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TCC Final RC Cópia

O trabalho analisa a construção da figura da bruxa, focando no caso do tribunal de Salem em 1692, e como a Igreja influenciou a percepção negativa sobre as mulheres associadas à bruxaria. A pesquisa busca entender a origem das acusações e a histeria coletiva que resultou em execuções, destacando a figura de Bridget Bishop como um exemplo emblemático. O estudo revela a intersecção entre a demonização da mulher e a bruxaria, contextualizando o fenômeno dentro de uma tradição histórica mais ampla.

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O trabalho analisa a construção da figura da bruxa, focando no caso do tribunal de Salem em 1692, e como a Igreja influenciou a percepção negativa sobre as mulheres associadas à bruxaria. A pesquisa busca entender a origem das acusações e a histeria coletiva que resultou em execuções, destacando a figura de Bridget Bishop como um exemplo emblemático. O estudo revela a intersecção entre a demonização da mulher e a bruxaria, contextualizando o fenômeno dentro de uma tradição histórica mais ampla.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

EVELYN VAN KUYK

MEDO E VINGANÇA: AS ACUSAÇÕES DE BRUXARIA NO


TRIBUNAL DE SALEM, MASSACHUSETTS, NO SÉCULO XVII

JUIZ DE FORA – MG
2022
Evelyn van Kuyk
MEDO E VINGANÇA: As acusações de bruxaria no tribunal de Salem,
Massachusetts, no século XVII.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de


graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora
como requisito para obtenção do título de Bacharel em História.
Orientadora: Profª. Drª Célia A. R. Maia Borges

Juiz de Fora – MG

2022

2
Evelyn van Kuyk

MEDO E VINGANÇA: As acusações de bruxaria no tribunal de Salem,


Massachusetts, no século XVII.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em História da


Universidade Federal de Juiz de Fora como requisito para obtenção do título de
Bacharel em História.

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Célia A. R. Maia Borges – orientadora

______________________________________________________________________
Prof.ª Beatriz Helena Domingues – UFJF - leitora crítica

3
AGRADECIMENTOS

Alguns agradecimentos são necessários. Agradeço em primeiro lugar a meu pai, Juan
Miguel van Kuyk, que sempre fez questão de me mostrar a importância de estudar. Espero que
esteja orgulhoso, de onde estiver. Tudo que eu fiz desde os 16 anos até agora foi pensando na
sua felicidade.
Agradeço também à minha avó, Iza Silva de Araújo Braga, que está comigo em todos
os momentos, presencialmente ou não. Obrigada por todas as orações e a ajuda, sem você eu
não teria conseguido.
À minha orientadora Célia, que sempre teve toda a paciência do mundo em me ajudar e
a me ensinar.
Aos meus cachorros, Caleb e Kenai, por serem a maior razão da minha felicidade e meu
incentivo diário para levantar da cama e enfrentar o dia. Não teria conseguido sem eles.

4
RESUMO:

O presente trabalho tem como objetivo analisar toda a trajetória da construção da figura
da bruxa, com enfoque no caso ocorrido e julgado pelo tribunal de Salem, em Massachusetts,
no ano de 1692. A análise buscou entender como a Igreja moldou a mente de seus fiéis, os
colocando em uma posição de ódio e intolerância contra a figura inventada por eles a respeito
dos poderes malignos das bruxas, visões estas que migraram da Europa até as colônias
britânicas, constituindo a acusação contra as mulheres pelo tribunal de Salem, o mais famoso
caso de bruxaria na América do Norte.
PALAVRAS – CHAVE: Bruxaria, Salem, mulheres.

ABSTRACT:

With a particular emphasis on the case that happened and was decided by the court in
Salem, in 1962 Massachusetts, the present work aims to analyze the entire trajectory of the
construction of the figure of the witch. The analysis sought to comprehend how the Church
molded the minds of its believers, placing them in a position of hatred and intolerance toward
the figure they invented. These views have migrated from Europe to the British colonies,
constituting the indictment against women by the Salem court, the most famous case of
witchcraft in North America.
KEYWORDS: Witchcraft, Salem, women.

5
SUMÁRIO

1. Introdução …………………………………………………………………… 5
2. Capítulo I …………………………………………………………………….. 9
3. Capítulo II…………………………………………………………………….26
4. Capítulo III……………………………………………………………………44
5. Conclusão…………………………………………………………………….. 58
6. Referências Bibliográficas…………………………………………………. 61

6
INTRODUÇÃO

O objeto de pesquisa desta monografia está centralizado nos julgamentos que ocorreram
na aldeia de Salem, no estado de Massachusetts, Estados Unidos da América, no ano de 1692,
quando o país ainda era uma colônia britânica. Os julgamentos que serão analisados
compreendem as acusações de bruxaria que o povoado enfrentou durante o período de um ano.
Durante minha graduação em história, o tópico de bruxaria sempre me despertou grande
interesse. Eu queria entender o que havia por trás de todas as mortes, acusações e torturas que
envolveram a caça às bruxas, um fenômeno que para mim, parecia um pouco inexplicável. O
que faz uma pessoa ser morta por uma acusação que não pode ser provada de fato? Estamos
lidando com uma acusação dentro de um campo obscuro, uma denúncia de algo que não pode
ser tocado, presenciado. Uma acusação que muitas vezes é proferida sem a menor necessidade
de provas, apenas uma palavra contra a outra. O que teria tornado a bruxaria algo considerado
tão perigoso a ponto de matar pessoas por isso? E como isso chegou até uma pequena aldeia
numa colônia britânica, proveniente da Europa e mostrando ainda sua força ao penetrar no
território norte americano? Qual a explicação plausível para entender como uma pessoa era
levada até à forca e executada na frente de seus conhecidos e familiares?
A figura da bruxa sempre me trouxe um pouco de fascínio, presente nas estórias infantis.
Essa imagem de uma mulher solitária, misteriosa e poderosa parecia algo surreal. De onde teria
vindo essa figura no imaginário popular? Havia existido de fato algo assim, ou foi algo
inventado e mais tarde perpetuado pela mídia dentro de contos e filmes?
Ao estudar um pouco mais a fundo, uma figura específica me despertou interesse:
Bridget Bishop, uma senhora de poucos amigos e feição nada amigável que se tornou a primeira
pessoa a ser executada nos tribunais de Salem, no dia 10 de julho de 1692. O que essa senhora
teria feito de tão desagradável para despertar a ira das dezenas pessoas que a acusaram? Como
uma mulher pobre, mãe, vítima de abuso doméstico, se tornou a imagem da bruxaria em uma
aldeia simples, onde nada parecia estar fora do comum? Foi essa pergunta que eu me propus a
desvendar; a entender em que momento a figura da mulher se atrelou à imagem de uma bruxa,
e em que momento a bruxaria se tornou algo tão perigoso que apenas uma acusação poderia
sentenciar alguém à morte.
Para entender melhor cada aspecto que envolve a figura da bruxa, antes de chegar até o
tribunal de Salem, a pesquisa buscou entender de onde surgiu a definição conhecida de uma

7
bruxa, até chegar ao tribunal e os julgamentos em Massachusetts, caminhando até o julgamento
de Bishop.
O primeiro capítulo foca em compreender como a figura da bruxa foi historicamente
construída. Logo eu percebi o papel imenso que o cristianismo representou nessa elaboração.
Para entender toda a ligação entre bruxaria, satanismo e a figura feminina, alguns autores foram
essenciais. Dentre estes, destaca-se Brian Pavlac, autor de “Sexo, desvio e danação: as minorias
na Idade Média.” Foi com a ajuda desse autor que eu pude entender melhor em que momento
a figura feminina se atrela à bruxaria, e como esse processo aconteceu a partir de uma missão
misógina da Igreja Católica, que ditou as regras de como a população deveria viver e conduzir
sua fé. A demonização da sexualidade também foi grande responsável por transformar a figura
feminina de uma imagem quase mitológica para um ser fatal, maliciosa e perversa. É dentro
desse processo que nasce a correlação entre bruxaria e promiscuidade, compilado na figura
feminina. Também entendi o papel do sexo nessa construção, ao ser colocado como algo
pecaminoso, inserindo a mulher no cerne dessa questão, como uma “tentação” ao homem. Ao
perceber como o sexo era visto pela população durante a Idade Média, também compreendi a
missão da Igreja em definir a bruxaria como promíscua, atrelando seus rituais com orgias e
paródias do cristianismo, se colocando com um oposição direta a Deus e a tudo que ele
representava. O capítulo mostra como história da caça às bruxas e como o fenômeno da bruxaria
se tornou algo considerado tão maligno a ponto de justificar torturas e mortes. Foi nesse período
que aproximadamente sessenta mil pessoas morreram, em decorrência de acusações de
bruxaria. Em um estudo importante sobre a caça às bruxas no período moderno, o autor Trevor-
Roper, em sua obra “The European Witch Craze”, demonstra a obsessão à perseguição às
bruxas na Europa no decorrer do séculos XVI e XVII. Católicos e protestantes investiram
contra as bruxas. Com essa base, podemos entender como as perseguições alcançaram a
magnitude neste período, e de que maneira os ideais difundidos pelos teólogos foram
assimiladas pelos juristas e demais pessoas da sociedade, norteando todos os momentos na
construção dos argumentos e acusações. O período de caça às bruxas que a Europa enfrentou
na Idade Moderna nos trás uma base para entender o tribunal a ser estudado em Salem.
Igualmente fundamental para entender o porquê da bruxaria ter se transformado em
algo que deveria ser exterminado, erradicado foi o estudo realizado por Jeffrey B Russel em
“História da bruxaria”. Mostrou o autor que a missão do cristianismo para defender sua fé e
acabar com qualquer indício de “satanismo” no mundo foi algo que justificaria todas as mortes,
perseguições e torturas. Foi com a expansão do cristianismo e a demonização das religiões
pagãs que surgiu a conexão entre bruxaria e satanismo, pois acreditava-se que aqueles que
8
veneravam a outros deuses que não fosse o Deus dos católicos estariam na verdade, venerando
demônios. Durante a Idade Média, os dois fenômenos se conectaram, e a bruxaria se tornou
atrelada à imagem do Diabo, o que serviu para justificar a morte daqueles acusados de praticá-
la, seguindo a regra imposta em Êxodo 22:18: “A feiticeira não deixarás viver.”
O autor Jean Delumeau com seu livro “História do Medo no Ocidente” também foi
extremamente necessário para se compreender a construção da imagem negativa da mulher feita
por teólogos no período medieval. Delumenau demonstra a difusão e o reforço de uma visão
quase demoníaca que a mulher representava para os homens, dedicando um capítulo da obra
para exemplificar como a mulher foi projetada por teólogos como uma “auxiliar do demônio.”
Assim, podemos entender de onde surge aquela imagem tão negativa da mulher bruxa e porque
essa imagem causava tanto pânico e histeria coletiva.
O segundo capítulo conta o que aconteceu na aldeia de Salem, como a histeria de
bruxaria teve início, como a população vivia e suas primeiras acusadas. A comunidade de
Salem, histérica e extremista religiosa, realizou uma caça às bruxas realmente ímpar na história
norte americana. Com base em pesquisa de arquivo e a consulta aos livros de vários autores, o
capítulo conta o ocorrido na cidade americana ao final do século XVII.
Alguns trabalhos foram essenciais para escrever o capítulo. A autora Frances Hill, de
“A desolution of Satan: The full story of the Salem Witch Trials” fez uma extensa pesquisa
sobre cada detalhe da história, que se inicia com a possessão misteriosa de um grupo de
meninas, que passam a acusar mulheres dentro do vilarejo de praticarem bruxaria. Logo, a
situação saiu do controle, a prisão da cidade ficou lotada de possíveis culpados e as mortes
iniciam. Ao estudar mais a fundo sobre a história de Salem, é possível entender melhor o que
ocorreu. Principalmente ao perceber que, praticamente toda a população do vilarejo era
puritana, uma religião com fortes ideais conservadores. Além disso, ao pesquisar um pouco
mais o passado da cidade, com a ajuda da obra “Salem Witchcraft” de Charles Upham, percebe-
se que o pânico que foi instaurado na aldeia já existia muito antes dos julgamentos, com um
constante estado de medo da população de Salem de ataques dos nativos americanos, que ainda
viviam nas florestas locais. A autora Stacy Schiff, de “As bruxas” também foi um estudo
importante neste trabalho ao lembrar que o julgamento por bruxaria foi um elemento único de
tribunais de bruxaria no continente.
No terceiro capítulo, analisamos a história de Bridget Bishop, primeira mulher a ser
morta em decorrência dos julgamentos de bruxaria de Salem. Ao pesquisar sobre sua vida,
percebi que o material era um pouco escasso, mas encontrei grande parte do que está escrito
sobre a mulher no livro “Six Women of Salem” de Marylenne K. Roach, que dedicou um
9
capítulo inteiro a contar a biografia da mulher, além de todas as acusações de bruxaria que ela
enfrentou durante anos, acumulando inimigos e sendo a primeira condenada no tribunal
inquisitorial de Salem. Nesse capítulo, onde é contado cada caso misterioso onde ela esteve
envolvida, é possível entender um pouco melhor o que a levou à forca. Também nos ajuda a
compreender em quais pontos Bridget se encaixava no estereótipo criado de “mulher bruxa”
um conceito que surgiu em meados da Idade Média.
Em suma, o objetivo central do trabalho foi estudar os julgamentos de Salem dentro de
uma tradição maior; entender o ocorrido a partir de um ângulo ampliado, buscando inserir as
acusações e punições no interior de um processo de construção da figura da bruxa desde a Idade
Média, passando pela caça às bruxas durante a Idade Moderna e chegando até o julgamento de
Bridget Bishop.

10
1 A MULHER NO DISCURSO DA IGREJA: AS AGENTES DE SATANÁS

Ao pensar na figura de bruxa, a primeira coisa que se imagina é uma idosa solitária,
vivendo reclusa em uma floresta, dentro de uma casinha de madeira. Lá dentro, estariam seu
caldeirão, sua vassoura, poções mágicas e o corpo de criancinhas, prontas para serem devoradas.
Essa noção de bruxa pode ser observada até mesmo nos tempos da Roma Antiga, pelo nome de
“strix” uma mulher que se transformava em uma coruja e matava bebês em seus berços, além
de ter o poder de tornar homens sexualmente imponente e realizar banquetes de carne humana1.
A Grécia antiga igualmente atribuía poderes às feiticeiras, com o apoio do deus daimon, origem
da palavra demônio:

“O pensamento greco-romano também iniciou a estreita vinculação da feitiçaria com a demonologia, que
se tornou a característica dominante da bruxaria europeia. Acreditavam os gregos que todas as variedades
de feiticeira faziam seus trabalhos depois de consultarem daimones. O grego daimon, do qual deriva a
nossa palavra “demônio” foi usado por Homero quase como sinônimo de theos, “deus.” Depois de
Homero, a palavra passou a significar um ser espiritual inferior a um deus (…) Mas quando Xenócrates,
o discípulo de Platão, dividiu o mundo espiritual entre deuses e demônios, transferiu as qualidades
sombrias dos deuses para os demônios, que daí em diante foram considerados entidades malignas.
Portanto, a consulta a demônios praticada pelas feiticeiras ficou estreitamente ligada aos poderes das
trevas”.2

Alguns elementos da religião greco romana também contribuíram para a construção da


figura da bruxa, como é o caso dos espíritos chamados “lâmias” que vagavam pelo mundo
seduzindo os homens e fazendo mal às crianças3. Além disso, o ritual do deus Dionísio serviu
como uma base para explicar como seriam os ritos de bruxaria na época medieval. Eram rituais
que aconteciam à noite, numa caverna, liderados por mulheres. Dionísio era representado pela
figura de um bode, que era tido como o símbolo da fertilidade4. Essa figura do bode também
foi utilizada para representar a figura do Diabo. É necessário entender a importância da figura
do Diabo dentro da Bíblia, pois a bruxaria medieval tem suas raízes na figura satânica.
“Os festivais de Dionísio tornaram-se o modelo para os ritos supostamente praticados pelas bruxas
medievais. Os ritos dionisíacos tinham lugar a noite, frequentemente numa caverna ou gruta, locais
relacionados com a fertilidade e com os poderes do mundo inferior. Seus participantes eram usualmente
mulheres lideradas por um sacerdote. A procissão empunhava archotes e uma imagem fálica, e conduzia
um bode negro ou sua imagem. O bode, símbolo da fertilidade, representava Dionísio, que era geralmente

1
A. PAVLAC, [Link] Hunts in the Western World: Persecution and Punishment from the Inquisistion
trough the Salem Witch Trials. Nebraska, Bison Books. 2010, p. 10.
2
B. RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras, hereges e pagas. New Delhi, Goya Publishing.2019, p. 56
3
Idem, p. 63
4
Idem, p. 63
11
retratado com pelos e chifres. O rito concluía com libações de vinho, danças extáticas e sacrifício de
animais.5”

Os festivais de Dionísio muito se assemelham a uma ideia de sabás das bruxas, algo que
estava extremamente presente no imaginário da população durante a histeria de caça às bruxas.
Nesse sabá, as bruxas se reuniam e supostamente realizaram todo tipo de prática maléfica, desde
sacrifício de humanos à orgias. O autor Jeffrey B Russel, de “História da bruxaria” defende
que as acusações de práticas de orgias dentro dos festivais de Dionísio eram exageradas, mas
existia sim a prática sexual 6 . Na Itália, a versão romana do festival, conhecida como
Bacchanalia, continha tantos elementos sexuais que sua celebração foi proibida pelo Senado
em 186 A.C7. A Bacchanalia, que mais tarde seria conhecida no português como “bacanal” é
definida como uma festa em que reina a devassidão e se tornou uma parte importante da
literatura da bruxaria europeia8.
O cristianismo foi responsável por transformar elementos de diferentes culturas em algo
maléfico, nefasto. Para entender como esse processo foi feito, primeiramente é necessário
entender como aconteceu a expansão da religião.
Com o advento do cristianismo e a perseguição dos cristãos pelos Romanos, muitos dos
adeptos da religião foram mortos e acabaram se tornando mártires 9 . De forma lenta, o
cristianismo foi ganhando mais adeptos e expandindo seu número de fiéis, até que se tornou
uma religião assimilada pelo poder imperial romano.
No século 4, o Imperador Constantino permitiu a tolerância religiosa, fazendo com que
o cristianismo conseguisse ainda mais adeptos, e o processo de apagamento da religião pagã
continuou, com cristãos destruindo templos e assassinando líderes religiosos10, tudo em uma
missão para tornar o cristianismo a norma dentro da sociedade. Dessa forma o processo
contrário aconteceu – os cristãos passaram a perseguir os praticantes do paganismo.
Assim, o paganismo foi sendo apagado, e tendo diversos elementos incorporados à nova
religião. Na tentativa de eliminar a religião pagã, os cristãos tomaram posse de diversos
elementos de sua fé, como foi o caso da divindade Pan, que se transformou na medonha figura

5
B. RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras, hereges e pagas. New Delhi, Goya Publishing, 2019, p.
57.
6
Idem, p. 59
7
Idem
8
Idem
9
A. PAVLAC, [Link] Hunts in the Western World: Persecution and Punishment from the Inquisistion
trough the Salem Witch Trials. Nebraska, Bison Books. 2010, p. 13
10
Idem
12
de chifres que hoje representa o Diabo 11 . Entretanto, alguns elementos do paganismo
conseguiram sobreviver em paralelo ao cristianismo, como foi o caso dos cultos de fertilidade.
O paganismo continuou a existir e a ser combatido de maneira forte pela Igreja até o século
XI12.
Por muito tempo, havia por parte dos teólogos da Igreja católica uma ideia de
correlação entre o paganismo e a bruxaria. Aqueles que faziam seus ritos, encontros religiosos
na floresta e práticas que envolvessem a relação com a natureza e com a mudança de estações,
eram tidos como praticantes da bruxaria, já que estariam adorando a outros deuses, e não ao
Deus dos cristãos. Entretanto, estamos falando de dois fenômenos diferentes. Religiões pagãs
que não tinham nenhuma correlação com a bruxaria, mas acredita-se que as duas acabaram se
misturando em algum momento após o século IX, como afirma Jeffrey B Russel13, para se
transformar na bruxaria medieval. O paganismo pode ser lido como uma crença centrada na
natureza, inclusive a própria palavra vem de “paganus” que pode ser traduzida do latim para
algo como “homem que fica na terra.14” Logo, o paganismo foi tomando uma definição de
alguém “sem religião.”
O desaparecimento do paganismo e o surgimento da bruxaria acontecem após as
grandes mudanças sociais vividas pelo crescimento das cidades e o rápido crescimento
populacional.
Muitos aspectos da feitiçaria hebraica também exerceram influencia na construção da
imagem da bruxaria europeia, pois durante o processo de tradução da Bíblia hebraica, alguns
significados de palavras sofreram mutações. Um dos primeiros indícios de intolerância a
qualquer tipo de prática de magia aparece na Bíblia, em Êxodo 22:18, onde está escrito “A
feiticeira não deixará viver.” Em hebreu, a tradução exata não significava feiticeira, mas sim
algo como alguém que usa veneno de maneiras sobrenaturais15. No texto original, em hebraico,
é ordenado que seja dada a morte a um “kashap”, visto como um mago, mas não associado a
figura do Diabo. Ao traduzir a frase inteira para o latim, a tradução teria ficado como “Maleficos
non parireis vivere” que significa “Não permitirás que os maléficos vivam.16” A origem do

11
A. PAVLAC, [Link] Hunts in the Western World: Persecution and Punishment from the Inquisistion
trough the Salem Witch Trials. Nebraska, Bison Books. 2010, p. 13.
12
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora Zahar. 1993,
p. 183
13
RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras... [Link], pg 80.
14
HIGGINBOTHAM, River. Paganism: An introduction to Earth-Centered Religions. Minnesota, Llewellyn
Worldwide. 2002, p. 254.
15
A. PAVLAC, [Link] Hunts in the Western World: Persecution and Punishment from the Inquisistion
trough the Salem Witch Trials. Nebraska, Bison Books.2010, p. 13.
16
RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras... [Link], p. 60
13
termo “maléfico”, muito utilizado para se referir às bruxas medievais, aparece quando as
perseguições às bruxas se intensificaram na Europa. Antes disso, o termo “maléfico” era
utilizado de forma vaga, sendo aplicado para se referir a qualquer tipo de criminoso17. O termo
maléfico foi utilizado no maior manual de caça e morte às bruxas escrito: “Malleus Maleficarum”
que pode ser traduzido como “harmful magic” (magia prejudicial.)
A figura do Diabo surge dentro da Bíblia como a maior preocupação para o povo cristão.
Como citou o autor Brian Alexander Pavlac, da obra Witch Hunts in the Western World: “A
Bíblia conta como os antigos hebreus consideravam os deuses de seus vizinhos no Oriente
Médio, Baal, Asthoreth, etc, demônios. Muitas histórias nas escrituras hebraicas, o Antigo
Testamento cristão, descreve a vitória dos profetas de Deus contra pastores pagãos e seus
demônios.18”
A religião hebraica ajudou a construir o conceito de Diabo19. O nome de Satanás logo
surge como uma figura de importância dentro da Bíblia. Como uma maneira de explicar a
existência do mal e de tudo que há de ruim na terra, a religião hebraica apresenta Satanás, o
destruidor, que se colocava diretamente contrário a tudo que Deus representava. Se Deus era a
luz, Satanás era a treva. Se Deus era a paz, Satanás a destruição. A tradição cristã identifica
Satanás como a cobra tentadora do paraíso, que tentou Adão e Eva, sendo diretamente
responsável pelo Pecado Original. Nesse momento, quando a cobra convence Eva a provar do
fruto proibido, o Diabo coloca a mulher como participante direta no pecado original, o que
ajudaria a construir uma narrativa misógina de uma figura feminina não confiável durante a
Idade Média. Além disso, o próprio ato de comer do ‘fruto proibido’ também auxilia num
processo de destruição da reputação das mulheres, pois na verdade, o fruto proibido seria uma
alusão para a prática do sexo. Basicamente, a figura do Diabo, que aparece como uma serpente
na Bíblia, tentou Eva a fazer sexo com Adão. Desta forma, a imagem da mulher foi se tornando,
com o auxílio dos religiosos, uma imagem de mulher traiçoeira e tentadora, a verdadeira
responsável por todo o caos na humanidade, uma vez que o casal foi expulso do paraíso e causou
a ira de Deus, que os retirou do paraíso para que começassem uma vida na terra, enfrentando
todos os problemas e pragas que não faziam parte do paraíso. O fato de Adão e Eva terem
praticado o ato sexual também se torna claro quando o casal passa a sentir vergonha de andar
sem roupas, algo que não havia necessidade de usar no paraíso. Depois de ter sido corrompido

17
RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras... [Link], p. 67
18
A. PAVLAC, [Link] Hunts in the Western World: Persecution and Punishment from the Inquisistion
trough the Salem Witch Trials. Nebraska, Bison Books.2010, pg 13
19
RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras..., [Link], pg 68
14
por Eva, Adão começou a se sentir envergonhado por andar nu, um elemento que também
ajudaria a tornar o sexo algo vergonhoso dentro da ótica cristã.
Quando os cristãos colocaram a figura de Satanás representando o mal e se colocando
contrário a tudo que Deus representava, a feitiçaria se colocou como algo hostil a Deus20 .
Entende-se que, a partir dessa definição de mal, quando um feiticeiro estava invocando espíritos
maléficos, estava convocando o próprio Diabo, e portanto, ameaçando os cristãos. Dessa forma,
tornava-se necessário aniquilar os feiticeiros, portanto, não poderiam permitir uma bruxa viver.
Assim, a conexão entre feitiçaria e satanismo foi feita, justificando toda a caça e morte
às bruxas, pois os cristãos tomavam qualquer tipo de prática de feitiçaria como uma ameaça
direta ao cristianismo, como citou Jeffrey B Russell em História da bruxaria:
“A postura do cristianismo era clara. Por um lado, havia os seguidores do Bem e da Luz;
do outro, os adeptos do mal e das Trevas, entre os quais se destacavam os feiticeiros.21”

1.1 A figura da mulher na bruxaria

Nas acusações de bruxaria, as mulheres representam a maioria. Não só nos arquivos,


nos registros de perseguições por parte de juízes e teólogos, o número de mulheres processadas
é bem superior aos homens. Não por acaso esse retrato da bruxa encontra-se no imaginário
coletivo e assim foi retratada em filmes, contos de fadas, livros e fábulas. Mas porquê seriam
as mulheres as responsáveis em sua maioria a praticarem a bruxaria? Como foi apresentado
anteriormente, a associação do mal à Eva foi divulgada pela Igreja, principalmente no período
medieval. A literatura disseminou igualmente a imagem da feiticeira responsável por propagar
o mal que a Igreja católica assimilou à figura da mulher:
“A imagem da feiticeira na literatura clássica é quase uniformimnente tenebrosa: Circe, a sedutora;
Medeia, a assassina; Dipsias, de Ovídio, Oenoteia, de Apuleio e especialmente Canída e Savana, de Horácio,
aquelas que com seus rostos lívidos e hediondos, cabelos desgrenhados e roupas andrajosas, reuniam-se de
noite num lugar ermo para escavar o solo com seus dedos em forma de garras, esquartejar um cordeiro
negro, comer-lhe a carne e invocar os deuses infernais. Essa tradição literária da feiticeira perversa serviu
facilmente de base para a ulterior imagem cristã da bruxa.22”

A mulher foi acusada de introduzir o pecado na terra, responsável pelos males no


mundo23. Se os teólogos da Igreja não inventaram o medo da mulher, o cristianismo incorporou
e disseminou. Jean Delumeau destacou os séculos XIV ao XVII o período de radicalização do

20
RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria... [Link], p. 71
21
Idem, p. 74
22
Idem, p. 61
23
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 1993,
p.314.
15
discurso sobre os males provocados pela mulher numa época em que identificou como
“antifeminismo agressivo”. Mas lembra o autor que também não pode simplificar demais o
discurso pois de outra forma os teólogos, em contraposição à figura da Eva, pecadora,
responsável pelos pecados e desgraças na terra, de outro lado, exaltaram a figura da Maria.
Rose Maria Muraro acentua que houve um período da história onde a figura da mulher
era tratada de forma positiva, afinal, ela seria a progenitora da vida, um ser sagrado. A autora
exemplifica essa mudança na imagem das mulheres na introdução da edição brasileira de O
martelo das feiticeiras:
“Também nas sociedades de caça, a mulher era considerada um ser sagrado, que possuía o privilégio dado
pelos deuses de reproduzir a espécie. Os homens se sentiam marginalizados nesse processo e as invejavam.
Essa primitiva “inveja do útero” é o antepassado da moderna “inveja do pênis”, que sentem as mulheres
nas culturas patriarcais mais recentes24.”

Esse fenômeno de “inveja do pênis” que a autora Rose Marie Muraro descreve, é um
conceito introduzido na psicanálise. De acordo com Freud, a menina passaria a ter seu
desenvolvimento sexual a partir do momento em que percebe que não tem um pênis. O homem,
então, sentiria um “medo da castração” quando confrontado com o sexo feminino. Mas, como
bem lembrou Delumeau, “as raízes do medo da mulher no homem são mais numerosas e
complexas do que pensara Freud, que o reduzia ao temor da castração, ela mesma consequência
do desejo feminino de possuir um pênis”. Concordamos com o autor quando diz que “essa
inveja do pênis não é sem dúvida senão um conceito sem fundamento introduzido sub-
repticiamente na teoria psicanalítica por um tenaz apego à superioridade masculina”25.
Mas vale lembrar que o medo da castração, de forma diferente, aparece em um dos
capítulos de “O martelo das feiticeiras” onde está escrito que as bruxas, com o auxilio de um
demônio, poderiam castrar um homem.
As acusações contra as mulheres estavam disseminadas nas pregações dos padres e
missionários, nos livros dos teólogos, nos variados canais de discursos oral e escrito. Não por
acaso que logo os processos de bruxaria aumentariam e justificariam a caça às bruxas.
Um grupo específico de mulheres também sofreu ataques. As curandeiras, aquelas que
possuíam conhecimento de ervas medicinais e ajudavam outras mulheres em períodos de
doença. Essas mulheres viviam em lugarejos onde a pobreza era grande e não contavam com
médicos ou hospitais para auxiliar no tratamento de doenças26. A Igreja via nessas curandeiras
uma verdadeira ameaça, pois elas estariam trabalhando com magia, e não medicina. Portanto,

24
M. MURARO, Rose. Introdução. In: O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro, BestBolso, 2015.
25
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente, [Link], p. 311.
26
EHRENREICH, Bárbara. Witches, midwives and nurses: A history of women healers. New York, Feminist
Press. 2010, pg 32.
16
a Igreja também passou a condenar a prática das curandeiras. Mesmo que o tratamento das
curandeiras atingisse o objetivo final, que era a cura, essa cura não era bem vista, pois teria sido
alcançada com o auxílio do diabo27. Até mesmo aquelas que conseguiam auxiliar a mulher a
sentir menos dores na hora do parto, e até esta ação era vista de forma negativa pela Igreja, pois
acreditava-se que as dores do parto eram uma maneira de Deus punir as mulheres pelo pecado
de Eva28.

“Desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham
saber próprio, que lhes era transmitido de geração em geração. Em muitas tribos primitivas eram elas as
xamãs. Na Idade Média, seu saber se intensifica e aprofunda. As mulheres camponesas pobres não tinham
como cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres, tão camponesas e tao pobres quanto elas. Elas (as
cuidadoras) eram as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores
anatomistas do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia em aldeia, e as
médicas populares para todas as doenças29.”

Logo, a mulher curandeira passou a se tornar uma ameaça para aqueles que estudavam
o saber médico na faculdade30. Além disso, ao se organizarem em grupos de curandeiras e
trocarem conhecimento entre si, também representavam perigo, como se estivessem se
organizando em uma espécie de clube secreto de mulheres, compartilhando seus segredos e
formas de cuidado. Como o papel da mulher deveria ser única e exclusivamente cuidar dos
serviços do lar, ela jamais poderia se equiparar ao homem em uma profissão, principalmente
uma profissão tao importante quanto a prática da medicina. Ao vincular a imagem da curandeira
à prática de bruxaria, afastava a mulher do seu saber, e reservava aos homens a prática exclusiva
dos tratamentos, ao mesmo tempo que a sociedade patriarcal procurava manter as mulheres
submissas e dependentes de profissionais homens. O dever da mulher não estava no âmbito de
curar, e sim de prover ao seu marido e ao seu lar.

“Na perseguição da bruxa, o anti empirismo e misoginia, obsessões sexuais da Igreja coincidiam:
empirismo e sexualidade ambos representavam uma entrega aos sensos, uma traição da fé. A bruxa era uma
ameaça tripla a Igreja: ela era uma mulher, e não sentia vergonha disso. Ela parecia fazer parte de um grupo
organizado de mulheres camponesas. Ela era uma curandeira cuja prática era baseada no estudo empírico.
Na face do fatalismo repressivo da Cristandade, ela representava a esperança de mudança no mundo.31”

1.2 Sexo e bruxaria

27
EHRENREICH, Bárbara. Witches, midwives and nurses: A history of women healers. New York, Feminist
Press.2010, pg 34.
28
Idem
29
M. MURARO, Rose. In: Introdução: O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro, BestBolso, 2015.
30
M. MURARO, Rose. In: Introdução: O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro, BestBolso, 2015.
31
EHRENREICH, Bárbara. Witches, midwives and nurses: A history of women healers. New York, Feminist
Press, 2010, p. 35
17
O processo de demonizar a imagem da mulher era auxiliado pela sexualidade e todo o
tabu e medo que cercavam o ato sexual. Mais uma vez, a Igreja foi a grande responsável por
transformar o ato sexual em algo repugnante, pecaminoso, e a mulher estaria no centro dessa
questão.
Após a destruição causada pela Peste Negra, a população receava o fim dos tempos.
Existia um pensamento de que o fim estava chegando, evidenciado pelo caos e mortes advindos
da peste. No cerne dessa visão apocalíptica estava a figura do Anticristo32, que já havia se
tornado um elemento presente na cultura e imaginário popular, manifesto em peças de teatro e
poemas. Dentro de uma batalha predominante entre o bem e mal, o homem medieval precisava
escolher um lado, pois o fim estava próximo.
Essa ideia de que o fim do mundo estava próximo serviu para deixar o homem mais
temente a Deus, afinal, se o mundo iria acabar, logo haveria o encontro com o Criador, e aqueles
que foram bons e seguiram os mandamentos da Bíblia iriam desfrutar do paraíso, enquanto os
pecadores iriam sofrer pela eternidade no inferno. Assim, cada vez mais, o ato de pecar era
ainda mais temido pela população, que buscava viver dentro das normas da Igreja, dentro da
moral cristã. A peste trouxe ainda imensas consequências dentro do campo intelectual, com a
perda inestimável da população, entre eles grandes intelectuais, e até mesmo a perda física de
universidades espalhadas pela Europa, com a perda de 20 universidades entre 1350 e 140033.
Essa ala intelectual perdida se provou extremamente penosa para a Europa nos anos seguintes.
Neste momento tornou-se mais comum e necessário o auto exame, a auto avaliação,
momento em que até mesmo a forma de orar mudou: de joelhos e mãos dadas, fazendo
reverência a esse momento a sós com Deus 34 . Dentro dessa ótica, a confissão na Igreja
desempenhou um papel importante. Era o momento de cada um buscar sua salvação
individual.35
O movimento de controle sobre a vida da população havia se aprofundado com o Quarto
Concílio de Latrão em 1215. Com o aval do Papa, o Concílio reafirmou a importância do clero,
a exterminação dos hereges e dos infieis, dando ênfase a importância das cruzadas 36 .
Importantes governantes, como Luis VIII da França, incorporaram muitas das medidas ali

32
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora
Zahar.1993, pg 16
33
Idem, p. 52.
34
Idem, p. 27
35
Idem, p 19.
36
Idem, ibidem
18
escritas a seus códigos legais37. Um dos primeiros conjuntos de regras foi o estabelecimento de
controle da Igreja sobre a vida e crença da população, tornando obrigatória a confissão e
comunhão anual. Além disso, baniu os casamentos clandestinos, assegurando o controle clerical
sobre a união matrimonial e proibiu a realização de pregações sem licença papal, num
movimento para controlar o que poderia ou não ser dito durante os cultos. Dessa forma,
casamento, pregação e cultos – os aspectos mais importantes da vida medieval - foram
colocados sob uma ótica de extenso controle38.
O papel da Igreja por si só já era avassalador o suficiente, e aumentou quando se juntou
ao Estado. Com as duas unidades de força juntas, avaliando e ditando o que seria melhor para
a sociedade, os moldes do mundo como conhecemos seria iniciado. Com a emergência das
monarquias, aconteceu a ascensão da sociedade persecutória, como afirma o autor R.I Moore39.
A partir do momento em que a autoridade judicial foi removida das mãos do povo e vai parar
nas mãos dos poderes centralizadores, o poder fica concentrado na mão do Estado, que agora
detinha todos os meios para julgar sua população.

“A afirmação da autoridade legal por reis e papas é vista como parte de um processo de remoção da
autoridade judicial das mãos da comunidade e do povo para os poderes centralizadores. Moore vê isso em
paralelismo direto com a ação contra os hereges. A heresia expressava a independência comunal e valores
coletivos e tinha que ser suprimida por uma Igreja centralizadora e autoritária (…) De modo geral, Igreja e
Estado cooperaram voluntariamente no sentido de estabelecer uma nova ordem na Europa, baseada em
nações – estados, na monarquia papal e nas casas nobiliárias40.”

A Igreja visava o controle da vida sexual de sua população, e alcançou esse objetivo
com êxito. Ao pregar sermões dizendo que os pecadores sexuais eram punidos por Deus, que
os tornaria leprosos, a Igreja consegue implantar uma verdadeira onda de medo em seus fíéis,
e torna o sexo algo tenebroso. A luxúria, os dos pecados capitais, era vista como uma ligação
direta com o Diabo, e atos como sodomia eram os grandes responsáveis por catástrofes naturais.
Havia um verdadeiro manual de regras sexuais dentro da Igreja, que deveria ser seguido
à risca. O sexo era visto como um “mau necessário” algo que precisa acontecer para a
perpetuação de vida na terra, e com as perdas causadas pela Peste, era mais necessário do que
nunca que a população se reproduzisse o mais rápido possível. Dentro dessa ótica, o ato sexual
deveria ser utilizado apenas como um meio de procriação. Qualquer ato de contracepção era

37
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora Zahar.
1993, p. 32.
38
Idem, p. 31.
39
MOORE, Robert. The formation of a persecuting Society: Authority and Deviance in Western Europe. New
Jersey, Wiley-Backwell, 2007.
40
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação.... [Link], p. 42.

19
visto como um dos maiores pecados, pois estava impedindo a vida de ser gerada. O sexo
puramente por prazer era estritamente proibido. Todos ato sexual gerava penitências,
geralmente um jejum de pão e água. Assim, o papel sexual da mulher fica restrito a função de
ser mãe, de gerir a vida. Culpada desde o Pecado Original, quando Eva teve o desejo sexual, a
mulher era vista como um verdadeiro instrumento do Diabo, para causar luxúria e desvirtuar os
homens dos caminhos de Deus41. Ela é diabólica, sedutora e inferior ao homem. Todo esse
pensamento se desdobra no pensamento misógino já conhecido, de que a mulher seria incapaz
de fazer outra coisa a não ser dar a luz. Seria inapta para trabalhos, para governar, para fazer
qualquer coisa além de seguir os passos da Virgem Maria, se ocupando com a função de
maternidade e obediência. A mulher que não seguisse o caminho do celibato (como freira)
deveria seguir suas funções como mãe, respeitar seu marido e jamais se rebelar.
“As mulheres tinham a sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era
monogâmico e a mulher era obrigada a sair virgem das mãos do pai para as mãos do marido. Qualquer
ruptura dessa norma podia significar a morte. A mulher fica, então, reduzida ao âmbito doméstico. Perde
qualquer capacidade de decisão no domínio publico, que se torna inteiramente reservado ao homem.42”

A sexualidade era vista como algo perturbador pela Igreja. A virgindade e a castidade
eram temas exaltados pelos teólogos; o paraíso estaria reservado aos “puros”. Jean Delumeau
a este respeito escreveu:
“A sexualidade é o pecado por excelência: essa equação pesou fortemente na história
cristã. O casamento que se acostuma às volúpias – sendo estas comparadas ao “pus” por
Metódio de Olimpo – opõe-se à contemplação das coisas divinas.43”

Assim, com as confissões e penitências, a Igreja poderia observar atentamente seus fiéis,
vendo de perto quem estava seguindo os dogmas e quem estava caindo no caminho do pecado.
Todavia, até mesmo as penalidades sofridas eram diferentes. Os mais velhos eram punidos de
maneira mais severa que os jovens, pois deveriam mostrar mais maturidade a fim de serem o
exemplo dos jovens. A penalidade caia sobre quem cometesse alguma infração, como sexo em
momentos proibidos (em dias de festas religiosas, domingos, ou quando a mulher era
considerada impura, em casos de gravidez ou menstruação44.) A única forma aceita de praticar
o ato sexual era na posição missionária: o ato só deveria ser praticado à noite, e parcialmente
vestido. O sexo completamente despido era mal visto, pois trazia essa ideia de desejo sexual.
Qualquer outra forma de sexo era estritamente proibida, principalmente o sexo anal, que não

41
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação... [Link]. p. 67.
42
M. MURARO, Rose. Introdução. In: O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro, BestBolso, 2015.
43
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg
465.
44
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação... [Link], p. 75.
20
servia função alguma para procriação45 . Todo esse processo de controle da vida sexual da
população acabou acarretando em um processo do controle do corpo feminino, criando um novo
ideal para a mulher, cujo papel era se tornar devota ao esposo e recatada. Qualquer mulher que
fugisse desse papel teria seu comportamento avaliado de maneira negativa. Esse processo é
essencial para entender a construção da figura de bruxa que existiu ao redor do mundo mais
tarde, pois qualquer mulher que violasse as regras já impostas pela Igreja poderia ser acusada
de praticar a feitiçaria. A ideia de que a mulher seria mais suscetível à luxúria e ao desejo sexual
também ajudou a construir uma imagem de mulher diabólica.

“Os hereges, que tinham com muita frequência pontos de vista muito diferentes dos da Igreja
sobre assuntos sexuais (status mais elevado para as mulheres, o desinteresse pelo casamento na
igreja, a rejeição da procriação) eram sistematicamente acusados pela igreja de praticarem orgias
e sodomia. A lepra era tida como punição de Deus por pecados sexuais, e os leprosos eram
popularmente considerados como lascivos. Dos judeus diziam que eram agentes do diabo, que
tinham órgãos sexuais anormalmente grandes e que desejavam com concupiscência as donzelas
cristãs. Certamente a Igreja buscava a uniformidade teológica e espiritual, mas também buscava
a uniformidade sexual e estava pronta a arregimentar as autoridades seculares para impor tal
uniformidade46.”

Dentro desse processo acumulativo de propaganda negativa, a figura da bruxa foi vista
como um mal que deveria ser exterminado. Com todo o aval da Igreja, os religiosos publicaram
livros, realizaram sermões e dialogaram com a sociedade, com o intuito de instigar a população
a investigar, comunicar, e por fim, exterminar toda suspeita de bruxaria. Esse processo, que
associou a mulher a uma imagem de inferior, maléfica e satânica, trouxe consigo uma
mensagem misógina, que perdurou por toda a Idade Moderna, durante o momento da caça às
bruxas. A visão da mulher progenitora, a mãe, a imagem de Virgem Maria era contraposta à
figura maldita da Eva. “De doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas e os
animais, a situação se inverte: a mulher é a primeira e a maior pecadora, a origem de todas as
ações nocivas ao homem, a natureza e aos animais.47”
O autor Jeffrey Richards sumariza porque as mulheres eram mais suscetíveis à bruxaria
em sua obra Sexo, desvio e danação:

“Eles explicavam que as bruxas eram muito mais inclinadas aos males da bruxaria e da adoração do
demônio porque eram mais impressionáveis e crédulas do que os homens. As mulheres eram naturalmente
dissimuladas, descontroladamente vaidosas, intelectualmente como crianças, e o mais importante, mais

45
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora Zahar.
1993, pg 76.
46
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora Zahar.
1993, pg 43.
47
M. MURARO, Rose. Introdução. In: O Martelo....[Link], 2015.

21
carnais que o homem. Esta visão não era incomum. É na verdade a visão medieval oficial sobre o gênero
feminino; a inferioridade das mulheres perpetuamente decretada por causa do Pecado Original de sua
ancestral Eva. Mas, em “O martelo das bruxas” o que era considerado como a fraqueza inerente as mulheres
passava a ser visto como sendo vinculado a promoção ativa do mal no mundo48.”

Uma sociedade pautada pelo medo e pela religiosidade extrema encontrava nas
supostas bruxas a causa para todos os males. Com uma religiosidade exagerada e uma crença
de que o mal deveria ser aniquilado a todos os custos, a condenação era o caminho mais seguro
a ser seguido. O autor Jeffrey Richards também exemplifica como o medo pautava a sociedade
medieval:
“As pessoas no período medieval vivam com medo: medo de impostos, doença, guerra, fome, da
morte e do inferno. Era uma sociedade que acreditava no sobrenatural, no poder das forcas das trevas e na
ação de Sata e de seus demônios no mundo. Acreditava-se também na bruxaria, que era uma explicação
conveniente tanto para as catástrofes naturais súbitas (fome, epidemias, tempestades, enchentes, destruição
de safras e animais) quanto para problemas familiares recorrentes, tais como impotência, infertilidade,
criancas natimortas e mortalidade infantil.49”

O sexo também teve um papel essencial na construção da figura da bruxa, mais uma vez
explicado pelo autor Jeffrey Richards:

“Mas o que é talvez mais interessante do ponto de vista deste estudo é o aspecto central ocupado pelo
sexo. O equivalente do batismo cristão para os bruxos era a copulação com o Diabo. As orgias sexuais
indiscriminadas eram parte integrante de seus rituais. Isto reflete diretamente o medo milenar do sexo no
cristianismo, e também destaca a desconfiança e o desagrado em relação as mulheres como parte integrante
da cultura medieval50.”

No manuais dos inquisidores, o sexo desempenhava um papel central nos ritos das
bruxas: o grupo praticava todo tipo de pecado sexual, desde orgias até sexo com o próprio
demônio. Com o tabu do sexo sendo atrelado às bruxas, é simples de entender o porquê cada
vez mais a figura da bruxa criada nos moldes da Idade Media inspirava tanto medo na população.
O maior manual de combate a bruxaria, O Matelo das feiticeiras, reafirma a ideia de ligação
entre mulheres, bruxaria e promiscuidade:

“E como as mulheres estão essencialmente ligadas a sexualidade, elas se tornam as


agentes por excelência do demônio (as feiticeiras). E as mulheres tem mais conivência
com o demônio “porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão, portanto, nenhuma
mulher pode ser reta. (Parte I, Questão VI.)51”

48
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora Zahar.
1993, pg 181.
49
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação... [Link], p. 177.
50
Idem, p. 179.
51
M. MURARO, Rose. [Link].

22
Na final da época medieval, a ideia de bruxaria era extremamente conectada com
Satanás, tanto que, para selar o acordo e alguém se tornar um bruxo, era necessário praticar o
ato sexual com o próprio Diabo. Somente depois do ato a pessoa teria pleno acesso a seus novos
poderes das trevas. Pode-se dizer que o sexo era para os bruxos assim como o batismo era para
os cristãos - um ritual de iniciação. Era uma crença comum acreditar que as bruxas faziam seus
rituais de maneira a satirizar os ritos cristãos. Um exemplo disso seria o momento em que uma
bruxa beberia o sangue de uma criança, numa paródia da Santa Ceia52.

“A bruxaria na Europa Ocidental era diferente de todos os outros tipos de bruxaria em um aspecto notável.
Na Europa, os bruxos passaram a ser vistos como servos do diabo. No final da Idade Média, um quadro
sinistramente coerente já havia se desenvolvido, no qual os bruxos – frequentemente mas sempre mulheres
– faziam pactos com o Diabo, renunciando ao cristianismo e se alistando no serviço de Sata. Eles selavam
o acordo copulando com o Diabo. Reuniam-se em sabás regulares, os quais envolviam canibalismo, orgias
sexuais e paródias blasfemas de cultos cristaos. Os bruxos possuíam “familiares” animais, desfrutavam do
poder de voar e as vezes da capacidade de mudar de forma. Recebiam o poder de realizar o mal. Faziam
parte de uma conspiração satanica de âmbito mundial, visando a minar o cristianismo53.”

Com a publicação do famoso livro “O martelo das feiticeiras" tornava-se ainda mais
clara a disseminação das ideias do que era bruxaria na época e como uma mulher se tornaria
feiticeira. Primeiramente, o demônio procura fazer o mal a fim de atingir o maior número
possível de almas e como o espírito do homem pertence a Deus, o demônio entra através do
corpo. Esse domínio do corpo vem através do controle dos atos sexuais, sendo o ponto mais
vulnerável do homem, onde Adão pecou. Uma vez que as mulheres estão mais ligadas à
sexualidade, elas têm maior facilidade de contato com o demônio, então ocorre o ato sexual
entre as feiticeiras e o demônio, Satã se torna o senhor do prazer. Depois do ato sexual, as
feiticeiras obtêm seus poderes maléficos. Assim, tem início a uma verdadeira perseguição do
prazer feminino, pintando a figura feminina como a maior pecadora e a verdadeira origem de
todo o mal. Na Bíblia, livro de João, capítulo 10 versículo 10, Jesus diz: “O ladrão não vem
senão a roubar, a matar, e a destruir.” A missão de Jesus na terra, enquanto é dar vida e
abundância, entra em direto conflito com a missão de Satanás, cujo propósito na terra é a
destruição e caos, levando o máximo de almas possíveis em seu caminho. Os maiores aliados
do Diabo nessa missão seriam as supostas feiticeiras.
O martelo das feiticeiras foi um verdadeiro manual dos inquisidores e foi utilizado na
banca de todos os julgamentos, tido como uma espécie de Bíblia para os acusadores, que o
utilizaram por três séculos, até o século XVIII, quando o fenômeno cessou. Foi um manual de

52
RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras, hereges e pagas. New Delhi, Goya Publishing. 2019, pg 81.
53
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação... [Link]. p 185.

23
tortura e morte. Dividido em três partes, a primeira parte é focada em colocar em evidência todo
o poder maléfico do Diabo, o colocando como um ser de grandes poderes e aliando suas ações
com a bruxaria. Uma vez estabelecida essa conexão, o manual ensina a reconhecer uma bruxa
em potencial e como neutralizar suas ações. Observar as ações da bruxaria é observar os
fenômenos do dia a dia, como uma vaca que está dando menos leite que o normal ou uma
criança que adoece de forma repentina. A última parte do livro foca em como julgar e quais
sentenças seriam dadas. Recheado com puritanismo, sadismo e delírios extremistas, o livro se
transformou na base para a perseguição que seria observada na Europa e mais tarde migraria
para as 13 colônias.

“Os autores de O martelo das feiticeiras colocaram a bula pontifical no cabeçalho de sua obra.
Esta foi frequentemente isolada, sem razão, na leitura demonológica, como apenas um dos elos de uma
cadeia infernal. Ela tem silêncios e meias lacunas, não diz nada do sabá e não fornece senão poucos detalhes
sobre o pacto com Sata, a marca diabólica e as atividades das feiticeiras. Mas contribuiu mais que nenhuma
outra antes dela para identificar a magia popular como forma de heresia, acrescentando assim um crime
civil a um crime religioso e incitando os tribunais leigos a repressão. Por outro lado, anteriormente nunca
se dissera com tanta clareza que a seita diabólica é essencialmente constituída de mulheres54.”

É importante perceber a importância do sexo dentro de toda a ótica cristã. Na época


medieval, havia um verdadeiro medo da relação carnal praticada apenas pensando no prazer.
Se um casal fosse fazer sexo, deveria estar pensando em produzir um filho, e não em sentir os
prazeres da carne. Por isso, quando associam tanto a imagem de bruxos com orgias e sexo
desenfreado, também observa-se uma verdadeira missão misógina contra as mulheres, as
colocando no cerne dessa questão, como as praticantes de atos libidinosos. Era dito que as
mulheres eram mais sucetíveis de realizar um acordo com o Diabo, pois tinham mais facilidade
em cair em tentação, algo declarado desde a época do Pecado Original, quando Eva come do
fruto proibido, o que muitos estudiosos interpretam como uma metáfora, pois na realidade ela
teria feito sexo com Adão. Assim, a inferioridade da mulher seria algo natural, que as
acompanha desde a Criação. “A Igreja associava as mulheres com sexo, e todo o prazer no sexo
era condenável, pois só poderia vir do Diabo55.”
Além disso, as bruxas também eram acusadas de realizar abortos, ou a fornecer
contraceptivos para mulheres. No próprio Martelo das Bruxas existe uma passagem explicando
todas as funções maléficas de uma mulher no aspecto sexual. “Toda a bruxaria vem de um
desejo carnal.”

54
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente, [Link], p. 528.
55
EHRENREICH, Bárbara. Witches, midwives and nurses: A history of women healers. New York, Feminist
Press ,2010, pg 29.
24
“Nos olhos da Igreja, todo o poder da bruxa vinha de sua sexualidade. A sua carreira começava com o
ato sexual com o demonio. Cada bruxa era confirmada em uma reunião geral (o sabá das bruxas) onde o
demônio presidia, na maioria das vezes na forma de um bode, e praticava sexo com as ‘neophytes.’ Em
troca de seus poderes, a bruxa lhe prometia servir com fidelidade56.”

Divulgada pela Igreja, a sociedade assimilou e parecia obcecada com os “sabás”.


Teólogos e inquisidores faziam grandes suposições do que aconteciam nestes eventos. As
suposições iam desde sacrifício humano até atos de canibalismo e orgias57.
Além da associação das mulheres aos sabás, veiculavam a imagem de pessoas vaidosas,
caprichosas, facilmente impressionáveis.
No filme A Bruxa, lançado no ano de 2016, um diálogo interessante mostra esse lado da
mulher, facilmente seduzido pelo Diabo. Na cena, Thomasin, a protagonista do filme, uma
jovem puritana que vive na miséria na Nova Inglaterra dos anos 1630, tem um encontro com o
Diabo, representado na forma de um bode. O Diabo então pergunta a ela se ela gostaria de
“sentir o gosto da manteiga” fazendo uma alusão a provar comidas deliciosas, além de perguntar
se ela gostaria de ter um lindo vestido e de viver deliciosamente. Essa ideia de que o Diabo
tentaria pessoas está presente até mesmo na Bíblia, quando Jesus é tentado pelo Diabo por três
dias no deserto. Enquanto o Filho de Deus foi firme e não caiu em tentação em momento algum,
as mulheres já não seguiram o mesmo caminho, sendo tentadas facilmente com promessas de
belas vestes e luxúria. Esse pensamento, recheado de misoginia, retratava as mulheres como
inferiores, que buscavam os grandes luxos da vida, dispostas a pagar qualquer preço por isso.
Nas palavras de Jeffrey Richads, no livro Sexo, desvio e danação, nas pregações
“Eles [os religiosos} explicavam que as bruxas eram muito mais inclinadas aos males da bruxaria e da
adoração do demonio porque eram mais impressionáveis e crédulas do que os homens. As mulheres eram
naturalmente dissimuladas, descontroladamente vaidosas, intelectualmente como crianças, e o mais
importante, mais carnais que o homem. Esta visão não era incomum. É na verdade a visão medieval oficial
sobre o gênero feminino; a inferioridade das mulheres perpetuamente decretada por causa do Pecado
Original de sua ancestral Eva. Mas, em “O martelo das bruxas” o que era considerado como a fraqueza
inerente as mulheres passava a ser visto como sendo vinculado a promoção ativa do mal no mundo58.”

56
EHRENREICH, Bárbara. Witches, midwives and nurses: A history of women healers. New York, Feminist
Press.2010, pg 30.
57
EHRENREICH, Bárbara. Witches, midwives and nurses: A history of women healers. New York, Feminist
Press.2010, pg 30.
58
RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro, Editora Zahar.
1993, pg 181.
25
2 - SALEM: UMA VILA DE PURITANOS

O caso ocorreu na cidade de Salem, no final do século XVII , situada no atual estado
de Massachusetts, Estados Unidos, atualmente conhecida como Denver. A cidade está
localizada na foz do rio Naumkeag, território indígena que foi colonizado por pescadores
europeus no ano de 1626. A história inicial de Salem foi marcada por conflitos entre plantadores
de terra que acabaram realizando um acordo pacífico de forma a realizar uma transição para um
novo governo. Para simbolizar esse momento, a cidade foi batizada de Salem, uma derivação
do hebraico Shalom, que significa “paz”.
A população de Salem era na época formada na sua totalidade por puritanos. Os
grupos de colonos que se dirigiram para a Nova Inglaterra buscaram por volta de 1640 melhores
terras para o plantio59. O novo assentamento encontrado se tornou a aldeia de Salem (Denver.)
Na época dos julgamentos, em 1692, Salem era dividida em duas partes: a cidade e o vilarejo60.
Essa divisão também foi responsável por gerar conflitos. A parte da população que morava na
aldeia apelava para a cidade a fim de resolver seus problemas, o que incomodava as pessoas na
cidade, que julgavam os aldeões como incapazes de resolverem seus próprios conflitos61.
Os habitantes tinham a religião como base da sociedade. Herdeiros do puritanismo
inglês, movimento que teve sua origem na Inglaterra que tinha por base o resgate dos princípios
do calvinismo no reinado de Elizabeth, que apesar da resistência da rainha, a formação religiosa
se expandiu. O programa puritano foi anunciado em 1570 por Thomas Cartwright(1535-1603)
e após dois anos encontrava-se incluso em um manifesto denominado “Na Admonition to the
Parliament” [Uma admoestação ao Parlamento]62. As diretrizes do programa condenavam toda
a liturgia e o ordenamento da nova Igreja estatal Anglicana e reclamavam por reformas mais
severas63 . Como se sabe, a ascensão de Elizabeth ao trono inglês após a morte de Maria I
produziu a triunfo do protestantismo após vencer a resistência de alguns bispos. Alguns adeptos
ingleses do protestantismo de Genebra ou mesmo de Zurique reclamavam por uma Igreja mais
pura e sem os resquícios da religião católica ainda presentes na Igreja Anglicana. Os puritanos
obtiveram em parte, ainda que intermitente, o apoio da Câmara dos Comuns64. O primeiro

59
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar.2019, pg 429.
60
BOYER, Paul. Salem Possessed. Massachusetts, Harvard University Press, 1974 (pg 906.)
61
RUSSEL, [Link]. Historia da bruxaria: feiticeiras, hereges e pagas. New Delhi, Goya Publishing.2019, p.
223.
62
DAWSON, Christopher. A Divisão da Cristandade. Da Reforma Protestante à Era do Iluminismo. [Tradução
de Márcia Xavier de Brito]. São Paulo: É Realizações Editora, 2014, p. 196.
63
Idem, ibidem.
64
Idem, p. 196.
26
presbitério foi instituído pelo grupo em 1572 em Wansworth, e logo seguida de uma crescente
pressão para a inclusão dos fundamentos presbiterianos na Igreja da Inglaterra65. A defesa que
faziam da igreja descentralizada, onde cada congregação local deveria escolher o seu próprio
ministro, encontrou forte resistência da autoridade real. Mesmo com o apelo ao apoio da
Câmara dos Comuns, os puritanos encontraram uma forte resistência da rainha, que discordava
da intromissão do Parlamento nos assuntos da Igreja Anglicana 66 . Medidas severas foram
tomadas em defesa da supremacia real. A execução dos puritanos John Coppin(†1583) e Elias
Thackher(†1583) levou a migração de um considerável número de refugiados67. O período de
agitação religiosa continuará nos últimos anos do reinado da rainha Elizabeth I e continuará nos
primeiros anos de James I(1566-1625). Muitos se exilaram na Holanda e foram para o novo
mundo.
Os refugiados levaram para a colônia americana os valores e as visões de mundo, bem
como os medos de seus ancestrais. O caso a ser analisado é disso um exemplo. Tinham em seu
cotidiano a Bíblia como Lei, acreditavam na doutrina da predestinação e na providência divina.
Quando passaram a ser fortemente perseguidos na Inglaterra, os colonos migraram em massa
para o Novo Mundo, com a esperança de encontrarem um ambiente mais tolerante para suas
ideias. No ano de 1620 aconteceu uma grande migração para o Estado de Massachusetts,
exatamente 70 anos antes da caça às bruxas acontecer, tornando o estado um lugar de grande
influência puritana. Na próxima década, mais de 20 mil imigrantes chegaram nas novas
Colônias.
Existe uma visão extremamente difundida dos puritanos até os dias atuais, como um
grupo todo vestido de preto, extremamente preocupado com a moral. Uma frase do jornalista
ateu HL Mencken sumariza bem essa ideia: “Puritanos são um grupo de pessoas preocupadas
que, em algum outro lugar, algum outro grupo de pessoas esteja se divertindo.” (HL Mencken,
1949.) Essa ideia foi muito difundida por filmes como A Letra Escarlate, criando uma imagem
estereotipada da religião dentro do imaginário da população.
Os puritanos que chegaram às 13 colônias estavam buscando por uma nova terra, com
maior liberdade religiosa, onde poderiam exercer sua religião de forma livre 68 . Porém, ao
mesmo tempo que buscavam essa liberdade, ainda assim perpetuavam pensamentos

65
Idem.
66
Idem, p. 197.
67
Idem, p.198.
68
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar. 2019, pg 198.
27
preconceituosos com aqueles não praticantes de sua religião. O autor Frances Hill, em sua obra
“A delusion of Satan: the full story of the Salem Witch Trials” afirma que:
“Os puritanos trouxeram suas fobias e frustrações com eles. Eles também trouxeram da Europa
uma concepção de religião inadequada. Ao invés de ver compaixão como a principal virtude religiosa, os
puritanos da Nova Inglaterra cultivaram um forte senso de justiça que era rápido para julgar e condenar.
Ao invés de ver Deus como Todo-Poderoso e misericordioso, os puritanos viam Satanás em todo o
lugar”.69

Alguns historiadores contemporâneos defendem a ideia de que os puritanos que


habitavam as 13 colônias eram menos sérios que a norma, como afirma Francis Hill: “Alguns
historiadores recentes alegam que os puritanos norte americanos não eram carrancudos
‘matadores de alegrias’ da tradição popular, mas saboreavam prazeres como comida, bebida e
sexo conjugal.70”
Além disso, se vestiam fora do padrão preto dos puritanos, utilizando tecidos coloridos
em tons terrosos e também tocavam instrumentos simples71. Porém, suas concepções religiosas
ainda eram muito fortes, e havia um grande senso de medo de viver uma vida pecaminosa.
Todos aqueles que viviam fora do caminho de Deus eram punidos e as crianças eram
encorajados à devoção desde cedo.
Praticamente todos os moradores de Salem eram puritanos, muitos eram ingleses que
migraram para a Nova Inglaterra em busca de um território mais tolerante. Salem foi de extrema
importância para os puritanos nos Estados Unidos, sendo inclusive, o local onde a primeira
igreja puritana do país foi construída72.
A cidade era abrigada por florestas e rios, e a maioria da população vivia de atividades
comuns, como cortar madeira. Como quase toda população era puritana, os habitantes
acreditavam nas mesmas coisas, inclusive, tinham preconceito com os nativo-americanos,
acreditando que estes eram servidores do Diabo, ou até mesmo o próprio Diabo, como
descreveu o autor Frances Hill. Na época, as tribos Wabanaki ainda viviam na floresta e se
divididos em distintas tribos. Com a chegada dos europeus, os nativos foram forçados a
entrarem cada vez mais fundo na floresta, vivendo em lugares isolados73. Os habitantes de
Salem viviam em um constante estado de medo de ataques dos nativos Wabanaki. O historiador
Charles Upham descreve esse medo em sua obra, “Salem Witchcraft.”

“As florestas que cercavam nossos ancestrais eram o lar de uma misteriosa raça de homens, de
temperamento estranho e origem incerta. Os aspectos que eles apresentavam, as histórias que eram contadas

69
HILL, Frances. A desolution of Satan: The Full story of the Salem Witch Trials. Boston, Capo Press.1995, pg25.
70
Idem
71
Idem, p. 242.
72
The New Encyclopedia Britannica, Chicago, 1986.
73
[Link]

28
sobre eles e todas as coisas conectadas com eles serviam para despertar medo e agravar as tendências das
condições gerais de um fanatismo entusiasmado. Era a crença comum, não apenas pelo clero, mas também
pela maioria dos estudiosos que os Indígenas Americanos eram objetos e adoradores do Diabo.”74

Sendo assim, havia uma grande hostilidade entre aqueles que moravam na Nova

Inglaterra e os nativos da terra. Conflitos violentos eram comuns, vindos de ambos os lados. A

história norte americana sempre tratou os nativos com muita repressão e violência, e isso não

era diferente na aldeia de Salem. O ódio vinha de ambos os lados, afinal, os nativos também

sofreram perdas vindas dos colonos. A autora Frances Hill descreve em sua obra “A desolution

of Satan” o passado árduo que os nativos tiveram que enfrentar:

“Eles haviam respondido a crueldade, traição e injustiça do homem branco com uma fúria sem
piedade. Quando os ingleses chegaram, os nativos haviam os repecionado e os ajudado. Mas os ingleses
tomaram suas terras, quebraram tratados, mataram e os escravizaram. Eles também os infectaram com
varíola e outras doenças que os nativos não tinham imunidade, cortando seus números em três quartos em
menos de cinquenta anos”.75

No ano de 1692, mesmo ano em que aconteceu a caça às bruxas de Salem, registraram-
se indícios de que os índios estariam planejando uma ofensiva76. O medo permeava a cidade de
Salem, pois acreditava-se que os índios eram enviados do Diabo. Cotton Mather, um pastor
local, pregava a ideia de que o Diabo acreditava que as terras da Nova Inglaterra eram dele, e
havia enviado os índios para ajudar a tomá-la de volta. Com uma vida inteira centrada na
religião, todos os problemas que o vilarejo tinha pareciam ser obra do Diabo. Isso explica a
rápida conclusão de que havia um grupo de bruxas servindo ao Diabo, quando algumas garotas
começaram a aparecer com estranhos sintomas. Não havia outra explicação que não fosse obra
do maligno, tudo de negativo que existia ali parecia vir dele.
A vida da cidade era centrada em torno da religião. Na taverna da cidade, todos os livros

disponíveis eram religiosos77. Diante de uma semana inteira trabalhando, o único momento de

relaxamento era no domingo, dia reservado para a contemplação de Deus. Os moradores

passavam até três horas dentro da igreja no domingo, e qualquer atividade não religiosa

74
UPHAM, Charles. Salem witchcraft. New York, Dover Publications, 2010, pg 802
75
HILL, Frances. A desolution of Satan: The full Story of the Salem Witch Trials. Boston,Capo Press, 1995, pg
88.
76
Idem
77
HILL, Frances. A desolution of Satan: The full Story of the Salem Witch Trials. Boston,Capo Press. 1995, pg
30.
29
observada neste dia era vista como pecaminosa, e quem quer que fosse que estivesse praticando

tais atividades poderia ser castigado. Há relatos de um homem que não compareceu ao culto de

domingo por ter caído dentro de um rio e se resfriado, e tomou como castigo o açoitamento78.

Isso mostra como a religião deveria ser a parte mais importante da vida de todo habitante de

Salem, deixando pouco espaço para pensar em outras coisas. Os habitantes da cidade viviam

em um constante estado de medo, fosse por invasão de nativos americanos ou por algum mal

que espreitasse a cidade. Quando toda a histeria da caça às bruxas iniciou, o medo se espalhou

rapidamente pois a cidade inteira já parecia viver num constante estado de ansiedade, como se

o mal já estivesse espreitando nas sombras há tempos.

As crianças tinham o costume de ajudar nas tarefas domésticas desde cedo, fazendo

trabalhos como costura, arrumação da casa e auxílio na cozinha79. Na época dos julgamentos

de Salem não existia uma escola para meninas dentro da cidade, por isso acredita-se que a

maioria das meninas da cidade não sabia ler80. Também não havia o costume de brincar com

outras crianças, pois isso poderia ser visto de forma negativa, algo que estaria distraindo as

crianças de seus afazeres e do caminho de Deus. Dessa forma, a vida para as crianças de Salem

podia ser considerada bastante tediosa, principalmente no inverno, quando se tornava frio

demais para sair de casa e percorrer grandes distâncias. O autor Frances Hill descreve um pouco

o que era esperado das crianças em Salem:

“As pessoas da Nova Inglaterra esperavam tanto das crianças quanto dos adultos. Depois da breve infância
havia pouca brincadeiras ou diversão. Haviam poucas bonecas ou brinquedos (…) A infância terminava
cedo. Aos sete anos ou mais cedo, era esperado que as crianças dividissem o trabalho em tarefas domesticas
(…) Conforme as meninas cresciam, não havia entretenimento ou hobbies, ou até mesmo reuniões de
pessoas jovens no centro da cidade.81”

Enquanto os homens de Salem contavam com atividades como pesca, caça e serviço, as

mulheres já tinham uma vida mais monótona, ocupadas com as tarefas de casa. Não havia teatro,

78
Idem, p 31.
79
Idem, p..28.
80
Idem, p. 30.
81
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link], p. 267.

30
livros, ou outros meios para que as mulheres pudessem se expressar, e talvez, essa vida tediosa

tenha contribuído para todo o caos que aconteceu na cidade.

2.1 Caça às bruxas: o caso de Salem

Foi no ano de 1692 que tudo começou. No final de sua caça às bruxas, a cidade de Salem
executou 14 mulheres, 5 homens e 2 cachorros82. A população na época era em torno de 550
pessoas. A histeria se iniciou em janeiro, o primeiro julgamento aconteceu em junho e o último
em setembro.
Tudo começou com uma simples brincadeira de criança, uma espécie de “simpatia” para
descobrir sobre futuros maridos. As jovens meninas de Salem só tinham uma certeza em mente:
um dia, iriam se casar. Esse era o destino de todas as meninas na época, e não havia mais nada
além de se tornar mãe e esposa. Por isso, em delírios românticos, as meninas passavam seu
tempo pensando em como seriam os maridos. Bonitos, feios, ricos, pobres. Num ato de pura
curiosidade, como forma de brincadeira, resolveram fazer uma espécie de simpatia, um jogo
para ver como seriam seus futuros maridos. Foi na casa de um dos homens mais importantes de
Salem que tudo começou.
Abigail Williams e Elizabeth Parris, filha do reverendo da cidade, Samuel Parris, de 39
anos, estavam sozinhas em casa, brincando. Parris havia chegado em Salem três anos antes
Abigail morava na casa dos Parris e provavelmente era órfã, já que não existem registros de
seus pais83. A brincadeira realizada pelas meninas era chamada de "Vênus Glass” e consistia
em encher um copo com água e jogar dentro dele uma clara de ovo. A clara de ovo revelaria
uma forma dentro do copo, mostrando um sinal de como seriam seus futuros. Porém, a clara do
ovo não mostrou o que as meninas queriam ver. Completamente aterrorizadas, as duas meninas
perceberam que a forma que a clara de ovo mostrou era um caixão.84
Foi em janeiro de 1662 que os sintomas começaram a aparecer, não muito tempo depois
da brincadeira de ver o futuro. Todos que viram os sintomas das meninas pareciam
completamente horrorizados. Elas apresentavam espasmos, gritavam de dor, falando coisas sem
sentido algum. Em fevereiro, acontece a menção de algum mal sobrenatural. A única explicação
lógica que o médico da cidade, William Griggs lhes ofereceu foi a de possessão demoníaca,

82
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2019, pg 172..
83
HILL, Frances. A desolution of Satan.. [Link], p. 58.
84
Idem, p. 43.

31
dizendo que as meninas haviam sido vítimas de bruxaria e que estavam “sob uma mão
maldosa85.”
Apesar de todo o esforço do Reverendo Parris para manter a história em silêncio,
rapidamente a história se espalhou, assustando os moradores. Uma mulher, contudo, tinha uma
ideia de como ajudar as garotas. Mary Sibley, vizinha dos Parris, sabia de uma espécie de ritual
que havia sido trazido da Inglaterra, uma forma de “magia branca” que poderia apontar quem
teria feito aquilo com as meninas. Sabendo que o Reverendo não se agradaria deste tipo de
prática, ela pediu a ajuda de dois personagens enigmáticos da história de Salem: John Indian e
sua mulher, Tituba. Mais tarde, quando descobriu sobre a ideia, Reverendo Paris mostrou seu
desgosto. De acordo com ele, a maneira que Mary havia encontrado para resolver o problema
era “recorrer ao diabo para exorcizar o diabo 86 .” A ideia de Sibley foi tão mal vista que
acreditou-se ter sido uma das causas para o agravamento da possessão, algo verdadeiramente
diabólico.
O casal John e Tituba eram definitivamente párias na cidade de Salem. John era nativo
americano e sua mulher havia nascido na ilha de Barbados. Eram empregados da família Parris,
e foi provavelmente Tituba que sugeriu a brincadeira do copo e do ovo para as meninas, pois
era ela quem passava a maior parte do tempo cuidando das garotas. A mãe das meninas,
Elizabeth, tinha a saúde fraca, o que inclusive explica o fato de ter poucos filhos para o padrão
da época. O casal Parris tinha apenas um garoto de dez anos e uma menina de cinco, além de
cuidar da pequena órfã Abigail. Não se sabe ao certo que tipo de doença que afligia a mãe das
garotas, porém é quase certo que era algo que atrapalhava o processo de fertilidade.
Apesar de ser de origem caribenha e já sofrer algum tipo de preconceito por isso, Tituba
tinha uma boa reputação na cidade, pois nunca estava envolvida em confusões. Ela havia
chegado em Salem juntamente com Samuel Paris, por volta de 1680, comprovando que já
participava da vida familiar há mais de dez anos87. De sua parte, possuía boa relação com as
meninas acusadas de possessão, chegando até mesmo a dizer que amava as duas. Não se sabe
se esse sentimento era recíproco, mas havia uma relação diária entre as partes, já que Tituba era
a pessoa encarregada de cuidar das meninas.
A ideia da vizinha Mary Sibley era fazer um “bolo de bruxa", uma estranha mistura da
urina das meninas afligidas com um pouco de farinha. Quando o bolo ficasse pronto, seria

85
Idem, p. 60.
86
Idem, p. 63.
87
HILL, Frances. A desolution of Satan: The full Story of the Salem Witch Trials. Boston, Capo Press, 1995. Pg
64.
32
servido ao cachorro da família, que então apontaria quem teria sido a bruxa que amaldiçoou as
meninas. Para a tristeza de Sibley, aquilo não adiantou de nada, a não ser para começar um
rumor de que havia uma bruxa solta pela cidade de Salem. A histeria foi contagiosa, e logo o
caos se instaurou na pequena cidade.
As meninas pareciam piorar a cada dia, e os sintomas pareciam cada vez mais
demoníacos. Apenas a menção de Cristo já era suficiente para aterrorizar as garotas, que por
vezes ficavam cegas, surdas ou mudas, além de se portarem de forma agressiva com visitantes
e pastores. Elas diziam sentir beliscões, mordidas e até mesmo como se algo as estivesse
enforcando. A situação era desagradável, mas existe a possibilidade de que as meninas
estivessem sentindo pela primeira vez um senso de valorizações, de estarem recebendo algum
tipo especial de atenção pela primeira vez. Como descreve o autor Frances Hill, em “A
desolution of Satan”, talvez “inconscientemente, as meninas desejaram continuar.”88
Samuel Paris estava vivendo seu pior pesadelo, afinal, ele era o homem encarregado de
levar a palavra de Deus para a cidade, e suas próprias filhas estavam sendo possuídas por um
mal. Sua reputação estava em risco, sua própria religiosidade. Já seria negativo o suficiente ter
sua casa e familiares afligidos pelo mal, tudo aquilo parecia piorar quando se levava em conta
que ele era o pastor de Salem. Parris já possuía inimigos em Salem, por conta de conflitos
internos que aconteceram na cidade nos anos anteriores. Enquanto sua família passava por um
pesadelo, ele pensava em maneiras de manter sua influência e poder dentro da cidade, pois
acima de tudo não poderia perder o respeito de seus companheiros, que facilmente julgariam
suas filhas. Foi durante uma reunião com homens importantes de Salem que o médico William
Griggs lhe disse que suas meninas estavam sob uma mão demoníaca. Todos aconselharam
Parris a orar e esperar para Deus tomar providências, mas ao mesmo tempo, não poderiam
ignorar a suspeita de Tituba. Parris disse que as meninas haviam lhe confidenciado ter visto a
escrava em visões, e acreditavam que ela era a pessoa por trás de todos os beliscões invisíveis.
Tituba negou a acusação de ser bruxa, mas admitiu algo grave: Ela havia feito o bolo de bruxa
e já havia tido contato com bruxaria, pois sua antiga patroa, ainda em Barbados, era uma bruxa,
e havia lhe ensinado algumas coisas para descobrir a presença de bruxas89. Essa afirmação lhe
custou caro. Nas seguintes semanas, seu patrão, Samuel Parris, usou de meios abusivos, como
espancamentos, para que ela confessasse e admitisse que era uma bruxa. Essa prática se tornaria
comum dentro do tribunal inquisitorial de Salem. A tortura muitas vezes nem precisava ser

88
Idem, p. 66.
89
HILL, Frances. A desolution of Satan..[Link], p. 68.

33
física; apenas a prisão da cidade já era tortura o suficiente. Manter mulheres acusadas ali, muitas
vezes mães, separadas de seus bebês, já era um método de tortura forte o suficiente para fazer
qualquer acusação ser admitida. Os métodos utilizados pelos inquisidores de Salem eram cruéis,
e iam desde agressão física a humilhação, quando despiam todas as mulheres em busca de
marcas de bruxa, um constrangimento que além de tudo, ainda tocava no íntimo da figura
feminina, a deixando despida para ser inspecionada por diversas pessoas, algumas vezes mais
de uma vez por dia.
Tudo piorou quando surgiu uma terceira vítima: Ann Putman Jr de doze anos, que estava
sofrendo os mesmos sintomas de Abigail e Elizabeth. Ann era filha de um fazendeiro poderoso
chamado Thomas Putman, que mantinha relações próximas com o Samuel Parris, pai das
primeiras meninas a apresentarem os sintomas. A história parecia piorar ainda mais, pois agora
os sintomas estavam mais agravados e as meninas diziam que estavam sendo “beliscadas” por
espíritos. Logo, outra personagem essencial na história de Salem passou a sofrer com os
sintomas, a sobrinha do médico da cidade, Elizabeth Hubbard. Na época, ela tinha 17 anos e
era uma órfã que vivia com sua tia e tio, Rachel e William Griggs. Assim que começaram seus
sintomas, sonhos perturbadores onde ela via estranhos espectros e era beliscada e cutucada com
agulhas, enquanto os espíritos gritavam coisas horríveis, Elizabeth percebeu que conhecia os
rostos que lhe apareciam naquelas ocasiões. Eram os rostos de pessoas de Salem, pessoas que
ela conhecia. Mais uma vez, as meninas trazem o nome de Tituba, como a verdadeira
responsável pelos acontecimentos. A empregada ainda negava todas as acusações.
Quando Elizabeth contou para seu tio que via o rosto de pessoas conhecidas, a tensão
pareceu crescer ainda mais. Por Elizabeth já ter 17 anos, sua história parece ter sido levada mais
a sério que a das outras meninas, e a cidade inteira passou a acreditar que bruxas estavam
habitando Salem. Era a hora de apontar os suspeitos.
Se a busca por suspeitos aconteceu só para apontar culpados e tranquilizar a população
ou se tudo foi um plano elaborado de vingança, ninguém sabe. O que as pessoas de Salem
precisavam naquele momento era de um culpado, de alguém para ser preso e pagar pelo o que
estava acontecendo com aquelas meninas. As mulheres apontadas como responsáveis pelos
atos foram, como se verá, aquelas que sempre foram apontadas ao longo da história: Mulheres
pobres, velhas, e que viviam sozinhas ou à margem da sociedade. Esse esteriótipo da “mulher
bruxa” atravessou a história, sempre associado a uma idosa solitária.
A autora Frances Hill tenta buscar uma explicação lógica para o motivo de a maioria
das acusadas de bruxaria serem mulheres. Ele escreveu : “A explicação não pode ser

34
simplesmente pelo medo e ódio das mulheres promovido por homens. Mulheres, como esposas,
mães e fofoqueiras, estavam mais centralmente envolvidas no vilarejo do que homens90.”
A primeira pessoa a apontar um suspeito foi Elizabeth Parris, a menina de nove anos
que havia sido a primeira a apresentar sintomas. Talvez a pressão social exercida sobre a menina
tenha sido alta, com adultos lhe dizendo para apontar logo a bruxa que havia lhe amaldiçoado;
ou talvez Elizabeth nem mesmo soubesse da gravidade que sua acusação teria, mas o fato é que
ela apontou para a pessoa que havia lhe falado sobre o jogo do copo: Tituba.
Não havia pessoa mais óbvia para ser acusada do que Tituba, a mulher que trouxe de
sua terra natal todos os seus conhecimentos e crenças, e que não fazia parte da comunidade da
Igreja local. Ela era diferente de todos os outros, por isso parecia tão certo que ela era a culpada
pelo caso de bruxaria. Além de tudo, era uma escrava. Em uma época onde a população negra
era vista com olhares preconceituosos, a acusação foi rapidamente tida como uma verdade
absoluta, sem maior necessidade de provas concretas.
Elizabeth Hubbard rapidamente concordou e disse que sim, Tituba era a mulher que
estavam procurando. Mais uma vez, por ter quase 18 anos, seu testemunho foi levado muito a
sério, e as pessoas de Salem acreditaram nela sem precisar de grandes evidências.
Logo surgiu outro nome importante: Sarah Good, a mendiga da cidade. A reputação de
Sarah já não era boa, pois ela vivia de pequenas doações e ajuda local. Os pobres em Salem não
eram bem vistos, as pessoas preferiam apenas que fossem embora da cidade ao invés de oferecer
ajuda. Sarah nem sempre viveu na pobreza, pois seu pai havia sido um homem bem sucedido,
mas havia morrido afogado muitos anos antes do julgamento, quando Sarah ainda era uma
jovem mulher. Sem direito a nenhuma herança, pois foi enganada por seu novo padrasto, tudo
que restou para Sarah foi uma vida de pedinte nas ruas, implorando por comida91. Todavia, as
pessoas da cidade alegavam que Sarah tinha um “temperamento difícil” e muitas vezes apenas
ofereciam ajuda pois tinham medo de que ela fizesse algo ruim se recusassem ajudar. Além
disso, Sarah tinha inimigos importantes, como o tio de Thomas Putman, John Putman.
A familia Putman era uma das mais importantes e prósperas da cidade, e Sarah Good
não foi a única mulher acusada de bruxaria que já mantinha uma inimizade com a família, o
que também foi o caso de Sarah Osborne. O primeiro marido de Sarah Osborne, Robert Prince
era amigo de John Putman Senior, e quando Robert morreu, Putman era um dos encarregados

90
HILL, Frances. A desolution …[Link], pg 76.
91
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2019, p.629.

35
de seu testamento. Putman havia se casado com a irmã de Robert, Rebecca, e Sarah Osborne
havia complicado um pouco a vida do casal quando interferiu na execução do testamento. 92
Existe uma crença de que a caça às bruxas que ocorreu em Salem foi um plano
orquestrado por Samuel Parris e a família Putman, que haviam escolhido Sarah Good e Tituba
como culpadas de bruxaria, para começar uma verdadeira “limpa” na cidade, destruindo suas
inimigas pouco a pouco. Essa crença pode fazer sentido quando se imagina que os dois homens
prezavam por poder e controle, e queriam instaurar um estado de medo na população93. ‘’Os
inimigos pessoais transformaram-se em inimigos da comunidade, e os inimigos da sociedade
em servos de Sata.94” O historiador Charles Upham acredita que Parris e Putman já haviam
conversado com Tituba antes de seu testemunho, e lhe disseram exatamente o que dizer. Para
Upham, os pais das meninas instruíram Tituba a alegar que quatro pessoas trabalhavam em
conjunto com o demônio, e que duas dessas pessoas seriam Sarah Good e Sarah Osborne. Isso
serviria como uma maneira de preparar a cidade para os próximos julgamentos por bruxaria que
aconteceriam. Eles teriam escolhido Good e Osborne como bons exemplos de bruxas pois seria
fácil de fazer a cidade acreditar nisso. O autor Paul Boyer, em sua obra “Salem Possessed”
escreveu:
“As primeiras três mulheres a serem acusadas poderiam ser vistas como fora da norma em sua
comunidade – o tipo de pessoa que antropologistas sugeriram que são mais suscetíveis a esse tipo de
acusações. Tituba, era uma escrava de origem indígena, Sarah Good era uma pedinte que andava pelo
vilarejo pedindo agressivamente por comida e abrigo, Osborne, apesar de ser um pouco melhor, era uma
velha doente”.95

O primeiro depoimento de Ann Putman Jr. aconteceu no dia 25 de fevereiro de 1692,


quando a menina mencionou: “Foi a aparição de Tituba, a senhora indígena do Sr. Parris, que
me torturou, me beliscando de maneira forte.” 96
O exame de Tituba aconteceu no dia primeiro de março de 1692. O examinador registrou
que as perguntas feitas pela corte foram fraseadas de maneira a fazer a acusada a admitir a culpa.
Nota-se que nenhuma tentativa de defesa foi feita, pois não proveram nenhum conselheiro legal.
John Hathorne, um homem de família importante na cidade, bem sucedido e respeitado, foi
quem conduziu o interrogatório. Apesar de ter poder e relevância na cidade, ele não tinha
treinamento legal, e ainda assim, era um dos agentes da lei mais experientes de Salem. Na

92
HILL, Frances. A desolution of Satan: [Link], p. 84.
93
Idem, p. 85.
94
B. RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria: feiticeiras, hereges e pagas. New Delhi, Goya Publishing, 2019, p.
225.
95
BOYER, Paul. Salem Possessed. Massachusetts, Harvard University Press, 1974, p 27
96
GOOS, David. Documents of The Salem Witch Trials. Califórnia, ABC- Clio, 2018.

36
transcrição a seguir de uma parte do interrogatório, nota-se que formulou perguntas que levaram
a acusada a se comprometer:
Interrogador: Tituba, com qual espírito do mal você tem familiaridade?
Tituba: Nenhum.
Interrogador: Porque você machuca essas crianças?
Tituba: Eu não as machuco.
Interrogador: Quem as machuca, então?
Tituba: O Diabo, até onde eu sei.
Interrogador: Você nunca viu o diabo?
Tituba: O Diabo veio até mim e me pediu para servi-lo.
Interrogador: Quem você viu?
Tituba: Quatro mulheres as vezes machucam as crianças.
Interrogador: Quem são elas?
Tituba: Goody Osborne (se referindo a Sarah Osborne) e Sarah Good, eu não sei quem
são as outras. Elas pediram para que eu machucasse as crianças97.
(Fonte: GOOS, [Link] of The Salem Witch Trials. Califórnia, ABC-Clio, 2018.)

Em seguida, Tituba afirmou ter visto um homem, que teria pedido para que ela
machucasse as crianças, e que ela não contou para seu patrão, à Samuel Parris, com medo que
ele lhe cortasse a cabeça. A própria Tituba já assimilara a versão da prática da bruxaria na
localidade talvez mesmo para se livrar das acusações. Certo é que ao acusar outras mulheres,
ela também se comprometeu.
O depoimento de Tituba, que confirmava a existência de bruxas em Salem, alegando
que uma delas era Sarah Good, serviu como mais uma chama para acender a histeria na cidade.
No mesmo dia, primeiro de março, Samuel Parris depôs contra Tituba, e mostrou mais
evidências de que ela estaria envolvida com bruxaria, razão pela qual se recusou a pagar sua
fiança e a trazer de volta para sua casa.
Quando Sarah Good apareceu para o julgamento, já depois de ter sido presa, foram
realizadas as exatas mesmas perguntas feitas a Tituba. Sarah Good negou ter familiaridade com
qualquer espírito do mal e também negou ter machucado as crianças. Ela alegou ter sido
falsamente acusada. Até mesmo durante o julgamento as meninas afligidas mostravam-se
perturbadas, deixando os adultos ainda mais preocupados. Era difícil não acreditar nas suas
palavras, que manifestavam estar com medo.
O marido de Sarah Good também foi arguido e disse ter “medo de que ela fosse uma
bruxa, ou de que ela pudesse se transformar em uma rapidamente98.” Porém, mais tarde, quando
fizeram mais perguntas, admitiu que nunca viu a esposa praticar bruxaria. Todos na cidade

97
Idem
98
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar. 2019, pg 687..
37
sabiam que ela muitas vezes levava uma vida mais independente e longe de seu marido, William
Good. Ela foi apresentada como uma mulher ressentida e sem amigos. Apesar de Sarah Good
continuar alegando que não fez nenhum mal às crianças, disse que havia sido Sarah Osborne a
responsável por atormentar as meninas. Em sua interrogação, disse acreditar “no Deus que fez
o céu e a Terra.99”
O terceiro julgamento foi de Sarah Osborne. No momento em que foi acusada, Osborne
tinha cerca de 49 anos e estava mal de saúde e por este motivo, não estava frequentando a
igreja100. As meninas, dessa vez, ficaram mais distante da acusada, pois havia um temor de que
elas poderiam ser molestadas caso ficassem muito perto da suposta bruxa. As perguntas feitas
a Osborne foram basicamente as mesmas feitas às suspeitas anteriores, mas dessa vez, o juiz
Hathorne perguntou que familiaridade Sarah Osborne teria com Sarah Good. De início, Sarah
Osborne tentou se distanciar ao negar proximidade com Sarah Good101. Disse que havia dois
anos que não a via, e que a última vez que cruzou com Sarah Good foi ao dirigir-se para a
cidade mas que não havia se comunicado com ela. Nesse momento, o juiz Hathorn pediu para
que as crianças levantassem e a olhassem. As crianças, mais uma vez, afirmaram que Osborne
era uma das mulheres responsáveis pelos malefícios e que constantemente a viam.
Continuando com as interrogações, Tituba foi submetida a um segundo inquérito.
Seguindo a mesma linha de seu primeiro testemunho, o júri considerou que ela estava dizendo
a verdade, e que havia de fato uma “conspiração satânica envolvendo muitas pessoas locais,
incluindo Tituba.” Depois de muita pressão do juiz, Tituba admitiu ter encontrado com um
homem, que seria uma aparição do Diabo, e que disse a ela que ela deveria servi-lo102. Tituba
disse que negou servir ao homem, mas depois de ver mais desconhecidos, que também lhe
ordenaram machucar as crianças, ameaçando-a machucar se ela não o fizesse, Tituba admitiu
que machucou as crianças, mas que não o faria de novo. Ela também declarou que o homem
ameaçou acabar com a sua vida e a das crianças se ela não o servisse. Além disso, ela alegou
ter visto uma série de animais, como um pássaro amarelo, dois gatos e um cachorro. Quando
perguntada como se locomovia, ela disse que “andou num pedaço de pau e Good e Osborne
andaram atrás de mim. Andamos segurando uma a outra.” Logo depois disse que ambas as
mulheres lhe disseram para matar Ann Putman103. O testemunho deixou as crianças perturbadas

99
HILL, Frances. A desolution of Satan: The full Story of the Salem Witch Trials. Boston, Capo Press, 1995, pg
102.
100
Idem, p. 95.
101
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição... [Link], p. 682.
102
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link], p. 109.
103
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição... [Link], pg.730.

38
e histéricas mais uma vez. Dessa vez, Elizabeth Hubbard teve um ataque grave, e o juiz
perguntou a Tituba quem estava causando aquilo. Ela respondeu que não sabia e ela mesma
começou a ter um ataque. Talvez Tituba pensou que se fingisse um ataque, seria absolvida das
acusações, porém o ato não comoveu o juiz, que decretou que as três mulheres deveriam ser
mandadas para a cadeia.
Depois da confissão de Tituba e da prisão das três mulheres, a cidade entrou em um
estado de alarme. A cada dia pareciam aparecer mais “espectros” das bruxas pela cidade, como
uma figura fantasmagórica104. Esses espectros teriam o poder de machucar pessoas e poderiam
até mesmo se transportar facilmente de um lugar para outro. Com um vilarejo aterrorizado e
meninas possuídas por algo que parecia não ir embora, pois mesmo com as prisões, os ataques
não acabavam, se iniciou a histeria de Salem, que levaria mais suspeitos à prisão, embarcando
em uma jornada de acusação de inocentes e um rastro de mortes.
Outra prisão importante que aconteceu nos julgamentos de Salem foi a prisão de Dorcas
Good, a filha de quatro anos e meio de Sarah Good. Quando trouxeram a criança para
julgamento, as meninas afligidas se portavam de maneira perturbadora, e mostraram aos
magistrados marcas de mordidas, que seriam supostamente de Dorcas. A crianca foi presa, e
dois dias depois, confessou a Hathorne que ela tinha uma pequena cobra, que chupava seu
dedinho. Ela apontou para uma pequena marca, provavelmente uma mordida de pulga. Os
magistrados perguntaram a ela quem havia lhe dado aquela cobra, e ela respondeu que havia
sido sua mãe, Sarah Good105. Dessa forma, no dia 24 de março de 1692, Dorcas foi mandada
novamente a prisão de Salem, onde foi mantida por aproxidamente oito meses, sem ver a luz
do sol, sem se alimentar direito, com frio, assustada e sozinha. A visão de uma criança de apenas
quatro anos numa cela de prisão é totalmente assustadora, mas para o povo de Salem, era apenas
uma bruxinha, filha de uma bruxa. O tempo que Dorcas passou na prisão afetou diretamente
sua saude mental. Dezoito anos depois, seu pai, William Good, alegaria que a menina havia se
tornado insana, de maneira que ele teve que pagar uma cuidadora para cuidar de Dorcas pelo
resto de sua vida.106
Sarah Osborne morreu no dia 10 de maio de 1692, na prisão, de causas naturais107. É
provável que o ambiente insalubre da prisão de Salem tenha contribuído para sua morte.

104
Idem, p. 740.
105
HILL, Frances. A desolution of Satan…, p. 186.
106
Idem, p. 19
107
Idem, p. 188.

39
As primeiras mulheres a serem acusadas estavam dentro de um padrão: solitárias,
estranhas, velhas. Trevor Roper fez uma observação sobre esse padrão: “Quando um ‘grande
medo’se apossa da sociedade, aquela sociedade naturalmente olha para o estereótipo do inimigo
em seu meio, e uma vez que a bruxa se tornou o estereótipo, a bruxaria se tornou a acusação
universal.108”
No caso de Salem, era mais que o esteriótipo de bruxaria. Era o estereótipo da mulher
bruxa. Sim, homens também foram acusados, mas se compararmos os números de condenados
(14 mulheres e 5 homens) podemos observar que o número de mulheres condenadas era 73,7%,
enquanto os homens representavam 26,3%. Isso coloca as mulheres em uma escala de acusação
três vezes maior que os homens. A diferença é tão grande que se tornou uma estatística até
mesmo no imaginário popular; na maioria das historias de conto de fadas, não vemos um
homem bruxo. Quase sempre é retratada a figura da mulher bruxa, aquele esteriótipo já bem
estabelecido: uma mulher velha e solitária, que vive distante do resto de seu vilarejo. O autor
Jeffrey B Russel explica que grandes mudanças demográficas produziram um aumento no
numero de mulheres que viviam sozinhas. Além disso, o autor Erik Midelfort cita que, com a
extinção de conventos realizada pela Reforma, o numero de mulheres em mosteiros caiu, até
mesmo nas regiões catolicas. Colaborando ainda mais com essa estastica de mulheres que
viviam sozinhas, os casamentos passaram a ocorrer em idades mais maduras, o que deixou
muitas mulheres sozinhas. Com um calculo aproximado, Erik Midelfort diz que é esperado que
40% das mulheres estariam vivendo sem a proteção social de seus maridos no século XVI.
Além disso, as mulheres tiveram uma taxa de sobrevivência muito mais alta durante pestes, em
alguns lugares, apresentando taxas de sobrevivência 600% superiores a dos homens109. Dessa
forma, criou-se no imaginário popular que as mulheres utilizavam de meios mágicos para
garantir a sobrevivência, principalmente quando se tratavam de mulheres velhas e pouco
afluentes. Não poderia haver outra explicação para sua sobrevivência, além da bruxaria. Essas
mulheres que viviam sozinhas estariam em uma situação mais vunerável, pois estariam vivendo
isoladas e sem o auxílio de maridos. Soma-se a isso uma feição rabujenta e infeliz e temos o
esteriótipo perfeito das bruxas.

108
TREVOR ROPER, H.R. The European Witch Craze of the Sixteenth and Seveneteenth Centuries and Other
Essays. New York, Harpercollins, 1969, p. 190.
109
RUSSEL, Jeffrey B. Historia da bruxaria: feiticeiras, hereges e pagãs. New Delhi, Goya Publishing .2019, p.
213.
40
Em Salem esse esteriótipo já se mostra logo no inicio dos julgamentos, com a acusação
da mendiga Sarah Good, e mais tarde, aparece novamente com a acusação de Bridget Bishop.
O autor Jeffrey B Russel sumariza bem a forma negativa como essas mulheres eram vistas:

“Numa sociedade que levava a magia a sério, pragas e feitiços formavam outra categoria obvia de reação.
Uma vez associado esse gênero de crime a mulher solitária, ninguém ficaria livre de suspeita nessa
condição. Um semblante zangado poderia ser interpretado como um olhar maléfico; uma imprecação
furiosa, como uma praga, um resmungo, como uma invocação de poderes diabólicos110.”

A autora Mary Beth Norton também reintera essa ideia do esteriótipo de mulher em
bruxa em Salem, em sua obra “In the devil’s snare: The Salem witchcraft crisis of 1692:”
“Uma grande proporção dos acusados em Salem eram de fato as mulheres mais velhas briguentas,
algumas com reputações duvidosas, que se encaixavam no esteriótipo de bruxa do século 17. A maioria
delas era acusada de praticar a bruxaria maléfica – prejudicar a saúde de seus vizinhos, propriedades, filhos
ou gado – por um período de anos (…) Muitos dos outros acusados em Salem eram próximos dessas
mulheres estereotipadas; maridos, irmãs, filhas, mães e filhos de bruxas também eram vulneráveis a essa
acusação.111”

Logo, novas pessoas foram julgadas, pessoas comuns e até mesmo membros da Igreja.
Acusações vinham à tona a todo o momento, e não importava mais se a pessoa era um respeitado
membro da igreja, ou a esposa de um homem próspero. Até mesmo o dono de barcos mais rico
de Salem, Phillip English, foi acusado. Já não havia mais distinção entre pobres e ricos, ambos
eram igualmente acusados, como foi o caso de Hezekiah Usher, um homem rico de Boston. Até
mesmo Lady Phips, a esposa do governador, foi acusada112. Claro, havia uma grande diferença
no julgamento entre os ricos e pobres. Os acusados que eram ricos nem mesmo foram levados
a julgamento, tampouco foram executados.113
A autora Stacy Schiff, de “As bruxas” explica um pouco do diferencial dos julgamentos
de Salem:
“Houve julgamentos de bruxa antes na Nova Inglaterra, mas não precipitados por uma corte de
meninas adolescentes e pré adolescentes enfeitiçadas. Também como um conto de fadas, Salem é uma
história em que as mulheres – mulheres determinadas e mulheres medrosas, subservientes, matronas
corretas e adolescentes transviadas – desempenham papel decisivo. Um grupo de meninas muito jovens,
privadas de direitos, desencadeou a crise, revelando forcas que ninguém poderia conter e que ainda hoje
espantam – que podem ou não ter algo a ver com a razão para se transformar uma historia de mulheres
em perigo numa historia de mulheres perigosas.114”

110
Idem, ibidem
111
NORTHON, Mary Beth. In the devil’s snare: The Salem witchcraft crisis of 1692. New York, Vintage Books.
2003, p. 15.
112
BOYER, Paul. Salem Possessed. Massachusetts, Harvard University Press, 1974, p. 27
113
Idem
114
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em [Link] de Janeiro, Editora Zahar.2019, pg 232.

41
O caso de Salem é um dos mais famosos casos de bruxaria na história, e é lembrado até
os dias de hoje como um referencial quando o assunto é julgamentos de bruxaria. É tratado com
certa fascinação e essa fascinação pode ser explicada por tudo que o processo representou e
representa até os dias de hoje. O tribunal de bruxaria de Salem trouxe essa ideia de um pânico
satanico na América do Norte, algo que não tinha acontecido até o momento, como explica o
autor Brian Pavlac, de “Witch Hunts in the Western World”

“Antes de 1692, caça às bruxas não eram comuns na Nova Inglaterra. Apenas estimadamente cem
casos haviam acontecido nos ultimo cinquenta anos, e provavelmente apenas um quarto destes casos
levaram a execução. A maioria desses julgamentos envolviam acusar uma bruxa que já era alvo de
ressentimento e problemas. A caca ficou fora de controle na Alemanha, França, e até mesmo na Inglaterra,
mas fora de Salem, tais pânicos simplesmente não aconteceram na América.115”

Desencadeado por um vilarejo de puritanos que levavam sua religião ao extremo e eram
rápidos para julgar qualquer tipo de comportamento fora do padrão, os julgamentos de Salem
também representam a alavancada da misoginia na sociedade, e seu trabalho em destruir a
reputação de mulheres tidas como ‘’excêntricas.’’ Um vilarejo cercado de puritanismo,
ansiedade e um medo generalizado do maligno e do demônio, a história de Salem torna-se única
por seus aspectos memoráveis, desde a possessão das filhas do pastor local até o
encarceramento de uma criança de quatro anos. O autor Jeffrey B Russel explica as raízes de
todo aquele ódio acumulado que instigou os julgamentos:
“Assim, o surto de bruxaria foi a expressão violenta de divisões profundamente arraigadas, as divisões
morais geradas pela discordância em torno do governo da igreja, exacerbada por problemas de família e de
vizinhanca intensamente arraigados. A hostilidade teria se manifestado de um modo ou de outro, mas a
existência da tradição da bruxaria fez desta um veículo natural para todos esses rancores.116’’

Apesar de o caos ter se alastrado pela cidade, os julgamentos demoraram para acontecer.
Na primavera, as prisões já estavam lotadas, pois não havia outro modo de resposta às acusações
que não fosse o aprisionamento. No dia 14 de maio de 1962, chega em Massachusetts um novo
governador117, que montou uma corte para ouvir os acusados. Ele nomina Stoughton o chefe de
justiça, e o primeiro julgamento acontece apenas no dia 2 de junho, sentenciando a primeira
pessoa à pena de morte: Bridget Bishop.

115
A. PAVLAC, [Link] Hunts in the Western World: Persecution and Punishment from the Inquisistion
trough the Salem Witch Trials. Nebraska, Bison Books. 2010, p. 139.
116
B. RUSSEL, Jeffrey. Historia da bruxaria... [Link], p. 224..
117
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link], p. 411.

42
3 A CIDADE CONTRA BRIDGET BISHOP

3.1 A primeira condenada

O objeto central desta pesquisa é entender quais os caminhos que levaram Bridget
Bishop a ser a primeira vítima condenada pelo tribunal de Salem.
Bridget Playfer (nome de solteira) nasceu entre os anos de 1632 e 1635, na Inglaterra.
Seu primeiro casamento foi com Samuel Wesselby, no dia 13 de abril de 1660, em Norwich,
na Inglaterra. Ambos se mudaram para a Nova Inglaterra no mesmo ano, em busca de melhores
condições e oportunidades na colônia, algo que muitos ingleses faziam na época. O percurso,
feito por navio, não era fácil e nem agradável, e não eram poucos aqueles que morriam no
caminho, fossem por alguma doença contagiosa que se espalhou na navegação ou pelas
condições gerais do navio, que também eram pouco favoráveis. Seu primeiro marido, Samuel,
morreu em algum momento do ano de 1661 e não se sabe ao certo o motivo da morte.118
Bridget já tinha passado por uma perda difícil, pois seu primeiro filho morreu ainda
bebê, o que era comum na época. Porém, as coisas pareciam ter melhorado quando Bridget
chegou a Salem e se casou com o viúvo Thomas Oliver. Bridget teve sua primeira filha,
Christian Oliver, nascida no dia 8 de maio de 1667, um ano depois do casamento. Christian foi
a primeira filha de Bridget a sobreviver a infância, e Thomas já tinha filhos do casamento com
a antiga mulher, dois homens na faixa dos 30 anos e uma filha mais nova, Mary.119
Todavia, o relacionamento de Bridget e Thomas não era fácil. Os dois brigavam muito
e Thomas era extremamente agressivo com ela. Em janeiro de 1670, até mesmo os vizinhos
acabaram se envolvendo na briga, ao constatarem o comportamento tóxico do casal. Uma
vizinha afirmou certa vez ter visto o rosto de Bridget repleto de sangue e hematomas.120
Entretanto, Bridget não parecia aceitar o abuso calada. Seu marido alegava que ela
revidava os golpes, e já havia o agredido também. O casal chegou a ser preso por conta das
constantes brigas e precisaram pagar uma multa. Bridget não parecia ter medo do marido,
inclusive, em uma ocasião, Bridget foi levada até o tribunal sob a acusação de ter utilizado
linguagem chula contra seu marido, o chamando de “old devil'' (diabo velho.) Essa ocasião

118
[Link], Marilynne. Six women of Salem: the untold story of the accused and their accusers in the Salem
Witch Trials. Boston, Capo Press, 2013, p. 325
119
Idem, p.326
120
Idem, p.337
43
rendeu a Bridget uma humilhação em praça pública, pelo insulto a seu marido, acusação esta
vista como especialmente grave. Essa punição era conhecida como “lecture” uma espécie de
sermão que os ministros realizavam quando alguém descumpria alguma regra. Na obra Six
Women of Salem, a autora Marilynne K Roach descreve o ato e sua popularidade na cidade de
Salem: “Na nova Inglaterra estes sermões se tornaram uma ocasião social. A cidade de Salem
podia antecipar uma multidão nesse dia, e qualquer um que sofria essa punição podia esperar
um público para assistir”.121

Thomas morreu de alguma doença não mencionada no verão de 1679, e por uma falta
de testamento, os juízes da cidade concederam a herança à sua esposa. Um diferencial deste
processo foi que a corte permitiu o uso da casa e da propriedade para Bridget pelo resto de sua
vida, e não apenas durante sua viuvez, o que era o procedimento padrão na época. Desta forma,
Bridget ficou com a posse da casa em que viviam, um pedaço de terra, uma variedade de objetos
de casa, algumas galinhas e dois porcos. Todavia, Thomas já havia tido filhos de outro
casamento que não gostaram do fato de Bridget ter herdado seu patrimônio, mesmo que ela
também tivesse herdado as dívidas do marido. Ela precisou pagar o tratamento médico de
Thomas, alguns débitos que ele havia deixado na Inglaterra e os custos de seu funeral.122 Apesar
de não estarem listados como herdeiros, os filhos de Thomas também receberam uma quantia
do dinheiro. Ao se tornar viúva mais uma vez, Bridget passou por dificuldades financeiras que
perduraram pelo resto de sua vida.
A inimizade entre os filhos de Thomas e Bridget parece ter sido um ponto de partida
para que acusações de bruxaria caíssem nas costas da mulher. Apenas 3 meses após a morte de
Thomas, seus enteados a acusaram de o ter enfeitiçado até a morte. Entretanto, com a falta de
provas, isso foi visto como apenas uma tentativa desesperada de tomarem de volta às terras do
pai. Esse boato, todavia, voltou a ser mencionado ao iniciar o julgamento de Bridget.

3.2 Suspeitas e acusações

Para entender quais circunstâncias levaram ao veredicto de Bridget Bishop como a


primeira mulher a ser condenada à morte por bruxaria em Salem, primeiro torna-se necessário
entender todas as suspeitas e acusações que perseguiram Bridget pela cidade. Foram diversas

121
ROACH, Marylenne K. Six Women of Salem: The Untold Story of the Accused and Their Accusers in the Salem
Witch Trials. Boston, Capo Press. 2013, p. 348.
122
Idem, p. 375.

44
as situações misteriosas em que Bridget esteve envolvida, levantando suspeitas pelo vilarejo.
Além disso, Bridget era vista com maus olhos por toda Salem, pois todos sabiam de seu
histórico turbulento e personalidade forte. Algumas pessoas na cidade diziam que ela aparecia
em seus pesadelos, na forma de um espectro e os rumores sobre Bridget ser uma bruxa já
circulavam há anos pela cidade antes da acusação formal. O boato de Bridget ter enfeitiçado o
primeiro marido até a morte já era conhecido por todo o lugarejo. No ano de 1679 ela foi levada
perante a Corte sob a acusação de bruxaria e foi provavelmente pela boa defesa que seu pastor
John Hale fez a a seu respeito que ela foi liberada.123
Existem divergências entre a opinião de autores sobre o tema de Bridget ter praticado
ou não a bruxaria. O autor Chadwick Hansem de Witchcraft at Salem acredita que Bridget era
praticante da bruxaria maléfica, como cita na obra:

“Não existe, infelizmente, uma maneira de saber se Bridget estava ou não utilizando feitiços
contra Richard Coman, Samuel Gray ou John Louder. Mas seus testemunhos são evidência eloquente dos
poderes que acompanhavam uma reputação por bruxaria. E as bonecas, os pedaços de pano curtos demais
e o arranhão no rosto do filho de Shattuck sugerem que Bridget Bishop tinha continuamente buscado
poder, que ela era de fato uma bruxa, assim como a comunidade acreditava.”124

Em uma das primeiras acusações, um escravo da cidade a acusou de ter


enfeitiçado os cavalos de seu senhor. Ele afirmou que Bridget teria enfeitiçado os animais com
magia, os fazendo correr até um pântano. Além disso, ele também afirmou ter visto seu espectro
segurando alguns ovos roubados. Porém, não existem mais notícias sobre esse caso, sugerindo
que Bridget não chegou a ser julgada por essas suspeitas.125
Uma acusação importante foi feita pelo casal Samuel e Sarah Shattuck. O filho do casal
passou a agir de forma estranha e ter convulsões em 1680, pouco depois de Bridget ter pago a
Samuel algumas moedas por artigos comprados em sua loja. Na versão do Samuel, as moedas
sumiram, algo que foi interpretado por ele como magia. Com a doença repentina do menino,
uma pessoa sugeriu que o levasse até uma bruxa, pois acreditava-se que o garoto estava sob
efeito de bruxaria, e a maneira de reverter o feitiço seria arranhando o rosto da feiticeira que o
afligiu. Era uma crença comum acreditar que retirar sague de uma feiticeira reverteria seu
feitiço. Shattuck levou o menino até Bishop, que evitou ter o rosto arranhado, e além de tudo
arranhou o rosto do garoto, levantado a suspeita de que era de fato uma bruxa126. Logo, o casal
passou a espalhar essas histórias, e Bridget não gostou de ter seu nome vinculado a tais boatos.

123
HANSEM, Chadwick. Witchcraft at Salem. New York, George Baziller INC ,1985, p. 64.
124
Idem, p. 70.
125
K. ROACH, Marylenne. Six Women of Salem… [Link], p 385
126
HANSEM Chadwick. Witchcraft at Salem.. [Link]., p. 66.
45
Provando sua reputação como uma mulher de personalidade forte, Bridget tirou satisfação com
o casal, que julgou o tom da mulher como “ameaçador.”
Em 1682, dez anos antes de seu julgamento, Goody Whatfort acusou Bridget de ter
roubado uma colher, e mais uma vez, Bridget foi julgada como ameaçadora quando respondeu
a essa acusação. Whatfort também alegou que, após a ameaça de Bishop, a mulher passou a ver
seu espectro à noite.127 Torna-se claro que Bridget já tinha uma reputação ruim e uma imagem
de “mulher ameaçadora” dentro de Salem, além de ter criado uma reputação de ladra, pois esta
não foi a última vez que Bishop foi acusada de roubar.
Bridget se casou pela última vez em 1685, com Edward Bishop, um respeitado cortador
de madeira. O casal demoliu a antiga casa de Thomas, ex-marido de Bridget, a fim de utilizar
o terreno para construir outra moradia. Durante o processo de demolição, os trabalhadores
encontraram algo suspeito enquanto removiam a estrutura da casa: “Poppets”. Eram pequenos
bonecos, cujo objetivo era basicamente representar uma pessoa, algo parecido com bonecos
vudu.128 Eram muito associados ao trabalho de bruxaria. O autor Chadwick Hansem explicou
mais sobre o boneco em sua obra Witchcrafct At Salem: “A boneca com agulha é um clássico
encantamento de magia negra, e a enterrar em uma parede ainda era uma tática de bruxa, tal
encanto era encontrado nas paredes de cabanas inglesas no século XX”.129
Os bonecos que nunca foram provados serem da posse de Bridget, provavelmente já
estavam escondidos na estrutura da casa muito antes de Bridget viver ali, porém, mais uma vez,
outra circunstância misteriosa a rondava, inflamando novamente os boatos sobre bruxaria. Um
dos motivos que levam o autor Chadwick Hansen de Witchcraft at Salem a acreditar que Bishop
era de fato uma bruxa praticante é a existência desses bonecos. Enquanto Chadwick defende
que Bridget teria escondido os bonecos ali, outros autores já imaginam que os bonecos estariam
no sótão da casa muito antes de Bridget sequer viver ali, como é o caso da autora Marylenne
Roach, que descreve o que acredita ter acontecido em Six Women of Salem: “Os bonecos, se
reais, provavelmente haviam sido construídos na casa quando ainda era nova, e Thomas Oliver
havia tomado posse da casa antes de Bridget imigrar para Massachusetts.”130
Quando a cidade começou a comentar sobre o caso dos bonecos, mais pessoas
afirmaram ter visto Bishop em seus pesadelos. Um homem chamado Richard Coman alegou ter
visto Bridget entrar em seu quarto à noite, juntamente com outras mulheres que ele não conhecia.

127
K. ROACH, Marylenne. Six Women of Salem, [Link]., p. 418.
128
Idem, p. 423.
129
HANSEM, Chadwick. Witchcraft at Salem. New York, George Braziller INC, 1985, p. 65.
130
K. ROACH, Marylenne. Six Women of Salem.. [Link]., p. 419.

46
Ele alegou que Bridget teria agarrado sua garganta com força, o tirando da cama, e que seu
espectro apenas desapareceu quado fez a menção do nome de Deus.131
Um outro caso importante foi quando ela foi acusada de roubar um latão de moinho de
um homem local. O artigo apareceu no gramado de sua casa e Bridget acabou convencendo sua
filha a descobrir o que era. Quando sua filha foi até a cidade buscar uma resposta, perceberam
que era o artigo de um homem chamado Thomas Stacy e que a tal peça havia sido roubada.
Bridget se defendeu mais uma vez e disse que não havia furtado nada, muito menos admitiu ser
capaz de roubar algo, como seus acusadores estavam dizendo. Ela disse nunca ter visto o artigo
antes, e ficou curiosa para saber o que era, mas nunca teve a intenção de vender. O caso foi
fechado. 132
Em outra disputa, um homem chamado William Reeves tinha suspeitas de que Bridget
havia feito algum tipo de feitiço contra sua filha, uma bebê aparentemente saudável que faleceu
subitamente em 1690, depois de duas semanas chorando sem parar. William e Bridget já
possuíam atritos entre si, o que fez o homem acreditar que Bishop teria colocado algum tipo de
feitiço maléfico em sua filha. Na época, a morte repentina de bebês era vista como ato de
bruxaria, e muitas parteiras eram acusadas por participarem diretamente na relação com os
bebês e suas mães. Um homem chamado Samuel Gray também alegou ter uma experiência
parecida com seu bebê, quatorze anos antes dos julgamentos. De acordo com ele, ele havia
acordado e visto Bridget Bishop no quarto do bebê, olhando para seu berço. O bebê fez um
barulho como se estivesse sendo machucado e quando Samuel o pegou no colo, ele não
conseguia mais acalmar a criança, que desde então havia estado mal de saúde, vivendo por
meses em uma má condição até falecer. Um tempo depois Samuel alegou ter visto a mulher
novamente, e na época do ocorrido ele desconhecia seu nome, mas agora ele sabia que era
Bridget Bishop, de Salem.133
Bishop foi acusada de praticar bruxaria no dia 18 de abril de 1692, por Mercy Lewis,
Abigail Williams, Elizabeth Hubbard e Ann Putman Jr, as mesmas meninas que também
haviam acusado Tituba, Sarah Osborne e Sarah Good. Novamente, uma mulher considerada
“fora da norma” do vilarejo foi acusada, mais um alvo óbvio. Essa acusação, feita pelas meninas,
pode parecer aleatória, pois Bridget tinha muitos conflitos com diversas pessoas na cidade, mas
em momento algum havia sido mencionado um problema com as meninas que a acusaram. No
caso de Tituba, Sarah Good e Sarah Osborne, a acusação parecia fazer mais sentido, pois Tituba

131
Idem, p. 67.
132
K. ROACH, Marylenne. Six Women of Salem. [Link]., p. 439
133
HANSEM, Chadwick. Witchcraft at Salem. New York, George Braziller INC, 1985, p. 68.

47
morava na mesma casa que as meninas e ambas Good e Osborne tinham embate com Samuel
Parris, dono da casa onde tudo começou. Entretanto, Bridget não tinha conexão alguma com
eles, tampouco conhecia as meninas. Porém, mesmo com esse fator, as meninas que acusaram
Bridget pareciam perturbadas com a presença da mulher, como se ela causasse um grande
desconforto somente de estar no mesmo ambiente que as garotas. É necessário entender que o
maior motivo para Bridget Bishop ter sido condenada foi por conta de todas as outras situações
que ocorreram desde que ela chegou em Salem, um verdadeiro acúmulo de fatos estranhos e
brigas, porém a acusação feita pelas meninas também teve um papel central na condenação. Foi
como um caminho necessário para condenar uma mulher que já apresentava um histórico
turbulento e problemático. A autora Stacy Schiff de “As bruxas” sumariza a primeira interação
de Bridget no tribunal:
“Essas visões – e as brigas dos Bishop – eram bem lembradas, tanto que seu acusadores ainda
se referiam a ela como Bridget Oliver, sobrenome do primeiro marido. Segundo os relatos de Parris e
Cheever, as meninas se agitavam a cada movimento de Bridget, que afirmou nada conhecer do diabo
nem de suas acusadoras. Na verdade, não conhecia ninguém na sala, pois nunca morara na aldeia. Não
sabia dizer o que perturbava as meninas nem tinha dado consentimento a nenhum mau espírito para
assumir sua aparência. Não era bruxa nem sabia o que era uma bruxa.134”

A primeira examinação de Bishop aconteceu no dia 19 de abril de 1692, um dia depois


da acusação. Ela já demonstrava frustração de estar sendo acusada mais uma vez. O seu nome
era um dos que mais apareciam quando se falavam de bruxas. Na época dos julgamentos,
Bridget já era avó e tinha por volta de 50 anos. Ela já era conhecida por seu comportamento
hostil, e já de início fez uma observação para o magistrado Hathorne, dizendo que se ela fosse
uma bruxa, ele saberia. Obviamente, isso foi tomado como uma ameaça, algo que Bridget
também era famosa por fazer na cidade. Ela não parecia se assustar com acusações e sempre se
defendia.
No início do questionamento, os examinadores perguntaram às meninas Elizabeth
Hubbard, Abigail Williams, Ann Putman e Mercy Lewis, se Bridget as havia machucado. As
meninas afirmam que sim. Bridget se defende declarando que nunca havia visto essas meninas
antes e que ela nunca estivera naquele lugar. Sam Gold, encarregado de fazer os
questionamentos, inquiriu a Bridget se a perturbava ver as meninas afetadas daquele jeito, e ela
respondeu que não. Quando ele perguntou se ela supunha que as meninas estivessem sob o
efeito de bruxaria, Bridget disse que não saberia o que dizer sobre elas.135

134
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2019, p. 150
135
GOSS, David. Documents of the Salem Witch Trials. California, ABC-CLIO. 2018

48
Uma questão central para entender a acusação é que Bridget não era como as outras
mulheres de Salem. Ela não era o tipo de mulher que abaixava a cabeça quando o marido lhe
dizia coisas horríveis; ela respondia. Ela usava roupas mais coloridas, como um corpete
vermelho e fazia coisas que outras mulheres não faziam, como se divertir e beber com os
homens. O tema das roupas que Bridget usava aparece de forma recorrente, pois muitos em
Salem diziam que ela utilizava roupas chamativas. A autora Marylenne Roach defende a ideia
de que talvez Bridget colocasse alguns enfeites decorativos em suas roupas, como uma forma
de remendar uma peça velha que estivesse rasgando136. Talvez na juventude tivesse sido uma
bela mulher que despertava o interesse masculino. Frente a situação criada, foi “natural” que
ela fosse acusada de bruxaria, afinal, ela nunca correspondeu ao padrão desejado da norma
puritana de Salem. Sua personalidade forte foi confundida com malícia, e quando foi acusada,
não houve ninguém que presumiu sua inocência.
Ao não corresponder à imagem que seria vista como “correta” de uma mulher dentro da
sociedade, entendemos como o patriarcado teve uma participação expressiva dentro da caça às
bruxas em Salem. Para a historiadora Rose Marie Muraro, a sociedade passou a enxergar a
mulher com outros olhos a partir do início das guerras. Antes, a mulher era vista como um ser
sagrado, a provedora da vida. Entretanto, conforme os anos foram passando e as guerras se
tornando cada vez mais comuns, dando ao homem um papel de liderança, o homem passou a
ser protagonista e a reter o “poder cultural” enquanto a mulher passou a deter apenas o “poder
biológico.” Dentro dessa lógica, a harmonia de antes passou a ser rompida e o homem assumiu
o controle sobre todos os aspectos da natureza, tomando posse também da sexualidade feminina.
Assim, a expectativa colocada na mulher se torna apenas uma: obedecer seu marido e lhe
entregar o que ele deseja, herdeiros.137
A autora Francis Hill sumariza bem a ideia da aversão à mulher independente ao
escrever:
“Na Nova Inglaterra muitas mulheres acusadas de bruxaria eram mulheres que eram
economicamente independentes de homens. Isso não quer dizer que elas eram afluentes, elas eram, na
maioria das vezes, mais pobres. Mas elas não tinham pais, maridos, ou irmãos, portanto estavam em
controlar da suas próprias finanças. Tal independência era rara, a aqueles que gozavam disso pareciam
mais perigosos para a ordem social estabelecida138.”

Uma explicação que a autora Frances Hill buscou para entender o porquê das mulheres
que viviam sozinhas exercerem um efeito estranho na população é que, quando a percentagem

136
K. ROACH, Marylenne. Six women of Salem… [Link]., p. 472.
137
MURARO, Maria. In: Breve introdução histórica, “O martelo das Feiticeiras”. Rio de Janeiro,BestBoslo,
[Link] 6
138
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link]., p. 71.

49
de mulheres viúvas aumentou durante a Idade Média, elas passaram a ser vistas com um olhar
de estranheza, pois não correspondiam a norma de família patriarcal da época.139 Isso pode
explicar também porque a imagem de uma bruxa foi largamente associada a uma velha
solteirona, algo que perdurou o imaginário popular durantes muitos anos, e é visto até hoje em
filmes. Se uma mulher não tinha um marido ao seu lado, ela já estava vivendo da maneira errada,
e isso já era suficiente para despertar boatos.
Bridget pode ser lida como um exemplo dessas mulheres, pois, apesar de ter se casado
com Edward Bishop, ela mantinha certa independência em suas finanças. Como uma forma de
ganhar um dinheiro extra e garantir sua sobrevivência, ela utilizou a casa de seu segundo marido
como uma espécie de hotel na cidade, recebendo diversos hóspedes e sempre se propondo a
tornar o ambiente divertido, fosse com músicas, bebidas ou danças. Aquilo foi mal visto, pois
era uma mulher administrando um local cheio de homens, música e bebida. Na época, qualquer
traço de independência em uma mulher já era visto de uma forma estranha, afinal, era esperado
que ela não tivesse vida fora de seu casamento e de suas tarefas como mãe.
É dentro dessa lógica que podemos entender como mulheres como Bridget Bishop
foram alvos óbvios dentro da sociedade. Ao responder a seu marido, motivo pelo qual gerava
brigas, evidenciava que Bridget não aceitava a submissão, o que era algo desejado pela
sociedade da época. Além disso, Bishop tinha um comportamento muito diferente do resto das
mulheres da cidade. Em Salem, onde o único papel esperado de uma mulher era o de ficar em
silêncio e cuidar dos filhos, Bridget assumiu um destaque, considerado negativo com suas ações
que iam além da lógica patriarcal. Ela era conhecida por sua personalidade forte, por não ter
medo de ninguém e por sempre ir atrás da verdade quando julgava ser acusada de forma injusta.
Dois meses depois de sua primeira acusação formal de praticar bruxaria, no dia 10 de
junho de 1692, Bridget teve seu intimação final, acusada de usar certos tipos de bruxaria,
machucando o corpo das meninas que a acusavam, as atormentando. No total, mais de 10
testemunhas disseram que Bridget tinha lançado feitiço sobre eles e alguns até chegaram a dizer
que ela havia enfeitiçado também seus animais.
Depois de presa, foi realizado um exame médico em busca de “marcas de bruxa” ou
“mamilos de bruxa.” De acordo com a autora Stacy Schiff em sua obra “As bruxas: Intriga,
traição e histeria em Salem”:

“Nem havia orientação quanto ao que procurar: picada de pulga, verruga, pinta ou qualquer
proeminência ou descoloramento podiam ser qualificados de mamilo. As parteiras cutucavam e

139
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link], p. 77.
50
pressionavam, testando a sensibilidade com alfinetes ou agulhas; era preciso esperar que o ferimento
sangrasse.140”

Durante esse exame encontraram um “excesso de pele na região entre a genital e


o ânus, não comum em mulheres.”141 Seis horas depois foram examinadas novamente e foi
constatado que Bishop estaria livre de “qualquer marcas de bruxas” e que aquele excesso de
pele seria apenas pele seca.
Bridget Bishop e outras mulheres em Salem tiveram o mesmo destino: Foram presas,
sem o direito de defesa, foram despidas, humilhadas, longe de seus filhos, longe de qualquer
tipo de afeto, em condições precárias em uma prisão fria e sobrevivendo a todo tipo de violência
de seus acusadores.
A transcrição de parte da arguição feita a Bishop diz muito a respeito da violência e
coerção a que eram submetidas estas mulheres:
Hathorne: Eles dizem que você enfeitiçou seu primeiro marido até a morte.
Bishop: Eu não sei nada sobre isso.
Hathorne: Braybook afirmou que ela disse para ele que ela era uma bruxa por 10 anos,
e que o Diabo não pode machucá-la.
Bishop: Eu não sou uma bruxa.
Hathorne: Se você não escreveu no livro, o quão longe você foi? Você é familiar com
os espíritos? (se referindo ao livro das sombras, onde uma bruxa colocaria sua assinatura
depois de fazer um pacto com o Diabo.)
Bishop: Eu não tenho familiaridade com o Diabo.
Hathorne: Como é então, que sua aparição machucou estas? (se referindo as meninas
que fizeram a acusação)
Bishop: Eu sou inocente. Eu sou inocente de ser uma bruxa. Eu não sei o que é uma
bruxa.
Hathorne: Como você sabe então que não é uma bruxa?
Bishop: Eu não sei o que você diz.
Hathorne: Como você pode saber que não é uma bruxa se não sabe o que é uma bruxa?
Bishop: Estou sendo clara. Se eu fosse tal coisa você saberia.
Hathorne: Você pode ameaçar, mas você não pode fazer mais do que é permitido.
Bishop: Eu sou inocente de ser uma bruxa.
(Fonte: GOSS, David. Documents of the Salem Witch Trials. ABC-CLIO, Califórnia, 2018.)

O julgamento de Bishop durou apenas um dia. Estavam presentes sete juízes e o


governador de Salem, Stoughton. Bridget se disse inocente, mas foi considerada culpada pelo
júri em cinco acusações diferentes, e sua sentença foi de morte por enforcamento. Três décadas
de boatos haviam se acumulado contra ela. Diversas testemunhas alegavam os mais estranhos
casos. Uma testemunha disse que Bridget ameaçou-a afogar em um rio, outra falou que Bridget
se gabava de diversos assassinatos. Uma mulher chamada Delivenrece Hobbs até mesmo disse

140
SCHIFF, Stacy. As bruxas... op. cit, p. 238
141
GOSS, David. Documents of the Salem Witch trials. Califórnia, ABC-CLIO, 2018.

51
que Bridget a espancou com barras de ferro e Susannah Sheldon disse que Bridget já era bruxa
há mais de trinta anos, e que ela se ajoelhava diante de um homem negro com chapéu142. Muitas
das acusações não eram recentes, como a acusação de Bishop ter espancado o filho de Samuel
Shattuck, doze anos antes do julgamento. Além disso, surgiram outras acusações de pessoas
que a viram atravessar portas e janelas trancadas, aparecer em lugares misteriosos, até mesmo
em cima de árvores. Alguns homens chegaram até mesmo a alegar terem participado de casos
íntimos com Bridget, e disseram que ela tinha o hábito de aparecer no quarto de rapazes, algo
que Bridget negou veementemente.143 Parecia que de nada ia adiantar; ninguém fornecia uma
prova qualquer, mas o júri tomava cada palavra como verdadeira.
O governador Stoughton teve tempo para deliberar, e mesmo sem uma confissão direta,
que era a maneira mais efetiva de chegar a um veredito na época, havia uma verdadeira mina
de ouro de provas contra Bridget. O veredicto final foi lido. Ela foi considerada culpada de
práticas de bruxaria contra as meninas, bem como em diversas outras circunstâncias antes.
Bridget retornou à prisão, onde passou por uma segunda revista e já não encontraram mais
“marcas de bruxa.”144
Bridget permaneceu seis semanas em uma cela imunda, passando fome e frio,
provavelmente com medo de seu destino. Por serem consideradas as prisioneiras mais perigosas,
as acusadas de bruxaria eram mantidas nos calabouços das prisões, um lugar frio e
extremamente húmido. Seus movimentos eram restritos por correntes e eram tratadas de forma
sádica pelos guardas. 145
A autora Stacy Schiff expõe a árdua realidade da prisão de Salem em sua obra “As
bruxas”:
“Fazia um frio insuportável nas prisões, a tal ponto que no meio do inverno as autoridades não conseguiam
manter os presos no lugar. Em dezembro de 1685, o pai de Hathorne despachara um ladrão de cavalos
para Barbados, convencido de que o homem morreria congelado se continuasse preso. O vento varria as
estruturas gastas, a maresia em tudo penetrava. Embora o inverno de 1692 tenha sido ainda mais frio, as
bruxas não foram liberadas. Nas instalações mais sofisticadas da Nova Inglaterra, Andros deposto e seu
procurador podiam contar, em 1689, com pelo menos quinze centímetros de água dentro da cela quando
chovia (…) A cadeia de Salem era um pouco melhor. A instalação, de quarenta centímetros, tinha um
calabouço sem luz onde George Burroughs passou a primavera e o verão, e no qual só podia se sentir
‘enterrado vivo.’ A prisão já havia sido descrita como ‘um lugar barulhento, impróprio para um cristão
respirar146.”

142
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2019, p. 240
143
HILL, Frances. A desolution of Satan: The full story of the Salem witch trials. Boston, Capo Press. 2002 pg
304
144
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria... [Link], p 245
145
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link]., pg. 187
146
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2019. Pg 219

52
Assim como foi o caso das outras pessoas acusadas de bruxaria, Bridget foi deixada à
própria sorte, mesmo tendo protestado a sua inocência, mas pressentia que o veredito final já
havia sido selado há muito tempo. Acumulando inimizades e conflitos desde que chegou em
Salem, Bridget não tinha quem a defendesse, tampouco poderia contar com o apoio de
familiares ricos ou influentes. Não houve um debate, nem a presença de testemunhas de defesa.
Bridget estava sozinha contra um vilarejo inteiro que a acusava, inventando histórias
mirabolantes e absurdas, que em momento algum precisaram de provas para serem lidas como
verdade absoluta. Cotton Mather, homem responsável por registrar os julgamentos, escreveu:
“Havia pouca necessidade de provar a bruxaria, sendo ela evidente e notória para todos os
presentes.”
A autora Stacy Schiff, de “As bruxas” escreveu sobre o momento em que Bridget foi
acusada:
“Bridget foi conduzida a sala do tribunal para a acusação. Um escriturário da corte a chamou pelo nome,
ela deu um passo à frente e ergueu a mão para confirmar sua identidade. Foram lidas as acusações. Como se
declarava? Bridget não tinha escolha senão falar em seu nome, não havia ninguém para defendê-la. Na Nova
Inglaterra daquela época, não se apreciavam os advogados, e Newton era o único formado em direito na sala.
Considerava-se que a pessoa inocente seria capaz de defender seu caso melhor que qualquer outro; deixada
a própria sorte, a culpada não poderia esconder a verdade. Com quase sessenta anos, Bridget Bishop passara
seis semanas com parca alimentação, numa cela suja e úmida. Diante da corte, apresentava-se imunda e
faminta, sob intenso escrutínio, uma mulher amarga147.”

Tamanha era a certeza de todos na aldeia de que Bishop era uma bruxa, e havia sido
uma bruxa desde que chegara em Salem, que algumas testemunhas do caso nem chegaram a
depor148. Todas as acusações, desde aparecer misteriosamente na forma de espectro, de roubar
artigos, de ter escondido bonecos enfeitiçados, até de machucar crianças já haviam sido lidas
como prova mais que suficiente de bruxaria. Mesmo que Bridget não fosse a responsável por
afligir as meninas, não poderia ser inocente de seus outros crimes. Bridget sabia que seu nome
despertava ira e boatos, e havia clamado diversas vezes para que limpassem seu nome, mas não
havia adiantado. Mesmo sozinha, ela tentou se defender, rebatendo histórias mirabolantes que
trouxeram à tona no tribunal, dizendo que, muitas das pessoas que a acusavam de coisas
horríveis, ela nem mesmo as conhecia.
Até mesmo ao ser aprisionada, Bishop continuou a ser acusada de malefícios como
escreveu Paul Boyer em seu livro Salem Possessed: “Foi largamente notado que enquanto
Bridget Bishop era encaminhada para a corte da cidade de Salem, ela lançou um olhar sob um

147
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga traição e histeria em Salem. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2019, p.239
148
Idem.

53
lugar de adoração do outro lado da rua e naquele exato momento, uma pesada madeira do
telhado veio esmagando até o chão.149”
Esses casos eram comuns dentro de acusações de bruxaria, onde o acusado praticaria
atos mágicos e mirabolantes na frente de todos, provando que era bruxo. Provavelmente, tudo
não passava de coincidência, como uma pedra rolar depois que alguém olhou para alguma coisa.
Mas, para os habitantes de Salem, qualquer ato minimamente fora do comum já poderia ser
considerado uma obra do Diabo.
George Corbin, sobrinho do juiz Corbin, foi o responsável por fazer os arranjos para o
transporte de Bridget até o local de sua execução. No dia 10 de junho, as oito da manhã, ela foi
levada em um carro aberto, atravessando a rua principal de Salem. Chegaram até um morro
bem alto, onde seria realizado o enforcamento. Esse morro viria a ser conhecido como “Witches
Hill” (morro das bruxas) por marcar o lugar de execução de diversos acusados de bruxaria.
Como era a primeira pessoa a ser morta em decorrência dos julgamentos, sua morte deveria ser
o mais pública possível, para que servisse de exemplo para qualquer outra bruxa na cidade.
Serviria para mostrar que aquele seria seu destino: enforcada em público150. A autora Stacy
Schiff de “As bruxas: Intriga, traição e histeria em Salem” escreveu sobre a morte de Bridget:
“Um evento desse tipo era horrendo a ponto de se tornar irresistível e servia para a instrução
moral. Era o tipo de coisa a qual se levavam os filhos, que aprendiam palavras como
“abominação, humilhação, mortificação, purificação. A atmosfera era de carnaval151.”
O pastor de Bridget, John Hale, disse algumas palavras antes do enforcamento, seguido
de zombaria dos habitantes de Salem. Sua morte foi um verdadeiro espetáculo público, e nem
mesmo em seus últimos momentos Bridget teve direito à dignidade ou privacidade. As meninas
que a acusaram observaram-na na multidão, juntamente com outros acusadores, que sem dúvida
estavam muito satisfeitos com o destino de Bishop. O espetáculo público durou pouco, e logo
o corpo sem vida da mulher balançava pendurado pela corda. Em uma atmosfera de alívio,
todos seguiram para suas casas, pensando que o mal estava sendo exterminado.
Por ser considerada bruxa, Bridget não teve o direito de ser enterrada num cemitério
comum, sendo enterrada no mesmo lugar de sua execução, em uma cova provavelmente perto
do morro. Edward Bishop, seu marido, e sua filha, Christian não compareceram à execução.

149
BOYER, Paul. Salem Possessed. Massachusetts, Harvard University Press, 1974.
150
SCHIFF, Stacy. As bruxas: intriga .... [Link], p. 248
151
Idem

54
No dia 10 de junho de 1692, ao meio dia, a cidade de Salem condenou à morte uma
mulher comum, uma mãe e avó, que foi julgada sem prova alguma, se defendendo sozinha, sem
o direito de um advogado, de alguém que a ajudasse. A morte de Bridget foi a primeira morte
na histeria coletiva que viveu a cidade de Salem. Sua morte representa a letalidade de
julgamentos injustos, sem provas, sem defesa, sem amparo. Se Bridget fez parte de um processo
maior que buscava, acima de tudo, assassinar reputações e se livrar de mulheres polêmicas em
Salem, não existe maneira de saber ao certo. Mas a história mostrou que tudo que aconteceu
em Salem não bastou de uma fantasia que o vilarejo viveu, inventado por crianças e inflamada
por autoridades. Bridget Bishop poderia ser uma mulher amargurada, afinal, sua vida não foi
fácil, mas dificilmente era uma bruxa. Ela era mãe, avó, esposa, mulher, trabalhadora. Bridget
Bishop saiu da Inglaterra em busca de uma vida melhor e encontrou apenas desafetos em seu
caminho, acusações absurdas, pessoas que a odiavam, casamentos abusivos e esposos que a
surravam.
Cinco dias depois da morte de Bridget, os ministros de Boston mandaram uma carta ao
governador, pedindo para que seguisse os julgamentos com cuidado, porém ainda de maneira
ágil.152
Atualmente, a cidade de Salem possui um memorial para Bridget, a primeira mulher a
ser morta nos julgamentos de bruxaria. No site oficial da cidade, hoje em dia conhecida como
um destino turístico para os amantes do Halloween, do místico e do oculto, eles a descrevem
como uma sobrevivente do abuso doméstico, que teve um destino injustiçado. Além disso, eles
fizeram um túmulo em sua homenagem, onde visitantes podem colocar flores. Bridget é
lembrada até os dias de hoje como uma mulher forte e independente, que partiu de forma injusta
e teve seu nome manchado na cidade por acusações que são impossíveis de saber ao certo se
são reais ou não. O que se pode saber, de fato, é que o que aconteceu com Bridget e com as
outras pessoas condenadas em Salem, é que tiveram um julgamento injusto e sofreram tortura
na prisão, mesmo que algumas vezes não utilizassem força física. Manter uma pessoa num
calabouço frio, com fome, sede e medo, está longe de ser o equivalente a qualquer crime que
poderia ter sido cometido em Salem. Não se pode dizer com certeza se Bridget Bishop praticava
algum tipo de magia, fosse essa magia branca ou maléfica, ou se ela de fato machucou alguém
naquele vilarejo, mas Bishop não merecia a morte, fosse esse o caso. Ela merecia um
julgamento justo, com a presença de testemunhas de defesa, provas, debate. Não houve nada

152
HILL, Frances. A desolution of Satan… [Link], p. 305

55
disso, e morreu de maneira humilhante, com a cidade inteira zombando e apontando dedos,
como haviam feito desde que Bridget chegou a Salem, em busca de uma vida melhor.

56
CONCLUSÃO

Ao longo dessa monografia, apresentei as problemáticas cercando a questão da bruxaria


e todas as questões envolvendo a figura da mulher, o papel da Igreja e a misoginia. O objetivo
final era entender toda a relação entre mulheres e bruxaria, e como essa questão estava presente
nos julgamentos de Salem, principalmente no julgamento de Bridget Bishop.
Tornou-se claro que, com a perpetuação de um discurso misógino, que colocava a
mulher como culpada pela desgraça humana desde o Pecado Original, a figura da mulher foi se
aproximando de algo negativo, de uma figura vil e maliciosa, que tem a intenção permanente
de tentar o homem, bem como Eva tentou Adão. Sendo apresentada como inferior ao homem,
a mulher não teria a mesma força mental e por isso cairia em tentação mais facilmente, se
tornando um alvo preferencial da figura do demônio, que buscaria, de acordo com a crença
cristã, colecionar o maior número de almas possíveis, em uma busca para causar a destruição
na terra. Facilmente corrompida por promessas de luxos e poder, a mulher se tornaria a principal
aliada do demônio nessa missão, vendendo sua alma em troca de poderes mágicos. Assim,
propagou-se a ideia de que a grande maioria daqueles que praticavam bruxaria eram mulheres.
Esse imaginário a respeito da mulher viaja da Europa para as colônias britânicas, quando
muitos ingleses puritanos foram até Massachusetts para poder exercer sua religião de forma
livre, sem censura. Ao colonizar a pequena aldeia de Salem, a população vivenciou choques
violentos com nativos americanos, o que acarretou um estado de pânico crescente e ansiedade
na vida da comunidade. Cercada por florestas, com medo da violência dos nativos e com seus
ideais extremistas puritanos, a população de Salem vivia centrada na religião, e qualquer um
que fugisse daquele padrão se tornava um estranho. A interpretação do fenômeno ocorrido com
as crianças foi a de possessão dada pelo pastor local, e a única explicação possível, oferecida
pelo próprio médico da cidade, foi a de bruxaria. Com o pânico já instaurado, eles buscam nas
mulheres fora do padrão uma resposta para todo aquele mal, as acusando de bruxaria. Assim,
como como outras mulheres pobres, sozinhas e doentes as acusadas foram Sarah Good e Sarah
Osborne. A primeira mulher a ser morta, Bridget Bishop, também se encontra num campo não
tradicional do modelo familiar da época: uma velha de poucos amigos, que já passara por
casamentos conturbados e parecia viver fora da norma requisitada da cidade, com suas roupas
coloridas e sua personalidade forte. O estereótipo de bruxa se encaixa perfeitamente na figura
de Bishop, que é sentenciada a morte num julgamento injusto e repleto de acusações que não
poderiam ser provadas.
57
Por fim, entende-se que podemos observar toda a construção da figura do mal e da
bruxaria nos tribunais de Salem. Toda a tradição cristã medieval ajudou a construir e disseminar
a imagem da mulher que é agente do diabo. O caso ocorrido em Salem atualiza toda uma
tradição que hostilizou as pessoas diferentes, conseguiu perpetuar um pensamento de
exterminação de mulheres estranhas, que não viviam dentro da norma patriarcal. Torna-se claro
que o que aconteceu em Salem foi uma consequência direta de um projeto cristão que tinha
como objetivo desqualificar a imagem da mulher, num processo que surgiu com a expansão do
cristianismo, em uma missão para demonizar e aniquilar todos aqueles que ameaçassem o
projeto de impor um pensamento único e o domínio sobre as mentes e os corpos. As mulheres
foram, entre outros grupos, as que mais sofreram nas mãos de católicos e protestantes, estes
ameaçados pelo medo do diferente, do imponderável e do misterioso.

58
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