Credito Rural
Credito Rural
INTRODUÇÃO
O crédito rural, a partir do início do século XX, passa a ser a principal política pública de apoio
à agricultura brasileira (Fossá et al., 2022). As políticas de crédito rural são capazes de ofertar
condições e taxas adequadas para cada segmento em atividade no país, constituindo-se como
um alicerce para a política agrícola nacional e um dos principais instrumentos de apoio ao
setor (Ramos; Martha Junior, 2010).
Diversos marcos podem ser identificados na construção de políticas de crédito rural, desde o
estabelecimento do penhor agrícola em 1885 a instituição da Carteira de Crédito Agrícola e
Industrial (CREAI), em 1937. Contudo, a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR),
é referência na execução das políticas públicas, caracterizando-se como um sistema
organizado, capaz de incentivar a modernização e impulsionar a produção agrícola (Bianchini,
2015; Castro, 2017; Scapin, 2021).
Coelho (2001) destaca que SNCR pautou-se em fomentar a competitividade aos produtos
primários nacionais e impulsionar o progresso da economia brasileira. Inicialmente, pequenos
e médios produtores eram o seu alvo principal, no entanto, um elevado volume de recursos
começou a ser acessado por grandes produtores, tornando-os os maiores beneficiados da
política creditícia (Carneiro, 1997; Machado, 2017).
O benefício direcionado aos grandes produtores decorre devido à forma seletiva de
distribuição do crédito rural no Brasil (Bianchini, 2015). As instituições financeiras priorizavam
grupos ligados à macrorregião Centro-Sul, a qual contava com agricultura modernizada,
agroexportadora e com potencial de retorno financeiro. Nesses termos, a seletividade do
crédito rural ocorreu, principalmente, pelo desajuste entre juros e preços agrícolas, entre o final
da década de 1980 e início dos anos 1990, ao deixar pequenos e médios produtores à margem
da política de crédito.
Em função da forma seletiva e excludente da oferta de crédito rural, agricultores e
confederações agrárias passaram a impor pressão sobre as autoridades governamentais,
motivando a criação do Programa de Valorização da Pequena Produção Rural (PROVAPE) em
1994, que dois anos mais tarde, passa por reformulações resultando no Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). O objetivo do programa era alcançar os
agricultores familiares, que na prática não eram beneficiados pelas políticas públicas vigentes
(Mattei, 2005; Scapin, 2021).
Todavia, os médios produtores1 permanecerem às margens das políticas de crédito rural,
devido à renda e à possessão de terras não se enquadrar nos programas existentes (Mattei;
Fossá, 2017). Nesse contexto, em 2010, instituiu-se o Programa Nacional de Apoio ao Médio
Produtor Rural. O PRONAMP se destina a preencher o hiato entre os produtores com renda
insuficiente para se enquadrar nos programas de crédito administrados pelo Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e com ganhos superiores ao permitido para
acessar o PRONAF (BNDES, 2012; Fossá et al., 2022).
A relevância do PRONAMP pode ser percebida no cenário nacional em virtude do significativo
aumento de recursos disponibilizados pelo Governo Federal. Conforme o Plano Safra de 2010-
2011, R$ 5,65 bilhões foi o valor destinado para fomentar a produção agropecuária nacional, e
1
O termo utilizado considera a definição da política pública a qual o estudo analisa. Segundo o BNDS (2020), enquadra-se como médio produtor, pessoas
físicas ou jurídicas que possuam renda bruta anual de até R$ 2 milhões de reais e tenham 80% de suas receitas oriundas da atividade agropecuária ou
extrativa vegetal. Ainda, pela Lei de Reforma Agrária são aqueles que possuem acima de quatro a 15 módulos fiscais (Brasil, 1993).
contratos e do montante liberado pelo programa entre 1996 e 2001, caindo de 120 mil operações
com o valor de R$ 944 milhões de reais, para 13 mil contratos que totalizaram R$ 127 milhões
de reais no período (Passos; Costanzi, 2002).
Com o enfoque fornecido há um grupo já atendido pelo PRONAF, tornou-se necessário
reformular o programa. Passos e Costanzi (2002, p. 57) citam que seu principal objetivo, era o
de “atingir um público-alvo enquadrado em situação financeira imediatamente superior à dos
beneficiários do PRONAF, porém ainda carente de créditos especiais”. Desde sua
reestruturação em 2002, os recursos direcionados ao PROGER-RURAL foram crescendo
gradativamente, na medida em que foram adicionadas novas fontes de financiamento ao
programa.
Conforme observado no Plano Safra, o PROGER-RURAL possuía no ano de 2002 apenas
disponibilização de recursos oriundos do Fundo de Amparo ao Trabalhador e de bancos
cooperativos e, ao longo dos anos, passou a ter direcionamento de recursos do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e das demais fontes que financiavam o
crédito rural. E isso fez com que no plano safra 2009/2010, o montante revertido ao PROGER-
RURAL chegasse em R$ 5 bilhões de reais (Brasil, 2002; Brasil, 2009).
O incremento de recursos, sobretudo para a safra 2009/2010, quando os valores direcionados
ao PROGER-RURAL cresce 72% em relação ao ano safra anterior, deu-se em função da
mudança na ótica do governo brasileiro, o qual passa a perceber o médio produtor como
essencial para o avanço da economia, somado a necessidade de modernizar a atividade em
razão das preocupações com a questão ambiental (Blecher, 2009).
Já no ano seguinte, ocorreu uma alteração na história do PROGER-RURAL. No dia 07 de junho
de 2010, o Banco Central do Brasil publicou a resolução n. 3.865, que em seu artigo 4° altera o
nome do Programa de Geração de Emprego e Renda Rural para Programa Nacional de Apoio
ao Médio Produtor Rural (PRONAMP), devendo manter todas as características vigentes de
seu antecessor (Brasil, 2010).
O PRONAMP apesar de manter as características do PROGER-RURAL, desde 2011 tem
passado por atualizações e aprimoramentos. O programa efetua oferta de crédito por meio de
duas modalidades, o custeio e o investimento. O crédito para custeio visa cobrir todos os custos
inerentes aos ciclos produtivos, enquanto o crédito para investimento se associa à necessidade
de criação, ampliação e modernização da estrutura de produção, tendo como foco o aumento
da produtividade (Scapin, 2021). Ao considerar que já se passaram mais de uma década da
criação do programa, Fossá et al. (2022, p.43) sintetizam algumas informações relevantes sobre
o seu funcionamento:
Conforme Geller (2014), a dinâmica da economia está centrada na produção rural e os médios
produtores são vitais para a atividade agropecuária, em função da elevada participação na
cadeia produtiva e por serem detentores de grandes parcelas de áreas rurais no país. Em
virtude disso, urge a necessidade de que o crédito seja ofertado com taxas atrativas para esse
grupo, de maneira a fomentar a atividade rural e possibilitar maior inserção no mercado
internacional.
Nesse sentido, o Plano Agrícola e Pecuário (2020/2021) indica que o PRONAMP é prioritário
para a economia nacional e para o fortalecimento dos médios produtores rurais. A cada plano
safra, o PRONAMP tem sido impulsionado com o aumento de recursos destinados,
exemplifica o cenário o período de julho de 2020 a junho de 2021, no qual ocorreu um
incremento de recursos com variação de 25,1% se considerado o período anterior, subindo de
R$ 26,49 bilhões para R$ 33,1 bilhões de reais (Brasil, 2019; Brasil, 2020).
Salienta-se que a prioridade do programa advém dos resultados gerados no âmbito do
desenvolvimento econômico e social para a população. Brinker (2019), aponta que, nas
localidades em que se observou um maior volume de contratos formalizados pelo PRONAMP,
também se constatou a redução no analfabetismo e na desigualdade na distribuição da renda,
acrescidos, ainda, de maior geração de empregos, elevação do Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH) e do Índice de Gini, concedendo ao setor agrícola maior participação no PIB
local.
Diante disso, torna-se fundamental o debate sobre os rumos que o programa deve assumir no
futuro, especialmente quanto aos itens financiados, visando o pleno fortalecimento rural e o
atendimento das demandas da sociedade brasileira no que se refere à produção agropecuária
(Fossá et al., 2022). Na seção seguinte, apresenta-se o caminho percorrido na realização da
pesquisa em Dom Pedrito, na Campanha Gaúcha.
METODOLOGIA
O estudo possui abordagem quantitativa e caráter descritivo. Caracteriza-se como
quantitativa, posto que seus resultados podem ser quantificados e centram-se na objetividade
(Gil, 2017), e como descritiva, pois busca descrever e analisar os fatos e fenômenos de certa
realidade e suas relações entre si (Gerhardt; Silveira, 2009).
A coleta de dados foi realizada a partir de pesquisa documental e coleta de dados secundários.
A análise documental pautou-se em leis e resoluções que tratam sobre a formalização do
Sistema Nacional de Crédito Rural, bem como definem e normatizam o PRONAMP. A etapa
de coleta de dados secundários foi realizada junto ao Banco Central do Brasil (BACEN),
especificamente na plataforma digital “Matriz de Dados do Crédito Rural”.
Destaca-se que o período de análise foi de julho de 2013 a junho de 2021, considerando o Plano
Safra. A escolha do período se deu por dois motivos, a saber: a) a divulgação do número de
contratos e montante destinado via PRONAMP, feita pelo BACEN, apenas a partir de janeiro
de 2013; b) o período de cada plano safra, que data no mês de julho, o início de cada ano
agrícola e, em junho do ano subsequente o seu término. Os valores monetários foram
atualizados pelo Índice Geral de Preços (IGP) considerando o mês de dezembro de 2021, como
referência. A técnica de análise de dados empregada foi a estatística descritiva.
O município de Dom Pedrito localiza-se ao sul do estado do Rio Grande do Sul, região
denominada como Campanha Gaúcha. Compõe a base de sua economia, as atividades
pecuárias (bovina e ovina) e agrícolas, em especial, as culturas de arroz e da soja e, mais
A pesquisa foi realizada via Universidade Federal do Pampa (Unipampa), a qual foi criada há
pouco mais de 15 anos na região da Campanha Gaúcha, com campi em dez municípios, sendo
Dom Pedrito um deles. A região foi contemplada com uma Universidade Federal por ser
considerada subdesenvolvida, pelos baixos índices de desenvolvimento e pela elevada
desigualdade social (Lopes, 2023). Nesse sentido, tem-se realizado uma série de pesquisas
visando analisar os processos de desenvolvimento e subdesenvolvimento, no qual esta se
inclui.
por crédito rural, que pode ser observado na linha vermelha (valor total dos contratos) superior
a 28%. Na mesma direção, tem-se uma redução do número de contratos por um período maior
(2014-2017). Já nos anos seguintes, até 2019, o crédito liberado pelo PRONAMP cresceu acima
de 53%. E, na sequência, retoma o sentido de baixa, apresentando uma nova queda de 22,90%
na liberação de recursos. Ao analisar o período integralmente, observa-se uma redução de
15,35% no total de recursos contratados via PRONAMP no município de Dom Pedrito.
Gráfico 1: Montante de crédito rural repassado pelo PRONAMP e número total de contratos
efetivados no período entre 2014 e 2021, em Dom Pedrito/RS
O primeiro movimento, a queda no crédito rural entre 2014 e 2016, é reflexo da crise que o
Brasil vivenciou após um período de supervalorização da moeda, em que o mercado interno
não acompanhou a evolução do mercado externo e refletindo em todos os setores da economia,
conforme Servo (2019) e Ivo (2018). Os autores reforçam que a conjuntura macroeconômica
deixou o país mais fragilizado, o que desencadeou em um período de retração produtiva no
setor agropecuário, principalmente, em decorrência da queda no preço das commodities, da
desaceleração da economia chinesa - principal parceira comercial do país - e do estranho2
processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
O segundo movimento, o significativo aumento no crédito rural acessado por meio do
PRONAMP, entre 2018 e 2019, é resultado de um período de recuperação econômica no setor
agropecuário em que o PIB do setor volta a ter crescimento real e ocorrem fortes aportes em
linhas de crédito por parte do BNDES, permitindo a ampliação de armazéns e modernização
2
De acordo com Ivo (2018), apenas dois dias após o impeachment, foi aprovado pelo Congresso Nacional a Lei 13.332/2016
[Link] que autoriza a utilização de créditos suplementares sem
necessidade de autorização do Congresso. E a utilização deste crédito foi a denúncia em qual todo o processo de impeachment foi fundamentado. Ainda,
segundo a autora, as velhas oligarquias agrárias que integram o bloco do agronegócio no Congresso Nacional, estavam sendo afetadas pela queda no preço
internacional das commodities e ameaçadas pelas denúncias de corrupção, aproveitando-se do momento foram determinantes para o prosseguimento do
processo.
Gráfico 2: Valor total dos contratos por destinação de recursos entre custeio e investimento,
acessados via PRONAMP, entre 2014 e 2021, em Dom Pedrito/RS
De acordo com os dados, há predominância do crédito rural voltado para o custeio, o que pode
ser explicado, segundo os planos safra de 2014 a 2020 e a matriz de crédito rural do BACEN,
por dois motivos, a saber: a) pela maior disponibilidade de recursos para as atividades de
custeio; e b) e pelo limite de financiamento para o custeio ser superior ao de investimentos.
Ao se analisar o número de contratos por destinação de recursos (Gráfico 3), a superioridade
dos contratos direcionados para custeio se torna ainda mais evidente. Visto que a modalidade
contou com 295 contratos efetivados em 2014, chegando a 375 no ano de 2021, maior número
Gráfico 3: Número total dos contratos por destinação de recursos entre custeio e investimento,
efetivados via PRONAMP, entre 2014 e 2021, em Dom Pedrito/RS
Para Machado (2017) e Troian e Machado (2020), esse cenário é uma característica de regiões
mais capitalizadas, onde os produtores rurais são os clientes prediletos dos agentes financeiros,
por possuírem garantias suficientes para a oferta de contratação de créditos e estarem,
essencialmente, voltados para inserções mercantis e produção de commodities.
Nesse sentido, observa-se em Dom Pedrito uma dinâmica produtiva com maior concentração
de capital, menor necessidade de créditos voltados ao investimento e capaz de absorver
quantias maiores de recursos voltados ao custeio, que são os responsáveis pela geração de
riquezas (Nunes et al., 2015).
Nesse contexto, Santana, Santos e Freitas (2019) expõem que a política de crédito rural e o
financiamento das atividades foram constituídos visando atender a demanda de capital para
o andamento das atividades rurais e, deste modo, estimular o desenvolvimento agropecuário.
Visando ilustrar o direcionamento dos recursos entre as atividades agrícolas e pecuárias,
apresenta-se o Gráfico 4.
Gráfico 4: Montante de crédito rural liberado por atividade agrícola e pecuária via PRONAMP,
entre 2014 e 2021, em Dom Pedrito/RS
economia brasileira no período. Em 2016, quando a economia brasileira passa a recuperar sua
capacidade, a atividade pecuária acompanha o crescimento e, desde então, vem ganhando
espaço no cenário municipal ao apresentar um crescimento próximo de 150% até 2020.
Destaca-se que, tanto a atividade agrícola em 2019 como a atividade pecuária em 2020,
voltaram a apresentar redução no acesso ao crédito, aproximadamente de 40% e 20%,
respectivamente. A queda ocorrida no montante acessado no período, relaciona-se à redução
de oferta de créditos controlados, à maior concentração de terras e à redução do número de
estabelecimentos comerciais no município (Halum, 2021; IBGE, 2019; Maia; Troian, 2020).
No entanto, entre 2014 e 2021, a pecuária apresentou um número maior de contratos,
totalizando 1574 contratos efetivados no período contra 1184 contratos agrícolas, indicando
que a atividade contempla um número maior de estabelecimentos. Contudo, ao comparar os
dois últimos censos agropecuários, torna-se possível notar que, entre 2014 e 2016, o município
apresentou redução no número de contratos pecuários, caindo de 269 para 138 contratos
efetivados, coincidindo com um período em que o número de cabeças dos rebanhos diminuiu
e o espaço das lavouras aumentou (IBGE, 2017; IBGE, 2019), conforme ilustra o Gráfico 5.
Gráfico 5: Número total de contratos efetivados e número de contratos efetivados por atividade
agrícola e pecuária via PRONAMP, entre 2014 e 2021, em Dom Pedrito/RS
Vale ressaltar ainda que, na atividade pecuária, as mudanças no montante final estão
diretamente relacionadas às alterações no número de contratos efetivados. Entretanto, na
atividade agrícola, onde o número de contratos oscila pouco e possuem uma variação média
de 5,48% ao ano no período estudado, as alternâncias podem ser provocadas por poucos
produtores, indicando que estes podem deter boa fatia do crédito total acessado. Ante o
exposto, no Gráfico 6, detalha-se os efeitos dos movimentos acima citados, considerando o
valor médio dos contratos efetivados em cada uma das atividades.
Gráfico 6: Valor médio total dos contratos e valor médio por atividade agrícola e pecuária dos
contratos de crédito rural efetivados via PRONAMP entre 2014 e 2021 em Dom Pedrito/RS
Na atividade pecuária, tanto o número total de contratos efetivados quanto o valor dos
contratos cresceram, elevando-se o valor médio por contrato. Já na atividade agrícola, como
consequência da expansão da lavoura e da redução no número de estabelecimentos
agropecuários, percebe-se um aumento no valor médio dos contratos. Em linhas gerais, a
agricultura possui um montante final acessado via PRONAMP maior do que a pecuária,
mesmo contando com um número inferior de contratos efetivados. Os contratos agrícolas
sempre obtiveram um valor médio por contrato muito superior ao da pecuária, sendo 110% a
diferença inicial em 2014, caindo para 30% em 2017 quando o valor médio dos contratos das
duas atividades esteve o mais próximo possível, crescendo para aproximadamente 150% em
2019 e reduzindo para próximo de 90% no último ano analisado.
Este pode ser um dos indicadores que justifica o espaço que a agricultura vem ganhando, posto
que, localmente, conforme IBGE (2019) e Maia e Troian (2020), até 2017, as lavouras auferiram
espaço em relação à pecuária, e o cultivo de soja foi o grande responsável pelo avanço. No
mesmo sentido, Silva e Schwartz (2019) evidenciam que, entre os anos de 2006 e 2017, as
lavouras cresceram cerca de 42% no território nacional, o que reafirma ainda mais a força do
avanço da atividade.
Maia e Troian (2020) alertam para a concentração de terras na localidade, sendo que esse
aspecto pode ser percebido mediante o valor médio de contratos na atividade agrícola, isto é,
o montante final liberado cresce não em função de um aumento de beneficiários, mas o oposto,
devido ao aumento do valor médio dos contratos. Outro fator importante em relação à
expansão da lavoura, refere-se ao avanço da soja sobre áreas que pertenciam a outros cultivos
ou até mesmo da pecuária.
Pamplona, Mello e Ribeiro (2017) identificam no avanço do grão um fator de preocupação, já
que nos locais onde o cultivo se instalou, observa-se uma redução da pecuária tradicional, bem
como pode representar a causa para degradação do campo nativo, que é uma condição
favorável à criação da pecuária de corte típica no município. Somado a isso, o cultivo tem
superado desafios inerentes a atividade, a soja possui a característica de ser um produto
valorizado em escala global e com constante valorização de preço. Por essas razões, a área
destinada ao plantio do grão tem se expandido de maneira vertiginosa, sendo o maior
responsável pelo avanço das lavouras no município (Curtinaz, 2021).
Apesar de não ter crescido na mesma proporção da soja, a partir da segunda metade de 2018,
a atividade pecuária passou a demonstrar forte expansão no acesso ao crédito para os médios
produtores, tanto em número de contratos como em valor monetário. Conforme Duarte et al.
(2018), tal movimentação pode ser consequência da integração de dois sistemas de produção,
lavoura e da pecuária, de forma a fazer uma rotação entre ambos, sendo que a pecuária faz uso
dos resíduos deixados após os períodos de safra da lavoura de soja e, assim, obtém-se uma
maximização de lucros.
Curtinaz (2021) salienta que no município de Dom Pedrito se percebe, ainda, a integração da
floresta aos dois sistemas produtivos, dado que as áreas destinadas às atividades vêm
ganhando espaço nos últimos anos. Conforme a autora, a expansão dessas culturas tem como
ponto central a pauta de exportações brasileiras e gaúchas, corroborando ao entendimento de
que o nível de emprego e renda depende das exportações, que por sua vez estão inteiramente
ligadas às commodities e à agricultura. Posto isso, a seção seguinte aborda acerca das possíveis
contribuições do PRONAMP nas alterações no espaço rural do município.
A forma como o crédito rural é ofertado impacta diretamente na decisão de investir dos
produtores, tornando-se central na definição da dinâmica do setor no país (Buainain et al.,
2007). Devido a isso, o crédito rural tem a função de fornecer as ferramentas necessárias ao
desenvolvimento da atividade rural, quando vultosos investimentos são requeridos para o
avanço agropecuário e assume o papel de estimular os produtores a realizarem os aportes de
capital necessários para o crescimento do setor (Ocner Filho, 2017).
De modo a destacar a relevância das atividades agrícolas e pecuárias para a economia local,
evidencia-se o Valor Adicionado Bruto (VAB) da atividade agropecuária para a composição
do Produto Interno Bruto (PIB) municipal, o Gráfico 7 a seguir apresenta a evolução do PIB
municipal e o VAB da atividade agropecuária, considerando as variações em termos reais de
2013 até 2019.
O Gráfico 7 ilustra que o ápice do PIB municipal e do VAB agropecuário foi em 2017, R$ 2,24
bilhões e R$ 747 milhões, respectivamente, sendo que até esse ano (2017) ambos estavam
demonstrando crescimento real. No entanto, a partir de 2018 o cenário se altera e os dois
indicadores começam a apresentar queda próxima a 20% no ano de 2018 seguido de nova
queda próxima a 8% em 2019, evidenciando uma retração no PIB municipal em termos reais
no período.
Gráfico 7: PIB Total e Valor Adicionado Bruto da atividade agropecuária no município de Dom
Pedrito/RS, entre 2013 e 2019
Além disso, evidencia-se a importância da atividade agropecuária para o PIB municipal, visto
que exceto em 2014 quando o VAB agropecuário cai e o PIB cresce, as alterações em ambos
possuem o mesmo sentido. Contudo, quando confrontadas as alterações no VAB da atividade
agropecuária com as transformações no cenário municipal, pode-se confirmar os problemas
gerados pela concentração de terras.
Com base nos dois últimos censos agropecuários (2006 e 2017), torna-se possível identificar
transformações no rural de Dom Pedrito. O número de estabelecimentos reduziu mais de 20%
e a área ocupada pelos estabelecimentos agropecuários cresceu mais de 10%, evidenciando que
as terras ficaram mais concentradas. Os resultados encontram-se compilados no Quadro 1.
Conforme Scapin (2021), tal efeito pode ocorrer em função do custeio agropecuário fornecer
um aumento na renda, o que permite aos produtores custearem toda sua atividade com seu
próprio dinheiro e expandirem suas terras. O resultado dessa concentração é citado por
Medeiros (2017), em um processo de subdesenvolvimento, levando a um consumo exagerado
do excedente social que não acelera a acumulação de capital necessária para alterar as
estruturas produtivas, debilitando a geração de novos empregos e impedindo o
desenvolvimento.
Deste modo, torna-se possível verificar que o cenário rural de Dom Pedrito é semelhante ao
constatado a nível de Brasil. Conforme Mattei (2014), o país figura entre os que possuem
maiores concentrações de terra, quando avaliado pelo índice de Gini. O autor salienta que 32%
dos estabelecimentos rurais brasileiros possuem apenas 1,8% do total das terras e que 54% da
população rural vivia em situação de pobreza ou extrema pobreza.
Barreto (2011), em estudo realizado sobre Dom Pedrito/RS, ressalta que o modelo voltado para
grandes propriedades agrícolas gera diversos problemas sociais, como violência, desigualdade
socioeconômica, baixo desenvolvimento humano, migração da força de trabalho para outras
cidades, entre tantos outros, que decorrem da má distribuição da terra e da renda. Ademais, o
autor enfatiza que a elevada quantidade de terras nas mãos de uma pequena parcela de
produtores, torna a população rural empobrecida, incapaz de acompanhar as mudanças que
se impõe ao longo do tempo, suprimindo o desenvolvimento.
O aumento das lavouras em Dom Pedrito acompanha uma tendência que é observada em todo
o território brasileiro. Dado que, o país lidera o ranking dos maiores produtores mundiais de
soja e para contextualizar, na safra 2016-2017, a cultura ocupou uma área de 33,89 milhões de
hectares, o que totalizou uma produção de 113,92 milhões de toneladas (EMBRAPA, 2017).
Recentemente, na safra 2022-2023 a área plantada de soja no Brasil foi de 44.062,6 milhões de
hectares, produzindo 154.566,3 milhões de toneladas do grão, sendo considerada uma
supersafra (EMBRAPA, 2023). No mesmo sentido, no município, no ano de 2017 a área total
plantada de soja era de 80.383 mil hectares e no ano de 2022, a dimensão cresceu para 151.500
mil hectares (IBGE, 2023b).
Com efeito, segundo Silva e Schwartz (2019), as áreas destinadas aos mais diversos cultivos
avançaram em torno de 43%, com destaque para o crescimento das plantações de soja. Nesse
sentido, a expansão dos cultivos agrícolas ocorre em função do aumento da demanda, dado
que conforme Curtinaz (2021), a população global tem crescido constantemente e elevado a
necessidade de produzir alimentos, assim o mercado voltado para produtos primários, nos
quais as commodities estão inseridas, tem se valorizado gradativamente impulsionando novas
entradas de capitais no setor. A autora cita ainda, os estímulos para exportação como outro
fator-chave para a expansão das lavouras, já que o país atrela à exportação o elemento essencial
para o crescimento econômico.
Apesar do avanço das lavouras e da produção de commodities direcionadas para exportação ser
relevante para o desenvolvimento nacional, torna-se necessário verificar as mudanças trazidas
sobre as questões naturais na região, como a modificação do ambiente e da cultura local,
sobretudo no Bioma Pampa3 que compreende do município. Delanoy, Viana e Troian (2020)
enfatizam a necessidade de políticas públicas que fomentem o respeito e o cuidado ao Pampa,
tanto por seus atributos naturais, como por aspectos econômicos e sociais, envolvendo desde
3
Trata-se de um dos seis grandes biomas presentes em território brasileiro, o único que se encontra apenas em um estado, o RS. Contudo, não é exclusivo
do país, estando presente também na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, totalizando mais de 750 mil km². É constituído por um ecossistema vasto e
completo, composto por campos, banhados, matas ciliares, favorecendo a criação de gado, além do cultivo de diversas espécies de gramíneas (Bencke;
Chomenko; Sant’anna, 2016).
o cuidado a natureza, até um correto descarte de agrotóxicos, controle do Javali e melhoria dos
padrões de saúde dos trabalhadores rurais.
Echer et al., (2015) indicam que a expansão da agricultura, principalmente, o acelerado avanço
do cultivo de soja está degradando a natureza, uma vez que já no ano de 2007, mais de 51% da
vegetação do bioma pampa havia sido descaracterizada pela ação humana, colocando em risco
a sustentabilidade do ecossistema. Kuplich Capoane e Costa (2018) afirmam que a expansão
da agricultura tem provocado diversas alterações no bioma, deteriorando os campos nativos,
descaracterizando a propriedade, reduzindo a biodiversidade e, sobretudo, levando a uma
perda da cultura gaúcha
Apesar de reconhecer as alterações no rural da região e de Dom Pedrito, em específico, faz-se
necessário mencionar que o crédito rural não é o único, nem o principal motivador, de tais
mudanças, ele fomenta, financia e apoia, mas não é determinante. A valorização das
commodities, os acordos internacionais, a apreciação do dólar, entre outras inúmeras ações
internas e externas às propriedades rurais, estão o tempo todo inferindo e interferindo no
cenário.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os médios produtores rurais constituem um grupo que têm ganhado cada vez maior
relevância no cenário nacional. No entanto, ele nem sempre foi foco das ações do governo,
permanecendo por longos períodos à margem das ofertas de créditos e incentivos que o
governo fornecia por meio do crédito rural.
Identificou-se que o PRONAMP, no município de Dom Pedrito, tem maior atuação nas
atividades agrícolas do que pecuárias. A distribuição do crédito do PRONAMP entre as
modalidades de custeio e investimento foi amplamente favorável ao custeio. O crédito foi
direcionado em sua maioria para a atividade agrícola, que recebeu mais de R$ 428 milhões em
financiamentos frente a pouco mais de R$ 268 milhões da pecuária. Entretanto, com a
integração da lavoura-pecuária, como acontece no município, que permite combinar as duas
atividades fazendo rotação entre os ciclos, vêm aumentando o acesso ao crédito voltado para
pecuária desde 2018, sendo que em 2021 já passa a representar quase 50% do total acessado
por meio do PRONAMP.
O crédito direcionado, sobretudo, ao custeio agrícola beneficia menos produtores que estão
voltados à produção de commodities. Apesar da sua quantidade limitada, isso acaba
fortalecendo um sistema já estabelecido de produção em que não há diversificação e mantém
a renda e a terra concentrada nas mãos de uma pequena parcela de produtores. Esse cenário
contribui para o empobrecimento da maioria da população e se configura como um dos
principais obstáculos ao desenvolvimento econômico e social. Cabe ressaltar que o modelo
produtivo voltado para as commodities agrícolas acaba trazendo problemas para o bioma típico
da região, modificando as características naturais do ecossistema, degradando o solo, os rios,
a fauna, a flora e alterando a forma como o ser humano se relaciona com o ambiente.
Embora não seja uma tendência política atual, é importante que o PRONAMP passe por
reformulações para atingir os objetivos pelo qual o programa foi criado, voltando-se para
produtores menos capitalizados, que visam diversificar as culturas produzidas. Assim, o
programa pode fomentar o desenvolvimento, não apenas em Dom Pedrito, mas em todo o
país, ao criar postos de trabalho e promover a acumulação necessária para ampliação da esfera
produtiva.
Por fim, salienta-se que o estudo encontrou alguns limitadores, entre eles a carência de fontes
e referências sobre o PRONAMP, a não existência de uma divisão local, estadual ou nacional
por porte de produtor, bem como a dificuldade em obter as características do público que
acessou o crédito por meio do programa. Apesar disso, acredita-se que o estudo possa
contribuir no fomento de discussões que auxiliem na reconfiguração do programa, permitindo
ao PRONAMP contribuir para o desenvolvimento, melhorando as condições da vida no
campo, ao externalizar seus efeitos para as demais áreas na economia.
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