A Cooperação Marítima Brasileira e a Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa como Instrumento de Projeção Internacional
Allan Antunes, Fabíola Barros, Francyne Motta e Yuri Medeiros
Graduandos em Relações Internacionais
(Instituto de Estudos Estratégicos/Universidade Federal Fluminense – INEST/UFF)
Pesquisadores Voluntários
(Laboratório de Simulações e Cenários/Escola de Guerra Naval – LSC/EGN)
RESUMO: O presente artigo possui como objetivo analisar o
papel da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
como instrumento para a cooperação marítima brasileira e,
consequentemente, sua projeção internacional. Para isso, esse
trabalho baseia-se nos diagnósticos dos diplomatas João Almino
e Sérgio Eduardo Moreira Lima sobre o efeito dessa
organização para a institucionalização da cooperação Brasil -
África. Do mesmo modo, apresenta-se o ponto de vista dos
cientistas políticos Adriana Abdenur e Danilo Neto para
sustentar o debate acerca da cooperação em defesa,
especialmente no Atlântico Sul. Assim, através de exemplos de
acordos no âmbito marítimo tanto intra-CPLP quanto entre seus
países membros, bilateralmente, conclui-se que é necessário
enxergar a organização de forma mais estratégica, para além da
questão da lusofonia. No mais, são apresentadas considerações
sobre a crescente presença chinesa no continente africano e as
consequentes dificuldades para uma maior inserção brasileira na
região.
Palavras-chave: CPLP. Cooperação. Institucionalização.
Defesa. Marítimo. Acordos.
1 INTRODUÇÃO
O interesse brasileiro em se tornar um ator protagonista nas relações internacionais
levou o país a assumir um papel de liderança nos assuntos relacionados à cooperação e a
remodelar a importância geopolítica de seu entorno estratégico. A cooperação
horizontal, ou Sul-Sul, se torna, então, uma das principais ferramentas para viabilizar
sua inserção como um global player, tendo a África como região de grande potencial de
atuação e projeção para além de seu espaço continental. Desta maneira, o Atlântico Sul,
em especial a costa ocidental africana, torna-se espaço prioritário nas diversas linhas de
ação, como a política, econômica e de defesa. Em grande parte, isto está amparado na
vocação marítima brasileira, justificada pela necessidade de salvaguardar e defender não
somente uma costa litorânea extensa, como riquezas naturais e minerais em sua
plataforma continental atlântica. Corroborando esse pensamento, serão apresentados
exemplos dessa exteriorização no âmbito da Cooperação em Defesa, especificamente
entre Marinhas. Simultaneamente, o processo de reformulação da Política Nacional de
Defesa acompanha a mudança nas prioridades geopolíticas e temáticas da política
externa do Brasil de modo a atuar em conjunto.
Dentro deste cenário, o presente trabalho busca destacar a intensificação da
atuação brasileira nas iniciativas multilaterais como maneira de alcançar os novos
objetivos de sua política externa, tendo como marco temporal o final da década de 1990
aos dias atuais, tendo maior exame o primeiro decênio do século. Deste modo, será dado
enfoque a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) como viabilizador
inicial para a efetiva presença brasileira no continente e mecanismo pelo qual teve-se a
institucionalização da cooperação horizontal do Brasil na África. Serão utilizados, ainda
como referência para análise, os diálogos e acordos celebrados em matéria de segurança
e defesa dando foco analítico para a atuação da Marinha do Brasil (MB). Para isso, será
necessário expor brevemente o funcionamento da CPLP e a maneira pela qual a
comunidade serviu como vetor da institucionalização da cooperação brasileira no
continente, baseando-se em diagnósticos dos diplomatas João Almino e Sérgio Eduardo
Moreira Lima. Dando continuidade, será apresentado o ponto de vista dos cientistas
políticos Adriana Abdenur e Danilo Neto para sustentar os exemplos e aprofundar os
debates acerca da cooperação em defesa entre Brasil e África.
Em última instância, o estudo pretende indagar sobre as dificuldades internas e
externas à CPLP para uma efetiva penetração e predominância da presença brasileira na
África. Para tal, são apresentados debates internos à organização relativos às
dissidências quanto a diferentes graus de protagonismo e liderança entre seus
constituintes, bem como às questões geopolíticas de atores externos à organização
ocupando espaços deixados por eventuais falhas de pouca ou nenhuma
institucionalização.
2
2 A COMUNIDADE DE PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – conjunto de nações
que se uniram em prol da herança histórica, idioma e desejo comum de
desenvolvimento – foi idealizada muito antes da sua efetiva criação. Após discurso
proclamado pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Jaime Gama, o
desejo de avançar na ideia da constituição de um grupo dos países de língua portuguesa
ficou mais latente. Esse discurso ocorrera ainda em 1983, após visita do Ministro à
Cabo Verde.
Entretanto, somente na década de 1990, esse desejo ganhou forma. Alguns
processos para concretizar a formalização da CPLP foram necessários, como a
realização do encontro dos Chefes de Estado dos países de língua portuguesa. “O
primeiro passo concreto no processo de criação da CPLP foi dado em São Luís do
Maranhão, em Novembro de 1989” (CPLP, 2019). Países como Brasil, Cabo Verde,
Angola e Moçambique tiveram representantes nesse encontro. Nessa reunião, o Instituto
Internacional da Língua Portuguesa foi criado, visando difundir o idioma comum entre a
lusofonia. Esse momento foi fundamental para a realização de uma nova reunião de
ministros dos países em 1994, na qual decidiram recomendar aos seus respectivos
governos a adoção do ato constitutivo da CPLP.
Os ministros se reuniram novamente em 1995, mas só em 1996 a CPLP foi
concretizada. Segundo Ribeiro (2010, p. 99):
A Comunidade de Países de Língua Portuguesa – CPLP foi oficialmente
criada em 17 de julho de 1996 pela congregação dos sete países do globo que
têm o português como língua oficial – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-
Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, registrando-se a
inclusão do Timor Leste em 2002.1
A partir de 1996, os então sete países passaram a compor esse grupo, com
Estados situados em quatro continentes, consolidando “uma realidade já existente,
resultante da tradicional cooperação Portugal-Brasil e dos novos laços de fraternidade e
cooperação que (...) se foram criando entre estes dois países e as novas nações de língua
oficial portuguesa” (CPLP, 2019). Assim, a CPLP se configura como uma instituição
multilateral, que tem peculiaridades que se distinguem de outras organizações, como
seus pares da anglofonia e da francofonia. Essas especificidades residem, além dos
próprios princípios de política externa, na aposta da Comunidade no multilateralismo:
seus países, por serem menos desenvolvidos em sua maioria, necessitam dessa parceria
para uma melhor inserção no sistema internacional. Conforme afirma Monteiro (s.d., p.
50), há nas nove capitais uma importância crescente dessa consciência: a CPLP pode e
deve constituir uma instância multilateral suis generis, com característica próprias
inovadoras na cena internacional. Nesse ínterim, se adequam princípios basilares da
cooperação horizontal, sobretudo os que apontam que copiar estruturas introduzidas no
modelo colonial (ao que se convenciona localizar como eixo Norte) condenam países
em desenvolvimento, que compartilham desse passado, a uma situação de
subalternização constante.
1
Guiné-Equatorial consta enquanto membro mais recente da organização, incluído em setembro de 2014
pela X Cimeira da CPLP, realizada em julho do mesmo ano.
3
Figura 1- Mapa dos Países Membros da Comunidade (Azul), Observadores (Verde) e Interessados
(Amarelo).
Fonte: CPLP
2.1 ESTRUTURA
A CPLP é uma instituição que vem se organizando e se estruturando desde a sua
constituição. Isso se dá devido à vontade política dos Estados que compõem o
organismo, tendo em vista também os desejos de seus cidadãos. É, portanto, uma
instituição que tem se esforçado para evoluir no âmbito de suas estruturas. Em números,
o investimento de seus membros na consolidação do órgão resulta em um território
somado de 10.697.186 km2 e que, em dados de 2015, reunia uma população residente
de mais de 260 milhões de habitantes. De seus Estados, todos são membros costeiros ou
insulares, o que ressalta a importância da cooperação marítima.
Assim como outros organismos, a CPLP tem se adaptado ao longo dos anos, de
forma a harmonizar políticas, manter procedimentos comuns e cooperar em diversos
âmbitos como Educação, Meio Ambiente e Forças Armadas. Essas adaptações
permitem que a CPLP continue crescendo e conquistando maior espaço no contexto do
Sistema Internacional.
Para que a Comunidade permaneça se atualizando, então, é necessário um
quadro de profissionais que renovem seus Estatutos. A CPLP é regida por um
Secretariado Executivo, situado em Lisboa, responsável por construir os planos
políticos e implementá-los, em mandato de dois anos, passível de reeleição. No ato da
criação da CPLP foram estabelecidos os seguintes órgãos: Conferência de Chefes de
Estado e do Governo, Conselho de Ministros, Comitê de Concertação Permanente e o
Secretariado Executivo. Posteriormente, foram adicionadas as Reuniões Ministeriais
Setoriais, Reunião dos Pontos Focais de Cooperação, Instituto Internacional de Língua
Portuguesa e a Assembleia Parlamentar (CPLP, 2019).
4
Cada um desses órgãos tem competências distintas. A Conferência dos Chefes
de Estado e de Governo, reúne-se bianualmente, podendo ocorrer extraordinariamente
quando solicitada por dois terços dos Estados membros. O Comitê de Concentração
Permanente, constituído por um representante de cada um dos Estados membros da
CPLP, reúne-se ordinariamente uma vez por mês e extraordinariamente sempre que
necessário, nas quais as decisões são tomadas por consenso. Por outro lado, o Conselho
de Ministros, que coordena as atividades da CPLP, comandado por um Presidente com
mandato de dois anos, reúne-se uma vez por ano e extraordinariamente quando
solicitado por dois terços dos Estados membros. (CPLP, 2019)
A CPLP, inicialmente, constituía de sete Estados (Angola, Brasil, Cabo Verde,
Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe). Em 2002, Timor Leste
foi acolhido após conquistar sua independência e, em 2014, Guiné Equatorial aderiu
enquanto membro mais recente. Portanto, atualmente os Estados membros totalizam
nove. A bandeira da Comunidade ostenta oito asas ao redor de um círculo,
representando cada membro da CPLP. Em 1996, os então sete membros fundadores
assinaram a Declaração Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa,
marco fundacional da organização.
Finalmente, como é notável, a CPLP é composta majoritariamente por Estados
africanos. Vale destacar que esse fato se apoia por se tratarem de ex-colônias de
Portugal, país que iniciou a difusão da língua portuguesa. Apesar desse passado, os
países uniram-se nessa instituição, objetivando cooperação e desenvolvimento
multilateral, constituindo hoje a Comunidade como um ator de influência crescente no
sistema internacional.
3 INSITUICIONALIZAÇÃO DA COOPERAÇÃO BRASILEIRA NA ÁFRICA
A filiação brasileira à Comunidade, ao passo que angaria vantagens à projeção
internacional do país, também apresenta desafios de origem conjuntural e estrutural, os
quais se projetam nas esferas tanto interna, quanto externa. Visto o âmbito regional
africano, que concentra a maior porcentagem de países membros, a intensificação da
cooperação encontra barreiras relativas ao aumento da presença não lusófona no
continente, especialmente quanto às intenções de países asiáticos e europeus em
participarem da organização enquanto observadores. Empiricamente, as inclinações
para que a CPLP adote uma nova identidade, ou mesmo um novo propósito enquanto
organização internacional2, foram apresentadas pela antiga secretária-executiva da
Comunidade, Maria do Carmo Silveira, que, em entrevista concedida em 2018 ao
periódico lusitano Observador, afirmou:
2
Esse perfil de mudanças institucionais graduais já pôde ser observado na Organização Internacional da
Francofonia (1987), Commonwealth das Nações (1931) e Conselho Internacional da Língua Árabe
(2008).
5
Para os países africanos membros, a CPLP não deve continuar focalizada
apenas na língua portuguesa, como há 20 anos. O critério exclusivamente
linguístico deixa de ser sentido. Outras organizações já existentes com base
nesse critério adaptaram-se e alteraram a sua composição e os seus objetivos
estratégicos. (...) a CPLP deve adaptar-se às profundas alterações na
conjuntura política e econômica interna dos Estados membros e significativas
3
transformações no modo de funcionamento das economias mundiais .
Essa necessidade de reformulação que justifica ainda mais a estruturação de
debates estratégicos na organização, como no tópico da segurança marítima, a ser
posteriormente tratado. Os desafios apresentados, em grande parte, podem ser
relacionados às condições internas, uma vez que a procura de novos parceiros pela
maioria dos países membros reflete um déficit na capacidade da organização de realizar
seus objetivos estabelecidos em 1996. Assim, aponta-se que, especialmente a parcela
africana percebe não locupletadas suas aspirações à maior representação em organismos
multilaterais e ao incremento da cooperação internacional – estes que, junto à maior
promoção e difusão da Língua Portuguesa, são os pilares da organização,
fundamentados pelos Estatutos da CPLP, em seu artigo 3º.4 Este fato aponta que a
leitura até então feita sobre as dificuldades administrativas da organização podem ser
superficiais em diagnóstico. A crítica quanto ao uso da organização como forma de
neocolonialismo, direcionada a Brasil e Portugal, foi somada à incapacidade que esses
dois países, tidos como líderes5, tiveram em manter objetiva a consecução das diretrizes
da Comunidade.
Há certos pontos de confluência entre os interesses tradicionais da política
externa brasileira e as expectativas dos demais membros. Nota-se que um novo diálogo
Sul-Sul é benéfico aos projetos de desenvolvimento dos países africanos de língua
oficial portuguesa e, com isso, projeta-se uma extensão do alinhamento político-
diplomático entre membros também nas áreas de cooperação técnica, ciência e
tecnologia. Para o Brasil, auxiliar no cumprimento dessas expectativas significa manter
sua influência junto a países africanos, reafirmar a abordagem multilateral da
diplomacia brasileira (CF/88 art. 4º, inciso IX e RISE art. 2º, inciso IV; art. 3º, inciso
XIII, alínea “c”; art. 72º, inciso II; art. 155º, inciso VIII) e investir em sua posição
privilegiada no esquema de triangulação América-Europa-Ásia. Para Gerson Moura
(1980, p. 43), a política externa brasileira para a CPLP:
(...) por um lado, acentua a necessidade de conjugar as determinações
estruturais, que delimitam o campo de ação dos agentes decisores, com as
determinações conjunturais, dadas pela decisão e ação dos policymakers; por
outro, repele a noção de que a política externa de um país dependente é um
simples reflexo das decisões do centro hegemônico e nega também que se
possa entendê-la mediante o exame exclusivo das decisões no país
subordinado
3
“Interesse na CPLP mostra urgência em mudar foco da língua para economia”. Observador, 28 de março
de 2018. Disponível em: <[Link]
foco-da-lingua-para-economia/>. Acesso em 20 de maio de 2019.
4
CPLP. Documentos – comunidade dos países de língua portuguesa. Secretariado Executivo da
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, 1999, 126 p.
5
Cabe ressaltar que, embora o Brasil tenha recentemente destinado maior atenção a uma política africana,
a liderança de facto reside sobre Portugal, em grande parte por ser o maior entusiasta da lusofonia
enquanto instrumento político dentre seus membros.
6
O sistema internacional, entretanto, já impôs ressignificações da CPLP para a
diplomacia brasileira – e vice-versa. Quando a Política Externa Independente (PEI) dos
presidentes Jânio Quadros e João Goulart incorporaram progressivamente o discurso
terceiro-mundista na década de 1960, consequentemente, a importância da parceria
africana aumentou e deu-se a percepção de que a triangulação entre Brasil, Portugal e
África portuguesa poderia representar uma dimensão privilegiada para a política externa
do primeiro. Para Andrew Hurrell (1986, pp. 61-63; 96-102), a parceria afro-brasileira
enquanto parte da estratégia diplomática de diversificação, além de auxiliar na
consecução dos objetivos nacionais via cooperação, conferiu ao Brasil lugar
privilegiado dentre o hemisfério Sul, desempenhando um papel de liderança e de elo
entre países desenvolvidos e países emergentes. Nesse aspecto, a institucionalização
dessa presença brasileira no continente via CPLP, além de uma manutenção, significa
uma potencialização desse perfil.
Enquanto país emergente, o Brasil buscou investir na cooperação Sul-Sul como
forma de desenvolvimento conjunto, como demonstra a obra de João Almino e Sérgio
Eduardo Moreira Lima (2017), na qual essa natureza de projeção internacional permitiu
compartilhamento de conhecimento técnico e expansão de know-how nas áreas de
agricultura, educação, formação profissional, habitação e urbanismo, meio ambiente,
recursos hídricos, saúde e segurança alimentar e nutricional, mais especificamente sob o
escopo institucional da Agência Brasileira de Cooperação (ABC)6.
A construção da identidade institucional da Comunidade, como visto, recebeu
grande influência do aumento que a lusofonia e a conjunção cultural de países
lusófonos, sobretudo o Brasil, foram postos como um dos principais afazeres das
agendas externas dos Estados envolvidos. Nesse ínterim, tomando como referencial a
ingerência nacional para essa constituição, o aumento da relevância institucional
caminha progressivamente rumo à maior integração. Da PEI de meados do século
passado, a institucionalização da CPLP no escopo brasileiro passou da realização de
objetivos tão somente pragmáticos de uma projeção africana, transpassando por um
“empate” com a pauta sul-americana, até a nomeação de uma secretaria direcionada a
tratar dos assuntos da organização durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso (1995-2003) e chegando aos parâmetros atuais.
Atualmente, portanto, é crível observar não somente um aumento da cooperação
afro-brasileira, como um transbordamento da natureza da Comunidade, rumo a
naturezas de parceria além da pauta cultural, como a cooperação em tópicos de defesa7.
6
Instituição integrante da Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), vinculada ao Ministério de
Relações Exteriores, tendo sede em Brasília. Foi fundada em setembro de 1987, por meio do Decreto Nº
94.973, fundindo as competências das extintas Divisão de Cooperação do Itamaraty e Subsecretaria de
Cooperação Econômica e Técnica Internacional (SUBIN).
7
Opta-se por diferenciar em termos teóricos a Cooperação em Defesa da Cooperação em Segurança. A
primeira está direcionada para a tipologia das ações e a delimitação de fronteiras, enquanto a segunda
remete à dinâmica internacional, tratando-se da área de estudo como um todo. Fonte: Carlos Timo
(IDEF/MD), apresentação disposta no XIV Congresso Acadêmico de Defesa Natural, 2017.
7
3.1 Alinhamento entre política externa e política de defesa
A partir do final da década de 1990, e com maior força ao longo da década
seguinte, a cooperação internacional brasileira se expandiu acompanhando as premissas
da nova política externa do país. O discurso oficial referente ao eixo de cooperação Sul-
Sul se apresentava em um contexto de ampliação da projeção internacional do Brasil
para além de seu arredor geográfico imediato e reformulação das diretrizes de seu
entorno estratégico voltado para o Atlântico Sul. As vinculações históricas e culturais
com os países lusófonos da África tornam-se uma forte linha de ação para o
aprofundamento das iniciativas Sul-Sul tendo como base tanto o princípio da
horizontalidade, como o interesse nacional em projetar influência e consolidar interesses
políticos, econômicos e em matéria de defesa (Brasil, 2012). Dessa forma, há a
utilização da cooperação Sul-Sul pela política externa brasileira de forma instrumental
de maneira a aumentar a proeminência brasileira no exterior e simultaneamente
fortalecer parcerias multisetoriais.
Simultaneamente, o Ministério da Defesa (MD), através do discurso de
“fortalecer a segurança nacional pela cooperação com países menos desenvolvidos”
(ABDENUR; NETO, 2014, p. 2017), implementa as diretrizes da cooperação horizontal
em sua estrutura a medida que há a construção e defesa da premissa de que a condição
necessária para o desenvolvimento é a paz e a segurança. A partir dessa, tem-se o
aumento crescente do envolvimento brasileiro em matéria de defesa no Atlântico Sul
baseado no foco á dialética segurança-desenvolvimento. A proposta é voltada para o
fortalecimento de políticas públicas objetivando o ganho mútuo entre o Estado prestador
e receptor da cooperação, onde, para Abdenur e Neto (2014) a segurança e a defesa
podem ser elementos de relevância técnica semelhantes à saúde, educação ou
estabilidade política. Documentos de notável importância, como a Estratégia Nacional
de Defesa (END) de 2008 e o Livro Branco de Defesa Nacional lançado em 2012
refletem as novas prioridades e instrumentos legais para a ampliação da atuação
brasileira. A END menciona de forma destacada a importância da intensificação da
cooperação com o continente africado (Brasil, 2008). O Livro Branco, por sua vez,
especifica detalhadamente as diretrizes para a cooperação em defesa e ressaltando uma
maior centralidade para o âmbito multilateral para a manutenção dos canais de
comunicação com a África e reforço nas interações nos grandes fóruns de concertação
(Brasil, 2012).
4 MARINHA DO BRASIL E A CPLP
O Livro Branco, em sua seção destinada a política externa e defesa, expõe que o
compartilhamento do Atlântico Sul é o fator de aproximação entre o Brasil e os países
costeiros da África Ocidental. Sendo assim, a Marinha é tida como um potencial agente
diplomático no que diz respeito a defesa de política externa e de defesa. Em termos
práticos, o continente africano se encontra como a região estratégica de maior
cooperação técnica prestada pelo Brasil, onde os países membros da CPLP representam
8
a maioria dos acordos celebrados8.
No âmbito da CPLP, como defendido em seu estatuto, o mar é tido como “um
dos três pilares estratégicos que unem os Estados-membros, juntamente à língua e às
relações históricas e culturais comuns” (ABDENUR; NETO, 2014, p. 230).
Considerando que todos os seus países membros são litorâneos, a questão marítima é de
vital importância para a comunidade. Dada esta importância, desde sua fundação, a
organização conta com um fórum permanente de assuntos marítimos como uma das
temáticas fixas das Reuniões Ministeriais Setoriais9. Sendo assim, a comunidade possui
diversos meios de debates sobre a temática marítima, fixos em sua estrutura, como o
Simpósio das Marinhas da CPLP (desde 2010), cujo tema principal é segurança
marítima; o Seminário das Plataformas Continentais (desde 1999) e os Fóruns de
Estudo do Mar (também desde 2010)10. Sendo assim, a CPLP promove a sua estratégia
para os oceanos com o objetivo na defesa de uma visão conjunta e multilateral sobre
desenvolvimento sustentável nas regiões oceânicas integradas por países da comunidade
(CPLP, 2007). Alguns dos principais debates e acordos firmados serão brevemente
ilustrados a seguir de acordo com sua cronologia.
O principal exemplo de atuação da CPLP, do ponto de vista prático, tendo
participação da Marinha do Brasil (MB) e outras marinhas amigas, é o exercício
FELINO. Iniciado em 2000, com a participação dos Países Africanos de Língua Oficial
Portuguesa (PALOP) e Portugal, tem como objetivo, de acordo com Silva e Carvalho
(2019), o fortalecimento e a interoperabilidade das Forças Armadas em ações conjuntas
internacionais, como assistência humanitária e missões de paz. Inicialmente, contava
apenas com a participação brasileira como país observador. Entretanto, em 2002, passa
a integrar o exercício como observador, e, em 2003, é incorporado por todos os
membros da CPLP.
Como bem ilustrado por Abdenur e Neto (2014), em 2009, durante a XI Reunião
de Ministros da Defesa da CPLP, o Brasil defende a congruência nas políticas relativas
ao direito do mar por parte dos países membros. Dando continuidade à defesa desse
discurso, em 2010 a XII Reunião voltou a salientar uma preferência pela abordagem
conjunta das questões marítimas tangentes aos membros, principalmente relativa à
delimitação dos limites da plataforma continental, em resposta a atuação de países
exteriores a comunidade na região. Por último, em 2012, a questão central no III
Simpósio das Marinhas da CPLP foi a pirataria no Golfo da Guiné, enfatizando a
importância de uma ação conjunta, da cooperação e do apoio dos países membros no
combate ao caso. Como resultado visível deste simpósio, assim, houve por parte das
Marinhas brasileira e portuguesa a assistência às marinhas de Angola, Cabo Verde e
Guiné-Bissau mediante fornecimento de embarcações, como navios patrulha.
Dada a importância geográfica do Atlântico Sul e sua implicação na política dos
países membros, tem-se um consenso entre os países a respeito do compartilhamento de
informação relativos ao uso estratégico do oceano, assim como a partilha de técnicas
para assegurar o mesmo. Evidencia-se uma característica que aproxima a CPLP a um
8
Dados obtidos através de pesquisa ainda em realização conduzida pela mestranda Carolina Ambinder
(Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos/Escola de Guerra Naval – PPGEM/EGN) e grupo do
Laboratório de Simulações e Cenários (LSC/EGN), dos quais os presentes autores fazem parte. Projeto:
Mapeamento da Cooperação Internacional da Marinha do Brasil (1999 - 2018).
9
Disponível em: [Link] Acessado em 20 de maio de 2019.
10
Ver DA SILVA, Daniele D. & CARVALHO, Carolina A. (2019); e FIGUEIREDO, Eurico L. &
VIOLANTE, Alexandre R. (2019).
9
esboço de comunidade prática de segurança, dado que seus membros partilham
princípios comuns – além da lusofonia enquanto aspecto cultural, também um apreço
pela cooperação internacional para o desenvolvimento e uma preocupação com o tópico
marítimo. Também se salienta seu grau de organicidade, uma vez que a lusofonia
enquanto fator histórico já unia os países, porém sendo institucionalizado somente a
posteriori. O caráter pluricontinental de seus Estados, por outro lado, impede a
formação de um complexo regional de segurança (CRS) já que, na ótica de Buzan &
Wæver (2003, pp. 6-10), o fator geográfico é um causador de cisão à maior integração
para segurança entre seus membros.
Entendendo a CPLP como uma comunidade que reconhece a importância do
dialogo entre seus Estados Membros na área naval, pode-se então compreender a
Comunidade como um fator viabilizador, através de seus fóruns de dialogo, simpósios e
reuniões ministeriais, para a consolidação de acordos de segurança e defesa marítima
bilateralmente, ou multilateralmente, entre seus membros. Assim sendo, pode-se
numericamente ilustrar uma estimativa dos acordos celebrados entre Brasil e os demais
países: Trinta e quatro com Portugal, vinte e um acordos com Anglo e Cabo Verde,
quatorze com Moçambique, oito com Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe e seis com
Guiné-Equatorial.
Gráfico 1: Acordos Bilaterais entre o Brasil e Países Membros da CPLP
34
21 21
14
8 8
6
Fonte: Elaborado pelos autores11.
A liderança natural de Brasil e de Portugal, devido a predominância marítima
dentro da comunidade e de sua importância política, é evidenciada no compartilhamento
dos assuntos mencionados. A cooperação naval luso-brasileira, a partir dos anos 2000,
tem-se mostrado constantes nas seguintes áreas: “Convocação de comissões
permanentes em conferências semestrais entre as respectivas marinhas; Exercícios
11
Com base na pesquisa em andamento no grupo “Mapeamento da Cooperação Internacional da Marinha
do Brasil (1999 – 2018)”, no Laboratório de Simulações e Cenários da Escola de Guerra Naval
(LSC/EGN).
10
conjuntos no Atlântico Sul; Treinamento da Marinha da República Democrática do
Congo em 2016; Acordo sobre Compartilhamento de Informação em 2017; Acordos
para o aumento de diálogo entre a indústria de defesa brasileira e portuguesa, assinado
em 2017; Cursos e estágios setoriais; Visitas e embarques operacionais e, por último,
programas de intercâmbio entre militares e civis” (SILVA; CARVALHO, 2019, p. 188).
Após Portugal, os países membros da CPLP com maior expressão de acordos
celebrados em matéria de defesa naval são Angola e Cabo Verde. A Angola representa
o maior fluxo de intercambio militar entre o Brasil e o continente africano nos mais
diversos assuntos da cooperação naval e, desde 2011, a MB se encontra como a
principal instituição em capacitação e treinamento militar de oficiais da marinha
angolana. O Brasil, desde 2012, também promove assistência logística ao país africano
com a concessão de navios patrulha, exercícios conjuntos com o enfoque na temática da
pirataria. O Programa Naval de Angola (PRONAVAL) também merece destaque.
Iniciado em 2014, consiste em auxilio da MB a Marinha Angolana na aquisição e
construção de sete navios-patrulha onde quatro serão construídos no Brasil com ajuda
de militares angolanos de maneira a também capacita-los.
Em seguida, Cabo Verde, assim como São Tomé e Príncipe, possui desde 2014
uma Missão Naval Brasileira permanente no pais, de maneira a estreitar relações na área
com o país. Além de acordos de cooperação em defesa em geral (combate a pirataria,
cooperação com a Guarda Costeira, cursos de formação e exercícios práticos), Brasil e
Cabo Verde possui acordo em compartilhamento de informação referente ao trafico
marítimo e assistência na criação de um serviço Search and Rescue (SAR) de Cabo
Verde.
Com Moçambique, a MB possui, desde 2006, diversos acordos de cooperação em
defesa na área de capacitação e treinamento de oficiais nos mais diversos temas. Em
termos de logística, em 2016 o Brasil enviou um simulador de manobra naval para a
Escola Naval de Moçambique e, também no mesmo ano, apoio brasileiro na
reestruturação da Escola Naval de Pemba e das Bases Navais da capital Maputo e de
Metangula. Com São Tomé e Príncipe, os principais acordos são: apoio para a
capacitação na área de sinalização náutica e hidrografia para portos de aguas profundas,
apoio na formulação de uma estratégia de segurança marítima nacional para o país,
capacitação da Guarda Costeira e envio de barcos infláveis, lanchas e fuzis entre os anos
de 2010 e 2014.
Por último, os acordos bilaterais entre Brasil e Guiné-Bissau e a Guiné-Equatorial, são
majoritariamente relacionados a capacitação militar sendo estes iniciados em 2006 com
a Guiné-Bissau e em 2010 com a Guiné-Equatorial.
Acordos que estabelecem os programas de intercambio e visitas diplomáticas
são anualmente constantes durante o período estudado por todos os países membros da
Comunidade. Tais programas e visitas, como evidenciado por Silva e Carvalho (2019),
principalmente as realizadas pelo Estado Maior dos respectivos países, são importantes
na medida que possibilitam que diversas iniciativas internacionais sejam criadas a partir
de uma perspectiva bottom-up. Como mencionado pelas autoras (2019, p.189):
Alguns anos atrás, por exemplo, com a visita oficial do Comandante da
Marinha Portuguesa a um training ship (exercício de treinamento) brasileiro,
no qual, durante a visita, diversos acordos foram consolidados. Ou seja,
muitas vezes acordos de cooperação internacional são consolidades e
viabilizados partindo de um sentido bottom-up, transformando a experiência
operacional tática em estratégica para modular a cooperação técnica para
desenvolvimento (Tradução do autor).
11
Além disso, atualmente o Brasil atualmente é o principal parceiro de Angola,
Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe no que diz respeito ao mapeamento e
estudo das respectivas plataformas continentais. É importante mencionar que no início
de 2019, o Brasil assumiu a direção do Centro de Análise Estratégica da CPLP,
possibilitando ainda mais a intensificação da cooperação em defesa entre os países
membros.
5 DESAFIOS: A PROJEÇÃO CHINESA
Ao se pensar nas atuais dificuldades externas do Brasil para a realização de seus
processos de cooperação com os países africanos (sendo eles pertencentes a CPLP ou
não), é de extrema necessidade abordar a atuação da China no continente africano. O
gigante asiático tem relações com países africanos desde a década de 60, tendo
auxiliado alguns dos movimentos de independência no continente, como o FRELIMO,
em Moçambique.
Enquanto o Brasil ainda tenta se utilizar de sua posição na CPLP para maximizar
sua influência política na África, a China se aproveita de sua massiva capacidade
econômica, financiando projetos em diversos setores de variados países do continente,
sendo alguns desses setores convergentes com os de atuação brasileira. De acordo com
Adriana Abdenur:
Essa justaposição da cooperação chinesa e brasileira na África – não somente
dentro do mesmo espaço geográfico, como também no mesmo setor – insinua
uma competição que se intensifica entre Brasil e China como provedores de
cooperação técnica para o desenvolvimento na África. Essas imagens
ajudaram a aumentar as preocupações crescentes de que os nichos de
conhecimento acumulados ao longo do tempo em cooperação com a África
estão grandemente ameaçados por capitais chineses numerosos e suas
iniciativas de desenvolvimento a curto prazo (ABDENUR, 2015, p. 257.
Tradução do autor).12
Através do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) e iniciativas comerciais, a
China passou a investir cada vez mais dinheiro no solo africano, exportando mais de
150 bilhões de dólares em vendas de produtos ao continente no ano de 201513, enquanto
“(...) atingiu o pico em 2011 com 27.66 bilhões de dólares em trocas(...)”14. Isso
dificulta a liderança brasileira na região, pois mesmo com os diversos exemplos de
cooperação naval e até mesmo de financiamentos brasileiros em obras em Moçambique
e outros países por exemplo, torna-se difícil competir com um país que detém tantos
recursos econômicos.
Pensando agora na cooperação militar, a China participa de 5 missões de paz na
África, sendo elas no Congo, Darfur, Mali, Sudão do Sul e no Saara Ocidental,
12
ABDENUR, Adriana Erthal. China in Africa, Viewed from Brazil, The Journal of Asian Studies,
Volume 74, Issue 02, May 2015, p. 257.
13
Dados disponibilizados pela John Hopkins School of Advanced International Studies: China Africa
Research Initiative, maio de 2019.
14
ABDENUR, Adriana Erthal. op. cit., p. 260. Tradução nossa.
12
disponibilizando 1,158 soldados15. Em julho de 2017, declarou a abertura oficial de uma
base naval no Djibuti. Já o Brasil, por mais que também participe de missões de paz no
continente, ainda demonstra dificuldades na realização processos de cooperação fora do
escopo da CPLP.
Recentemente, em junho de 2018, foi realizado (por iniciativa evidentemente
chinesa) o Fórum África-China de Defesa e Segurança (China-Africa Defense and
Security Forum – CADSF) em Beijing, com 49 representantes de países africanos
presentes, objetivando estreitar os laços de cooperação Sul-Sul entre o continente África
e o gigante asiático. Vale ressaltar que o evento foi realizado logo antes da reunião do
FOCAC, que acabou por continuar várias das conversas realizadas no CADSF16.
Em comparação, o Brasil está para realizar no presente ano (2019), o sétimo
Fórum Brasil-África. No entanto, o evento não parece ter o mesmo prestígio, visto que
não conta com o mesmo número de representantes que o CADSF17.
Evidencia-se, então, que a cooperação naval realizada com os países da CPLP,
que deveria ter aberto a possiblidade de parcerias mais fortes no continente africano,
não teve a eficácia desejada, pois foi ofuscada pela atuação do governo chinês. O
gigante asiático, através de fortes instituições, maior capacidade de auxílio econômico e
considerável presença militar na região, dificultou e ainda dificulta a atuação brasileira
como principal expoente da cooperação Sul-Sul com os países da África.
6 CONSIDERAÇÕES
Concluindo a apresentação da situação conjuntural em que o Brasil se encontra
ante a Comunidade, são necessárias reformulações na consciência situacional e novas
projeções quanto à atuação brasileira no organismo. No contexto internacional da PEI,
uma aproximação mais intensiva entre Brasil e África era dissuadida em favor da não-
fragilização das relações de amizade luso-brasileiras, conforme ordem estabelecida pelo
Tratado de Amizade e Consulta entre Brasil e Portugal (1953). Entretanto, desde a
independência das antigas colônias portuguesas – na qual a diplomacia brasileira
exerceu um papel de mediação com sua antiga metrópole – Brasil e Portugal possuem
um papel análogo dentro da lusofonia, que fora concretizado na CPLP. Constata-se um
cenário de dualidade, em que o interesse de novos países exteriores à lusofonia em
integrar a organização se mostra, simultaneamente, um incremento no capital político da
Comunidade e uma proposta de ressignificação dela, se distanciando do fator cultural
comum em prol da economia e da segurança e defesa.
O mapeamento da cooperação marítima brasileira no continente africano,
possibilitada mediante os fóruns de debates promovidos pela Comunidade, ilustra a
tentativa brasileira nas últimas décadas em ampliar o relacionamento com os países da
15
JR, Richard D. Fisher. China Militarizes Its Influence in China, The National Interest, 25 de novembro
de 2018. Disponível em: <[Link]
36667>. Acesso em junho 2019.
16
Para mais informações, verificar as atas da reunião de 2018 do FOCAC. Disponível, em inglês, em:
<[Link] Acesso em junho de 2019.
17
Vale ressaltar que o atual Vice-Presidente do Brasil, Hamilton Mourão, garantiu sua participação no
evento.
13
região. O vínculo inicial com a África Lusófona, mediado pela CPLP, evidencia a
estratégia de iniciar a aproximação com a África pela defesa de fortalecer uma
identidade comum baseada na herança colonial e linguística. Dessa forma, a identidade
passa a ser construída dado o compartilhamento de uma agenda comum entre os atores
envolvidos e com o objetivo, na perspectiva brasileira, de expandir para os demais
países da região principalmente do Atlântico Sul. A cooperação em defesa,
majoritariamente efetuada pela MB, assim é iniciada e intensificada de maneira integrar
os países da Comunidade em um “cinturão de boa vontade” e, após bem estabelecido
entre os países membros, expandir de maneira a abranger também os países não
lusófonos.
Logo, o esforço brasileiro em influenciar de forma maior as diretrizes de atuação
da comunidade perpassa por um papel conciliatório entre o polo de poder tradicional da
lusofonia, Portugal, e os demais países que diferem deste padrão devido a sua condição
de subdesenvolvimento. Nesse interim, julga-se que o entrave maior a parcerias melhor
consolidadas entre seus membros dá-se por questões de institucionalização. A falta de
credito politico na efetividade da Organização faz com que a comunidade em si não
promova a firmação de acordos diretamente, porem promove um efeito de aproximação
paralela entre seus membros para que cooperem bilateralmente. A isso, soma-se a
característica limitante de países em desenvolvimento de não conseguir arcar, grande
parte das vezes, com investimentos de longo prazo, dado suas necessidades estruturais
de retornos imediatos ou próximos a isso. Deste modo, assumir essa natureza da
Comunidade leva a uma melhor compreensão de suas capacidades efetivas, de modo
que melhor se tenha noção de suas limitações e de suas consequências em matéria de
oportunidades que, ao que muitas variáveis indicam, deve extrapolar o fator da
lusofonia enquanto puramente algo cultura. Logo, deve-se também ter a dimensão que
uma institucionalização fraca da cooperação entre seus membros leva a vácuos que
podem, e serão, preenchidos por agentes externos, como atualmente é o caso da China.
14
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