TÍTULO: ÚLTIMO SUSPIRO
FADE IN:
INT. QUARTO DE HOSPITAL - NOITE
O quarto 317 do Hospital São Lucas é um espaço frio, impessoal. Monitores bipam
ritmicamente. Lâmpadas fluorescentes zumbem baixo. No centro, uma cama de
hospital. NELA, ELENA VIEIRA, 68 anos, pele pálida como papel, cabelo grisalho
fino espalhado no travesseiro. Tubos saem de seus braços, um respirador auxilia sua
respiração fraca.
Elena abre os olhos devagar. Seus olhos, outrora vivos e cheios de histórias, agora estão
opacos, lutando contra a névoa da morfina.
ELENA (fraco, sussurrando) Onde... onde estão eles?
Uma ENFERMEIRA, 40 anos, chamada ROSA, ajusta o soro. Ela sorri com
compaixão profissional.
ENFERMEIRA ROSA Eles estão chegando, Dona Elena. Sua família. Fique calma.
Elena tosse. Um som úmido, doloroso. A câmera se aproxima de seu rosto. Seus
pensamentos ecoam em VOZ OFF.
ELENA (V.O.) Eu sempre soube que o fim viria assim. Não em casa, com o cheiro de
pão fresco e o barulho das crianças correndo. Mas aqui. Entre cheiro de álcool e o tique-
taque de máquinas que tentam me manter viva.
CUT TO:
FLASHBACK - EXT. CASA DA FAMÍLIA - DIA - 30 ANOS ATRÁS
Elena jovem, 38 anos, ri enquanto brinca com seu filho MARCOS, 8 anos, no quintal.
O sol brilha. Uma mesa com bolo de aniversário. ANA, a filha de 6 anos, bate palmas.
ELENA (jovem) Feliz aniversário, meu amor! Um dia você vai conquistar o mundo.
Marcos abraça a mãe forte.
MARCOS (criança) E você vai estar sempre comigo, né mãe?
ELENA (jovem) Sempre, filho. Sempre.
BACK TO PRESENT:
O bip do monitor acelera levemente. A porta do quarto se abre. Entra MARCOS
VIEIRA, agora 38 anos, terno amassado, olhos vermelhos de cansaço. Atrás dele,
ANA, 36 anos, segurando a mão de seu marido ROBERTO e da neta LARA, 12 anos.
Marcos para na porta, como se o peso da realidade o paralisasse.
MARCOS Mãe...
Ele se aproxima da cama, pega a mão dela. A pele dela está gelada.
ELENA (sorrindo fraco) Meu menino... Você veio. E a Ana? E a pequena Lara?
Ana se aproxima, lágrimas já escorrendo.
ANA Estamos todos aqui, mãe. Não vai embora ainda. O médico disse que tem
esperança.
Elena ri baixinho, um riso que vira tosse.
ELENA Esperança... Eu já vivi minha esperança toda, filha. Casei com seu pai, vi
vocês crescerem, segurei meus netos no colo. O que mais uma velha pode pedir?
ROBERTO (tentando ser forte) Dona Elena, a senhora é guerreira. Lembra quando
enfrentou aquela cirurgia há cinco anos? Venceu.
Elena olha para Lara, que está ao pé da cama, assustada mas tentando ser corajosa.
ELENA Vem cá, minha netinha. Não tenha medo. A vovó vai viajar para um lugar
bonito. Onde o céu é sempre azul como o quintal da nossa casa antiga.
Lara se aproxima hesitantemente. Elena acaricia seu cabelo.
LARA Vovó, você prometeu me ensinar a fazer aquele bolo de chocolate...
ELENA (voz falhando) Prometi muitas coisas. Me perdoa se não cumpri todas. Mas eu
te amo. Amo todos vocês.
CUT TO:
FLASHBACK - INT. COZINHA DA CASA - NOITE - 15 ANOS ATRÁS
Elena, agora 53, discute com Marcos adolescente.
MARCOS (adolescente) Eu não quero ser médico, mãe! Quero viajar, viver a vida!
ELENA A vida não é só aventura, Marcos. É responsabilidade. Eu criei vocês sozinha
depois que seu pai morreu. Não quero que passe pelo que eu passei.
Marcos sai batendo a porta. Elena fica sozinha, olhando uma foto do marido falecido.
ELENA (V.O. presente) Eu fui dura com ele. Queria proteger. Mas a vida... a vida nos
endurece.
BACK TO HOSPITAL:
Marcos chora agora, sem vergonha.
MARCOS Eu devia ter voltado mais cedo. Devia ter ligado mais. Desculpa, mãe.
Desculpa por tudo.
ELENA Não peça desculpas, filho. Você viveu. Isso é o que importa. Cuide da sua
irmã. Cuide da Lara como eu cuidei de vocês.
Ana se ajoelha ao lado da cama.
ANA Mãe, lembra quando eu era pequena e tinha medo de tempestade? Você cantava
aquela música...
Elena começa a cantarolar fraco, voz rouca:
ELENA "Chove lá fora, mas aqui dentro tem amor..."
Todos se juntam, vozes trêmulas. O quarto se enche de emoção.
A MÉDICA, Dra. SILVA, 50 anos, entra silenciosamente. Verifica os monitores.
DRA. SILVA (baixo para a família) Os sinais estão enfraquecendo. É hora de dizer
adeus.
Elena respira com dificuldade. Seus olhos encontram cada um.
ELENA Não chorem por mim. Eu vivi bem. Amem uns aos outros. E... digam ao seu
pai, quando o virem... que eu esperei por ele.
O bip fica mais lento. Irregular.
MARCOS Eu te amo, mãe.
ANA Eu te amo.
LARA Eu te amo, vovó.
Elena sorri pela última vez. Seus olhos se fecham devagar.
O monitor emite um tom contínuo. Plano.
Silêncio no quarto, exceto pelos soluços.
ENFERMEIRA ROSA (respeitoso) Sinto muito.
A família se abraça ao redor da cama. A câmera sobe lentamente, saindo pela janela do
hospital, mostrando a cidade à noite, as luzes piscando como estrelas.
ELENA (V.O. final) Não é o fim. É só uma passagem. Nos vemos do outro lado.
FADE OUT.
FIM DA CENA.