MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DOS VALES DO JEQUITINHONHA E
MUCURI
Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde
DIAMANTINA – MG
Docente: Harriman Aley Morais
Discentes: Maitê Martins Franca e Maria Clara Gonçalves
Tema: “Quem faz radioterapia fica radioativo”
1. Introdução
Entre as diversas formas de tratamento do câncer, a radioterapia destaca-se como uma
das mais utilizadas, estando presente em mais de 50% dos casos. O procedimento consiste
na aplicação de radiações ionizantes, como raios X ou feixes de elétrons gerados por um
acelerador linear, que atuam diretamente sobre as células tumorais, promovendo sua
destruição por meio de dois mecanismos que ocorrem de forma simultânea.
O mais comum é o dano indireto, no qual a radiação ionizante reage com as moléculas de
água presentes nas células, formando radicais livres que lesionam o DNA. Já no dano
direto, a própria radiação atinge a molécula de DNA, provocando alterações estruturais que
impedem a célula de se dividir. Em ambos os casos, quando o dano ao material genético é
irreversível, ocorre a morte da célula tumoral.
Quando um paciente recebe informação de que irá precisar de realizar a radioterapia surge
muitas dúvidas a respeito do tratamento e muitas pessoas venham a procurar a internet
primeiro para tentar entender melhor o que esperar do tratamento. Uma das coisas q os
pacientes mais procuram saber e acabam acreditando é a crença de que pacientes
submetidos à radioterapia tornam-se radioativos, podendo transmitir radiação para
familiares, amigos ou animais de estimação.
Essa ideia é comum na sociedade porque muitas pessoas associam qualquer tipo de
radiação à contaminação radioativa, influenciadas por acidentes nucleares, filmes e notícias
que frequentemente utilizam conceitos científicos de forma equivocada.
[Link]ção científica
Conceitos básicos sobre radiação
A radiação é a propagação de energia no espaço, seja na forma de ondas
eletromagnéticas ou de partículas subatômicas. Trata-se de um fenômeno natural e
ubíquo: o calor do sol, a luz visível, as ondas de rádio e os raios X são todos
exemplos de radiação. Do ponto de vista físico, as radiações eletromagnéticas se
diferenciam pela frequência e pelo comprimento de onda, grandezas inversamente
proporcionais que determinam a quantidade de energia carregada por cada fóton —
quanto maior a frequência, maior a energia associada. Em relação a Biofísica,
interessa compreender não apenas a natureza da radiação, mas sobretudo sua
capacidade de interagir com a matéria viva. Essa interação depende diretamente da
energia envolvida e do tipo de tecido ou molécula atingida.
Classificação da radiação envolvida: ionizante ou não ionizante
O espectro eletromagnético é em geral dividido em duas grandes categorias com
base na capacidade da radiação de ionizar átomos e moléculas.
As radiações não ionizantes — como ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho e
luz visível — possuem energia insuficiente para remover elétrons de átomos, sendo
incapazes de provocar ionização direta nos tecidos biológicos. Seus efeitos sobre o
organismo se limitam, em geral, a efeitos térmicos ou fotoquímicos de baixa
magnitude.
Já as radiações ionizantes possuem energia suficiente para arrancar elétrons de
átomos neutros, gerando íons altamente reativos. Nessa categoria fazem parte os
raios X, os raios gama (γ), as partículas alfa (α), as partículas beta (β) e os
nêutrons. É exatamente esse tipo de radiação que está na base da radioterapia. Os
fótons de alta energia utilizados nos aceleradores lineares modernos — geralmente
raios X ou raios gama provenientes de fontes como o Cobalto-60 — atuam
depositando energia no tecido tumoral de forma localizada e controlada.
É importante diferenciar dois conceitos frequentemente confundidos: irradiação e
contaminação radioativa. A irradiação ocorre quando um corpo é exposto a uma
fonte de radiação externa — sem que qualquer material radioativo seja incorporado
ao organismo. A contaminação, por sua vez, implica a presença de substâncias
radioativas em contato com ou dentro do corpo, que continuam emitindo radiação de
forma autônoma. Essa distinção é central para entender e desconstruir o mito
analisado neste texto.
Mecanismos de interação com sistemas biológicos
Quando a radiação ionizante atravessa tecidos vivos, ela interage com as moléculas
presentes de duas formas principais:
Efeito direto: os fótons ou partículas transferem energia diretamente às
macromoléculas biológicas — em especial ao DNA —, provocando quebras nas
fitas simples ou duplas da cadeia helicoidal, oxidação de bases nitrogenadas e
disfunção celular. Esse mecanismo é mais importante para radiações de alta
transferência linear de energia (TLE), como partículas alfa e nêutron
Efeito indireto: representa a via predominante para raios X e gama. A radiação
ioniza moléculas de água presentes no meio intracelular, gerando espécies reativas
de oxigênio (EROs) — especialmente o radical hidroxila (•OH) —, que atacam
secundariamente o DNA e outras estruturas celulares. Estima-se que cerca de 60 a
70% do dano radioinduzido em células mamíferas ocorra por essa via. A resposta
celular a esses danos depende da magnitude da lesão, da capacidade de reparo do
DNA e do estágio do ciclo celular. Células com alta taxa de proliferação — como as
cancerígenas — são particularmente vulneráveis, o que fundamenta o princípio
terapêutico da radioterapia. As células normais adjacentes, em geral, possuem
mecanismos de reparo mais eficientes e são poupadas em maior proporção quando
o planejamento do tratamento é adequado
Outro conceito relevante é o de dose absorvida, medida em Gray (Gy), que
expressa a quantidade de energia depositada por unidade de massa de tecido. A
dose efetiva, leva em conta a sensibilidade biológica de cada órgão e o tipo de
radiação, sendo expressa em Sievert (Sv). Esses parâmetros são de grande
importância para o planejamento radioterápico e para a avaliação de riscos à saúde
3. Análise crítica do mito
A afirmação de que “quem faz radioterapia fica radioativo” é falsa. Essa ideia, embora
amplamente difundida no senso comum, não corresponde à realidade na grande maioria
dos casos. Compreender a origem desse mito e contrastá-lo com os princípios físicos
envolvidos no tratamento é fundamental tanto para a educação em saúde quanto para
reduzir o estigma social enfrentado por pacientes oncológicos. Após cada sessão, o
paciente pode voltar para casa e conviver normalmente com outras pessoas, incluindo
crianças e grávidas.
O mito de que toda pessoa submetida à radioterapia fica radioativa surge de uma
combinação de fatores. Primeiro porque tem uma confusão na questão do conceito entre os
diferentes tipos de tratamento radioterápico. O termo “radioterapia”, isoladamente, não
distingue a modalidade externa da modalidade interna. Como a braquiterapia e a
iodoterapia radioativa que de fato deixam o paciente temporariamente radioativo e essas
informações vão circulando corretamente em bulas, sites médicos e orientações
hospitalares, o público tende a generalizar essa exceção para todos os tratamentos que
envolvem radiação.
Segundamente, existe uma forte associação cultural entre a palavra “radiação” e a ideia de
perigo invisível e duradouro. Eventos históricos como Hiroshima e Chernobyl, somados a
representações da ficção científica, reforçaram no imaginário coletivo a noção de
contaminação permanente. Sob essa ótica, parece lúcido supor que, se a radiação “entrou”
no corpo, ela também “fica” nele mesmo quando isso é fisicamente incorreto para a maioria
dos procedimentos.
Por fim, há uma deficiência recorrente na comunicação clínica cotidiana. Muitos pacientes
deixam consultas sem compreender claramente a diferença entre “receber radiação” (um
evento físico transitório) e “ser radioativo” (um estado da matéria que exige a presença de
átomos instáveis no organismo). Sem esse modelo mental básico, torna-se fácil assumir
que ambos os conceitos são equivalente
4. Aplicações biológicas e tecnológicas
Embora muitas vezes associada apenas aos seus possíveis riscos, a radiação
ionizante possui inúmeras aplicações benéficas quando utilizada de forma
controlada e seguindo rigorosos protocolos de segurança.
Aplicações na saúde:
A radioterapia representa um dos principais pilares do tratamento do câncer,
juntamente com a cirurgia e a quimioterapia. Estima-se que aproximadamente
metade dos pacientes oncológicos necessite desse tratamento em algum momento
da doença. O objetivo é destruir ou impedir a multiplicação das células tumorais,
preservando ao máximo os tecidos saudáveis.
Os avanços tecnológicos possibilitaram o desenvolvimento de técnicas altamente
precisas, como a Radioterapia de Intensidade Modulada (IMRT), a Radioterapia
Guiada por Imagem (IGRT) e a Radioterapia Estereotáxica (SBRT), que direcionam
doses elevadas ao tumor com mínima exposição das estruturas vizinhas. Em
tumores cerebrais, a radiocirurgia estereotáxica permite tratar lesões sem
necessidade de abertura do crânio.
Além da radioterapia, a medicina nuclear utiliza radioisótopos tanto para diagnóstico
quanto para tratamento. Exames como PET-CT e cintilografia permitem visualizar
alterações metabólicas e funcionais antes mesmo que ocorram modificações
anatômicas. Já terapias com radiofármacos, como iodo-131 e lutécio-177,
possibilitam tratar determinados tipos de câncer de maneira altamente seletiva.
Aplicações na indústria, agricultura e pesquisa:
Na indústria, fontes radioativas são utilizadas para inspeção de soldas, tubulações e
estruturas metálicas por meio da gamagrafia industrial, permitindo identificar falhas
internas sem danificar os materiais. Radioisótopos também atuam como traçadores
em processos industriais, auxiliando no monitoramento de vazamentos e na
otimização de processos produtivos.
Na agricultura e na indústria alimentícia, a irradiação de alimentos é uma tecnologia
aprovada pela Organização Mundial da Saúde e por diversos órgãos reguladores
internacionais. O processo elimina microrganismos patogênicos, reduz a infestação
por insetos e aumenta o tempo de conservação dos alimentos, sem torná-los
radioativos, pois a radiação apenas atravessa o alimento durante o processamento,
sem incorporar material radioativo.
Na pesquisa científica, radioisótopos desempenham papel importante em diferentes
áreas. O carbono-14 é amplamente utilizado na datação de fósseis e artefatos
arqueológicos, permitindo estimar sua idade com grande precisão. Em biologia
molecular, isótopos como fósforo-32 e enxofre-35 são empregados na marcação de
DNA, RNA e proteínas, contribuindo para estudos sobre expressão gênica,
metabolismo celular e mecanismos de reparo do DNA. Grande parte do
conhecimento atual sobre os efeitos biológicos da radiação e sobre o tratamento do
câncer foi construída graças a pesquisas que utilizaram esses radioisótopos.
5. Conclusão
Retomando o mito apresentado no início deste trabalho, é possível afirmar, com base nos
conceitos de Biofísica discutidos no texto, que a ideia de que "quem faz radioterapia fica
radioativo" não corresponde à realidade. Na radioterapia externa, a radiação atinge o corpo
do paciente, entrega sua energia onde é necessário e simplesmente não fica "guardada" no
organismo depois disso. Terminada a sessão, o paciente pode conviver normalmente com
familiares, amigos e cuidadores, sem nenhum risco de transmitir radiação a quem está por
[Link] mito, como vimos, nasce principalmente da falta de informação.
Muitas pessoas não conhecem a diferença entre a radioterapia externa e outros
procedimentos, como a braquiterapia ou tratamentos de medicina nuclear, que de fato
podem exigir cuidados temporários por envolverem materiais radioativos dentro do
[Link] confusão é reforçada por filmes, notícias sobre acidentes nucleares e pela
própria forma como a palavra "radiação" costuma ser associada, no imaginário coletivo, a
algo perigoso e contaminante.
Por isso compreender de forma correta como a radiação se comporta e interage com o
organismo faz toda a diferença. Os princípios da Biofísica ajudam a explicar, de maneira
clara, por que a radioterapia é segura para quem está ao redor do paciente, desmontando
um preconceito que, infelizmente, ainda afeta pessoas em tratamento oncológico.
Por fim, este trabalho reforça como a divulgação científica é importante para diminuir esse
tipo de desinformação.
Quando o conhecimento científico chega de forma acessível à população, ele não apenas
esclarece dúvidas, mas também ajuda a reduzir o estigma social enfrentado por pacientes
em tratamento, contribuindo para que decisões sobre saúde sejam tomadas com base em
evidências, e não em medos infundados.
Referências
ANTHROPIC. Claude (versão Sonnet 4.6). [S.l.]: Anthropic, 2026.. Disponível em: [Link]
DEFINIS, Paulo Henrique. Desmistificando a radioterapia: bases técnicas para profissionais da
saúde. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2025.
Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), site oficial
[Link]
Instituto Vencer o Câncer, site oficial [Link]
Oncologia D’Or, projeto de oncologia da Rede D’Or São Luiz, acessível em
[Link]