Topalg
Topalg
ALGÉBRICA
Mauricio A. Vilches
PREFÁCIO
1 HOMOTOPIA 7
1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.2 Propriedades das Homotopias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.3 Homotopia e Campos de Vetores na Esfera . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.4 Homotopia Relativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.5 Tipo de Homotopia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
1.6 Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.7 Espaços Contráteis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.8 Retratos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
1.9 Homotopia e Extensão de Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
1.10 Homotopia de Caminhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
1.11 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2 GRUPO FUNDAMENTAL 31
2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
2.2 Mudança do Ponto Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.3 Grupos de Homotopias Abelianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.4 Homomorfismo Induzido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
2.5 Espaços Simplesmente Conexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
2.6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
5
6 CONTEÚDO
4 ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS 73
4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
4.2 Recobrimentos de G-espaços . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
4.3 Generalizações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
4.4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
Bibliografia 153
Capı́tulo 1
HOMOTOPIA
1.1 Introdução
Nos capı́tulos seguintes, X e Y são espaços topológicos; I = [0, 1] ⊂ R com a topologia
induzida pela topologia usual de R e todas as funções consideradas são contı́nuas.
H : X × I −→ Y tal que
H(x, 0) = f (x),
H(x, 1) = g(x)
para todo x ∈ X.
A função H é dita homotopia entre f e g. A notação que se usa para indicar que f é
homotópica a g é:
H : f ≃ g.
A homotopia entre f e g é uma famı́lia a um parâmetro de funções contı́nuas entre X
e Y , isto é, para cada t ∈ I:
ft : X −→ Y
é contı́nua, onde ft (x) = H(x, t). Intuitivamente, a homotopia ”deforma”continuamente
f em g.
Exemplo 1.1.
7
8 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
H : R × I −→ R2
H(x, t) = (x, x2 − t x2 + t x).
f ≃ g.
H :X × I −→ Y
(x, t) −→ α(t).
H :I × I −→ X
(t, s) −→ α (1 − s) t .
1.2. PROPRIEDADES DAS HOMOTOPIAS 9
H :Rn × I −→ X
(x, t) −→ f (1 − t) x .
H :X × I −→ Rn
(x, t) −→ (1 − t) f (x) + t g(x).
H :X × I −→ E
(x, t) −→ (1 − t) f (x) + t g(x).
f, g : X −→ E − {0}
contı́nuas tais que kf (x) − g(x)k < kf (x)k, para todo x ∈ X; então f ≃ g.
De fato, notemos que a origem não pertence ao segmento de reta f (x)g(x); caso contrário,
poderı́amos ter:
(
H(x, 2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
Q(x, t) =
K(x, 2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
g0 ◦ f0 ≃ g1 ◦ f1 ,
a :S n −→ S n
x −→ −x.
Proposição 1.1. Sejam f, g : S n −→ S n contı́nuas tais que f (x) 6= −g(x), para todo x ∈ S n ;
então f ≃ g.
Consideremos a homotopia:
(1 − t) f (x) + t g(x)
H(x, t) = .
k(1 − t) f (x) + t g(x)k
H é bem definida e contı́nua pois f (x) 6= −g(x), para todo x ∈ S n , o que equivale
ao segmento de reta f (x)g(x) não conter a origem. Por outro lado, H(x, 0) = f (x) e
H(x, 1) = g(x), para todo x ∈ S n .
1.3. HOMOTOPIA E CAMPOS DE VETORES NA ESFERA 11
f(x)
H(x,t)
O n
S
g(x)
-f(x)
Prova :
1. De fato, se f não possui pontos fixos, então f (x) 6= x, para todo x ∈ S n ; logo
f (x) 6= −a(x). Pela proposição anterior, temos que f ≃ a
2. f (x) 6= −x, para todo x ∈ S n ; logo f (x) 6= −idS n (x). Pela proposição anterior, temos
que f ≃ idS n
3. Se n = 2 k − 1,então S n ⊂ R2k = Ck ; denotemos por zi = (xi , yi ) ∈ C; logo:
Por outro lado, sabemos que o grupo S 1 atua sobre S n se n é ı́mpar; isto é, para todo
u ∈ S 1 e todo z ∈ S n temos que u · z = (u z1 , u z2 , . . . , u zk ) ∈ S n . Definamos:
H(z, t) = exp(π i t) · z;
logo, H é contı́nua; H(z, 0) = z e H(z, 1) = −z = a(z).
Prova : Como f não é sobrejetiva, então existe y ∈ S n tal que f (x) 6= y, para todo
x ∈ X. Seja c : X −→ S n tal que c(x) = −y, para todo x ∈ X; logo f (x) 6= −c(x), isto é,
f ≃ c.
12 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
ν (x)
n
S
Resumindo: em S n , temos:
i. Se n é ı́mpar, então a ≃ idS n .
ii. Se existe um campo de vetores contı́nuo sem singularidades em S n , então a ≃ idS n .
iii. É possı́vel provar, utilizando conceitos mais avançados, que a ≃ idS n , implica em n
ı́mpar.
1.4. HOMOTOPIA RELATIVA 13
H :X × I −→ Y tal que
H(x, 0) = f (x),
H(x, 1) = g(x),
H(a, t) = f (a) = g(a)
para todo a ∈ A e x ∈ X.
f ≃A g.
Exemplo 1.2.
H(t, 0) = f (t)
H(t, 1) = g(t)
H(0, s) = f (0) = H(1, s) = g(1).
14 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
1.6 Exemplos
[1] Rn ≃ {0}.
De fato, considere as funções f : Rn −→ {0} tal que f (x) = 0 para todo x ∈ Rn e
g : {0} −→ Rn a inclusão. Por outro lado, seja H : Rn × I −→ Rn definida por:
H(x, t) = t x;
H(x, 0) = 0 = g ◦ f (x) e H(x, 1) = x = idX (x); então H : g ◦ f ≃ idX .
H é contı́nua;
Como f ◦ g (0) = f (0) = 0 = id{0} (0), f ◦ g = id{0} .
[2] S 1 × R ≃ S 1 × {0} ∼
= S1.
De fato, considere f : S 1 × R −→ S 1 × {0} definida por f (x, t) = (x, 0) e g : S 1 × {0} −→
S 1 ×R a inclusão, isto é g(x, 0) = (x, 0). Por outro lado, seja H : S 1 ×R ×I −→ S 1 ×R
definida por:
H((x, t), s) = (x, t s);
logo, H é contı́nua e:
H((x, t), 0) = (x, 0) = g ◦ f (x, t)
H((x, t), 1) = (x, t) = idS 1 ×R (x, t).
Então H : g ◦ f ≃ idS 1 ×R . Note que f ◦ g (x, 0) = (x, 0) = idS 1 ×R (x, 0); logo, f ◦ g =
idS 1 ×R .
S1 x IR
S1 x {0}
logo, H é contı́nua e:
S n − {pn , ps } ∼
= Rn − {0} ≃ S n−1 .
Logo:
S n − {pn , ps } ≃ S n−1 .
[5] Seja M a faixa de Möebius. Lembremos que M = Q ≃ , onde Q = I ×I, I = [0, 1]
e ≃ é a relação de equivalência (0, y) ≃ (1, 1 − y). Denotemos por:
Definamos:
f : M −→ Σ
f ([(x, y)]) = [(x, 1/2)].
f ([(1, 1 − y)]) = [(1, 1/2)] = [(1, 1 − 1/2)] = [(0, 1/2)] = f ([(0, y)]).
Definamos:
H : M × I −→ M
H([(x, y)], t) = [(1 − t) (x, y) + t (x, 1/2)].
1/2
Proposição 1.2. Seja X, Y o conjunto
dasclasses de′ homotopias
de funções contı́nuas de X
′ ′ ′
em Y . Se X ≃ X e Y ≃ Y , então # X, Y = # X , Y , onde # indica a cardinalidade do
conjunto.
Exemplo 1.3.
αx :I −→ X
t −→ H(x, t).
Logo, αx é um caminho contı́nuo que liga x a p.
Proposição 1.5. Se X ou Y é contrátil, então, para toda f : X −→ Y contı́nua, f ≃ c.
Prova : Suponha X contrátil e H : idX ≃ c. Definamos:
K : X × I −→ Y
K(x, t) = f H(x, t) .
Logo, K(x, 0) = f ◦ idX (x) = f (x) e K(x, 1) = f (p) = c(x); então f ≃ c. Por outro
lado, se Y é contrátil e H : idY ≃ c1 , definamos:
K : X × I −→ Y
K(x, t) = H(f (x), t).
Logo, K(x, 0) = f (x) e K(x, 1) = c1 (f (x)); então f ≃ c1 .
1.7. ESPAÇOS CONTRÁTEIS 19
Corolário 1.3.
1. Se X é contrátil e Y é conexo por caminhos, então, para todas f, g : X −→ Y contı́nuas,
temos que f ≃ g.
2. Se Y é contrátil, então, qualquer que seja X e para todas f, g : X −→ Y contı́nuas, temos
que, f ≃ g.
Prova : 1. Seja H : idX ≃ c, definamos:
K(x, t) = f H(x, t) ⇒ K : f ≃ c1
L(x, t) = g H(x, t) ⇒ L : g ≃ c2 ,
onde c1 (x) = f (p) e c2 (x) = g(p), para todo x ∈ X. Como Y é conexo por caminhos,
existe α caminho contı́nuo ligando f (p) e g(p); definamos:
G : Y × I −→ Y
(y, t) −→ α(t).
Logo, c1 ≃ c2 e f ≃ g.
2. A prova é imediata.
pr2 : X × Y −→ Y e ip : Y −→ X × Y,
tal que pr2 (x, y) = y e ip (y) = (p, y). Então, temos que:
ip ◦ pr2 (x, y) = ip (y) e pr2 ◦ ip (y) = y = idY (y).
Definamos:
G : X × Y × I −→ X × Y
G((x, y), t) = H(x, t), y).
Logo, G((x, y), 0) = (x, y) = idX×Y (x, y) e G((x, y), 1) = (p, y) = ip ◦ pr2 (x, y); então
idX×Y ≃ ip ◦ pr2 .
Exemplo 1.4.
[1] S 1 × Rn ≃ S 1 × {0} ∼
= S 1 , pois Rn ≃ {0}.
[2] Seja D2 × S 1 , onde D2 é um disco fechado no plano; então D2 × S 1 ≃ S 1 . O espaço
D2 × S 1 é dito toro sólido.
20 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
1.8 Retratos
Definição 1.6. Seja A ⊂ X. A é um retrato de X se existe r : X −→ A contı́nua tal que com
a inclusão i : A −→ X, o seguinte diagrama comuta:
r /A
XO
~~>
i
~
~~~idA
~
A
Isto é, r ◦ i = idA . A função r é dita retração entre X e A.
Exemplo 1.5.
[1] A esfera S n ⊂ Rn+1 é um retrato de Rn+1 − {0}. De fato, podemos definir a seguinte
retração:
r : Rn+1 − {0} −→ S n
x
x −→ .
kxk
[2] Seja M a faixa de Möebius; então Σ, o cı́rculo central é um retrato de M. De fato,
definamos:
r : M −→ Σ
[(x, y)] −→ [(x, 1/2)].
[3] S 1 × {0} é um retrato de S 1 × R. De fato, definamos:
r : S 1 × R −→ S 1 × {0}
((x, y), z) −→ ((x, y), 0).
[4] Se A é um retrato de X, então A = {x ∈ X / r(x) = x}, onde r é a retração. Se X é
de Hausdorff, temos que A é fechado em X.
H :X × I −→ X
H(x, 0) = x
H(x, 1) ∈ A
H(a, t) = a,
para todo a ∈ A e x ∈ X.
Exemplo 1.6.
[1] S n é um retrato por deformação forte de Rn+1 −{0}. Basta utilizar a retração definida
anteriormente e utilizar uma homotopia linear.
Denotemos por X = T − {[(0, 0)]}, k(x, y)k = max{|x|, |y|}, para todo (x, y) ∈ R2 .
Seja A = {[(x, y)] ∈ X / k(x, y)k = 1}. Afirmamos que A é um retrato por deformação
forte de X.
T A
A A
(x, y)
r([(x, y)]) = [ ].
k(x, y)k
t (x, y)
H([(x, y)], t) = [(1 − t) (x, y) + ].
k(x, y)k
t (1, y)
H([(1, y)], t) = [(1 − t) (1, y) + ]
k(1, y)k
= [(1 − t) (1, y) + t (1, y)] = [(1, y)]
t (−1, y)
= [(−1, y)] = [(1 − t) (−1, y) + ]
k(−1, y)k
= H([(−1, y)], t).
1.9. HOMOTOPIA E EXTENSÃO DE FUNÇÕES 23
f˜ : X −→ Y
tal que f˜ ◦ i = f ?
A seguir, estudaremos alguns casos particulares de extensão de funções.
Note que um retrato é uma extensão contı́nua da identidade de A:
idA
A /A
~ ~>
i
~
~~~r̃
~
X
Proposição 1.7. A seguintes afirmações são equivalentes:
1. A é um retrato de X.
2. Para todo espaço topológico Z, a função contı́nua f : A −→ Z se estende continuamente a
X.
24 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
f
Sn /X
||>
i ||
||
|| f˜
B
Como B é contrátil, existe homotopia H : f˜ ≃ c1 . Definamos a homotopia K, conside-
rando o seguinte diagrama comutativo:
K
Sn × I /X
w;
w
i
ww
wwwH
ww
B×I
Logo, K : f ≃ c. De fato, K(x, t) = H ◦ i (x, t) e:
K(x, 0) = H ◦ i (x, 0) = H(x, 0) = f˜ ◦ i (x) = f (x)
K(x, 1) = H ◦ i (x, 1) = H(x, 1) = c1 ◦ i (x) = c(x).
1.10. HOMOTOPIA DE CAMINHOS 25
α α(1)=β(0)
α(0)
β(1)
Figura 1.11:
(
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ β (t) =
β(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
Note que α∗β : I −→ X é um caminho contı́nuo tal que α∗β(0) = α(0) e α∗β(1) = β(1).
h2 : [1/2, 1] −→[0, 1]
t −→2 t − 1.
26 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
α∗β
α(1)=β(0)
α(0)
β(1)
0 1/2 1
Definição 1.10. Os caminhos α e β tais que α(0) = β(0) e α(1) = β(1) são ditos equivalen-
tes se α ≃ β relativamente a {0, 1}.
H :I × I −→ X tal que
H(t, 0) = α(t),
H(t, 1) = β(t),
H(0, s) = α(0) = β(0),
H(1, s) = α(1) = β(1), ∀s, t ∈ I.
α(1)=β(1)
1
H
s
0 t 1
α(0)=β(0)
H(t, 0) = α(t),
H(t, 1) = β(t),
H(0, s) = H(1, s) = α(0) = β(0) = α(1) = β(1), ∀s, t ∈ I.
x0 β
β1
α1
β0
α0
Figura 1.15:
(
α0 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β0 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α0 ∗ β0 (t),
e:
(
F (2 t, 1) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 1) =
G(2 t − 1, 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
(
α1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β1 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
= α1 ∗ β1 (t).
α−1 : I −→ X
t −→ α(1 − t).
x1
α−1
x
0
Note que α−1 tem o mesmo percurso que α, mas se inicia em x1 e termina em x0 .
Denotaremos por:
1.11 Exercı́cios
1. Sob que condições a homotopia relativa é uma relação de equivalência?
6. Denotemos por:
f = {g : X −→ Y, g ≃ f }
X, Y = { f / f : X −→ Y }
GRUPO FUNDAMENTAL
2.1 Introdução
Fixemos x0 ∈ X e denotemos por:
π1 X, x0 = {[α] / α : I −→ X, α(0) = α(1) = x0 },
isto é, o conjunto das classes
de homotopias de caminhos fechados em x0 . O ponto x0
é dito base de π1 X, x0 .
Dados [α], [β] ∈ π1 X, x0 temos que α ∗ β (0) = α ∗ β (1) = x0 . Logo α ∗ β é um
caminho em X, fechado em x0 ; então [α ∗ β] ∈ π1 X, x0
Definição 2.1. Em π1 X, x0 denotemos e definamos o seguinte produto por:
· : π1 X,x0 × π1 X, x0 −→ π1 X, x0
([α], [β]) −→ [α] · [β] = [α ∗ β].
Lema 2.1. Este produto em π1 X, x0 está bem definido.
Prova : Dados [α0 ], [α1 ], [β0 ] e [β1 ] ∈ π1 X, x0 tais que [α0 ] = [α1 ] e [β0 ] = [β1 ], provare-
mos que :
[α0 ] · [β0 ] = [α1 ] · [β1 ];
31
32 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
α0 ∗ β0 ≃ α1 ∗ β1 .
Primeiramente escrevemos:
(
α0 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α0 ∗ β0 (t) =
β0 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1,
e: (
α1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α1 ∗ β1 (t) =
β1 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
Denotemos por F : α0 ≃ α1 e G : β0 ≃ β1 as respectivas homotopias; definamos:
H : I × I −→ X
por: (
F (2 t, s) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, s) =
G(2 t − 1, s) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
H é contı́nua. Por outro lado:
(
F (2 t, 0) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
G(2 t − 1, 0) se 1/2 ≤ t ≤ 1
(
α0 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β0 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α0 ∗ β0 (t),
(
F (2 t, 1) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 1) =
G(2 t − 1, 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
(
α1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β1 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α1 ∗ β1 (t).
e H(0, s) = H(1, s) = x0 .
Teorema 2.1. π1 X, x0 , com o produto definido por (2.1) é um grupo, isto é, satisfaz às se-
guintes propiedades:
1. Associatividade : Para todo [α], [β], [γ] ∈ π1 X, x0 temos que:
[α] · [β] · [γ] = [α] · [β] · [γ] .
2.1. INTRODUÇÃO 33
2. Elemento neutro : Existe [e] ∈ π1 X, x0 tal que:
Primeiramente escrevamos α ∗ β ∗ γ(t) :
(
α ∗ β(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ β ∗ γ(t) =
γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
α(4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
= β(4 t − 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2
γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
0 α 1/4 β 1/2 γ 1
Figura 2.1: α ∗ β ∗ γ esquematicamente
Analogamente, escrevamos α ∗ β ∗ γ (t):
(
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ β ∗ γ (t) =
β ∗ γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
= β(4 t − 2) se 1/2 ≤ t ≤ 3/4
γ(4 t − 3) se 3/4 ≤ t ≤ 1.
0 α 1/2 β 3/4 γ 1
Figura 2.2: α ∗ β ∗ γ esquematicamente
34 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Para determinar a homotopia entre α ∗ β ∗ γ e α ∗ β ∗ γ , juntaremos os esquemas
anteriores:
α 1/2 β 3/4 γ
1
t
0 α 1/4 β 1/2 γ 1
Figura 2.3: Homotopia entre α ∗ β ∗ γ e α ∗ β ∗ γ
Notemos que:
i) Para s = 0, temos α(t) com t ∈ [0, 1/4], β(t) com t ∈ [1/4, 1/2] e γ(t) com t ∈ [1/2, 1].
ii) Para s = 1, temos α(t) com t ∈ [0, 1/2], β(t) com t ∈ [1/2, 3/4] e γ(t) com t ∈ [3/4, 1].
H é contı́nua, e:
α(4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
H(t, 0) = β(4 t − 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2
γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α ∗ β ∗ γ(t),
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 1) = β(4 t − 2) se 1/2 ≤ t ≤ 3/4
γ(4 t − 3) se 3/4 ≤ t ≤ 1
= α ∗ β ∗ γ (t),
H(0, s) = H(1, s) = x0 ; logo α ∗ β ∗ γ ≃ α ∗ β ∗ γ , isto é:
[α] · [β] · [γ] = [α] · [β] · [γ] .
Elemento neutro : Seja ex0 : I −→ X tal que ex0 (x) = x0 . Afirmamos que:
t
0 α 1/2 ex 1
0
Como antes:
i) O segmento de reta que liga os pontos (1/2, 0) a (1, 1) é t = (s + 1)/2.
ii) Consideramos o homeomorfismo:
H é contı́nua, e:
(
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
x0 se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α ∗ ex0 (t),
(
α(t) se 0 ≤ t ≤ 1
H(t, 1) =
x0 se t = 1
= α(t),
Consideramos:
2.1. INTRODUÇÃO 37
ex
1 0
t
0 α−1 1/2 α 1
Como antes:
i) O segmento de reta que liga os pontos (1/2, 0) a (0, 1) é t = (1 − s)/2 e o segmento de
reta que liga os pontos (1, 0) a (0, 1) é t = 1 − s.
ii) Consideramos os homeomorfismos:
2t 2t − 1 + s
h1 (t) =
e h2 (t) = .
1−s 1−s
Definamos a homotopia H : I × I −→ X por:
−1
α (h1 (t)) se 0 ≤ t ≤ (1 − s)/2
H(t, s) = α(h2 (t)) se (1 − s)/2 ≤ t ≤ 1 − s
x0 se 1 − s ≤ t ≤ 1.
H é contı́nua, e: (
α−1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
α(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
H(t, 1) = x0 , H(0, s) = H(1, s) = x0 , logo:
Exemplo 2.1.
[1] Sabemos que em Rn , todos os caminhos são homotópicos; basta considerar homoto-
pias lineares. Em particular, todos os caminhos fechados são homotópicos ao caminho
constante c(x) = x0 , para todo x ∈ Rn ; logo:
π1 Rn , x0 = {[ex0 ]} ∼
= {0}.
Em geral, se C ⊂ Rn é convexo, então para todo p0 ∈ C temos que:
π1 C, p0 ∼= {0}.
[2] Seja Q com a topologia induzida pela usual de R. Os únicos caminhos fechados em
x0 ∈ Q são os caminhos constantes; logo:
π1 Q, x0 = {[ex0 ]} ∼
= {0}.
Φξ : π1 X, x1 −→ π1 X, x0
[γ] −→ [ξ ∗ γ ∗ ξ −1 ].
2.2. MUDANÇA DO PONTO BASE 39
x
x0 1
Para todo [γ], [η] ∈ π1 X, x1 , temos:
Φξ [γ] · [η] = Φξ [γ ∗ η]
= [ξ ∗ (γ ∗ η) ∗ ξ −1 ]
= [(ξ ∗ γ ∗ ξ −1 ) ∗ (ξ ∗ η ∗ ξ −1)]
= [ξ ∗ γ ∗ ξ −1 ] · [ξ ∗ η ∗ ξ −1 ]
= Φξ [γ] · Φξ [η] .
Não é difı́cil ver que Φ−1
ξ = Φξ −1 . De fato, para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
Φ−1
ξ [α] = [ξ −1 ∗ α ∗ ξ].
Por outro lado, para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
Φξ ◦ Φ−1
ξ ([α]) = Φξ [ξ −1 ∗ α ∗ ξ]
= [ξ ∗ ξ −1 ∗ α ∗ ξ ∗ ξ −1 ]
= [ex0 ∗ α ∗ ex0 ]
= [α].
Analogamente, Φ−1
ξ ◦ Φξ = idπ1 (X,x1 ) .
Exemplo 2.1.
Seja X = R ∪ S 1 (união disjunta). Se x0 ∈ [a, b], então π1 X, x0 = {0}. Por outro lado,
se x1 ∈ S 1 , mostraremos
óximo capı́tulo que π1 X, x1 é um grupo não trivial.
no pr
Portanto, π1 X, x0 e π1 X, x1 não podem ser isomorfos.
40 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Definição 2.2. Seja G, · um grupo. O centro de G e é denotado por Z(G) e definido por:
isto é, o conjunto dos elementos de G que comutam. Não é difı́cil verificar que o centro de um
grupo é um subgrupo.
x1
ξ
x0
Figura 2.7:
Prova : (⇐) Para todo [γ] ∈ π1 X, x1 , temos:
Φξ [γ] = [ξ ∗ γ ∗ ξ −1] = [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ∗ ψ ∗ ξ −1 ]
= [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ] · [ψ ∗ ξ −1 ]
= [ψ ∗ ξ −1 ] · [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ]
= [ψ ∗ ξ −1 ∗ ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ]
= [ψ ∗ γ ∗ ψ −1 ]
= Φψ [γ] ,
pois [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ] ∈ π1 X, x0 .
(⇒) Sejam ξ e ψ caminos ligando x0 e x1 ; então Φξ = Φψ se, e somente se
2.3. GRUPOS DE HOMOTOPIAS ABELIANOS 41
Φ−1 −1
ξ = Φψ se, e somente se Φξ −1 = Φψ−1 . Logo, para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
Φξ−1 [α] = Φψ−1 [α] ⇐⇒ [ξ −1 ∗ α ∗ ξ] = [ψ −1 ∗ α ∗ ψ];
equivalentemente:
ξ −1 ∗ α ∗ ξ ∼ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ⇐⇒ ξ −1 ∗ α ∗ ξ ∗ ξ −1 ≃ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ∗ ξ −1
ξ −1 ∗ α ≃ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ∗ ξ −1 ⇐⇒ ψ ∗ ξ −1 ∗ α ≃ ψ ∗ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ∗ ξ −1
ψ ∗ ξ −1 ∗ α ≃ α ∗ ψ ∗ ξ −1 ⇐⇒ [ψ ∗ ξ −1 ∗ α] = [α ∗ ψ ∗ ξ −1 ]
Logo, [ψ ∗ ξ −1 ] · [α] = [α] · [ψ ∗ ξ −1 ]; então [ψ ∗ ξ −1 ] ∈ Z π1 X, x0 .
Corolário 2.2. π1 X, x0 é abeliano se, e somente se Φξ não depende de ξ.
Definição 2.3. O grupo G é dito topológico se também é um espaço topológico tal que a operação
do grupo e a aplicação:
ν :G −→ G
a −→ a−1
são contı́nuas.
42 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Exemplo 2.2.
: G × G −→ G
(a, b) −→ a b,
definimos um novo produto em π1 G, e , onde e é a identidade de G.
Dados α, β : I −→ G caminhos tais que α(0) = α(1) = β(0) = β(1) = e, denotamos e
definimos este novo produto por:
1. Se α1 ≃ α2 e β1 ≃ β2 , então:
α1 β1 ≃ α2 β2 .
Prova :
1. Sejam F : α1 ≃ α2 e G : β1 ≃ β2 as respectivas homotopias. Definamos H(t, s) =
F (t, s) G(t, s); então H : α1 β1 ≃ α2 β2 .
2. Utilizamos as definições de cada produto:
α1 ∗ β1 α2 ∗ β2 (t) = α1 ∗ β1 (t) α2 ∗ β2 (t)
(
α1 (2 t) α2 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β1 (2 t − 1) β2 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α1 α2 ∗ β1 β2 (t).
Observações 2.1.
1. Fazendo α2 = β1 = ce , na segunda parte do lema, temos:
Exemplo 2.3.
[1] Considere S 1 como grupo topológico e e = (1, 0); então π1 S 1 , e é um grupo abeli-
ano.
[2] Considere S 1 ×S 1 como grupo topológico; então π1 S 1 ×S 1 , e é um grupo abeliano.
[3] π1 O(n), I é um grupo abeliano.
Observe que não utilizamos todas as propriedades do grupo topológico. Isto nos indica
que é possı́vel enfraquecer a hipótese da estrutura de grupo. Essencialmente utiliza-
mos a identidade, sendo a operação do grupo contı́nua.
44 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
2. Se α ≃ β, então f ◦ α ≃ f ◦ β.
3. f ◦ (α ∗ β) ≃ (f ◦ α) ∗ (f ◦ β).
4. Se [α] ∈ π1 X, x0 , então [f ◦ α] ∈ π1 Y, f (x0 ) .
é um homomorfismo de grupos.
Prova : Sejam [α] e [β] ∈ π1 X, x0 , então
f∗ [α] · [β] = f∗ [α ∗ β]
= [f ◦ α ∗ β ]
= [f ◦ α ∗ f ◦ β
= [f ◦ α] · [f ◦ β
= f∗ [α] · f∗ [β] .
A prova é imediata.
é um isomorfismo.
2.4. HOMOMORFISMO INDUZIDO 45
Exemplo 2.4.
Lema 2.4. Sejam X e Y conexos por caminhos f, g : X −→ Y funções contı́nuas, tais que
f ≃ g e os homomorfismos induzidos:
f∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, y0 g∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, y1 ,
onde y0 = f (x0 ) e y1 = g(x0 ). Então, existe ξ um caminho ligando y0 a y1 tal que Φ−1
ξ ◦f∗ = g∗ .
Isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
f∗
π1 X, x0 / π1 Y, y0
MMM
MMM
M Φ−1
ξ
g∗ MMM
&
π1 Y, y1
46 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Prova : Observe que não é evidente que as homotopias preservem os pontos bases dos
grupos.
Por hipótese existe homotopia F : f ≃ g; logo, necessariamente, durante a homotopia,
deve existir um caminho que liga y0 a y1 , isto é, existe ξ(t) = F (x0 , t). Devemos provar
que para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
Φ−1
ξ ◦ f∗ [α] = g ∗ [α] ⇔ [ξ −1
∗ f ◦ α ∗ ξ] = [g ◦ α].
Logo, devemos provar que ξ −1 ∗ f ◦ α ∗ ξ ≃ g ◦ α relativamente a {0, 1}. Como antes:
−1
ξ (4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
−1
ξ ∗ f ◦ α ∗ ξ(t) = (f ◦ α)(4 t − 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2
ξ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
ξ(1 − 4 t) = F (x0 , 1 − 4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
= F (α(4 t − 1), 0) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2
F (x0 , 2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
Note que (g ◦ α)(t) = F (α(t), 1); por outro lado, g ◦ α ≃ ey1 ∗ (g ◦ α) ∗ ey1 e
F (x0 , 1) se 0 ≤ t ≤ 1/4
ey1 ∗ (g ◦ α) ∗ ey1 (t) = F (α(4 t − 1), 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2
F (x0 , 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
Definamos a homotopia H : ξ −1 ∗ f ◦ α ∗ ξ ≃ g ◦ α, por:
F (x0 , 1 − 4 t + 4 t s) se 0 ≤ t ≤ 1/4
H(t, s) = F (α(4 t − 1), s) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2
F (x0 , 2 (t + s − t s) − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
Logo, H(t, 0) = ξ −1 ∗ f ◦ α ∗ ξ(t), H(t, 1) = g ◦ α(t) e H(0, s) = H(1, s) = y1 .
Em geral, como veremos mais adiante, as propriedades de f não são herdadas por f∗ .
Por exemplo, se f é injetiva, não necessariamente f∗ é injetiva.
Se π1 X, x0 ≃ π1 Y, f (x0 ) , isto não implica que exista um homeomorfismo entre X e
Y.
Exemplo 2.5.
Ψ : π1 X × Y, (x0 , y0) −→ π1 X, x0 × π1 Y, y0
[α] −→ p∗ ([α]), q∗ ([α]) .
i) Ψ está bem definida, isto é, se [α] = [β] devemos provar que Ψ [α] = Ψ [β] .
Se [α] = [β], existe F : α ≃ β homotopia correspondente.
Consideremos H1 (t, s) = (p ◦ F )(t, s) e H2 (t, s) = (q ◦ F )(t, s); então:
H1 (t, 0) = p α(t) , H1 (t, 1) = p β(t)
H2 (t, 0) = q α(t) , H2 (t, 1) = q β(t) .
48 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Logo, Ψ [α] = Ψ [β] .
ii) Ψ é um homomorfismo, pois p∗ e q∗ são homomorfismos.
iii) Ψ é sobrejetiva. De fato, para todo [δ1 ], [δ2 ] ∈ π1 X, x0 × π1 Y, y0 , consideremos
α(t) = (δ1 (t), δ2 (t)); então [α] ∈ π1 X × Y, (x0 , y0 ) é tal que:
Ψ [α] = p∗ ([α]), q∗ ([α]) = [δ1 ], [δ2 ] .
iv) Ψ é injetiva. Seja [α] ∈ π1 X × Y, (x0 , y0 ) ; então α(t) = (α1 (t), α2 (t)) é tal que
α1 (0) = α1 (1) = x0 e α2 (0) = α2 (1) = y0
Ψ [α] = ([cx0 ], [cy0 ]) ⇔ [p ◦ α] = [cx0 ] e [q ◦ α] = [cy0 ],
isto é, existem F : p ◦ α ≃ cx0 e G : q ◦ α ≃ cy0 . Definamos:
H(t, s) = (F (t, s), G(t, s)), logo :
H(t, 0) = (F (t, 0), G(t, 0)) = ((p ◦ α)(t), (q ◦ α)(t)) = (α1 (t), α2 (t))
H(t, 1) = (F (t, 1), G(t, 1)) = (x0 , y0)
Então, [α] = [c(x0 ,y0 ) ]; logo Ker(Ψ) = [c(x0 ,y0 ) ] e Ψ é injetiva.
Exemplo 2.6.
[1] Sabemos que π1 R2∗ , (x0 , y0 ) ≃ π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) ; logo:
π1 R2∗ , (x0 , y0 ) ∼= π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 R, t0
∼
= π1 S 1 , z0 .
Em geral, Rn − {p} ∼ = S n−1 × R; logo:
π1 Rn − {p}, p0 ∼ = π1 S n−1 × R, (w0 , p0 ) ∼ = π1 S n−1 , w0 .
[2] Considere o toro T = S 1 × S 1 ; então:
π1 T, (z0 , z0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 S 1 , z0 .
[3] Considere o toro sólido S 1 × B; então:
π1 S 1 × B, (z0 , p0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 B, p0 ∼= π1 S 1 , z0 .
Exemplo 2.7.
[1] Se X é contrátil, então é simplesmente conexo. Veremos mais adiante que a recı́proca
é falsa.
[2] Se X e Y são simplesmente conexos, então X × Y é simplesmente conexo.
Lema 2.5. Seja X um espaço topológico tal que X = U ∪ V , onde U e V são subespaços abertos
simplesmentes conexos e U ∩ V é conexo por caminhos. Então X é simplesmentes conexo.
Prova : Seja [α] ∈ π1 X, x0 tal que x0 ∈ U ∩ V . Como α é contı́nua, temos que o
conjunto
{α−1 U , α−1 V } é uma cobertura do compacto I. Logo, existe (por que?) uma
partição de I:
0 = t0 < t1 < . . . < tn−1 < tn = 1
tal que α [ti−1 , ti ] ⊂ U ou α [ti−1 , ti ] ⊂ V . Se dois intervalos consecutivos [ti−1 , ti ] e
[ti , ti+1 ] são tais que α [ti−1 , ti e α [ti , ti+1 ] pertencem ambos a U ou V , eliminamos o
ponto comum ti ; logo, podemos considerar α(ti ) ∈ U ∩ V . Por outro lado, como U ∩ V
é conexo por caminhos, podemos ligar x0 a α(ti ) por um caminho ηi :
Para cada i, definamos:
α(t1 ) α2
α (t2)
α1
η1
α (ti-1 )
η2
x0
αi
α (ti )
η
i
Figura 2.8:
50 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
−1
Note que cada ηi ∗ αi+1 ∗ ηi+1 ⊂ U ou a V ; como U e V são simplesmente conexos, temos
que para cada i
−1
ηi ∗ αi+1 ∗ ηi+1 ≃ ci ; então α ≃ cx0 .
Logo π1 X, x0 = {0}.
É possı́vel enfraquecer as hipóteses do lema. Por exemplo, se X = A ∪ B tal que A ∩ B
seja conexo por caminhos, sem necessariamente A ou B serem abertos em X. Basta
considerar U e V abertos tais que A ⊂ U, B ⊂ V , U ∩ V conexo por caminhos e as
inclusões: A −→ U e B −→ V que são equivalências homotópicas.
Corolário 2.7. π1 S n , p = {0} para todo n ≥ 2.
Exemplo 2.8.
a
b
m
Sn S
Figura 2.9: X = S n ∪ S m
2.5. ESPAÇOS SIMPLESMENTE CONEXOS 51
S m ≃ U, Sn ≃ V
se m − 2 > n.
Notamos que existem exemplos em que a reunião de espaços simplesmente conexos
não é necessariamente simplesmente conexo, mesmo que tenham um ponto comum.
(Verifique!).
52 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
2.6 Exercı́cios
t−a
1. Prove que h : [a, b] −→ [0, 1] definido por h(t) = é um homeomorfismo.
b−a
4. Seja
Ω(X, x0 ) = {α : I −→ X / α(0) = α(1) = x0 }.
Verifique que:
π1 X, x0 = Ω(X, x0 ) ≃ ,
onde ∼ é a homotopia de caminhos.
q1 , q2 : X −→ X × X
são definidas por q1 (x) = (x, x0 ) e q2 (x) = (x0 , x). Com as notações anteriores,
seja X um H-espaço. Verifique que:
GRUPO FUNDAMENTAL DO
CÍRCULO
Este capı́tulo é crucial para obter novos exemplos de grupo fundamental e estudar, em
particular, as técnicas gerais
que apressentaremos nos próximos capı́tulos.
1
Para calcular π1 S , x0 estudaremos uma série de conceitos novos que serão natural-
mente estendidos a espaços topológicos em geral.
3.1 Introdução
Seja x0 = (1, 0) ∈ S 1 ⊂ C, fixado. Todo caminho em S 1 fechado em x0 , arbitrário tem
que dar um múltiplo inteiro de ”voltas” ao redor de S 1 .
Provaremos que essencialmente, existe somente uma única classe de caminhos fecha-
dos não homotópicos a uma constante em S 1 .
A idéia básica deste capı́tulo é comparar caminhos de S 1 com caminhos de R via o
homeomorfismo local exp. (Veja [MV]):
Para visualizar geometricamente a aplicação exp, consideramos H uma hélice em R3 :
Figura 3.1:
53
54 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
Parametrizada por:
γ : R −→ R3
t −→ (cos(2 π t), sen(2 π t), t);
exp : R −→ S 1
t −→ exp(t) = e2πit .
IR
exp
S1
Figura 3.2:
R
?
e
α exp
I α
/ S1
onde α = exp ◦ α
e. Provaremos que gr é um isomorfismo de grupos. A prova segue dos
seguintes teoremas:
1. [
exp−1 U = {v + n; v ∈ V },
n∈Z
Prova :
1. Sem perda de generalidade podemos supor que o aberto de S 1 é da forma:
Prova : Suponha que x ∈ / Im(f ). Então S 1 − {x} é homeomorfo a (0, 1). Por outro lado
o intervalo (0, 1) é contrátil; logo,f é homotopicamente nula.
A seguir apresentamos o primeiro resultado crucial deste capı́tulo: o chamado Teo-
rema de Levantamento dos Caminhos. Este teorema é bastante geral. Neste parágrafo
apresentamos apenas a prova para exp : R −→ S 1 .
56 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
?R
F
exp
I / S1
f
Prova : Para cada x ∈ S 1 , seja Ux uma vizinhança de x. Pelo lema anterior exp−1 (Ux )
é uma reunião disjunta de abertos (homeomorfos à Ux via a exp). Como f é contı́nua,
então:
{f −1 (Ux ); x ∈ S 1 } = {(xj , yj ) ∩ [0, 1]; j ∈ J}
é uma cobertura aberta para I. Pela compacidade de I, existe uma subcobertura finita:
[0, t1 + e1 ), (t2 − e2 , t2 + e2 ), · · · · · · , (tn − en , 1]
com ti + ei ti+1 −ei+1 para i = 0, ..., n−1. Escolhemos ai ∈ (ti+1 −ei+1 , ti+1 + ei+1 ) para
i = 1, · · · , n − 1 tais que {0 = a0 , a1 , · · · , an = 1} é uma partição de I. Seja Si ⊂ S 1
conjunto aberto tal que f ([ai , ai+1 ]) ⊆ Si , i = 0, · · · , n. Definiremos (indutivamente)
levantamentos Fk sobre [0, ak ] da seguinte forma:
α(
~
ak)
IR
W
exp
Sk
I f([ak , ak+1]) S1
ak a k+1 f
Figura 3.3:
1. Para k = 0, seja F0 = t0 .
2. Suponha que Fk : [0, ak ] −→ R é definida e única (com Fk (0) = t0 ).
3. Aplicando o lema anterior, temos que exp−1 (Wk ) é uma união disjunta de aber-
tos tal que (exp|Wj ) é um homeomorfismo para cada j ∈ J (Wk é um aberto tal que
3.2. CÁLCULO DO GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO 57
f ([ak , ak+1 ]) ⊆ Wk ). Fk (ak ) ∈ W para algum W ∈ {Wj ; j ∈ J}. Note que W é único.
Qualquer extensão Fk+1 leva [ak , ak+1] em W ([ak , ak+1 ] é conexo por caminhos e Fk+1
é contı́nua). Como (exp|W ) : W −→ Sk é homeomorfismo, existe uma única função
ρ : [ak , ak+1 ] −→ W tal que exp|W ◦ ρ = f |[ak ,ak+1 ] , onde ρ = (exp|W )−1 . Definimos:
(
Fk (s) se 0 ≤ s ≤ ak
Fk+1 (s) =
ρ(s) se ak ≤ s ≤ ak+1 .
Fk+1 é contı́nua (Fk (ak ) = ρ(ak )) e única por construção. Indutivamente obtemos F .
e(1).
gr(α) = α
Dado x0 ∈ R com exp(x0 ) = H(0, 0), existe um único levantamento de H tal que H(0, 0) =
x0 .
x< R
e xxx
H x exp
xx
xx
I ×I H
/ S1
gr(α0 ) = gr(α1).
e é o único levantamento de α.
onde α
1. Pelo corolário anterior, gr é bem definida.
2. A função gr éum homomorfismo de grupos. Devemos provar que, para todo
[α], [β] ∈ π1 S 1 , x0 , temos que
Por outro lado, [α] · [β] = [α ∗ β]. Consideremos γ : [0, 1] −→ R definida por:
(
e(2 t)
α se 0 ≤ t ≤ 1/2
γ(t) =
e
β(2 t − 1) + α
e(1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
O caminho γ é bem definido em t = 1/2. Como α e(1) é um inteiro, temos que exp ◦γ =
α ∗ β e, portanto, pela unicidade do levantamento γ = α] ∗ β. Então:
H(t, s) = exp((1 − s) α e
e(t) + s β(t)).
3.3. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DO ISOMORFISMO 59
H(t, 0) = α e
e(t) e H(t, 1) = β(t). Logo, [α] = [β].
4. A função gr é sobrejetiva. Dado n ∈ Z, seja µ : [0, 1] −→ R definida por µ(t) = n t;
então, exp ◦µ : [0, 1] −→ S 1 e exp ◦µ(0) = exp ◦µ(1) = x0 . Logo, µ é um levantamento
de exp ◦µ tal que µ(0) = 0; então:
o que é absurdo.
S1 x IR
S1
α
Figura 3.4: Gerador de π1 C, (x0 , z0 )
Em geral,
π1 S 1 × Rn , p0 ∼= Z.
60 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
Isto é:
= Z× ...× Z ∼
{0} ∼ = Zn ,
o que é absurdo.
Corolário 3.3. (Teorema Fundamental da Álgebra) Todo polinômio não constante com
coeficientes em C possui uma raiz em C.
Prova : Sem perda de generalidade podemos supor que o polinômio tem a forma:
p(z) = z n + a1 z n−1 + · · · + an .
Note que:
lim H(s, t) = lim fs/1−s (t) = lim fr (t) = (exp(t))n .
s→1 s→1 r→+∞
Logo, H é contı́nua. Por outro lado H(t, 0) = f0 (t) = x0 que é o caminho constante em
x0 e
H(t, 1) = exp(nt), isto é H : f0 ∼ f1 , então
0 = gr([f0 ]) = gr([f1 ]) = n
Corolário 3.4. (Teorema do ponto fixo de Brouwer para n=2) Seja D ⊂ C tal que ∂D =
S 1 . Toda função contı́nua h : D −→ D possui um ponto fixo, isto é, existe x ∈ D tal que
h(x) = x.
62 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
r : D −→ S 1
r(x)
h(x)
1
S
O
x
r(v) = z = v1 + t v,
x − v1
r(x) = h(x) + tx .
kx − v1 k
3.4. GRUPO FUNDAMENTAL DO ESPAÇO PROJETIVO REAL 63
Π : S n −→ RPn
é aberta e que para todo U ⊂ S n aberto, temos:
Π−1 Π U = U ∪ − U .
eΠ e
U
é um homeomorfismo sobre U.
Observações 3.1.
Proposição 3.1. Sejam α : I = [t0 , t1 ] −→ RPn e x0 ∈ S n tal que Π(x0 ) = α(t0 ). Existe um
e : I −→ S n tal que α
único caminho α e(t0 ) = x0 e α = Π ◦ α
e, isto é, temos o seguinte diagrama
comutativo:
n
=S {
e {{{
α
Π
{{
{{
I α
/ RPn
O caso geral, segue dos casos 1. e 2. De fato, como I é compacto, então podemos
decompor I numa reunião finita de subintervalos compactos justapostos, isto é I =
I1 ∪ I2 ∪ . . . ∪ Ik tais que α(Ii ) ⊂ Ui , para cada i, onde Ui é uma vizinhança distinguida.
A unicidade de α segue do fato de que se supomos que existem α e, βe : I −→ S n tais que
Π◦α e então para todo t ∈ I devemos ter α
e = Π ◦ β, e ou α
e(t) = β(t) e
e(t) = −β(t); utilizando
o produto interno de R , temos < α
n+1 e
e(t), β(t) >= ±1, para todo t ∈ I; por outro lado,
como I é conexo, o produto interno anterior deve ser constante. Logo, se α e
e(t0 ) = β(t),
e para todo t ∈ I.
e(t) = β(t)
então α
Note que o levantamento de um caminho fechado em S n nem sempre é um caminho
fechado em RPn , pois cada caminho em S n possui dois levantamentos; além disso, um
deles é fechado se, e somente se ambos são fechados. De fato, se α e : I −→ S n é tal que
α =Π◦α e e se α
e é fechado, o caminho fechado α possui um levantamento fechado. Se
os extremos do caminho α e são antipodais, α é um caminho fechado em RPn que possui
levantamento não fechado.
fechados em p0 : αi (s) = H(s, ti ); os pontos αi (s) e αi+1 (s) não podem ser antipodais,
logo αei (1) = αg
i+1 (1). Então,
f0 (1) = α
α f1 (1) = . . . · · · = α e
fn (1) = β(1).
Geradores do grupo π1 RPn , p0 .
Seja αe(s) = (cos(s π), sen(s π), 0, . . . , 0) um caminho em S n , logo αe(0) = e1 e α
e(π) =
−e1 . O caminho fechado α em RPn não é homotópico a uma constante. Note que
n
α · α = 2 α = 0. Logo, [α] gera π1 RP , p0 .
Prova : Se tal função existe, então f (±x) = ±f (x), para todo x ∈ S 2 . Então, f induz no
quociente f˜ : RP2 −→ RP1 tal que o seguinte diagrama comuta:
f
S 2 −−−→ S1
Π1 y
Π
y 2
f˜
RP2 −−−→ RP1 ≃ S 1
e
π1 RP2 , p0 ∼= Z2 .
Logo, f˜∗ : Z2 −→ Z deve ser um homorfismo trivial, pensados como grupos aditivos.
Seja α um caminho em S 2 que liga o polo norte ao polo sul de S 2 ao longo de meridiano
66 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
de comprimento fixo; então [Π1 ◦ α] é um gerador de π1 RP2 , p0 ∼ = Z2 . Como o polo
norte e o polo sul são pontos antipodais deS , estes pontos, são identificados em RP1 ;
2
Por outro lado, SO(2) é formado pelas matrizes de ordem 2, tais que suas colunas
formam uma base ortonormal positiva de R2 ; logo estas colunas devem ser w e i w,
onde w ∈ S 1 . Então,
SO(2) ≃ S 1
e consequentemente:
π1 SO(2), p0 ∼= Z.
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 67
q = a + b i + c j + d k,
onde a, b, c, d ∈ R.
Definição 3.1. Denotamos e definamos por H o espaço vetorial R4 , com o produto determinado
pelas seguinte regras:
i2 = j 2 = k 2 = −1
i · j = −j · i = k,
j · k = −k · j = i,
k · i = −i · k = j.
Observações 3.2.
1. Não é difı́cil verificar que H, + , · é um anel.
2. Seja q ∈ H; denotamos o conjugado de q por q e definimos por:
q = a − b i − c j − d k,
se q = a + b i + c j + d k.
3. Não é difı́cil verificar que q · q = q · q ≥ 0, para todo q ∈ H.
4. Pelo ı́tem anterior, definimos a norma em H:
kqk2 = q · q = q · q = a2 + b2 + c2 + d2 .
para todo q1 , q2 ∈ H.
5. Se q 6= 0, podemos definir o inverso de q por:
q
q −1 = .
kqk
7. Podemos identificar R com o subespaço vetorial gerado por < 1 > e R3 com o
subespaço vetorial gerado por < i, j, k >. Logo, para todo q ∈ H temos que
q = a + p,
De 3.1, temos que R e R3 são ortogonais e que S 3 ⊂ R4 pode ser considerada como:
S 3 = {q ∈ H / kqk = 1}.
Proposição 3.3.
1. Z H = R, isto é, o centro do grupo H são os quatérnios reais.
2. q ∈ R3 se, e somente se q 2 ≤ 0.
i · q = −b + a i − d j + c k
q · i = −b + a i + d j − c k;
logo, d = c = 0 e q = a + b i. Analogamente:
j · q = aj − bk
q · j = a j + b k;
logo, b = 0 e q = a.
2. Se q = b i + c j + d k ∈ R3 , então q 2 = −(b2 + c2 + d2 ) ≤ 0.
Reciprocamente, seja q = a + b i + c j + d k, então
q 2 = a2 − b2 − c2 − d2 + 2 a (b i + c j + d k).
Note que se q ∈ S 3 é tal que q 2 = −1, então q ∈ S 2 . De fato, como q 2 < 0, então q ∈ R3
e kqk = 1.
Observemos que i não possui nenhuma propriedade fundamental nos quatérnios pu-
ros. Dado q ∈ R3 unitário, sempre podemos considerar uma base ortonormal positiva
{1, q, c, d, }.
Lema 3.3. Seja B ∈ SO(3); então existe uma base ortonormal {a, b, c} ∈ R3 tal que nesta
base, B se escreve:
1 0 0
0 cos(α) −sen(α) ,
0 sen(α) cos(α)
νq : H −→ H
p −→ q · p · q = q · p · q −1 .
Sejam q1 , q2 ∈ S 3 , então:
r 2 = q · p · q · q · p · q = q · p2 · q = p2 ≤ 0.
νq : R3 −→ R3
p −→ q · p · q
νq (a) = a
νq (b) = b cos(2 α) + c sen(2 α)
νq (c) = −b cos(2 α) + c sen(2 α).
Logo, νq ∈ SO(3); pelo lema e pelas observações anteriores, temos o seguinte teorema:
q · p · q −1 = p, ou seja q · p = p · q.
Logo, ker(ν} = {−1, 1}, isto é, νq1 = νq2 se, e somente se q1 = ±q2 .
Corolário 3.6.
SO(3) ≃ RP3 .
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 71
De fato, de [MV], sabemos que RP3 = S 3 ker(ν) e:
ν / SO(3)
S3
v v;
Π vvv
vv
vv νe
RP3
Teorema 3.5.
π1 SO(3), A0 ∼= π1 RP3 , p0 ≃ Z2 .
72 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
Capı́tulo 4
ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
4.1 Introdução
Neste capı́tulo generalizaremos todas as idéias sobre levantamento de funções, estu-
dadas no capı́tulo anterior e utilizadas no cálculo do grupo fundamental do cı́rculo e
do espaço projetivo real.
e espaços topológicos e p : X
Sejam X, X e −→ X uma função contı́nua.
O aberto U ⊂ X é dito vizinhança distinguida se:
[
p−1 U = Vα ,
α∈Γ
p Vα
: Vα −→ U
é um homeomorfismo.
Definição 4.1. Uma aplicação de recobrimento (ou simplesmente um recobrimento) é uma fun-
ção
p:Xe −→ X
contı́nua, sobrejetiva e tal que todo x ∈ X possui uma vizinhança distinguida.
73
74 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
[
p−1 U = Vα ,
α∈Γ
p : Vα −→ U
~
X
Vβ
-1
p (x)
Vα
U X
x
Exemplo 4.1.
[1] Se p : X −→ X é um homeomorfismo, então X, p, X é um recobrimento.
[2] Do capı́tulo anterior: R, exp, S 1 é um recobrimento.
4.1. INTRODUÇÃO 75
IR
exp
S1
Figura 4.2:
p : R2 −→ T2
(s, t) −→ (exp(s), exp(t))
é um recobrimento.
[5] S 1 × R, p, T2 , também é um recobrimento do toro, onde:
p : R −→ [0, +∞)
x −→ |x|.
76 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
e −→ X
P ol : X
(r, θ) −→ (r cos(θ), r sen(θ)).
e P ol, X é um recobrimento. Note que P ol é a mudança de coordenadas polares e
X,
que a variável angular θ toma infinitos valores separados por múltiplos de 2 π.
[9] A aplicação p : N × R −→ R definida por p(n, x) = x é um recobrimento. De fato:
[
p−1 R = {n} × R
n∈N
ep {n}×R
é um homeomorfismo sobrejetivo.
[10] Em geral, a aplicação p : Y × X −→ X tal que p(y, x) = x e Y é discreto é um
recobrimento.
Lema 4.1.
1. Sejam f : X −→ Y e g : Y −→ Z funções contı́nuas tais que f e g ◦ f são homeomorfis-
mos locais sobrejetivos; então g é um homeomorfismo local sobrejetivo.
2. Se p : X −→ Y é um homeomorfismo local sobrejetivo com fibra finita e tal que X é de
Hausdorff, então p é uma aplicação de recobrimento.
Prova :
1. Exercı́cio.
2. Seja y ∈ Y ; então p−1 (y) = {x1 , x2 , . . . , xn }. Como X é de Hausdorff, existem
vizinhanças Ui2 abertas de xi tais que Ui2 ∩ Uj2 = ∅ se i 6= j. Por outro lado, p sendo um
homeomorfismo local, então para cada xi podemos escolher vizinhanças
Ui1 abertas de
1 2 1 1 1
xi tais que Ui ⊂ Ui , p Ui é um aberto de Y e p U 1 : Ui −→ p Ui é um homeorfismo.
i
Denotemos por:
Vy = p U11 ∩ . . . ∩ p Un1 e Ui = p U 1 Vy .
i
Logo:
n
[
p−1 (Vy = Ui
i=1
ep Ui
: Ui −→ Vy é um homeomorfismo. Então, p : X −→ Y é um recobrimento.
4.1. INTRODUÇÃO 77
e um recobrimento; então as fibras p−1 (x) são discretas.
Proposição 4.1. Seja X, p, X
Prova : Como cada y ∈ p−1 (x) possui uma vizinhança U tal que y o único elemento de
U com p(y) = x (lembrando que p é um homeomorfismo local), então U ∩ p−1 (x) = {y}.
Logo, todo ponto de p−1 (x) é isolado; portanto p−1 (x) é discreto.
Note que na prova da proposição somente utilizamos que p é localmente injetiva, isto
é, a proposição pode ser provada somente com esta hipótese.
Corolário 4.1. Se X, p, X e é um recobrimento tal que X
e é compacto, X é conexo e de Haus-
dorff, então as fibras são finitas.
Exemplo 4.2.
[1] A aplicação:
exp : R −→ S 1
t −→ exp(t)
p : S 1 −→ S 1
z −→ z n
Π : S 2n+1 ⊂ Cn −→ CPn
é a projeção canônica; S 2n+1 , Π, CPn é um recobrimento?
A resposta é negativa, pois Π−1 ([x]) ∼ = S 1 , isto é a fibra não é finita.
e um recobrimento; então:
Teorema 4.1. Seja X, p, X
1. p é aberta.
Prova :
1. Exercı́cio.
2. Como p é contı́nua e aberta, então U ⊂ X é aberto se, e somente se p−1 U é aberto
e
em X.
Exemplo 4.1.
Se M é a faixa de Möebius e p a projeção canônica, então:
p : R × I −→ M
é um recobrimento.
Primeiramente definamos:
M1 = [0, 1] × [−1, 1] ∼1
p1 : [0, 1] × [−1, 1] −→ M1
a aplicação quociente. Por outro lado, a faixa de Möebius também pode ser definida
como:
M = R × [−1, 1] ∼
onde (x, t) ∼ (x + q, (−1)q t), q ∈ Z e t ∈ [−1, 1]. Denotemos por:
p : R × [−1, 1] −→ M
onde:
Rq : R × [−1, 1] −→ R × [−1, 1]
(r, t) −→ (x + q, (−1)q t).
e
p : (q, q + 1) × [−1, 1] −→ p (0, 1) × [−1, 1]
é um homeomorfismo. Analogamente para o aberto p (−1/2, 1/2) × [−1, 1] .
Definição 4.2. A ação do grupo G sobre X é dita totalmente descontı́nua se para todo x ∈ X,
existe vizinhança U de x tal que
g1 · U ∩ g2 · U = ∅,
para todo g1 , g2 ∈ G e g1 6= g2 .
Exemplo 4.3.
[1] Seja a : S n −→ S n definida por a(x) = −x, onde −x é o ponto antipodal de x; então
G = {idS n , a}, com a composta de funções é um grupo. G atua descontinuamente
sobre S n . De fato, se U ⊂ S n é um aberto contido num dos hemisférios, temos:
a · U ∩ U = ∅.
[2] Seja Zn ⊂ Rn . Considere a seguinte ação:
Zn × Rn −→ Rn
(v, x) −→ x + v.
Esta ação é totalmente descontı́nua; basta considerar abertos de diâmetro menor que
1.
g · U é uma famı́lia de abertos disjuntos de X e p g·U
: g · U −→ p U é um homeomor-
fismo.
Exemplo 4.4.
[1] Considere a ação de Z, + sobre R, definida por x −→ x + n. Então:
p : R −→ R Z ≃ S 1
é um recobrimento.
De fato, a ação é totalmente descontı́nua. Seja 0 < ε < 1/2; então U = (x−ε, x+ε) é uma
vizinhança de x que satisfaz à condição da definição de ser totalmente descontı́nua.
Pode ser verificado (exercı́cio) que este exemplo é idêntico ao estudado no capı́tulo
anterior para exp : R −→ S 1 .
[2] Em geral,
Π : Rn −→ Rn Zn ≃ Tn ,
onde Π é a projeção canônica, é um recobrimento.
[3] A projeção canônica:
Π : S n −→ PRn
é um recobrimento.
De fato, seja Z2 , · e consideremos S n como um Z2 -espaço com a ação ±1 · x = ±x.
Para cada x ∈ S n consideremos:
U = {y ∈ S n / ky − xk < 1/2}.
Então:
p : X −→ X Z ∼
= M,
é um recobrimento, onde M é a faixa de Möebius. (Verifique!).
4.2. RECOBRIMENTOS DE G-ESPAÇOS 81
Definição 4.3. A ação do grupo G sobre X é dita livre se g · x 6= x, para todo x ∈ X e todo
g ∈ G, g 6= e.
Proposição 4.2. Seja X de Hausdorff e G um grupo finito, então, G atua livremente sobre X
se, e somente se a ação é totalmente descontı́nua.
pois gk · U ⊂ Uk e U ⊂ U0 , gk 6= e.
Se G é um grupo infinito a ação livre pode não ser totalmente descontı́nua. Isto é:
p : X −→ X G
pode não ser um recobrimento, ainda que a ação seja livre e X de Hausdorff.
Exemplo 4.5.
h : S 2n+1 −→ S 2n+1
por:
h(z0 , z1 , . . . , zn ) = (e2πi/p z0 , e2πiq1 /p z1 , . . . , e2πiqn /p zn ).
h é um homeomorfismo tal que hp = id. Consideremos S 2n+1 como Zp -espaço com a
seguinte ação:
n · (z0 , z1 , . . . , zn ) = (z0 , z1 , . . . , zn ),
p : S 2n+1 −→ L(p, q1 , . . . , qn ),
onde L(p, q1 , . . . , qn ) = S 2n+1 Zp é um recobrimento. O espaço L(p, q1 , . . . , qn ) é cha-
mado lenticular. Note que L(2, q1 , . . . , qn ) = RP2n+1 .
∗ :G × K −→ K
(f, (x, y)) −→ f ∗ (x, y) = f (x, y),
é livre, R2 é de Hausdorff; então R2 , p, K é um recobrimento. Note que G não é
isomorfo a Z × Z, pois G é não comutativo e satisfaz à relação b a b = a.
4.3 Generalizações
A seguir, apresentaremos as generalizações das propriedades de levantamento dos ca-
minhos e das homotopias, estudadas no capı́tulo anterior. A maioria das provas são
idênticas.
Definição 4.4. Sejam X, p, X e um recobrimento e f : Y −→ X uma função contı́nua. A
função contı́nua fe : Y −→ X
e é dita um levantamento de f se o seguinte diagrama comuta:
?X
e
fe
p
Y /X
f
Isto é, p ◦ fe = f .
4.3. GENERALIZAÇÕES 83
Lema 4.2. Sejam X, p, X e um recobrimento e fi : Y −→ X, e (i = 1, 2) levantamentos de
f : Y −→ X, isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
?X
e
f1 , f2
p
Y /X
f
ep Vj
: Vj −→ V é um homeomorfismo, para todo j ∈ J. Se y ∈ W , então f1 (y) =
f2 (y) ∈ Vk , para algum k ∈ J e f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk é um aberto tal que:
y ∈ f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk ⊂ W.
Se x ∈ f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk , então f1 (x), f2 (x) ∈ Vk e (p ◦ f1 )(x) = (p ◦ f2 )(x). Por outro
lado, p V é um homeomorfismo; temos que f1 (x) = f2 (x). Logo, todo elemento de W
k
possui uma vizinhança contida em W , isto é, W é aberto.
Se y ∈/ W , então f1 (y) ∈ Vk e f2 (y) ∈ Vj , para i, j tais que i 6= j; logo, f1−1 Vk ∩ f2−1 Vj
é um aberto tal que
y ∈ f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk ⊂ W C .
Pelo mesmo argumento anterior, W C é aberto.
Corolário 4.2. Sejam X, p, X e um recobrimento e h : Xe −→ Xe contı́nua tal que X
e é conexo
e então h = id e .
por caminhos e p ◦ h = p. Se h(x1 ) = x1 para algum x1 ∈ X, X
Prova : Exercı́cio.
e um recobrimento.
Teorema 4.3. Seja X, p, X
1. Levantamento dos caminhos: Dado um caminho α : I −→ X e xe0 ∈ X e tal que
p(xe0 ) = α(0), existe um único levantamento α e tal que p ◦ α
e : I −→ X e=αeα
e(0) = xe0 , isto
é, temos o seguinte diagrama comutativo:
@
e
X
e
α p
I / X
α
84 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
e
<X
e
H zzz
zz p
zz
zz
I ×I H
/X
Prova : Para todo x, y ∈ X, definiremos uma bijeção entre p−1 (x) e p−1 (y). Seja:
e∈
definida da seguinte forma: Dado γ um caminho que liga x a y, então para cada x
−1
p (x), existe um único levantamento γex tal que γex (0) = x; definamos:
x) = γex (1).
h(e
h está bem definida pois γex (1) ∈ p−1 (y). Analogamente, definimos h−1 utilizando γ −1 ,
isto é:
x) = γg
h−1 (e −1 (1).
4.4 Exercı́cios
f1 −→ X1 e p2 : X
1. Sejam p1 : X f2 −→ X2 recobrimentos. Verifique que:
f1 × X
p1 × p2 : X f2 −→ X1 × X2
é um recobrimento.
e −→ X, q : X −→ Y e h = q ◦ p. Se p e q são recobrimentos, h é um
2. Sejam p : X
recobrimento? Verifique.
Z × X −→ X
(n, (x, y)) −→ (x + n, (−1)n y).
RECOBRIMENTO E GRUPO
FUNDAMENTAL
Prova : Definamos:
F : π1 X, x −→ p−1 (x),
e(1), onde α
por F ([α]) = α e é o único levantamento de α tal que α(0) = x; logo, pela
unicidade dos levantamentos, F é bem definida. Agora, consideremos:
G : p−1 (x) −→ π1 X, x ,
y ) = [α] = [p ◦ α
G(e e].
87
88 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Exemplo 5.1.
p−1 (1) ⇆ Z × Z = Z2 .
[3] Em geral, seja Rn , p, Tn , onde p = (exp, exp, . . . , exp); então:
p−1 (1) ⇆ Z × Z × . . . × Z = Zn .
[4] S n , Π, PRn (n > 1), onde Π é a projeção canônica, é um recobrimento de 2 folhas
e:
Π−1 ([x]) = {x, −x} ⇆ Z2 .
[5] Seja X, Π, M , onde X = R × (−1, 1), M é a faixa de Möebius e Π é a projeção
canônica; então:
Π−1 ([0, 0]) = {(n, 0) / n ∈ Z} ⇆ Z.
e um recobrimento tal que p(e
Teorema 5.2. Seja X, p, X x) = x; então o homomorfismo
induzido:
e x
p∗ : π1 X, e −→ π1 X, x
é um monomorfismo.
Prova : Sejam [e e ∈ π1 X,
α], [β] e xe tal que p∗ ([e e então, [p ◦ α
α]) = p∗ ([β]; e Logo,
e] = [p ◦ β].
existe uma homotopia H : p ◦ α e consideremos o único levantamento H
e ≃ p ◦ β; e de H;
portanto He :α e logo:
e ≃ β;
[e e
α] = [β].
Como p∗ é um monomorfismo, podemos considerar π1 X, e x
e como um subgrupo de
π1 X, x . Logo, com as hipóteses do teorema, se:
e x
π1 X, e 6= {e}, então π1 X, x 6= {e}.
Teorema 5.3. Sejam X, p, X e um recobrimento e x e, xe1 ∈ p−1 (x); então todos os subgrupos
e x
p∗ π1 X, e e p∗ π1 X,e xe1 são conjugados em π1 X, x . Se x e ∈ p−1 (x) é fixado, toda classe
e x
conjugada de p∗ π1 X, e é igual ao subgrupo p∗ π1 X,e xe1 , para algum xe1 ∈ p−1 (x).
5.1. CRITÉRIO GERAL DE LEVANTAMENTO 89
f : Z −→ X
e ou seja, temos o seguinte diagrama comutativo:
admite um levantamento f,
?X
e
fe
p
Z /X
f
F : Z −→ X,
[f ◦ η ∗ f ◦ η1−1 ] = [p ◦ µ].
5.1. CRITÉRIO GERAL DE LEVANTAMENTO 91
Logo:
f ◦ η ≃ (f ◦ η) ∗ ex0 ≃ (f ◦ η) ∗ (f ◦ η1−1 ∗ f ◦ η1 )
≃ (f ◦ η ∗ f ◦ η1−1 ) ∗ f ◦ η1
≃ p ◦ µ ∗ f ◦ η1 .
Existem exemplos que mostram que a hipótese de ser Z localmente conexo por cami-
nhos não pode ser retirada para a prova de que o levantamento fe é contı́nuo.
Corolário 5.1. Sejam X, p, Xe um recobrimento e Z um espaço simplesmente conexo e lo-
calmente conexo por caminhos; então toda função contı́nua f : Z −→ X admite levantamento
fe : Z −→ X.
e
92 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Exemplo 5.2.
[1] Toda função f : R −→ S 1 admite levantamentos.
[2] Em geral, toda função f : Rn −→ Tn admite levantamentos.
[3] Se n > 1, toda função f : S n −→ PRn admite levantamentos.
Proposição 5.1. Sejam X, p, X e um recobrimento, α, β : I −→ X caminhos tais que α(0) =
β(0) = x0 e α(1) = β(1) = x1 e α e, βe : I −→ X e levantamentos de α e β, respectivamente,
e tal que p(xe0 ) = x0 . Então, α
de ponto inicial xe0 ∈ X e se, e somente se [α ∗ β −1 ] ∈
e(1) = β(1)
p∗ π1 X,e xe0 .
Prova : Seja [α ∗ β −1 ] ∈ p∗ π1 X,e xe . Denotemos por e γ o levantamento do caminho
−1
α∗β , a partir do ponto xe0 ; logo, eγ é um caminho fechado. Os caminhos α e, βe : I −→ X
e
são definidos por:
e(t) = e
α γ (t/2) e β(t)e = γe(1 − t/2).
e(0) = e
α e eα
γ (0) = xe0 = γe(1) = β(0) e(1) = e e
γ (1/2) = β(1). e e βe são levanta-
Note que α
mentos de α e β, respectivamente:
(p ◦ α
e)(t) = (p ◦ e
γ )(t/2)
= (α ∗ β −1 )(t/2)
= α(2 (t/2))
= α(t).
Analogamente,
e
(p ◦ β)(t) = (p ◦ eγ )(1 − t/2)
= (α ∗ β −1 )(1 − t/2)
= β −1 (2 (1 − t/2) − 1)
= β −1 (1 − t)
= β(t).
Observações 5.1.
1. Lembremos que S 1 ≃ R Z; logo:
π1 S 1 , z0 = π1 R Z, w0 ≃ Z.
2. O toro T2 = R2 Z2 ; logo:
π1 T2 , y0 = π1 R2 Z2 , w0 ≃ Z2 .
tal que e
γ (0) = x0 . Como e γ (1) ∈ G x0 , (G x é a órbita de x), então existe um único gγ ∈ G
tal que e
γ (1) = gγ · x0 . Definamos a seguinte aplicação:
Ψ : π1 X G, y0 −→ G
[γ] −→ gγ .
Ψ é um homomorfismo de grupos.
Sejam [α], [β] ∈ π1 X G, y0 tal que y0 = Π(x0 ); isto é, y0 ∈ G x0 .
94 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
e(0) = x0 ,
α e(1) = gα · x0 ,
α
e = x0 ,
β(0) e = gβ · x0 .
β(1)
Θgα ◦ βe : I −→ X.
Note que:
Θgα ◦ βe (0) = gα · x0 ,
Θg ◦ βe (1) = gα · (gβ · x0 ).
α
Θgα ◦ βe é um levantamento de β. De fato, Π Θgα ◦ βe = Π gα · βe = Π βe = β.
Consideremos o caminho α e ∗ Θgα ◦ βe ; logo:
e ∗ Θgα ◦ βe (0) = α
α e(0) = x0 ,
e ∗ Θgα ◦ βe (1) = Θgα ◦ βe (1) = gα · (gβ · x0 ).
α
Então:
e ∗ Θgα ◦ βe (1) = gα gβ = Ψ [α] Ψ [β] .
Ψ [α] [β] = Ψ [α ∗ β] = α
Lema 5.1. ker(Ψ) = Π∗ π1 X, x0 , onde Π∗ é o homomorfismo induzido pela projeção:
Π : X −→ X G
e ker(Ψ) é o núcleo de Ψ.
Prova : [γ] ∈ ker(Ψ), se, e somente se Ψ([γ]) = e se, e somente se e γ (1) = x0 , onde e
γ é
o único levantamento de γ tal que e γ ] ∈ π1 X, x0 e
γ (0) = x0 . Logo, se, e somente se [e
γ = Π ◦ γe; então:
[γ] = [Π ◦ e γ ] ∈ Π∗ π1 X, x0 .
γ ] = Π∗ [e
Exemplo 5.3.
[1]Como antes, consideremos S 2n+1 como ZP -espaço; então:
π1 L(p, q1 , . . . , qn ), y0 = π1 S 2n+1 Zp , y0 ≃ Zp ;
pois S 2n+1 é simplesmente conexa, (n ≥ 1).
[2] Sabemos que o espaço projetivo real PRn , (n > 1) pode ser obtido a partir de S n
como Z2 -espaço. Logo:
π1 PRn , y0 = π1 S n Z2 , y0 ≃ Z2 .
f1 −→ X
Definição 5.1. A função h : X f2 é dita um homomorfismo, se:
1. h é contı́nua.
isto é, p2 ◦ h = p1 .
Proposição 5.2. Sejam X f1 , p1 , X e X f2 , p2 , X recobrimentos tais que X f1 e Xf2 são conexos
e localmente conexos por caminhos. Dados xe1 ∈ X f1 , xe2 ∈ X f2 e x0 ∈ X arbitrários, tais que
p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ) = x0 e se p1∗ π1 X f1 , xe1 ⊂p2∗ π1 X f2 , xe2 , então existe h : X
f1 −→ X f2
contı́nua tal que h(xe1 ) = xe2 e o seguinte diagrama comuta:
f
X2
?
h
p2
f1
X p1
/X
f
X2
pe1 ?
p2
f1
X p1
/X
Exemplo 5.4.
[1] Sejam p1 : S 1 −→ S 1 e p2 : S 1 −→ S 1 definidas por p1 (z) = z 6n e p2 (z) = z 2n ,
respectivamente.
Como p1∗ π1 S 1 , z0 ≃ 6 Z e p2∗ π1 S 1 , z0 ≃ 2 Z, temos:
p1∗ π1 S 1 , z0 ≃ 6 Z ⊂ p2∗ π1 S 1 , z0 ≃ 2 Z.
Pela proposição anterior segue que existe h homomorfismo de recobrimentos, onde
temos o seguinte diagrama comutativo:
1
S
}>
h }}} p2
}}
}}
S1 p1
/ S1
Prova : Note que todo x ∈ X possui uma vizinhança conexa por caminhos que é
uma vizinhança distinguida para cada recobrimento. De fato, escolhemos U1 e U2
vizinhanças distinguidas de x de cada recobrimento; então consideramos U = U1 ∩ U2 .
Provaremos que h é sobrejetiva. Isto é, provaremos que para todo ye ∈ X f2 , existe x
e∈X f1
tal que h(ex) = ye. Fixemos xe1 ∈ Xf1 e seja xe2 = h(xe1 ), x0 = p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ); denotemos
por α um caminho em X f2 tal que α(0) = xe2 e α(1) = ye. Agora consideramos β = p2 ◦ α
um caminho em X; então existe, um único levantamento γ tal que γ(0) = xe1 e que
satisfaz a p1 ◦ γ = β. Seja xe = γ(1). Logo, os caminhos h ◦ γ e α tem o mesmo ponto
inicial e p2 ◦ (h ◦ γ) = p2 ◦ α; pela unicidade do levantamento temos h ◦ γ = α, logo
x) = ye.
h(e
f1 , p1 , X e X
Definição 5.2. Dados os recobrimentos X f2 , p2 , X , a função
f1 −→ X
h:X f2
1. h é um homeomorfismo.
isto é, p2 ◦ h = p1 .
Observações 5.2.
f1 , p1 , X e X
1. Se existe isomofismo entre X f2 , p2 , X , dizemos que os recobrimentos
são isomorfos.
2. Os isomorfismos de recobrimentos também são chamados transformações de reco-
brimentos.
Proposição 5.4. Sejam Xf1 , p1 , X e X
f2 , p2 , X recobrimentos tais que X
f1 e X
f2 são co-
nexos e localmente conexos por caminhos. Dados xe1 ∈ X f1 , xe2 ∈ X
f2 e x0 ∈ X tais que
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 99
f1 , xe1 = p2∗ π1 X
p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ) = x0 e se p1∗ π1 X f2 , xe2 , então existe h : X
f1 −→ X
f2
homeomorfismo tal que h(xe1 ) = xe2 e o seguinte diagrama comuta:
X2 f
?
h p2
f1
X p1
/X
f f
? X2 ? X1
pe1 pe2
p2 p1
f1
X p1
/X f2
X p2
/X
f1 −→ X
f = pe2 ◦ pe1 : X f1 ;
logo, f (xe1 ) = (pe2 ◦ pe1 )(xe1 ) = pe2 (xe2 ) = xe1 . Então, f = idXf1 e, consequentemente, pe1 é
injetiva e pe2 sobrejetiva. Analogamente, definimos:
f2 −→ X
g = pe1 ◦ pe2 : X f2 ;
Observações 5.3.
e =X
1. Se X f f
1 = X2 , os isomorfismos são chamados automorfismos do recobrimento
e
X, p, X .
e formam um grupo com a
2. Não é difı́cil provar, que os automorfismos de X, p, X
composta de funções. Denotemos este grupo por:
e = {h : X
Aut X, p, X e −→ X
e / h isomorfismo tal que p ◦ h = p}.
e define uma permutação em cada fibra p−1 (x).
3. Cada h ∈ Aut X, p, X
e é um Aut X, p, X
4. Note que X e -espaço com a ação:
e ×X
∗ : Aut X, p, X e −→ Xe
x) −→ h ∗ x
(h,e e = h(e
x)
Note que se x0 ∈ X e xe0 ∈ p−1 (x0 ), então h(xe0 ) ∈ p−1 (x0 ). Utilizando este corolário
podemos construir automorfismos, pois, os automorfismos são completamente deter-
minados por seus possı́veis valores na fibra. Sejam x0 ∈ X e xe0 ∈ p−1 (x0 ). Podemos
construir os automorfismos associando a h(xe0 ) os possı́veis valores em p−1 (x0 ).
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 101
Exemplo 5.5.
[1] Seja R, exp, S 1 ; então para cada n ∈ Z, temos:
Tn : R −→ R
x −→ x + n.
As translações Tn são automorfismos tais que Tn (0) = n, para todo n ∈ Z. Por outro
lado sabemos que exp−1 (1) ≃ Z. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos;
então:
Aut R, exp, S 1 = {Tn / Tn (x) = x + n, n ∈ Z, x ∈ R}.
[2] Seja R2 , p, T2 ; então, para cada (n, m) ∈ Z × Z, temos:
Tn,m : R2 −→ R2
(x, y) −→ (x + n, y + m).
As translações Tn,m são automorfismos tais que Tn,m (0, 0) = (n, m), para todo (n, m) ∈
Z × Z. Por outro lado sabemos que p−1 (1) ≃ Z × Z. Logo, estes são todos os possı́veis
automorfismos; então:
Aut R2 , p, T2 = {Tn,m / Tn,m (x, y) = (x + n, y + m), (n, m) ∈ Z2 , (x, y) ∈ R2 }.
[3] Em geral, seja Rn , p, Tn ; então, para cada v ∈ Zn , temos:
Tv : Rn −→ Rn
x −→ x + v.
As translações Tv são automorfismos tais que Tv (0, 0) = v, para todo v ∈ Zn . Por outro
lado sabemos que p−1 (1) ≃ Zn . Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos;
então:
Aut Rn , p, Tn = {Tv / Tv (x) = x + v, v ∈ Zn , x ∈ Rn }.
[4] Seja PRn , Π, S n . Como sabemos Π−1 (1) ≃ Z2 . Logo, estes são todos os possı́veis
automorfismos; então:
Aut PRn , Π, S n = {id, a},
onde a é função antı́poda.
[5] Sejam X, Π, M , onde M é a faixa de Möebius e X = R × (−1, 1); então para cada
n ∈ Z, temos:
Tn : R × (−1, 1) −→ R × (−1, 1)
(x, y) −→ (x + n, (−1)n y).
Tn são automorfismos tais que Tn (0, 0) = (n, 0), para todo n ∈ Z. Por outro lado
sabemos que Π−1 (1) ≃ Z. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos; então:
Aut X, Π, M = {Tn / Tn (x, y) = (x + n, (−1)n y), n ∈ Z, (x, y) ∈ X}.
102 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Teorema 5.7. Se X e é conexo e localmente conexo por caminhos, então Aut X,
e p, X atua de
e Em particular:
forma totalmente descontı́nua sobre X.
Π:X e −→ X e Aut X,e p, X
é um recobrimento.
onde Vj são disjuntas aos pares e cada Vj é homeomorfa a U. Logo, existe um k ∈ J tal
e p, X :
e ∈ Vk . Seja h ∈ Aut X,
que x
i) Se h(e
x) = x e, então sabemos que h = idXe . Veja o capı́tulo anterior.
ii) Se h 6= idXe , como p h(ex) = p(e
x) segue que h(e x) ∈ Vs , para algum s ∈ J.
iii) Se Vk = Vs , então h(e e. Logo, se h 6= idXe , então x
x) = x e ∈ Vk e h(ex ) ∈ Vs e Vk ∩
Vs = ∅. Por outro lado, U é conexo por caminhos pois X e e X são localmente conexos
por caminhos
e os Vj também são conexos por caminhos. Por outro lado, note que
(p ◦ h) Vk = U e:
[
h Vk ⊂ Vj ;
j∈J
como h(e x) ∈ Vs , para algum x e ∈ Vk , temos que h Vk ⊂ Vs ; logo Vk ∩ h Vk = ∅; a ação
é totalmente descontı́nua.
Teorema 5.8. Se X e é conexo e localmente conexo por caminhos e p∗ π1 X,
e xe0 é um subgrupo
normal de π1 X, x0 , então:
X∼=X e Aut X,
e p, X ,
onde ∼= denota homeomorfismo.
e xe0
Prova : Se p∗ π1 X, é um subgrupo normal de π1 X, x0 , sabemos que:
e xe0 = p∗ π1 X,
p∗ π1 X, e xe1 , para todo x1 ∈ p−1 (x0 ).
Logo, existe h ∈ Aut X,e p, X tal que h(xe0 ) = xe1 . Reciprocamente, se h(xe0 ) = xe1
para algum h ∈ Aut X, e p, X , então p(xe0 ) = p(xe1 ). Isto é, o grupo Aut X,
e p, X iden-
tifica cada elemento de X e da mesma forma que os identifica a aplicação de recobri-
mento p. Logo, existe uma bijeção entre X e X e Aut X, e p, X . Por outro lado, X e
Xe Aut X, e p, X tem a topologia quociente determinada por p e Π, respectivamente.
Logo:
X∼
=X e Aut X, p, X e .
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 103
Corolário 5.7. Seja X, p, Xe um recobrimento tal que X
e é conexo e localmente conexo por
e xe0 é um subgrupo normal de π1 X, x0 , onde p(xe0 ) = x0 , então
caminhos. Se p∗ π1 X,
π1 X, x0 p∗ π1 X,e xe0 ≃ Aut X, e p, X .
Exemplo 5.6.
[1] Seja Rn , p, Tn . Como Rn é simplesmente conexo, temos que:
Zn ∼
= π1 Tn , x0 ∼= Aut Rn , p, Tn .
[2] Seja PRn , Π, S n . Como S n é simplesmente conexa (n > 1), temos que:
Z2 ∼
= π1 PRn , x0 ∼ = Aut PRn , Π, S n .
[3] Seja S 1 , p, S 1 tal que p(z) = z n , (n ∈ N); então como π1 S 1 , x0 ≃ Z, temos que
p∗ π1 S 1 , x0 ≃ n Z
é normal em Z e:
Aut S 1 , p, S 1 ∼= π1 X, x0 p∗ π1 X, e xe0 ≃ Z nZ.
Isto é, Aut S 1 , p, S 1 é um grupo finito de ordem n. Pelo teorema 5.8, obtemos nova-
mente que:
S 1 Z nZ ∼= S 1.
104 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
[4] Seja X, Π, M , onde M é a faixa de Möebius e X = R × (−1, 1). Como X é simples-
mente conexo, temos que:
Z∼ = π1 M, m0 ∼ = Aut X, Π, M .
[5] Seja R2 , Π, K , onde K é a garrafa de Klein. Como R2 é simplesmente conexo,
temos que:
Aut R2 , Π, K ≃ π1 K, x0 ≃ G,
onde G é o grupo gerado pelos homeomorfismos a, b : R2 −→ R2 definidos por:
Note que:
Observações 5.4.
Exemplo 5.7.
[1] R, exp, S 1 é o recobrimento universal de S 1 .
[2] Analogamente, R2 , (exp, exp), T2 é o recobrimento universal de T2 .
[3] Em geral, Rn , (exp, . . . , exp), Tn é o recobrimento universal de Tn .
[4] S 1 × R, (id, exp), T2 não é um recobrimento universal de T2 .
[5] X, Π, M , onde M é a faixa de Möebius e X = R×(−1, 1) é o recobrimento universal
de M.
[6] R2 , Π, K , onde K é a garrafa de Klein, é o recobrimento universal de K.
O recobrimento universal é associado ao subgrupo {e} ⊂ π1 X, x .
O número de folhas do recobrimento universal é a ordem do grupo
fundamental da
n
base. Por exemplo, R, exp, S tem infinitas folhas e S , Π, PR , (n > 1) tem 2 folhas.
1 n
Proposição 5.5. Seja X, p, Xe recobrimento universal de X. Para todo Xf1 , p1 , X tal que
f1 é conexo, existe h : X
X e −→ X
f1 homomorfismo tal que o seguinte diagrama é comutativo:
f
X1
h
?
p1
e
X p
/X
isto é, p1 ◦ h = p.
e e xe1 ∈ X
e∈X
Prova : Para todo x f1 tais que p(e
x) = p1 (xe1 ) temos:
e x
{0} ≃ p∗ π1 X, f1 , xe1 .
e ⊂ p1∗ π1 X
106 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
f
X1
h
?
p1
e
X p
/X
5.4 Aplicações
Um problema bastante complicado é determinar todos (a menos de isomorfismo) os
recobrimentos de um espaço dado. Neste parágrafo, estudaremos alguns exemplos
com a hipótese de que o espaço de recobrimento é conexo. Utilizaremos o seguinte
corolário dos parágrafos anteriores.
Teorema 5.9.
e p, X são isomorfos. Seja G ⊂ π1 X, x0 um
Prova : Sabemos que π1 X, x0 e Aut X,
subgrupo e consideremos G′ ⊂ Aut X,e p, X o subgrupo correspondente, dado pelo
isomorfismo; denotemos por:
XeG = X e G′ .
A relação de equivalência está definida por:
e −→ X
Π:X eG .
5.4. APLICAÇÕES 107
eG −→ X
pG : X
G′ x
e −→ p(e
x).
e
XG
~?
Π ~~~
pG
~~~
~
e
X p
/X
(p ◦ h)(e
x) = p(e
x),
eXG
~?
Π ~ ~
pG
~
~~~
~
e
X p
/X
108 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
eG , y0 ; definimos:
tal que p(xe0 ) = x0 , Π(xe0 ) = y0 e pG (y0 ) = x0 . Seja [ξ] ∈ π1 X
σ : I −→ X,
tal que σ = pG ◦ ξ. Note que [σ] ∈ π1 X, x0 , pois σ(0) = pG (ξ(0)) = pG (y0) = x0 e
σ(1) = pG (ξ(1)) = pG (y0 ) = x0 . Consideremos σ e o levantamento de σ a partir de xe0 ,
isto é:
p◦σ e = σ.
Por outro lado, pG ◦ Π = p e p ◦ σ
e = pG ◦ Π ◦ σ
e; logo:
pG ◦ Π ◦ σ
e =p◦σ
e = σ = pG ◦ ξ.
Π◦σ
e = ξ.
id : S n −→ S n ,
onde p é um número primo e os qi são inteiros, primos relativos com p. Logo, os únicos
subgrupos de Zp são {e} e Zp , então:
i) O recobrimento universal: X eG = S 2n+1 {e} ∼= S 2n+1 , e:
Π : S 2n+1 −→ L(p, q1 , . . . , qn ),
id : L(p, q1 , . . . , qn ) −→ L(p, q1 , . . . , qn ).
e p, L(p, q) é isomorfo a um destes recobrimentos.
Logo, todo recobrimento X,
Π : S n −→ PRn ,
Π : R2 −→ T2 .
p : R2 −→ T2
(s, t) −→ (exp(s), exp(t)).
Os subgrupos gerados por vetores paralelos a (1, 0): Gk,0 (k ≥ 1) tem como subgrupo
correspondente pelo isomorfismo:
′
Gk,0 = {Tk (x, y) = (x + k, y) / k ∈ Z, (x, y) ∈ R2 },
logo:
′
R2 Gk,0 = {(x, y) / 0 ≤ x ≤ k} ≃ S 1 × R.
p : S 1 × R −→ T2
(z, t) −→ (z, exp(t)).
112 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Analogamente, os subgrupos gerados por vetores paralelos a (0, 1): G0,l (l ≥ 1), tem
como subgrupo correspondente pelo isomorfismo:
′
G0,l = {Tl (x, y) = (x, y + l) / l ∈ Z, (x, y) ∈ R2 },
logo:
′
R2 G0,l = {(x, y) / 0 ≤ y ≤ l} ≃ R × S 1 .
p : R × S 1 −→ T2
(t, z) −→ (exp(t), z).
5.9. RECOBRIMENTOS DO TORO 113
Os subgrupos Gk,l gerados por vetores (k, l) são, em geral, faixas do tipo:
Gk,l = {(x, y) / 0 ≤ (x, y) · (k, l) ≤ k(k, l)k2},
onde · é o produto interno usual do plano.
Figura 5.3:
onde C é um cilindro.
Utilizando a estrutura multiplicativa do grupo T2 ∼
=∼= S 1 × S 1 , temos que:
p : C −→ T2
(z, t) −→ (z k e−2πlt , z l e2πkt ).
Figura 5.4:
p : T2 −→ T2
(z, w) −→ (z a w c , z b w d ).
toro.
2
0 3
0 1 2
6 × 1 = 3 × 2 = 2 × 3 = 1 × 6.
e ≃ Tm × Rn−m ,
X
onde T0 = {x0 }.
Π : X −→ M.
e ′ = X {e} ≃ X. O grupo de automorfismos é:
De fato, X G
Aut X, Π, M = {Tk / Tk (x, y) = (x + k, (−1)k y), k ∈ Z, (x, y) ∈ X}.
0 1 2
eG′ = X G′ ≃ M; logo temos:
ii) Se G′ = Z, então X
id : M −→ M,
o recobrimento trivial.
iii) De forma análoga ao caso do cı́rculo, os subgrupos Gn = nZ ( n ∈ N), são associa-
dos, pelo isomorfismo, a subgrupos:
′
Gn = {Tn / Tn (x, y) = (x + n, (−1)n y), n ∈ Z, (x, y) ∈ X}.
Logo:
(x, y) ∼ (x + n, (−1)n y).
Os recobrimentos:
e Gn = X G ′ ,
X n
(x, y) ∼ (x + n, y).
Por exemplo X 2 Z:
118 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
0 1 2
(x, y) ∼ (x + n, −y).
Por exemplo X 3 Z:
0 1 2 3
m+1
(am bn )−1 = a−m b(−1) n
.
Hm,n = (am bn ).
Hm,n,k = (am bn , bk )
Π : R2 −→ K.
Isto é:
(x, y) ∼ ((−1)m x + n, y + m).
eG = R2 Hm,n e:
i) Consideramos X
p : R2 Hm,n −→ K,
e se m é ı́mpar, então:
R2 Hm,n ≃ M,
120 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Se m é ı́mpar, temos:
(x, y) ∼ (−x, y + m), m ∈ Z
logo, R Hm,0 ≃ M.
2
ii) Os subgrupos:
Hm,n,k = (am bn , bk )
tais que m 6= 0, k > 0 e 0 ≤ n < k. Consideramos:
eG = R2 Hm,n,k
X
e a projeção canônica:
p : R2 Hm,n,k −→ K.
É possı́vel provar que se m é par, então:
R2 Hm,n,k ≃ T2 ,
e se m é ı́mpar, então:
R2 Hm,n,k ≃ K.
Por exemplo, consideremos o subgrupo Hm,0,k que é gerado pelos automorfismos:
Então, se m é par:
(x, y) ∼ (x, y + m)
(x, y) ∼ (x + k, y).
Logo:
R2 Hm,0,k ≃ T2 .
Se m é ı́mpar:
(x, y) ∼ (−x, y + m)
(x, y) ∼ (x + k, y).
5.12. AÇÃO DO GRUPO FUNDAMENTAL SOBRE AS FIBRAS 121
Logo:
R2 Hm,0,k ≃ K.
0 2
onde αe é o único
levantamento de α tal que p∗ ([e
α]) = [α] e α e. Claramente, p−1 (x)
e(0) = x
é um π1 X, x -espaço.
Seja X um G-espaço. A ação do grupo G sobre o conjunto X é dita transitiva se para
todo x1 , x2 ∈ X existe g ∈ G tal que g·x1 = x2 . Lembremos que o subgrupo de isotropia
do elemento x0 ∈ X é:
{g ∈ G / g · x0 = x0 }.
122 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
e um recobrimento. Temos:
Proposição 5.6. Seja X, p, X
1. π1 X, x atua transitivamente sobre p−1 (x).
e ∈ p−1 (x), o subgrupo de isotropia de x
2. Para todo x e x
e é p∗ π1 X, e .
3. Para todo h ∈ Aut X, p, X e ,xe ∈ p−1 (x) e [α] ∈ π1 X, x , temos que:
h([α] ∗ x
e) = [α] ∗ h(e
x).
Prova :
e é conexo por caminhos, existe um caminho α
1. Sejam x1 , x2 ∈ p−1 (x), como X e tal que
e(0) = x1 e α
α e(1) = x2 . Definamos α = p ◦ αe, então:
Logo, h(e
α) também é um levantamento de α. Pela definição da ação :
[α] ∗ h(e
x) = h ◦ α
e (1) = h(e
α(1)) = h([α] ∗ x
e).
5.13. EXERCÍCIOS 123
5.13 Exercı́cios
e é dito regular se para algum xe0 ∈ X
1. Um recobrimento X, p, X e o subgrupo
e xe0
p∗ π1 X,
é normal de π1 X, x0 . Verifique que se [α] ∈ π1 X, x0 , então todos os levanta-
mentos de α são caminhos fechados ou não são fechados.
2. Seja X, p, Xe um recobrimento tal que X = X e G, onde G é um grupo que age
e Prove que X, p, X
de forma totalmente descontı́ua sobre X. e é regular.
T : X −→ X
z −→ z + 1 + i.
SeG é o grupo gerado por T , calcule π1 X G, x0 . (Verifique primeiramente que
X G é homeomorfa à faixa de Möebius).
p : C −→ T2
(z, t) −→ (z k e−2πlt , z l e2πkt ).
6.1 Introdução
O Teorema de Seifert-Van Kampen é um clássico da Topologia Algébrica e é uma fer-
ramenta poderosa, que nos permitirá determinar o grupo fundamental de um espaço
topológico, conhecendo apenas alguns dos grupos fundamentais de subconjuntos es-
peciais do espaço topologico. Por exemplo, considere a figura do número oito. Topo-
logicamente esta figura é homeomorfa a união de dois cı́rculos, disjuntos, salvo num
único ponto em comum; utilizando o Teorema de Seifert-Van Kampen, poderemos de-
terminá-lo a partir do grupo fundamental do cı́rculo.
125
126 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
Definição 6.1. Seja S 6= ∅ um conjunto e F um grupo. Dizemos que F é um grupo livre sobre
S, se existe i : S −→ F injetiva tal que para qualquer função h : S −→ G, onde G é um grupo
arbitrário, existe um único homomorfismo g : F −→ G, tal que o seguinte diagrama comuta:
? F
i
g
S /G
h
Isto é, g ◦ i = h
Não é difı́cil ver que fixado o conjunto S, existe um único grupo livre F , a menos
de isomorfismos. A existência dos grupos livres pode ser vista em qualquer livro de
Álgebra intermediária.
Não é difı́cil ver que o grupo livre G gerado por um único elemento é isomorfo a Z. De
fato a única aplicação injetiva h : {a} −→ Z é dada por h(a) = 1, tal que:
>G
|||
i
| g
||
||
{a} /Z
h
Se S é um conjunto finito com n elementos, o grupo livre gerado por S é dito grupo
livre com n geradores. Grupos livres com n > 1 geradores, são grupos infinitos não
abelianos.
A seguinte propriedade caracteriza completamente estes grupos.
Todo grupo é quociente de um grupo livre. De fato. seja G um grupo e S ⊂ G tal que
G =< S >, onde < S > é o grupo gerado por S, logo a inclusão natural i : S −→ G
pode ser unicamente estendida a um homomorfismo sobrejetivo f : F −→ G, onde F
é o grupo livre sobre S. Denotando por R = ker(f ), pelo teorema do isomorfismo de
grupos temos:
F/R ∼
= G.
Dizemos que R é o grupo de relações de G e que S é um sistema ou um conjunto de
geradores de G. O par (S, R) é dito representação do grupo G.
Note que sempre temos o seguinte: se G é o grupo gerado por S; então, (S, ∅) é uma
representação de G.
6.2. GRUPOS LIVRES 127
g g = g 2 , g −1 g −1 = g −2, em geral g g . . . g = g n , g −1 g −1 . . . g −1 = g −n .
Muitas vezes, por abuso de linguagem, se r ∈ R escreveremos r = 1, pois R = ker(f ).
Seja F um grupo livre sobre S; consideremos seu subgrupo comutador:
G = F/R
é um grupo abeliano livre sobre S. Logo, a inclusão natural i : S −→ G é tal que, dada
h : S −→ H, onde H é um grupo abeliano, existe un homomorfismo g : G −→ H tal
que o seguinte diagrama comuta:
? G
i ~~~
g
~~
~~
S /H
h
G =< a, b / b2 a = b, b a2 b = a >
é isomorfo ao grupo trivial {1}. De fato, b2 a = b implica b a = 1 ou, equivalentemente
a−1 b−1 = 1; por outro lado, (a−1 b−1 ) b a2 b = a, donde b = 1, logo a = 1.
Considere o grupo Z2 × Z3 gerado pelo par (1, 1) e que existe um único homomorfismo
sobrejetivo:
f : Z −→ Z2 × Z3
128 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
tal que f (1) = (1, 1); por outro lado ker(f ) =< 6 >, logo o grupo Z2 × Z3 tem uma
representação ({a}, < 6 >), multiplicativamente, f (6) = 1 é equivalente a a6 = 1. Se
escolhemos como geradores do grupo Z2 × Z3 os pares (1, 0) e (0, 1) o ker(f ) é gerado
por 2 e 3, a representação é ({a, b}, R) tal que a2 = 1 e b3 = 1.
A seguir apresentamos outros exemplos de representações de grupos:
Se G é um grupo cı́clico de ordem n, então G pode ser escrito como < a / an = 1 >.
Logo:
G∼
= Zn .
Definição 6.2. Seja G um grupo e {Gα / α ∈ Γ} uma famı́lia de subgrupos que geram G.
Gα ∩ Gβ = {e} se α 6= β. Dizemos que G é o produto livre gerado pelos Gα , se para cada g ∈ G
existe uma única palavra reduzida em Gα que representa a g. Em tal caso escrevemos:
∗
Y
G= Gα .
α
G = G1 ∗ G2 ∗ . . . ∗ Gn .
onde cada giεi pertence a algum Gi diferente da identidade e tal que os elementos adja-
centes a giεi pertencem a diferentes Gα .
Note que a operação em G é um produto, por justaposição seguida de uma redução.
De outra forma, o último dos giεi da primeira palavra e o último da segunda podem
estar no mesmo grupo, então elas podem ser combinadas num novo elemento.
ε ε
Por exemplo, se g1 = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gkεk e g2 = gj j gj+1
j+1
. . . . . . gnεn , então
ε εj+1 ε εj+1
g1 g2 = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gkεk gj j gj+1 . . . . . . gnεn = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gkεk gj j gj+1 . . . . . . gnεn
G
ik ||>
|| h
||
||
Gk hk
/ H
Z2 ∗ Z2 =< a, b / a2 = b2 = 1 > .
130 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
Logo, para todo g ∈ Z2 ∗ Z2 tal que g 6= 1, o elemento g pode ser escrito, somente como
produto de a e b, pois potências de a e b são triviais; logo os geradores devem aparecer
alternados, por exemplo:
a, b, a b, b a, a b a, a b a b, . . . .
Como a b 6= b a, o grupo é não abeliano e observe que ambos os elementos tem ordem
finita. Por outro lado:
Z2 ∗ Z2 6= Z2 × Z2 .
O grupo Z2 × Z2 é abeliano de ordem 4.
G1
h1 ||>
||
||
||
G0 h2
/G
2
Z4
h1 }}>
}}
}}
}}
Z2 h2
/ Z6
Z4 ∗Z2 Z6 = {a, b / a4 = b6 = 1, x2 = y 3 }.
Denotemos por ik : Gk −→ G1 ∗G2 as inclusões canônicas, k = 1, 2 e por pr : G1 ∗G2 −→
G1 ∗G0 G2 a projeção canônica, então o seguinte diagrama comuta:
G1 NN
v: NNN j
h1 vvv NN1N
vv i1 NNN
vvv N&
v pr
G0 HH G1 ∗O G2 / G18 ∗ G0 G 2
HH
HH pp pp
HH i2 pppp
h2 HH p j
$ ppp 2
G2
onde ji = pr ◦ i1 , i = 1, 2. O produto amalgamado G1 ∗G0 G2 pode ser considerado
como o produto livre G1 ∗ G2 , módulo a identificação h1 (g) = h2 (g) para todo g ∈ G0 .
Se G0 = {id}, então:
G 1 ∗ G0 G 2 = G 1 ∗ G 2 .
Não é difı́cil ver que:
9 G1 JJ
h1 tttt JJ ψ
JJ 1
tttt i1 JJ
t JJ
tt ψ J$
G0 JJ G 1 ∗ G
O 0 G 2
_ _ _/ H
t:
JJJ ttt
JJ i2 ttt
t
J
h2 JJJ t ψ2
% tt
G2
;U
www
ww
ww
ww
U ∩ VGG /X
O
GG
GG
GG
G#
V
os homorfismos induzidos pelas inclusões tal que o diagrama comuta. Dados H um grupo e os
homomorfismos:
ψ1 : π1 U, x0 −→ H e ψ2 : π1 V, x0 −→ H,
existe um único homorfismo ψ : π1 X, x0 −→ H tal que o seguinte diagrama comuta:
π1 U, x0
o7 GG
i1 oooo GG ψ1
GG
ooo j1 GG
ooo
i3
ψ GG#
π1 U ∩ V, x0 / π1 X, x0 _ _ _/ H
;
OOO O ww
OOO www
OO j2 w
i2 OOO' ww ψ2
ww
π1 V, x0
Isto é, ψ ◦ j1 = ψ1 e ψ ◦ j2 = ψ2 .
Em outras palavras:
π1 X, x0 ∼= π1 U, x0 ∗π π1 V, x0 .
1 U ∩V,x0
Ou, equivalentemente:
6.6. REPRESENTAÇÕES 133
π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 N ∼
= π1 X, x0
−1
onde N é o menor subgrupo normal de π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 que contem i1 (α) i2 (α),
para todo α ∈ π1 U ∩ V, x0 .
A seguir, apresentaremos um esboço sucinto, da prova do teorema. Denotemos por:
j : π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 −→ π1 X, x0
o homomorfismo induzido pela extensão dos homomorfismos jk , que são sobrejetivos,
logo o homomorfismo
j é sobrejetivo. Por outro lado N o normalizador de π1 U, ∗
x0
π1 V, x0 satisfaz N ⊂ ker(j), De fato, provaremos que para todo g ∈ π1 U ∩ V, x0 :
6.6 Representações
Suponha que conhecemos as representações dos grupos envolvidos no Teorema de
Seifert-Van Kampen:
π1 U ∩ V, x0 =< S, R >
π1 U, x0 =< S1 , R1 >
π1 V, x0 =< S2 , R2 >
134 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
RS = {id d
1 (s) = i2 (s) / s ∈ s}.
S ∗ = S1 ∪ S2 e R∗ = R1 ∪ R2 ∪ RS ,
Note que o conjunto
de relações R de π1 U ∩ V, x0 não é utilizado na determinação do
grupo π1 X, x0 .
[2] Denotemos o espaço obtido pela união disjuntas de 2 cópias, disjunta e homeomor-
fas a S 1 , com um ponto em comum p, por S 1 ∨p S 1 ; então:
6.7. PRIMEIRAS APLICAÇÕES 135
π1 S 1 ∨p S 1 , p ∼= Z ∗ Z.
De fato, podemos considerar as seguintes cópias, homeomorfas a S 1 :
q p q
1 2
p q2
S 1 ∨p S 1 = U ∪ V.
U ∩ V é simplesmente conexo e p ∈ U ∩ V :
π1 S 1 ∨p S 1 , p ∼= Z ∗ Z.
β p α
O segundo
corolário do Teorema de Seifert-Van Kampen nos indica que o grupo π1 S 1 ∨p
S 1 , p é gerado por potências de a e b. Por exemplo, o elemento:
a3 b2 a−2 ∈ π1 S 1 ∨p S 1 , p
S 1 ∨p S 1 ∨p S 1 .
Consideremos U, V e U ∩ V como nos desenhos:
U V
U é um conjunto aberto e conexo por caminhos, que tem o mesmo tipo de homotopia
de
S 1 ∨p S 1 , V é um conjunto aberto e conexo por caminhos, que tem o mesmo tipo de
homotopia que S 1 , U ∩ V é simplesmente conexo, e:
S 1 ∨p S 1 ∨p S 1 = U ∪ V.
Como p ∈ U ∩ V , pelo segundo corolário do Teorema de Seifert-Van Kampen:
π1 S 1 ∨p S 1 ∨p S 1 , p ∼= Z ∗ Z ∗ Z.
Em geral, por indução, podemos provar que o conjunto formado por n cópias de S 1 ,
com um ponto p em comum:
Pn = S 1 ∨p S 1 ∨p . . . ∨p S 1 ,
tem grupo fundamental:
π1 Pn , p ∼= Z ∗ Z ∗ . . . ∗ Z,
isto é, um grupo livre com n geradores. O espaço Pn é dito buquê de n pétalas.
Utilizando os mesmos argumentos anteriores, se prova o seguinte corolário :
Corolário 6.3. Seja {Xi , i = 1 . . . n} uma famı́lia de espaços topológicos conexos por caminhos
_n
e x ∈ Xi um ponto em comum; se X = Xi , então:
i=1
π1 X, x ∼= π1 X1 , x ∗ π1 X2 , x ∗ . . . ∗ π1 Xn , x .
Consideremos, o toro:
b
x1 x1
a a
a b
x1 x1
b
Sejam dois discos concêntricos, inscritos no retângulo, de raios r2 > r1 > 0, respectiva-
mente. Denotemos por U o complementar, no toro, do disco de raio r2 e V o interior
do disco de raio r1 ; como no seguinte desenho:
b b
a a a a
V
U
b b
b b
x x0
0
x0
a a
a
b
x0 x
0
b
x0
x0
a b
Z∗Z
u:
i1 uuu
u j1
uu
uuu
u i3
Z HH / π1 T2 , x0
HH O
HH
HH j2
i2 HHH
#
{1}
â = δ ∗ α ∗ δ −1 , b̂ = δ ∗ β ∗ δ −1 ,
como no desenho:
b
x1 x
1
a a
x0
ε
δ
x1 x1
b
ε ∼ δ ∗ α ∗ β ∗ α−1 ∗ β −1 ∗ δ −1
∼ (δ ∗ α ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ α−1 ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β −1 ∗ δ −1 )
∼ â ∗ b̂ ∗ â−1 ∗ b̂−1 .
Logo:
â = δ ∗ α ∗ δ −1 , b̂ = δ ∗ β ∗ δ −1 ,
como no desenho:
6.8. SEGUNDA APLICAÇÃO 141
b
x1 x
1
a a
x0
ε
δ
x1 x1
b
O grupo π1 U, x0 tem como geradores [â] e [b̂]. Como S1 = S2 = ∅, pelo teorema de
Seifert-Van Kampen, temos que π1 T2 , x0 é gerado por [â] e [b̂].
Por outro lado, seja z = [ε] o gerador de π1 U ∩ V, x0 ∼= Z; então:
ε ∼ δ ∗ α ∗ β ∗ α−1 ∗ β ∗ δ −1
∼ (δ ∗ α ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ α−1 ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β ∗ δ −1 )
∼ â ∗ b̂ ∗ â−1 ∗ b̂.
π1 K, x0 ∼= {a, b / a b a−1 b = 1}.
Logo, podemos afirmar que o toro e a garrafa de Klein tem tipo de homotopia diferen-
tes. Caso contrário deveriam ter grupos fundamentais isomorfos.
Todos os resultados e notações utizados neste parágrafo são do livro [MV]. Faremos
algumas simplificações para facilitar sua melhor compreensão.
a
a
b b
a a a
b b
A pergunta é, existem outras superfı́cies compactas, diferentes das citadas acima?
Definição 6.4. Dado qualquer homeomorfismo h : ∂U1 −→ ∂U2 , a soma conexa das superfı́cies
S1 e S2 é denotada e definida por:
S1 #S2 = S1 − U1 ⊔ S2 − U2 ∼
onde x ∼ h(x) para todo x ∈ ∂U1 .
6.9. SOMA CONEXA DE SUPERFÍCIES 143
S1
S2
Figura 6.17: S1 − U1 e S2 − U2
De ambas as superfı́cies foram removidos discos e identificadas nos bordos dos discos.
O seguinte desenho é a soma conexa de ambas as superfı́cies.
S1 # S 2
S#S 2 ≃ S.
É possı́vel verificar que o conjunto de todas as superfı́cies compactas com a soma co-
nexa formam um semigrupo com identidade S 2 , isto é, um monoide.
Sabemos que o toro T2 pode ser representado como espaço quociente de um quadrado,
onde seus lados foram identificados da seguinte forma:
144 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
a a
É comum em Topologia das Superfı́cies associar a cada superfı́cie uma palavra, a qual
arquiva, de forma únivoca, todas as informações topológicas da superfı́cie.
Estas palavras são formadas pelas letras das arestas na direção indicada pelas setas,
tal quando lidas,adicionamos um expoente -1, caso percorramos a aresta no sentido
contrário.
Na classificação das superfı́cies compactas, as palavras tem um papel central. Existe
uma grande quantidade de propriedades que envolvem as palavras associadas às su-
perfı́cies. Nós apresentaremos apenas exemplos desas palavras.
Note que temos as seguintes palavras:
b d
a a c c
b d
b d
a c
a c
b d
Finalmente obtemos:
a
b c
a d
b c
d c
a
b
Agora consideremos o plano projetivo real RP2 , que pode ser representado como um
espaço quociente de um disco, com a seguinte identificação:
Verefiquemos que:
K = RP2 #RP2 ,
a b
a b
b
a
Colando, obtemos:
b
a
b
a c c
b a b
c
c
a
a
c b c c
a a
b c
b
a a
Denotemos por:
Analogamente definimos:
S∼
= S 2 #m T2 #n RP2 ,
para algum, m ≥ 0 e n ≥ 0.
Uma superfı́cie é dita orientável se não contem uma faixa de Möebius. Caso contrário
é dita não orientável.
Por exemplo, o plano projetivo e a garrafa de Klein são não orientáveis o toro e as
esferas são orientáveis.
a b
Faixa
a Faixa a
a b
S∼
= S 2 #m T2 .
O número m ≥ 0 é dito genero da superfı́cie. Analogamente, se S é uma superfı́cie
compacta não orientável, é possı́vel provar que:
150 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
S∼
= S 2 #n RP2 .
E o número n ≥ 1 é dito genero da superfı́cie.
b1 b1
a
a1 2
a
2
a1 b1 a−1 −1 −1 −1
1 b1 . . . an bn am bm .
S 1 ∨ S 1 ∨ . . . ∨ S 1,
2m vezes.
De forma completamente análoga ao cálculo do grupo fundamental do toro, conside-
remos dois cı́rculos concêntricos, inscritos no polı́gono, de raios r2 > r1 .
Denotemos por U o complemento do disco de maior raio no polı́gono e V o interior do
disco de raio menor. O aberto U tem o mesmo tipo de homotopia que o buquê P2m ; V
tem o mesmo tipo de homotopia de um ponto e U ∩ V tem o mesmo tipo de homotopia
que S 1 .
Por outro lado, U, V e U ∩ V são conexos por caminhos e S = U ∪ V . Então:
6.10. GRUPO FUNDAMENTAL DE UMA SUPERFÍCIE COMPACTA 151
π1 U, x0 ∼= ao grupo livre gerado por 2m elementos a1 , b1 ,. . . am , bm ∼
= Z ∗ Z∗ ...∗ Z
π1 V, x0 ∼= ao grupo trivial {1}
π1 U ∩ V, x0 ∼= ao grupo cı́clico gerado por z
Z∗Z
r8
∗ ...∗ Z
i1 rrr j1
r rr
rrr
rr i3
Z KKK / π1 S, x0
KKK O
KKK
j2
i2 KKK
K%
{1}
Como antes, i2 (z) = 1 e i1 (z) = a1 b1 a−1 −1 −1 −1 −1 −1
1 b1 a2 b2 a2 b2 . . . am bm am bm . Logo, temos
o seguinte teorema:
π1 S, x0 ∼=< a1 , b1 , . . . am bm / a1 b1 a−1 −1 −1 −1 −1 −1
1 b1 a2 b2 a2 b2 . . . am bm am bm = 1 > .
a1 b1
b2
a1
a
2
a1 a1 b1 b1 . . . an an bn bn .
De forma análoga ao caso orientável, temos:
152 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
π1 S, x0 ∼=< a1 , a2 , . . . an / a1 a1 a2 a2 a3 a3 . . . an an = 1 >
∼
=< a1 , a2 , . . . an / a21 a22 a23 . . . a2n = 1 > .
Por exemplo:
π1 RP2 , x0 ∼=< a, a2 = 1 >∼
= Z2 .
Bibliografia
153