1- A Morte
Aqui estou eu, enclausurado neste quarto maldito, à espera
de um acontecimento qualquer que me devolva a ilusão de
estar vivo. O tempo escorre pelas paredes como umidade
antiga, e eu permaneço, imóvel, espectador da própria
decadência.
Bebidas, cigarros, apostas, remédios, drogas, sexo —
outrora promessas de fuga — hoje não passam de ecos
vazios, incapazes de preencher o abismo que me habita.
Nada mais surte efeito. Nada mais alcança.
Ergo-me da cama com o corpo em protesto, tomado por
aquela dor surda de quem permanece tempo demais na
própria inércia. Cada músculo parece reclamar da
existência. Arrasto-me até o espelho e, diante dele, encaro
aquilo que restou de mim: patético. Cabelos longos,
oleosos, embaraçados como pensamentos que nunca se
resolvem; pele pálida, quase translúcida; um corpo magro
demais, reduzido a algo que lembra mais um esqueleto do
que um homem.
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Desvio o olhar, como se pudesse fugir de mim mesmo.
No banheiro, cumpro mecanicamente minhas
necessidades — atos vazios de qualquer sentido — e sigo
para a sala, que me recebe com sua habitual desordem,
um reflexo fiel do caos que carrego por dentro. No sofá,
meu celular repousa, esquecido. Pego-o. Duas
notificações.
“Mãe.”
Ela insiste. Pede que eu procure ajuda, que a visite, que
tente — de alguma forma — viver melhor. Palavras
simples, carregadas de um cuidado que já não sei como
aceitar. Mas como viver… depois daquilo?
“Daquilo”…?
Por um instante, minha mente falha, como se recusasse
tocar na ferida. Então, o nome emerge, inevitável.
Amélie.
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Tão bela… e tão distante agora. Partiu da pior forma
possível, deixando para trás um silêncio que grita. Sem
perceber, lágrimas escorrem, tímidas, como se até elas
tivessem perdido a força. Já tentei de tudo para esquecê-la
— tudo —, mas certas ausências se instalam como raízes
profundas: não se arrancam, apenas nos atravessam.
Na cozinha, procuro por algo que justifique continuar de pé.
Abro a geladeira. Três itens: uma supercola aberta, uma
garrafa de água e uma caixa de leite. Pego-a. Vencida.
Como tudo ao meu redor… como eu.
Meus olhos vagueiam pela pia até encontrarem uma faca.
Brilhante. Prateada. Silenciosa. Há uma estranha beleza
nela, uma promessa quieta. Uma solução que se insinua
na minha fr—
Não.
Desabo de joelhos.
Memórias irrompem, violentas, sem aviso. Pensamentos se
atropelam, confusos, enquanto minha voz, trêmula, escapa
em meio ao caos:
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“Não, David… não faça isso.”
E então vejo novamente aquele quarto. Escuro. Uma fresta
de luz atravessando a janela, iluminando o impossível. O
corpo. Frio. Suspenso. O fim daquilo que eu mais amei.
O impacto da lembrança é insuportável.
Num gesto brusco, lanço minha cabeça contra a quina da
pia de cimento, como se a dor física pudesse abafar a
outra, muito mais profunda. Pressiono com força, quase
implorando por um alívio que não vem. Quando recobro um
pouco da consciência, levo a mão ao local. Esperava
apenas dor — encontro algo mais.
Úmido.
Quente.
O vermelho denuncia o que escorre lentamente pela minha
testa. Sangue. Vivo. Ainda vivo.
Limpo-o na pia com um gesto automático, quase
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indiferente. Depois, abandono a cozinha e retorno ao
quarto, como quem retorna ao próprio túmulo. Lanço-me
sobre a cama.
Fecho os olhos.
E tento dormir.
Ou, ao menos, desaparecer por algumas horas dentro de
mim mesmo.
Cinco horas depois, desperto.
O cansaço não foi embora — ele apenas mudou de forma.
Agora se mistura com uma dor aguda no estômago, uma
fome que não é só física, mas que mesmo assim corrói
como se fosse.
Levanto devagar. Nada mudou.
Claro que não mudou.
Na sala, pego o celular outra vez. Procuro qualquer coisa
— uma razão, uma distração, um motivo mínimo para
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continuar respirando.
Nada.
Essa palavra já não é mais externa. Ela mora em mim.
Volto para a cozinha. E lá está ela.
A faca.
Imóvel. Paciente. Como se soubesse que, mais cedo ou
mais tarde, eu voltaria.
— Foda-se…
Dessa vez não há discurso. Não há reflexão. Apenas ação.
Seguro o cabo. Frio. Firme.
Aproximo a lâmina do pulso.
“Agora ou nunca?”
E então deslizo.
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Sem pensar. Sem hesitar.
Um fio vermelho nasce na pele — limpo, quase bonito.
Vivo.
Mas algo falha.
Sempre falha.
A mão afrouxa. O corpo recua.
De repente—
Batidas na porta.
Secas. Reais. Brutais.
O susto faz a faca escapar dos meus dedos, ecoando no
chão como um grito metálico. Fico parado por um instante,
tentando entender o que ainda me puxa de volta.
Caminho até a porta. Abro.
Minha mãe.
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Pequena, corpo arredondado, cabelos loiros em corte
curto. Familiar. Distante.
— Oi, meu filho… como vai?
A pergunta paira no ar como uma ironia involuntária.
Antes que eu responda, ela continua:
— Você já pagou a conta? Eu sei que você tá no meio de
uma “depressão”… — faz aspas com os dedos — …mas a
Netflix lá em casa tá quase vencendo.
Silêncio.
Engulo qualquer reação.
Nem todo mundo entende. Nem todo mundo quer entender.
— Eu saí do emprego… — minha voz sai rouca, quebrada
— não vou conseguir pagar agora.
Ela faz uma expressão de incômodo. Desvio rápido. Como
se minha miséria fosse contagiosa.
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Ela se vira.
— Bem… já vou, filho. Tchau. Deus te abençoe.
Respondo apenas com a mão.
“Deus te abençoe.”
Quase engraçado.
Dizer isso quando tenho certeza de que fui esquecido há
muito tempo.
Observo ela ir embora.
Ela não viu o corte.
Claro que não viu.
Fecho a porta.
Silêncio outra vez.
Volto para a cozinha.
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O ciclo se recompõe.
— Nem pra trazer comida…
Minha voz ecoa fraca, inútil.
Meus olhos caem novamente sobre a faca no chão.
— Também… não seria uma má ideia. Vou morrer de fome
mesmo.
Dessa vez, não há interrupções.
Pego a faca.
Aponto para o peito.
A ponta encosta na camisa, encontra a pele por baixo.
Um segundo.
Dois.
E então—
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Empurro.
A lâmina entra como uma resposta que sempre esteve ali.
A dor explode. Violenta. Viva.
Adrenalina.
Pura.
O mundo desacelera.
E, no meio do caos, uma única imagem se impõe:
O quarto escuro.
A luz atravessando a janela.
E o corpo.
O corpo dela.
Amélie.
Caio.
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O chão me recebe sem cuidado.
Meu sangue se mistura ao frio da realidade.
Entre a vida e a morte, um pensamento final atravessa
minha mente, quase como um sussurro:
“Agora… estarei livre.”
“Agora… estarei com ela.”
E então—
Silêncio.
O corpo cede.
A mente apaga.
Tudo termina.
Ou talvez não.
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2- Renascimento/A Verda
A morte… o que é a morte?
No dicionário, é simples: a parada permanente das funções
do corpo, como o cérebro e o coração.
Mas… será que é só isso?
A morte não pode ser algo além? Não seria apenas o fim
imediato de tudo, mas sim um novo ponto de vista… uma
nova forma de existência?
Espera…
Como eu estou pensando, se eu morri?
Eu não tinha—
Me levanto do chão… ou pelo menos tento. Quando
consigo, vejo meu corpo ainda caído ali. Imóvel. Morto.
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Meu próprio corpo.
O choque me paralisa por um instante. Não é todo dia que
você encara a si mesmo… sem vida.
Com os olhos arregalados, vou até o espelho.
Nada.
Mas não é um “nada” comum.
É literalmente nada.
Não há reflexo. Não há forma. Não há eu.
— Eu virei um espírito…? Que porra é essa…? Como eu tô
vivo…? Eu tô vivo??
Movido pelo desespero, enfio minha mão no espelho.
Ela atravessa.
Como se eu não existisse.
Olho para mim com mais atenção. Minha pele é
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translúcida, levemente esbranquiçada… minhas pernas…
simplesmente não estão lá.
Eu não tenho forma.
Ainda em choque, ouço o som de uma ligação.
Meu celular.
Ou melhor… o que era meu.
Uma notificação da minha tia: “Você ainda está em casa?”
Instintivamente, tento pegá-lo.
Claro…
Sou intangível.
— Merda…
Saio da casa atravessando a porta, como se já soubesse
fazer isso há anos. O mundo lá fora parece o mesmo… e
completamente diferente.
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Começo a andar pela estrada, sem rumo.
Por quê?
Por que eu ainda estou aqui?
Eu só queria paz…
Olho para o céu, esperando alguma resposta.
Nada.
Olho para o chão.
Nada também.
Qual o sentido de existir… como isso? Espírito…
fantasma… seja lá o que eu sou.
E se não existe Deus… então por quê?
De repente, sinto algo.
Uma energia.
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Vinda de cima.
Ao olhar, vejo uma luz intensa, desconfortável até para
alguém como eu. Sons estranhos ecoam — algo entre
código morse e binário.
Alguma coisa está descendo.
Sinto arrepios.
Espera… como eu posso sentir arrepios sem pele?
Então eu vejo.
Um homem… ou algo próximo disso.
Asas negras. Terno impecável. Uma bengala apoiada na
mão.
— Olá…
Ele abre uma pasta, folheando como se procurasse algo.
— David… você teve uma morte não muito boa, não é?
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Ele me encara com uma expressão… estranhamente
amigável.
— Ah… não sei… — respondo, hesitante — por que eu
ainda estou aqui?
Mentir não parece uma opção.
Mas tento mesmo assim.
Ele suspira.
— Você está aqui porque não teve uma vida… aproveitada.
Então, até aprender a apreciar as coisas boas da vida… vai
permanecer assim.
Seu rosto muda.
Agora há algo ali.
Quase… tristeza.
— Mas… por quê…?
Minha voz falha.
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Mas ele não responde.
Seu olhar já diz tudo.
Uma desculpa silenciosa.
Ele levanta a mão, acena de leve… e começa a subir
novamente em direção ao céu.
E eu fico.
Sozinho.
De novo.
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