Capítulo 6 - Prostituição e direito à cidade em
Salvador: disputas e resistência no Centro
Histórico
João Pena
Gabriela Pinto de Moura
Fátima Medeiros
SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros
PENA, J., MOURA, G. P., and MEDEIROS, F. Prostituição e direito à cidade em Salvador:
disputas e resistência no Centro Histórico. In: PENA, J., PINHO, H., SERRA, O., and
NUNES, D., eds. Salvador em crise: desafios urbanos contemporâneos [online].
Salvador: EDUFBA, 2026, pp. 177-206. ISBN: 978-65-5630-921-7.
[Link]
All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a
Creative Commons Attribution 4.0 International license.
Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a
licença Creative Commons Atribição 4.0.
Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo
licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento 4.0.
177
Capítulo 6
Prostituição e direito
à cidade em Salvador
disputas e resistência
no Centro Histórico
João Pena
Gabriela Pinto de Moura
Fátima Medeiros
178 Sa l v a d or e m c r i s e
Introdução
Este capítulo se propõe a discutir a prostituição no centro de Salvador,
focando nas transformações que essa área sofreu nas últimas décadas. Para
isso, seremos guiados pelas memórias e experiência de Fátima Medeiros, fun-
dadora e coordenadora geral da Associação das Prostitutas da Bahia (Aprosba),
paraibana que deixou Natal, cidade onde sua família passou a morar desde
a sua adolescência, e escolheu Salvador como sua casa ainda na juventude.
Tendo trabalhado como prostituta em Salvador desde os anos 1980 – há alguns
anos passou a atender apenas clientes antigos e fixos –, ela acompanhou de
perto as mudanças nas principais áreas de prostituição, sobretudo em virtude
do Programa de Recuperação do Centro Histórico de Salvador, engendrado
pelo Governo do Estado da Bahia. Se, por um lado, esse projeto alterou radi-
calmente a geografia da prostituição no Pelourinho, por outro, foi nesse con-
texto que o movimento de prostitutas de Salvador se organizou e passou a lutar
pelos seus direitos.
As alterações e expulsões ocorridas no Centro Histórico de Salvador em
virtude das intervenções realizadas pelo poder público têm sido muito
debatidas. Contudo, pouco se discute sobre os impactos desses projetos na
geografia da prostituição nessa área, evidenciando uma invisibilização das
prostitutas na arena pública local. Apesar disso, elas têm sido muito ativas na
luta por sua permanência no centro e em defesa de seu trabalho. Neste sen-
tido, abordamos a realização da exposição Mulher-Dama e sua importância
para o debate sobre a presença das prostitutas no Centro Histórico e na cidade
de modo mais geral. Além disso, apontamos como durante a pandemia de
covid-19, apesar do isolamento social, as prostitutas estão entre os trabalha-
dores que precisaram se manter na rua ocupando o espaço público.
Como veremos, as memórias de Fátima nos conduzem a uma análise
dessa área a partir dos conflitos e tensionamentos vividos pelas prostitutas do
centro de Salvador desde uma época em que a área era marcada por sua forte
presença até os dias atuais, quando resistem e lutam pela sua permanência.
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 179
Notas iniciais sobre prostituição e cidade
Representada nas distintas formas de expressão artística, seja na literatura,
na pintura ou no audiovisual, a prostituição tem tido um papel importante
em diversas sociedades ao longo do tempo. Desse modo, ela tem sido exer-
cida nos mais distintos arranjos espaciais, porém na contemporaneidade é na
cidade onde ela é mais expressiva, já que a prostituição requer um conjunto
de elementos que a cidade pode oferecer: desde a infraestrutura necessária
à concentração de habitantes ou, em outras palavras, de potenciais clientes.
Entretanto, sua presença em nossa sociedade ainda suscita conflitos e tensio-
namentos, os quais se refletem na geografia da prostituição nas mais diversas
cidades. A forma como uma cidade é produzida em dado momento reflete os
valores sociais em voga, mas na medida em que ela é materializada, também
condiciona em certa medida a maneira como será utilizada pela população.
Assim, a discussão sobre a relação entre prostituição e cidade requer neces-
sariamente a compreensão de como a primeira se insere em nossa sociedade.
A sociedade da qual estamos falando caracteriza-se por ser patriarcal, hete-
ronormativa e monogâmica, ou seja, ela tem se estruturado a partir de valores
masculinos, heterossexuais e que tem na família, a partir da união matri-
monial entre um homem e uma mulher, uma de suas principais instituições
(Hubbard, 2012). Tudo aquilo que não se encaixa nesses padrões é colocado à
margem, pois não se dá conforme o esperado. Entretanto, é preciso dizer que
homens e mulheres não têm peso igual na balança moral dessa sociedade. Dos
homens espera-se que expressem e exercitem sua heterossexualidade desde
muito cedo, não sendo um tabu o fato de muitos homens manterem relações
afetivas e sexuais com mais de uma ou mesmo várias parceiras. Entretanto,
o mesmo não acontece se uma mulher o fizer. Da mulher espera-se que sua
sexualidade seja exercida durante o casamento e apenas com seu marido.
Quando uma mulher desafia essa norma e decide para si outro caminho, ela
carregará o que Gail Pheterson (1996) chama de “estigma de puta”, ou seja,
essa mulher passa a ser vista como impura, motivo de vergonha, doente, de
menor valor, fazendo com que as mulheres queiram evitar tal estigma. Então,
o estigma de puta é um instrumento de controle social dos corpos e compor-
tamentos das mulheres, sendo atribuído a qualquer uma que transgredir os
padrões sociais. Contudo, cabe aqui destacarmos como esse estigma interfere
na vida das prostitutas em sua presença na cidade.
180 Sa l v a d or e m c r i s e
Há distintas formas de gestão e controle da prostituição adotadas pelos
países. O Brasil adotou o modelo abolicionista nos anos 1950, o que significa
que a prostituição em si não é um crime, mas a atuação de terceiros sim. Nessa
perspectiva, não é permitido o funcionamento de bordéis ou a facilitação da
prostituição, o que significa que todo o entorno de quem exerce a prostituição
é criminalizado (Pena, 2019). Embora bordéis ou outros espaços funcionem a
despeito dessa proibição, inclusive com o conhecimento do poder público, o
discurso de vinculação da prostituição com a criminalidade costuma ser uti-
lizado quando da realização de intervenções urbanas. Desse modo, tenta-se
justificar a expulsão de prostitutas e o fechamento de bordéis, bares, boates
etc. em áreas que são objeto dos famigerados projetos de “renovação” ou “revi-
talização” de centros urbanos. Esse discurso no urbanismo é ancorado, entre
outras coisas, no estigma de puta, pois a prostituição passa a ser considerada
indesejada, como uma mácula no centro ou em parte dele e, portanto, não
se alinha aos novos interesses em jogo nessa área. Vimos em diversas expe-
riências recentes no Brasil e em outros países que o que está realmente em
jogo são os interesses do capital privado em determinada área, tendo o poder
público como aliado na efetivação da higienização social para viabilizar os
investimentos almejados (Cheng, 2016; Helene, 2019; Pena, 2020).
A perspectiva abolicionista tem sido contestada pelos movimentos de pros-
tituição brasileiros, que desde os anos 1980 lutam pelo reconhecimento dos
direitos das prostitutas enquanto trabalhadoras sexuais. Esta luta está articu-
lada ao contexto internacional na luta pelo reconhecimento da legitimidade
do trabalho sexual, do combate ao estigma de puta e à violência, entre outras
questões. Nessa perspectiva, uma conquista importante desse movimento foi
a inclusão da categoria na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), no ano
de 2002, sob o código 5198-05 e denominação de “profissional do sexo”. Além
de outros especialistas e instituições, Fátima Medeiros e a Aprosba partici-
param ativamente das discussões e da construção da descrição da atividade.
Contudo, a CBO apenas normaliza as ocupações, não tendo caráter regula-
mentador. Algumas tentativas de regulamentação tramitaram no Congresso,
sendo a mais recente o Projeto de Lei “Gabriela Leite” (PL nº 4.211/2012), de
autoria do então deputado federal Jean Wyllys em diálogo com o movimento
de prostitutas, porém sem sucesso até o momento (Brasil, 2002; Pena, 2019).
Na agenda desses movimentos está também a denúncia de suas expulsões
de áreas da cidade, bem como sua oposição a projetos urbanos como o que foi
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 181
implementado no Pelourinho, em Salvador, nos anos 1990. De modo geral, as
pessoas envolvidas na prostituição não são convidadas a participar das dis-
cussões sobre áreas centrais, projetos de renovação, gentrificação ou sobre a
cidade de modo mais amplo. Entretanto, elas fazem parte da dinâmica urbana
e também sofrem os impactos desses projetos urbanos. Nas ruas, em casas de
prostituição ou qualquer outro lugar, elas vivem o cotidiano das cidades, fazem
dele algo pulsante e têm muito a dizer a partir de sua própria perspectiva.
As reformas no Centro Histórico e o surgimento
da Aprosba: ativismo e resistência
Na segunda metade do século XX, iniciou-se um momento da trajetória da pre-
servação do patrimônio no Brasil em que se buscou firmar o patrimônio como
um recurso econômico, explorando seu potencial turístico como solução para
sua manutenção, dinamização e desenvolvimento, conforme política interna-
cional firmada com as Normas de Quito, em 1967. Essa nova postura adotada pela
política de patrimônio histórico a nível nacional convergia com as intenções do
planejamento regional baiano de reforçar a função de Salvador como polo turís-
tico e terciário do estado, principalmente em um contexto em que seu Centro
Antigo passava por um processo de esvaziamento de suas funções produtivas
em decorrência do surgimento de novas centralidades na cidade. Desse modo,
no final da década de 1960, o Governo do Estado da Bahia iniciou uma série de
planos de recuperação do núcleo histórico soteropolitano com vistas à sua valo-
rização enquanto zona turística e cultural da cidade1 (Sant’Anna, 2017).
Quando das primeiras mobilizações institucionais para a recuperação do
conjunto do Pelourinho na década de 1960, a prostituição foi considerada a
principal atividade econômica presente e estruturante da área (Fundação do
Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, 1969), em razão do aluguel massivo
pago pelas prostitutas para ocuparem os pequenos cômodos subdivididos no
1 Antes disso, algumas medidas de reconhecimento e proteção ao patrmônio do centro de
Salvador já haviam sido tomadas a nível federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (Iphan): entre os anos de 1938 e 1945, houve o tombamento de cerca
de 50 monumentos; e, em 1959, a proteção do tombamento foi estendida ao sítio do
Dique do Tororó e aos conjuntos arquitetônicos mais preservados nos subdistritos da
Sé, do Passo e da Conceição da Praia, e nos bairros da Saúde e Palma (Sant’Anna, 2017).
182 Sa l v a d or e m c r i s e
interior dos antigos casarões coloniais, utilizados como local de moradia e
trabalho. Enquanto alguns casarões comportavam cômodos alugados tanto
por prostitutas quanto por pessoas com outras ocupações, não se envolvendo
diretamente com a prostituição, outros serviam completamente a este propó-
sito, sendo geridos por terceiros responsáveis por estabelecer as normas de
condutas para as prostitutas, como prostíbulos, castelos e bordéis. Além disso,
a prostituição também era praticada na modalidade trottoir, que implica na
circulação e na permanência das prostitutas nos espaços públicos, como ruas
e praças, com vista a captar clientes, sendo normalmente mais repreendida
pela polícia por envolver uma maior visibilidade da presença das prostitutas
na cidade (Espinheira, 1984).
Diante desse fato, a presença do trabalho sexual no conjunto do Pelourinho
foi então descrita como o “problema central” (Fundação do Patrimônio
Artístico e Cultural da Bahia, 1969, p. 16) a ser solucionado pelos planos de
recuperação, que entendiam a prostituição como uma atividade econômica
marginal, instável e associada à criminalidade e, por isso, incompatível
com o projeto de valorização da área, pautado no desenvolvimento a partir
de atividades econômicas socialmente legitimadas e associadas ao turismo.
Desse modo, as propostas de intervenção para o conjunto do Pelourinho
vindas desses planos pretendiam em última instância uma desorganização
dos espaços de prostituição historicamente consolidados, sobressaindo-se
duas vertentes de atuação na década de 1970 (Sant’Anna, 2017): a primeira,
que defendia a remoção da população e posterior recuperação física dos imó-
veis para os usos turísticos, comerciais e de serviços; e a segunda, que apesar
de defender a manutenção do centro como bairro residencial, entendia
que era preciso realizar uma recuperação econômica e social da população
do Pelourinho, oferecendo condições profissionais e educacionais com a
intenção de substituir o trabalho sexual como a principal atividade econô-
mica (Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, 1972).
Contudo, até o final da década de 1980, as condições financeiras e políticas
para a efetivação dos planos de recuperação do Pelourinho foram escassas,
de modo que foram realizadas apenas algumas intervenções parciais, sendo
a mais expressiva a recuperação das fachadas na Rua Alfredo Brito, no Largo
do Pelourinho e na Ladeira do Carmo, criando um “corredor turístico”, além
de reformas pontuais de casarões para abrigar equipamentos públicos e habi-
tação de interesse social. Por outro lado, mesmo que a intervenção efetiva da
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 183
área não tenha sido expressiva nas primeiras duas décadas, a intenção mani-
festa de recuperação do conjunto do Pelourinho pelo Estado para o turismo foi
suficiente para jogar luz sobre a área e gerar uma especulação imobiliária que
desencadeou em um aumento expressivo do preço dos aluguéis, apesar do
acelerado processo de arruinamento dos imóveis sem a devida manutenção,
e, principalmente, na diminuição drástica do número de prostitutas no local
(Espinheira, 1988).
Fátima Medeiros chega a Salvador nesse momento, no final da década de
1980, para morar e trabalhar no Centro Histórico de Salvador como trabalha-
dora sexual, e seus trânsitos e vivências pelo Pelourinho confirmam a quase
total extinção da dinâmica de prostituição na área. Segundo Fátima, apesar
de ela ter conhecimento de que o conjunto do Pelourinho já foi ocupado majo-
ritariamente para atender à prostituição, quando ela chegou à cidade o local
servia predominantemente como moradia. Fátima recorda-se de ter visto
apenas alguns casarões no entorno do Convento São Francisco com placas na
fachada que diziam “aqui é familiar” ou “casa familiar”, uma estratégia recor-
rente na década de 1970 para evitar que os clientes entrassem em cômodos
que não eram destinados à prostituição. Por outro lado, as experiências de
Fátima no Centro Histórico são fundamentais para nos situar sobre outros
espaços conformados pelo trabalho sexual para além do entorno do conjunto
do Pelourinho, como: as boates e os bares nas ruas Carlos Gomes, Chile, Da
Ajuda, no Terreiro de Jesus e na Ladeira da Praça; os castelos da Ladeira da
Montanha; a Praça da Sé e o Largo Dois de Julho; os bares na Cidade Baixa e a
área do porto de Salvador (Figura 1).
Assim como o conjunto do Pelourinho, esses outros espaços de pros-
tituição presentes no Centro Histórico e entorno estavam prestes a sofrer
impactos em sua dinâmica, dessa vez devido à implantação do Programa de
Recuperação iniciado em 1992. Esse programa seguiu a lógica da primeira
vertente de atuação dos planos de recuperação identificada por Sant’Anna
(2017), qual seja, a remoção da população para posterior recuperação física
dos imóveis voltados aos usos turísticos, comerciais e de serviços. Contudo, o
programa se inseriu em um contexto de revitalizações de cidades históricas
dos anos 1990, em que se destacava como uma nova forma de valorização
econômica do patrimônio a promoção de seu potencial imagético dentro do
circuito turístico nacional e internacional, de modo a atrair investimentos
privados, ao mesmo tempo que servia como vitrine para promover uma nova
184 Sa l v a d or e m c r i s e
gestão pública, em substituição de um discurso desenvolvimentista predomi-
nante na década de 1970. Nesse sentido, o Programa de Recuperação reconhe-
cidamente marca, no contexto nacional, a produção de uma série de projetos
de revitalizações urbanas diretamente ligadas à institucionalização e valori-
zação do patrimônio histórico arquitetônico, à especulação do solo urbano e à
criação de “imagens marcas” das cidades (Arantes, 2000).
Figura 1 – Identificação dos espaços de prostituição existentes no Centro Histórico
no final da década de 1980
Fonte: elaborada pelos autores com base em informações de Fátima Medeiros.
De ampla abrangência territorial, o Programa de Recuperação se estruturou
em dez etapas, e se desenvolveu até a sétima, sendo que Márcia Sant’Anna
(2017) identifica três fases desse desenvolvimento. A primeira fase, entre 1992
a 1995, engloba as quatro primeiras etapas e se concentra novamente no con-
junto do Pelourinho, a fim de transformá-lo em um shopping center ao ar livre
suficientemente competitivo com os demais shoppings da cidade enquanto
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 185
espaço de lazer e consumo. A prioridade de intervenção no Pelourinho se
explica pelas suas características físicas e paisagísticas carregarem alto valor
simbólico na representação da cultura baiana e, por isso, serem fundamentais
para a almejada promoção da imagem do Centro Histórico de Salvador, trans-
formando-se no foco dos interesses econômicos no processo de transformação
do espaço para o fluxo turístico. Contudo, o discurso da prostituição como
“problema” será resgatado como justificativa oficial para a execução da obra
(Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, 1995, p. 20), mesmo que
sua presença já não fosse estruturante na área, no que Gey Espinheira (1988,
p. 9) denunciou o estigma sobre o trabalho sexual “hoje artificialmente pro-
duzido em função de interesses imobiliários muito nítidos”. De todo modo, se
havia ainda algumas poucas casas de prostituição no Pelourinho, elas foram
desmanteladas com a execução da primeira fase do programa.
A segunda fase da intervenção, de 1996 a 1999, engloba a quinta e a sexta
etapas, correspondentes à área da Praça da Sé e ao “Quarteirão Cultural”, na
Rua Gregório de Matos (Sant’Anna, 2017). A partir desse momento, a Praça
da Sé então se configurará como um território de disputa no contexto do
Programa de Recuperação envolvendo o trabalho sexual, já que a intervenção
pretendida nesse espaço público seguirá, conforme a primeira fase, na inves-
tida de “limpeza” da população considerada indesejável e inadequada às
funções comerciais, turísticas e midiáticas que lhe estão destinadas. Assim,
“[...] o patrimônio serviu de justificativa para a instauração de um novo higie-
nismo que, como o antigo, visava também a remover, das áreas que se dese-
java valorizar, uma população que atrapalhava e dificultava esses propósitos”
(Sant’Anna, 2017, p. 114).
As trabalhadoras sexuais formavam um dos grupos ocupacionais presentes
na Praça da Sé que estavam ameaçados de expulsão durante o processo de
revitalização, sendo frequentemente presas pela polícia durante seu horário
de trabalho. Apesar de não ter trabalhado na Praça da Sé, Fátima conhecia
as mulheres que o faziam e sabia da importância de manter a praça como
seu local de trabalho. Conforme dito anteriormente, o trabalho sexual é rea-
lizado sob diversos arranjos e são diversos os motivos para que as mulheres
optem por uma das formas de trabalho, sejam pré-requisitos, autonomia,
incompatibilidade de horários, discordâncias com determinadas normas de
conduta, etc. Fátima, por exemplo, trabalhava na área do porto e em boates
e bares do Centro Histórico, que envolviam uma dinâmica de trabalho mais
186 Sa l v a d or e m c r i s e
noturna, com consumação de bebidas e voltada para mulheres mais jovens.
As trabalhadoras sexuais da Praça da Sé eram mulheres mais velhas que não
conseguiam se inserir em ambientes de boates e bares, por exemplo, e, por
outro lado, já tinham uma dinâmica estabelecida na praça que propiciava a
captação de seus clientes e a prestação do serviço. Desse modo, Fátima reco-
nhecia que era fundamental manter a Praça da Sé como local para a prática
da prostituição para que suas colegas mantivessem seus meios de sobrevi-
vência de acordo com a forma de trabalho que tinham a vivência e o saber
para exercer. Como ela mesma relata:
Eu ficava pensando: ‘Poxa, tem um monte de mulheres de até 60, 70 e
tantos anos e elas ganhavam o dinheiro delas ali. Qual era a boate que
ia aceitar uma mulher acima de 30 para ganhar seu dinheiro?’. Essa
amiga mesmo dizia para mim: ‘Fátima, para onde eu vou? Eu ganho
meu dinheiro aqui. Ainda tem meu velho de navio que me acha por
aqui, tem os meus clientes que vêm aqui, tem o menino novo que quer a
experiência da mulher mais velha. Qual a boate que me aceita?’ (Fátima
Medeiros, entrevista, 22 jan. 2020).
Fátima também traz outro elemento relevante no processo de inves-
tida contra os espaços de prostituição, que é o impacto para as pessoas com
quem as trabalhadoras sexuais se relacionam social e economicamente e que
dependem indiretamente da manutenção do trabalho sexual:
Eu conversava com dona Josefa que era uma senhora que lavava a roupa
da gente e era puta também do passado, e ela contava tanta história de
quando ela chegou ali menina com uma tia que foi fazer vida... E que
sempre foi lugar de batalha. Ela ficava muito triste, perguntava como
ia lavar roupa agora, como ia ganhar dinheiro se lavava roupa das
meninas que iam para navio. E por que ia tirar a gente do Pelourinho se a
gente chegou há tantos anos? (Fátima Medeiros, entrevista, 22 jan. 2020).
Desse modo, os relatos de Fátima expõem um olhar divergente do dis-
curso oficial sobre o processo de revitalização do Centro Histórico de Salvador,
denunciando a ameaça de desmantelamento de redes sociais e econômicas
localmente consolidadas, sobretudo no que se refere ao trabalho sexual, com o
propósito de atender interesses macroeconômicos. A partir desse olhar crítico
sobre o contexto, iniciou-se um movimento de organização das trabalhadoras
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 187
sexuais no Centro Histórico de Salvador, encabeçado por Fátima, que tinha
como objetivo principal, naquele momento, reivindicar sua permanência na
Praça da Sé. Dessa articulação coletiva surgiu a Aprosba, em 1998:
E a gente foi para esse evento porque Marcelo Cerqueira disse ‘Vai para
esse evento, talvez você se identifica como puta, se tiver uma oportu-
nidade, você fala sobre o que está acontecendo na Praça da Sé’. [...] A
gente escreveu que eram cinco garotas de programa... nada de prosti-
tuta... Hoje é algo que eu me identifico, naquela época era garota de
programa porque você sabe que existia o preconceito, o estigma dentro
da gente... Cinco garotas de programas e a gente está com um problema
sério no Pelourinho porque a gente batalha lá, nossas amigas batalham
lá e estão apanhando, a gente vive presa 24h. Eu queria saber se isso é
crime ou não e a gente queria fundar uma associação, se alguém puder
ajudar a gente. Mas não botamos endereço por medo. [...] A mulher
começou a ler nossa carta: ‘Olha, tem uma carta muito interessante
de cinco garotas de programa que estão aqui nesse evento, elas não se
identificaram’. Todo mundo olhou para trás, nós também. ‘E elas estão
pedindo ajuda’. E começaram a procurar, a gente também, por medo,
a gente tinha medo da sociedade. [...] Eu fui lá na frente me tremendo
todinha: ‘Sou eu e minhas amigas’. Mas foi tanto apoio que eu nunca
me senti tão acolhida. Na segunda-feira, era tanta gente atrás de mim
dizendo para fundar a Associação. Era gente na minha porta. Aí a gente
fundou a Aprosba e registramos em 1998. De lá para cá não parei mais
nunca (Fátima Medeiros, entrevista, 22 jan. 2020).
Conforme relata Fátima, a mobilização em torno de uma associação pos-
sibilitou uma maior visibilidade para a pauta de permanência no centro de
Salvador levantada pelas trabalhadoras sexuais, assim como para os casos
de violências, principalmente policiais, a que elas estavam sujeitas. A ini-
ciativa recebeu ampla divulgação pela imprensa, conforme lembra Fátima:
“A imprensa ajudou a gente porque era um prato cheio puta mostrar a cara na
televisão, dizer que a gente queria ficar no Pelourinho porque quem chegou pri-
meiro foi as putas, tem história de mais de cem anos”. Esse fato impulsionou uma
mudança de postura do governo em relação à reivindicação da recém-fundada
Aprosba, que passou a estar mais aberto à escuta das trabalhadoras sexuais.
Nesse processo de negociações entre poder público e movimento associativo
de prostitutas, Fátima conta que o principal entrave era novamente o discurso
equivocado do governo de que o trabalho sexual está intrinsecamente associado
188 Sa l v a d or e m c r i s e
à criminalidade e de que a presença das trabalhadoras sexuais implicaria na
manutenção de atos criminosos na Praça da Sé: “Vocês acham que toda puta é
ladrona [sic] e não é verdade. Tem a puta que batalha e tem puta que nem toma
cerveja. Não existe polícia? Então faz ronda ali e olha quem está roubando e
tira. Mas deixa as outras, sabe”. Por fim, a Aprosba conseguiu um acordo que
garantia a permanência das trabalhadoras sexuais na Praça da Sé, além de
ter desempenhado papel fundamental no enfrentamento da violência policial
que assolava as mulheres a partir da denúncia dos policiais que a praticava.
De volta à análise do Programa de Recuperação, a terceira fase identifi-
cada por Márcia Sant’Anna (2017) corresponde à sétima etapa, que engloba os
quarteirões concentrados entre a Rua do Bispo e a Ladeira da Praça, e acar-
retou mudanças significativas ao inserir o uso habitacional dentre as fun-
ções dos imóveis recuperados diante da constatação de que o shopping a céu
aberto planejado não havia sido capaz de deflagrar um processo de reabili-
tação nas áreas adjacentes. Apesar disso, Laila Mourad (2011) aponta que a
intenção do governo era de atrair famílias de classe média para habitarem os
casarões recuperados, projeto que foi revisado devido à mobilização social da
Associação de Moradores e Amigos do Centro Histórico (AMACH) em 2005,
com a inclusão de reformas dos casarões para habitação social, garantindo ofi-
cialmente a permanência de 103 famílias moradoras da área. Contudo, nesse
processo de transformação do espaço desencadeado pela sétima etapa, houve
a desestruturação de mais um território de prostituição que era conformado
por casarões coloniais, similares aos do Pelourinho, que funcionaram para
moradia e trabalho de travestis na Rua São Francisco até o final da década de
1990. Nesta época, este era o local de maior concentração de residências de
travestis na cidade, com cerca de 35 moradoras (Kulick, 2008).
Percebemos, então, que espaços de prostituição específicos do centro de
Salvador, com dinâmicas próprias, foram estrategicamente alterados nas três
fases do programa. Posteriormente a isso, Fátima relata o fechamento maciço
das boates e bares também destinados à prostituição no centro, porém, neste
caso, não por ação direta do poder público, mas por decisão de seus donos
em virtude das mudanças de dinâmica que se produziram naquela área da
cidade e que, por isso, já não gerava lucro para esse tipo de negócio (Figura 2).
Apesar disso, longe de ser extinto, houve uma reacomodação do trabalho
sexual no centro da cidade e a Aprosba representa nesse processo uma grande
conquista para as trabalhadoras sexuais que se mantiveram organizadas em
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 189
torno da associação, sediada no Centro Histórico, e se articularam em movi-
mentos nacionais e internacionais de prostitutas, ampliando e fortalecendo
suas pautas e luta por direitos.
Figura 2 – Identificação dos espaços de prostituição afetados pela execução das fases
do Programa de Recuperação da década de 1990
Fonte: elaborada pelos autores.
Nesse primeiro momento, a Aprosba se juntou à Rede Brasileira de
Prostitutas (RBP), um canal para articulação política do movimento organi-
zado de prostitutas a nível nacional fundado por Gabriela Leite e Lourdes
Barreto como fruto do I Encontro Nacional de Prostitutas, ocorrido em 1987,
no Rio de Janeiro. Mais recentemente, outras duas redes foram criadas, vistas
como uma oportunidade para a expansão do movimento de prostitutas
ao mesmo tempo que se firmava o comprometimento de manterem as três
redes alinhadas em um movimento nacional unificado: a Central Única de
Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS), criada em 2015, e a Articulação
190 Sa l v a d or e m c r i s e
Nacional de Profissionais do Sexo (ANPS), criada em 2016. Nesse processo, a
Aprosba se filiou à ANPS, que, em 2018, tornou-se parceira também da Rede
de Trabalhadoras Sexuais da América Latina e do Caribe (RedTraSex).
Como exemplo de resultado dessa articulação coletiva de prostitutas brasi-
leiras, Monique Prada (2018) descreve como a maior conquista do movimento
a inserção do registro de “profissional do sexo” na lista da CBO, em 2002,
sendo este um reconhecimento necessário do trabalho sexual como trabalho
legítimo. Além disso, essa conquista é um instrumento importante para as
mulheres que exercem a prostituição de rua para comprovarem seu direito de
ocupar os espaços públicos para trabalhar e não ficarem à mercê de violências
policiais e prisões, por vezes incitadas por questões como especulação imobi-
liária e gentrificação, como no caso da Praça da Sé:
As prisões se baseavam na extinta Lei da Vadiagem para deter
mulheres que tinham nas ruas seu principal local de trabalho e cap-
tação de clientes. Hoje essas trabalhadoras se valem do fato de a ativi-
dade constar da CBO para garantir seu direito de ocupar as ruas sem
risco de detenção e violência policial (Prada, 2018, p. 56).
De todo modo, o movimento segue pautando a regulamentação da prosti-
tuição como caminho para a conquista dos direitos trabalhistas da categoria
(Prada, 2018).
No âmbito local, as associações se configuram como espaços de reconheci-
mento entre as prostitutas, onde possam realizar atividades para falar sobre o
cotidiano da profissão e desenvolver ações locais para ampliar a atuação polí-
tica do movimento, contando principalmente com financiamento por meio
de editais públicos. No caso da Aprosba, Fátima relembra que a Associação
já teve 3 mil trabalhadoras sexuais cadastradas e costumava ter reuniões toda
terça-feira, normalmente acompanhada de palestras e discussões com temas
diversos de interesse das associadas, além disso havia uma colaboração de
dois reais por mês de cada mulher para investir na manutenção da associação.
Dentre as diversas ações comandadas pela Aprosba, normalmente com
ampla divulgação da imprensa, Fátima relembra que a associação foi a pri-
meira a trabalhar com o preservativo feminino no Brasil, lembra também da
organização de um desfile no bairro de Patamares, em 2002, para abrir um
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 191
evento sobre aids, anterior inclusive à criação da Daspu2. Contudo, a ação de
maior projeção foi a proposta do projeto Rádio Zona FM em 2006, selecionada
por edital do Ministério da Cultura, uma iniciativa pioneira no Brasil: “Hoje, no
Brasil, existem rádios em nome de políticos, empresários e médicos, por exemplo.
Por que as prostitutas não podem ter um canal à sua disposição?”, questionou
Fátima Medeiros em entrevista à Folha de São Paulo (Francisco, 2006).
O objetivo do projeto era criar um espaço de comunicação que possibilitasse
uma participação social mais ampliada da Aprosba na disputa por narrativas
sobre prostituição, reivindicando o combate ao estigma e mostrando que as
prostitutas também são pessoas dignas, que exercem uma profissão como qual-
quer outra e ao mesmo tempo pleiteando direitos para a categoria. A Rádio Zona
FM ficou em período de teste por alguns meses pela internet, como mostra a
Figura 3, em que Babalu, associada da Aprosba, participava de uma entrevista.
Contudo, o pedido de concessão da emissora para o Ministério das Comunicações
foi negado, com alegações de políticos de que a instalação da rádio atrapalharia
antenas de algumas áreas da cidade, de modo que o projeto foi paralisado.
Figura 3 – Rádio Zona FM em período de teste
Fonte: acervo da Aprosba (2006).
2 Daspu é uma grife de moda destinada às trabalhadoras sexuais e criada por Gabriela
Leite, em 2005, como forma de financiamento da ONG Davida, instituição de defesa
dos direitos das prostitutas.
192 Sa l v a d or e m c r i s e
A Aprosba também tem sido importante para denunciar publicamente
casos de violência e violações contra as trabalhadoras sexuais, inclusive em
contextos de projetos urbanos para outras áreas de Salvador, como a orla do
bairro da Pituba. Sobre a Praça da Sé, Fátima garante que a permanência das
trabalhadoras sexuais no local foi respeitada:
Eu sempre vou lá, as mulheres continuam trabalhando lá, não tem mais
policial batendo nas mulheres, elas permanecem no local. [...] Tudo foi
por causa da Aprosba. Se não tivesse mostrado a cara na televisão, tinha
saído todo mundo, como eles estão tentando acabar com a Ladeira da
Montanha (Fátima Medeiros, entrevista, 22 jan. 2020).
Mulher-Dama ou a permanência no centro
e o direito à cidade
Em razão do descaso com que parte significativa do Centro Histórico é tratada
pelo poder público, os deslizamentos de terra após fortes chuvas ocorridas
em maio de 2015 condenaram ao desaparecimento casarões na Ladeira da
Montanha. Entre esses imóveis estavam o casarão que abrigou o famoso
bordel Meia-Três, fechado nos anos 1970 e registrado pelo fotógrafo Flávio
Damm em 1966, localizado na Ladeira da Montanha, nº 63, e o bar Casa das
Primas, situado até então na Ladeira da Conceição da Praia e, posteriormente,
reaberto na Rua do Sodré, no bairro do Dois de Julho (Daltro, 2015a; 2015b; G1
Bahia, 2015).
As demolições dos imóveis após os deslizamentos aconteceram rapida-
mente e em meio a controvérsias. Vale ressaltar que as adjacências da Praça
Castro Alves têm sido objeto de interesse do capital imobiliário e privado, des-
tacando-se a inauguração de dois hotéis de luxo: o Fasano, na referida praça,
em 2018, e o Fera Palace Hotel, na Rua Chile, em 2017. Vale também destacar
que, em 2015, o proprietário do Fera Palace Hotel adquiriu outros 124 imó-
veis na Rua Chile e arredores com a intenção de criar o Bahia Design District,
projeto iniciado com a abertura do hotel. (A Tarde, 2015; Bittencourt, 2017).
Com o apoio da Prefeitura de Salvador, do governo do estado e do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o projeto da Fera
Investimentos almeja transformar a Rua Chile, rua mais antiga do Brasil, e seu
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 193
entorno (Figura 4) em um complexo residencial e turístico de luxo, inspirado
no Meatpacking District, em Nova York (Wiziack, 2015).
Figura 4 – Poligonal de intervenções da Fera Investimentos
Fonte: Fera Investimentos (2020).
Por um lado, a existência dos casarões que abrigavam alguns dos últimos
bordéis da Ladeira da Montanha e na Ladeira da Conceição da Praia é impor-
tante para a cultura e história urbana de Salvador e também para a memória
das prostitutas da cidade. Contudo, por outro lado, a demolição dessas edifi-
cações abre caminho e facilita os investimentos pretendidos para essa área.
Movida por esse contexto, a arquiteta e urbanista e artista audiovisual Silvana
Olivieri, tendo conhecimento das fotografias de Flávio Damm que retratavam
as prostitutas no Centro Histórico nos anos 1960 e, com a autorização do artista,
decidiu organizar uma exposição com o material, que até então não havia sido
tornado público (Figura 5). Com curadoria de Silvana Olivieri, assim inicia a
construção da exposição Mulher-Dama, realizada no Museu da Nacional da
Cultura Afro-Brasileira (Muncab), de 9 de janeiro a 10 de março de 2018, com
financiamento do Fundo de Cultura do Estado da Bahia, por meio do Edital
Setorial de Artes Visuais da Fundação Cultural (Fernandes, 2018).
194 Sa l v a d or e m c r i s e
Figura 5 – Cartaz e registro da exposição Mulher-Dama
Fonte: Silvana Olivieri (2018).
O encontro de Silvana Olivieri com Fátima e as demais associadas da
Aprosba foi importante para a construção de um evento não apenas sobre, mas
com as trabalhadoras sexuais. Nesse contexto, a organização da exposição por
Silvana Olivieri em parceria com a Aprosba, além de trazer à tona a presença
das prostitutas na constituição da dinâmica do Centro Histórico, deu novo
fôlego ao movimento. A escolha do Muncab também merece atenção, pois foi
uma forma de trazer essa discussão para a área da cidade onde a prostituição
se concentrava quando foram feitos os registros de Flávio Damm. A disputa
pela permanência no Centro Histórico tem sido parte da agenda do movi-
mento de prostitutas em Salvador; desse modo, ocupar o referido museu tem
uma importância simbólica e política, um ato de resistência às tentativas de
invisibilização e a expulsão efetivada, como visto anteriormente.
Mulher-Dama não consistiu apenas na exposição de 42 fotografias feitas
por Flávio Damm, mas também numa série de atividades que discutiram
mais amplamente temas caros ao feminismo e ao movimento de prostitutas.
Durante a exposição, foi exibida uma faixa na fachada do Muncab na qual se lia
o lema do evento: “Todo poder às putas” em referência à obra Tereza Batista
Cansada de Guerra, do escritor baiano Jorge Amado (Figura 6). Dessa maneira,
“Todo poder às putas” constitui por si só uma espécie de frase-manifesto pelo
direito das prostitutas, contendo em si um mundo de significados, reivindica-
ções e ações de resistência. A pose de Fátima e suas companheiras prostitutas
para a foto exibindo o orgulho por sua profissão dá uma dimensão ainda mais
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 195
potente à imagem. O que se lê na faixa se corporifica nessas mulheres que de
forma aguerrida reclamam seu lugar na cidade e na sociedade.
Figura 6 – Prostitutas em frente ao Muncab
Fonte: Silvana Olivieri (2018).
Entre mostras de filmes, debates, oficinas e ocupação do espaço público,
Mulher-Dama proporcionou uma franca discussão sobre a prostituição com
aquelas que exercem essa atividade, uma forma não apenas de reivindicar
o direito de exercer esse trabalho, mas também de combater o “estigma de
puta”. Após cada exibição de filmes, houve bate-papos com integrantes do
movimento de prostitutas de distintas regiões do Brasil: Monique Prada, de
Porto Alegre, Santuzza Alves, de Belo Horizonte, Fátima Medeiros e Mary
Silva, de Salvador, Lourdes Barreto, de Belém, Diana Soares, de Natal, entre
outras presentes. A possibilidade de diálogo entre elas e o público da expo-
sição foi um momento de fazer emergirem discursos a partir da experiência
das próprias prostitutas, uma forma de romper com narrativas que as estig-
matizam e constroem a ideia de uma história única. Silvana Olivieri relata a
potência que pôde emergir desses bate-papos:
196 Sa l v a d or e m c r i s e
Foi bacana ver as pessoas que não tinham nenhum contato com esse
mundo, muita gente saiu mexida. Você via a reação das pessoas jus-
tamente pelo encontro, pela possibilidade de escuta do outro. A gente
fala tanto de lugar de fala, que é importante, mas a gente tem que criar
também o lugar de escuta, proporcionar esse tipo de experiência e para
mim é muito isso, eu queria que elas pudessem falar, mas que as pessoas
também pudessem ouvir, desejassem. Então você favorece com que esse
tipo de troca aconteça. E para Monique mesmo, que com ela eu conversei
muito sobre esse retorno, ela falou que para ela foi incrível as questões
porque justamente o público não era de ativistas, de pessoas que estão
acostumadas a ouvir as putas. Porque tem isso, né! Quando eu fui para
o encontro de São Luís, tinha algumas pessoas que eram pesquisa-
dores, pessoas que já acompanham e estudam isso há bastante tempo.
O público que foi nos bate-papos eram jornalistas, artistas, pessoas
de dança, de áreas muito diferentes e que estavam pela primeira vez
ouvindo uma prostituta. Eles todos me contam que foi uma experiência
muito marcante (Silvana Olivieri, entrevista, 28 jan. 2020).
O compartilhamento das experiências das prostitutas pelas ruas e praças de
Salvador também foi possibilitado por uma oficina realizada durante a expo-
sição que, posteriormente, deu origem ao livro Caderno de Campo 2, da artista
visual baiana Vânia Medeiros (2019), o qual é ricamente ilustrado com dese-
nhos feitos pelas trabalhadoras sexuais. A oficina propôs que as trabalhadoras
sexuais desenhassem sua rotina de trabalho durante um mês. Acompanhados
de breves relatos sobre suas vidas, os desenhos mostram não apenas o coti-
diano dessas trabalhadoras, mas também a centralidade que a cidade possui
para a prostituição, sobretudo quando exercida em ruas e praças.
O encerramento da exposição foi um show à parte. O encerramento de
Mulher-Dama ficou a cargo das prostitutas que ocuparam a Praça da Sé, local
onde a prostituição continua sendo exercida diariamente. Na noite do dia 9
de março de 2018, aconteceu a performance Salve Exu Motoboy, na qual as
prostitutas vestiram roupas femininas da coleção Salve Exu Motoboy, desen-
volvida pelo estilista Cássio Bomfim, da grife ACRE (Figura 7). Fátima conta
orgulhosa de que a ideia de andar pela rua fazendo um desfile foi dela e de
Silvana Olivieri (Figura 8). Para ela foi um momento sem igual ver as pessoas,
em especial a polícia, pararem para vê-las desfilar “de biquíni”, como ela disse,
pelas ruas do Centro Histórico.
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 197
Figura 7 – Performance Salve Exu Motoboy
Fonte: Alex Simões (2018).
Figura 8 – Ocupação do espaço público pelas prostitutas
Fonte: Silvana Olivieri (2018).
198 Sa l v a d or e m c r i s e
A ocupação da rua tem uma importância muito grande para o movimento
de prostitutas, pois o Centro Histórico carrega em sua história, em suas edi-
ficações e em seu cotidiano a memória dessas mulheres que aí se estabele-
ceram há muito tempo. Esse desfile é uma resposta às reiteradas expulsões
e tentativas de apagamento da presença da prostituição no Pelourinho. Em
relação a essas ações, Fátima diz o seguinte:
Por que vai tirar a gente da rua? Eles têm que entender que a gente
nem casa não tem, a gente é da rua, então por que vai tirar a gente? As
mulheres têm que permanecer. Permanecer! A rua é nossa! Não é à toa
que chamam a gente de mulheres de rua (Fátima Medeiros, entrevista,
22 jan. 2020).
Com alegria e irreverência, a exposição Mulher-Dama abriu um espaço
importante para o encontro com essas mulheres não numa perspectiva estig-
matizada como são vistas muitas vezes, mas como uma abertura para debates
sobre elas, com elas, sobre a legitimidade de seu trabalho, sobre suas relações
com a cidade e seu cotidiano. Ao ocuparem um museu e as ruas do Centro
Histórico, elas não apenas reiteram sua posição na disputa pela cidade, mas
também se colocam como agentes de produção da cidade em termos mate-
riais e simbólicos.
Prostituição e os impactos da pandemia
No começo de 2020 o mundo inteiro foi compelido a lidar com inúmeras res-
trições impostas pela pandemia de covid-19, doença provocada pelo surgi-
mento do novo coronavírus (SARS-CoV-2) na China. Rapidamente o vírus se
espalhou e mudou drasticamente as relações interpessoais e a dinâmica das
cidades. Como medida de prevenção, as pessoas precisaram alterar sua rotina,
evitando o contato direto com outras pessoas, mantendo-se em distancia-
mento e isolamento social. Um dos primeiros impactos disso foi a redução do
número de pessoas nas ruas e no espaço público de uma forma geral. Muitos
passaram a trabalhar e estudar de casa de modo remoto, diminuindo não só o
convívio com outrem, mas também sua circulação na cidade. Entretanto, nem
todos puderam seguir as orientações das instituições de saúde devido a, entre
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 199
outros fatores, desempenharem suas atividades laborais informalmente, ou
seja, sem garantias legais de manutenção de seus rendimentos.
Entre os tantos trabalhos informais exercidos está a prostituição, pois,
como foi dito anteriormente, este não é um trabalho regulamentado no Brasil.
Muitas pessoas que atuam na prostituição têm nesta atividade sua única ou
principal fonte de renda, muitas vezes sendo responsáveis pelo sustento de
toda a família. Apesar de possível, o trabalho remoto não é uma alternativa
fácil ou viável para muitas prostitutas, pois o trabalho sexual virtual requer,
como qualquer outro, um conjunto de expertises específicas e fanbase, ou seja,
clientes que estejam dispostos a usar e pagar por esse serviço. Na impossibili-
dade de migrar para a internet e sem ter outra fonte de renda, muitas prosti-
tutas continuaram trabalhando, mesmo que o número de clientes tenha caído
drasticamente.
No Centro Histórico de Salvador, o movimento de turistas caiu já em março
de 2020, quando a presença do coronavírus já preocupava a cidade. Como
forma de evitar a disseminação do vírus, a prefeitura impôs o fechamento de
vários estabelecimentos como bares, restaurantes, teatros, estabelecimentos
comerciais etc. Isto impactou diretamente a dinâmica do Centro Histórico,
que viu suas ruas esvaziarem-se daquela típica circulação de turistas e tra-
balhadores (Pereira, 2020; Salvador, 2020; Vasconcelos, 2020). Entretanto, a
Praça da Sé, por exemplo, não se esvaziou por completo, pois aí fazem ponto
diversas prostitutas que, sem muitas alternativas, insistiram em continuar
trabalhando. Assim como em São Paulo, no Parque da Luz, onde as prostitutas
continuaram tentando encontrar clientes na parte exterior do parque, que foi
fechado, as mulheres que trabalham na Praça da Sé, no Pelourinho, não con-
seguem muitos clientes (Vespa; Pereira, 2020).
Segundo relatos de algumas dessas prostitutas da Praça da Sé, algumas
continuam sendo procuradas por clientes fixos para programas e também
recebendo a ajuda de alguns clientes, conscientes da situação, mesmo sem
a prestação dos serviços sexuais. A prostituição não seguiu acontecendo
apenas na Praça da Sé. Apesar da restrição do funcionamento, muitas casas
onde acontece a prostituição mantiveram suas atividades na clandestinidade
– sob demanda dos clientes e agendamento prévio – do mesmo modo que
outros estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços. O tempo que
se pede a todos – o isolamento social, a parada das atividades – coexiste com
outros tempos “[...] que são contados pelo estômago, pela língua seca, pelo
200 Sa l v a d or e m c r i s e
corpo, pela carência” (Simões et al., 2020), e que têm obrigado as prostitutas a
se exporem. Se, por um lado, isto põe em risco a saúde e a vida de prostitutas
e clientes, por outro, também revela a situação de precarização do trabalho
sexual pela política abolicionista vigente no Brasil, que impede que as prosti-
tutas tenham acesso a direitos e garantias trabalhistas.
Como aconteceu com muitas pessoas, o Auxílio Emergencial de R$ 600,00
oferecido pelo governo federal não só demorou de ser concedido, como foi
negado a muitos por várias razões. Desse modo, mesmo aquelas que seguiram
tentando trabalhar viram-se em uma situação delicada, com sua renda
comprometida. Assim como aconteceu em outras cidades (Blanchette et al.,
2020; Simões et al., 2020), no caso de Salvador, graças ao incansável esforço
de Fátima Medeiros e da Aprosba, foi possível viabilizar a entrega de cestas
básicas a associadas da referida instituição, minimizando as dificuldades por
elas enfrentadas. Na falta de políticas públicas e do suporte do Estado, a luz no
fim do túnel para muitas dessas prostitutas e de outros trabalhadores, sobre-
tudo os informais, tem sido mesmo as relações de solidariedade e o enfrenta-
mento do problema pautado por um senso de coletividade, aspecto marcante
dos movimentos sociais não apenas das prostitutas.
Considerações finais
Apesar de não ser muito discutida no campo do urbanismo, a prostituição tem
grande importância para a produção do espaço urbano tanto em termos de sua
materialidade quanto em termos simbólicos, do imaginário sobre os lugares.
De forma geral ela aparece nas intervenções urbanas como um problema a
ser resolvido, eliminado mesmo dos olhos da cidade. Apesar do reconheci-
mento enquanto categoria ocupacional pela CBO, o estigma que as prostitutas
enfrentam em seu cotidiano nas esferas sociais e institucionais também se
reflete na percepção sobre elas por arquitetos, urbanistas e outros profissio-
nais que pensam e agem sobre o urbano, além das autoridades públicas.
Como vimos, as intervenções realizadas no Centro Histórico de Salvador
nas últimas décadas do século XX seguiram essa cartilha, buscando eliminar
do Pelourinho aqueles considerados indesejados no contexto da “recuperação”
da área para fins turísticos. A tradicional zona de prostituição foi desestru-
turada, muitos bares, casas e boates foram fechados para dar lugar a uma
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 201
cenografia espetacularizada de uma Salvador construída para atrair turistas.
Se, por um lado, isso afetou decisivamente a geografia da prostituição local,
por outro, o contexto provocou a necessidade de organização das prostitutas
para lutarem pelos seus direitos e sua permanência no Centro Histórico. A fun-
dação e atuação da Aprosba em alinhamento com os movimentos das pros-
titutas em âmbito nacional foram decisivas para evitar a completa expulsão
dessas trabalhadoras da área. Além disso, a articulação política criou um con-
texto em que elas passaram a disputar espaços para falar por si e a partir da
própria realidade.
Nesse contexto, a exposição Mulher-Dama teve um papel muito significa-
tivo, não apenas por apresentar à cidade as fotos feitas por Flávio Damm dos
espaços de prostituição no centro, mas também por criar um espaço de dis-
cussão e escuta sobre e com as prostitutas de Salvador e de outros locais do
Brasil. Então, a presença das prostitutas na cidade e seu papel na dinâmica
urbana cotidiana foram colocados num lugar distinto daqueles em que geral-
mente se vê nos estudos urbanos: como agentes de produção da cidade, como
trabalhadoras que, como muitos outros, ocupam as ruas diariamente para
exercerem seu ofício. O encerramento da exposição com uma performance
que ocupou a Praça da Sé e ruas do Centro Histórico foi emblemático ao mos-
trar ao público que essas mulheres não aceitam o lugar onde a sociedade lhes
quer colocar. Elas reivindicam, disputam, ocupam as ruas e gritam pelo seu
direito à cidade.
Por fim, a pandemia tem provocado significativos impactos na vida de
todos nós, mas há grupos sociais que estão enfrentando dificuldades maiores.
Com o esvaziamento das ruas e a necessidade de isolamento e distanciamento
social como forma de prevenção à covid-19, o número de clientes das pros-
titutas sofreu uma redução expressiva. A necessidade de continuar traba-
lhando revela a precarização do trabalho não apenas das prostitutas, mas de
todos os que atuam no mercado informal, pois sem garantias trabalhistas têm
sido compelidos a se manterem nas ruas para garantirem seu sustento. Cabe
ressaltar que, apesar dos problemas relacionados a isto, as prostitutas fazem
parte do grupo que, mesmo em um momento de adversidade, continuou ocu-
pando as ruas da cidade. Portanto, se mesmo neste contexto elas se colocam
no espaço público, não se pode negar a elas o direito de permanecerem quando
a pandemia for superada e a cidade voltar a um estado de normalidade.
202 Sa l v a d or e m c r i s e
Referências
ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Uma estratégia fatal: a cultura nas novas gestões urbanas.
In: ARANTES, Otília; VAINER, Carlos; MARICATO, Ermínia. A cidade do pensamento
único: desmanchando consensos. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 11-74.
A TARDE. Neto apoia venda de imóveis para “novo dono” da Rua Chile. A tarde, Salvador,
30 jun. 2015. Disponível em: [Link]
neto-apoia-venda- de-imoveis-para-novo-dono-da-rua-chile. Acesso em: 31 ago. 2020.
BITTENCOURT, Carla. “O mais importante nessa reforma é ser invisível”. A tarde,
Salvador, 6 mar. 2017. Disponível em: [Link]
nessa-reforma-e-ser-invisivel-849262. Acesso em: 31 ago. 2020.
BLANCHETTE, Thaddeus Gregory et al. The Prostitute, the City, and the Virus. Social
Sciences & Humanities Open, [s. l.], 27 maio 2020. Disponível em: [Link]
sol3/[Link]?abstract_id=3608567. Acesso em: 26 ago. 2020.
BRASIL. Classificação Brasileira de Ocupações. Ministério do Trabalho, Brasília, DF, 2002.
Disponível em: [Link] Acesso em: 7 jul. 2020.
CHENG, Tsaiher (ed.). Red Light City. Montreal: The Architecture Observer, 2016.
DALTRO, Euzeni. Demolições afetam rotina na Ladeira da Montanha. A Tarde, Salvador,
21 jul. 2015a. Disponível em: [Link]
demolicoes-afetam- rotina-na-ladeira-da-montanha. Acesso em: 25 ago. 2020.
DALTRO, Euzeni. Profissionais do sexo do Centro discriminam rivais. A Tarde, Salvador,
22 jul. 2015b. Disponível em: [Link]
profissionais-do-sexo-do-centro-discriminam-rivais. Acesso em: 24 ago. 2020.
ESPINHEIRA, Gey. Divergência e prostituição: uma análise sociológica da comunidade
prostitucional do Maciel. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Salvador: Fundação Cultural
do Estado da Bahia, 1984.
ESPINHEIRA, Gey. Pelourinho: a hora e a vez do Centro histórico. Carta da CPE:
Fundação Centro de Projetos e Estudos, Salvador, v. 1, n. 1, p. 1-15, 1988.
FERNANDES, Laura. Prostitutas, mas não só: fotos inéditas mostram realidade do Centro.
Correio, Salvador, 8 jan. 2018. Disponível em: [Link]
nid/prostitutas-mas-nao-so-fotos-ineditas- mostram-realidade-do-centro/. Acesso em:
25 ago. 2020.
FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E CULTURAL DA BAHIA. Levantamento Sócio
econômico do Pelourinho. Salvador: FPACBA, 1969.
Prost it uiç ã o e d ireito à c idade em Salvador 203
FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E CULTURAL DA BAHIA. Plano geral de
recuperação do Pelourinho: estudo para um plano de desenvolvimento da comunidade do
Maciel. Salvador: FPACBA, 1972.
FRANCISCO, Luiz. Prostitutas vão administrar rádio FM em Salvador. Folha Online,
Salvador, 8 mar. 2006. Disponível em: [Link]
cbn/capital_080306.htm. Acesso em: 28 jul. 2020.
G1 BAHIA. Imóveis afetados por tragédia no Comércio começam a ser demolidos. G1
Bahia, Salvador, 21 maio 2015. Disponível em: [Link]
imoveis-afetados-por- [Link]. Acesso em:
22 ago. 2020.
HELENE, Diana. Mulheres, direito à cidade e estigmas de gênero: a segregação urbana da
prostituição em Campinas. São Paulo: Annablume, 2019.
HUBBARD, Phil. Cities and sexualities. New York: Routledge, 2012.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E CULTURAL DA BAHIA. Centro Histórico de
Salvador, Programa de Recuperação. Salvador: Corrupio, 1995.
KULICK, Don. Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. Rio de Janeiro:
FioCruz, 2008.
MEDEIROS, Vânia. Caderno de campo 2. São Paulo: Conspire Edições, 2019.
MOURAD, Laila Nazem. O processo de gentrificação do Centro Antigo de Salvador: 2000
a 2011. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal da Bahia,
Salvador, Salvador, 2011.
PENA, João Soares. Além da vitrine: produção da cidade, controle e prostituição no
Red Light District em Amsterdã. 2020. Tese (Doutorado Arquitetura e Urbanismo) –
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2020.
PENA, João Soares. Gestão pública da prostituição no Brasil e na Holanda. Revista
Políticas Públicas & Cidades, Curitiba, v. 7, n. 1, p. 1-20, 2019. Disponível em: https://
[Link]/RPPC/article/view/345. Acesso em: 24 ago. 2019.
PEREIRA, Elias. Pelourinho tem pouca movimentação em meio a temores sobre
coronavírus. Rádio Sociedade, Salvador, 18 mar. 2020. Disponível em: https://
[Link]/18/03/2020/pelourinho- tem-pouca-movimentacao-em-meio-a-
temores-sobre-coronavirus/. Acesso em: 3 set. 2020.
PHETERSON, Gail. The prostitution prism. Amsterdã: Amsterdam University Press, 1996.
PRADA, Monique. Putafeminista. São Paulo: Veneta, 2018.
SALVADOR. Plano de Ação para Combate ao Coronavírus/ COVID-19: decretos
municipais. Salvador: Prefeitura Municipal, 2020. Disponível em: [Link]
204 Sa l v a d or e m c r i s e
[Link]/covid/wp-content/uploads/sites/27/2020/05/decretos- [Link].
Acesso em: 4 set. 2020.
SANT’ANNA, Márcia. A cidade-atração: a norma de preservação de áreas centrais no
Brasil dos anos 1990. Salvador: Edufba, 2017.
SIMÕES, Soraya Silveira et al. A prostituta, o vírus e a cidade. IPPUR, [Rio de Janeiro],
2020. Disponível em: [Link]
prostituta-o-virus-a-cidade. Acesso em: 25 ago. 2020.
VASCONCELOS, Carmen. Centro Histórico fica vazio neste domingo. Correio, Salvador,
15 mar. 2020. Disponível em: [Link]
historico-fica-vazio- neste-domingo/. Acesso em: 25 ago. 2020.
VESPA, Talyta; PEREIRA, Felipe. Coronavírus não interrompe prostituição a R$ 30 no
centro de São Paulo. UOL, São Paulo, 23 mar. 2020. Disponível em: [Link]
[Link]/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/23/prostituicao-a-r-30-no- centro-de-
[Link]. Acesso em: 28 jul. 2020.
WIZIACK, Julio. Via mais antiga do país, em Salvador, será revitalizada para virar
complexo turístico. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 jun. 2015. Disponível em: https:
//[Link]/mercado/2015/06/1648531-grupo-compra-123-imoveis-e-pretende-
[Link]?origin=folha. Acesso em: 31 ago. 2018.