça
(iv) Gênero
Essas categorias foram fundamentais para compreender a complexidade da experiência
de Carolina Maria de Jesus. E é importante lembrar que, como aponta Angela Davis
(2016), essas dimensões não se separam: são indissociáveis e operam simultaneamente
na vida das mulheres negras.
RAÇA E GÊNERO
A cidade é um espaço socialmente construído, e essa construção não é neutra. Ela se
organiza de maneira desigual, afetando de forma distinta os sujeitos que nela vivem.
Elementos como raça e gênero complexificam ainda mais essa vivência urbana.
Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra, favelada, escritora e mãe solo, traz em seus
diários uma percepção crítica sobre essas desigualdades. Mesmo sem escrever de forma
teórica sobre racismo ou feminismo, seus relatos mostram como essas opressões estavam
entranhadas em seu cotidiano.
Ela percebia que o corpo negro não tinha liberdade para circular em qualquer parte da
cidade. Em um trecho, ela relata:
“Quando eu passava perto do campo do São Paulo, várias pessoas saíam
do campo. Todas brancas, só um preto.”
(17/07/1955 – Jesus, 2019, p. 14)
A exclusão também aparece em casos de violência naturalizada contra pessoas negras.
Ela conta sobre a morte de um jovem negro:
“No outro dia encontraram o pretinho morto. (...) Foi sepultado como um
Zé qualquer. Ninguém procurou saber seu nome. Marginal não tem
nome.”
(21/05/1958 – Jesus, 2019, p. 39-40)
A favela, espaço em que vivia, era vista como lugar de marginalidade. Isso aparece em
uma crítica direta:
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“Gente da favela é considerado marginais. (...) Os homens desempregados
substituíram os corvos.”
(07/06/1958 – Jesus, 2019, p. 54)
A discriminação racial também atinge as crianças:
“Chegou a Rádio Patrulha, que veio trazendo dois negrinhos que estavam
vagando pela Estação da Luz... São os mais maltrapilhos da cidade.”
(27/05/1958 – Jesus, 2019, p. 45)
Carolina percebe e questiona, com ironia e inteligência, a supremacia branca nas relações
de poder:
“Deus criou todas as raças na mesma época. Se criasse os negros e depois
dos brancos, aí os brancos podia revoltar-se.”
(20/09/1958 – Jesus, 2019, p. 122)
O racismo que ela denuncia é estrutural, como bem define Silvio Almeida — um sistema
que se manifesta de maneira naturalizada nas relações sociais e na organização da cidade.
Mas não é só o racismo que está presente em sua escrita. Carolina também relata com
muita força a opressão de gênero que vivia. Como mulher negra e pobre, enfrentava o
abandono paterno, as dificuldades da maternidade solo e a violência simbólica e física.
Ela relata episódios de investidas sexuais e a ausência de afeto nas relações com homens:
“Gino veio dizer-me para eu ir no quarto dele.”
(27/07/1958 – Jesus, 2019, p. 27)
“Ele disse-me que quer casar-se comigo. Olho e penso: este homem não
serve para mim.”
(08/11/1958 – Jesus, 2019, p. 135-136)
Também testemunha e registra a violência contra outras mulheres:
“A Silvia e o esposo já iniciaram o espetáculo ao ar livre. Ele lhe está
espancando.”
(17/07/1955 – Jesus, 2019, p. 14)
“O senhor Alexandre começou a bater em sua esposa... Quando ele ia
enforcar Dona Nena, a Dona Rosa pediu socorro.”
(20/07/1958 – Jesus, 2019, p. 96)
Carolina questiona os padrões familiares impostos e a dependência de uma figura
masculina. Ela afirma:
“Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz que elas. Elas
tem marido (...) e ainda apanham. Não casei e não estou descontente.”
(18/07/1955 – Jesus, 2019, p. 16-17)
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Ainda assim, expressa a dureza de ser uma mulher sozinha:
“Suporto o peso do saco na cabeça e da Vera Eunice nos braços (...) Como
é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar.”
(20/07/1955 – Jesus, 2019, p. 22)
Carolina também sofria preconceito por gostar de ler e escrever, o que, para muitos, era
incompatível com o fato de ela ser negra e pobre:
“Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você.”
(23/07/1955 – Jesus, 2019, p. 26)
“Está escrevendo, negra fedida!”
(24/07/1955 – Jesus, 2019, p. 27)
Esses comentários revelam o racismo epistêmico — a negação do direito de pensar e
escrever à mulher negra. Como aponta Angela Davis, o mito da inferioridade intelectual
negra é uma construção que sempre foi usada para justificar a exclusão do povo negro da
educação.
Carolina estudou por apenas dois anos, mas desenvolveu um olhar profundo e crítico,
incentivado por sua mãe, que sonhava vê-la professora:
“Ela queria que eu estudasse para professora. Foi as contingências da vida
que lhe impossibilitou concretizar seu sonho.”
(01/06/1958 – Jesus, 2019, p. 48-49)
A escrita era sua forma de resistência e também de sobrevivência simbólica:
“Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido
num castelo cor de ouro (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para
esquecer que estou na favela.”
(12/06/1958 – Jesus, 2019, p. 58)
Apesar da repercussão inicial positiva de sua obra, Carolina foi apagada pelo mercado
editorial e morreu novamente na pobreza. Sua produção foi subestimada, como mostra a
crítica de época que a acusava de mistura de analfabetismo e barroquismo, negando-lhe
o direito à invenção literária.
No entanto, hoje reconhecemos sua importância. Carolina Maria de Jesus abriu caminho
para outras vozes negras na literatura. Como dizem Oliveira e Wanderley (2022), a
subalterna pode escrever, mas enfrentará resistência.
Sua obra permanece viva como testemunho de uma época, mas também como ato de
resistência e denúncia de uma estrutura racista, patriarcal e desigual que ainda marca
nossa sociedade.