SERENDIPIDADE
HABEAS CORPUS. PECULATO-DESVIO (ART. 312, CAPUT, CP). WRIT
SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO. NÃO CABIMENTO. VERIFICAÇÃO
DE EVENTUAL COAÇÃO ILEGAL À LIBERDADE DE LOCOMOÇÃO.
VIABILIDADE.
PRETENSÃO DE TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. INÉPCIA DA DENÚNCIA.
AUSÊNCIA DE SUPORTE PROBATÓRIO MÍNIMO. ALEGAÇÃO DE QUE O
INQUÉRITO POLICIAL FOI INSTAURADO PARA APURAR A PRÁTICA DE
OUTROS CRIMES.
DISPENSABILIDADE DO PROCEDIMENTO PARA O OFERECIMENTO DA
DENÚNCIA.
ARGUMENTO DA INEXISTÊNCIA DE INDÍCIOS DA PRÁTICA DO CRIME PELA
PACIENTE. ELEMENTOS DANDO CONTA DA PARTICIPAÇÃO DA ACUSADA
NAS DECISÕES DA ASSOCIAÇÃO, BEM COMO DOS PROCEDIMENTOS
LICITATÓRIOS REPUTADOS FORJADOS, A FIM DE PROPICIAR O DESVIO DE
RECURSOS FEDERAIS. ALEGAÇÃO DE QUE AS MEDIDAS DE QUEBRA DE
SIGILO FISCAL E BANCÁRIO NÃO FORAM DECRETADAS PARA INVESTIGAR A
PRÁTICA DO CRIME DE PECULATO. POSSIBILIDADE DE DESCOBERTA
FORTUITA DE DELITOS QUE NÃO SÃO OBJETO DA INVESTIGAÇÃO
(FENÔMENO DA SERENDIPIDADE).
CONSTRANGIMENTO ILEGAL MANIFESTO. AUSÊNCIA.
1. O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo do recurso ordinário
previsto nos arts. 105, II, a, da Constituição Federal e 30 da Lei n. 8.038/1990.
Precedentes.
2. Apesar de se ter solidificado o entendimento no sentido da impossibilidade de
utilização do habeas corpus como sucedâneo do recurso cabível, esta Corte
Superior de Justiça analisa, com a devida atenção e caso a caso, a existência de
coação manifesta à liberdade de locomoção, não tendo sido aplicado o referido
entendimento de forma irrestrita, de modo a prejudicar eventual vítima de coação
ilegal ou abuso de poder e convalidar ofensa à liberdade ambulatorial.
3. Busca a impetração o trancamento da ação penal em relação ao crime de
peculato-desvio, imputado à paciente na ação penal em questão, ao argumento de
inépcia da denúncia e de ausência de justa causa para a instauração e
prosseguimento da ação penal.
4. Esta Corte pacificou o entendimento de que o trancamento da ação penal pela
via do habeas corpus é cabível apenas quando demonstrada a atipicidade da
conduta, a extinção da punibilidade ou a manifesta ausência de provas da existência
do crime e de indícios de autoria (HC n. 69.718/TO, Ministro Og Fernandes, Sexta
Turma, DJe 11/4/2012; RHC n. 26.168/MG, Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, DJe
21/11/2011).
5. O inquérito policial não é indispensável à propositura da ação penal. Precedentes.
6. Evidenciado que não se encontra patente a ausência de indícios de autoria em
relação à prática do crime de peculato por parte da paciente, que figura como
integrante da diretoria-geral da associação que concorreu para o desvio de recursos
federais, detendo poderes de decisão e tendo participado de procedimentos
licitatórios reputados forjados, a desconstituição da descrição contida na denúncia
somente poderá ser realizada durante a instrução criminal, até porque alcançar
conclusão nesse sentido demanda ampla dilação probatória, inviável na via estreita
do habeas corpus.
7. O fato de as medidas de quebra do sigilo bancário e fiscal não terem como objetivo
inicial investigar o crime de peculato não conduz à ausência de elementos indiciários
acerca do referido crime, podendo ocorrer o que se chama de fenômeno da
serendipidade, que consiste na descoberta fortuita de delitos que não são objeto da
investigação. Precedentes.
8. Evidenciado que o membro do Ministério Público Federal, além de fazer
minuciosa descrição do modus operandi da suposta associação criminosa, logrou
individualizar a conduta de cada acusado, não há falar sequer em inépcia formal da
inicial acusatória.
9. Mostra-se inviável o pleito de decretação do segredo de justiça do writ, quando,
levando-se em consideração o disposto no art. 93, IX, da Constituição Federal,
verifica-se que a situação dos autos não é apta a justificar exceção ao princípio da
publicidade dos atos processuais, pois não se questiona matéria que envolva a
intimidade das pessoas, nem existe exigência de interesse público para tal.
10. Habeas corpus não conhecido.
(HC 282.096/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado
em 24/04/2014, DJe 06/05/2014)
PENAL E PROCESSO PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS.
ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA E TRÁFICO DE DROGAS, COMPETÊNCIA DO
JUÍZO. PREVENÇÃO. FATO DELITUOSO DESCOBERTO A PARTIR DA
INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA AUTORIZADA EM RELAÇÃO A TERCEIRO.
ENCONTRO FORTUITO DE PROVAS (SERENDIPIDADE). NULIDADES NO
DECRETO PRISIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. RECURSO NÃO PROVIDO. 1. Na
esteira da orientação dada pelo Tribunal de origem, na hipótese em debate, não há
nulidade por incompetência territorial configurada que merece correção via presente
mandamus. É que Considerando a quantidade de envolvidos e a abrangência da
investigação, posto os fatos criminosos eram praticados em comarcas diversas,
cujos resultados alcançavam vasta região territorial, inviável a aplicação da regra
prevista no caput do art. 70 do Código de Processo Penal - CPP, sendo manifesta
a competência do Juízo Criminal de Palmital na medida em que prevento para o
prosseguimento da ação penal, considerando que foi a primeira autoridade a tomar
conhecimento da causa. Precedentes. 2. Noutro vértice, consoante orientação
jurisprudencial deste Sodalício o denominado encontro fortuito de provas
(serendipidade) é fato legítimo, refletido, no caso concreto, na descoberta, em
interceptação telefônica judicialmente autorizada, do envolvimento de pessoas
diferentes daquelas inicialmente investigadas, não gerando irregularidade a macular
o Decreto de custódia cautelar ou o inquérito policial. Precedentes. 3. Recurso em
habeas corpus não provido. (STJ; RHC 77.003; Proc. 2016/0266807-8; SP; Quinta
Turma; Rel. Min. Joel Ilan Paciornik; Julg. 23/10/2018; DJE 09/11/2018; Pág. 1730)
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSO PENAL.
CRIMES DE TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES E DE ASSOCIAÇÃO PARA
O TRÁFICO. ARTIGOS 33 E 35 DA LEI Nº 11.343/06. HABEAS CORPUS
SUBSTITUTIVO DE RECURSO EXTRAORDINÁRIO. INADMISSIBILIDADE.
COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL PARA JULGAR HABEAS
CORPUS. CRFB/88, ART. 102, I, D E I. HIPÓTESE QUE NÃO SE AMOLDA AO
ROL TAXATIVO DE COMPETÊNCIA DESTA SUPREMA CORTE.
INTERCEPTAÇÃO TELEFÔNICA. APLICABILIDADE DA TEORIA DO JUÍZO
APARENTE. ENCONTRO FORTUITO DE PROVAS. ADMISSIBILIDADE. PLEITO
DE REVOGAÇÃO DA CUSTÓDIA PREVENTIVA. TEMA NÃO DEBATIDO PELAS
INSTÂNCIAS PRECEDENTES. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIAS. AUSÊNCIA DE
EXAME DE AGRAVO REGIMENTAL NO TRIBUNAL A QUO. ÓBICE AO
CONHECIMENTO DO WRIT NESTA CORTE. INOBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO
DA COLEGIALIDADE. INEXISTÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL.
AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. As provas colhidas ou autorizadas por
juízo aparentemente competente à época da autorização ou produção podem ser
ratificadas a posteriori, mesmo que venha aquele a ser considerado incompetente,
ante a aplicação no processo investigativo da teoria do juízo aparente. Precedentes:
HC 120.027, Primeira Turma, Rel. p/ Acórdão, Min. Edson Fachin, DJe de
18/02/2016 e HC 121.719, Segunda Turma, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJe de
27/06/2016. 2. Nas interceptações telefônicas validamente determinadas é passível
a ocorrência da serendipidade, pela qual, de forma fortuita, são descobertos delitos
que não eram objetos da investigação originária. Precedentes: HC 106.152, Primeira
Turma, Rel. Min. Rosa Weber, DJe de 24/05/2016 e HC 128.102, Primeira Turma,
Rel. Min. Marco Aurélio, DJe de 23/06/2016. 3. In casu, o recorrente foi denunciado
pela suposta prática dos crimes tipificados nos artigos 33 e 35 da Lei nº 11.343/06
e encontra-se preso preventivamente. 4. A competência originária do Supremo
Tribunal Federal para conhecer e julgar habeas corpus está definida,
exaustivamente, no artigo 102, inciso I, alíneas d e I, da Constituição da República,
sendo certo que o paciente não está arrolado em qualquer das hipóteses sujeitas à
jurisdição desta Corte. 5. Agravo regimental desprovido. (STF; HC 137438; Primeira
Turma; Rel. Min. Luiz Fux; DJE 20/06/2017; Pág. 124)