O Engenho do Rio Veloz e a Rocha Imóvel
Uma fábula clássica sobre a pressa das correntes e a firmeza do granito
F Á B U L A S D O VA L E D O C E D R O
O Engenho do Rio Veloz e a Rocha Imóvel 1
Capítulo I: A Impaciência das Águas
Nas terras altas do norte, onde as montanhas rasgavam as nuvens com as suas garras de pedra,
nascia o Rio Veloz. Desde a sua nascente, ele corria com uma fúria indomável, saltando sobre
desfiladeiros, arrastando cascalho e esculpindo o vale à sua imagem e semelhança. O Rio Veloz
orgulhava-se da sua velocidade implacável. Para ele, tudo o que não se movia era um obstáculo
inútil que merecia ser destruído ou superado.
No meio do seu curso mais selvagem, contudo, repousava a Rocha Imóvel. Um bloco maciço de
granito escuro, cujas origens remontavam a eras esquecidas. A Rocha dividia as águas do rio em
duas correntes distintas, forçando-as a desviar-se do seu caminho retilíneo. O Rio Veloz detestava
aquela interrupção diária na sua jornada frenética em direção ao oceano.
Capítulo II: O Embate das Vontades
"Sai do meu caminho!", rugia o Rio Veloz em cada primavera, quando o degelo das montanhas
duplicava o seu caudal e a sua força. "Eu sou a corrente que move o mundo, o sangue da terra, a
força que ninguém consegue parar. Tu és apenas um pedaço de pedra cinzenta e estúpida que atrasa
o meu progresso."
A Rocha Imóvel permanecia em silêncio. Ela não respondia às provocações com insultos, nem
se abalava com a espuma branca que o rio lançava contra a sua superfície polida. Ela limitava-se a
existir, oferecendo uma base firme para as garças que pescavam ao amanhecer e um porto seguro
para os pequenos peixes que procuravam descanso nas águas calmas que se formavam logo atrás da
sua estrutura.
Capítulo III: A Vitória do Tempo
Muitos anos se passaram. O Rio Veloz continuou a bater, a empurrar e a desgastar. Com o
tempo, a rocha tornou-se perfeitamente lisa, mas nunca se moveu um milímetro. Numa colheita de
verão particularmente seca, as montanhas deixaram de enviar água. O Rio Veloz reduziu-se a um fio
de água frágil, quase desaparecendo entre as pedras do leito seco.
Olhando para cima, o rio moribundo viu a Rocha Imóvel continuar erguida, firme e majesticosa
sob o sol escaldante. "Como consegues manter-te intacta enquanto eu, que era tão forte, estou
prestes a desaparecer?", perguntou o rio num suspiro. A rocha, que finalmente falou com a voz
profunda da terra, respondeu: "A tua força vinha da agitação momentânea; a minha vem daquilo que
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sou por dentro. Quem muito corre para vencer os outros, esquece-se de construir a sua própria
fundação."
MORAL DA HISTÓRIA:
A agressividade e a pressa muitas vezes disfarçam uma natureza efêmera e dependente das
circunstâncias. A verdadeira estabilidade e o valor real residem naqueles que permanecem
firmes nos seus princípios, resistindo às pressões externas sem perder a sua essência.
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