# Texto 1 — O corredor que não levava a lado nenhum
Há quem diga que todo o caminho existe para ligar dois lugares, mas talvez essa
ideia tenha surgido apenas porque ninguém teve paciência para observar um corredor
suficientemente longo. Imagina um corredor sem portas, sem janelas, sem placas e
sem qualquer indicação de que exista um destino. Não é um corredor misterioso, nem
mágico, nem assustador. É apenas um corredor. O chão tem uma cor difícil de
definir, porque muda ligeiramente conforme a forma como alguém olha para ele. As
paredes são lisas, mas não perfeitamente lisas; possuem pequenas irregularidades
que não chegam a formar um padrão. O teto está presente apenas porque seria
estranho não existir um teto, embora ninguém pareça reparar nele durante muito
tempo.
De vez em quando passa uma pessoa. Caminha durante alguns minutos, olha para os
lados, encolhe os ombros e continua. Não procura nada em particular. Também não
tenta descobrir quem construiu aquele lugar. Talvez porque fazer perguntas exija
Certo dia passou uma folha seca levada pelo vento. Nenhuma das pedras a impediu de
seguir caminho. Ainda assim, durante muito tempo falaram sobre aquela folha como se
tivesse realizado uma viagem extraordinária. Perguntaram-se de onde tinha vindo,
embora soubessem que jamais obteriam resposta. Depois imaginaram para onde iria,
inventando destinos completamente incompatíveis entre si. Em todas as versões a
folha permanecia exatamente igual: leve, silenciosa e ocupada com a simples tarefa
de continuar a ser transportada pelo ar.
Horas depois surgiu uma nuvem. Não era particularmente grande nem pequena. Apenas
suficiente para alterar a luz durante alguns minutos. A primeira pedra disse que o
céu parecia diferente. A segunda respondeu que talvez fosse apenas a luz. A
terceira comentou que, independentemente da explicação, nenhuma delas conseguiria
tocar na nuvem. Concordaram com um silêncio que durou bastante tempo.
As estações continuaram a mudar sem pedir autorização. O calor tornava a superfície
das pedras ligeiramente mais quente. O frio fazia exatamente o contrário. Nenhuma
delas considerava isso um acontecimento digno de celebração. Era apenas uma
característica repetida do calendário, ainda que nenhuma soubesse o que era um
calendário.
Às vezes apareciam pequenos insetos. Caminhavam sobre as pedras sem imaginar que
estavam a interromper uma conversa antiga. Curiosamente, as pedras nunca se
incomodavam. Pelo contrário, apreciavam aqueles visitantes temporários porque
traziam pequenas histórias invisíveis. Um inseto podia vir de uma flor distante.
Outro podia regressar de um pedaço de madeira. Outro talvez não tivesse destino
nenhum. Todas essas possibilidades eram igualmente aceitáveis.
Num certo entardecer o vento mudou de direção. Não foi uma mudança dramática.
Apenas suficiente para transportar cheiros diferentes. Surgiu um aroma que lembrava
terra molhada, seguido por outro que parecia não se parecer com coisa nenhuma. A
segunda pedra insistiu que até os cheiros tinham trajetórias. A primeira respondeu
que talvez também tivessem pausas. A terceira limitou-se a perguntar se um cheiro
desaparecia ou apenas deixava de ser percebido.
Nunca chegaram a uma conclusão. Aliás, esse era precisamente o encanto das
conversas. Não existia obrigação de terminar cada assunto com uma resposta
definitiva. Algumas perguntas envelheciam melhor quando permaneciam abertas. Outras
desapareciam sozinhas porque deixavam de interessar.
Anos passaram. Talvez décadas. Talvez apenas alguns dias vistos por alguém muito
paciente. As três pedras permaneceram praticamente iguais. Sofreram pequenas
alterações causadas pela chuva, pelo vento e pelo tempo, mas nenhuma mudança
suficientemente grande para alterar quem eram. Se pedras pudessem ter identidade,
provavelmente seria essa: mudar tão devagar que qualquer transformação só pudesse
ser percebida depois de muito tempo.
Quando finalmente ninguém voltou a pensar nelas, as pedras continuaram exatamente
onde sempre estiveram. A conversa também prosseguiu. Não precisava de ouvintes. Não
precisava de significado profundo. Bastava existir. E talvez algumas das melhores
conversas sejam precisamente aquelas que não pretendem convencer ninguém de
absolutamente nada.
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# Texto 3 — O relógio que marcava horas perfeitamente comuns
Num canto qualquer de uma sala perfeitamente comum existia um relógio igualmente
comum. Não era antigo ao ponto de despertar admiração nem moderno ao ponto de
parecer futurista. Limitava-se a cumprir a sua função com uma regularidade quase
invisível. Os ponteiros avançavam sem pressa e sem atraso. O tique-taque repetia-se
com uma disciplina impressionante, embora poucas pessoas realmente o escutassem.
Todos os dias começavam de maneira parecida. A luz entrava pela janela, atravessava
partículas de pó que dançavam lentamente e acabava por iluminar metade do relógio
antes de alcançar a parede. Durante alguns minutos, o vidro refletia um brilho
discreto. Depois a luz mudava de posição e tudo voltava ao habitual. Era um
espetáculo silencioso que acontecia diariamente sem bilhetes, sem plateia e sem
aplausos.
Na mesa abaixo do relógio havia uma chávena vazia. Ninguém se lembrava exatamente
de quando tinha sido colocada ali. Também ninguém parecia sentir urgência em
retirá-la. Com o passar do tempo a chávena tornou-se parte da decoração
involuntária da sala. Quem entrava imaginava que sempre fizera parte daquele
cenário.
Ao lado da chávena encontrava-se um caderno fechado. As páginas estavam em branco,
mas isso nunca incomodou o caderno. Afinal, um caderno vazio continua a ser um
caderno. Talvez até possua uma tranquilidade especial por ainda não carregar
palavras, desenhos ou listas de tarefas. As folhas esperavam pacientemente por uma
ideia que nunca chegava, e pareciam perfeitamente satisfeitas com essa espera.
Enquanto isso, o relógio continuava a marcar horas comuns. Não existia uma hora
mais importante do que outra. As dez e dezassete tinham exatamente o mesmo valor
que as quinze e quarenta e dois. O relógio não fazia distinções. Para ele, todos os
minutos eram compostos pela mesma quantidade de segundos. Era uma forma bastante
democrática de observar o tempo.
Por vezes entrava alguém na sala apenas para procurar um objeto que acabava por não
encontrar. Abria uma gaveta, fechava outra, olhava para uma prateleira e saía
novamente. Durante toda essa movimentação, o relógio mantinha o mesmo ritmo. Não
acelerava por causa da pressa nem diminuía por causa da tranquilidade. Se tivesse
opiniões, provavelmente escolheria guardá-las para si.
Certa tarde ouviu-se um ruído distante. Talvez fosse um camião, talvez uma porta,
talvez duas panelas a tocar uma na outra. O som durou apenas alguns segundos e
desapareceu. Ainda assim, deixou a sensação curiosa de que alguma coisa tinha
acontecido algures. Ninguém investigou. O acontecimento foi promovido imediatamente
à categoria de "barulho qualquer" e a rotina prosseguiu como antes.
As sombras mudavam lentamente ao longo do dia. O relógio observava-as sem realmente
observá-las. O pó continuava a instalar-se sobre as superfícies com uma dedicação
admirável. O ar deslocava-se discretamente sempre que uma janela era aberta. Tudo
acontecia numa sequência tão habitual que parecia ensaiada há muito tempo.
Entretanto, uma ideia surgia de vez em quando: e se os objetos também colecionassem
memórias? Talvez a chávena se lembrasse de todas as bebidas que já transportou.
Talvez o caderno imaginasse histórias nunca escritas. Talvez o relógio guardasse um
arquivo silencioso de todas as horas que já marcou, mesmo sabendo que nenhuma delas
poderia regressar. Não havia forma de confirmar essa hipótese, mas também não
existia motivo para descartá-la imediatamente.
Quando a noite chegava, a sala mergulhava numa escuridão tranquila. O relógio
continuava a funcionar, agora acompanhado apenas pelo próprio som. O tique-taque
parecia ligeiramente mais alto, não porque tivesse aumentado de volume, mas porque
o silêncio lhe oferecia mais espaço. Era como uma conversa entre o tempo e ele
próprio.
Na manhã seguinte tudo recomeçava. A luz regressava, o pó continuava a flutuar, a
chávena permanecia vazia e o caderno seguia fechado. O relógio prosseguia o seu
trabalho sem expectativas, sem ambições e sem necessidade de reconhecimento. Talvez
essa fosse a característica mais curiosa de todas: fazer exatamente aquilo para que
existia, todos os dias, sem transformar essa rotina numa aventura nem numa
tragédia. Apenas continuar. Apenas marcar horas perfeitamente comuns, uma após
outra, até que alguém olhasse para ele por alguns segundos e logo voltasse a
esquecê-lo.