Justiça Eleitoral
PJe - Processo Judicial Eletrônico
10/11/2020
Número: 0600848-74.2020.6.16.0068
Classe: REPRESENTAÇÃO
Órgão julgador: 068ª ZONA ELEITORAL DE CASCAVEL PR
Última distribuição : 01/11/2020
Valor da causa: R$ 0,00
Assuntos: Pesquisa Eleitoral - Divulgação de Pesquisa Eleitoral Fraudulenta
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Procurador/Terceiro vinculado
PDT - PARTIDO DEMOCRATICO TRABALHISTA - MARCELA BATISTA FERNANDES (ADVOGADO)
DIRETORIO MUNICIPAL - CASCAVEL/PR HALLEXANDREY MARX BINCOVSKI (ADVOGADO)
(REPRESENTANTE) GRACIANE DOS SANTOS LEAL (ADVOGADO)
LEANDRO SOUZA ROSA (ADVOGADO)
OPINIAO PESQUISA E ASSESSORIA EIRELI MARCELA BIANCHINI BUENO DE OLIVEIRA (ADVOGADO)
(REPRESENTADO) LEYNER LUIZ GIOSTRI CASCAO DE ALBUQUERQUE LIMA
(ADVOGADO)
ANDREA SABBAGA DE MELO (ADVOGADO)
JULIANA BERTHOLDI (ADVOGADO)
PROMOTOR ELEITORAL DO ESTADO DO PARANA
(FISCAL DA LEI)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
38690 09/11/2020 20:33 Sentença Sentença
398
JUSTIÇA ELEITORAL
068ª ZONA ELEITORAL DE CASCAVEL PR
REPRESENTAÇÃO (11541) Nº 0600848-74.2020.6.16.0068 / 068ª ZONA ELEITORAL DE CASCAVEL PR
REPRESENTANTE: PDT - PARTIDO DEMOCRATICO TRABALHISTA - DIRETORIO MUNICIPAL - CASCAVEL/PR
Advogados do(a) REPRESENTANTE: MARCELA BATISTA FERNANDES - PR87846, HALLEXANDREY MARX
BINCOVSKI - PR75822, GRACIANE DOS SANTOS LEAL - PR81977, LEANDRO SOUZA ROSA - PR30474
REPRESENTADO: OPINIAO PESQUISA E ASSESSORIA EIRELI
Advogados do(a) REPRESENTADO: MARCELA BIANCHINI BUENO DE OLIVEIRA - PR104568, LEYNER LUIZ
GIOSTRI CASCAO DE ALBUQUERQUE LIMA - PR82680, ANDREA SABBAGA DE MELO - PR26678, JULIANA
BERTHOLDI - PR75052
SENTENÇA
1. RELATÓRIO
Trata-se de Impugnação à divulgação de pesquisa eleitoral registrada no dia 30 de outubro de
2020, sob o nº PR-04526/2020, apresentada pela PARTIDO DEMOCRATICO TRABALHISTA
(PDT/CASCAVEL) em face de OPINIAO PESQUISA E ASSESSORIA LTDA - ME / INSTITUTO
OPINIAO - PESQUISAS DE OPINIAO PUBLICA, por meio da qual sustenta, em síntese, que,
verificando os dados informados no plano amostral, bem como os documentos juntados ao
registro, é possível encontrar graves irregularidades, quais sejam: (a) aglutinação dos dados de
estratificação referentes a faixa etária, em divergência com a fonte pública utilizada (TSE); (b) não
existe pergunta inicial a respeito de se o entrevistado é ou não eleitor do Município de Cascavel;
(c) aglutinação dos dados de estratificação referentes ao grau de instrução no questionário, em
divergência com a fonte pública utilizada (TSE); (d) o questionário possui perguntas relacionadas
à gestão da prefeitura pelo atual prefeito, Leonardo Paranhos, e ao coronavírus, o que não é
permitido. Por isso, requer a procedência do pedido para impedir a veiculação do resultado da
pesquisa. Em sede liminar, requer que a suspensão da divulgação dos resultados da pesquisa
realizada pela representada.
Despacho inicial: o Juízo concedeu a tutela de urgência pretendida e determinou a notificação da
representada para que, em querendo, oferecesse sua defesa, juntasse documentos e ainda o rol
de testemunhas que porventura pretenda sejam ouvidas (ID 37270161).
No mandado de segurança nº. 0600635-78.2020.6.16.0000, o e. Tribunal suspendeu os efeitos
da liminar, para possibilitar a divulgação da pesquisa.
Notificada, a representada ofereceu contestação no ID 38190040, rebatendo os argumentos do
impugnante, pois não existe vedação à aglutinação da estratificação dos dados retirados da fonte
pública utilizada, sendo que o questionário foi aplicado de forma presencial aos eleitores
residentes na cidade e com título de eleitor válido. Além disso, não há norma que proíba questões
relacionadas à gestão da prefeitura e sobre o coronavírus. Alega que a pesquisa foi retirada do
sistema PesqEle, mas não por parte da representada, por isso, requer seja incluída novamente.
Juntou documentos.
O Ministério Público Eleitoral apresentou parecer de mérito (ID 38448234), pugnando pela
improcedência do pedido, para que seja declarada a possibilidade da representada divulgar a
pesquisa impugnada.
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Após, vieram os autos conclusos para sentença.
É o relatório necessário.
[Link]ÇÃO
Considerando que as partes não requereram a produção de outras provas e que os pontos
controvertidos podem ser esclarecidos pelas provas documentais produzidas nos autos, bem
como porque o feito versa sobre matéria exclusivamente de direito, possível o julgamento
antecipado nos termos do art. 355, II, do CPC.
Pois bem.
Por ocasião do registro da pesquisa junto ao Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, as
entidades e as empresas que realizarem pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou
aos candidatos, deverão obrigatoriamente fornecer as seguintes informações (art. 2º da
Resolução nº. 23.600/2019 do TSE):
I - contratante da pesquisa e seu número de inscrição no Cadastro de Pessoas
Físicas (CPF) ou no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ);
II - valor e origem dos recursos despendidos na pesquisa, ainda que realizada
com recursos próprios;
III - metodologia e período de realização da pesquisa;
IV - plano amostral e ponderação quanto a gênero, idade, grau de instrução, nível
econômico do entrevistado e área física de realização do trabalho a ser
executado, bem como nível de confiança e margem de erro, com a indicação da
fonte pública dos dados utilizados;
V - sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta
de dados e do trabalho de campo;
VI - questionário completo aplicado ou a ser aplicado;
VII - quem pagou pela realização do trabalho com o respectivo número de
inscrição no CPF ou no CNPJ;
VIII - cópia da respectiva nota fiscal;
IX - nome do estatístico responsável pela pesquisa, acompanhado de sua
assinatura com certificação digital e o número de seu registro no Conselho
Regional de Estatística competente;
X - indicação do estado ou Unidade da Federação, bem como dos cargos aos
quais se refere a pesquisa.
Além disso, o § 7º dispõe que, “a partir do dia em que a pesquisa puder ser divulgada e até o dia
seguinte, o registro deverá ser complementado, sob pena de ser a pesquisa considerada não
registrada, com os dados relativos”:
I - nas eleições municipais, aos bairros abrangidos ou, na ausência de
delimitação do bairro, à área em que foi realizada;
II - no Distrito Federal, às regiões administrativas abrangidas ou, na ausência de
delimitação da região, à área em que foi realizada;
III - nas demais, aos municípios e bairros abrangidos, observando-se que, na
ausência de delimitação do bairro, será identificada a área em que foi realizada;
IV - em quaisquer das hipóteses dos incisos I, II e III deste parágrafo, ao número
de eleitores pesquisados em cada setor censitário e a composição quanto a
gênero, idade, grau de instrução e nível econômico dos entrevistados na amostra
final da área de abrangência da pesquisa eleitoral.
Como visto, em razão da potencial capacidade de gerar desequilíbrio do pleito, com o eleitorado
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tendo induzida ou influenciada, indevidamente, sua vontade, estabeleceram-se os requisitos
mínimos para que sejam realizadas as pesquisas eleitorais.
E estes devem ser cumpridos, sob pena de proibição de divulgação da pesquisa.
No caso, analisando o plano amostral e o questionário de pesquisa, apuram-se as seguintes
irregularidades:
(a) o questionário possui perguntas relacionadas à gestão da prefeitura pelo atual prefeito,
Leonardo Paranhos, e ao coronavírus.
De fato, segundo o art 1º. da Resolução nº. 23.600/2019 do TSE[1], a pesquisa eleitoral deve
estar adstrita à opinião pública quanto às eleições ou aos canditados, para conhecimento público,
portanto, as perguntas relacionadas à avaliação do governo atual são pertinentes.
Por sua vez, o questionamento sobre o estado de calamidade em que se encontra o mundo, em
razão da pandemia causada pelo COVID-19, não é cabível, visto que nada tem a ver com as
eleições municipais, tampouco influencia na votação dos candidados. Vejamos:
Portanto, a pesquisa está irregular nesse tocante, pois, embora a questão seja de interesse
público, não tem relação direta com as eleições municipais, visto que é uma questão de ordem
nacional.
(b) aglutinação dos dados de estratificação referentes à faixa etária, em divergência com a fonte
pública utilizada (TSE);
No plano amostral, a representada indicou os seguintes dados:
FAIXA ETÁRIA: De 16 a 24 anos 12,84%; De 25 a 34 anos 22,29%; De 35 a 44 anos 20,53%; De
45 a 59 anos 26,28%; Mais de 60 anos 18,06%.
Ocorre que no site do TSE a estratifiação é diversa e realizada da seguinte maneira:
(d) aglutinação dos dados de estratificação referentes ao grau de instrução no questionário, em
divergência com a fonte pública utilizada (TSE).
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No plano amostral, a representada indicou os seguintes dados:
GRAU DE INSTRUÇÃO: Analfabeto/Lê e escreve 4,35%; Ensino Fundamental Incompleto ou
Completo 27,02%; Ensino Médio incompleto ou Completo 42,45%; Ensino Superior Incompleto ou
Completo 26,18%.
Ocorre que no site do TSE a estratifiação é diversa e realizada da seguinte maneira:
Com efeito, sem saber a opinião das pessoas na exata faixa de idade e grau de instrução
(“analfabeto” ou “lê e escreve”) dos entrevistados, surge em relevo possível defeito na amostra
e/ou no questionário, eis que não representando o todo, não possibilita a inferência, portanto.
Além disso, esta magistrada não compartilha do entendimento explanado nos julgados juntados
pela representada. Outrossim, as hipóteses em que a jurisprudência é vinculante estão previstas
no art. 927 do CPC e não se encaixam no caso dos autos.
Assim, estando em desacordo com a fonte pública utilizada, configura-se irregular a pesquisa
realizada, uma vez que o resultado obtido não é seguro.
Quanto à ausência de seleção entre eleitores em geral e eleitores do Município de Cascavel, não
merece acolhimento a tese da parte representante, visto que no questionário (ID 38190033) foi
incluída expressamente a pergunta:
Outrossim, como se vê, as irregularidades encontradas não estão limitadas à falta de informações
de dados que pudessem ser complementados, conforme prevê o artigo 2º, § 7º, da Resolução
TSE 23600/2019, no que diz respeito “aos bairros abrangidos ou, na ausência de delimitação do
bairro, à área em que foi realizada”.
Por fim, dada a ocorrência das violações apontadas, não se pode concluir que os resultados
obtidos contenham o mínimo de confiabilidade, pressuposto básico para que a divulgação seja
autorizada, ainda que constem certas observações.
Desta feita, ante a impossibilidade de regularização da pesquisa, acolho o parecer ministerial,
para determinar que a representada se abstenha de divulgar a Pesquisa Eleitoral registrada sob
nº. PR-04526/2020, eis que registrada e executada em desacordo com o disposto no artigo 33
da Lei nº 950497 e Resolução nº. 23.600/2019 do TSE.
3. DISPOSITIVO
Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE a representação eleitoral movida em face de OPINIAO
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PESQUISA E ASSESSORIA LTDA - ME / INSTITUTO OPINIAO - PESQUISAS DE OPINIAO
PUBLICA, para, confirmando a liminar deferida inicialmente, proibir definitivamente a divulgação
da pesquisa eleitoral registrada sob nº. PR-04526/2020, em qualquer meio de comunicação, sob
pena de multa a ser arbitrada no valor de R$ 53.205,00 (cinquenta e três mil, duzentos e cinco
reais) a R$ 106.410,00 (cento e seis mil, quatrocentos e dez reais) (art. 18 da Resolução TSE
23.600/2019), sem prejuízo da responsabilização criminal.
Outrossim, julgo extinto o feito com resolução de mérito, nos termos do art. 487, I, do Código de
Processo Civil.
Sem custas processuais e sem honorários advocatícios sucumbenciais, segundo entendimento
do TSE e jurisprudência dominante (REspe no 1832191SP, ReI. Mm. Henrique Neves da Silva,
DJe de 20.8.2014).
Publique-se. Registre-se. Intime-se.
Oportunamente, arquivem-se.
Cascavel/PR, datado eletronicamente – elf.
(Assinado digitalmente)
Anatália Isabel Lima Santos Guedes
Juíza Eleitoral
[1] Art. 1º Esta Resolução disciplina os procedimentos relativos ao registro e à divulgação de
pesquisas de opinião pública, realizadas para conhecimento público, relativas às eleições ou aos
candidatos.
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