0% acharam este documento útil (0 voto)
1 visualizações6 páginas

Algumas Versões Dela Assustavam As Pessoas

O documento narra a jornada de uma pessoa que luta com sua identidade multifacetada, experimentando diferentes 'Faces' ao longo da vida. Desde a infância, ela percebe que suas aparências influenciam como é percebida pelos outros, levando-a a questionar sua verdadeira essência. Ao final, ela aprende que identidade é uma continuidade e não uma busca por um rosto verdadeiro, refletindo sobre suas experiências em um caderno ao final de cada dia.

Enviado por

Don Cryzw
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
1 visualizações6 páginas

Algumas Versões Dela Assustavam As Pessoas

O documento narra a jornada de uma pessoa que luta com sua identidade multifacetada, experimentando diferentes 'Faces' ao longo da vida. Desde a infância, ela percebe que suas aparências influenciam como é percebida pelos outros, levando-a a questionar sua verdadeira essência. Ao final, ela aprende que identidade é uma continuidade e não uma busca por um rosto verdadeiro, refletindo sobre suas experiências em um caderno ao final de cada dia.

Enviado por

Don Cryzw
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Ela não nasceu com um nome.

Ou pelo menos foi assim que passou a lembrar.

Sua mãe deu um nome quando nasceu.​


Seu pai também a chamava por outro apelido.​
Mas quando cresceu, esses nomes começaram a parecer roupas pequenas demais.

Quando bebê, não havia sinais.

Era só uma criança.

Mas por volta dos quatro anos começaram pequenas mudanças.

Ela ria e o formato do rosto parecia diferente.​


Dormia com traços e acordava com outros.​
Imitava sem querer.

A primeira vez que entendeu que era diferente aconteceu aos seis.

Ela caiu correndo no quintal.

Machucou o joelho.

Começou a chorar.

E quando levantou…

não era mais ela.

Não totalmente.

O rosto tinha mudado.

Pequeno.​
Sutil.​
Mas suficiente.

A mãe assustou.​
O pai saiu do quarto.​
Ninguém explicou nada.

Naquele dia ela descobriu uma regra:

algumas versões dela assustavam as pessoas.

Então começou a experimentar.

Se certas expressões davam errado…​


tentava outras.
Descobriu cedo que as pessoas tratavam homens e mulheres de formas diferentes.

Quando queria que escutassem:​


virava menino.

Quando queria parecer inofensiva:​


virava menina.

Quando queria passar despercebida:​


ficava comum.

Quando queria aprovação:​


ficava bonita.

Quando queria respeito:​


parecia mais velha.

Quando queria carinho:​


parecia menor.

Ela não entendia por quê.

Só sabia que funcionava.

Com oito anos já tinha nomes.

Muitos.

Todos gostavam dela.

Mas gostavam de pessoas diferentes.

Na adolescência as coisas ficaram mais difíceis.

Porque começou a perceber que existiam sentimentos ligados às Faces.

Não era só aparência.

Alguns rostos vinham com posturas.

Algumas vozes pareciam naturais.

Alguns jeitos de andar davam conforto.

Outros pareciam prisão.

Ela descobriu que não se importava muito com ser vista como homem ou mulher.

Mas se importava profundamente em ser vista.

E isso assustava.
Porque significava que talvez nunca tivesse existido um “original”.

Ela mantinha cadernos.

Cada Face tinha:

●​ letra diferente;
●​ gostos diferentes;
●​ memórias registradas;
●​ frases favoritas;
●​ pequenas mentiras recorrentes.

Não por manipulação.

Mas porque começou a esquecer.

Às vezes lembrava uma conversa…

e não sabia quem tinha vivido aquilo.

Ela começou a sentir culpa.

Mas culpa de quê?

Nenhuma daquelas pessoas era falsa.

Ela sentia tudo.

Só não sentia ao mesmo tempo.

Tentou voltar.

Nada parecia certo.

Tentou outro rosto.

Errado.

Outro.

Errado.

Outro.

Errado.

Passou horas mudando.

Até sentar no chão.

E pela primeira vez pensar:


Talvez eu nunca tenha sido ninguém.

Foi nessa época que encontrou a Ordem das Mil Faces.

E esperava que fossem ensinar quem ela era.

Mas fizeram o contrário.

Disseram:

“Você está procurando um rosto verdadeiro como se fosse um prêmio.”

“Talvez identidade não seja algo que se encontra.”

“Talvez seja algo que se escolhe repetir.”

Na Ordem ninguém perguntava:

“Quem é você?”

Perguntavam:

“Quem está falando?”

E isso mudou tudo.

No Colégio das Máscaras ela aprendeu algo novo.

Que não precisava existir uma Face verdadeira.

Que pessoas mudam.

Que identidade não é mentira.

É continuidade.

Então parou de criar personagens.

Começou a criar interpretações.

Todas reais.

Todas dela.

Anos depois ouviu falar de Reverie.

Um reino onde:

●​ sua raça seria suspeita;


●​ magia era observada;
●​ pessoas recebiam lugares fixos;
●​ ordem era virtude.
Ela leu os registros.

Tudo parecia limpo.

Uniforme.

Sem rachaduras.

Sem múltiplas versões.

Limpo demais.

Hoje ela está em Reverie.

Às vezes como artista.

Às vezes como homem.

Às vezes como mulher.

Às vezes como alguém que ninguém percebe.

Tem documentos.

Roupas.

Amigos.

Há pessoas que gostam dela sem saber que conhecem a mesma pessoa.

Há pessoas que odeiam uma Face e adoram outra.

Há dias em que isso dói.

Há dias em que isso liberta.

Mas existe uma regra.

Uma única.

Toda noite.

Sem exceção.

Ela fica sozinha.

Remove qualquer aparência.

Fica diante do espelho.


Sem voz treinada.​
Sem postura.​
Sem personagem.

E escreve uma linha num caderno:

“Hoje eu fui…”

Para não esquecer que, independentemente do rosto…

alguém esteve ali vivendo aquilo.

Você também pode gostar