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Andrew

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CAPITULO I

A NOITE DO CAMALEÃO

Arcos da Lapa, número 11.


Arcos da Lapa, número 11… Idá repetia para si mesmo, ainda ofegante.

Que tipo de endereço era aquele? Os Arcos da Lapa eram um monumento,


não tinha uma rua.
Caminhando um pouco trôpego, tentava ignorar a ardencia nas pernas. Os
cortes haviam voltado a sangrar e sua mochila pesava mais do que nunca nas
costas, apesar de não comportar mais do que alguns cadernos. Já passava das
quatro da madrugada, mas os bares permaneciam abertos nas ruas imundas do
centro da cidade. Pessoas cantavam e dançavam nas calçadas, esbaldando-se em
fritura e cachaça, soltando gargalhadas como se nada no mundo as preocupasse.
Em um dia normal, Idá até poderia ter se juntado à bagunça.
Mas aquele não era um dia normal e Idá não estava no clima para festejos.
Como poderia estar?
Seguindo pelo meio da avenida, tentava transferir sua tensão para a moeda de
prata que revirava entre os dedos. Era uma moeda grande, com um sujeito
gordo e esquisitão estampado em ambas as faces. O rosto lhe era familiar, mas
não se lembrva onde o vira antes.
Também, pouco importava. A moeda era só um desculpa para que ele
pensasse em outra coisa que não os seus problemas.
O que diabos ele estava fazendo ali? Aquela carta tinha tudo para ser uma
armadilha. Uma armadilha meticulosamente planejada para arrastá-lo a um
lugar escuro e deserto onde pudessem acabar com ele sem muitas testemunhas.
… Arcos da Lapa, número 11 …
Parece criança, Idá! Treze anos na cara e ainda acreditando em contos de
fada?

Idá Aláàfin, um bruxo. Sei… conta outra.

O que tinha dado nele?! Ele não era de agir sem pensar!
Agora já era. Ele não poderia nunca mais voltar para casa. Se voltasse, a
morte era certa. Uma morte lenta e dolorosa.
Com aquela gente não se brincava… e Idá tinha mais do que passado da
conta. Agora lá estava ele, no meio da Lapa — de madrugada — foragido, com
uma ameaça de morte no pescoço, tentando se convencer de que era de fato, um
bruxo, e de que aquela maluquice toda era verdadeira.
Uma multidão trouxe sua mente de volta ao centro da cidade . Saltitavam
alegres pelo outro lado da avenida, cantando marchinhas antigas de carnaval.
Idá apertou o passo e virou a esquina. Armadilha ou não, quanto mais rápido
ele chegasse ao seu destino, mais cedo saberia.
A praça estava um verdadeiro lixão. Eram restos de fantasia espalhados por
todos os lados; máscaras, espadas de borracha, aventais de empregada, chapéus
de cowboy… Tudo cheirando a urina e cerveja. Uma verdadeira imundície.
O carnaval não ia acabar nunca?
Idá parou no meio da rua, procurando se acalmar.

Então, o que fazer?

O primeiro passo era parecer confiante. Um menino de 13 anos, sozinho, na


Lapa, numa hora daquelas, assustado e mancando, não era boa coisa. Isso ele
aprendera desde cedo: parecer um alvo fácil era o primeiro passo para se tornar
um alvo fácil.
Ele precisava se recompor. Esquecer a sentença de morte que pairava sobre
sua cabeça. Aquela carta tinha que ser verdadeira. Ele era bruxo. Tinha que ser
bruxo.
Respirando fundo. Idá esticou a coluna, ficou o olhar à sua frente e decidiu
andar com passos firmes. Nada de olhar para o chão. Talvez um passo mais
malndro, mais despreocupado fosse melhor. Muita rigidez chamaria atenção
num bairro boêmio como a Lapa.
Idá amoleceu o corpo, adicionando um certo gingado aos passos. Seus amigos
não o chamavam de cameleão à toa.
Já a bermuda imunda e as pernas sangrando não eram fáceis de disfarçar.
Talvez a escuridão ajudasse.
Estava se aproximando dos Arcos. Mais alguns passos e Idá avistaria o antigo
aqueduto transformado em ponto turístivo; a tal entrada mencionada na carta.
Aquilo não fazia sentido. Os Arcos da Lapa podiam ser tudo, menos uma
entrada para qualquer lugae. Era uma ponte, sustentada por Arcos gigantes, que
levava do nada ao lugar nenhum. E de bonde ainda por cima, para cobrar
passagem.
Mas Idá estava se distraindo. Precisava manter o foco; um homem duvidoso
se aproximava. Semblante ameaçador; as mãos enterradas nos bolsos da calça.
Podia estar armado. Podia ser um dos comparsas do Caiçara.
Seu coração acelerou, mas ao invés de desviar o olhar, Idá fixou os seus olhos
nos do homem. Isso demontraria que não tinha medo; que sabia das coisas.
Talvez tamanha segurança desencorajasse o ataque. Tudo dentro de si implo-
rava que saísse correndo, mas Idá prosseguiu decidido na direção do homem
que, para sua surpresa, arregalou os olhos ao notar sua aproximação e saiu
correndo rua afora como se o garoto fosse a Peste Negra.
“Eu tenho cara de bandido, é?!” Idá gritou atrás dele puto da vida, chutando
uma cadeira de plático na direção do covarde, que já desaparecia em disparada
por uma das ruelas laterais. “MANÉ!!!”
Revoltado, Idá virou a esquina.
Lá estavam os Arcos, majestosos, como uma ponte imensa erguendo-se por
cima de um rio de ruas e calçadas.
O endereço na carta era bem claro, mas não existia:

Arcos da Lapa, número 11. Centro.


Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Idá parou a alguns metros do velho aqueduto. Deviam ser uns trinta ou qua-
renta Arcos enfileirados no priemeiro nível daquele colosso arquitetônico, e
mais uns trinta no segundo. E, lá no alto, os trilhos do bonde.

Número 11…

Arco número 11, talvez? Se Idá os contasse da esquerda para a direita…


O primeiro Arco descia por uma ladeira obscura. Os outros iam intercalando
ruas e calçadas até o fim do aqueduto, lá do outro lado. O Arco de número 11 se
abriria numa calçada larga, bem entre uma rua e outra.
Em sua parede interna não havia qualquer porta ou entrada, nem marcas que
pudessem…
Idá apalpou a parede à procura de um botão, uma alavanca, o que fosse, mas
só encontrou pichações e manchas de urina.
A única instrução na carta era curta demais para seu gosto:

Por obséqiuio, entrar de costas.


Idá estava era entrando em desespero. Entrar de costas onde??? Se aquilo tudo
fosse mentira, ele estava ferrado.
Mas não podia ser mentira. Não depois de tudo o que ele tinha visto.
Certo. Idá se afastou e respirou fundo.
Próximo passo: procurar gente estranha. Se bruxos realmente existiam,
seriam, no mínimo, estranhos. Disso ele tinha certeza.

Idá olhou ao seu redor. Mendigos, bêbados, palhaços, loucos… sambistas…


Estranho era ser normal na Lapa. Mas ele procurava outro tipo de estranho; um
tipo mais escondido, daqueles que não desejam chamar atenção.
Isso já eliminava boa parte da lista anterior.
A lógica que estava usando era simples: se ele nunca vira bruxos antes, de-
viam viver escondidos. Escondidos, mas nem tanto. Como aqueles detalhes do
dia a dia que nunca são notados mas que estão lá para qualquer um ver quando
quiser. Talvez morassem nos mais de cinco mil imóveis abandonados do centro
da cidade. Eram centenas de casarões e sobrados antigos; a maioria caindo aos
pedaços…
Sua cabeça latejava.
Esgotado, Idá apoiou a testa na parede fria do Arco.
E foi então que viu, de canto de olho, um — não, dois sujeitos estranhíssimos
saindo de um… o que era aquilo? Um bar? Parecia mais um casa em estado de
iminente desabamento, espremida entre os outros casarões igualmente em
ruínas.
Sentindo uma corrente de entusiasmo subir a espinha, Idá se desgrudou do
Arco e pôs-se a segui-los. Ambos vestiam mantos compridos e grossos. Grossos
demais para o verão carioca. O mais jovem devia ter uns vintte e poucos anos.
Tinha os cabelos negros revoltosos e um brinco de prata na orelha. Já o mais
velho, um pouco careca e decididamente menos simpático, vestia um manto
roxo cintilante.
Tem gosto pra tudo nesse mundo.
De uma coisa Idá tinha certeza: aqueles trajes eram de muito boa qualidade
para serem uma mera fantasia de carnaval.
Os dois andavam num passo despreocupado, como se não temessem a
aproximação de qualquer ladrão ou pivete — o que era uma insanidade, visto
que o mais velho parecia um verdadeiro cabide de tantos colares e joias que
levava no pescoço. No entanto, a postura esbelta deles e seus passos suaves e
silenciosos não condiziam nem com loucos, nem com bêbados. O mais jovem
até brincava com o que parecia ser uma varinha, girando-a por entre os dedos de
uma das mãos.
Mantendo-se nas sombras. Idá foi se aproximando. Largou o gingado assim
que atravessou a rua e endireitou a coluna, adotando a pompa dos dois.
“O Lazai não faz ideia!” o mais jovem dizia com entusiasmo.
“Aquele ali é mais perdido que a Biblioteca Real”
“Se Justus fosse político, não deixava aquilo acontecer”
“Se Justus fosse político, NADA aconteceria. A política implora por cor-
rupção…”
Seguindo-os bem de perto. Idá tentava não perder uma única palavra do que
diziam. Para um par de bruxos — se é que eram bruxos — estavam falando alto
demais, sem a mínima cautela, como se fosse os únicos providos de aparelho
auditivo no Centro da cidade. E sobre assuntos do mundo deles, ainda por cima,
porque Idá nunca ouvira falar em uma tal de Zoroastra Maria Leopoldina Isabel
Xavier Gonzaga da Silva, cujo o nome o mais velho mencionara com certo
desprezo, poucos segundos depois, nem muito menos tivera notícias de que a
Grã-Bretanha estava na iminênicia de ser destruída por um psicopata assassino
e sua gangue.
“Você devia se misturar mais com os Azêmolas, Paranhos. Pega mal passar
vestido assim. O Ustra chamaria de estupidez.”
“Ustra não sabe de nada.”
“E o padrinho, não sabe? Ele aprova o modo como me visto. Diz que chamo
menos atenção”
“Teu padrinho aprova coisa demais.”, o mais velho resmungou, e Idá voltou
os olhos para si mesmo. Bruxos ou não bruxos, Idá não podia aparecer para
aqueles ilustres desconhecidos vestido daquela maneira.
Passando os olhos nas fantasias abandonadas no asfalto, encontrou uma
cartola de feltro jogada perto de um bueiro, logo atrás de uma máscara do
Freddy Krueger. Era um pouco mais larga que sua cabeça, mas não chegava a
tapar sua visão. Teria de servir.
Deiuxando-os ganhar distância, atravessou a rua e vestiu um traje de mágico
que avistara numa mesa de bar. Batendo os confetes dos ombros, dobrou as
mangas para que pudesse ao menos ver suas mãos, e fechou os botões até o
pescoço, conseguindo cobrir a camiseta, mas não a bermuda.
Vendo que os sujeitos já se adiantavam por uma outra rua, Idá voltou a segui-
los. Seus passos agora suaves como os deles, já sem qualquer traço de
malandragem.
No entanto, ainda não se julgava apto a apresentar-se. Observava seus trejei-
tos, seu linguajar, seu modo de andar… até seus tiques nervoso. O mais jovem,
por exemplo, de meio em meio minuto tirava um relógio de bolso do colete.
Pareciam europeus antiquados, e um tanto esotéricos ao mesmo tempo. Idá
tinha a estranha sensação de já ter visto tipos assim rondando a favela.

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