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Aplicação de CFD para o cálculo de

coeficientes de pressão externos nas


aberturas de um edifício
Application of CFD simulations for the calculation of
external wind pressure coefficients on openings of a
building

Daniel Cóstola
Marcia Peinado Alucci
Resumo
oeficientes de pressão (Cp) são um importante parâmetro no estudo da

C ventilação pela ação dos ventos em edifícios. Este artigo tem por
objetivo avaliar a viabilidade no uso de dinâmica dos fluidos
computacional (CFD – Computational Fluid Dynamics) para a
obtenção de Cp, assim como avaliar a importância de alguns dos aspectos da
configuração das simulações nos resultados obtidos. Os seguintes aspectos foram
analisados: densidade da malha adotada, sensibilidade ao perfil de vento, e
sensibilidade à rugosidade no piso do domínio. São ainda discutidos os valores de
y+, assim como a relação entre valores de Cp médio presentes na literatura e
valores de Cp local obtidos nas simulações. Adotou-se nas simulações um edifício
isolado de 5 pavimentos, tipicamente utilizado em habitação de interesse social no
Brasil. O artigo conclui que o uso de CFD para definição de Cp é viável e constitui
uma importante alternativa aos túneis de vento. Porém, diferentes configurações da
simulação levam a desvios consideráveis, tanto em termos absolutos (até ± 0,5)
quanto em termos relativos (até 50%). O teste de independência da malha se
mostrou fundamental, assim como a definição do perfil de vento. Futuros trabalhos
devem se concentrar na validação das simulações.
Palavras-chave: Coeficiente de pressão. Modelo de rede. CFD. CFX. Habitação de
interesse social.

Abstract
Pressure coefficients (Cp) are a key parameter in the study of wind-driven natural
Daniel Cóstola ventilation in buildings. This paper reports the results of a research study aimed at
Faculdade de Arquitetura e evaluating the feasility of using CFD (Computational Fluid Dynamics) to obtain
Urbanismo
Universidade de São Paulo Cp data and also evaluating the importance of some of the aspects of the
Rua do Lago, 876 simulation setup in the results obtained. The following aspects are addressed:
São Paulo – SP – Brasil mesh independence, sensitivity to the wind profile and to the roughness of the
CEP 05508-080 +
Tel.: (11) 3091-4681 r.216 domain floor. Values of y are discussed, and surface-averaged Cp values from the
E-mail: literature are compared to local Cp calculated by CFD. The building used in the
daniel_costola@[Link] simulations is a 5 storey, isolated building, typically adopted in social housing
projects in Brazil. This paper concludes that CFD simulations are feasible and
Marcia Peinado Alucci constitute an important alternative to obtain Cp values when compared to wind
Faculdade de Arquitetura e tunnel experiments. However, differences in the simulation setup may lead to
Urbanismo
Universidade de São Paulo significant deviations in the results, both in absolute values (up to ± 0.5) and in
E-mail: marcialu@[Link] relative values (up to 50%). The mesh independence test has proven to be
fundamental for a reliable simulation. The same applies for the inlet wind profile
Recebido em 08/03/2010 definition. Future work should focus on the validation of simulations.
Aceito em 19/01/2011 Keywords: Pressure coefficient. Airflow network model. CFD. CFX. Social housing.

Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011. 145


ISSN 1678-8621 © 2005, Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. Todos os direitos reservados.
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

Introdução
Coeficientes de pressão (Cp) de um edifício são um Livros-texto e manuais fornecem um número
dos principais parâmetros no estudo da ventilação limitado de dados de Cp (ALLARD, 1998;
natural pela ação dos ventos, sendo um dos dados ASHRAE, 2001; SANTAMOURIS; WOUTERS,
de entrada de diversos programas de simulação do 2006; FROTA; SCHIFFER, 2000;
desempenho térmico do edifício e de cálculo de BITTENCOURT; CÂNDIDO, 2008). Alguns
vazão de ar, tais como EDSL-TAS, Energy Plus, bancos de dados e modelos preditivos oferecem
ESP-r, Aiolos e Contam (ORME, 1999; conjuntos de dados de Cp médio para as faces de
CRAWLEY et al., 2008). Cp é apontado como um edifícios com formas simples, como cubos,
dos parâmetros com maior influência no cilindros, paralelepípedos de diferentes proporções
desempenho térmico do edifício (WIT, 2001). e afins (AIVC, 1984; LIDDAMENT, 1986;
Define-se Cp como sendo o quociente SWAMI; CHANDRA, 1988; GROSSO, 1992;
adimensional entre a pressão dinâmica medida em KNOLL; PHAFF; GIDS, 1995; QUAN et al.,
um ponto x na fachada do edifício (P x) e a pressão 2007). Contudo, é incomum encontrar dados para
dinâmica do fluxo de ar (vento) não perturbado a edifícios de formatos mais complexos ou com
barlavento (Pd), conforme expressa a Equação 1. entornos de geometria variada, típicos das cidades
(ETHERIDGE; SANDBERG, 1996; AWBI, brasileiras (CÓSTOLA; BLOCKEN; HENSEN,
1998a): 2009). Além disso, o uso do Cp médio da fachada
aumenta a probabilidade de erros no cálculo de
P
Cp  x Eq. 1 vazão, apresentando diferenças de até 400% no
Pd fluxo de ar calculado (CÓSTOLA et al., 2010).
Onde: Quando a definição de Cp por meio de túnel de
vento não for possível, a dinâmica dos fluidos
  Vref 2 computacional, mais conhecida pela sigla em
Pd  Eq. 2
2 inglês CFD (Computational Fluid Dynamics),
oferece uma alternativa para a simulação do
A pressão dinâmica do fluxo não perturbado (P d na
escoamento ao redor dos edifícios e a obtenção de
Equação 2) é a força por unidade de área exercida
Cp (CÓSTOLA; BLOCKEN; HENSEN, 2009).
pelo vento em um plano ortogonal ao sentido do
CFD tem sido utilizado para estudar diversos
escoamento, na qual: Pd é a pressão dinâmica do
fenômenos relacionados ao escoamento do vento
fluxo (Pa); Vref é a velocidade do vento tomada na
ao redor do edifício (STATHOPOULOS, 1997),
mesma altura do topo do edifício (m/s); e  é a
tais como transferência de calor (DEFRAEYE;
massa específica do ar (kg/m3) 1 . Cp varia em
BLOCKEN; CARMELIET, 2010), incidência de
função do ponto de interesse na fachada, da forma
chuva nas fachadas (BLOCKEN; CARMELIET,
do edifício, da geometria do entorno e da direção
2006), conforto de pedestres em áreas urbanas
do vento.
(PRATA, 2005), impacto da verticalização na
Dados de Cp obtidos em edifícios reais são ventilação urbana (PRATA, 2005; LEITE, 2008),
raramente utilizados em estudos de ventilação e se balanço térmico de áreas urbanas e ilhas de calor
destinam fundamentalmente à validação de (BRANDÃO, 2009) e ventilação em edifícios
modelos preditivos (RICHARDS; HOXEY; (CÂNDIDO; TORRES; BITTENCOURT, 2005;
SHORT, 2001; HEIJMANS; WOUTERS, 1995?). CARDOSO; PESSOA; BITTENCOURT, 2005;
Na prática, valores de Cp são tradicionalmente CAVALCANTI; CÂNDIDO; BITENCOURT,
obtidos em experimentos em túnel de vento de 2005; FIGUEIREDO, 2008; HOOFF; BLOCKEN,
camada limite (IRMINGER; NØKKENTVED, 2010). CFD é uma poderosa ferramenta, porém
1936; JENSEN; FRANCK, 1965; REINHOLD, esse tipo de simulação apresenta diversos desafios
1982). Contudo, experimentos em túnel de vento tanto com relação à alta capacidade de
raramente são realizados em projetos de ventilação processamento necessária quanto em relação à
natural para um edifício específico, em razão dos configuração das simulações (dados de entrada,
custos, equipamentos e alto know-how envolvidos parâmetros e modelos adotados).
(HOLSCHER; NIEMANN, 1998; SIMPSON;
Com relação à capacidade computacional, o
WHALLEY, 2009). Uma prática comum na
desafio reside na relação entre a dimensão do
ausência de dados de Cp para um edifício que se
problema a ser simulado, a capacidade de
deseja estudar consiste no uso de valores de Cp
processamento acessível aos projetistas de
obtidos para outro edifício de formato semelhante.
ventilação natural (i.e. computadores pessoais) e o
tempo de processamento necessário, que deve, em
1
À temperatura de 15 ºC e pressão de 1 atm, a massa específica
do ar é de 1,2 kg/m3.

146 Cóstola, D.; Alucci, M. P.


Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

princípio, ser compatível com a dinâmica e com os segunda ordem. No software CFX esta opção está
prazos de projetos de arquitetura e engenharia. disponível na utilização de high order em
advection schemes, a qual foi adotada neste
Com relação à configuração das simulações, é
trabalho.
possível identificar diferenças significativas entre
as práticas recomendadas na literatura (CFX, 2003;
COST, 2004; FRANKE et al., 2007) e as práticas Discretização do espaço (malha)
adotadas em simulações de CFD realizadas tanto Numa simulação de CFD, o volume de ar ao redor
por consultorias quanto por parte do meio do edifício é dividido em uma malha composta de
acadêmico (descritas em alguns dos artigos citados “pequenos” volumes, para os quais são realizados
nos parágrafos anteriores). Muitas das práticas os cálculos de conservação de massa e momento.
recomendadas na literatura acarretam significativo De forma geral, quanto mais fina a malha, mais
aumento no tempo necessário para configurar e precisos são os resultados e maior o tempo e
processar as simulações, e por este motivo são capacidade de processamento necessários para
frequentemente ignoradas. realizar a simulação. A simulação de CFD deve
Nesse sentido, o objetivo deste artigo é analisar a buscar independência do resultado obtido em
viabilidade no uso de CFD para o cálculo de Cp, relação à densidade da malha adotada. Para
assim como avaliar a importância de algumas das assegurar essa independência, deve-se proceder
práticas em CFD recomendadas na literatura. sempre a um teste de refinamento da malha e
comparação dos resultados: a malha deve ser tal
É importante salientar que o artigo não se propõe a
que seu refinamento não cause alteração
fornecer resultados realísticos de Cp, os quais
significativa do resultado encontrado (COST,
dependem de validação das simulações por meio
2004). O principal sintoma apresentado por uma
da comparação com experimentos em escala
malha “grossa”, ou seja, não refinada o suficiente
reduzida e em edifícios reais.
para garantir independência, é a falta de
convergência na simulação.
Método Nesta pesquisa adotou-se uma malha não
Nesta pesquisa o software CFX foi adotado nas estruturada, composta de tetraedros em grande
simulações, mas outros programas de CFD parte do domínio e de células prismáticas junto das
apresentam basicamente as mesmas funções e é fronteiras sólidas. Foram realizadas simulações
possível estender a eles as colocações feitas nos para determinar a independência dos resultados em
parágrafos seguintes. relação à malha, resultando na malha da Figura 1.
A malha não estruturada não é a mais adequada
Optou-se por contextualizar cada um dos
devido ao aumento da difusividade, o que aumenta
parâmetros e métodos adotados com uma breve
os problemas de convergência da simulação.
descrição teórica, de forma a facilitar o
Porém, a criação desse tipo de malha é muito mais
entendimento das decisões tomadas no decorrer da
simples que a criação de malhas estruturadas, sua
pesquisa e apresentar as principais referências
utilização é rotineira em atividades de consultoria,
adotadas.
e o uso de malhas refinadas resolve em boa parte
os problemas de convergência nas simulações.
Discretização das equações
Nas fronteiras sólidas rugosas, a primeira célula
CFX (2003) e COST (2004) aconselham usar está localizada acima da altura da rugosidade
discretizações de primeira ordem apenas para especificada, devido ao uso de wall functions
estudos iniciais de um problema, e somente utilizar (CFX, 2003; COST, 2004; HARRIES, 2005).
resultados produzidos com discretizações de

Figura 1 – Malha após refinamento

Aplicação de CFD para o cálculo de coeficientes de pressão externos nas aberturas de um edifício 147
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

Modelagem da turbulência (FRANKE et al., 2007) concluiu que, até o


presente momento e no que diz respeito a RANS,
A turbulência é um fenômeno físico de alta não foi possível identificar entre os modelos de
complexidade que exerce grande influência em turbulência um que seja sistematicamente superior
escoamentos. Contudo, sua natureza ainda não é aos demais, seja ele de fechamento de primeira ou
totalmente clara e, ao longo dos anos, várias de segunda ordem. Por fim, o modelo standard
técnicas foram desenvolvidas com o objetivo de ké utilizado devido à relação entre qualidade
calcular seus efeitos no desenvolvimento dos dos resultados e pequena capacidade de
escoamentos (DAVIDSON, 2004). Em geral, processamento necessária, típica da abordagem
programas de CFD fornecem várias alternativas RANS. O uso de abordagens alternativas ao
para a modelagem da turbulência, porém a RANS, tais como LES 2 ou DES3, traz benefícios
documentação de tais programas fornece pouca ou reconhecidos ao cálculo de Cp, porém ainda é
nenhuma orientação sobre as vantagens e restrito ao meio acadêmico devido às altas
desvantagens de cada alternativa – e.g. CFX capacidades de processamento e armazenamento
(2003). necessárias (NOZU et al., 2008).
A abordagem mais comum em simulações de CFD Cabe salientar que, entre os modelos de
é o uso de equações de conservação simplificadas fechamento de primeira ordem, o standard
por meio da técnica conhecida como RANS ktem sido identificado como o de pior
(Reynolds-averaged Navier-Stokes). RANS desempenho, sendo crescente o uso de outros
permite calcular o escoamento médio sem de fato
modelos, tais como realizable k, RNG k ou
“resolver” a turbulência, cujos efeitos no
SST k-ω. A modelagem da turbulência é ainda um
escoamento são descritos de maneira simplificada,
tema controverso, e o presente artigo não tem por
por meio de um dos chamados modelos de
objetivo abordá-lo em profundidade. É altamente
turbulência ou modelos de fechamento. Em termos
recomendável que futuros trabalhos abordem esse
teóricos, modelos de fechamento de segunda
tema de maneira sistemática, buscando a melhor
ordem, como o Reynolds Stress Model, são mais
relação entre qualidade dos resultados obtidos e
abrangentes na descrição das propriedades
capacidade computacional necessária.
estatísticas da turbulência, pois permitem levar em
conta o aspecto anisotrópico do escoamento.
Porém, o desempenho de tais modelos parece não Domínio usado nas simulações e
ser sistematicamente superior a modelos de condições de contorno
fechamento de primeira ordem em escoamentos ao
Em uma simulação de CFD, é necessário definir a
redor do edifício.
extensão do volume de ar a ser simulado ao redor
Neste artigo, utiliza-se o modelo de fechamento de do edifício, o domínio. Esse volume deve ser
primeira ordem standard kCFX, 2003), no grande o suficiente para que não influencie os
qual os efeitos da turbulência no escoamento resultados obtidos. Nesse caso, foram adotadas as
médio são descritos por meio de duas equações: recomendações de COST (2004), que aconselha
uma taxa de obstrução inferior a 3% da seção do
(a) uma para a energia cinética turbulenta (k); e
domínio, espaçamentos de no mínimo 10 vezes a
(b) outra à taxa de dissipação da turbulência (). altura do edifício em todas as direções (exceto na
A opção por esse modelo é baseada em três altura), e altura igual a 5 vezes a altura do objeto
fatores. Em primeiro lugar, esse modelo de das simulações (edifício).
turbulência é largamente utilizado por estudos A Figura 2 apresenta duas formas de domínio
anteriores sobre escoamentos ao redor de edifícios, passíveis de utilização em simulações para
tanto em trabalhos acadêmicos, e.g. Yang (2004) e determinar Cp. O domínio em forma de
Monteiro et al. (2008), quanto em serviços de paralelepípedo apresenta menor volume e utiliza
consultoria, e.g. Harries (2005). Em segundo lugar, condições de contorno mais adequadas. Contudo,
simulações de CFD utilizando modelos de ele se presta a simular apenas uma direção do
fechamento de primeira ordem (como o standard vento. O domínio circular é mais utilizado porque
k) foram validadas com sucesso para diversas permite utilizar a mesma modelagem e malha para
aplicações de engenharia do vento (BLOCKEN; simular qualquer direção do vento.
CARMELIET, 2006; DEFRAEYE; BLOCKEN;
CARMELIET, 2010; HOOFF; BLOCKEN, 2010), 2
LES (Large Eddy Simulation) é uma técnica de CFD na qual os
ou seja, modelos isotrópicos podem, em certas efeitos dos turbilhões de maior energia no escoamento são
circunstâncias, fornecer resultados válidos. Um efetivamente calculados por meio de malhas extremamente
densas e simulações em regime transiente.
recente projeto internacional sobre boas práticas no 3
DES (Detached Eddy Simulation) é uma técnica que combina
uso de CFD para escoamentos ao redor de edifícios RANS e LES.

148 Cóstola, D.; Alucci, M. P.


Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

Figura 2 – Condições de contorno para duas formas de domínio possíveis

No caso do domínio circular, as laterais do líquido. Nessa célula, a interação é calculada com
domínio são configuradas como aberturas, às quais base em uma função obtida através de um número
é atribuída uma velocidade nas componentes limitado de experimentos, o que traz vantagens em
cartesianas x, y e z. A velocidade na direção z é termos computacionais e permite que alguns
igual a zero, e as outras componentes são dadas em aspectos do problema (e.g. rugosidade) sejam
variáveis u1 e v1, cujo valor é definido, no caso do descritos por meio de parâmetros. No caso do low
CFX, no arquivo externo de configuração (arquivo Reynolds number modelling, a interação é
CCL). Assim, é possível alterar a direção do vento calculada utilizando-se uma malha muito fina na
apenas pela edição do arquivo CCL. As fronteira sólido-líquido. Por não ser baseada em
desvantagens dessa forma de simulação são o um número limitado de experimentos, esta
maior número de células e a imposição do perfil de abordagem é mais versátil, sendo capaz de captar
velocidade na saída do domínio, mascarando os com maior precisão as interações sólido-líquido.
efeitos de distâncias inadequadas a sotavento. Contudo, esse método exige grande capacidade
computacional, e os elementos de rugosidade na
Nas simulações utilizou-se um domínio de forma
superfície devem ser modelados um a um, o que
“circular” e adotou-se como condição de contorno
em termos práticos torna esse tipo de simulação
nas laterais do domínio um perfil logarítmico
correspondendo a CLP neutra (STULL, 1998), viável apenas para superfícies lisas.
sem qualquer correção de caráter topográfico, e Adotou-se nesta pesquisa o uso de wall functions
com intensidade de turbulência igual a 5%. No em detrimento do low Reynolds number modelling,
CFX, a forma mais adequada de configurar esse pois elas permitem representar os fenômenos na
perfil é por meio de um arquivo CCL e da camada limite em função da rugosidade da
inicialização via arquivo BAT (HARRIES, 2005). superfície. O uso de wall functions permite
Um exemplo de arquivo CCL é fornecido em também o uso de malhas menos densas (menor
Cóstola (2006). tempo de processamento) e não representa uma
simplificação excessiva para problemas sem
Com relação às fronteiras sólidas, elas podem ser
do tipo free slip, que não oferece resistência ao transferência de calor e massa (AWBI, 1998b;
escoamento, ou no slip, na qual o atrito entre BLOCKEN; CARMELIET, 2006).
sólido e líquido é considerado e a rugosidade da O sucesso no uso de wall functions exige o correto
superfície deve ser especificada. posicionamento dos pontos da malha próximo às
Na envoltória do edifício e no piso do domínio, fronteiras sólidas. Esse posicionamento deve ser
vale a condição de não escorregamento. Assim, compatível com o fluido e com o gradiente de
velocidades presentes na simulação. Para tanto,
essas fronteiras foram definidas como no slip.
CFX (2003) recomenda, quando do uso do modelo
Com relação à rugosidade, as superfícies foram
sempre definidas como lisas, com exceção de um de turbulência standard k, que o valor do
grupo de simulações no qual o impacto da adoção parâmetro adimensional y+ esteja entre 20 e 100.
de rugosidade no piso foi analisado. No teto do COST (2004) aconselha um valor entre 30 e 100
domínio adotou-se a condição de contorno free para y+. Por sua vez, Blocken, Stathopoulus e
slip. Carmeliet (2007) consideram aceitáveis valores
entre 30 e 1.000. É possível encontrar diversas
Nas fronteiras sólidas do tipo no slip, duas referências que indicam diferentes limites para y+,
abordagens podem ser adotadas para modelar a o que demonstra a falta de consenso da
interação sólido-fluido: wall functions e low comunidade científica em relação aos limites
Reynolds number modelling. No caso das wall exatos para ele. Contudo, é notável que valores
functions, a interação é calculada em uma única muito baixos (<20) ou muito altos (>1.000) nunca
“grande” célula colocada na fronteira sólido- são recomendados. O valor de y+ é um dado de

Aplicação de CFD para o cálculo de coeficientes de pressão externos nas aberturas de um edifício 149
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

saída da simulação, não podendo ser fixado a software de pós-processamento pontos


priori, e será discutido junto com os resultados das posicionados no centro das aberturas. Os dados de
simulações. pressão nesses pontos são então exportados para
um arquivo de texto. Um ponto adicional deve ser
Convergência posicionado no fluxo não perturbado antes do
edifício, onde são obtidas a velocidade e a massa
Simulações de CFD são realizadas por meio da específica do ar, com os quais a pressão dinâmica é
solução iterativa das equações de conservação de calculada. De posse desses valores calcula-se o Cp
massa e momento em cada célula da malha. Essas para os pontos de interesse.
iterações devem ser repetidas até que se obtenham
resultados que respeitem, da melhor forma Características das simulações
possível, o princípio de conservação em todas as
células. Isso é indicado pelo resíduo do cálculo, i.e. Como objeto das simulações, escolheu-se um
a diferença entre a massa e o momento que entram edifício com 5 pavimentos e planta tipo H (18,25
e que deixam cada célula. O resíduo de todas as m x 12,70 m x 15,45 m), comumente encontrado
células é combinado em uma única estatística nas cidades brasileiras e utilizado em diversos
(RMS - Root Mean Square), que indica o nível de conjuntos habitacionais de interesse social (Figura
convergência da simulação. Nesta pesquisa foi 3).
utilizado o critério de convergência recomendado
As simulações foram processadas em
por COST (2004) e CFX (2003). Aconselham que
computadores com processador Pentium de 2 GHz
o RMS obtido na simulação seja igual ou inferior a
e 1 Gb de memória RAM. Algumas simulações
10-4. CFX (2003) indica que resíduos acima de 10-4 planejadas não puderam ser realizadas devido à
são muito pouco confiáveis e servem apenas para falta de capacidade de processamento das
fornecer uma ideia superficial sobre o escoamento
máquinas, como as que envolviam grandes
e para “produzir imagens bonitas”.
extensões de entorno. O processamento em
paralelo, que seria a melhor solução para
Operacionalização do cálculo de Cp problemas de falta de capacidade de
Uma vez simulado o escoamento ao redor do processamento, não foi utilizado devido às
edifício, o cálculo de Cp é realizado de maneira dificuldades enfrentadas na configuração do
similar ao realizado com dados de túnel de vento. software.
No caso do uso do CFX deve-se definir no

(a) (b)
Figura 3 – Planta tipo H: (a) esquema do andar tipo e (b) planta do apartamento

150 Cóstola, D.; Alucci, M. P.


Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

Foram realizadas 86 simulações, de forma a rugosidade nas demais faces do edifício e nas
explorar um conjunto de parâmetros relevantes em demais direções de incidência do vento, pode-se
simulações de CFD, que permitiram reproduzir concluir que o valor de Cp é fortemente
conclusões comumente encontradas na influenciado pelo perfil de velocidade do vento na
bibliografia. entrada e saída do domínio.
Em particular, estudou-se o comportamento dos Com base nessa constatação, pode-se afirmar que o
resultados ante as seguintes alterações: direção de valor de Cp para o uso no projeto de ventilação
incidência do vento, perfil de velocidades médias natural deve ser obtido por meio de ensaios ou
na entrada e saída do domínio, rugosidade no piso simulações que considerem a rugosidade do
do domínio (entorno do edifício) e resolução da entorno do edifício, e resultados genéricos para
malha utilizada na simulação. perfis de velocidade não especificados podem
levar a erros no projeto de ventilação natural.
É importante salientar que esses resultados podem
apresentar discrepâncias com a realidade, uma vez Ressalta-se que a importância do uso de Cp em
que eles não foram validados experimentalmente e estudos de ventilação por ação do vento reside na
é conhecida a deficiência na descrição de independência de tal parâmetro em relação à
descolamentos da camada-limite que o modelo de velocidade de referência do vento para edifícios
turbulência utilizado (standard k) apresenta. com cantos vivos, que representam a grande
maioria das edificações (ETHERIDGE;
Nas simulações, os valores de Cp foram
SANDBERG, 1996). Contudo, essa afirmativa é
determinados para ângulos com intervalos de 30º,
valida para um edifício com dado entorno, pois
recomendados em COST (2004), ou seja, para as
variações na velocidade não são acompanhadas de
direções 0º, 30º, 60º, 90º, 120º, 150º, 180º, 210º,
variações no padrão do escoamento, as quais
240º, 270º, 300º e 330º.
levariam a modificações no Cp. Quando o entorno
do edifício é modificado, alterando o perfil de
Análise dos resultados vento, o conjunto do escoamento é também
alterado, modificando o valor de Cp, conforme
Perfil de velocidades médias do vento demonstrado na Figura 4.
A Figura 4 apresenta a comparação entre as
distribuições de Cp na face a barlavento do Rugosidade no piso do domínio
edifício, obtidas em quatro simulações nas quais
A Figura 5 apresenta um histograma com as
foram simulados diferentes perfis de velocidade do
frequências das diferenças entre os valores de Cp
vento. Foram utilizados perfis logarítmicos (CLP
obtidos para duas simulações que diferem apenas
Neutra) correspondentes a rugosidades variando de
pelo tratamento dado ao piso do domínio: liso, ou
0,001 a 0,3.
com rugosidade igual àquela utilizada para definir
Da análise da Figura 4, que não ilustra a o perfil de entrada. No caso, utilizou-se uma
complexidade dos efeitos da mudança de rugosidade de 0,1 m.

Figura 4 – Distribuição de Cp na face a barlavento para perfis de vento com rugosidades de 0,001, 0,01,
0,1 e 0,3

Aplicação de CFD para o cálculo de coeficientes de pressão externos nas aberturas de um edifício 151
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

400

n° de ocorrências
350
300
250
200
150
100
50
0
-0.4 -0.3 -0.2 -0.1 0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6
Diferenças entre o C p calculado nas simulações
Figura 5 – Histograma da diferença entre os Cp calculados em simulações com e sem rugosidade no piso
do domínio

Figura 6 – Pavimento térreo: comparação entre as simulações com diferentes malhas

Nota-se que na maior parte dos casos (350 de um existe consenso quanto à solução a adotar com
total de 480, i.e. 72% dos casos) não há diferença relação ao tratamento da rugosidade no piso do
entre o resultado das simulações com ou sem domínio.
rugosidade no piso do domínio. Em 10% dos casos
(50), o Cp é superdimensionado em 0,1, e em 10% Independência dos resultados em
dos casos, subdimensionado na mesma proporção. relação à malha
Nos 8% dos casos restantes a diferença entre as
simulações ultrapassa 0,1 em módulo, chegando a Na Figura 6, os resultados de três simulações com
0,5. Pode-se concluir que a presença de rugosidade diferentes malhas são ilustrados por meio de
no piso afeta de maneira significativa o resultado barras, cujo comprimento equivale ao Cp
e, portanto, a rugosidade deve ser utilizada. Em encontrado para cada uma das janelas do
áreas com diversos edifícios, a área de piso entre pavimento térreo. As barras escuras representam a
os edifícios deve ser modelada como lisa segundo simulação com malha mais grossa (400.000
COST (2004). A despeito da importância desse elementos), e as barras claras dizem respeito à
parâmetro, Blocken, Stathopoulos e Carmeliet simulação com a malha mais refinada (1.000.000
(2007) apontam para a incapacidade das wall de elementos). Nota-se uma grande diferença (de
functions em manter, ao longo do domínio, os até 50%) entre o comprimento das barras escuras e
perfis de velocidade e turbulência adotados como o das claras, mostrando que esse refinamento
condição de contorno. Isso indica que ainda não provocou grandes alterações nos resultados

152 Cóstola, D.; Alucci, M. P.


Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

encontrados. A diferença é pequena entre as portanto, indica que a recomendação de y+ em


simulações com 750.000 elementos e 1.000.000 de COST (2004) e CFX (2003) é excessivamente
elementos, sinalizando a obtenção de rigorosa. Aparentemente, o intervalo sugerido por
independência dos resultados em relação à malha. Blocken, Stathopoulos e Carmeliet (2007) parece
mais adequado, uma vez que os resultados obtidos
A assimetria nos resultados com a malha não
se mostraram independentes da malha. Futuros
refinada (barras escuras) é um claro indicativo da
inadequação dessa malha. Na medida em que a estudos devem explorar em maior profundidade a
malha é refinada, essa assimetria desaparece. Esses importância desse parâmetro.
resultados são apenas apresentados neste artigo
para salientar a importância da correta Importância da posição na fachada nos
configuração da malha. Em termos práticos, valores de Cp
apenas os resultados com a malha refinada devem
Conforme descrito na introdução deste artigo, Cp
ser reportados e utilizados.
varia em função do ponto de interesse na fachada
Os resíduos encontrados na simulação com a (TOLEDO, 1967). Contudo, esse fato é
malha refinada foram próximos a 10-4, indicando frequentemente ignorado por diversos bancos de
que essa malha é a mais adequada. Seria dados de Cp, os quais fornecem apenas valores de
conveniente testar uma ou duas malhas ainda mais Cp médio para a fachada. Cóstola, Blocken e
refinadas, para que se pudesse estabelecer a malha Hensen (2009) descrevem que, por exemplo, os
correta para esta simulação. Contudo, um maior dados de Cp médio propostos por Liddament
refinamento na malha demandaria capacidade de (1986) são utilizados em 6 de 10 importantes
processamento e memória RAM maiores que as programas de simulação do desempenho térmico e
disponíveis. A relação entre memória RAM e de cálculo de vazão. Os valores propostos por
tamanho da malha é tal que, de forma geral, 1 Gb Liddament (1986) são baseados na compilação de
de memória RAM é capaz de simular uma malha diversos estudos em túnel de vento e são
com 1 milhão de elementos (HARRIES, 2005). A recomendados para edifícios baixos (até 3
simulação com malha refinada teve um tempo de pavimentos), de planta quadrada e desobstruídos.
processamento total de 2 h para cada direção do São, contudo, constantemente utilizados para
vento. edifícios mais altos devido à falta de dados de
referência de Cp.
Simulação da camada limite No presente trabalho, o uso de CFD permitiu obter
Nas simulações realizadas, o menor valor médio de dados mais detalhados de Cp do que os valores
y+ obtido foi de 600. Esse valor foi encontrado nas médios fornecidos pela literatura, bancos de dados
simulações com malhas refinadas e com o primeiro e outros modelos preditivos de Cp. Um exemplo é
ponto da malha a 8 cm do piso do domínio. Tal fornecido na Figura 7, que mostra os resultados
valor se deve a dois fatores. O primeiro fator diz das simulações para janelas de 4 dormitórios (b14,
respeito ao fato de o y+ depender da distância a14, b11, a11), todas localizadas na mesma
adotada na primeira célula, a qual poderia ser fachada e no pavimento térreo. Algumas
reduzida de forma a reduzir y+. Contudo, a conclusões obtidas pela análise dessa figura são
primeira célula deve ter altura mínima maior que a descritas a seguir.
rugosidade, o que limita as possibilidades de Conforme esperado, diferentes aberturas
redução da altura da primeira célula. O segundo apresentam diferentes valores de Cp para a mesma
fator diz respeito ao fato de y+ depender da direção do vento. Por exemplo, quando o ângulo
velocidade de fricção, a qual é baseada na tensão de ataque é igual a 0º, as janelas b14 e b11
de cisalhamento junto à fronteira sólida, que por possuem Cp de aproximadamente 0,5, valor
sua vez é baseada da velocidade do vento imposta aproximadamente 5 vezes superior ao das janelas
nas laterais do domínio. Considerando-se que Cp é a14 e a11.
um valor adimensional tido como independente da
velocidade do vento, a redução da velocidade do A distribuição proposta por Liddament (1986)
vento nas laterais do domínio pode ser usada para indica que o valor máximo de Cp ocorre quando o
reduzir o y+. Nas simulações realizadas neste ângulo de ataque é igual a 0º. Contudo, esse
trabalho, utilizou-se uma velocidade de 5 m/s a 10 comportamento não é válido para pontos
m de altura em relação ao solo. localizados longe do centro da fachada, como os
pontos b14, a14, b11, a11. Nesses pontos, o Cp
O valor de y+ é um indicativo da qualidade da máximo ocorre quando o ângulo de ataque
malha próximo a fronteiras sólidas. O teste de apresenta um desvio de +30º ou -30º (ângulo de
independência da malha, ilustrado na Figura 6, ataque 330º na Figura 7) em relação à orientação
indica que a malha adotada é satisfatória e, da fachada.

Aplicação de CFD para o cálculo de coeficientes de pressão externos nas aberturas de um edifício 153
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

0.8
Dormitório b14
0.6 Dormitório a14
0.4 Dormitório a11
0.2 Dormitório b11
0 LIDDAMENT, 1986
Cp

-0.2
-0.4
-0.6
-0.8
-1
0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 330
Ângulo de ataque do vento (graus)
Figura 7 – Variação de Cp em função do ângulo de ataque do vento, para pontos em uma mesma fachada
e no mesmo andar

Figura 8 – Distribuição de Cp para ângulos de ataque iguais a 0° e a 30

Ainda de acordo com a Figura 7, quando o ângulo em bancos de dados, valores de Cp calculado
de ataque é igual a 60º, os pontos a14 e b14 usando CFD produzem informações valiosas sobre
apresentam pressão positiva, enquanto os pontos as diferenças de pressão entre pontos em uma
b11 e a11 apresentam pressão negativa. Esse mesma fachada.
comportamento não pode ser captado por valores
de Cp médio para a fachada, como os propostos por Conclusões
Liddament (1986).
Este trabalho procurou avaliar a viabilidade no uso
A Figura 8 apresenta distribuições de Cp para
de CFD para o cálculo de Cp, assim como a
ângulos de ataque de 0º e 30º e assim possibilita a
importância na configuração de tais simulações.
visualização de parte dos valores apresentados na
Figura 7. Na Figura 8 é possível, por exemplo, A primeira conclusão aponta para a viabilidade no
verificar que, para o ângulo de ataque de 0º, as uso de CFD. A maior parte das simulações foi
janelas b14 e b11 têm Cp 5 vezes maior que as realizada sem maiores dificuldades em um
janelas a14 e a11 por estarem mais próximas do computador pessoal. O tempo de processamento de
centro da fachada. Com relação à ocorrência do Cp 2 h para cada direção do vento permite que
máximo quando o ângulo de ataque é igual a 30º, a resultados para 12 direções do vento sejam obtidos
Figura 8 demonstra que o ponto de estagnação em apenas 1 dia. Mesmo considerando o tempo de
(ponto de maior pressão na fachada) é deslocado pré e pós-processamento, o custo e o tempo
na direção dos pontos a14 e b14. envolvidos em tais simulações são
consideravelmente inferiores aos necessários à
Com base nas Figuras 7 e 8, é possível concluir
realização de experimentos em túnel de vento.
que, quando comparados a valores médios obtidos

154 Cóstola, D.; Alucci, M. P.


Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

Cabe salientar que esta pesquisa só pôde ser (k) resíduo (necessariamente igual ou inferior a
realizada porque diversas tarefas de pré e pós- 10-4).
processamento foram automatizadas, e é essencial
Com relação aos modelos de turbulência baseados
a adoção de procedimentos para aumentar a
em RANS e disponíveis para simulações de CFD,
produtividade no uso do CFD.
é notável a necessidade de mais estudos para
A segunda conclusão deste trabalho remete à clarificar as reais vantagens no uso de modelos de
importância da correta configuração das fechamento de segunda ordem. São também
simulações de CFD. Diferentes configurações necessários mais estudos sobre o desempenho de
levam a desvios consideráveis, tanto em termos diferentes modelos de fechamento de primeira
absolutos (até ± 0,5) quanto em termos relativos ordem com relação ao cálculo de Cp,
(até 50%). O teste de independência da malha se especialmente em face do declínio do uso do
mostrou fundamental para uma boa simulação, modelo standard ke do uso mais frequente dos
assim como a definição do perfil de vento. Nesse modelos realizable k, RNG k ou SST k-ω em
sentido, a divulgação ou a utilização de resultados aplicações de engenharia de vento.
de CFD sem os respectivos dados de entrada se
O uso de práticas descritas na literatura apenas
mostram pouco recomendáveis, pois isso impede
garante que a simulação de CFD foi realizada
uma avaliação crítica quanto à qualidade e à
confiabilidade dos resultados. adequadamente, contudo seus resultados devem ser
necessariamente validados antes de qualquer
A revisão bibliográfica de práticas recomendadas utilização para fins práticos. Portanto, futuros
em simulações de CFD juntamente com os trabalhos devem se concentrar na validação das
resultados obtidos neste estudo possibilitaram a simulações através da comparação sistemática com
confecção de uma breve lista de aspectos que ensaios em túnel de vento previamente realizados,
devem ser analisados em simulações de CFD. Essa tais como os reportados por Quan et al. (2007), e
lista foi elaborada considerando o uso de RANS, pela comparação com medições em edifícios reais.
simulações em regime permanente, e constitui a
Cabe salientar que, em diversas situações, o
principal contribuição deste trabalho para futuras
edifício cuja ventilação natural se pretende analisar
pesquisas em CFD no contexto brasileiro:
pode não ser sensível às variações no valor de Cp.
(c) ordem de discretização das equações Edifícios em áreas com baixas velocidades do
(preferencialmente de segunda ordem); vento, por exemplo, são pouco afetados por
(d) teste de independência da malha (teste com variações em Cp. Nesses casos, é dispensável
pelo menos 3 malhas); despender maiores esforços na obtenção de valores
de Cp mais precisos.
(e) y+ (preferencialmente entre 30 e 100 para wall
functions);
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(f) modelo de turbulência (indicar o modelo
utilizado); AIR INFILTRATION AND VENTILATION
CENTER (AIVC). In: WIND PRESSURE
(g) obstrução do domínio pelo objeto da WORKSHOP AIC, Brussels, 1984. Proceedings...
simulação (preferencialmente igual ou inferior a Brussels: AIVC, 1984.
3%);
ALLARD, F. (Ed.). Natural Ventilation in
(h) dimensões do domínio em relação ao objeto Buildings: a design handbook. London: James X
da simulação (em caso de domínio circular, altura James, 1998.
do domínio igual a 5 vezes a altura do edifício e
distância de pelo menos 10 vezes a altura do AMERICAN SOCIETY OF HEATING,
edifício nas demais direções); REFRIGERATING AND AIR-CONDITIONING
ENGINEERS (ASHRAE). ASHRAE Handbook:
(i) condição de contorno das fronteiras sólidas fundamentals. Atlanta: ASHRAE, 2001.
(descrever a condição de escorregamento free slip
ou no slip, especificar o uso de wall functions ou AWBI, H. B. Ventilation of Buildings. London: E
low Reynolds number e, quando aplicável, & FN Spon, 1998a.
informar a rugosidade adotada); AWBI, H. B. Calculation of Convective Heat
(j) condições de contorno nas fronteiras fluidas Transfer Coefficients of Room Surfaces for
(especificar o tipo de abertura pressure, velocity ou Natural Convection. Energy and Buildings, v. 28,
opening, e, quando aplicável, descrever o perfil de n. 2, p. 219-227, 1998b.
velocidade incluindo a rugosidade ou expoente
utilizados e a intensidade de turbulência); e

Aplicação de CFD para o cálculo de coeficientes de pressão externos nas aberturas de um edifício 155
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

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Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Agradecimentos
Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, Os autores agradecem ao CNPq, pelo
2005. financiamento desta pesquisa. Agradecem também
a Alan Harris, pelo suporte com o CFX, e a Bert
Blocken, Wiebe Zoon e Mohammad Mirsadeghi,
pelas discussões sobre CFD.

Aplicação de CFD para o cálculo de coeficientes de pressão externos nas aberturas de um edifício 157
Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 11, n. 1, p. 145-158, jan./mar. 2011.

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158 Cóstola, D.; Alucci, M. P.

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