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INTRODUÇÃO À TOPOLOGIA

ALGÉBRICA

Mauricio A. Vilches

Departamento de Análise - IME


UERJ
2

Copyright by Mauricio A. Vilches


Todos os direitos reservados
Proibida a reprodução parcial ou total
3

PREFÁCIO

Um dos problemas básicos da Topologia é saber se dois es-


paços são homeomorfos ou não. Na verdade não existem
métodos gerais para resolver esta questão. Verificar se dois
espaços são homeomorfos consiste em encontrar uma função
contı́nua, bijetiva com inversa contı́nua, entre ambos os es-
paços. Agora provar que dois espaços não são homeomor-
fos é muito mais complicado pois é necessário provar que
não existe nenhuma função contı́nua, bijetiva com inversa
contı́nua, entre ambos os espaços.
A Topologia Algébrica naceu nas últimas décadas do século
XIX, quando no ano de 1894 o eminente matemático francês
Henri Poincaré apresentou uma série de trabalhos onde fun-
damentou a Topologia Algébrica, com o nome de Analisys
Situs. Dentre as descobertas de Poincaré, destacam-se os
conceitos de homotopia e de grupo fundamental, além de
alguns teoremas, muitos dos quais somente foram provados
muitos anos depois (1931), essencialmente por de de Rham.
Poincaré, entendeu que existia uma profunda relação entre
a estrutura topológica de um espaço e seu grupo fundamen-
tal. Ele, entre outras coisas, tentava estabelecer quando duas
superfı́cies são homeomorfas ou não.
A idéia fundamental da Topologia Algébrica é associar, de
forma unı́voca a espaços e propriedades topológicas, estru-
turas e propriedades algébricas. A vantagem deste trata-
mento é a riqueza que possui a Álgebra, obtida através de
milênios, o que não acontece com a Topologia. Por exemplo,
4

nos espaços topológicos, os seus elementos não podem ser


somados, já a soma de grupos é um grupo.
Nestas notas, que são introdutórias, associaremos a espaços
topológicos, funções contı́nuas e homeomorfismos, grupos,
homomorfismos de grupos e isomorfismos de grupos de tal
forma que estudando as propriedades algébricas possamos
extrair consequências sobre a geometria e a topologia do
espaço em questão. Por exemplo, é posı́vel provar que o
toro e a garrafa de Klein não são homeomorfas, pois seus
grupos fundamentais não são isomorfos. Já provar que S 2 e
S 3 não são homemorfas é muito mais difı́cil e com os con-
ceitos estudados nestas notas não será possı́vel provar este
fato.
Nestas notas, exigiremos conhecimentos de Topologia Ge-
ral e o mı́nimo em relação aos conhecimentos de Álgebra.
Devido a isto, deixamos de fora o teorema de Seifert-Van
Kampen, um clássico da Topologia Algébrica, pois envolve
conhecimento de grupos livres e representação de grupos li-
vres.
Desejo agradecer ao meu aluno André T. Machado pela mo-
tivação de fazer estas notas e de forma muito especial a mi-
nha colega professora Maria Luiza Corrêa pela leitura ri-
gorosa dos mauscritos, além dos inúmeros comentários e
observações, os quais permitiram dar clareza aos tópicos es-
tudados.
Mauricio A. Vilches
Rio de Janeiro
Conteúdo

1 HOMOTOPIA 7
1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.2 Propriedades das Homotopias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.3 Homotopia e Campos de Vetores na Esfera . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.4 Homotopia Relativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.5 Tipo de Homotopia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
1.6 Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.7 Espaços Contráteis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.8 Retratos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
1.9 Homotopia e Extensão de Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
1.10 Homotopia de Caminhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
1.11 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30

2 GRUPO FUNDAMENTAL 31
2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
2.2 Mudança do Ponto Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.3 Grupos de Homotopias Abelianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.4 Homomorfismo Induzido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
2.5 Espaços Simplesmente Conexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
2.6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52

3 GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO 53


3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
3.2 Cálculo do Grupo Fundamental do Cı́rculo . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
3.3 Algumas Consequências do Isomorfismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
3.4 Grupo Fundamental do Espaço Projetivo Real . . . . . . . . . . . . . . . 63
3.4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
3.4.2 Cálculo do Grupo Fundamental de RPn . . . . . . . . . . . . . . . 65
3.5 Grupo Fundamental de Grupos Ortogonais . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
3.5.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
3.5.2 Estudo do grupo SO(3) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
3.5.3 Cálculo do Grupo Fundamental de SO(3) . . . . . . . . . . . . . . 69

5
6 CONTEÚDO

4 ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS 73
4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
4.2 Recobrimentos de G-espaços . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
4.3 Generalizações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
4.4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

5 RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL 87


5.1 Critério Geral de Levantamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
5.2 Grupo Fundamental e G-espaços . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
5.3 Transformações de Recobrimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96
5.4 Aplicações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106
5.5 Recobrimentos de Sn , (n > 1) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
5.6 Recobrimentos dos Espaços Lenticulares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
5.7 Recobrimentos do Espaço Projetivo Real . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
5.8 Recobrimentos do Cı́rculo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
5.9 Recobrimentos do Toro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
5.10 Recobrimentos da Faixa de Möebius . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
5.11 Recobrimentos da Garrafa de Klein . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
5.12 Ação do Grupo fundamental sobre as Fibras . . . . . . . . . . . . . . . . 121
5.13 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123

6 TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN 125


6.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
6.2 Grupos Livres . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126
6.3 Produto Livre de Grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 128
6.4 Produto Amalgamado de Grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
6.5 Teorema de Seifert-Van Kampen . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
6.6 Representações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
6.7 Primeiras Aplicações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
6.8 Segunda Aplicação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141
6.9 Soma Conexa de Superfı́cies . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
6.10 Grupo Fundamental de uma Superfı́cie Compacta . . . . . . . . . . . . . 150

Bibliografia 153
Capı́tulo 1

HOMOTOPIA

1.1 Introdução
Nos capı́tulos seguintes, X e Y são espaços topológicos; I = [0, 1] ⊂ R com a topologia
induzida pela topologia usual de R e todas as funções consideradas são contı́nuas.

Definição 1.1. f e g são ditas homotópicas se existe uma função contı́nua:

H : X × I −→ Y tal que
H(x, 0) = f (x),
H(x, 1) = g(x)

para todo x ∈ X.

A função H é dita homotopia entre f e g. A notação que se usa para indicar que f é
homotópica a g é:
H : f ≃ g.
A homotopia entre f e g é uma famı́lia a um parâmetro de funções contı́nuas entre X
e Y , isto é, para cada t ∈ I:
ft : X −→ Y
é contı́nua, onde ft (x) = H(x, t). Intuitivamente, a homotopia ”deforma”continuamente
f em g.

Exemplo 1.1.

[1] Sejam X = {a}, Y = {a, b} com a topologia discreta e f, g : X −→ Y definidas por


f (a) = a e g(a) = b; então f não é homotópica a g.
[2] Sejam f, g : R −→ R2 definidas por f (x) = (x, x2 ) e g(x) = (x, x); logo f ≃ g.
De fato, definamos a seguinte homotopia:

7
8 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

H : R × I −→ R2
H(x, t) = (x, x2 − t x2 + t x).

Claramente, H é contı́nua, H(x, 0) = f (x) e H(x, 1) = g(x) para todo x ∈ R. Logo:

f ≃ g.

Figura 1.1: Homotopia entre f e g

1.2 Propriedades das Homotopias


[1] Sejam f, g : X −→ Y tais que f (x) = y0 e g(x) = y1 para todo x ∈ X; então, não
necessariamente, temos que f ≃ g. De fato, f ≃ g se, e somente se y0 e y1 pertencem à
mesma componente conexa por caminhos.

(⇒) Denotemos H : f ≃ g; então α : I −→ Y definida por α(t) = H(x, t) é um caminho


tal que α(0) = y0 e α(1) = y1 .
(⇐) Seja α : I −→ Y um caminho ligando y0 a y1 ; definamos a seguinte homotopia:

H :X × I −→ Y
(x, t) −→ α(t).

Então H(x, 0) = α(0) = y0 e H(x, 1) = α(1) = y1 ; logo H : f ≃ g.

[2] Consideremos α : I −→ X um caminho; então α ≃ c0 , onde c0 é o caminho cons-


tante, definido por c0 (t) = α(0) para todo t ∈ I. De fato, consideremos:

H :I × I −→ X

(t, s) −→ α (1 − s) t .
1.2. PROPRIEDADES DAS HOMOTOPIAS 9

Logo, H é contı́nua e H(t, 0) = α(t) e H(t, 1) = α(0) = c0 (t).

[3] Se f : Rn −→ X é contı́nua, então f ≃ c0 , onde c0 (x) = f (0) para todo x ∈ Rn . De


fato, consideremos:

H :Rn × I −→ X

(x, t) −→ f (1 − t) x .

Logo, H é contı́nua; H(x, 0) = f (x) e H(x, 1) = f (0) = c0 (x).

[4] Sejam f, g : X −→ Rn contı́nuas; então f ≃ g. De fato, consideremos:

H :X × I −→ Rn
(x, t) −→ (1 − t) f (x) + t g(x).

Logo, H é contı́nua, H(x, 0) = f (x) e H(x, 1) = g(x). Em geral, se E é um espaço


vetorial normado e f, g : X −→ E são contı́nuas, então f ≃ g. De fato, podemos
definir a homotopia:

H :X × I −→ E
(x, t) −→ (1 − t) f (x) + t g(x).

Esta homotopia é dita linear. A propriedade f ≃ g ainda é válida se substituirmos E


por um subconjunto convexo C de E.

[5] (Poincaré -Bohl) Sejam E um espaço vetorial normado e

f, g : X −→ E − {0}

contı́nuas tais que kf (x) − g(x)k < kf (x)k, para todo x ∈ X; então f ≃ g.

De fato, notemos que a origem não pertence ao segmento de reta f (x)g(x); caso contrário,
poderı́amos ter:

kf (x) − g(x)k = kf (x)k + kg(x)k > kf (x)k;


logo, consideramos a homotopia linear H(x, t) = (1 − t) f (x) + t g(x), para todo (x, t) ∈
X × I.

[6] Denotemos por C X, Y o conjunto de todas as funç  ões f : X −→ Y contı́nuas. Ser
homotópica é uma relação de equivalência em C X, Y .
A única propriedade que não é imediata é a transitiva. Sejam H : f ≃ g e K : g ≃ h
as respectivas homotopias; devemos provar que existe Q : f ≃ h. Definamos Q :
X × I −→ Y por:
10 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

(
H(x, 2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
Q(x, t) =
K(x, 2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.

Q é contı́nua, Q(x, 0) = H(x, 0) = f (x) e Q(x, 1) = K(x, 1) = h(x), para todo x ∈ X.


 
[7] Sejam f0 , f1 ∈ C X, Y e g0 , g1 ∈ C Y, Z tais que f0 ≃ f1 e g0 ≃ g1 . Então

g0 ◦ f0 ≃ g1 ◦ f1 ,

isto é, a composição de funções preserva as homotopias.


Novamente, sejam H : f0 ≃ f1 e K : g0 ≃ g1 as respectivas homotopias; então defina-
mos Q : X × I −→ Z por:
Q(x, t) = K(H(x, t), t).

Q é contı́nua e para todo x ∈ X, temos que:



Q(x, 0) = K(H(x, 0), 0) = K(f0 (x), 0) = g0 ◦ f0 (x),

Q(x, 1) = K(H(x, 1), 1) = K(f1 (x), 1) = g1 ◦ f1 (x).

1.3 Homotopia e Campos de Vetores na Esfera


Seja S n = {x ∈ Rn+1 / kxk = 1} a esfera unitária com a topologia induzida pela topolo-
gia usual de Rn+1 . Denotemos por:

a :S n −→ S n
x −→ −x.

A função a é dita antı́poda.

Proposição 1.1. Sejam f, g : S n −→ S n contı́nuas tais que f (x) 6= −g(x), para todo x ∈ S n ;
então f ≃ g.

Consideremos a homotopia:

(1 − t) f (x) + t g(x)
H(x, t) = .
k(1 − t) f (x) + t g(x)k
H é bem definida e contı́nua pois f (x) 6= −g(x), para todo x ∈ S n , o que equivale
ao segmento de reta f (x)g(x) não conter a origem. Por outro lado, H(x, 0) = f (x) e
H(x, 1) = g(x), para todo x ∈ S n .
1.3. HOMOTOPIA E CAMPOS DE VETORES NA ESFERA 11

f(x)

H(x,t)

O n
S

g(x)
-f(x)

Figura 1.2: Homotopia entre f e g

Corolário 1.1. Seja f : S n −→ S n contı́nua:


1. Se f não possui pontos fixos, então f ≃ a.
2. Se f (x) 6= −x, para todo x ∈ S n , então f ≃ idS n .
3. Se n é ı́mpar, então a ≃ idS n .

Prova :
1. De fato, se f não possui pontos fixos, então f (x) 6= x, para todo x ∈ S n ; logo
f (x) 6= −a(x). Pela proposição anterior, temos que f ≃ a
2. f (x) 6= −x, para todo x ∈ S n ; logo f (x) 6= −idS n (x). Pela proposição anterior, temos
que f ≃ idS n
3. Se n = 2 k − 1,então S n ⊂ R2k = Ck ; denotemos por zi = (xi , yi ) ∈ C; logo:

z = (z1 , z2 , . . . , zk ) ∈ S n ⇔ kz1 k2 + kz2 k2 + . . . + kzk k2 = 1.

Por outro lado, sabemos que o grupo S 1 atua sobre S n se n é ı́mpar; isto é, para todo
u ∈ S 1 e todo z ∈ S n temos que u · z = (u z1 , u z2 , . . . , u zk ) ∈ S n . Definamos:

H(z, t) = exp(π i t) · z;
logo, H é contı́nua; H(z, 0) = z e H(z, 1) = −z = a(z).

Corolário 1.2. Se f : X −→ S n é contı́nua e não sobrejetiva, então f ≃ c, onde c é uma


função constante.

Prova : Como f não é sobrejetiva, então existe y ∈ S n tal que f (x) 6= y, para todo
x ∈ X. Seja c : X −→ S n tal que c(x) = −y, para todo x ∈ X; logo f (x) 6= −c(x), isto é,
f ≃ c.
12 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

Definição 1.2. Um campo de vetores contı́nuos tangentes a S n é uma função contı́nua:

ν : S n −→ Rn+1 tal que < ν(x), x >= 0, para todo x ∈ S n ,


onde < , > é o produto interno euclidiano em Rn+1 . Se ν(x0 ) = 0, então x0 é dita singularidade
do campo ν.

ν (x)

n
S

Figura 1.3: Campo tangente a S n

Se n é ı́mpar, então existe um campo de vetores contı́nuo, sem singularidades, tangente


a S n.
De fato: como antes consideremos S n ⊂ R2k e definamos:
ν(x1 , x2 , . . . , xk , y1, y2 , . . . , yk ) = (−y1 , −y2 , . . . , −yk , x1 , x2 , . . . , xk ).
ν é um campo contı́nuo, sem singulariades e tangente a S n .
Se existe um campo de vetores contı́nuo, sem singularidades e tangente a S n , então
a ≃ idS n .
De fato. Seja ν o campo e definamos f : S n −→ S n por:
x + ν(x)
f (x) = .
kx + ν(x)k
f é contı́nua e f (x) 6= x; logo f (x) 6= −a(x) e f ≃ a. Por outro lado, seja
x + t ν(x)
H(x, t) = ,
kx + t ν(x)k
H é bem definida; H(x, 0) = x, H(x, 1) = f (x) e f ≃ idS n . Logo, por transitividade,
a ≃ idS n .

Resumindo: em S n , temos:
i. Se n é ı́mpar, então a ≃ idS n .
ii. Se existe um campo de vetores contı́nuo sem singularidades em S n , então a ≃ idS n .
iii. É possı́vel provar, utilizando conceitos mais avançados, que a ≃ idS n , implica em n
ı́mpar.
1.4. HOMOTOPIA RELATIVA 13

1.4 Homotopia Relativa


Sejam A ⊂ X, f, g : X −→ Y contı́nuas tais que f (a) = g(a), para todo a ∈ A.

Definição 1.3. f é homotópica a g relativamente a A se existe homotopia:

H :X × I −→ Y tal que
H(x, 0) = f (x),
H(x, 1) = g(x),
H(a, t) = f (a) = g(a)

para todo a ∈ A e x ∈ X.

A notação de f ser homotópica a g relativamente a A é:

f ≃A g.

Durante a deformação, o conjunto A permanece invariante. Se A = ∅; então a homoto-


pia relativamente a A é a homotopia definida anteriormente.

Exemplo 1.2.

Sejam f, g : [0, 1] −→ S 2 definidas por:

f (t) = (sen(π t), 0, cos(π t))


g(t) = (0, sen(π t), cos(π t)).

[1] Se A = {1/2} ⊂ I, então f não pode ser homotópica a g, relativamente a A. De fato,


se f ≃A g, necessariamente deverı́amos ter f (1/2) = g(1/2), o que é falso.

[2] Se A = {0, 1} ⊂ I, então f ≃A g. De fato, definamos H : I × I −→ S 2 por:



H(t, s) = cos(s π/2) sen(π t), sen(s π/2) sen(π t), cos(π t) .

Note que kH(t, s)k = 1, para todo (t, s) ∈ I × I e:

H(t, 0) = f (t)
H(t, 1) = g(t)
H(0, s) = f (0) = H(1, s) = g(1).
14 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

Figura 1.4: A homotopia H (f e g em vermelho)

[3] Denotemos por Rn∗ = Rn − {0} e seja:


r :Rn∗ −→ Rn∗
x −→ x/kxk.
Então r ≃S n idRn∗ . De fato, definamos H : Rn∗ × I −→ Rn∗ por:
H(x, t) = (1 − t) x + t r(x).
Logo, H(x, 0) = x, H(x, 1) = r(x). Em particular, para todo x0 ∈ S n , temos:
H(x0 , t) = (1 − t) x0 + t r(x0 )
= (1 − t) x0 + t x0
= x0 .

1.5 Tipo de Homotopia


Neste parágrafo introduziremos um conceito mais fraco que o de homeomorfismo, o
qual nos permitirá diferenciar espaços.

Definição 1.4. Os espaços X e Y tem o mesmo tipo de homotopia ou são homotópicamen-


te equivalentes, se existem
f : X −→ Y e g : Y −→ X,
contı́nuas, tais que:
g ◦ f ≃ idX e f ◦ g ≃ idY .

As funções f e g são ditas inversas homotópicas. Denotaremos os espaços com o


mesmo tipo de homotopia por:
X ≃ Y.
Se X e Y são homeomorfos, então X ≃ Y . A recı́proca é, claramente, falsa. Ser homo-
topicamente equivalente é, claramente, uma relação de equivalência.
1.6. EXEMPLOS 15

1.6 Exemplos
[1] Rn ≃ {0}.
De fato, considere as funções f : Rn −→ {0} tal que f (x) = 0 para todo x ∈ Rn e
g : {0} −→ Rn a inclusão. Por outro lado, seja H : Rn × I −→ Rn definida por:

H(x, t) = t x;

 H(x, 0) = 0 = g ◦ f (x) e H(x, 1) = x = idX (x); então H : g ◦ f ≃ idX .
H é contı́nua;
Como f ◦ g (0) = f (0) = 0 = id{0} (0), f ◦ g = id{0} .

[2] S 1 × R ≃ S 1 × {0} ∼
= S1.
De fato, considere f : S 1 × R −→ S 1 × {0} definida por f (x, t) = (x, 0) e g : S 1 × {0} −→
S 1 ×R a inclusão, isto é g(x, 0) = (x, 0). Por outro lado, seja H : S 1 ×R ×I −→ S 1 ×R
definida por:
H((x, t), s) = (x, t s);
logo, H é contı́nua e:

H((x, t), 0) = (x, 0) = g ◦ f (x, t)
H((x, t), 1) = (x, t) = idS 1 ×R (x, t).

Então H : g ◦ f ≃ idS 1 ×R . Note que f ◦ g (x, 0) = (x, 0) = idS 1 ×R (x, 0); logo, f ◦ g =
idS 1 ×R .

S1 x IR

S1 x {0}

Figura 1.5: Equivalência entre o cilindro S 1 × R e o cı́rculo S 1

[3] S n ≃ Rn+1 − {0}.


De fato, considere as seguintes funções f : Rn+1 − {0} −→ S n e g : S n −→ Rn+1 − {0}
tais que f (x) = x/kxk e g é a inclusão natural. Por outro lado, seja H : S n × I −→ S n
definida por:
H(x, t) = (1 − t) x + t f (x);
16 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

logo, H é contı́nua e:

H(x, 0) = x = idS n (x)



H(x, 1) = g ◦ f (x).

Então, H : g ◦ f ≃ idS n . Note que f ◦ g (x) = f (x) = x = idS n (x); então f ◦ g = idS n .

[4] Sabemos que se pn = (0, 0, . . . , 1) ∈ S n , então S n − {pn } é homeomorfo a Rn , via


projeção estereográfica. Logo, se ps = (0, 0, . . . , −1) ∈ S n , pelo ı́tem anterior:

S n − {pn , ps } ∼
= Rn − {0} ≃ S n−1 .

Logo:
S n − {pn , ps } ≃ S n−1 .
 
[5] Seja M a faixa de Möebius. Lembremos que M = Q ≃ , onde Q = I ×I, I = [0, 1]
e ≃ é a relação de equivalência (0, y) ≃ (1, 1 − y). Denotemos por:

Σ = {[(x, 1/2)] / x ∈ [0, 1]}.

Σ ⊂ M é dito cı́rculo central da faixa. Note que Σ ∼


= S 1 , isto é Σ é homeomorfo a S 1 .

Figura 1.6: Cı́rculo central da faixa

Definamos:

f : M −→ Σ
f ([(x, y)]) = [(x, 1/2)].

f é bem definida, pois:

f ([(1, 1 − y)]) = [(1, 1/2)] = [(1, 1 − 1/2)] = [(0, 1/2)] = f ([(0, y)]).

Seja g : Σ −→ M a inclusão; temos que:

f ◦ g)([(x, 1/2)]) = [(x, 1/2)] = idΣ ([(x, 1/2)]).


1.6. EXEMPLOS 17

Definamos:

H : M × I −→ M
H([(x, y)], t) = [(1 − t) (x, y) + t (x, 1/2)].

1/2

Figura 1.7: Equivalência entre a faixa e o cı́rculo central

H é contı́nua e bem definida. De fato:

H([(0, y)], t) = [(1 − t) (0, y) + t (0, 1/2)]


= [(0, y − t y + t/2)]
= [(1, 1 − y + t y − t/2)]
= [((1 − t) (1, 1 − y) + t (1, 1/2))]
= H([(1, 1 − y)], t).

Por outro lado:

H([(x, y)], 0) = [(x, y)] = idM [(x, y)]



H([(x, y)], 1) = [(x, 1/2)] = g ◦ f [(x, y)] =⇒ g ◦ f ≃ idM .

 
Proposição 1.2. Seja X, Y o conjunto
 dasclasses de′ homotopias
 de funções contı́nuas de X
′ ′ ′
em Y . Se X ≃ X e Y ≃ Y , então # X, Y = # X , Y , onde # indica a cardinalidade do
conjunto.

Prova : Sejam Ψ : X ′ −→ X e Φ : Y −→ Y ′ equivalências homotópicas. Definamos:


   
G : X, Y −→ X ′ , Y ′
   
f −→ Φ ◦ f ◦ Ψ .

Claramente G é uma bijeção.


18 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

1.7 Espaços Contráteis


Definição 1.5. X é contrátil se X tem o mesmo tipo de homotopia que um ponto.

Exemplo 1.3.

[1] Rn e B[x, r] são espaços contráteis.


[2] Em geral, se E é um espaço vetorial normado, os conjuntos convexos de E são
contráteis. Em particular, E é contrátil.
[3] Seja X um espaço topológico e consideremos CX o cone de X. CX é contrátil. Para
detalhes, veja [MV]. Definamos:
H : CX × I −→ CX
([(x, t)], s) −→ [(x, (1 − s) t + s)].

Logo, H([(x, t)], 0) = [(x, t)] = idCX ([(x, t)] e H([(x, t)], 1) = [x, 1], onde [(x, 1)] é o
vértice do cone.

Proposição 1.3. X é contrátil se, e somente se idX ≃ c, onde c : X −→ X é a função constante


c(x) = p, para todo x ∈ X.
Prova : (⇒) Se X ≃ {p}, existem f : X −→ {p} e g : {p} −→ X inversas homotópicas;
então g ◦ f ≃ idX e g ◦ f = c.
(⇐) Se idX ≃ c, então idX e c são inversas homotópicas; logo X ≃ {p}.

Proposição 1.4. Se X é contrátil, então X é conexo por caminhos.


Prova : Fixemos p ∈ X e seja H : idX ≃ c. Para cada x ∈ X definamos:

αx :I −→ X
t −→ H(x, t).
Logo, αx é um caminho contı́nuo que liga x a p.
Proposição 1.5. Se X ou Y é contrátil, então, para toda f : X −→ Y contı́nua, f ≃ c.
Prova : Suponha X contrátil e H : idX ≃ c. Definamos:
K : X × I −→ Y

K(x, t) = f H(x, t) .

Logo, K(x, 0) = f ◦ idX (x) = f (x) e K(x, 1) = f (p) = c(x); então f ≃ c. Por outro
lado, se Y é contrátil e H : idY ≃ c1 , definamos:
K : X × I −→ Y
K(x, t) = H(f (x), t).
Logo, K(x, 0) = f (x) e K(x, 1) = c1 (f (x)); então f ≃ c1 .
1.7. ESPAÇOS CONTRÁTEIS 19

Corolário 1.3.
1. Se X é contrátil e Y é conexo por caminhos, então, para todas f, g : X −→ Y contı́nuas,
temos que f ≃ g.
2. Se Y é contrátil, então, qualquer que seja X e para todas f, g : X −→ Y contı́nuas, temos
que, f ≃ g.
Prova : 1. Seja H : idX ≃ c, definamos:

K(x, t) = f H(x, t) ⇒ K : f ≃ c1

L(x, t) = g H(x, t) ⇒ L : g ≃ c2 ,

onde c1 (x) = f (p) e c2 (x) = g(p), para todo x ∈ X. Como Y é conexo por caminhos,
existe α caminho contı́nuo ligando f (p) e g(p); definamos:

G : Y × I −→ Y
(y, t) −→ α(t).

Logo, c1 ≃ c2 e f ≃ g.
2. A prova é imediata.

Proposição 1.6. Se X é contrátil, então X × Y ≃ Y , para todo Y . Em particular se Y também


é contrátil, então X × Y é contrátil.
Prova : Seja H : idX ≃ c; denotemos por:

pr2 : X × Y −→ Y e ip : Y −→ X × Y,

tal que pr2 (x, y) = y e ip (y) = (p, y). Então, temos que:
 
ip ◦ pr2 (x, y) = ip (y) e pr2 ◦ ip (y) = y = idY (y).

Definamos:

G : X × Y × I −→ X × Y
G((x, y), t) = H(x, t), y).

Logo, G((x, y), 0) = (x, y) = idX×Y (x, y) e G((x, y), 1) = (p, y) = ip ◦ pr2 (x, y); então

idX×Y ≃ ip ◦ pr2 .

Exemplo 1.4.

[1] S 1 × Rn ≃ S 1 × {0} ∼
= S 1 , pois Rn ≃ {0}.
[2] Seja D2 × S 1 , onde D2 é um disco fechado no plano; então D2 × S 1 ≃ S 1 . O espaço
D2 × S 1 é dito toro sólido.
20 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

1.8 Retratos
Definição 1.6. Seja A ⊂ X. A é um retrato de X se existe r : X −→ A contı́nua tal que com
a inclusão i : A −→ X, o seguinte diagrama comuta:
r /A
XO
~~>
i
~
~~~idA
~
A
Isto é, r ◦ i = idA . A função r é dita retração entre X e A.
Exemplo 1.5.

[1] A esfera S n ⊂ Rn+1 é um retrato de Rn+1 − {0}. De fato, podemos definir a seguinte
retração:
r : Rn+1 − {0} −→ S n
x
x −→ .
kxk
[2] Seja M a faixa de Möebius; então Σ, o cı́rculo central é um retrato de M. De fato,
definamos:
r : M −→ Σ
[(x, y)] −→ [(x, 1/2)].
[3] S 1 × {0} é um retrato de S 1 × R. De fato, definamos:
r : S 1 × R −→ S 1 × {0}
((x, y), z) −→ ((x, y), 0).
[4] Se A é um retrato de X, então A = {x ∈ X / r(x) = x}, onde r é a retração. Se X é
de Hausdorff, temos que A é fechado em X.

Definição 1.7. Seja A ⊂ X. A é um retrato por deformação de X, se existe retração


r : X −→ A tal que:
i ◦ r ≃ idX .

Se A é um retrato por deformação de X, então existe homotopia:


H :X × I −→ X
H(x, 0) = x
H(x, 1) ∈ A,
para todo x ∈ X.
Se A é um retrato por deformação de X, então A é um retrato de X.
1.8. RETRATOS 21

Definição 1.8. Seja A ⊂ X. A é um retrato por deformação forte de X, se existe retração


r : X −→ A tal que:
i ◦ r ≃A idX .

Se A é um retrato por deformação forte de X, então existe homotopia:

H :X × I −→ X
H(x, 0) = x
H(x, 1) ∈ A
H(a, t) = a,

para todo a ∈ A e x ∈ X.

Exemplo 1.6.

[1] S n é um retrato por deformação forte de Rn+1 −{0}. Basta utilizar a retração definida
anteriormente e utilizar uma homotopia linear.

[2] Consideremos T o toro, como espaço quociente. Para


 detalhes, veja [MV]. Por
comodidade, suponhamos que T = [−1, 1] × [−1, 1] ≃ , onde:

(1, y) ≃ (−1, y) e (x, −1) ≃ (x, 1).

Denotemos por X = T − {[(0, 0)]}, k(x, y)k = max{|x|, |y|}, para todo (x, y) ∈ R2 .
Seja A = {[(x, y)] ∈ X / k(x, y)k = 1}. Afirmamos que A é um retrato por deformação
forte de X.

T A

Figura 1.8: Os conjuntos T e A

Fica como exercı́cio provar que A é homeomorfo ao conjunto S:


22 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

A A

Figura 1.9: Homeomorfismo entre A e S

Consideremos a retração r : X −→ A, definida por:

(x, y)
r([(x, y)]) = [ ].
k(x, y)k

Definamos a homotopia H : X × I −→ X por:

t (x, y)
H([(x, y)], t) = [(1 − t) (x, y) + ].
k(x, y)k

Figura 1.10: A homotopia H

H é bem definida. De fato:

t (1, y)
H([(1, y)], t) = [(1 − t) (1, y) + ]
k(1, y)k
= [(1 − t) (1, y) + t (1, y)] = [(1, y)]
t (−1, y)
= [(−1, y)] = [(1 − t) (−1, y) + ]
k(−1, y)k
= H([(−1, y)], t).
1.9. HOMOTOPIA E EXTENSÃO DE FUNÇÕES 23

Analogamente, H([(x, −1)], t) = H([(x, 1)], t). Por outro lado:

H([(x, y)], 0) = [(x, y)]


(x, y)
H([(x, y)], 1) = [ ].
k(x, y)k
Se [(x, y)] ∈ A, então H([(x, y)], t) = [(x, y)] para todo t ∈ I.

Corolário 1.4. Se A é um retrato por deformação de X ou um retrato por deformação forte de


X, então A ≃ X.
De fato, existe H : i ◦ r ≃ idX e r ◦ i = idA .

1.9 Homotopia e Extensão de Funções


A extensão de funções é um tema central na Topologia. O problema geral pode ser
enunciado da seguinte forma:
Sejam A ⊂ X um subconjunto fechado e f : A −→ Y contı́nua. É possı́vel achar:

f˜ : X −→ Y

contı́nua tal que f˜ A = f ?


Em outras palavras, se i : A −→ X é a inclusão, podemos obter o diagrama:
f
A /Y
~ ~>
i ~~
~~~ f˜
 ~
X

tal que f˜ ◦ i = f ?
A seguir, estudaremos alguns casos particulares de extensão de funções.
Note que um retrato é uma extensão contı́nua da identidade de A:
idA
A /A
~ ~>
i
~
~~~r̃
 ~
X
Proposição 1.7. A seguintes afirmações são equivalentes:
1. A é um retrato de X.
2. Para todo espaço topológico Z, a função contı́nua f : A −→ Z se estende continuamente a
X.
24 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

Prova : (1) ⇒ (2) Dada a retração r : X −→ A, para f : A −→ Z arbitrária, considere a


extensão f˜ = f ◦ r : X −→ Z
(2) ⇒ (1) Considere o diagrama comutativo:
f
A /Z
~~>
i
~
~~
 ~~ f˜
X
Basta considerar Z = A e f = idA .

Proposição 1.8. Denotemos por B = B[0, 1] ⊂ Rn+1 ; lembremos que ∂B = S n . As seguintes


afirmações são equivalentes:
1. f ≃ c, onde c é uma função constante.
2. f : S n −→ X contı́nua se estende continuamente a B.
Prova : (1) ⇒ (2) Seja F : f ≃ c tal que c(x) = y0 , para todo x ∈ S n . Definamos:
(
˜ = y0 se 0 ≤ kxk ≤ 1/2
f(x) 
F x/kxk, 2 − 2 kxk se 1/2 ≤ kxk ≤ 1.
f˜ é contı́nua (veja [MV]). Se x 6= 0, então x/kxk
 ∈ S n ; se 1/2 ≤ kxk ≤ 1, então
2 − 2 kxk ∈ I; se kxk = 1/2, então F x/kxk, 1 = c(x/kxk) = y0 e se kxk = 1, então
f˜(x) = F (x, 0) = f (x).
(2) ⇒ (1) Considere o seguinte diagrama comutativo:

f
Sn /X
||>
i ||
||
 || f˜
B
Como B é contrátil, existe homotopia H : f˜ ≃ c1 . Definamos a homotopia K, conside-
rando o seguinte diagrama comutativo:
K
Sn × I /X
w;
w
i
ww
wwwH
 ww
B×I

Logo, K : f ≃ c. De fato, K(x, t) = H ◦ i (x, t) e:

 
K(x, 0) = H ◦ i (x, 0) = H(x, 0) = f˜ ◦ i (x) = f (x)
 
K(x, 1) = H ◦ i (x, 1) = H(x, 1) = c1 ◦ i (x) = c(x).
1.10. HOMOTOPIA DE CAMINHOS 25

1.10 Homotopia de Caminhos

Neste parágrafo estudaremos um caso especial de homotopia relativa. Este tipo de


homotopia é fundamental nos próximos capı́tulos.

Definição 1.9. Sejam α, β : I −→ X caminhos contı́nuos tais que α(1) = β(0).

α α(1)=β(0)

α(0)

β(1)

Figura 1.11:

O produto dos caminhos α e β é denotado por α ∗ β e definido por:

(
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ β (t) =
β(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.

Note que α∗β : I −→ X é um caminho contı́nuo tal que α∗β(0) = α(0) e α∗β(1) = β(1).

Intuitivamente, para definir α ∗ β no intervalo I ”dobramos a velocidade” de cada


caminho, isto é, reparametrizamos os caminhos pelos homeomorfismos lineares:

h1 : [0, 1/2] −→[0, 1]


t −→2 t

h2 : [1/2, 1] −→[0, 1]
t −→2 t − 1.
26 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

α∗β

α(1)=β(0)

α(0)

β(1)

0 1/2 1

Figura 1.12: Produto de caminhos

Note que dados α, β, γ : I −→ X caminhos, então:


 
α ∗ β ∗ γ 6= α ∗ β ∗ γ .

Definição 1.10. Os caminhos α e β tais que α(0) = β(0) e α(1) = β(1) são ditos equivalen-
tes se α ≃ β relativamente a {0, 1}.

Denotaremos os caminhos equivalentes por α ≃ β. Então, se α ≃ β existe homotopia:

H :I × I −→ X tal que
H(t, 0) = α(t),
H(t, 1) = β(t),
H(0, s) = α(0) = β(0),
H(1, s) = α(1) = β(1), ∀s, t ∈ I.

α(1)=β(1)
1

H
s

0 t 1

α(0)=β(0)

Figura 1.13: Caminhos equivalentes


1.10. HOMOTOPIA DE CAMINHOS 27

Note que durante a homotopia, os extremos dos caminhos permanecem fixos. Em


particular se α e β são caminhos fechados equivalentes, então existe homotopia H :
I × I −→ X tal que:

H(t, 0) = α(t),
H(t, 1) = β(t),
H(0, s) = H(1, s) = α(0) = β(0) = α(1) = β(1), ∀s, t ∈ I.

x0 β

Figura 1.14: Caminhos fechados equivalentes

Lema 1.1. Sejam α0 , α1 , β0 , β1 : I −→ X caminhos tais que α0 ≃ α1 , β0 ≃ β1 e α0 (1) =


β0 (1); então:
α0 ∗ β0 ≃ α1 ∗ β1 .

β1

α1

β0

α0

Figura 1.15:

Prova : Sejam F : α0 ≃ α1 e G : β0 ≃ β1 as homotopias respectivas; definamos H :


I × I −→ X por:
(
F (2 t, s) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, s) =
G(2 t − 1, s) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
28 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

Claramente H é contı́nua. Por outro lado:


(
F (2 t, 0) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
G(2 t − 1, 0) se 1/2 ≤ t ≤ 1

(
α0 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β0 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

= α0 ∗ β0 (t),

e:
(
F (2 t, 1) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 1) =
G(2 t − 1, 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

(
α1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β1 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.

= α1 ∗ β1 (t).

Por outro lado, H(0, s) = H(1, s) = x0

Definição 1.11. Seja α : I −→ X um caminho ligando x0 e x1 . O caminho inverso de α é


denotado por α−1 e definido por:

α−1 : I −→ X
t −→ α(1 − t).

x1

α−1
x
0

Figura 1.16: α e α−1


1.10. HOMOTOPIA DE CAMINHOS 29

Note que α−1 tem o mesmo percurso que α, mas se inicia em x1 e termina em x0 .
Denotaremos por:

[α] = {β : I −→ X / α(0) = β(0), α(1) = β(1), β ≃ α}.


30 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA

1.11 Exercı́cios
1. Sob que condições a homotopia relativa é uma relação de equivalência?

2. Sejam X espaço topológico, A ⊂ X, Y ⊂ Rn e f, g : X −→ Y contı́nuas. Se para


todo x ∈ X, f (x)g(x) ∈ Y e f A = g A , verifique que f ≃A g.

3. Seja E um espaço vetorial normado. A ⊂ E é dito estrela de vértice p se para todo


X ∈ A o segmento de reta px ∈ A. Verifique que se A é uma estrela de vértice p,
então A ≃ {p}.

4. Verifique que o cı́rculo central Σ é um retrato por deformação forte da faixa de


Möebius M.

5. Sejam f, g : X −→ Y tais que f ≃ g. Verifique que para todo A ⊂ X, temos


f A ≃ g A.

6. Denotemos por:
 
f = {g : X −→ Y, g ≃ f }
   
X, Y = { f / f : X −→ Y }

a classe de homotopia de f e o conjunto das classes de homotopias de funções


contı́nuas de X em Y , respectivamente. Verifique que se C ⊂ E (conjunto con-
vexo contido num espaço vetorial normado), então
 
X, C = [c],

onde c : X −→ C é uma função constante.

7. Sejam x0 , x1 ∈ X. Denotemos por:

Ω(X, x0 , x1 ) = {α : I −→ X / α(0) = x0 , α(1) = x1 }.

Verifique que ≃ é uma relação de equivalência em Ω(X, x0 , x1 ).

8. Sejam f : X −→ Y contı́nua e α, β : I −→ X caminhos tais que α ∗ β esteja


definido. Verifique que f ◦ (α ∗ β) ≃ (f ◦ α) ∗ (f ◦ β).
Capı́tulo 2

GRUPO FUNDAMENTAL

Muitas questões da Topologia são surpreendentemente fáceis de formular, porém muito


difı́ceis de serem contestadas. Por exemplo, a esfera S 3 é homeomorfa a S 1 × S 1 × S 1
ou S 2 é homeomorfa ao toro T? A segunda questão pode ser contestada utilizando
métodos da Topologia Geral, não a primeira.
Neste parágrafo começaremos a relacionar a Topologia com a Álgebra. Construiremos
para cada espaço topológico um grupo, o qual nos permitirá contestar muitas questões
deste tipo.

2.1 Introdução
Fixemos x0 ∈ X e denotemos por:

π1 X, x0 = {[α] / α : I −→ X, α(0) = α(1) = x0 },
isto é, o conjunto das classes
 de homotopias de caminhos fechados em x0 . O ponto x0
é dito base de π1 X, x0 .
  
Dados [α], [β] ∈ π1 X, x0 temos que α ∗ β (0) = α ∗ β (1) = x0 . Logo α ∗ β é um
caminho em X, fechado em x0 ; então [α ∗ β] ∈ π1 X, x0

Definição 2.1. Em π1 X, x0 denotemos e definamos o seguinte produto por:
  
· : π1 X,x0 × π1 X, x0 −→ π1 X, x0
([α], [β]) −→ [α] · [β] = [α ∗ β].

Lema 2.1. Este produto em π1 X, x0 está bem definido.

Prova : Dados [α0 ], [α1 ], [β0 ] e [β1 ] ∈ π1 X, x0 tais que [α0 ] = [α1 ] e [β0 ] = [β1 ], provare-
mos que :
[α0 ] · [β0 ] = [α1 ] · [β1 ];

31
32 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

equivalentemente, [α0 ∗ β0 ] = [α1 ∗ β1 ]; em outras palavras:

α0 ∗ β0 ≃ α1 ∗ β1 .

Primeiramente escrevemos:
(
α0 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α0 ∗ β0 (t) =
β0 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1,
e: (
α1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α1 ∗ β1 (t) =
β1 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
Denotemos por F : α0 ≃ α1 e G : β0 ≃ β1 as respectivas homotopias; definamos:

H : I × I −→ X

por: (
F (2 t, s) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, s) =
G(2 t − 1, s) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
H é contı́nua. Por outro lado:
(
F (2 t, 0) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
G(2 t − 1, 0) se 1/2 ≤ t ≤ 1
(
α0 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β0 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α0 ∗ β0 (t),

(
F (2 t, 1) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 1) =
G(2 t − 1, 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
(
α1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β1 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α1 ∗ β1 (t).

e H(0, s) = H(1, s) = x0 .

Teorema 2.1. π1 X, x0 , com o produto definido por (2.1) é um grupo, isto é, satisfaz às se-
guintes propiedades:

1. Associatividade : Para todo [α], [β], [γ] ∈ π1 X, x0 temos que:
 
[α] · [β] · [γ] = [α] · [β] · [γ] .
2.1. INTRODUÇÃO 33

2. Elemento neutro : Existe [e] ∈ π1 X, x0 tal que:

[e] · [α] = [α] · [e] = [α],



para todo [α] ∈ π1 X, x0 .
 
3. Elemento inverso : Dado [α] ∈ π1 X, x0 , existe [α]−1 ∈ π1 X, x0 tal que:

[α] · [α]−1 = [α]−1 · [α] = [e].

Prova : Associatividade Provaremos a associatividadedo produto com o máximo de


detalhes. Provaremos que [α] · [β] · [γ] = [α] · [β] · [γ] , isto é:
 
α∗β ∗γ ≃α∗ β∗γ .


Primeiramente escrevamos α ∗ β ∗ γ(t) :
(
 α ∗ β(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ β ∗ γ(t) =
γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1


α(4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
= β(4 t − 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2


γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.

0 α 1/4 β 1/2 γ 1


Figura 2.1: α ∗ β ∗ γ esquematicamente


Analogamente, escrevamos α ∗ β ∗ γ (t):

(
 α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ β ∗ γ (t) =
β ∗ γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1


α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
= β(4 t − 2) se 1/2 ≤ t ≤ 3/4


γ(4 t − 3) se 3/4 ≤ t ≤ 1.

0 α 1/2 β 3/4 γ 1


Figura 2.2: α ∗ β ∗ γ esquematicamente
34 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
 
Para determinar a homotopia entre α ∗ β ∗ γ e α ∗ β ∗ γ , juntaremos os esquemas
anteriores:
α 1/2 β 3/4 γ
1

t
0 α 1/4 β 1/2 γ 1
 
Figura 2.3: Homotopia entre α ∗ β ∗ γ e α ∗ β ∗ γ

Notemos que:
i) Para s = 0, temos α(t) com t ∈ [0, 1/4], β(t) com t ∈ [1/4, 1/2] e γ(t) com t ∈ [1/2, 1].
ii) Para s = 1, temos α(t) com t ∈ [0, 1/2], β(t) com t ∈ [1/2, 3/4] e γ(t) com t ∈ [3/4, 1].

Determinemos os segmentos de reta que ligam os pontos (1/4, 0) a (1/2, 1) e (1/2, 0) a


(3/4, 1):
i) t = (s + 1)/4 é o segmento de reta que liga (1/4, 0) a (1/2, 1).
ii) t = (s + 2)/4 é o segmento de reta que liga (1/2, 0) a (3/4, 1). Então, para s arbitrário,
devemos ter:
α(t) com t ∈ [0, (s + 1)/4]
β(t) com t ∈ [(s + 1)/4, (s + 2)/4]
γ(t) com t ∈ [(s + 2)/4, 1].
Consideremos os seguintes homeomorfismos:
h1 : [0, (s + 1)/4] −→ [0, 1],
h2 : [(s + 1)/4, (s + 2)/4] −→ [0, 1],
h3 : [(s + 2)/4, 1] −→ [0, 1]
definidos por h1 (t) = 4 t/(s + 1), h2 (t) = 4 t − s − 1 e h3 (t) = (s − 4 t + 2)/(s − 2),
respectivamente. Finalmente, definamos a homotopia H : I × I −→ X por:


α(h1 (t)) se 0 ≤ t ≤ (s + 1)/4
H(t, s) = β(h2 (t)) se (s + 1)/4 ≤ t ≤ (s + 2)/4


γ(h3 (t)) se (s + 2)/4 ≤ t ≤ 1.
2.1. INTRODUÇÃO 35

H é contı́nua, e:


α(4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
H(t, 0) = β(4 t − 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2


γ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

= α ∗ β ∗ γ(t),



α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 1) = β(4 t − 2) se 1/2 ≤ t ≤ 3/4


γ(4 t − 3) se 3/4 ≤ t ≤ 1

= α ∗ β ∗ γ (t),
 
H(0, s) = H(1, s) = x0 ; logo α ∗ β ∗ γ ≃ α ∗ β ∗ γ , isto é:
 
[α] · [β] · [γ] = [α] · [β] · [γ] .

Elemento neutro : Seja ex0 : I −→ X tal que ex0 (x) = x0 . Afirmamos que:

[ex0 ] · [α] = [α] · [ex0 ] = [α],



para todo [α] ∈ π1 X, x0 .
Provaremos que [α] · [ex0 ] = [α], isto é α ∗ ex0 ≃ α. De forma análoga à associatividade:
(
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ ex0 (t) =
x0 se 1/2 ≤ t ≤ 1

Consideramos o seguinte diagrama:


α
1

t
0 α 1/2 ex 1
0

Figura 2.4: Homotopia entre ex0 ∗ α e α


36 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

Como antes:
i) O segmento de reta que liga os pontos (1/2, 0) a (1, 1) é t = (s + 1)/2.
ii) Consideramos o homeomorfismo:

h : [0, (s + 1)/2] −→ [0, 1]


2t
t −→ .
s+1
Definamos a homotopia H : I × I −→ X por:
(
α(h(t)) se 0 ≤ t ≤ (s + 1)/2
H(t, s) =
x0 se (s + 1)/2 ≤ t ≤ 1.

H é contı́nua, e:
(
α(2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
x0 se 1/2 ≤ t ≤ 1
= α ∗ ex0 (t),

(
α(t) se 0 ≤ t ≤ 1
H(t, 1) =
x0 se t = 1
= α(t),

H(0, s) = H(1, s) = x0 ; logo α ∗ ex0 ≃ α e:

[α] · [ex0 ] = [α].

A prova de que [ex0 ] · [α] = [α] é análoga.



Elemento inverso : Dado [α] ∈ π1 X, x0 , consideramos o caminho inverso de α defi-
nido por α−1 (t) = α(1 − t); então [α−1 ] ∈ π1 X, x0 . Provaremos que

[α−1 ] · [α] = [ex0 ],

isto é, α−1 ∗ α ≃ ex0 . Logo, [α]−1 = [α−1 ].


Novamente:
(
−1 α−1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
α ∗ α(t) =
α(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

Consideramos:
2.1. INTRODUÇÃO 37

ex
1 0

t
0 α−1 1/2 α 1

Figura 2.5: Homotopia entre α−1 ∗ α e ex0

Como antes:
i) O segmento de reta que liga os pontos (1/2, 0) a (0, 1) é t = (1 − s)/2 e o segmento de
reta que liga os pontos (1, 0) a (0, 1) é t = 1 − s.
ii) Consideramos os homeomorfismos:

h1 : [0, (1 − s)/2] −→ [0, 1]


2t
t −→ ,
1−s

h2 : [(1 − s)/2, 1 − s] −→ [0, 1]


2t − 1 + s
t −→ .
1−s

2t 2t − 1 + s
h1 (t) =
e h2 (t) = .
1−s 1−s
Definamos a homotopia H : I × I −→ X por:

 −1
α (h1 (t)) se 0 ≤ t ≤ (1 − s)/2
H(t, s) = α(h2 (t)) se (1 − s)/2 ≤ t ≤ 1 − s


x0 se 1 − s ≤ t ≤ 1.

H é contı́nua, e: (
α−1 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
H(t, 0) =
α(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.
H(t, 1) = x0 , H(0, s) = H(1, s) = x0 , logo:

[α−1 ] · [α] = [ex0 ].


38 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

A prova de que [α] · [α−1 ] = [e], é análoga.



π1 X, x0 é dito grupo fundamental de X, ou grupo de Poincaré de X, ou primeiro
grupo de homotopia de X.

Exemplo 2.1.

[1] Sabemos que em Rn , todos os caminhos são homotópicos; basta considerar homoto-
pias lineares. Em particular, todos os caminhos fechados são homotópicos ao caminho
constante c(x) = x0 , para todo x ∈ Rn ; logo:

π1 Rn , x0 = {[ex0 ]} ∼
= {0}.
Em geral, se C ⊂ Rn é convexo, então para todo p0 ∈ C temos que:

π1 C, p0 ∼= {0}.
[2] Seja Q com a topologia induzida pela usual de R. Os únicos caminhos fechados em
x0 ∈ Q são os caminhos constantes; logo:

π1 Q, x0 = {[ex0 ]} ∼
= {0}.

Em geral, o cálculo do grupo fundamental de espaços topológicos é bastante difı́cil.


Os parágrafos seguintes tem o objetivo de apresentar propriedades dos grupos funda-
mentais a fim de obter exemplos não triviais.

2.2 Mudança do Ponto Base


Uma questão natural que surge da definição de grupo fundamental é a seguinte:
 
Dados x0 , x1 ∈ X que relação existe entre π1 X, x0 e π1 X, x1 ?

A resposta a esta questão é dada pelo teorema 2.2:

Teorema 2.2. Se existe um caminho entre x0 e x1 , então:


 
π1 X, x0 ≃ π1 X, x1 ,
 
isto é, os grupos π1 X, x0 e π1 X, x1 são isomorfos.

Prova : Seja ξ : I −→ X um caminho tal que ξ(0) = x0 e ξ(1) = x1 . Definamos:

 
Φξ : π1 X, x1 −→ π1 X, x0
[γ] −→ [ξ ∗ γ ∗ ξ −1 ].
2.2. MUDANÇA DO PONTO BASE 39

Φξ é um isomorfismo não canônico de grupos, isto é, depende da classe de homotopia


de ξ.

x
x0 1

Figura 2.6: Definição de Φξ


Para todo [γ], [η] ∈ π1 X, x1 , temos:
 
Φξ [γ] · [η] = Φξ [γ ∗ η]
= [ξ ∗ (γ ∗ η) ∗ ξ −1 ]
= [(ξ ∗ γ ∗ ξ −1 ) ∗ (ξ ∗ η ∗ ξ −1)]
= [ξ ∗ γ ∗ ξ −1 ] · [ξ ∗ η ∗ ξ −1 ]
 
= Φξ [γ] · Φξ [η] .

Não é difı́cil ver que Φ−1
ξ = Φξ −1 . De fato, para todo [α] ∈ π1 X, x0 :


Φ−1
ξ [α] = [ξ −1 ∗ α ∗ ξ].

Por outro lado, para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
 
Φξ ◦ Φ−1
ξ ([α]) = Φξ [ξ −1 ∗ α ∗ ξ]
= [ξ ∗ ξ −1 ∗ α ∗ ξ ∗ ξ −1 ]
= [ex0 ∗ α ∗ ex0 ]
= [α].

Analogamente, Φ−1
ξ ◦ Φξ = idπ1 (X,x1 ) .

Exemplo 2.1.

Seja X = R ∪ S 1 (união disjunta). Se x0 ∈ [a, b], então π1 X, x0 = {0}. Por outro lado,
se x1 ∈ S 1 , mostraremos
  óximo capı́tulo que π1 X, x1 é um grupo não trivial.
no pr
Portanto, π1 X, x0 e π1 X, x1 não podem ser isomorfos.
40 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

Corolário 2.1. Se X é conexo por caminhos, então:


 
π1 X, x0 ≃ π1 X, x1 ,

quaisquer que sejam os pontos básicos x0 , x1 ∈ X.


Definição 2.2. Seja G, · um grupo. O centro de G e é denotado por Z(G) e definido por:

Z(G) = {a ∈ G / a · b = b · a, para todo b ∈ G},

isto é, o conjunto dos elementos de G que comutam. Não é difı́cil verificar que o centro de um
grupo é um subgrupo.

Proposição 2.1. Sejam ξ e ψ caminhos ligando x0 e x1 . Então Φξ = Φψ se, e somente se



[ψ ∗ ξ −1 ] ∈ Z π1 X, x0 .

x1
ξ

x0

Figura 2.7:

Prova : (⇐) Para todo [γ] ∈ π1 X, x1 , temos:

Φξ [γ] = [ξ ∗ γ ∗ ξ −1] = [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ∗ ψ ∗ ξ −1 ]
= [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ] · [ψ ∗ ξ −1 ]
= [ψ ∗ ξ −1 ] · [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ]
= [ψ ∗ ξ −1 ∗ ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ]
= [ψ ∗ γ ∗ ψ −1 ]

= Φψ [γ] ,

pois [ξ ∗ γ ∗ ψ −1 ] ∈ π1 X, x0 .
(⇒) Sejam ξ e ψ caminos ligando x0 e x1 ; então Φξ = Φψ se, e somente se
2.3. GRUPOS DE HOMOTOPIAS ABELIANOS 41

Φ−1 −1
ξ = Φψ se, e somente se Φξ −1 = Φψ−1 . Logo, para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
 
Φξ−1 [α] = Φψ−1 [α] ⇐⇒ [ξ −1 ∗ α ∗ ξ] = [ψ −1 ∗ α ∗ ψ];

equivalentemente:

ξ −1 ∗ α ∗ ξ ∼ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ⇐⇒ ξ −1 ∗ α ∗ ξ ∗ ξ −1 ≃ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ∗ ξ −1
ξ −1 ∗ α ≃ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ∗ ξ −1 ⇐⇒ ψ ∗ ξ −1 ∗ α ≃ ψ ∗ ψ −1 ∗ α ∗ ψ ∗ ξ −1
ψ ∗ ξ −1 ∗ α ≃ α ∗ ψ ∗ ξ −1 ⇐⇒ [ψ ∗ ξ −1 ∗ α] = [α ∗ ψ ∗ ξ −1 ]

Logo, [ψ ∗ ξ −1 ] · [α] = [α] · [ψ ∗ ξ −1 ]; então [ψ ∗ ξ −1 ] ∈ Z π1 X, x0 .


Corolário 2.2. π1 X, x0 é abeliano se, e somente se Φξ não depende de ξ.

Prova : (⇒) Sejam ξ e η caminhos ligando x0 e x1 ; então:


 
[η ∗ ξ −1 ] ∈ Z π1 X, x0 = π1 X, x0 .

Logo Φξ = Φη , isto é Φξ não depende de ξ.



(⇐) Sejam [α] ∈ π1 X, x0 e ξ um caminho ligando x0 e x1 ; então α ∗ ξ é um caminho
ligando x0 e x1 ; pela proposição anterior:
 
[ α ∗ ξ ∗ ξ −1] ∈ Z π1 X, x0
   
Como [α] = [ α ∗ ξ ∗ ξ −1 ] ∈ Z π1 X, x0 temos que π1 X, x0 ⊂ Z π1 X, x0 , isto é:
 
π1 X, x0 = Z π1 X, x0 .

Em geral, os grupos de homotopias não são abelianos. O grupo fundamental de um


espaço depende apenas da componente conexa por caminhos do ponto x0 . Logo, é
natural estudar o grupo fundamental só para espaços conexos por caminhos.

2.3 Grupos de Homotopias Abelianos


A seguir, apresentamos uma classe especial de espaços topológicos que possuem grupo
fundamental abeliano. Em particular, os grupos fundamentais são todos isomorfos.

Definição 2.3. O grupo G é dito topológico se também é um espaço topológico tal que a operação
do grupo e a aplicação:

ν :G −→ G
a −→ a−1

são contı́nuas.
42 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

Exemplo 2.2.

[1] Rn com a topologia e a multiplicação usual é um grupo topológico.


[2] Seja S 1 ⊂ C com a topologia induzida pela topologia usual de C. Então S 1 com a
multiplicação de números complexos é um grupo topológico.
[3] Analogamente, o toro S 1 × S 1 é um grupo topológico.
[4] Os grupos de matrizes com o produto de matrizes são grupos topológicos.
Como veremos a seguir, a estrutura algébrica no espaço topológico G se reflete forte-
mente em seu grupo fundamental.
Utilizando a operação contı́nua do grupo topológico, isto é:

 : G × G −→ G
(a, b) −→ a  b,

definimos um novo produto em π1 G, e , onde e é a identidade de G.
Dados α, β : I −→ G caminhos tais que α(0) = α(1) = β(0) = β(1) = e, denotamos e
definimos este novo produto por:

α  β(t) = α(t)  β(t), (2.1)

para todo t ∈ I. Note que α  β(0) = α(0)  β(0) = e  e = e = α  β(1).



Podemos definir através de (2.1) um novo produto em π1 G, e :
  
π1 G, e ×π1 G, e −→ π1 G, e
([α], [β]) −→ [α  β].

Utilizamos a seguinte notação:


[α] [β] = [α  β].

Como antes, denotemos o caminho constante por ce (t) = e, para todo t ∈ I.

Lema 2.2. Sejam α1 , α2 , β1 , β2 : I −→ G:

1. Se α1 ≃ α2 e β1 ≃ β2 , então:
α1  β1 ≃ α2  β2 .

2. Em particular, se α1 , α2 , β1 , β2 são caminhos fechados, com ponto base e, então


   
α1 ∗ β1  α2 ∗ β2 = α1  α2 ∗ β1  β2 .
2.3. GRUPOS DE HOMOTOPIAS ABELIANOS 43

Prova :
1. Sejam F : α1 ≃ α2 e G : β1 ≃ β2 as respectivas homotopias. Definamos H(t, s) =
F (t, s)  G(t, s); então H : α1  β1 ≃ α2  β2 .
2. Utilizamos as definições de cada produto:
 
α1 ∗ β1  α2 ∗ β2 (t) = α1 ∗ β1 (t)  α2 ∗ β2 (t)
(
α1 (2 t)  α2 (2 t) se 0 ≤ t ≤ 1/2
=
β1 (2 t − 1)  β2 (2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1
 
= α1  α2 ∗ β1  β2 (t).

Observações 2.1.
1. Fazendo α2 = β1 = ce , na segunda parte do lema, temos:

α1  β2 ≃ (α1 ∗ ce )  (ce ∗ β2 ) = (α1  ce ) ∗ (ce  β2 ) ≃ α1 ∗ β2 .


Logo,
[α1  β2 ] = [α1 ∗ β2 ], (2.2)

isto é, ambos os produtos em π1 G, e coincidem.
2. Fazendo α1 = β2 = ce , na segunda parte do lema, temos:
β1  α2 ≃ (ce ∗ β1 )  (α2 ∗ ce ) = (ce  α2 ) ∗ (β1  ce ) ≃ α2 ∗ β1 .
Logo,
[β1  α2 ] = [α2 ∗ β1 ]. (2.3)

Teorema 2.3. Se G é um grupo topológico, então π1 G, e é um grupo abeliano. Além disso,
os produtos definidos em π1 G, e coincidem.

Prova : Segue de (5.3) e (2.3). De fato, de (5.3), para todo [α], [β] ∈ π1 G, e , temos que
[α] [β] = [α] · [β]. De (2.3), temos:
[α] · [β] = [α] [β] = [α  β] = [β ∗ α] = [β] · [α].

Exemplo 2.3.

[1] Considere S 1 como grupo topológico e e = (1, 0); então π1 S 1 , e é um grupo abeli-
ano.

[2] Considere S 1 ×S 1 como grupo topológico; então π1 S 1 ×S 1 , e é um grupo abeliano.

[3] π1 O(n), I é um grupo abeliano.
Observe que não utilizamos todas as propriedades do grupo topológico. Isto nos indica
que é possı́vel enfraquecer a hipótese da estrutura de grupo. Essencialmente utiliza-
mos a identidade, sendo a operação do grupo contı́nua.
44 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

2.4 Homomorfismo Induzido


Seja f : X −→ Y contı́nua. Nos capı́tulos anteriores provamos os seguintes fatos:

1. Se α e β são caminhos em X, então f ◦ α e f ◦ β são caminhos em Y .

2. Se α ≃ β, então f ◦ α ≃ f ◦ β.

3. f ◦ (α ∗ β) ≃ (f ◦ α) ∗ (f ◦ β).
 
4. Se [α] ∈ π1 X, x0 , então [f ◦ α] ∈ π1 Y, f (x0 ) .

Lema 2.3. Se f : X −→ Y é contı́nua, então


 
f∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, f (x0 )
[α] −→ [f ◦ α],

é um homomorfismo de grupos.

Prova : Sejam [α] e [β] ∈ π1 X, x0 , então
 
f∗ [α] · [β] = f∗ [α ∗ β]

= [f ◦ α ∗ β ]

= [f ◦ α ∗ f ◦ β

= [f ◦ α] · [f ◦ β
 
= f∗ [α] · f∗ [β] .

O homomorfismo f∗ é dito induzido por f .

Proposição 2.2. Se f : X −→ Y e g : Y −→ Z são contı́nuas, então:



g ◦ f ∗ = g∗ ◦ f∗ .

Em particular, idX induz idπ1 (X,x0 ) .

A prova é imediata.

Corolário 2.3. Se f : X −→ Y é um homeomorfismo, então


 
f∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, f (x0 )

é um isomorfismo.
2.4. HOMOMORFISMO INDUZIDO 45

Exemplo 2.4.

[1] Utilizando a projeção estereográfica; S n − {p} ∼


= Rn , temos:
 
π1 S n − {p}, p0 ∼ = π1 Rn , x0 ∼= q{0}.
[2] R2∗ ∼
= S 1 × R. Então:
 
π1 R2∗ , (x0 , y0 ) ∼= π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) .
[3] Sabemos que RP1 ∼
= S 1 e CP1 ∼
= S 2 ; então: :
 
π1 RP1 , [p] ∼ = π1 S 1 , z0
 
π1 CP1 , [q] ∼ = π1 S 2 , w0 .

Corolário 2.4. Seja r : X −→ A uma retração e i : A −→ X a inclusão; então:

1. r∗ é um homomorfismo sobrejetivo. Em particular, pelo teorema do isomorfismo:


 
π1 X, x0 /Ker(r∗ ) ≃ π1 A, x0 ,
onde Ker(r∗ ) é o núcleo do homomorfismo r∗ .

2. i∗ é um homomorfismo
 injetivo. Em particular, se π1 X, x0 é finitamente gerado, então
π1 A, x0 é finitamente gerado.

Prova : Ambas seguem diretamente do fato que:


i r
A −→ X −→ A,
é tal que r ◦ i = idA e
r i
X −→ A −→ X,
é tal que i ◦ r = idX .

Lema 2.4. Sejam X e Y conexos por caminhos f, g : X −→ Y funções contı́nuas, tais que
f ≃ g e os homomorfismos induzidos:
   
f∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, y0 g∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, y1 ,
onde y0 = f (x0 ) e y1 = g(x0 ). Então, existe ξ um caminho ligando y0 a y1 tal que Φ−1
ξ ◦f∗ = g∗ .
Isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
 f∗ 
π1 X, x0 / π1 Y, y0
MMM
MMM
M Φ−1
ξ
g∗ MMM
&  
π1 Y, y1
46 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

Prova : Observe que não é evidente que as homotopias preservem os pontos bases dos
grupos.
Por hipótese existe homotopia F : f ≃ g; logo, necessariamente, durante a homotopia,
deve existir um caminho que liga y0 a y1 , isto é, existe ξ(t) = F (x0 , t). Devemos provar
que para todo [α] ∈ π1 X, x0 :
   
Φ−1
ξ ◦ f∗ [α] = g ∗ [α] ⇔ [ξ −1
∗ f ◦ α ∗ ξ] = [g ◦ α].

Logo, devemos provar que ξ −1 ∗ f ◦ α ∗ ξ ≃ g ◦ α relativamente a {0, 1}. Como antes:

 −1
ξ (4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
−1

ξ ∗ f ◦ α ∗ ξ(t) = (f ◦ α)(4 t − 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2


ξ(2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1


ξ(1 − 4 t) = F (x0 , 1 − 4 t) se 0 ≤ t ≤ 1/4
= F (α(4 t − 1), 0) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2


F (x0 , 2 t − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

Note que (g ◦ α)(t) = F (α(t), 1); por outro lado, g ◦ α ≃ ey1 ∗ (g ◦ α) ∗ ey1 e


F (x0 , 1) se 0 ≤ t ≤ 1/4
ey1 ∗ (g ◦ α) ∗ ey1 (t) = F (α(4 t − 1), 1) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2


F (x0 , 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

Definamos a homotopia H : ξ −1 ∗ f ◦ α ∗ ξ ≃ g ◦ α, por:


F (x0 , 1 − 4 t + 4 t s) se 0 ≤ t ≤ 1/4
H(t, s) = F (α(4 t − 1), s) se 1/4 ≤ t ≤ 1/2


F (x0 , 2 (t + s − t s) − 1) se 1/2 ≤ t ≤ 1

Logo, H(t, 0) = ξ −1 ∗ f ◦ α ∗ ξ(t), H(t, 1) = g ◦ α(t) e H(0, s) = H(1, s) = y1 .

Teorema 2.4. Sejam X e Y espaços conexos por caminhos. Se f : X −→ Y é uma equivalência


homotópica, então:  
f∗ : π1 X, x0 −→ π1 Y, f (x0 )
é um isomorfismo de grupos.
Prova : Sejam f : X −→ Y e g : Y −→ X inversas homotópicas; então g ◦ f ≃ idX ; pelo
lema 2.4, existe ξ tal que: 
Φ−1
ξ ◦ g ◦ f ∗ = idπ1 (X,x0 ) .

Logo, g ◦ f ∗ é, necessariamente, isomorfismo; então g∗ é sobrejetiva e f∗ é injetiva.
Por um argumento análogo, de f ◦ g ≃ idY , obtemos que g∗ é injetiva e f∗ é sobrejetiva.
2.4. HOMOMORFISMO INDUZIDO 47

Corolário 2.5. Se X é contrátil, então



π1 X, x0 ≃ {0}.

Corolário 2.6. Se A ⊂ X é um retrato por deformação ou um retrato por deformação forte,


então a retração induz um isomorfismo:
 
r∗ : π1 X, x0 ∼= π1 A, x0 .

Em geral, como veremos mais adiante, as propriedades de f não são herdadas por f∗ .
Por exemplo, se f é injetiva, não necessariamente f∗ é injetiva.
 
Se π1 X, x0 ≃ π1 Y, f (x0 ) , isto não implica que exista um homeomorfismo entre X e
Y.

Exemplo 2.5.

[1] S 1 × {0} é um retrato por deformação de S 1 × R. Então:


  
π1 S 1 × R, (z0 , 0) ≃ π1 S 1 × {0}, (z0 , 0) ≃ π1 S 1 , z0

[2] O cı́rculo central Σ é um retrato por deformação da faixa de Möebius M. Então:


  
π1 M, x0 ≃ π1 Σ, x0 ≃ π1 S 1 , z0 .
 
Isto mostra que embora π1 M, x0 e π1 S 1 , z0 sejam isomorfos, M e S 1 não são home-
omorfos (por que?).

Proposição 2.3. Sejam x0 ∈ X, y0 ∈ Y e X × Y com a topologia produto. Então


  
π1 X × Y, (x0 , y0 ) ≃ π1 X, x0 × π1 Y, y0 ,
 
onde π1 X, x0 × π1 Y, y0 é o produto direto de grupos.
Prova : Denotemos por p : X × Y −→ X e q : X × Y −→ Y as projeções naturais.
Definamos:

  
Ψ : π1 X × Y, (x0 , y0) −→ π1 X, x0 × π1 Y, y0

[α] −→ p∗ ([α]), q∗ ([α]) .
 
i) Ψ está bem definida, isto é, se [α] = [β] devemos provar que Ψ [α] = Ψ [β] .
Se [α] = [β], existe F : α ≃ β homotopia correspondente.
Consideremos H1 (t, s) = (p ◦ F )(t, s) e H2 (t, s) = (q ◦ F )(t, s); então:
 
H1 (t, 0) = p α(t) , H1 (t, 1) = p β(t)
 
H2 (t, 0) = q α(t) , H2 (t, 1) = q β(t) .
48 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
 
Logo, Ψ [α] = Ψ [β] .
ii) Ψ é um homomorfismo, pois p∗ e q∗ são homomorfismos.
  
iii) Ψ é sobrejetiva. De fato, para todo [δ1 ], [δ2 ] ∈ π1 X, x0 × π1 Y, y0 , consideremos
α(t) = (δ1 (t), δ2 (t)); então [α] ∈ π1 X × Y, (x0 , y0 ) é tal que:
  
Ψ [α] = p∗ ([α]), q∗ ([α]) = [δ1 ], [δ2 ] .

iv) Ψ é injetiva. Seja [α] ∈ π1 X × Y, (x0 , y0 ) ; então α(t) = (α1 (t), α2 (t)) é tal que
α1 (0) = α1 (1) = x0 e α2 (0) = α2 (1) = y0

Ψ [α] = ([cx0 ], [cy0 ]) ⇔ [p ◦ α] = [cx0 ] e [q ◦ α] = [cy0 ],
isto é, existem F : p ◦ α ≃ cx0 e G : q ◦ α ≃ cy0 . Definamos:
H(t, s) = (F (t, s), G(t, s)), logo :
H(t, 0) = (F (t, 0), G(t, 0)) = ((p ◦ α)(t), (q ◦ α)(t)) = (α1 (t), α2 (t))
H(t, 1) = (F (t, 1), G(t, 1)) = (x0 , y0)
Então, [α] = [c(x0 ,y0 ) ]; logo Ker(Ψ) = [c(x0 ,y0 ) ] e Ψ é injetiva.
Exemplo 2.6.
 
[1] Sabemos que π1 R2∗ , (x0 , y0 ) ≃ π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) ; logo:
   
π1 R2∗ , (x0 , y0 ) ∼= π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 R, t0


= π1 S 1 , z0 .
Em geral, Rn − {p} ∼ = S n−1 × R; logo:
  
π1 Rn − {p}, p0 ∼ = π1 S n−1 × R, (w0 , p0 ) ∼ = π1 S n−1 , w0 .
[2] Considere o toro T = S 1 × S 1 ; então:
  
π1 T, (z0 , z0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 S 1 , z0 .
[3] Considere o toro sólido S 1 × B; então:
   
π1 S 1 × B, (z0 , p0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 B, p0 ∼= π1 S 1 , z0 .

2.5 Espaços Simplesmente Conexos


Definição 2.4. X é simplesmente conexo se é conexo por caminhos e

π1 X, x0 = {0}, ∀x0 ∈ X.
Proposição 2.4. X é simplesmente conexo se, e somente se para todos α, β : I −→ X tais que
α(0) = β(0) e α(1) = β(1), tem-se α ≃ β.

Prova : Sejam α e β caminhos ligando x0 a x1 ∈ X; então [α ∗ β −1 ] ∈ π1 X, x0 . Se X é
simplesmente conexo, então α ∗ β −1 ∼ ex0 ; logo α ∗ β −1 ∗ β ∼ ex0 ∗ β; logo α ≃ β.
A recı́proca é imediata.
2.5. ESPAÇOS SIMPLESMENTE CONEXOS 49

Exemplo 2.7.

[1] Se X é contrátil, então é simplesmente conexo. Veremos mais adiante que a recı́proca
é falsa.
[2] Se X e Y são simplesmente conexos, então X × Y é simplesmente conexo.

Lema 2.5. Seja X um espaço topológico tal que X = U ∪ V , onde U e V são subespaços abertos
simplesmentes conexos e U ∩ V é conexo por caminhos. Então X é simplesmentes conexo.

Prova : Seja [α] ∈ π1 X, x0 tal que x0 ∈ U ∩ V . Como α é contı́nua, temos que o
conjunto  
{α−1 U , α−1 V } é uma cobertura do compacto I. Logo, existe (por que?) uma
partição de I:
0 = t0 < t1 < . . . < tn−1 < tn = 1
 
tal que α [ti−1 , ti ] ⊂ U ou α [ti−1 , ti ] ⊂ V . Se dois intervalos consecutivos [ti−1 , ti ] e
[ti , ti+1 ] são tais que α [ti−1 , ti e α [ti , ti+1 ] pertencem ambos a U ou V , eliminamos o
ponto comum ti ; logo, podemos considerar α(ti ) ∈ U ∩ V . Por outro lado, como U ∩ V
é conexo por caminhos, podemos ligar x0 a α(ti ) por um caminho ηi :
Para cada i, definamos:

αi (s) = α((ti − ti−1 ) s + ti−1 ), 0 ≤ s ≤ 1.

Logo, αi (0) = α(ti−1 ) e αi (1) = α(ti ); como α ≃ α1 ∗ α2 ∗ · · · ∗ αn , então:

α ≃ (α1 ∗ η1−1 ) ∗ (η1 ∗ α2 ∗ η2−1 ) ∗ (η2 ∗ α3 ∗ η3−1 ) ∗ . . . ∗ (ηn ∗ αn ).

Veja o seguinte desenho:

α(t1 ) α2
α (t2)
α1

η1

α (ti-1 )
η2
x0

αi

α (ti )
η
i

Figura 2.8:
50 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

−1
Note que cada ηi ∗ αi+1 ∗ ηi+1 ⊂ U ou a V ; como U e V são simplesmente conexos, temos
que para cada i
−1
ηi ∗ αi+1 ∗ ηi+1 ≃ ci ; então α ≃ cx0 .

Logo π1 X, x0 = {0}.
É possı́vel enfraquecer as hipóteses do lema. Por exemplo, se X = A ∪ B tal que A ∩ B
seja conexo por caminhos, sem necessariamente A ou B serem abertos em X. Basta
considerar U e V abertos tais que A ⊂ U, B ⊂ V , U ∩ V conexo por caminhos e as
inclusões: A −→ U e B −→ V que são equivalências homotópicas.

Corolário 2.7. π1 S n , p = {0} para todo n ≥ 2.

Prova : Não é difı́cil ver que:


Sn ∼
= S−n ∪ S+n ,
onde S+n = S n − {pN } ∼ = Rn e S−n = S n − {pS } ∼
= Rn ; ambos os conjuntos são abertos
e contráteis; logo, são abertos e simplesmente conexos. Por outro lado, sabemos que
S−n ∩ S+n ≃ S n−1 , logo é conexo por caminhos. Pelo lema, temos que S n é simplesmente
conexo, para todo n ≥ 2. Veja [MV].
Provaremos nos próximos parágrafos que S 1 não é simplesmente conexo. Por outro
lado, segue do teorema de Stokes que S n não é contrátil.

Exemplo 2.8.

[1] Rn∗ = Rn − {0} é simplesmente conexo se n > 2. De fato, Rn∗ ≃ S n−1 .


[2] Sejam S m e S n ⊂ Rn+1 esferas tais que S n ∩ S m = {p}, com n ≥ m ≥ 2.
Consideremos X = S n ∪ S m ; então

π1 X, x0 = {0}.

a
b

m
Sn S
Figura 2.9: X = S n ∪ S m
2.5. ESPAÇOS SIMPLESMENTE CONEXOS 51

Sejam a ∈ S n , b ∈ S m tais que a, b 6= p; U = X − {a} e V = X − {b}, claramente

S m ≃ U, Sn ≃ V

e U ∩ V é conexo por caminhos; então X é simplesmente conexo.


[3] Para m − 2 ≥ n, temos os seguintes homeomorfismos:

Rm − Rn ∼= Rm−n − {0} × Rn ∼= S m−n−1 × Rn ;

por outro lado, sabemos que S m−n−1 × Rn ≃ S m−n−1 . Logo:


  
π1 Rm − Rn , (z0 , w0 ) ∼= π1 S m−n−1 × Rn , (x0 , y0 ) ∼= π1 S m−n−1 , x0 = {0},

se m − 2 > n.
Notamos que existem exemplos em que a reunião de espaços simplesmente conexos
não é necessariamente simplesmente conexo, mesmo que tenham um ponto comum.
(Verifique!).
52 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL

2.6 Exercı́cios
t−a
1. Prove que h : [a, b] −→ [0, 1] definido por h(t) = é um homeomorfismo.
b−a

2. Complete todos os detalhes da prova do teorema anterior.


 
3. Se consideramos X, x0 , x1 o conjunto das classes de caminhos que ligam x0 a
x1 , (x0 6= x1 ), coma mesma operação definida anteriormente para π1 X, x0 , o
conjunto X, x0 , x1 é um grupo? Justifique sua resposta.

4. Seja
Ω(X, x0 ) = {α : I −→ X / α(0) = α(1) = x0 }.
Verifique que:  
π1 X, x0 = Ω(X, x0 ) ≃ ,
onde ∼ é a homotopia de caminhos.

5. Um espaço topológico X é dito espaço de Hopf ou H-espaço se existem função


contı́nua (multiplicação):
m : X × X −→ X,
e x0 ∈ X tais que m(x0 , x0 ) = x0 , q1 ◦ i ≃{x0 } idX e m ◦ q2 ≃{x0 } idX , onde

q1 , q2 : X −→ X × X

são definidas por q1 (x) = (x, x0 ) e q2 (x) = (x0 , x). Com as notações anteriores,
seja X um H-espaço. Verifique que:

(a) m((q1 ◦ α) ∗ (q2 ◦ β)) ≃ α ∗ β, onde α e β são caminhos fechados em x0 .



(b) π1 X, x0 é abeliano.
Capı́tulo 3

GRUPO FUNDAMENTAL DO
CÍRCULO

Este capı́tulo é crucial para obter novos exemplos de grupo fundamental e estudar, em
particular, as técnicas gerais
 que apressentaremos nos próximos capı́tulos.
1
Para calcular π1 S , x0 estudaremos uma série de conceitos novos que serão natural-
mente estendidos a espaços topológicos em geral.

3.1 Introdução
Seja x0 = (1, 0) ∈ S 1 ⊂ C, fixado. Todo caminho em S 1 fechado em x0 , arbitrário tem
que dar um múltiplo inteiro de ”voltas” ao redor de S 1 .
Provaremos que essencialmente, existe somente uma única classe de caminhos fecha-
dos não homotópicos a uma constante em S 1 .
A idéia básica deste capı́tulo é comparar caminhos de S 1 com caminhos de R via o
homeomorfismo local exp. (Veja [MV]):
Para visualizar geometricamente a aplicação exp, consideramos H uma hélice em R3 :

Figura 3.1:

53
54 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

Parametrizada por:

γ : R −→ R3
t −→ (cos(2 π t), sen(2 π t), t);

temos que H é homeomorfo a R .


O homeomorfismo local exp pode ser pensado como a restrição da projeção de p :
R3 −→ R2 , onde p(x, y, z) = (x, y) para todo (x, y, z) ∈ H.
Por outro lado, temos que exp−1 {(1, 0)} = Z e que se n for positivo o caminho ”sobe”
ao longo da hélice; analogamente se n é negativo o caminho ”desce” ao longo da hélice.

exp : R −→ S 1
t −→ exp(t) = e2πit .

IR

exp

S1

Figura 3.2:

Provaremos que para todo α : I −→ S 1 caminho fechado em x0 , existe um único


caminho αe : I −→ R que liga a origem com n, logo α e(t) = n t, tal que α = exp ◦ α
e. Em
e que torna o seguinte diagrama comutativo:
outras palavras, existe um único α

R
?
e 
α exp

 
I α
/ S1

e é dito levantamento do caminho α com ponto inicial em α


O caminho α e(0).
3.1. INTRODUÇÃO 55

Fixando uma orientação em S 1 , se o caminho fechado em x0 percorre n vezes S 1 no


sentido positivo (em relação à base canônica de R2 ), diremos que o número de voltas
do caminho é n; caso contrário que é −n. Este número inteiro é dito o grau do caminho
α. Definamos:

gr : π1 S 1 , x0 −→ Z
[α] −→ α
e(1) = n,

onde α = exp ◦ α
e. Provaremos que gr é um isomorfismo de grupos. A prova segue dos
seguintes teoremas:

Lema 3.1. Sejam U ⊂ S 1 − {x0 } aberto e V = [0, 1] ∩ exp−1 (U) ⊂ R. Então:

1.  [
exp−1 U = {v + n; v ∈ V },
n∈Z

onde a união dos abertos V + n := {v + n; v ∈ V } é disjunta.

2. Para cada n ∈ Z, V + n é homeomorfo a U via a função exp.

Prova :
1. Sem perda de generalidade podemos supor que o aberto de S 1 é da forma:

U = {exp(2πit); t ∈ (a, b) ⊂ [0, 1]}.

Logo, V = [0, 1] ∩ exp −1 (U) = (a, b); então V + n = (a + n, b + n) para todo n ∈ Z.


Claramente, exp−1 U é a união disjunta dos abertos V + n.
2. Denotando por en = exp V +n temos que en é contı́nua e bijetiva. Verificaremos
a continuidade de (en )−1 : U ⊂ S 1 −→ (V + n) ⊂ R. Seja W ⊂ V + n fechado.
Como V+n é limitado então W é compacto; por outro lado S 1 é de Hausdorff; logo
en : W −→ en (W ) ⊂ U é um homeomorfismo; então en (W ) é compacto e, em particular,
fechado.

Corolário 3.1. Se X é um espaço topológico, então toda função f : X → S 1 não sobrejetiva é


homotopicamente nula.

Prova : Suponha que x ∈ / Im(f ). Então S 1 − {x} é homeomorfo a (0, 1). Por outro lado
o intervalo (0, 1) é contrátil; logo,f é homotopicamente nula.
A seguir apresentamos o primeiro resultado crucial deste capı́tulo: o chamado Teo-
rema de Levantamento dos Caminhos. Este teorema é bastante geral. Neste parágrafo
apresentamos apenas a prova para exp : R −→ S 1 .
56 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

Teorema 3.1. Toda função contı́nua f : I −→ S 1 possui um levantamento F . Fixado t0 ∈ R


com exp(t0 ) = f (0), o levantamento F tal que F (0) = t0 é único.

?R
F 
 exp

 
I / S1
f

Prova : Para cada x ∈ S 1 , seja Ux uma vizinhança de x. Pelo lema anterior exp−1 (Ux )
é uma reunião disjunta de abertos (homeomorfos à Ux via a exp). Como f é contı́nua,
então:
{f −1 (Ux ); x ∈ S 1 } = {(xj , yj ) ∩ [0, 1]; j ∈ J}
é uma cobertura aberta para I. Pela compacidade de I, existe uma subcobertura finita:
[0, t1 + e1 ), (t2 − e2 , t2 + e2 ), · · · · · · , (tn − en , 1]
com ti + ei ti+1 −ei+1 para i = 0, ..., n−1. Escolhemos ai ∈ (ti+1 −ei+1 , ti+1 + ei+1 ) para
i = 1, · · · , n − 1 tais que {0 = a0 , a1 , · · · , an = 1} é uma partição de I. Seja Si ⊂ S 1
conjunto aberto tal que f ([ai , ai+1 ]) ⊆ Si , i = 0, · · · , n. Definiremos (indutivamente)
levantamentos Fk sobre [0, ak ] da seguinte forma:

α(
~
ak)
IR
W

exp

Sk

I f([ak , ak+1]) S1
ak a k+1 f

Figura 3.3:

1. Para k = 0, seja F0 = t0 .
2. Suponha que Fk : [0, ak ] −→ R é definida e única (com Fk (0) = t0 ).
3. Aplicando o lema anterior, temos que exp−1 (Wk ) é uma união disjunta de aber-
tos tal que (exp|Wj ) é um homeomorfismo para cada j ∈ J (Wk é um aberto tal que
3.2. CÁLCULO DO GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO 57

f ([ak , ak+1 ]) ⊆ Wk ). Fk (ak ) ∈ W para algum W ∈ {Wj ; j ∈ J}. Note que W é único.
Qualquer extensão Fk+1 leva [ak , ak+1] em W ([ak , ak+1 ] é conexo por caminhos e Fk+1
é contı́nua). Como (exp|W ) : W −→ Sk é homeomorfismo, existe uma única função
ρ : [ak , ak+1 ] −→ W tal que exp|W ◦ ρ = f |[ak ,ak+1 ] , onde ρ = (exp|W )−1 . Definimos:
(
Fk (s) se 0 ≤ s ≤ ak
Fk+1 (s) =
ρ(s) se ak ≤ s ≤ ak+1 .

Fk+1 é contı́nua (Fk (ak ) = ρ(ak )) e única por construção. Indutivamente obtemos F .

3.2 Cálculo do Grupo Fundamental do Cı́rculo


Usando o teorema, podemos definir a função grau de um caminho fechado α em S 1 .
Seja α um caminho fechado tal que x0 ∈ S 1 é fixado e α e : I −→ R seu único le-
vantamento tal que α e(0) = 0. Como exp−1 (α(1)) = exp−1 (1) = Z (denotamos por
1 = (0, 1) ∈ S 1 ), vemos que α
e(1) é um inteiro; logo, definimos:

e(1).
gr(α) = α

Mostraremos que caminhos (homotopicamente) equivalentes possuem o mesmo grau.


Inicialmente mostraremos que seus respectivos levantamentos são (homotopicamente)
equivalentes. Para isto, trocaremos [0, 1] por [0, 1] × [0, 1] no teorema anterior.

Lema 3.2. (Levantamento das Homotopias)


Toda função contı́nua H : [0, 1] × [0, 1] −→ S 1 possui um levantamento:
e : [0, 1] × [0, 1] −→ R.
H

Dado x0 ∈ R com exp(x0 ) = H(0, 0), existe um único levantamento de H tal que H(0, 0) =
x0 .
x< R
e xxx
H x exp
xx
xx 
I ×I H
/ S1

A prova é análoga à do lema anterior. Sabendo que I 2 é compacto, definimos induti-


vamente levantamentos Fi,j sobre retângulos.
Como corolário do lema anterior, temos o seguinte teorema de monodromia para a
aplicação:
exp : R −→ S 1 ,
dizendo que caminhos homotópicos tem o mesmo grau.
58 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

Corolário 3.2. Se α0 e α1 são caminhos homotópicos em S 1 fixados em x0 , e α


e0 e α
e1 são seus
e0 (1) = α
levantamentos respectivos com α0 (0) = α1 (0), então α e1 (1). Logo:

gr(α0 ) = gr(α1).

Prova : Considere uma homotopia F : α0 ≃ α1 . Então, existe um único levantamento


G : I 2 −→ R com G(0, 0) = α0 (0) = α1 (0). Analogamente, existem levantamentos α e0
para α0 e α e1 para α1 . Como F (t, 0) = α0 (t), temos G(t, 0) = α e0 (t) e G(t, 1) = α
e1 (t).
F (1, t) = α0 (1) = α1 (1); então G(1, t) é um caminho entre α e0 (1) e α
e1 (1). Mas, G(1, t) ∈
exp−1 (α0 (1)) ∼
= Z. Portanto G(1, t) é constante e e
α 0 (1) = e
α1 (1).
Estamos agora em condições de calcular o grupo fundamental do cı́rculo.
Teorema 3.2. Seja x0 = (1, 0); então, temos um isomorfismo de grupos:
  
π1 S 1 , x0 , · ∼
= Z, + .

Em outras palavras, π1 S 1 , x0 é um grupo cı́clico infinito gerado por [α], onde o caminho
α : I −→ S 1 é tal que α(t) = exp(t).
Prova : Definimos a aplicação:

gr : π1 S 1 ,x0 −→ Z
[α] −→ α
e(1)

e é o único levantamento de α.
onde α
1. Pelo corolário anterior, gr é bem definida.
2. A função gr éum homomorfismo de grupos. Devemos provar que, para todo
[α], [β] ∈ π1 S 1 , x0 , temos que

gr([α] · [β]) = gr([α]) + gr([β]).

Por outro lado, [α] · [β] = [α ∗ β]. Consideremos γ : [0, 1] −→ R definida por:
(
e(2 t)
α se 0 ≤ t ≤ 1/2
γ(t) =
e
β(2 t − 1) + α
e(1) se 1/2 ≤ t ≤ 1.

O caminho γ é bem definido em t = 1/2. Como α e(1) é um inteiro, temos que exp ◦γ =
α ∗ β e, portanto, pela unicidade do levantamento γ = α] ∗ β. Então:

gr([α] · [β]) = gr([α ∗ β]) = γ(1) = α e = gr([α]) + gr([β]).


e(1) + β(1)

3. A função gr é injetiva, isto é, se gr([α] = gr([β]), então α e


e(1) = β(1), e(0) =
como α
e
β(0) = 0. Consideremos a homotopia:

H(t, s) = exp((1 − s) α e
e(t) + s β(t)).
3.3. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DO ISOMORFISMO 59

H(t, 0) = α e
e(t) e H(t, 1) = β(t). Logo, [α] = [β].
4. A função gr é sobrejetiva. Dado n ∈ Z, seja µ : [0, 1] −→ R definida por µ(t) = n t;
então, exp ◦µ : [0, 1] −→ S 1 e exp ◦µ(0) = exp ◦µ(1) = x0 . Logo, µ é um levantamento
de exp ◦µ tal que µ(0) = 0; então:

gr([exp ◦ µ]) = µ(1) = n.

Isto completa a prova do resultado principal.

3.3 Algumas Consequências do Isomorfismo


[1] A esfera S n , (n > 1) não é homeomorfa a S 1 . De fato, se fossem homeomorfas:
 
{0} = π1 S n , p0 ∼= π1 S 1 , x0 ∼= Z,

o que é absurdo.

[2] Seja o cilindro C = S 1 × R; então:


  
π1 C, (x0 , z0 ) ∼= π1 S 1 , x0 × π1 R, z0 ∼= Z.

 S × {0} é um retrato por deformação de S × R.


1 1
Dos capı́tulos anteriores sabemos que
Um gerador do grupo π1 C, (x0 , z0 ) é a classe de homotopia do cı́rculo central α(t) =
(exp(t), 0). Um caminho fechado em C é homotópico a n vezes o gerador α, quando
n é o número de vezes que o caminho fechado intersecta transversalmente a geratriz
(1, 0) × R.

S1 x IR

S1
α


Figura 3.4: Gerador de π1 C, (x0 , z0 )

Em geral, 
π1 S 1 × Rn , p0 ∼= Z.
60 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

[3] Considere o toro T2 = S 1 × S 1 ; então:


  
π1 T2 , (z0 , z0 ) ∼= π1 S 1 , z0 × π1 S 1 , z0 ∼= Z × Z.

O gerador do grupo π1 T2 , (z0 , z0 ) pode ser entendido da seguinte forma: considere o
paralelo α e o meridiano β:

Figura 3.5: Meridiano e paralelo do toro

Todo caminho fechado γ é homotópico a p α + q β, onde p é o número de vezes que o


caminho fechado intersecta transversalmente o paralelo α e q é o número de vezes que
o caminho fechado intersecta tranversalmente o meridiano β com o seguinte cuidado:
fixando uma direção, contamos positivamente as passagens para um lado e negativa-
mente para o outro.

π1 T2 , (z0 , z0 ) ) −→ Z × Z
[γ] −→ (p, q)

Figura 3.6: γ é homotópico a p α + q β

[4] Considere o toro sólido S 1 × B; então:


 
π1 S 1 × B, (z0 , p0 ) ∼= π1 S 1 , z0 ∼= Z.
3.3. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DO ISOMORFISMO 61

[5] O cı́rculo central Σ é um retrato por deformação da faixa de Möebius M. Então:


  
π1 M, x0 ≃ π1 Σ, x0 ≃ π1 S 1 , z0 ≃ Z.

[6] A esfera S n , (n > 1) não é homeomorfa a Tn = S 1 × S 1 × . . . × S 1 , (n-vezes). De fato,


se fossem homeomorfas, terı́amos que:
   
π1 S n , z0 ∼= π1 Tn , y0 ∼= π1 S 1 , x0 × · · · × π1 S 1 , x0 .

Isto é:
= Z× ...× Z ∼
{0} ∼ = Zn ,
o que é absurdo.

[7] Pelo mesmo argumento anterior, S n não é homeomorfa a S n−1 × S 1 .

Corolário 3.3. (Teorema Fundamental da Álgebra) Todo polinômio não constante com
coeficientes em C possui uma raiz em C.

Prova : Sem perda de generalidade podemos supor que o polinômio tem a forma:

p(z) = z n + a1 z n−1 + · · · + an .

Se p(z) não possui raı́zes, para cada número real r ≥ 0, definimos:

p(r exp(t)) kp(r)k


fr (t) = .
kp(r exp(t))k p(r)

onde 0 ≤ t ≤ 1, fr (t) define um caminho fechado em S 1 com ponto base x0 . Seja


(
fs/1−s (t) se 0 ≤ t ≤ 1, 0 ≤ s < 1
H(t, s) =
exp(nt) se 0 ≤ t ≤ 1, s = 1.

Note que:
lim H(s, t) = lim fs/1−s (t) = lim fr (t) = (exp(t))n .
s→1 s→1 r→+∞

Logo, H é contı́nua. Por outro lado H(t, 0) = f0 (t) = x0 que é o caminho constante em
x0 e
H(t, 1) = exp(nt), isto é H : f0 ∼ f1 , então

0 = gr([f0 ]) = gr([f1 ]) = n

o que é uma contradição.

Corolário 3.4. (Teorema do ponto fixo de Brouwer para n=2) Seja D ⊂ C tal que ∂D =
S 1 . Toda função contı́nua h : D −→ D possui um ponto fixo, isto é, existe x ∈ D tal que
h(x) = x.
62 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

Prova : Suponhamos que h(x) 6= x para todo x ∈ D. Definamos

r : D −→ S 1

do seguinte modo: r(x) ∈ S 1 é obtido da interseção de S 1 com a semi-reta de origem


em x e que passa por h(x).

r(x)

h(x)

1
S

O
x

Figura 3.7: Definição da função r = r(x)

A continuidade de r é clara, pois pequenas pertubações de x produzem pequenas


pertubações de h(x) e portanto pequenas pertubações da reta que liga estes pontos.
Note que se x ∈ S 1 , então r(x) = x; logo, se consideramos i : S 1 −→ D a inclusão,
temos que r é um retrato, pois r ◦ i = idS 1 . Logo:

r∗ : {0} ∼
= π1 S 1 , x0 ≃ Z

o que é uma contradição, pois D é contrátil.


Utilizando Geometria Analı́tica elementar, podemos dar uma definição explı́cita da
função r = r(x).
De fato, denotemos por v1 = h(x), z = r(x) e v = (x − v1 )/kx − v1 k; logo

r(v) = z = v1 + t v,

para algum t ≥ 0 tal que v1 + t v ∈ S 1 , isto é (v1 + t v) · (v1 + t v) = 1, que é equivalente


a:
(x · x) t2 + 2 t (v1 · x) + v1 · v1 = 1.

Denotemos por tx a raiz positiva desta equação; então:

x − v1
r(x) = h(x) + tx .
kx − v1 k
3.4. GRUPO FUNDAMENTAL DO ESPAÇO PROJETIVO REAL 63

3.4 Grupo Fundamental do Espaço Projetivo Real


3.4.1 Introdução
Nesta seção determinaremos o grupo fundamental do espaço projetivo real. Para isto,
utilizaremos diversas propriedades dos espaços projetivos reais já estudadas em [MV].
Repetiremos as provas de alguns teoremas gerais, que serão apresentadas nos capı́tulos
seguintes. Notamos que estas provas serão idênticas às vistas neste capı́tulo.
Seja RPn o espaço projetivo real de dimensão n. De [MV] sabemos que a projeção:

Π : S n −→ RPn
é aberta e que para todo U ⊂ S n aberto, temos:
 
Π−1 Π U = U ∪ − U .

Por outro lado, Π : S n −→ RPn é um homeomorfismo local.


e ⊂ S n vizinhança de x que não contem
De fato. Seja p ∈ RPn ; então p = {x, −x}. Seja U
 
nenhum ponto antı́poda de seus pontos, isto é, U e ∩ −U e = ∅. Logo, Π U e = U é uma
vizinhança de p, tal que:
 
Π−1 U = U e ∪ −U e

eΠ e
U
é um homeomorfismo sobre U.

Observações 3.1.

1. A vizinhança U do lema anterior, também é chamada vizinhança distinguida do


ponto p ∈ RPn .
2. Como no caso de S 1 , mostraremos que Π : S n −→ RPn também tem a propriedade
do levantamento dos caminhos.

Proposição 3.1. Sejam α : I = [t0 , t1 ] −→ RPn e x0 ∈ S n tal que Π(x0 ) = α(t0 ). Existe um
e : I −→ S n tal que α
único caminho α e(t0 ) = x0 e α = Π ◦ α
e, isto é, temos o seguinte diagrama
comutativo:
n
=S {
e {{{
α
Π
{{ 
{{
I α
/ RPn

Prova : Observemos que proposição é válida se:


1. α(I) ⊂ U e U ⊂ RPn é uma vizinhança distinguida do ponto {x0 , −x0 }, tal que:
 
e ∪ −U
Π−1 U = U e .
64 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

e e denotemos por π = Π e . Logo, π : U


De fato, suponha que x0 ∈ U e −→ U é um
U
homeomorfismo. Consideremos α e definida por α
e : I −→ U e = π −1 ◦ α.
2. O intervalo I = I1 ∪ I2 (i = 1, 2), onde Ii são intervalos fechados com um extremo
comum t2 e tais que a proposição seja válida para α I1 = α1 e α I2 = α2 .
De fato, aplicando a proposição a cada intervalo, obtemos α f1 : I1 −→ S n tal que
f1 (t0 ) = x0 e π ◦ α
α f2 : I1 −→ S n tal que f
f1 = α1 e, a seguir, α f1 (t2 ) e π ◦ α
α2 (t2 ) = α f2 = α2 .
n
Logo, definimos α e : I −→ S por:
(
αf1 (t) se t ∈ I1
αe(t) =
αf2 (t) se t ∈ I2 .

O caso geral, segue dos casos 1. e 2. De fato, como I é compacto, então podemos
decompor I numa reunião finita de subintervalos compactos justapostos, isto é I =
I1 ∪ I2 ∪ . . . ∪ Ik tais que α(Ii ) ⊂ Ui , para cada i, onde Ui é uma vizinhança distinguida.
A unicidade de α segue do fato de que se supomos que existem α e, βe : I −→ S n tais que
Π◦α e então para todo t ∈ I devemos ter α
e = Π ◦ β, e ou α
e(t) = β(t) e
e(t) = −β(t); utilizando
o produto interno de R , temos < α
n+1 e
e(t), β(t) >= ±1, para todo t ∈ I; por outro lado,
como I é conexo, o produto interno anterior deve ser constante. Logo, se α e
e(t0 ) = β(t),
e para todo t ∈ I.
e(t) = β(t)
então α
Note que o levantamento de um caminho fechado em S n nem sempre é um caminho
fechado em RPn , pois cada caminho em S n possui dois levantamentos; além disso, um
deles é fechado se, e somente se ambos são fechados. De fato, se α e : I −→ S n é tal que
α =Π◦α e e se α
e é fechado, o caminho fechado α possui um levantamento fechado. Se
os extremos do caminho α e são antipodais, α é um caminho fechado em RPn que possui
levantamento não fechado.

Proposição 3.2. Seja n ≥ 2; fixando x0 ∈ S n e p0 = Π(x0 ) ∈ RPn e considerando α, β :


I −→ RPn caminhos fechados de base p0 , denotemos por α e, βe : I −→ S n os correspondentes
levantamentos com origem em x0 . Com as notações anteriores, temos que α e
e(1) = β(1) se, e
somente se α ≃ β.

Prova : Se α e, βe : I −→ S n são tais que α e


e(1) = β(1), como S n é simplesmente conexo,
temos α ≃ β.
Se α = Π ◦ α e ≃ Π ◦ β,e como α e
e(0) = β(0) = x0 , α e
e(1) = ±x0 e β(1) = ±x0 . Por
hipótese α e
e(1) = β(1) se, e somente se |e e
α(1) − β(1)| =
6 2, onde | | é a norma induzida
n
em RP pela norma de R . Em particular, se kα(t) − β(t)k =
n+1
6 2, para todo t ∈ I,
isto é α(t) e β(t) nunca são antipodais, então |e e
α(t) − β(t)| =6 2, para todo t ∈ I; como
e
e(0) = β(0), não podemos ter |e
α e
α(1) − β(1)| = 2. Em geral, considere a homotopia
H : α ≃ β; pela continuidade uniforme de H, existem 0 = t0 < t1 < . . . < tn = 1 tais
que |H(s, ti−1 ) − H(s, ti )| < 2, para todo s ∈ I e i = 1, . . . n. Definamos os caminhos
3.4. GRUPO FUNDAMENTAL DO ESPAÇO PROJETIVO REAL 65

fechados em p0 : αi (s) = H(s, ti ); os pontos αi (s) e αi+1 (s) não podem ser antipodais,
logo αei (1) = αg
i+1 (1). Então,

f0 (1) = α
α f1 (1) = . . . · · · = α e
fn (1) = β(1).

3.4.2 Cálculo do Grupo Fundamental de RPn


Sabemos que RP1 ≃ S 1 , então: 
π1 RP1 , p0 ∼= Z.
Para n ≥ 2, existem apenas duas classes de homotopias de caminhos fechados em
RPn , com ponto base p0 . A classe dos caminhos cujo levantamento é fechado e os que
possuem o levantamento aberto. Logo:

Teorema 3.3. Para n ≥ 2: 


π1 RPn , p0 ≃ Z2 .


Geradores do grupo π1 RPn , p0 .
Seja αe(s) = (cos(s π), sen(s π), 0, . . . , 0) um caminho em S n , logo αe(0) = e1 e α
e(π) =
−e1 . O caminho fechado α em RPn não  é homotópico a uma constante. Note que
n
α · α = 2 α = 0. Logo, [α] gera π1 RP , p0 .

Corolário 3.5. (Teorema de Borsuk-Ulam para n=2)


Não existe função f : S 2 −→ S 1 contı́nua tal que f (−x) = −f (x), para todo x ∈ S 2 .

Prova : Se tal função existe, então f (±x) = ±f (x), para todo x ∈ S 2 . Então, f induz no
quociente f˜ : RP2 −→ RP1 tal que o seguinte diagrama comuta:
f
S 2 −−−→ S1
 

Π1 y
Π
y 2

RP2 −−−→ RP1 ≃ S 1

Isto é, f˜ ◦ Π1 = Π2 ◦ f . Por outro lado sabemos que:


 
π1 RP1 , p0 = π1 S 1 , p0 ∼=Z

e 
π1 RP2 , p0 ∼= Z2 .
Logo, f˜∗ : Z2 −→ Z deve ser um homorfismo trivial, pensados como grupos aditivos.
Seja α um caminho em S 2 que liga o polo norte ao polo sul de S 2 ao longo de meridiano
66 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

de comprimento fixo; então [Π1 ◦ α] é um gerador de π1 RP2 , p0 ∼ = Z2 . Como o polo
norte e o polo sul são pontos antipodais deS , estes pontos, são identificados em RP1 ;
2

logo [Π2 ◦ f ◦ α] é não trivial em π1 RP1 , p0 . Por outro lado:

[(Π2 ◦ f ) ◦ α] = [(f˜ ◦ Π1 ) ◦ α] = f˜∗ ([Π1 ◦ α]) = 0,

o que é uma contradição.

Aplicações do Teorema de Borsuk-Ulam


[1] Se f : S 2 −→ R2 contı́nua é tal que f (−x) = −f (x), para todo x ∈ S 2 , então
f (z0 ) = (0, 0), para algum z0 ∈ S 2 .
De fato, suponha que f (z) 6= (0, 0) para todo z ∈ S 2 . Então, podemos definir:
f (z)
h(z) =
kf (z)k
e obtemos h : S 2 −→ S 1 contı́nua tal que h(−x) = −h(x), o que contradiz o teorema de
Borsuk-Ulam.
[2] Se f : S 2 −→ R2 é contı́nua, então existe z ∈ S 2 tal que f (z) = f (−z).
De fato, suponha que f (z) 6= f (−z) para todo z ∈ S 2 . Então, podemos definir:

h(z) = f (z) − f (−z),

contı́nua tal que h(−z) = −h(z) e h 6= 0, o que contradiz o teorema de Borsuk-Ulam.


Em paricular, não existe subconjunto de R2 que seja homeomorfo a S 2 .

3.5 Grupo Fundamental de Grupos Ortogonais


3.5.1 Introdução
Estudaremos somente os grupos ortogonais especiais SO(n), n ≤ 3.
Consideremos o grupo topológico SO(n). Claramente, SO(1) = {1}, isto é, um grupo
de um elemento; logo: 
π1 SO(1), p0 ∼= {0}.

Por outro lado, SO(2) é formado pelas matrizes de ordem 2, tais que suas colunas
formam uma base ortonormal positiva de R2 ; logo estas colunas devem ser w e i w,
onde w ∈ S 1 . Então,
SO(2) ≃ S 1
e consequentemente: 
π1 SO(2), p0 ∼= Z.
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 67

3.5.2 Estudo do grupo SO(3)


Consideremos R4 como o R-espaço vetorial de base {1, i, j, k}. Isto é, se q ∈ R4 , então:

q = a + b i + c j + d k,

onde a, b, c, d ∈ R.

Definição 3.1. Denotamos e definamos por H o espaço vetorial R4 , com o produto determinado
pelas seguinte regras:

i2 = j 2 = k 2 = −1
i · j = −j · i = k,
j · k = −k · j = i,
k · i = −i · k = j.

H é dito espaço dos quatérnios.

Observações 3.2.

1. Não é difı́cil verificar que H, + , · é um anel.
2. Seja q ∈ H; denotamos o conjugado de q por q e definimos por:

q = a − b i − c j − d k,

se q = a + b i + c j + d k.
3. Não é difı́cil verificar que q · q = q · q ≥ 0, para todo q ∈ H.
4. Pelo ı́tem anterior, definimos a norma em H:

kqk2 = q · q = q · q = a2 + b2 + c2 + d2 .

Esta norma coincide com a norma usual de R4 e

kq1 · q2 k = kq1 k kq2k, (3.1)

para todo q1 , q2 ∈ H.
5. Se q 6= 0, podemos definir o inverso de q por:

q
q −1 = .
kqk

6. Não é difı́cil verificar que o produto definido em H é não comutativo. Portanto, H


não é um corpo.
68 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

7. Podemos identificar R com o subespaço vetorial gerado por < 1 > e R3 com o
subespaço vetorial gerado por < i, j, k >. Logo, para todo q ∈ H temos que

q = a + p,

onde a ∈ R e p ∈ R3 . Com estas identificações, os elementos de R são ditos quatérnios


reais e os de R3 são ditos quatérnios puros.

De 3.1, temos que R e R3 são ortogonais e que S 3 ⊂ R4 pode ser considerada como:

S 3 = {q ∈ H / kqk = 1}.

De forma análoga à S 1 ⊂ C, S 3 ⊂ H tem uma estrutura de grupo induzido pelo pro-


duto de H. Como a multiplicação definida em H é bilinear, logo contı́nua, segue que
S 3 é um grupo topológico.

Proposição 3.3.

1. Z H = R, isto é, o centro do grupo H são os quatérnios reais.

2. q ∈ R3 se, e somente se q 2 ≤ 0.

3. Se q ∈ H é tal que q · p = p· q, para todo p ∈ R3 , então q ∈ R. Em particular, se q ∈ S 3 ,


então q = ±1, isto é, Z S 3 = {−1, 1}.

Prova : 1. Seja q = a + b i + c j + d k ∈ Z H ; então

i · q = −b + a i − d j + c k
q · i = −b + a i + d j − c k;

logo, d = c = 0 e q = a + b i. Analogamente:

j · q = aj − bk
q · j = a j + b k;

logo, b = 0 e q = a.
2. Se q = b i + c j + d k ∈ R3 , então q 2 = −(b2 + c2 + d2 ) ≤ 0.
Reciprocamente, seja q = a + b i + c j + d k, então

q 2 = a2 − b2 − c2 − d2 + 2 a (b i + c j + d k).

Como q 2 ∈ R, temos que a = 0 e q ∈ R3 ou b = c = d = 0 e a 6= 0 e q 2 > 0. Logo, se


q 2 ≤ 0, então q ∈ R3 .
3. Seja q = a + b i + c j + d k; então i · q = −b + a i − d j + c k.
Por outro lado i · q = q · i = −b + a i + d j − c k; então c = d = 0. Logo, q = a + i b;
analogamente temos que q j = j q, donde b = 0.
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 69

Note que se q ∈ S 3 é tal que q 2 = −1, então q ∈ S 2 . De fato, como q 2 < 0, então q ∈ R3
e kqk = 1.
Observemos que i não possui nenhuma propriedade fundamental nos quatérnios pu-
ros. Dado q ∈ R3 unitário, sempre podemos considerar uma base ortonormal positiva
{1, q, c, d, }.

Lema 3.3. Seja B ∈ SO(3); então existe uma base ortonormal {a, b, c} ∈ R3 tal que nesta
base, B se escreve:
 
1 0 0
0 cos(α) −sen(α) ,
0 sen(α) cos(α)

isto é, B é uma rotação de ângulo α em relação ao eixo a.

Prova : Seja A a matriz B em alguma base ortonormal de R3 ; então At A = I e det(A) =


1; logo At (A − I) = I − At e:

det(A − I) = detAt (A − I) = det(I − At ) = −det(A − I).

Donde det(A − I) = 0. Logo, exite um vetor não nulo a ∈ R3 tal que (A − I) a = 0,


isto é B a = a. Se for necessário, mudamos a por a/kak. Consideremos a unitário.
Seja V o plano passando pela origem, ortogonal a a. Denotemos por {b, c} uma base
ortormal de V . Como B é uma isometria temos B(V ) ⊂ V . Logo, C = B V também é
uma isometria. A equação B a = a implica que detB = detC = 1. Logo, a matriz C em
relação à base {b, c} é
 
cos(α) −sen(α)
sen(α) cos(α)

3.5.3 Cálculo do Grupo Fundamental de SO(3)


Seja q ∈ S 3 ; definamos:

νq : H −→ H
p −→ q · p · q = q · p · q −1 .

A função νq é naturalmente linear; na verdade, é um isomorfismo de espaços vetoriais,


com inversa νq−1 (p) = q · p · q.
Por outro lado, νq (q) = q e νq é uma isometria. De fato:

kνq (p)k = kq · p · qk = kqk kpk kqk = kpk.


70 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO

Sejam q1 , q2 ∈ S 3 , então:

νq1 q2 (p) = (q1 · q2 ) · p · (q1 · q2 )


= q1 · (q2 · p · q2 ) · q1
= q1 · νq2 (p) · q1
= νq1 (νq2 (p))

= νq1 ◦ νq2 (p).

Claramente νq deixa R invariante. Note que νq também deixa R3 invariante; de fato,


seja p ∈ R3 ; denotemos por r = q · p · q; então:

r 2 = q · p · q · q · p · q = q · p2 · q = p2 ≤ 0.

Então, r ∈ R3 . Logo, a aplicação:

νq : R3 −→ R3
p −→ q · p · q

é bem definida. A matriz de νq tem como vetores colunas q · i · q −1 , q · j · q −1 e q · k · q −1 ,


que dependem continuamente de q ∈ S 3 .
Suponha que q = cos(α) + a sen(α) onde a ∈ S 3 . Seja {a, b, c} uma base ortonormal
com a mesma orientação da base canônica de R3 ; então:

νq (a) = a
νq (b) = b cos(2 α) + c sen(2 α)
νq (c) = −b cos(2 α) + c sen(2 α).

Logo, νq ∈ SO(3); pelo lema e pelas observações anteriores, temos o seguinte teorema:

Teorema 3.4. A aplicação:


ν : S 3 −→ SO(3)
é um homomorfismo contı́nuo sobrejetivo.

Note que o núcleo da aplicação ν é formado pelos q ∈ S 3 tais que:

q · p · q −1 = p, ou seja q · p = p · q.

Logo, ker(ν} = {−1, 1}, isto é, νq1 = νq2 se, e somente se q1 = ±q2 .

Corolário 3.6.
SO(3) ≃ RP3 .
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 71

De fato, de [MV], sabemos que RP3 = S 3 ker(ν) e:
ν / SO(3)
S3
v v;
Π vvv
vv
 vv νe
RP3

Como νe é uma bijeção contı́nua, RP3 compacto e SO(3) é de Hausdorff, então νe é um


homeomorfismo.
Logo, obtemos o seguinte teorema:

Teorema 3.5.  
π1 SO(3), A0 ∼= π1 RP3 , p0 ≃ Z2 .
72 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
Capı́tulo 4

ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

4.1 Introdução
Neste capı́tulo generalizaremos todas as idéias sobre levantamento de funções, estu-
dadas no capı́tulo anterior e utilizadas no cálculo do grupo fundamental do cı́rculo e
do espaço projetivo real.
e espaços topológicos e p : X
Sejam X, X e −→ X uma função contı́nua.
O aberto U ⊂ X é dito vizinhança distinguida se:
 [
p−1 U = Vα ,
α∈Γ

e dois a dois disjuntos, tais que:


onde {Vα / α ∈ Γ} é uma famı́lia de abertos de X,

p Vα
: Vα −→ U

é um homeomorfismo.

Definição 4.1. Uma aplicação de recobrimento (ou simplesmente um recobrimento) é uma fun-
ção
p:Xe −→ X
contı́nua, sobrejetiva e tal que todo x ∈ X possui uma vizinhança distinguida.

e é dito espaço de recobrimento; X é dito a base do recobrimento; a função p é dita


X
projeção e p−1 (x) é fibra sobre x ∈ X. A notação utilizada para recobrimentos é:

e .
X, p, X

e −→ X é uma aplicação de recobrimento se, e somente se:


A função contı́nua p : X
i. p é sobrejetiva.

73
74 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

ii. Para todo x ∈ X existe U vizinhança de x tal que:

 [
p−1 U = Vα ,
α∈Γ

e são abertos tais que Vα ∩ Vβ = ∅ para todo α 6= β e


onde Vα ⊂ X

p : Vα −→ U

é um homeomorfismo, para todo α ∈ Γ, isto é, p é um homeomorfismo local sobreje-


tivo.

~
X

-1
p (x)

U X
x

Figura 4.1: Vizinhança distinguida de um ponto

Se p é um recobrimento então p é um homeomorfismo local sobrejetivo. A recı́proca é


falsa, isto é, existem homeomorfismos locais sobrejetivos que não são recobrimentos.
(Verifique!).

Exemplo 4.1.


[1] Se p : X −→ X é um homeomorfismo, então X, p, X é um recobrimento.

[2] Do capı́tulo anterior: R, exp, S 1 é um recobrimento.
4.1. INTRODUÇÃO 75

IR

exp

S1

Figura 4.2:

Por exemplo, dado o aberto U = S 1 − {(0, −1)}, temos que:


 [
exp−1 U = (n − 1/2, n + 1/2).
n∈Z

Note que exp−1 (1) = {t ∈ R / e2πit = 1} = Z.



[3] Analogamente, R2 , p, T2 , onde T2 = S 1 × S 1 e:

p : R2 −→ T2
(s, t) −→ (exp(s), exp(t))

é um recobrimento. Por outro lado, p−1 (1, 1) = Z × Z.



[4] Em geral, Rn , p, Tn , onde Tn = S 1 × S 1 × . . . × S 1 , (n-vezes) e:

p(t1 , t2 , . . . , tn ) = (exp(t1 ), exp(t2 ), . . . , exp(tn ))

é um recobrimento.

[5] S 1 × R, p, T2 , também é um recobrimento do toro, onde:

p(z, t) = (z, exp(t)).

Fica como exercı́cio determinar as fibras nos exemplos anteriores.


[6] Seja:

p : R −→ [0, +∞)
x −→ |x|.
76 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

Então p não é um recobrimento. Caso contrário, considerando 0 ∈ R e um aberto


(−ε, ε), (ε > 0), então p (−ε,ε) é um homeomorfismo, o que é absurdo pois, p não é
injetiva.

[7] Por um argumento similar ao anterior C, p, C , onde p(z) = z 2 não é um recobri-
mento.
[8] Seja X = R − {0}, X e = {(r, θ) / 0 < r < +∞} e:

e −→ X
P ol : X
(r, θ) −→ (r cos(θ), r sen(θ)).

e P ol, X é um recobrimento. Note que P ol é a mudança de coordenadas polares e
X,
que a variável angular θ toma infinitos valores separados por múltiplos de 2 π.
[9] A aplicação p : N × R −→ R definida por p(n, x) = x é um recobrimento. De fato:
 [
p−1 R = {n} × R
n∈N

ep {n}×R
é um homeomorfismo sobrejetivo.
[10] Em geral, a aplicação p : Y × X −→ X tal que p(y, x) = x e Y é discreto é um
recobrimento.

Lema 4.1.
1. Sejam f : X −→ Y e g : Y −→ Z funções contı́nuas tais que f e g ◦ f são homeomorfis-
mos locais sobrejetivos; então g é um homeomorfismo local sobrejetivo.
2. Se p : X −→ Y é um homeomorfismo local sobrejetivo com fibra finita e tal que X é de
Hausdorff, então p é uma aplicação de recobrimento.

Prova :
1. Exercı́cio.
2. Seja y ∈ Y ; então p−1 (y) = {x1 , x2 , . . . , xn }. Como X é de Hausdorff, existem
vizinhanças Ui2 abertas de xi tais que Ui2 ∩ Uj2 = ∅ se i 6= j. Por outro lado, p sendo um
homeomorfismo local, então  para cada xi podemos escolher vizinhanças
 Ui1 abertas de
1 2 1 1 1
xi tais que Ui ⊂ Ui , p Ui é um aberto de Y e p U 1 : Ui −→ p Ui é um homeorfismo.
i
Denotemos por:   
Vy = p U11 ∩ . . . ∩ p Un1 e Ui = p U 1 Vy .
i

Logo:
n
 [
p−1 (Vy = Ui
i=1

ep Ui
: Ui −→ Vy é um homeomorfismo. Então, p : X −→ Y é um recobrimento.
4.1. INTRODUÇÃO 77

e um recobrimento; então as fibras p−1 (x) são discretas.
Proposição 4.1. Seja X, p, X

Prova : Como cada y ∈ p−1 (x) possui uma vizinhança U tal que y o único elemento de
U com p(y) = x (lembrando que p é um homeomorfismo local), então U ∩ p−1 (x) = {y}.
Logo, todo ponto de p−1 (x) é isolado; portanto p−1 (x) é discreto.
Note que na prova da proposição somente utilizamos que p é localmente injetiva, isto
é, a proposição pode ser provada somente com esta hipótese.

Corolário 4.1. Se X, p, X e é um recobrimento tal que X
e é compacto, X é conexo e de Haus-
dorff, então as fibras são finitas.

A cardinalidade de p−1 (x) é chamada o número de folhas do recobrimento. Logo, um


recobrimento com as hipóteses do corolário possui um número finito de folhas.

Exemplo 4.2.

[1] A aplicação:

exp : R −→ S 1
t −→ exp(t)

é um recobrimento de infinitas folhas.


[2] A aplicação:

p : S 1 −→ S 1
z −→ z n

é um recobrimento de n folhas. De fato, p é um homeomorfismo local sobrejetivo, S 1


é compacta, de Hausdorff e p−1 (x) tem cardinalidade n. (São as raı́zes n-ésimas da
unidade).

[3] Seja S 2n+1 , Π, CPn , onde

Π : S 2n+1 ⊂ Cn −→ CPn

é a projeção canônica; S 2n+1 , Π, CPn é um recobrimento?
A resposta é negativa, pois Π−1 ([x]) ∼ = S 1 , isto é a fibra não é finita.

e um recobrimento; então:
Teorema 4.1. Seja X, p, X

1. p é aberta.

2. X tem a topologia quociente em relação a p.


78 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

Prova :
1. Exercı́cio.

2. Como p é contı́nua e aberta, então U ⊂ X é aberto se, e somente se p−1 U é aberto
e
em X.

Exemplo 4.1.
Se M é a faixa de Möebius e p a projeção canônica, então:

p : R × I −→ M

é um recobrimento.
Primeiramente definamos:

M1 = [0, 1] × [−1, 1] ∼1

onde (0, t) ∼1 (1, −t), t ∈ [−1, 1]. Denotemos por:

p1 : [0, 1] × [−1, 1] −→ M1

a aplicação quociente. Por outro lado, a faixa de Möebius também pode ser definida
como: 
M = R × [−1, 1] ∼
onde (x, t) ∼ (x + q, (−1)q t), q ∈ Z e t ∈ [−1, 1]. Denotemos por:

p : R × [−1, 1] −→ M

a aplicação quociente. Note que p é aberta, pois se U ⊂ R × [−1, 1] é aberto:


 [ 
p−1 p(U) = Rq U ,
q∈Z

onde:

Rq : R × [−1, 1] −→ R × [−1, 1]
(r, t) −→ (x + q, (−1)q t).

Note que Rq é um homeomorfismo, para todo q ∈ Z.


Denotemos por i : [0, 1] × [−1, 1] −→ R × [−1, 1] a inclusão canônica, que induz no
quociente a aplicacão contı́nua f : M1 −→ M tal que o seguinte diagrama é comutativo:
i
[0, 1] × [−1, 1] −−−→ R × [−1, 1]
 

p1 y
p
y
f
M1 −−−→ M
4.2. RECOBRIMENTOS DE G-ESPAÇOS 79

Isto é, p ◦ i = f ◦ p1. Como f é sobrejetiva e M é de Hausdorff, então f é um homeomor-


fismo. Note que M possui  uma cobertura determinada pelos abertos p (0, 1) × [−1, 1]
e p (−1/2, 1/2) × [−1, 1] e :
 [ 
p−1 p (0, 1) × [−1, 1] = (q, q + 1) × [−1, 1]
q∈Z

e 
p : (q, q + 1) × [−1, 1] −→ p (0, 1) × [−1, 1]

é um homeomorfismo. Analogamente para o aberto p (−1/2, 1/2) × [−1, 1] .

4.2 Recobrimentos de G-espaços


Para mais detalhes sobre G-espaços, veja [MV].
Seja G um grupo que atua sobre X de modo que X é um G-espaço.

Definição 4.2. A ação do grupo G sobre X é dita totalmente descontı́nua se para todo x ∈ X,
existe vizinhança U de x tal que
g1 · U ∩ g2 · U = ∅,
para todo g1 , g2 ∈ G e g1 6= g2 .

Se o grupo G age de forma totalmente descontı́nua sobre X, então g · x 6= x para todo


g ∈ G, g 6= e e todo x ∈ X. (Verifique!).

Exemplo 4.3.
[1] Seja a : S n −→ S n definida por a(x) = −x, onde −x é o ponto antipodal de x; então
G = {idS n , a}, com a composta de funções é um grupo. G atua descontinuamente
sobre S n . De fato, se U ⊂ S n é um aberto contido num dos hemisférios, temos:
a · U ∩ U = ∅.
[2] Seja Zn ⊂ Rn . Considere a seguinte ação:
Zn × Rn −→ Rn
(v, x) −→ x + v.
Esta ação é totalmente descontı́nua; basta considerar abertos de diâmetro menor que
1.

Teorema 4.2. Se X é um G-espaço e G age de forma totalmente descontı́nua sobre X, então a


projeção canônica: 
p : X −→ X G
é um recobrimento.
80 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

Prova : Note que p : X −→ X  G é contı́nua, sobrejetiva e aberta. Seja U ⊂ X uma
vizinhança de x ∈ X; então p U é uma vizinhança de G · x = p(x) e
 [
p−1 p(U) = g · U.
g∈G


g · U é uma famı́lia de abertos disjuntos de X e p g·U
: g · U −→ p U é um homeomor-
fismo.

Exemplo 4.4.

[1] Considere a ação de Z, + sobre R, definida por x −→ x + n. Então:

p : R −→ R Z ≃ S 1

é um recobrimento.
De fato, a ação é totalmente descontı́nua. Seja 0 < ε < 1/2; então U = (x−ε, x+ε) é uma
vizinhança de x que satisfaz à condição da definição de ser totalmente descontı́nua.
Pode ser verificado (exercı́cio) que este exemplo é idêntico ao estudado no capı́tulo
anterior para exp : R −→ S 1 .
[2] Em geral, 
Π : Rn −→ Rn Zn ≃ Tn ,
onde Π é a projeção canônica, é um recobrimento.
[3] A projeção canônica:
Π : S n −→ PRn
é um recobrimento.
De fato, seja Z2 , · e consideremos S n como um Z2 -espaço com a ação ±1 · x = ±x.
Para cada x ∈ S n consideremos:

U = {y ∈ S n / ky − xk < 1/2}.

U é uma vizinhança de x que satisfaz à condição da definição de ser totalmente des-


contı́nua. De forma alternativa, como x 6= −x, existem V eW vizinhanças disjuntas de
x e −x respectivamente e basta considerar U = V ∩ − W .

[4] Considere a ação de Z, + sobre X = R × (−1, 1), definida por:

(n, (x, y)) −→ (x + n, (−1)n y).

Então: 
p : X −→ X Z ∼
= M,
é um recobrimento, onde M é a faixa de Möebius. (Verifique!).
4.2. RECOBRIMENTOS DE G-ESPAÇOS 81

Definição 4.3. A ação do grupo G sobre X é dita livre se g · x 6= x, para todo x ∈ X e todo
g ∈ G, g 6= e.

Proposição 4.2. Seja X de Hausdorff e G um grupo finito, então, G atua livremente sobre X
se, e somente se a ação é totalmente descontı́nua.

Prova : Seja G = {g0 , g1 , . . . , gn }, onde e = g0 . Como X é de Hausdorff, existem


vizinhanças U0 , U1 , . . . Un de g0 · x, g1 · x, . . . gn · x, respectivamente, tais que U0 ∩ Ui = ∅,
(i = 1, 2, , . . . n). Denotemos por:
n
\
U= gi−1 · Ui .
i=0

U é uma vizinhança de x; por outro lado:


n
\ 
gj · U = gj gi−1 · Ui
i=0
 
gj · U ∩ gi · U = gi · (gi−1 gj ) · U ∩ U = gi · gk · U ∩ U = ∅,

pois gk · U ⊂ Uk e U ⊂ U0 , gk 6= e.
Se G é um grupo infinito a ação livre pode não ser totalmente descontı́nua. Isto é:

p : X −→ X G

pode não ser um recobrimento, ainda que a ação seja livre e X de Hausdorff.

Exemplo 4.5.

[1] Seja S 2n+1 ⊂ Cn+1 tal que:

S 2n+1 = {(z0 , z1 , . . . , zn ) ∈ Cn+1 / kz0 k2 + . . . + kzn k2 = 1}.

Sejam p, q1 , . . . qn ∈ Z tais que p é primo e os qj são primos relativos a p; definamos

h : S 2n+1 −→ S 2n+1

por:
h(z0 , z1 , . . . , zn ) = (e2πi/p z0 , e2πiq1 /p z1 , . . . , e2πiqn /p zn ).
h é um homeomorfismo tal que hp = id. Consideremos S 2n+1 como Zp -espaço com a
seguinte ação:

n · (z0 , z1 , . . . , zn ) = (e2πin/p z0 , e2πinq1 /p z1 , . . . , e2πiqn /p zn ),


82 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

onde n ∈ Zp = {0, 1, . . . , p − 1}. Esta ação é livre. De fato, se:

n · (z0 , z1 , . . . , zn ) = (z0 , z1 , . . . , zn ),

então: e2πinqj /p zj = zj com 0 ≤ j ≤ n e q0 = 1 Como (z0 , z1 , . . . , zn ) ∈ S 2n+1 , existe


zj0 6= 0 para algum j0 , logo:
e2πinqj0 /p = 1
e n qj0 = 0 mod(p). Como qj0 6= 0 mod(p) e p é primo, então n = 0 mod(p). Isto é, n é a
identidade de Zp . Logo, a ação é livre e S 2n+1 é de Hausdorff; então:

p : S 2n+1 −→ L(p, q1 , . . . , qn ),

onde L(p, q1 , . . . , qn ) = S 2n+1 Zp é um recobrimento. O espaço L(p, q1 , . . . , qn ) é cha-
mado lenticular. Note que L(2, q1 , . . . , qn ) = RP2n+1 .

[2] Seja G o grupo gerado pelos homeomorfismos a, b : R2 −→ R2 definidos por:

a(x, y) = (−x, y + 1) e b(x, y) = (x + 1, y).



Sabemos que K = R2 G, é a garrafa de Klein. A ação:

∗ :G × K −→ K
(f, (x, y)) −→ f ∗ (x, y) = f (x, y),

é livre, R2 é de Hausdorff; então R2 , p, K é um recobrimento. Note que G não é
isomorfo a Z × Z, pois G é não comutativo e satisfaz à relação b a b = a.

4.3 Generalizações
A seguir, apresentaremos as generalizações das propriedades de levantamento dos ca-
minhos e das homotopias, estudadas no capı́tulo anterior. A maioria das provas são
idênticas.

Definição 4.4. Sejam X, p, X e um recobrimento e f : Y −→ X uma função contı́nua. A
função contı́nua fe : Y −→ X
e é dita um levantamento de f se o seguinte diagrama comuta:

?X
e
fe 
 p

 
Y /X
f

Isto é, p ◦ fe = f .
4.3. GENERALIZAÇÕES 83

Lema 4.2. Sejam X, p, X e um recobrimento e fi : Y −→ X, e (i = 1, 2) levantamentos de
f : Y −→ X, isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:

?X
e
f1 , f2 
 p

 
Y /X
f

Se Y é conexo e f1 (y0 ) = f2 (y0 ), então f1 = f2 .

Prova : Seja W = {y ∈ Y / f1 (y) = f2 (y)}, W 6= ∅ pois y0 ∈ W . Provaremos que W é


aberto e fechado e como Y é conexo, então W = Y . Seja y ∈ Y ; então existe vizinhança
aberta V de f (y) tal que
 [
p−1 V = Vj
j∈J

ep Vj
: Vj −→ V é um homeomorfismo, para todo j ∈ J. Se y ∈ W , então f1 (y) =
 
f2 (y) ∈ Vk , para algum k ∈ J e f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk é um aberto tal que:
 
y ∈ f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk ⊂ W.
 
Se x ∈ f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk , então f1 (x), f2 (x) ∈ Vk e (p ◦ f1 )(x) = (p ◦ f2 )(x). Por outro
lado, p V é um homeomorfismo; temos que f1 (x) = f2 (x). Logo, todo elemento de W
k
possui uma vizinhança contida em W , isto é, W é aberto.  
Se y ∈/ W , então f1 (y) ∈ Vk e f2 (y) ∈ Vj , para i, j tais que i 6= j; logo, f1−1 Vk ∩ f2−1 Vj
é um aberto tal que  
y ∈ f1−1 Vk ∩ f2−1 Vk ⊂ W C .
Pelo mesmo argumento anterior, W C é aberto.

Corolário 4.2. Sejam X, p, X e um recobrimento e h : Xe −→ Xe contı́nua tal que X
e é conexo
e então h = id e .
por caminhos e p ◦ h = p. Se h(x1 ) = x1 para algum x1 ∈ X, X

Prova : Exercı́cio.

e um recobrimento.
Teorema 4.3. Seja X, p, X
1. Levantamento dos caminhos: Dado um caminho α : I −→ X e xe0 ∈ X e tal que
p(xe0 ) = α(0), existe um único levantamento α e tal que p ◦ α
e : I −→ X e=αeα
e(0) = xe0 , isto
é, temos o seguinte diagrama comutativo:

@
e
X
e
α p

I / X
α
84 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS

2. Levantamento das homotopias: Dada H : I × I −→ X contı́nua e xe0 ∈ X e tal que


p(xe0 ) = H(0, 0), existe um único levantamento H e : I × I −→ X
e tal que p ◦ H
e = H e
e 0) = xe0 , isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
H(0,

e
<X
e
H zzz
zz p
zz
zz 
I ×I H
/X

Prova : A prova é idêntica às dos teoremas vistos no capı́tulo anterior.



e é tal que X é conexo, então a cardinalidade da fibra p−1 (x) é
Corolário 4.3. Se X, p, X
independente de x.

Prova : Para todo x, y ∈ X, definiremos uma bijeção entre p−1 (x) e p−1 (y). Seja:

h : p−1 (x) −→ p−1 (y),

e∈
definida da seguinte forma: Dado γ um caminho que liga x a y, então para cada x
−1
p (x), existe um único levantamento γex tal que γex (0) = x; definamos:

x) = γex (1).
h(e

h está bem definida pois γex (1) ∈ p−1 (y). Analogamente, definimos h−1 utilizando γ −1 ,
isto é:
x) = γg
h−1 (e −1 (1).

Logo, h é uma bijeção.


4.4. EXERCÍCIOS 85

4.4 Exercı́cios
f1 −→ X1 e p2 : X
1. Sejam p1 : X f2 −→ X2 recobrimentos. Verifique que:

f1 × X
p1 × p2 : X f2 −→ X1 × X2

é um recobrimento.
e −→ X, q : X −→ Y e h = q ◦ p. Se p e q são recobrimentos, h é um
2. Sejam p : X
recobrimento? Verifique.

3. Sejam Z e X = R × (−1, 1). Consideremos a seguinte ação:

Z × X −→ X
(n, (x, y)) −→ (x + n, (−1)n y).

Verifique que esta ação é totalmente descontı́nua.

4. Verifique que toda ação totalmente descontı́nua é livre. A recı́proca é verdadeira?


86 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
Capı́tulo 5

RECOBRIMENTO E GRUPO
FUNDAMENTAL

Neste capı́tulo estudaremos a relação que existe entre os recobrimentos de um espaço


e seu grupo fundamental.
O teorema seguinte nos permite ter uma primeira ”aproximação”de qual é o grupo
fundamental de um espaço dado, conhecendo apenas as fibras de seu recobrimento.

Teorema 5.1. Seja X, p, X e um recobrimento. Se X
e é simplesmente conexo, então para cada
e∈X
x e existe uma bijeção:

π1 X, x −→ p−1 (x),
onde p(e
x) = x.

Prova : Definamos: 
F : π1 X, x −→ p−1 (x),
e(1), onde α
por F ([α]) = α e é o único levantamento de α tal que α(0) = x; logo, pela
unicidade dos levantamentos, F é bem definida. Agora, consideremos:

G : p−1 (x) −→ π1 X, x ,

definida da seguinte forma:


Sejam ye ∈ p−1 (x) e α
e : I −→ Xe um caminho tal que α e(0) = xeeαe(1) = ye. Logo, o
caminho α = p ◦ α e : I −→ X é tal que α(0) = p(e
x) = x e α(1) = p(e
y ) = x; então
determina uma única classe de homotopia [α] ∈ π1 X, x . Definamos:

y ) = [α] = [p ◦ α
G(e e].

G está bem definida, pois para todos αe e βe tais que α e


e(0) = β(0) e
e(1) = β(1),
eα temos
e
e ≃ β relativamente a {0, 1}; então G não depende do caminho escolhido. Claramente
α
F e G são inversas.

87
88 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Exemplo 5.1.

Denotemos por ⇆ as bijeções:



[1] Seja R, exp, S 1 ; então:
exp−1 (1) ⇆ Z.

[2] Seja R2 , p, T2 , onde p = (exp, exp); então:

p−1 (1) ⇆ Z × Z = Z2 .

[3] Em geral, seja Rn , p, Tn , onde p = (exp, exp, . . . , exp); então:

p−1 (1) ⇆ Z × Z × . . . × Z = Zn .

[4] S n , Π, PRn (n > 1), onde Π é a projeção canônica, é um recobrimento de 2 folhas
e:
Π−1 ([x]) = {x, −x} ⇆ Z2 .

[5] Seja X, Π, M , onde X = R × (−1, 1), M é a faixa de Möebius e Π é a projeção
canônica; então:
Π−1 ([0, 0]) = {(n, 0) / n ∈ Z} ⇆ Z.


e um recobrimento tal que p(e
Teorema 5.2. Seja X, p, X x) = x; então o homomorfismo
induzido:  
e x
p∗ : π1 X, e −→ π1 X, x
é um monomorfismo.

Prova : Sejam [e e ∈ π1 X,
α], [β] e xe tal que p∗ ([e e então, [p ◦ α
α]) = p∗ ([β]; e Logo,
e] = [p ◦ β].
existe uma homotopia H : p ◦ α e consideremos o único levantamento H
e ≃ p ◦ β; e de H;
portanto He :α e logo:
e ≃ β;
[e e
α] = [β].

Como p∗ é um monomorfismo, podemos considerar π1 X, e x
e como um subgrupo de
π1 X, x . Logo, com as hipóteses do teorema, se:
 
e x
π1 X, e 6= {e}, então π1 X, x 6= {e}.


Teorema 5.3. Sejam X, p, X e um recobrimento e x e, xe1 ∈ p−1 (x); então todos os subgrupos
  
e x
p∗ π1 X, e e p∗ π1 X,e xe1 são conjugados em π1 X, x . Se x e ∈ p−1 (x) é fixado, toda classe
 
e x
conjugada de p∗ π1 X, e é igual ao subgrupo p∗ π1 X,e xe1 , para algum xe1 ∈ p−1 (x).
5.1. CRITÉRIO GERAL DE LEVANTAMENTO 89

Prova : Seja α e que liga x


e um caminho em X e a xe1 . Sabemos que:
 
e x
Fαe : π1 X, e xe1
e −→ π1 X,

definida por Fαe ([e α∗e


γ ]) = [e e−1 ] é um isomorfismo de grupos. Definamos:
γ∗α
 
G : π1 X, x −→ π1 X, x1

por G([γ]) = [p ◦ α e]−1 . Logo, obtemos o seguinte diagrama comutativo:


e] [γ] [p ◦ α
 p∗ 
π1 X,e x
e −−−→ π1 X, x
 
 
ey
Fα yG
 p∗ 
e xe1 −−−→ π1 X, x1
π1 X,
  
e x
Então, p∗ π1 X, e xe1 são conjugados em π1 X, x . Por outro lado, seja
e e p∗ π1 X,
 
H um subgrupo de π1 X, x conjugado a p∗ π1 X, e x
e ; então:

e x
H = [γ]−1 p∗ π1 X, e [γ].

Seja γe um levantamento de γ tal que e e; denotemos por xe1 = γe(1); então:


γ (0) = x

e xe1 .
H = p∗ π1 X,

5.1 Critério Geral de Levantamento



e é um recobrimento e que toda função contı́nua
Suponhamos que X, p, X

f : Z −→ X
e ou seja, temos o seguinte diagrama comutativo:
admite um levantamento f,

?X
e
fe 
 p

 
Z /X
f

tal que p ◦ fe = f . Se p(xe0 ) = x0 , f (z0 ) = x0 e fe(z0 ) = xe0 , temos que p∗ ◦ fe∗ = f∗ e o


diagrama comutativo:

π1 X,e xe0
fe∗
r8
rrrrr p∗
r
rrr  
π1 Z, z0 f∗
/ π1 X, x0
90 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Como p∗ é um monomorfismo, a existência de fe∗ que faz o diagrama comutativo é


equivalente à condição:
 
f∗ π1 Z, z0 e xe0 .
⊂ p∗ π1 X,

O teorema geral de levantamento nos dá as condições necessárias e suficientes para


a existência de levantamentos de um espaço topológico. Este teorema é um exemplo
do que estuda a Topologia Algébrica. Um problema puramente topológico, como a
existência de uma função contı́nua (sob certas condições) é reduzido a uma condição
puramente algébrica (uma relação entre grupos e homomorfismos).

Teorema 5.4. Critério de Levantamento



Sejam X, p, X e um recobrimento e f : Z −→ X contı́nua. Se Z é conexo e localmente conexo
por caminhos, então existe um levantamento de f se, e somente se
 
f∗ π1 Z, z0 e xe0 ,
⊂ p∗ π1 X,

onde p(xe0 ) = x0 e f (z0 ) = x0 .

Prova : Se existe levantamento fe de f , isto é, p ◦ fe = f , então:


  
f∗ π1 Z, z0 = (p ◦ fe)∗ π1 Z, z0 e xe0 .
⊂ p∗ π1 X,
 
Suponhamos que f∗ π1 Z, z0 ⊂ p∗ π1 X, e xe0 , onde p(xe0 ) = x0 e f (z0 ) = x0 . Sejam
z1 ∈ Z arbitrário e o caminho η em Z tal que η(0) = z0 e η(1) = z1 ; então, f ◦ η é um
caminho em X tal que (f ◦η) (0) = x0 e (f ◦η) (1) = f (z1 ). Pelo teorema de levantamento
dos caminhos, existe um único levantamento f] ◦ η : I −→ X e tal que (f]
◦ η)(0) = x0 e

p ◦ f]◦ η = f ◦ η. Logo, definamos:

F : Z −→ X,

onde F (z0 ) = x0 e F (z1 ) = f]


◦ η (1).
1. F é bem definida. De fato, seja η1 outro caminho em Z tal que η1 (0) = z0 e η1 (1)  = z1 ;
então η ∗ η1−1 é tal que (η ∗ η1−1 )(0) = (η ∗ η1−1 )(1) = z0 , isto é, [η ∗ η1−1 ] ∈ π1 Z, z0 ; então:
 
f∗ [η ∗ η1−1 ] = [f ◦ η ∗ f ◦ η1−1 ] ∈ f∗ π1 Z, z0 .
  
Por outro lado: f∗ π1 Z, z0 e xe0 ; então existe [µ] ∈ π1 X,
⊂ p∗ π1 X, e xe0 tal que:

[f ◦ η ∗ f ◦ η1−1 ] = [p ◦ µ].
5.1. CRITÉRIO GERAL DE LEVANTAMENTO 91

Logo:

f ◦ η ≃ (f ◦ η) ∗ ex0 ≃ (f ◦ η) ∗ (f ◦ η1−1 ∗ f ◦ η1 )
≃ (f ◦ η ∗ f ◦ η1−1 ) ∗ f ◦ η1
≃ p ◦ µ ∗ f ◦ η1 .

Denotemos por ψ = p ◦ µ ∗ f ◦ η1 ; então ψe = µ ∗ f^◦ η1 ; pela unicidade dos levantamen-


tos:
(f] e = (µ ∗ (f^
◦ η)(1) = ψ(1) ◦ η1 ))(1) = (f^ ◦ η1 )(1).
Nesta parte da prova utilizamos somente a hipótese de que Z é conexo por caminhos.

e aberto e z ∈ fg
2. F é contı́nua. Sejam U ⊂ X −1 U ; então fe(z) ∈ U. Denotemos por

W uma vizinhança distinguida de (p ◦ fe)(z) = f (z) tal que W ⊂ p U . Como W é
vizinhança distinguida:
 [
p−1 W = Vj ,
j∈J

onde cada Vj é homeomorfo a W e f(z) e ∈ Vk para algum k ∈ J. Logo, como Vk e



e
U são vizinhanças de f (z) consideramos W ′ = Vk ∩ U. Note que p W ′ também é
uma vizinhança distinguida,
 pois W é distinguida e p W ′ ⊂ W . Por outro lado, f é
contı́nua e f −1 p W ′ é uma vizinhança de z ∈ Z. Como Z é localmente conexo por 
caminhos, existe um caminho ligando uma vizinhança V de z tal que V ⊂ f −1 p W ′

Mostraremos que fe V ⊂ U. Primeiramente fe(z) ∈ V ; se z ′ ∈ V , existe um caminho
α en V ligando z a z ′ ; logo, pela definição de fe temos fe(z ′ ) = f]
◦ α(1), onde f]
◦ α é o
único levantamento de f ◦ α tal que f] ◦ α(0) = fe(z), pois:
    
(f ◦ α) I ⊂ f V ⊂ p W ′ e (f]
◦ α) I ⊂ p−1 p W ′ .

Por outro lado:  [


p−1 p W ′ = Wj ,
j∈J

onde os Wj são disjuntos aos pares, cada Wj é homeomorfo a p W ′ e pelo menos um
Wk ∈ W ′ ; como (f] ◦ α)(0) = fe(z) ∈ W ′ segue que (f] ◦ α)(1) = fe(z ′ ). Provamos que
  
fe V ⊂ W ′ ⊂ U e portanto V ⊂ fg −1 U , isto é, todo elemento de f g −1 U possui uma

vizinhança totalmente contida em fg −1 U ; logo fe é contı́nua.

Existem exemplos que mostram que a hipótese de ser Z localmente conexo por cami-
nhos não pode ser retirada para a prova de que o levantamento fe é contı́nuo.

Corolário 5.1. Sejam X, p, Xe um recobrimento e Z um espaço simplesmente conexo e lo-
calmente conexo por caminhos; então toda função contı́nua f : Z −→ X admite levantamento
fe : Z −→ X.
e
92 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Prova : Se Z é simplesmente conexo e localmente conexo por caminhos, sempre temos


que:
  
f∗ π1 Z, z0 = f∗ {e} ⊂ p∗ π1 X, e xe0 .

Exemplo 5.2.
[1] Toda função f : R −→ S 1 admite levantamentos.
[2] Em geral, toda função f : Rn −→ Tn admite levantamentos.
[3] Se n > 1, toda função f : S n −→ PRn admite levantamentos.

Proposição 5.1. Sejam X, p, X e um recobrimento, α, β : I −→ X caminhos tais que α(0) =
β(0) = x0 e α(1) = β(1) = x1 e α e, βe : I −→ X e levantamentos de α e β, respectivamente,
e tal que p(xe0 ) = x0 . Então, α
de ponto inicial xe0 ∈ X e se, e somente se [α ∗ β −1 ] ∈
e(1) = β(1)

p∗ π1 X,e xe0 .

Prova : Seja [α ∗ β −1 ] ∈ p∗ π1 X,e xe . Denotemos por e γ o levantamento do caminho
−1
α∗β , a partir do ponto xe0 ; logo, eγ é um caminho fechado. Os caminhos α e, βe : I −→ X
e
são definidos por:
e(t) = e
α γ (t/2) e β(t)e = γe(1 − t/2).
e(0) = e
α e eα
γ (0) = xe0 = γe(1) = β(0) e(1) = e e
γ (1/2) = β(1). e e βe são levanta-
Note que α
mentos de α e β, respectivamente:

(p ◦ α
e)(t) = (p ◦ e
γ )(t/2)
= (α ∗ β −1 )(t/2)
= α(2 (t/2))
= α(t).
Analogamente,

e
(p ◦ β)(t) = (p ◦ eγ )(1 − t/2)
= (α ∗ β −1 )(1 − t/2)
= β −1 (2 (1 − t/2) − 1)
= β −1 (1 − t)
= β(t).

Em particular, nas hipóteses da proposição, temos o seguinte corolário:


e com inı́cio em x
Corolário 5.2. Dado α um caminho fechado em x0 , seu levantamento, α e∈

−1 e
p (x0 ) é fechado se, e somente se [α] ∈ p∗ π1 X, x
e .
Basta considerar β como um caminho constante em x0 , na proposição anterior.
5.2. GRUPO FUNDAMENTAL E G-ESPAÇOS 93

5.2 Grupo Fundamental e G-espaços


Neste parágrafo discutiremos a seguinte questão:

Dado X um G-espaço, que relação existe entre o grupo fundamental de X G e o grupo
G?

Observações 5.1.

1. Lembremos que S 1 ≃ R Z; logo:
  
π1 S 1 , z0 = π1 R Z, w0 ≃ Z.

2. O toro T2 = R2 Z2 ; logo:
  
π1 T2 , y0 = π1 R2 Z2 , w0 ≃ Z2 .

3. Será possı́vel afirmar que, em geral:


 
π1 X G, y0 ≃ G?

Se a reposta for afirmativa, por exemplo, terı́amos que:



π1 L(p, q1 , . . . , qn ), y0 ≃ Zp .

Se X é um G-espaço, tal que G age de forma totalmente descontı́nua sobre X, então:



Π : X −→ X G
 
é um recobrimento. Por outro lado, se [γ] ∈ π1 X G, y0 , sabemos que existe um único
levantamento:
=X
e
γ {{
{{{ Π
{{
{{ 
I /X G
γ

tal que e
γ (0) = x0 . Como e γ (1) ∈ G x0 , (G x é a órbita de x), então existe um único gγ ∈ G
tal que e
γ (1) = gγ · x0 . Definamos a seguinte aplicação:
 
Ψ : π1 X G, y0 −→ G
[γ] −→ gγ .

Ψ é um homomorfismo de grupos.
 
Sejam [α], [β] ∈ π1 X G, y0 tal que y0 = Π(x0 ); isto é, y0 ∈ G x0 .
94 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Consideremos α e e βe levantamentos de α e β. Note que α


e ∗ βe não é definido, pois
gα · x0 6= x0 ; por outro lado:

e(0) = x0 ,
α e(1) = gα · x0 ,
α
e = x0 ,
β(0) e = gβ · x0 .
β(1)

Seja Θgα : X −→ X o homeomorfismo definido por Θgα (x) = gα · x e definamos:

Θgα ◦ βe : I −→ X.

Note que:

Θgα ◦ βe (0) = gα · x0 ,

Θg ◦ βe (1) = gα · (gβ · x0 ).
α

  
Θgα ◦ βe é um levantamento de β. De fato, Π Θgα ◦ βe = Π gα · βe = Π βe = β.

Consideremos o caminho α e ∗ Θgα ◦ βe ; logo:

e ∗ Θgα ◦ βe (0) = α
α e(0) = x0 ,
 
e ∗ Θgα ◦ βe (1) = Θgα ◦ βe (1) = gα · (gβ · x0 ).
α

Então:
    
e ∗ Θgα ◦ βe (1) = gα gβ = Ψ [α] Ψ [β] .
Ψ [α] [β] = Ψ [α ∗ β] = α


Lema 5.1. ker(Ψ) = Π∗ π1 X, x0 , onde Π∗ é o homomorfismo induzido pela projeção:

Π : X −→ X G

e ker(Ψ) é o núcleo de Ψ.

Prova : [γ] ∈ ker(Ψ), se, e somente se Ψ([γ]) = e se, e somente se e γ (1) = x0 , onde e
γ é
o único levantamento de γ tal que e γ ] ∈ π1 X, x0 e
γ (0) = x0 . Logo, se, e somente se [e
γ = Π ◦ γe; então:  
[γ] = [Π ◦ e γ ] ∈ Π∗ π1 X, x0 .
γ ] = Π∗ [e

Utilizando o primeiro teorema do isomorfismo de grupos, temos:


     
π1 X G, y0 ker(Ψ) = π1 X G, y0 Π∗ π1 X, x0 ≃ Im Ψ .

Teorema 5.5. Com as notações e as hipóteses do lema anterior, temos:


  
π1 X G, y0 Π∗ π1 X, x0 ≃ G.
5.2. GRUPO FUNDAMENTAL E G-ESPAÇOS 95

Prova : Π∗ é sobrejetiva. Veja o capı́tulo do grupo fundamental de S 1

Corolário 5.3. Se X é simplesmente conexo, então:


 
π1 X G, y0 ≃ G.

Prova : Exercı́cio. (Veja o caso X = S 1 ).

Exemplo 5.3.
[1]Como antes, consideremos S 2n+1 como ZP -espaço; então:
  
π1 L(p, q1 , . . . , qn ), y0 = π1 S 2n+1 Zp , y0 ≃ Zp ;
pois S 2n+1 é simplesmente conexa, (n ≥ 1).
[2] Sabemos que o espaço projetivo real PRn , (n > 1) pode ser obtido a partir de S n
como Z2 -espaço. Logo:
  
π1 PRn , y0 = π1 S n Z2 , y0 ≃ Z2 .

[3] Sabemos que a faixa de Möebius M é homeomorfa a X = R×(−1, 1) como Z -espaço.


Logo:   
π1 M, w0 = π1 X Z, y0 ≃ Z.
Assim, obtemos o mesmo resultado obtido nos capı́tulos anteriores.
[4] Seja G o grupo gerado pelos homeomorfismos a, b : R2 −→ R2 definidos por:
a(x, y) = (−x, y + 1) e b(x, y) = (x + 1, y).

Sabemos que K = R2 G é a garrafa de Klein. Lembremos que G não é isomorfo a
Z × Z, pois satisfaz à relação b a b = a. Logo:
  
π1 K, k0 = π1 R2 G, k0 ≃ G.

[5] Seja α : I −→ S n um caminho  tal que α(0) = −α(1) e Π : S n −→ PRn a projeção


canônica. Então π1 PRn , [α(0)] é gerado por [p ◦ α].
De fato, considere o seguinte diagrama comutativo:
n
S
{=
α {{{ p
{{ 
{{
I / PRn
p◦α

Por outro lado sabemos que:



Ψ : π1 PRn , [α(0)] −→ Z2
é definida por Ψ([p ◦ α]]) = α(1); como α(0) 6= α(1) e é um isomorfismo de grupos,
então Ψ([p ◦ α]]) é não trivial, logo gera π1 PRn , [α(0)] .
96 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

5.3 Transformações de Recobrimentos


 
f1 , p1 , X e X
Sejam X f2 , p2 , X recobrimentos sobre X.

f1 −→ X
Definição 5.1. A função h : X f2 é dita um homomorfismo, se:

1. h é contı́nua.

2. O seguinte diagrama comuta:


f
X2
?
h  p2

 
f1
X p1
/X

isto é, p2 ◦ h = p1 .

Note que p2 ◦ h = p1 implica em que h : p−1 −1


1 (x) −→ p2 (x) seja uma bijeção.

 
Proposição 5.2. Sejam X f1 , p1 , X e X f2 , p2 , X recobrimentos tais que X f1 e Xf2 são conexos
e localmente conexos por caminhos. Dados xe1 ∈ X f1 , xe2 ∈ X f2 e x0 ∈ X arbitrários, tais que
 
p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ) = x0 e se p1∗ π1 X f1 , xe1 ⊂p2∗ π1 X f2 , xe2 , então existe h : X
f1 −→ X f2
contı́nua tal que h(xe1 ) = xe2 e o seguinte diagrama comuta:

f
X2
?
h  
p2

 
f1
X p1
/X

Isto é, p2 ◦ h = p1 e h é um homomorfismo de recobrimento.



Prova : Utilizaremos o teorema 5.4. O recobrimento X f1 , p1 , X possui a propriedade
dos levantamentos. Denotemos por pe1 o único levantamento de p1 :

f
X2
pe1 ?
 p2

 
f1
X p1
/X

tal que p2 ◦ pe1 = p1 . Definamos h = pe1 .


5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 97

Exemplo 5.4.
[1] Sejam p1 : S 1 −→ S 1 e p2 : S 1 −→ S 1 definidas por p1 (z) = z 6n e p2 (z) = z 2n ,
respectivamente.
 
Como p1∗ π1 S 1 , z0 ≃ 6 Z e p2∗ π1 S 1 , z0 ≃ 2 Z, temos:
 
p1∗ π1 S 1 , z0 ≃ 6 Z ⊂ p2∗ π1 S 1 , z0 ≃ 2 Z.
Pela proposição anterior segue que existe h homomorfismo de recobrimentos, onde
temos o seguinte diagrama comutativo:
1
S
}>
h }}} p2
}}
}} 
S1 p1
/ S1

Note que h : S 1 −→ S 1 é tal que h(z) = z 3 .


Em geral, sejam:
pm , pn : S 1 −→ S 1 ,
onde pm (z) = z m e pn (z) = z n ; n, m ∈ Z. A existência do levantamento é equivalente a
que  
pm∗ π1 S 1 , z0 ≃ m Z ⊂ pn∗ π1 S 1 , z0 ≃ n Z,
o qual é equivalente a que n divide m, isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
1
S
}>
h }}} pn
}}
}} 
S1 pm
/ S1

onde h(z) = z m/n .


[2] Sejam p1 : R2 −→ T2 e p2 : S 1 × R −→ T2 tais que
p1 (s, t) = (exp(s), exp(t)) e p2 (z, t) = (z, exp(t)),
respectivamente.
 
Como p1∗ π1 R2 , t0 ≃ {0} ⊕ {0} e p2∗ π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) ≃ Z ⊕ {0}, temos:
 
p1∗ π1 R2 , t0 ≃ {0} ⊕ {0} ⊂ p2∗ π1 S 1 × R, (z0 , t0 ) ≃ Z ⊕ {0}.
Pela proposição anterior temos que existe h homomorfismo de recobrimentos, onde
temos o seguinte diagrama comutativo:
S; 1 × R
v
h vvv p2
vv
v
vv 
R2 p1
/ T2

Note que h : R2 −→ S 1 × R é tal que h(s, t) = (exp(s), t).


98 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
 
Proposição 5.3. Sejam X f1 , p1 , X e X
f2 , p2 , X recobrimentos e h : X
f1 −→ X
f2 um homo-

morfismo; então Xf1 , h, X
f2 é um recobrimento.

Prova : Note que todo x ∈ X possui uma vizinhança conexa por caminhos que é
uma vizinhança distinguida para cada recobrimento. De fato, escolhemos U1 e U2
vizinhanças distinguidas de x de cada recobrimento; então consideramos U = U1 ∩ U2 .
Provaremos que h é sobrejetiva. Isto é, provaremos que para todo ye ∈ X f2 , existe x
e∈X f1
tal que h(ex) = ye. Fixemos xe1 ∈ Xf1 e seja xe2 = h(xe1 ), x0 = p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ); denotemos
por α um caminho em X f2 tal que α(0) = xe2 e α(1) = ye. Agora consideramos β = p2 ◦ α
um caminho em X; então existe, um único levantamento γ tal que γ(0) = xe1 e que
satisfaz a p1 ◦ γ = β. Seja xe = γ(1). Logo, os caminhos h ◦ γ e α tem o mesmo ponto
inicial e p2 ◦ (h ◦ γ) = p2 ◦ α; pela unicidade do levantamento temos h ◦ γ = α, logo
x) = ye.
h(e

 
f1 , p1 , X e X
Definição 5.2. Dados os recobrimentos X f2 , p2 , X , a função

f1 −→ X
h:X f2

é um isomorfismo de recobrimento, se:

1. h é um homeomorfismo.

2. O seguinte diagrama comuta:


f
X2
?
h  
p2

 
f1
X p1
/X

isto é, p2 ◦ h = p1 .

Observações 5.2.
 
f1 , p1 , X e X
1. Se existe isomofismo entre X f2 , p2 , X , dizemos que os recobrimentos
são isomorfos.
2. Os isomorfismos de recobrimentos também são chamados transformações de reco-
brimentos.

 
Proposição 5.4. Sejam Xf1 , p1 , X e X
f2 , p2 , X recobrimentos tais que X
f1 e X
f2 são co-
nexos e localmente conexos por caminhos. Dados xe1 ∈ X f1 , xe2 ∈ X
f2 e x0 ∈ X tais que
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 99
 
f1 , xe1 = p2∗ π1 X
p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ) = x0 e se p1∗ π1 X f2 , xe2 , então existe h : X
f1 −→ X
f2
homeomorfismo tal que h(xe1 ) = xe2 e o seguinte diagrama comuta:

X2 f
?
h  p2

 
f1
X p1
/X

isto é, p2 ◦ h = p1 e h é um isomorfismo de recobrimento.

Prova : Novamente utilizaremos o teorema 5.4. Ambos os recobrimentos possuem a


propriedade dos levantamentos. Denotemos por pe1 e pe2 os únicos levantamentos de p1
e p2 , tais que os seguintes diagramas comutam:

f f
? X2 ? X1
pe1  pe2 
p2 p1
 
   
f1
X p1
/X f2
X p2
/X

isto é, p2 ◦ pe1 = p1 e p1 ◦ pe2 = p2 . Denotemos por:

f1 −→ X
f = pe2 ◦ pe1 : X f1 ;

logo, f (xe1 ) = (pe2 ◦ pe1 )(xe1 ) = pe2 (xe2 ) = xe1 . Então, f = idXf1 e, consequentemente, pe1 é
injetiva e pe2 sobrejetiva. Analogamente, definimos:

f2 −→ X
g = pe1 ◦ pe2 : X f2 ;

temos que g = idXf2 e, consequentemente, pe2 é injetiva e pe1 sobrejetiva. Definimos


h = pe1 .
Em particular, temos o seguinte corolário:
 
Corolário 5.4. Sejam Xf1 , p1 , X e X
f2 , p2 , X recobrimentos tais que X
f1 e X
f2 são simples-
mente conexos e localmente conexos por caminhos. Então, existe um homeomorfismo, tal que o
seguinte diagram comuta:
f2
X
?
h  p2

 
f1
X p1
/ X

O seguinte corolário é uma recı́proca da proposição anterior.


100 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
 
Corolário 5.5. Sejam X f1 , p1 , X e Xf2 , p2 , X recobrimentos tais que X f1 e X
f2 são conexos
e localmente conexos por caminhos. Dados xe1 ∈ X f1 , xe2 ∈ X f2 e x0 ∈ X tais que p1 (xe1 ) =
= p2 (xe2 ) = x0 , se existe h : Xf1 −→ X f2 homeomorfismo tal que p2 ◦ h = p1 e h(xe1 ) = xe2 ,
então:  
f1 , xe1 = p2∗ π1 X
p1∗ π1 X f2 , xe2

O seguinte teorema determina completamente os possı́ves recobrimentos de um espa-



e x
ço, salvo isomorfismos, pela classe de conjugação de p∗ π1 X, e .
 
Teorema 5.6. Os recobrimentos X f1 , p1 , X e X
f2 , p2 , X são isomorfos se, e somente se
para todos xe1 ∈ X f1 , xe2 ∈ X f2 e x0 ∈ X tais que p1 (xe1 ) = p2 (xe2 ) = x0 , os subgrupos
  
p1∗ π1 Xf1 , xe1 e p2∗ π1 X f2 , xe2 estão na mesma classe de conjugação em π1 X, x0 .

Prova A prova segue do corolário anterior e do teorema 5.4.

Observações 5.3.
e =X
1. Se X f f
 1 = X2 , os isomorfismos são chamados automorfismos do recobrimento
e
X, p, X .

e formam um grupo com a
2. Não é difı́cil provar, que os automorfismos de X, p, X
composta de funções. Denotemos este grupo por:

e = {h : X
Aut X, p, X e −→ X
e / h isomorfismo tal que p ◦ h = p}.

e define uma permutação em cada fibra p−1 (x).
3. Cada h ∈ Aut X, p, X

e é um Aut X, p, X
4. Note que X e -espaço com a ação:

e ×X
∗ : Aut X, p, X e −→ Xe
x) −→ h ∗ x
(h,e e = h(e
x)

Dos teoremas anteriores, segue imediatamente:



Corolário 5.6. Sejam X, p, X e ex e Um automorfismo h é completamente determinado
e ∈ X.

pelo valor h(e e com h1 (e
x). Isto é, se h1 , h2 ∈ Aut X, p, X x) = h2 (e
x), então h1 = h2 .

Note que se x0 ∈ X e xe0 ∈ p−1 (x0 ), então h(xe0 ) ∈ p−1 (x0 ). Utilizando este corolário
podemos construir automorfismos, pois, os automorfismos são completamente deter-
minados por seus possı́veis valores na fibra. Sejam x0 ∈ X e xe0 ∈ p−1 (x0 ). Podemos
construir os automorfismos associando a h(xe0 ) os possı́veis valores em p−1 (x0 ).
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 101

Exemplo 5.5.

[1] Seja R, exp, S 1 ; então para cada n ∈ Z, temos:
Tn : R −→ R
x −→ x + n.
As translações Tn são automorfismos tais que Tn (0) = n, para todo n ∈ Z. Por outro
lado sabemos que exp−1 (1) ≃ Z. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos;
então: 
Aut R, exp, S 1 = {Tn / Tn (x) = x + n, n ∈ Z, x ∈ R}.

[2] Seja R2 , p, T2 ; então, para cada (n, m) ∈ Z × Z, temos:
Tn,m : R2 −→ R2
(x, y) −→ (x + n, y + m).
As translações Tn,m são automorfismos tais que Tn,m (0, 0) = (n, m), para todo (n, m) ∈
Z × Z. Por outro lado sabemos que p−1 (1) ≃ Z × Z. Logo, estes são todos os possı́veis
automorfismos; então:

Aut R2 , p, T2 = {Tn,m / Tn,m (x, y) = (x + n, y + m), (n, m) ∈ Z2 , (x, y) ∈ R2 }.

[3] Em geral, seja Rn , p, Tn ; então, para cada v ∈ Zn , temos:
Tv : Rn −→ Rn
x −→ x + v.
As translações Tv são automorfismos tais que Tv (0, 0) = v, para todo v ∈ Zn . Por outro
lado sabemos que p−1 (1) ≃ Zn . Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos;
então: 
Aut Rn , p, Tn = {Tv / Tv (x) = x + v, v ∈ Zn , x ∈ Rn }.

[4] Seja PRn , Π, S n . Como sabemos Π−1 (1) ≃ Z2 . Logo, estes são todos os possı́veis
automorfismos; então: 
Aut PRn , Π, S n = {id, a},
onde a é função antı́poda.

[5] Sejam X, Π, M , onde M é a faixa de Möebius e X = R × (−1, 1); então para cada
n ∈ Z, temos:
Tn : R × (−1, 1) −→ R × (−1, 1)
(x, y) −→ (x + n, (−1)n y).
Tn são automorfismos tais que Tn (0, 0) = (n, 0), para todo n ∈ Z. Por outro lado
sabemos que Π−1 (1) ≃ Z. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos; então:

Aut X, Π, M = {Tn / Tn (x, y) = (x + n, (−1)n y), n ∈ Z, (x, y) ∈ X}.
102 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Teorema 5.7. Se X e é conexo e localmente conexo por caminhos, então Aut X,
e p, X atua de
e Em particular:
forma totalmente descontı́nua sobre X.
 
Π:X e −→ X e Aut X,e p, X

é um recobrimento.

Prova : Sejam x e e U uma vizinhança distinguida de p(e


e∈X x) = x; então:
 [
p−1 U = Vj ,
j∈J

onde Vj são disjuntas aos pares e cada Vj é homeomorfa a U. Logo, existe um k ∈ J tal

e p, X :
e ∈ Vk . Seja h ∈ Aut X,
que x
i) Se h(e
x) = x e, então sabemos que h = idXe . Veja o capı́tulo anterior.

ii) Se h 6= idXe , como p h(ex) = p(e
x) segue que h(e x) ∈ Vs , para algum s ∈ J.
iii) Se Vk = Vs , então h(e e. Logo, se h 6= idXe , então x
x) = x e ∈ Vk e h(ex ) ∈ Vs e Vk ∩
Vs = ∅. Por outro lado, U é conexo por caminhos pois X e e X são localmente conexos
por caminhos
 e os Vj também são conexos por caminhos. Por outro lado, note que
(p ◦ h) Vk = U e:
 [
h Vk ⊂ Vj ;
j∈J
 
como h(e x) ∈ Vs , para algum x e ∈ Vk , temos que h Vk ⊂ Vs ; logo Vk ∩ h Vk = ∅; a ação
é totalmente descontı́nua.

Teorema 5.8. Se X e é conexo e localmente conexo por caminhos e p∗ π1 X,
e xe0 é um subgrupo

normal de π1 X, x0 , então:
 
X∼=X e Aut X,
e p, X ,
onde ∼= denota homeomorfismo.
 
e xe0
Prova : Se p∗ π1 X, é um subgrupo normal de π1 X, x0 , sabemos que:
 
e xe0 = p∗ π1 X,
p∗ π1 X, e xe1 , para todo x1 ∈ p−1 (x0 ).

Logo, existe h ∈ Aut X,e p, X tal que h(xe0 ) = xe1 . Reciprocamente, se h(xe0 ) = xe1
 
para algum h ∈ Aut X, e p, X , então p(xe0 ) = p(xe1 ). Isto é, o grupo Aut X,
e p, X iden-
tifica cada elemento de X e da mesma forma que os identifica a aplicação de recobri-
 
mento p. Logo, existe uma bijeção entre X e X e Aut X, e p, X . Por outro lado, X e
 
Xe Aut X, e p, X tem a topologia quociente determinada por p e Π, respectivamente.
Logo:
 
X∼
=X e Aut X, p, X e .
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 103

Corolário 5.7. Seja X, p, Xe um recobrimento tal que X
e é conexo e localmente conexo por
 
e xe0 é um subgrupo normal de π1 X, x0 , onde p(xe0 ) = x0 , então
caminhos. Se p∗ π1 X,
  
π1 X, x0 p∗ π1 X,e xe0 ≃ Aut X, e p, X .

e é simplesmente conexo, então:


Em particular, se X
 
π1 X, x0 ≃ Aut X, e p, X .

Exemplo 5.6.

[1] Seja Rn , p, Tn . Como Rn é simplesmente conexo, temos que:
 
Zn ∼
= π1 Tn , x0 ∼= Aut Rn , p, Tn .

Por outro lado, sabemos que:



Aut Rn , p, Tn = {Tv (x) = x + v / v ∈ Zn , x ∈ R}.

Logo, pelo teorema 5.8, obtemos novamente que:



Rn Zn ∼
= Tn .


[2] Seja PRn , Π, S n . Como S n é simplesmente conexa (n > 1), temos que:
 
Z2 ∼
= π1 PRn , x0 ∼ = Aut PRn , Π, S n .

Por outro lado, sabemos que:



Aut PRn , Π, S n = {id, a},

onde a é a função antı́poda. Pelo teorema 5.8, obtemos novamente que:



S n Z2 ∼
= PRn .

 
[3] Seja S 1 , p, S 1 tal que p(z) = z n , (n ∈ N); então como π1 S 1 , x0 ≃ Z, temos que

p∗ π1 S 1 , x0 ≃ n Z

é normal em Z e:
   
Aut S 1 , p, S 1 ∼= π1 X, x0 p∗ π1 X, e xe0 ≃ Z nZ.

Isto é, Aut S 1 , p, S 1 é um grupo finito de ordem n. Pelo teorema 5.8, obtemos nova-
mente que:  
S 1 Z nZ ∼= S 1.
104 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

[4] Seja X, Π, M , onde M é a faixa de Möebius e X = R × (−1, 1). Como X é simples-
mente conexo, temos que:
 
Z∼ = π1 M, m0 ∼ = Aut X, Π, M .

Por outro lado, sabemos que:



Aut X, Π, M = {Tn / Tn (x, y) = (x + n, (−1)n y), n ∈ Z, x ∈ R}.

Pelo teorema 5.8, obtemos novamente que:



X Z∼ = M.


[5] Seja R2 , Π, K , onde K é a garrafa de Klein. Como R2 é simplesmente conexo,
temos que:  
Aut R2 , Π, K ≃ π1 K, x0 ≃ G,
onde G é o grupo gerado pelos homeomorfismos a, b : R2 −→ R2 definidos por:

a(x, y) = (−x, y + 1) e b(x, y) = (x + 1, y),

com a relação b a b = a. Logo, os automorfismos são:



Aut R2 , Π, K = {Tn,m / Tn,m(x, y) = ((−1)n x + m, y + n), n, m ∈ Z, (x, y) ∈ R2 }.

Note que:

Tn,m (0, 0) = (m, n)


T1,0 (x, y) = a(x, y)
T0,1 (x, y) = b(x, y).

Pelo teorema 5.8, obtemos novamente que:



R2 G ∼
= K.

[6] Seja L(p, q), Π, S 2n+1 . Como S 2n+1 é simplesmente conexo, então:
 
Aut L(p, q), Π, S 2n+1 ≃ π1 L(p, q), x0 ≃ Zp .
Pelo teorema 5.8, obtemos novamente que:

S 2n+1 Zp ∼
= L(p, q).
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 105

Observações 5.4.

1. Sabemos que o teorema 5.6 determina completamente os possı́ves recobrimentos de



um espaço, salvo isomorfismo, pela classe de conjugação dos subgrupos p∗ π1 X, e x
e .
A recı́proca será verdadeira? Isto é, dada uma classe de conjugação de subgrupos de
  
π1 X,e xe existe um recobrimento X, p, X e tal que p∗ π1 X, e x
e pertence a esta classe
de conjugação? Em geral, a resposta a esta questão é negativa.

2. Note que sempre temos o recobrimento X, id, X correspondente à classe de conju-
gação do subgrupo π1 X, x .

Definição 5.3. O recobrimento X, p, X e é dito universal de X, se X
e é conexo, localmente
conexo por caminhos e simplesmente conexo.

Exemplo 5.7.

[1] R, exp, S 1 é o recobrimento universal de S 1 .

[2] Analogamente, R2 , (exp, exp), T2 é o recobrimento universal de T2 .

[3] Em geral, Rn , (exp, . . . , exp), Tn é o recobrimento universal de Tn .

[4] S 1 × R, (id, exp), T2 não é um recobrimento universal de T2 .

[5] X, Π, M , onde M é a faixa de Möebius e X = R×(−1, 1) é o recobrimento universal
de M.

[6] R2 , Π, K , onde K é a garrafa de Klein, é o recobrimento universal de K.

O recobrimento universal é associado ao subgrupo {e} ⊂ π1 X, x .
O número de folhas do recobrimento  universal é a ordem do grupo
 fundamental da
n
base. Por exemplo, R, exp, S tem infinitas folhas e S , Π, PR , (n > 1) tem 2 folhas.
1 n

 
Proposição 5.5. Seja X, p, Xe recobrimento universal de X. Para todo Xf1 , p1 , X tal que
f1 é conexo, existe h : X
X e −→ X
f1 homomorfismo tal que o seguinte diagrama é comutativo:

f
X1
h 
?
p1

 
e
X p
/X

isto é, p1 ◦ h = p.

e e xe1 ∈ X
e∈X
Prova : Para todo x f1 tais que p(e
x) = p1 (xe1 ) temos:
 
e x
{0} ≃ p∗ π1 X, f1 , xe1 .
e ⊂ p1∗ π1 X
106 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Pela proposição 5.3 e a proposição anterior, temos que:


 
Dado X, p, X e o recobrimento universal de X, para todo recobrimento X f1 , p1 , X ,

existe homomorfismo h : X e −→ X f1 tal que X, e h, X
f1 é um recobrimento de X
f1 . Isto
justifica o nome de recobrimento universal.

f
X1
h 
?
p1

 
e
X p
/X

Segue diretamente do corolário 5.5, que dois recobrimentos universais de um mesmo


espaço são isomorfos. Neste sentido, o recobrimento universal, se existe, é único.
É possı́vel provar a existência do recobrimento universal de um espaço com hipóteses
bastante gerais.

5.4 Aplicações
Um problema bastante complicado é determinar todos (a menos de isomorfismo) os
recobrimentos de um espaço dado. Neste parágrafo, estudaremos alguns exemplos
com a hipótese de que o espaço de recobrimento é conexo. Utilizaremos o seguinte
corolário dos parágrafos anteriores.

Teorema 5.9.

Seja X conexo e localmente conexo por caminhos possuindo recobrimento universal


  
e . Dado G ⊂ π1 X, x0 um subgrupo, existem um recobrimento X
X, p, X eG , p, X e
y0 ∈ p−1 (x0 ), tais que:

eG , y0 = G.
p∗ π1 X

  
e p, X são isomorfos. Seja G ⊂ π1 X, x0 um
Prova : Sabemos que π1 X, x0 e Aut X,

subgrupo e consideremos G′ ⊂ Aut X,e p, X o subgrupo correspondente, dado pelo
isomorfismo; denotemos por:

XeG = X e G′ .
A relação de equivalência está definida por:

x∼y se, e somente se, existe g ∈ G′ tal que g(x) = y.

eG a topologia quociente determinada pela projeção canônica:


Demos a X

e −→ X
Π:X eG .
5.4. APLICAÇÕES 107

Definamos a seguinte aplicação:

eG −→ X
pG : X
G′ x
e −→ p(e
x).

Isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:

e
XG
~?
Π ~~~
pG
~~~
~ 
e
X p
/X

x), onde h ∈ G′ ; como G′ é um


e é da forma h(e
De fato, todo elemento da orbita de x
subgrupo de automorfismos, temos que:

(p ◦ h)(e
x) = p(e
x),

então pG ◦ Π = p. Logo, pG é bem definida e sobrejetiva. Por outro lado, G′ age de


forma totalmente descontı́nua; pelo que foi visto nos parágrafos anteriores, pG é um
recobrimento. Em particular pG é um homeomorfismo local; como X é localmante
conexo, então XeG é localmente conexo. X e é simplesmente conexo, X eG é conexo; como
Π é um homomorfismo de recobrimento, em particular, X e é o recobrimento universal
de XeG , logo:

π1 Xe G , y 0 ≃ G′ .

Note que para verificar que p∗ π1 X eG , y0 = G, basta verifica que o seguinte diagrama
comuta:

π1 XeG , y0 −−Ψ −→ G′
 

pG∗ y

yi
 Φ
π1 X, x0 −−−→ H

onde H = Aut X, p, X e , Φ e Ψ são isomorfismos e i é a inclusão. De fato, como
pG∗ = Φ−1 ◦ i ◦ Ψ = Φ−1 ◦ Ψ, então:
 
pG∗ π1 X eG , y0 = Φ−1 Ψ π1 X eG , y0 = Φ−1 G′ ) = G.

Consideremos o diagrama comutativo:

eXG
~?
Π ~ ~
pG
~
~~~
~ 
e
X p
/X
108 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

eG , y0 ; definimos:
tal que p(xe0 ) = x0 , Π(xe0 ) = y0 e pG (y0 ) = x0 . Seja [ξ] ∈ π1 X

σ : I −→ X,

tal que σ = pG ◦ ξ. Note que [σ] ∈ π1 X, x0 , pois σ(0) = pG (ξ(0)) = pG (y0) = x0 e
σ(1) = pG (ξ(1)) = pG (y0 ) = x0 . Consideremos σ e o levantamento de σ a partir de xe0 ,
isto é:
p◦σ e = σ.
Por outro lado, pG ◦ Π = p e p ◦ σ
e = pG ◦ Π ◦ σ
e; logo:

pG ◦ Π ◦ σ
e =p◦σ
e = σ = pG ◦ ξ.

σ (0)) = Π(xe0 ) = y0 . Logo, ξ e Π ◦ σ


Note que Π(e e tem ponto inicial y0 ; então Π ◦ σ
e e ξ são
levantamentos de σ partindo de y0 .
e
σ p
I −−−→ e −−−
X → X
  
  
y Πy yid
ξ
eG −−p−
I −−−→ X G
→ X
Pela unicidade dos levantamentos:

Π◦σ
e = ξ.

Logo, σe é um levantamento em X e de ξ; então [Π ◦ σ


e] = [ξ]. Como σe e ξ são levantamen-
tos em X, as imagens Ψ([ξ]) e Φ([σ]) são unicamente determinadas por xe0 e σ e(1). Logo,
Φ([σ]) = σ e(1) = Ψ([ξ]). Por outro lado, Φ([σ]) = Φ(pG∗ ([ξ])); então:

Φ(pG∗ ([ξ])) = Ψ([ξ]).

5.5 Recobrimentos de Sn, (n > 1)


Seja S n ⊂  Rn+1 , (n ≥ 2) a esfera unitária. Como S n é simplesmente conexa, então
π1 S n , z0 ≃ {e}, (n ≥ 2). Logo, temos que, o único subgrupo possı́vel é o subgrupo
trivial, o qual é associado ao recobrimento universal.

De fato: X eG = S n {e} = S n é o recobrimento universal e:

id : S n −→ S n ,

é o único recobrimento de S n , (n > 1).



Logo, todo recobrimento X, e p, S n é isomorfo a este recobrimento.
5.6. RECOBRIMENTOS DOS ESPAÇOS LENTICULARES 109

5.6 Recobrimentos dos Espaços Lenticulares



Seja L(p, q1 , . . . , qn ) = S 2n+1 Zp o espaço lenticular. Sabemos que

π1 L(p, q1 , . . . , qn ), y0 ≃ Zp ,

onde p é um número primo e os qi são inteiros, primos relativos com p. Logo, os únicos
subgrupos de Zp são {e} e Zp , então:

i) O recobrimento universal: X eG = S 2n+1 {e} ∼= S 2n+1 , e:

Π : S 2n+1 −→ L(p, q1 , . . . , qn ),

onde Π é a projeção canônica.



eG = S 2n+1 Zp ∼
ii) O outro recobrimento é X = L(p, q1 , . . . , qn )), e:

id : L(p, q1 , . . . , qn ) −→ L(p, q1 , . . . , qn ).


e p, L(p, q) é isomorfo a um destes recobrimentos.
Logo, todo recobrimento X,

5.7 Recobrimentos do Espaço Projetivo Real



Seja PRn , (n ≥ 2) o espaço projetivo real. Sabemos que π1 PRn , p0 é um grupo finito
de ordem 2, isomorfo a Z2 . Por outro lado Z2 admite somente dois subgrupos: {e} e
Z2 . Então, temos:

eG = S n {e} = S n é o recobrimento universal:
i) X

Π : S n −→ PRn ,

onde Π é a projeção canônica. O grupo de automorfismos é:


 
π1 PRn , p0 ≃ Aut S n , Π, PRn = {id, a},

onde a é a função antı́poda.



eG = S n Z2 = PRn e:
ii) X
id : PRn −→ PRn ,
é recobrimento trivial.

e p, PRn é isomorfo a um destes recobrimentos.
Logo, todo recobrimento X,
110 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

5.8 Recobrimentos do Cı́rculo



Sejam S 1 ⊂ C e z0 = (1, 0). Sabemos que π1 S 1 , z0 é um grupo cı́clico infinito, isomorfo
a Z. Os subgrupos de Z são do tipo: Gn = n Z, (n ≥ 0).
e = R é o recobrimento universal de S 1 que é associado ao subgrupo {e}, onde:
i) X
exp : R −→ S 1 .

e ′ = R {e} ≃ R. O grupo de automorfismos é:
De fato, X G

Aut R, Π, S 1 = {Tk (z) = z + k / k ∈ Z, z ∈ S 1 }.
Note que exp ◦ Tk = exp, para todo k ∈ Z.

eG′ = R G′ ≃ S 1 ; logo, temos:
ii) Se G′ ≃ Z, então X
id : S 1 −→ S 1 ,
o recobrimento trivial.
iii) Os subgrupos Gn = nZ, ( n ∈ N) são associados aos recobrimentos:
pn :S 1 −→ S 1
z −→ z n .
De fato, o subgrupo Gn tem como subgrupo correspondente pelo isomorfismo:

Gn = {Tn (z) = z + n / n ∈ Z, z ∈ S 1 }.
Logo:

e G = R G′ ≃ S 1 ,
X n
pois:
x ∼ x + n, n ∈ Z.
Por exemplo, seja o subgrupo 4 Z que tem como subgrupo correspondente pelo iso-
morfismo:

G4 = {T4 (z) = z + 4 / z ∈ S 1 }.
 ′
Todos os pontos de R são equivalentes a um elemento de [0, 4] por G4 ; logo R G4 é

[0, 4], salvo 0 e 4 que são equivalentes, isto é:


 ′
R G4 ≃ S 1 .
Note que a aplicação T4 : R −→ R induz p4 , que corresponde a dar 4 vezes a volta ao
redor do cı́rculo.
T4
R −−− → R
 
 
y y
p4
S 1 −−−→ S 1

e p, S 1 é isomorfo a um destes recobrimentos.
Logo, todo recobrimento X,
5.9. RECOBRIMENTOS DO TORO 111

5.9 Recobrimentos do Toro



Sejam T2 o toro e z0 = (0, 0). Sabemos que π1 T2 , z0 é um grupo cı́clico infinito com 2
geradores, isomorfo a Z × Z. Logo, os possı́veis subgrupos são:

i) Subgrupos cı́clicos com um gerador.

ii) Subgrupos cı́clicos com dois geradores.



eG = R2 G0,0 ∼
O recobrimento universal do toro: X = R2 :

Π : R2 −→ T2 .

O grupo de automorfismos é:



Aut R2 , Π, S 1 × S 1 = {Tk,l (x, y) = (x + k, y + l) / k, l ∈ Z, (x, y) ∈ R2 }.

Compondo com o homeomorfismo: T2 ∼


= S 1 × S 1 , temos:

p : R2 −→ T2
(s, t) −→ (exp(s), exp(t)).

i) Subgrupos gerados por um gerador.

Os subgrupos gerados por vetores paralelos a (1, 0): Gk,0 (k ≥ 1) tem como subgrupo
correspondente pelo isomorfismo:

Gk,0 = {Tk (x, y) = (x + k, y) / k ∈ Z, (x, y) ∈ R2 },

os quais, são associados aos cilindros. De fato:

(x, y) ∼ (x + k, y), ∀(x, y) ∈ R2 ;

logo:
 ′
R2 Gk,0 = {(x, y) / 0 ≤ x ≤ k} ≃ S 1 × R.

Compondo com o homeomorfismo: T2 ∼


= S 1 × S 1 , temos:

p : S 1 × R −→ T2
(z, t) −→ (z, exp(t)).
112 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

Figura 5.1: Cilindro recobrindo o toro

Analogamente, os subgrupos gerados por vetores paralelos a (0, 1): G0,l (l ≥ 1), tem
como subgrupo correspondente pelo isomorfismo:


G0,l = {Tl (x, y) = (x, y + l) / l ∈ Z, (x, y) ∈ R2 },

os quais, são associados aos cilindros. De fato:

(x, y) ∼ (x, y + l), ∀(x, y) ∈ R2 ;

logo:
 ′
R2 G0,l = {(x, y) / 0 ≤ y ≤ l} ≃ R × S 1 .

Compondo com o homeomorfismo: T2 ∼


= S 1 × S 1 , temos:

p : R × S 1 −→ T2
(t, z) −→ (exp(t), z).
5.9. RECOBRIMENTOS DO TORO 113

Figura 5.2: Cilindro recobrindo o toro

Os subgrupos Gk,l gerados por vetores (k, l) são, em geral, faixas do tipo:
Gk,l = {(x, y) / 0 ≤ (x, y) · (k, l) ≤ k(k, l)k2},
onde · é o produto interno usual do plano.

Figura 5.3:

Logo, após rotações (que são homeomorfismos), obtemos que:


 ′
R2 Gk,l ∼
= C,
114 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

onde C é um cilindro.
Utilizando a estrutura multiplicativa do grupo T2 ∼
=∼= S 1 × S 1 , temos que:

p : C −→ T2
(z, t) −→ (z k e−2πlt , z l e2πkt ).

Se l = 0, temos que (z, t) −→ (z k , e2πkt ) que corresponde ao produto de dois recobri-


mentos, o primeiro finito de S 1 e o segundo o universal.

ii) Subgrupos com dois geradores.


São subgrupos gerados por um par de vetores linearmente independentes. Em geral,
estes subgrupos são associados a retângulos:

Figura 5.4:

Portanto os espaços de recobrimento resultantes são toros. Se o subgrupo é gerado por


vetores (a, b) e (c, d), linearmente independentes e utilizando a estrutura multiplicativa
do grupo T2 ∼ = S 1 × S 1 , temos que:

p : T2 −→ T2
(z, w) −→ (z a w c , z b w d ).

Se c = b = 0, temos que (z, w) −→ (z a , w d ) que corresponde ao produto de dois reco-


brimentos finitos de S 1 .
Distintos pares de geradores geram distintos  subgrupos se o conjunto de geradores
não são equivalentes por Aut R , Π, S × S .
2 1 1

Por exemplo, o subgrupo 3 Z ⊕ {0} × 2 Z ⊕ {0} ≃ 3 Z × 2 Z, tem como subgrupo corres-



pondente pelo isomorfismo a G3,2 , o qual é gerado por:

T3,0 (x, y) = (x + 3 k, y) e T2,0 (x, y) = (x, y + 2 l).


5.9. RECOBRIMENTOS DO TORO 115
 ′
Todo ponto de R2 é equivalente por G3,2 a um ponto de [0, 3] × [0, 2]; logo R2 G3,2 é um

toro.
2

0 3

Figura 5.5: Recobrimento de 6 folhas do toro

A projeção envia os seis retângulos no retângulo original do toro. Logo, é um recobri-


mento de 6-folhas do toro
O subgrupo G gerado por (0, 2) e (1, 1), produz o seguinte recobrimento do toro:

0 1 2

Figura 5.6: Recobrimento do toro


116 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

O número de recobrimentos de k × l folhas é determinado pela fatoração de k × l. Por


exemplo, para recobrimentos de 6 folhas temos:

6 × 1 = 3 × 2 = 2 × 3 = 1 × 6.

Verifique se os recobrimentos anteriores de 6 folhas são isomorfos.



Em geral, se Tn = Rn Zn , então todo recobrimento X,e conexo por caminhos de Tn é:

e ≃ Tm × Rn−m ,
X

onde T0 = {x0 }.

De fato, o recobrimento universal de Tn é Rn . Por outro lado, todo recobrimento X, e


conexo por caminhos é isomorfo a:

Rn G,

onde G é um subgrupo de π1 Tn , (0, . . . , 0) que é isomorfo a Zn . Logo, existem v1 , v2 ,
. . ., vm ∈ Zn linearmente independentes tais que G é gerado por estes vetores. Utili-
zando a mudança de bases para base canônica e1 , e2 , . . . , em de Rm , temos:
 
Rn < e1 , e2 , . . . , em >≃ Rm < e1 , e2 , . . . , em > ×Rn−m ≃ Tm × Rn−m ,

onde < e1 , e2 , . . . , em > é o subgrupo gerado pelos elementos e1 , e2 , . . . , em .

5.10 Recobrimentos da Faixa de Möebius



Seja M a faixa de Möebius. Sabemos que π1 M, z0 é um grupo cı́clico infinito, isomorfo
a Z. Os subgrupos de Z são do tipo: Gn = n Z, (n ≥ 0). Denotemos: X = R × (−1, 1).
e = X é o recobrimento universal de M associado ao subgrupo G0 , onde:
i) X

Π : X −→ M.

e ′ = X {e} ≃ X. O grupo de automorfismos é:
De fato, X G


Aut X, Π, M = {Tk / Tk (x, y) = (x + k, (−1)k y), k ∈ Z, (x, y) ∈ X}.

Note que Tk (0, y) = (k, (−1)k y). Isto é:

(0, y) ∼ (k, (−1)k y).


5.10. RECOBRIMENTOS DA FAIXA DE MÖEBIUS 117

0 1 2

Figura 5.7: Recobrimento universal da faixa de Möebius


eG′ = X G′ ≃ M; logo temos:
ii) Se G′ = Z, então X

id : M −→ M,

o recobrimento trivial.
iii) De forma análoga ao caso do cı́rculo, os subgrupos Gn = nZ ( n ∈ N), são associa-
dos, pelo isomorfismo, a subgrupos:

Gn = {Tn / Tn (x, y) = (x + n, (−1)n y), n ∈ Z, (x, y) ∈ X}.

Logo:
(x, y) ∼ (x + n, (−1)n y).

Os recobrimentos:

e Gn = X G ′ ,
X n

onde todo ponto de X é equivalente a (x, y) com 0 ≤ x ≤ n. Obtemos recobrimentos


de n folhas. Logo:
eGn é um cilindro. De fato:
i) Se n é par, X

(x, y) ∼ (x + n, y).

Por exemplo X 2 Z:
118 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

0 1 2

Figura 5.8: Recobrimento da faixa de Möebius associado a 2 Z

eGn é uma faixa de Möebius. De fato:


ii) Se n é ı́mpar, X

(x, y) ∼ (x + n, −y).

Por exemplo X 3 Z:

0 1 2 3

Figura 5.9: Recobrimento da faixa de Möebius associado a 3 Z


5.11. RECOBRIMENTOS DA GARRAFA DE KLEIN 119

5.11 Recobrimentos da Garrafa de Klein



Seja a garrafa de Klein: K = R2 G, onde G é o grupo gerado pelos homeomorfismos
a, b : R2 −→ R2 definidos por:

a(x, y) = (−x, y + 1) e b(x, y) = (x + 1, y),



tal que b a b = a. Sabemos que π1 K, p0 ≃ G.
Note que se g ∈ G, então g = am bn , m, n ∈ Z de forma única, e:
r
am bn ar bs = am+r b(−1) n+s

m+1
(am bn )−1 = a−m b(−1) n
.

Os possı́veis subgrupos de G são:


i) Os subgrupos cı́clicos do tipo:

Hm,n = (am bn ).

ii) Os subgrupos cı́clicos do tipo:

Hm,n,k = (am bn , bk )

tal que m 6= 0, k > 0 e 0 ≤ n < k.



eG = R2 {e} ∼
O recobrimento universal: X = R2 :

Π : R2 −→ K.

O grupo de automorfismos é:



Aut R2 , Π, K = {Tm,n / Tm,n (x, y) = ((−1)m x + n, y + m), n, m ∈ Z}.

Isto é:
(x, y) ∼ ((−1)m x + n, y + m).

eG = R2 Hm,n e:
i) Consideramos X

p : R2 Hm,n −→ K,

onde p é a projeção canônica.


É possı́vel provar que se m é par, então:

R2 Hm,n ≃ S 1 × R,

e se m é ı́mpar, então: 
R2 Hm,n ≃ M,
120 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

onde M é a faixa de Möebius.


Por exemplo, seja Hm,0 = {Tm,0 (x, y) = ((−1)m x, y + m)}. Logo,

(x, y) ∼ ((−1)m x, y + m), m ∈ Z

Se m é par, (x, y) ∼ (x, y + m), m ∈ Z e:



R2 Hm,0 ≃ S 1 × R.

Se m é ı́mpar, temos:
(x, y) ∼ (−x, y + m), m ∈ Z

logo, R Hm,0 ≃ M.
2

ii) Os subgrupos:
Hm,n,k = (am bn , bk )
tais que m 6= 0, k > 0 e 0 ≤ n < k. Consideramos:

eG = R2 Hm,n,k
X

e a projeção canônica: 
p : R2 Hm,n,k −→ K.
É possı́vel provar que se m é par, então:

R2 Hm,n,k ≃ T2 ,

e se m é ı́mpar, então: 
R2 Hm,n,k ≃ K.
Por exemplo, consideremos o subgrupo Hm,0,k que é gerado pelos automorfismos:

Tm,0 (x, y) = ((−1)m x, y + m)


T0,k (x, y) = (x + k, y).

Então, se m é par:

(x, y) ∼ (x, y + m)
(x, y) ∼ (x + k, y).

Logo: 
R2 Hm,0,k ≃ T2 .

Se m é ı́mpar:

(x, y) ∼ (−x, y + m)
(x, y) ∼ (x + k, y).
5.12. AÇÃO DO GRUPO FUNDAMENTAL SOBRE AS FIBRAS 121

Logo: 
R2 Hm,0,k ≃ K.

O seguinte recobrimento é determinado pelo subgrupo gerado por T2,0 e T1,3 :

0 2

Figura 5.10: Recobrimento da garrafa de Klein

5.12 Ação do Grupo fundamental sobre as Fibras



e um recobrimento. Não é dificil verificar que existe uma ação natural do
Seja X, p, X
grupo fundamental de X sobre as fibras do recobrimento.
Dado x ∈ X, definiremos

∗ : π1 X, x × p−1 (x) −→ p−1 (x)
e) −→ [α] ∗ x
([α], x e=αe(1),

onde αe é o único
 levantamento de α tal que p∗ ([e
α]) = [α] e α e. Claramente, p−1 (x)
e(0) = x
é um π1 X, x -espaço.
Seja X um G-espaço. A ação do grupo G sobre o conjunto X é dita transitiva se para
todo x1 , x2 ∈ X existe g ∈ G tal que g·x1 = x2 . Lembremos que o subgrupo de isotropia
do elemento x0 ∈ X é:
{g ∈ G / g · x0 = x0 }.
122 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL

e um recobrimento. Temos:
Proposição 5.6. Seja X, p, X

1. π1 X, x atua transitivamente sobre p−1 (x).

e ∈ p−1 (x), o subgrupo de isotropia de x
2. Para todo x e x
e é p∗ π1 X, e .
 
3. Para todo h ∈ Aut X, p, X e ,xe ∈ p−1 (x) e [α] ∈ π1 X, x , temos que:

h([α] ∗ x
e) = [α] ∗ h(e
x).

Prova :
e é conexo por caminhos, existe um caminho α
1. Sejam x1 , x2 ∈ p−1 (x), como X e tal que
e(0) = x1 e α
α e(1) = x2 . Definamos α = p ◦ αe, então:

α(0) = p(xe1 ) = x = p(xe2 ) = α(1);



logo, [α] ∈ π1 X, x e [α] ∗ xe1 = xe2 .
2. Segue da definição da ação.

3. Seja [α] ∈ π1 X, x ; denotemos por α e o único levantamento de α tal que αe(0) = x
ee
e = α. Logo, [α]∗e
p◦ α x=α e(1); consideremos h◦ α e
e caminho em X tal que (h◦ α
e)(0) = h(e
x)
e
(h ◦ α
e)(1) = h(eα(1)), então:
 
p h(e α) = p ◦ h ◦ αe = p(eα) = α.

Logo, h(e
α) também é um levantamento de α. Pela definição da ação :

[α] ∗ h(e
x) = h ◦ α
e (1) = h(e
α(1)) = h([α] ∗ x
e).
5.13. EXERCÍCIOS 123

5.13 Exercı́cios

e é dito regular se para algum xe0 ∈ X
1. Um recobrimento X, p, X e o subgrupo

e xe0
p∗ π1 X,
 
é normal de π1 X, x0 . Verifique que se [α] ∈ π1 X, x0 , então todos os levanta-
mentos de α são caminhos fechados ou não são fechados.
 
2. Seja X, p, Xe um recobrimento tal que X = X e G, onde G é um grupo que age

e Prove que X, p, X
de forma totalmente descontı́ua sobre X. e é regular.

3. Seja X = R × [0, 1] ⊂ C e definamos o homeomorfismo

T : X −→ X
z −→ z + 1 + i.
 
SeG é o grupo gerado por T , calcule π1 X G, x0 . (Verifique primeiramente que
X G é homeomorfa à faixa de Möebius).

4. Verifique que o sinal negativo no expoente da primeira componente de

p : C −→ T2
(z, t) −→ (z k e−2πlt , z l e2πkt ).

é coerente com a descrição dos geradores do toro.


124 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Capı́tulo 6

TEOREMA DE SEIFERT - VAN


KAMPEN

6.1 Introdução
O Teorema de Seifert-Van Kampen é um clássico da Topologia Algébrica e é uma fer-
ramenta poderosa, que nos permitirá determinar o grupo fundamental de um espaço
topológico, conhecendo apenas alguns dos grupos fundamentais de subconjuntos es-
peciais do espaço topologico. Por exemplo, considere a figura do número oito. Topo-
logicamente esta figura é homeomorfa a união de dois cı́rculos, disjuntos, salvo num
único ponto em comum; utilizando o Teorema de Seifert-Van Kampen, poderemos de-
terminá-lo a partir do grupo fundamental do cı́rculo.

Figura 6.1: União de dois cı́rculos, com um ponto comum.

O Teorema de Seifert-Van Kampen, tem alguns pré-requisitos da Teoria dos Grupos,que


são necessários para seu completo entendimento. Nos parágrafos seguintes, apresen-
taremos de forma bastante sucintas estes pré-requisitos.

125
126 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

6.2 Grupos Livres


Nesta seção, iniciamos o estudo de alguns conceitos da Teoria dos Grupos, o suficiente
para entender e aplicar o Teorema de Seifert-Van Kampen. Para mais detalhes e/ou
aprofundamentos destes tópicos, veja qualquer livro de Álgebra intermediária.

Definição 6.1. Seja S 6= ∅ um conjunto e F um grupo. Dizemos que F é um grupo livre sobre
S, se existe i : S −→ F injetiva tal que para qualquer função h : S −→ G, onde G é um grupo
arbitrário, existe um único homomorfismo g : F −→ G, tal que o seguinte diagrama comuta:

? F
i  
g
 

S /G
h

Isto é, g ◦ i = h
Não é difı́cil ver que fixado o conjunto S, existe um único grupo livre F , a menos
de isomorfismos. A existência dos grupos livres pode ser vista em qualquer livro de
Álgebra intermediária.
Não é difı́cil ver que o grupo livre G gerado por um único elemento é isomorfo a Z. De
fato a única aplicação injetiva h : {a} −→ Z é dada por h(a) = 1, tal que:

>G
|||
i
| g
||
|| 
{a} /Z
h

Se S é um conjunto finito com n elementos, o grupo livre gerado por S é dito grupo
livre com n geradores. Grupos livres com n > 1 geradores, são grupos infinitos não
abelianos.
A seguinte propriedade caracteriza completamente estes grupos.
Todo grupo é quociente de um grupo livre. De fato. seja G um grupo e S ⊂ G tal que
G =< S >, onde < S > é o grupo gerado por S, logo a inclusão natural i : S −→ G
pode ser unicamente estendida a um homomorfismo sobrejetivo f : F −→ G, onde F
é o grupo livre sobre S. Denotando por R = ker(f ), pelo teorema do isomorfismo de
grupos temos:

F/R ∼
= G.
Dizemos que R é o grupo de relações de G e que S é um sistema ou um conjunto de
geradores de G. O par (S, R) é dito representação do grupo G.
Note que sempre temos o seguinte: se G é o grupo gerado por S; então, (S, ∅) é uma
representação de G.
6.2. GRUPOS LIVRES 127

A representação de um grupo não é única. De fato, os grupos com representações


({x}, ∅) e ({x, y}, y) são isomorfos. Na verdade todo grupo G tem uma representação
(S̄, R̄), para isto, basta considerar:

S̄ = G e R̄ = {(g1 g2 ) g2−1 g1−1 ; g1, g2 ∈ G}.


A partir de agora, utilizaremos as seguintes notações:

g g = g 2 , g −1 g −1 = g −2, em geral g g . . . g = g n , g −1 g −1 . . . g −1 = g −n .
Muitas vezes, por abuso de linguagem, se r ∈ R escreveremos r = 1, pois R = ker(f ).
Seja F um grupo livre sobre S; consideremos seu subgrupo comutador:

R =< a b a−1 b−1 = 1 / a, b ∈ F >;


então, temos que:

G = F/R
é um grupo abeliano livre sobre S. Logo, a inclusão natural i : S −→ G é tal que, dada
h : S −→ H, onde H é um grupo abeliano, existe un homomorfismo g : G −→ H tal
que o seguinte diagrama comuta:

? G
i ~~~ 
g
~~ 
~~
S /H
h

onde g ◦ i = h. É possı́vel provar que esta última propriedade caracteriza os grupos


livres abelianos sobre S.
É comum introduzir as seguintes notações em topologia. Suponha que o conjunto de
geradores é dado por S = {a, b, c} e o grupo de relações R = {a4 b−1 c b8 , a−3 b9 c2 , a3 b c2 }.
O grupo correspondente é denotado por:

< a, b, c / a4 b−1 c b8 = 1, a−3 b9 c2 = 1, a3 b c2 = 1 > .


Por exemplo, não é difı́cil ver que o grupo:

G =< a, b / b2 a = b, b a2 b = a >
é isomorfo ao grupo trivial {1}. De fato, b2 a = b implica b a = 1 ou, equivalentemente
a−1 b−1 = 1; por outro lado, (a−1 b−1 ) b a2 b = a, donde b = 1, logo a = 1.
Considere o grupo Z2 × Z3 gerado pelo par (1, 1) e que existe um único homomorfismo
sobrejetivo:

f : Z −→ Z2 × Z3
128 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

tal que f (1) = (1, 1); por outro lado ker(f ) =< 6 >, logo o grupo Z2 × Z3 tem uma
representação ({a}, < 6 >), multiplicativamente, f (6) = 1 é equivalente a a6 = 1. Se
escolhemos como geradores do grupo Z2 × Z3 os pares (1, 0) e (0, 1) o ker(f ) é gerado
por 2 e 3, a representação é ({a, b}, R) tal que a2 = 1 e b3 = 1.
A seguir apresentamos outros exemplos de representações de grupos:
Se G é um grupo cı́clico de ordem n, então G pode ser escrito como < a / an = 1 >.
Logo:

G∼
= Zn .

Seja o grupo simétrico G = S3 ; temos que:

G =< a, b / a3 = b2 = 1, (a b)2 = 1 > .


Se G é o grupo de simetrias do quadrado; temos que:

G =< a, b / a4 = b2 = 1, (a b)2 = 1 > .


Seja grupo Z2 = Z × Z; temos que:

G =< a, b / a b a−1 b−1 = 1 > .

6.3 Produto Livre de Grupos


Seja G um grupo e {Gα / α ∈ Γ} uma famı́lia de grupos tal que o conjunto dos ı́ndices
Γ pode ser finito ou não. Construiremos um novo grupo G, tal que cada Gα seja um
subgrupo de G, para todo α ∈ Γ.
A famı́lia {Gα / α ∈ Γ} gera o grupo G, se todo elemento de G pode ser escrito como
um produto finito de elementos de Gα . Logo, dado g ∈ G, existem g1ε1 , g2ε2 , . . . gnεn , tal
que:

g = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gnεn , εi ∈ {−1, 1}


e onde cada giεi ∈ Gα , diferente da identidade, para algum α de modo que os elementos
adjacentes a giεi pertencem a diferentes Gα . A expressão g1ε1 g2ε2 . . . . . . gnεn é chamada
palavra de comprimento n em G.
Suponha que temos:
g = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gnεn .
ε
Se giεi e gi+1
i+1
pertencem ao mesmo subgrupo, elas podem ser combinadas num novo
elemento, obtendo uma palavra de comprimento n − 1. Aplicando repetidamente esta
operação, podemos obter uma palavra que não contém dois elementos consecutivos
de um mesmo subgrupo; esta palavra é dita reduzida.
6.3. PRODUTO LIVRE DE GRUPOS 129

Definição 6.2. Seja G um grupo e {Gα / α ∈ Γ} uma famı́lia de subgrupos que geram G.
Gα ∩ Gβ = {e} se α 6= β. Dizemos que G é o produto livre gerado pelos Gα , se para cada g ∈ G
existe uma única palavra reduzida em Gα que representa a g. Em tal caso escrevemos:

Y
G= Gα .
α

No cado finito, escrevemos:

G = G1 ∗ G2 ∗ . . . ∗ Gn .

G é um grupo livre sobre o conjunto das palavras reduzidas. Em resumo, o grupo G é


definido como o conjunto das expressões formais:

g = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gnεn ,

onde cada giεi pertence a algum Gi diferente da identidade e tal que os elementos adja-
centes a giεi pertencem a diferentes Gα .
Note que a operação em G é um produto, por justaposição seguida de uma redução.
De outra forma, o último dos giεi da primeira palavra e o último da segunda podem
estar no mesmo grupo, então elas podem ser combinadas num novo elemento.
ε ε
Por exemplo, se g1 = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gkεk e g2 = gj j gj+1
j+1
. . . . . . gnεn , então
 ε εj+1  ε  εj+1
g1 g2 = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gkεk gj j gj+1 . . . . . . gnεn = g1ε1 g2ε2 . . . . . . gkεk gj j gj+1 . . . . . . gnεn

O elemento identidade de G é a palavra vazia a qual é denotada por 1. É possı́vel


provar, que o produto livre de grupos sempre existe.
O grupo G assim definido, satisfaz à seguinte propriedade universal:
Para todo grupo H e famı́lia de homorfismos hk : Gk −→ H, existe um único homo-
morfismo h : G −→ H tal que h ◦ ik = hk , para todo k; isto é, o seguinte diagrama
comuta:

G
ik ||> 
||  h
|| 
|| 
Gk hk
/ H

onde h(g1 g2 . . . gn ) = h1 (g1 ) h2 (g2 ) . . . hn (gn ).


Em geral, o produto livre de grupos não é um grupo livre. Por exemplo, considere o
produto livre dos grupos Z2 :

Z2 ∗ Z2 =< a, b / a2 = b2 = 1 > .
130 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Logo, para todo g ∈ Z2 ∗ Z2 tal que g 6= 1, o elemento g pode ser escrito, somente como
produto de a e b, pois potências de a e b são triviais; logo os geradores devem aparecer
alternados, por exemplo:

a, b, a b, b a, a b a, a b a b, . . . .
Como a b 6= b a, o grupo é não abeliano e observe que ambos os elementos tem ordem
finita. Por outro lado:

Z2 ∗ Z2 6= Z2 × Z2 .
O grupo Z2 × Z2 é abeliano de ordem 4.

6.4 Produto Amalgamado de Grupos


Nesta seção estudaremos o caso mais simples de produto amalgamado de grupos.
Sejam G0 , G1 e G2 três grupos e os seguintes homomorfismos:

G1
h1 ||>
||
||
||
G0 h2
/G
2

Considere G1 ∗G2 o produto livre dos grupos G1 e G2 e seja N o subgrupo normalizador


de G1 ∗ G2 , isto é, o subgrupo gerado pelas palavras:

{h1 (g)−1 h2 (g) / g ∈ G0 } ⊂ G1 ∗ G2 .

Definição 6.3. O produto amalgamado de G1 e G2 , em relação aos homomorfismos h1 e h2 , se


denota e se define por:

G1 ∗G0 G2 = G1 ∗ G2 N.

Por exemplo, consideremos os seguintes grupos:

Z2 =< z / z 2 = 1 >, Z4 =< a / a4 = 1 > e Z6 =< b / b6 = 1 >


tais que:

Z4
h1 }}>
}}
}}
}}
Z2 h2
/ Z6

onde h1 (z) = a2 e h2 (z) = b3 são os únicos homomorfismos não triviais, então:


6.5. TEOREMA DE SEIFERT-VAN KAMPEN 131

Z4 ∗Z2 Z6 = {a, b / a4 = b6 = 1, x2 = y 3 }.
Denotemos por ik : Gk −→ G1 ∗G2 as inclusões canônicas, k = 1, 2 e por pr : G1 ∗G2 −→
G1 ∗G0 G2 a projeção canônica, então o seguinte diagrama comuta:

G1 NN
v: NNN j
h1 vvv NN1N
vv i1 NNN
vvv  N&
v pr
G0 HH G1 ∗O G2 / G18 ∗ G0 G 2
HH
HH pp pp
HH i2 pppp
h2 HH p j
$ ppp 2
G2
onde ji = pr ◦ i1 , i = 1, 2. O produto amalgamado G1 ∗G0 G2 pode ser considerado
como o produto livre G1 ∗ G2 , módulo a identificação h1 (g) = h2 (g) para todo g ∈ G0 .
Se G0 = {id}, então:

G 1 ∗ G0 G 2 = G 1 ∗ G 2 .
Não é difı́cil ver que:

G1 ∗G0 {1} ≃ G1 e {1} ∗G0 G2 ≃ G2 .


A seguinte propriedade caracteriza completamente o produto amalgamado de grupos.

Propriedade Universal do Produto Amalgamado


Com as notações e definições acima, dado um grupo H arbitrário e ψk : Gk −→ H,
k = 1, 2, homomorfismos tais que ψ1 ◦ h1 = ψ2 ◦ h2 , existe um único homomorfismo
ψ : G1 ∗G0 G2 −→ H tal que ψ ◦ ik = ψk , k = 1, 2 e tal que os seguintes diagramas
comutam:

9 G1 JJ
h1 tttt JJ ψ
JJ 1
tttt i1 JJ
t  JJ
tt ψ J$
G0 JJ G 1 ∗ G
O 0 G 2
_ _ _/ H
t:
JJJ ttt
JJ i2 ttt
t
J
h2 JJJ t ψ2
% tt
G2

6.5 Teorema de Seifert-Van Kampen


Agora apresentaremos o teorema central do capı́tulo
132 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Considermos U, V e U ∩ V conjuntos abertos do espaço topológico X e as inclusões


naturais:

;U
www
ww
ww
ww 
U ∩ VGG /X
O
GG
GG
GG
G#
V

Teorema 6.1. (Seifert-Van Kampen) Sejam X = U ∪ V , onde U, V e U ∩ V são abertos


conexos por caminhos tal que x0 ∈ U ∩ V . Denotemos por:

π1 U, x0
o7
i1
o ooo
o j1
ooooo
i3
 
π1 U ∩ V, x0 / π1 X, x0
OOO O
OOO
OO j2
i2 OOO'

π1 V, x0

os homorfismos induzidos pelas inclusões tal que o diagrama comuta. Dados H um grupo e os
homomorfismos:
 
ψ1 : π1 U, x0 −→ H e ψ2 : π1 V, x0 −→ H,

existe um único homorfismo ψ : π1 X, x0 −→ H tal que o seguinte diagrama comuta:

π1 U, x0
o7 GG
i1 oooo GG ψ1
GG
ooo j1 GG
ooo
i3
  ψ GG#
π1 U ∩ V, x0 / π1 X, x0 _ _ _/ H
;
OOO O ww
OOO www
OO j2 w
i2 OOO' ww ψ2
ww
π1 V, x0

Isto é, ψ ◦ j1 = ψ1 e ψ ◦ j2 = ψ2 .

Em outras palavras:
  
π1 X, x0 ∼= π1 U, x0 ∗π  π1 V, x0 .
1 U ∩V,x0

Ou, equivalentemente:
6.6. REPRESENTAÇÕES 133

  
π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 N ∼
= π1 X, x0
  −1
onde N é o menor subgrupo normal de π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 que contem i1 (α) i2 (α),
para todo α ∈ π1 U ∩ V, x0 .
A seguir, apresentaremos um esboço sucinto, da prova do teorema. Denotemos por:
  
j : π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 −→ π1 X, x0
o homomorfismo induzido pela extensão dos homomorfismos jk , que são sobrejetivos,
logo o homomorfismo
 j é sobrejetivo. Por outro lado N o normalizador de π1 U,  ∗
x0
π1 V, x0 satisfaz N ⊂ ker(j), De fato, provaremos que para todo g ∈ π1 U ∩ V, x0 :

i1 (g)−1 i2 (g) ∈ ker(j).


Pela comutatividade do diagrama, temos que: j(i1 (g)) = j1 (i1 (g)) = i3 (g) = j2 (i2 (g)) =
j(i2 (g)) e N ⊂ ker(j). Logo, j induz um homomorfismo sobrejetivo:
  
f : π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 N −→ π1 X, x0 .
Agora, se devemos provar que essencialmente N = ker(j), utilizando o fato de que f
é um homomorfismo injetivo. Esta parte é bastante longa e ficará fora destas notas.

O teorema de Seifert-Van Kampen, implica em que a classe de laços que gera π1 X, x0
pode ser expressada como produto de classes de laços em π1 U, x0 e π1 V, x0 .

Corolário 6.1. Nas hipóteses do teorema de Seifert-Van Kampen, se U e V são simplesmente


conexos:

π1 X, x0 ∼= {e}.

Corolário 6.2. Nas hipóteses do teorema de Seifert-Van Kampen, se U ∩ V é simplesmente


conexo:
  
π1 X, x0 ∼= π1 U, x0 ∗ π1 V, x0 .

6.6 Representações
Suponha que conhecemos as representações dos grupos envolvidos no Teorema de
Seifert-Van Kampen:


π1 U ∩ V, x0 =< S, R >

π1 U, x0 =< S1 , R1 >

π1 V, x0 =< S2 , R2 >
134 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Consideremos o diagrama comutativo, induzido pelas inclusões naturais:



π1 U, x0
o7
i1o ooo
o j1
ooooo
i3
 
π1 U ∩ V, x0 / π1 X, x0
OOO O
OOO
OO j2
i2 OOO'

π1 V, x0
 
Seja s ∈ S, logo i1 (s) ∈ π1 U, x0 e i2 (s) ∈ π1 V, x0 , então podemos escrever estes
elementos nos respectivos grupos, utilizando os respectivos geradores de cada grupo.
Denotemos por id d
1 (s) e i2 (s) estes elementos. Definamos:

RS = {id d
1 (s) = i2 (s) / s ∈ s}.

Então, o teorema de Seifert- Van Kampen, fica:


Teorema 6.2. Nas hipóteses do teorema de Seifert- Van Kampen e notações anteriores, temos
que:

π1 X, x0 ∼=< S ∗ , R∗ >,
onde:

S ∗ = S1 ∪ S2 e R∗ = R1 ∪ R2 ∪ RS ,

Note que o conjunto
 de relações R de π1 U ∩ V, x0 não é utilizado na determinação do
grupo π1 X, x0 .

6.7 Primeiras Aplicações


[1] Provaremos que S 2 é simplesmente conexo para n ≥ 2. Isto é:

π1 S n , p0 ∼= {e}, ∀n ≥ 2.
Sejam pN e pS os polos norte e sul de S n ; consideremos U = S n − {pN } e V = S n − {ps },
ambos conjuntos abertos e conexos por caminhos.
Por outro lado, U e V são homemorfos a Rn , via a aplicação estereográfica, logo sim-
plesmente conexos. O conjunto aberto U ∩ V é conexo por caminhos para n ≥ 2; note
que tem o mesmo tipo de homotopia que S n−1 . Aplicando o primeiro corolário do
Teorema de Seifert-Van Kampen, temos o resultado.

[2] Denotemos o espaço obtido pela união disjuntas de 2 cópias, disjunta e homeomor-
fas a S 1 , com um ponto em comum p, por S 1 ∨p S 1 ; então:
6.7. PRIMEIRAS APLICAÇÕES 135


π1 S 1 ∨p S 1 , p ∼= Z ∗ Z.
De fato, podemos considerar as seguintes cópias, homeomorfas a S 1 :

A = {(x, y) / (x − 1)2 + y 2 = 1} e B = {(x, y) / (x + 1)2 + y 2 = 1}.


Sejam q1 ∈ A e q2 ∈ B tal que q1 6= p e q2 6= p.

q p q
1 2

Figura 6.2: O espaço S 1 ∨p S 1

Denotemos por U = P2 −{q1 } e V = P2 −{q2 } ambos os conjuntos abertos e conexos por 


1
caminhos.
 Os dois conjuntos, tem o mesmo tipo de homotopia de S , então π1 U, p =

π1 V, p = Z.

p q2

Figura 6.3: O conjunto U

Por outro lado:

S 1 ∨p S 1 = U ∪ V.
U ∩ V é simplesmente conexo e p ∈ U ∩ V :

Figura 6.4: O conjunto U ∩ V

Logo, pelo segundo corolário do Teorema de Seifert-Van Kampen:


136 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN


π1 S 1 ∨p S 1 , p ∼= Z ∗ Z.

Interpretação Geométrica do Resultado


 
π1 U, p é um grupo cı́clico gerado pela classe de homotopia a = [α] e π1 V, p é um
grupo cı́clico gerado pela classe de homotopia b = [β], como no desenho:

β p α

Figura 6.5: Os geradores

O segundo
 corolário do Teorema de Seifert-Van Kampen nos indica que o grupo π1 S 1 ∨p
S 1 , p é gerado por potências de a e b. Por exemplo, o elemento:

a3 b2 a−2 ∈ π1 S 1 ∨p S 1 , p

corresponde a classe de homotopia do laço obtido percorrendo 3 vezes, ao redor de U


o laço α seguido de percorrer 2 vezes o laço β, ao redor de V e finalmente, o laço α é
percorrido uma vez, no sentido contrário em U.

Agora estudemos o caso de três cópias de S 1 unidas por um ponto comum p:

S 1 ∨p S 1 ∨p S 1 .
Consideremos U, V e U ∩ V como nos desenhos:

U V

Figura 6.6: Os conjuntos U e V


6.7. PRIMEIRAS APLICAÇÕES 137

Figura 6.7: O conjunto U ∩ V

U é um conjunto aberto e conexo por caminhos, que tem o mesmo tipo de homotopia
de
S 1 ∨p S 1 , V é um conjunto aberto e conexo por caminhos, que tem o mesmo tipo de
homotopia que S 1 , U ∩ V é simplesmente conexo, e:

S 1 ∨p S 1 ∨p S 1 = U ∪ V.
Como p ∈ U ∩ V , pelo segundo corolário do Teorema de Seifert-Van Kampen:

π1 S 1 ∨p S 1 ∨p S 1 , p ∼= Z ∗ Z ∗ Z.
Em geral, por indução, podemos provar que o conjunto formado por n cópias de S 1 ,
com um ponto p em comum:

Pn = S 1 ∨p S 1 ∨p . . . ∨p S 1 ,
tem grupo fundamental:

π1 Pn , p ∼= Z ∗ Z ∗ . . . ∗ Z,
isto é, um grupo livre com n geradores. O espaço Pn é dito buquê de n pétalas.
Utilizando os mesmos argumentos anteriores, se prova o seguinte corolário :

Corolário 6.3. Seja {Xi , i = 1 . . . n} uma famı́lia de espaços topológicos conexos por caminhos
_n
e x ∈ Xi um ponto em comum; se X = Xi , então:
i=1
   
π1 X, x ∼= π1 X1 , x ∗ π1 X2 , x ∗ . . . ∗ π1 Xn , x .

Nos capı́tulos passados, calculamos o grupo fundamental do toro:



π1 T2 , x0 ∼= Z × Z.
Como motivação dos próximos parágrafos, determinaremos novamente o grupo fun-
damental do toro, utilizando o Teorema de Seifert-Van Kampen.
138 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Consideremos, o toro:
b
x1 x1

a a

a b

x1 x1
b

Figura 6.8: O toro T2 tal que a ∼ a e b ∼ b

Sejam dois discos concêntricos, inscritos no retângulo, de raios r2 > r1 > 0, respectiva-
mente. Denotemos por U o complementar, no toro, do disco de raio r2 e V o interior
do disco de raio r1 ; como no seguinte desenho:
b b

a a a a
V
U

b b

Figura 6.9: Os conjuntos U e V

Os conjuntos U, V e U ∩ V são abertos e conexos por caminhos tais que T2 = U ∪ V .

Figura 6.10: O conjunto U ∩ V

Sabemos que U é um retrato por deformação de S 1 ∨p S 1 , veja os desenhos:


6.7. PRIMEIRAS APLICAÇÕES 139

b b
x x0
0
x0

a a
a

b
x0 x
0
b
x0

Figura 6.11: O conjunto U.

x0

a b

Figura 6.12: O conjunto U

V é contráctil e tem o mesmo tipo de homotopia do ponto x0 ∈ U ∩ V , pois é contráctil


e U ∩ V tem o mesmo tipo de homotopia de S 1 ; então:
  
π1 U, x0 ∼= Z ∗ Z, π1 V, x0 ∼= {1} e π1 U ∩ V, x0 ∼= Z.
Logo, temos o seguinte diagrama comutativo:

Z∗Z
u:
i1 uuu
u j1
uu
uuu  
u i3
Z HH / π1 T2 , x0
HH O
HH
HH j2
i2 HHH
#
{1}

Pelo segundo corolário do Teorema de Seifert-Van Kampen:


 
π1 T2 , x0 ∼= Z ∗ Z ∗Z {1}.

Seja z um gerador de π1 U ∩ V, x0 , então i2 (z) = 1 e i1 (z) = a b a−1 b−1 , logo:
 
π1 T2 , x0 ∼= Z ∗ Z ∗Z {1} = {a, b / a b a−1 b−1 = 1} ∼
= Z × Z.
140 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Interpretação Geométrica do Resultado


Seja x0 ∈ U ∩ V , denotemos por δ um caminho entre x0 e x1 , α e β laços em x0 , que
representam a e b, respectivamente e

â = δ ∗ α ∗ δ −1 , b̂ = δ ∗ β ∗ δ −1 ,
como no desenho:
b
x1 x
1

a a

x0
ε
δ

x1 x1
b

Figura 6.13: Laço em U ∩ V



O grupo π1 U, x0 tem como geradores [â] e [b̂]. Como S1 = S2 = ∅, pelo teorema de

Seifert-Van Kampen, temos que π1 T2 , x0 é gerado por [â] e [b̂].

Por outro lado, seja z = [ε] o gerador de π1 U ∩ V, x0 ∼= Z; então:

ε ∼ δ ∗ α ∗ β ∗ α−1 ∗ β −1 ∗ δ −1
∼ (δ ∗ α ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ α−1 ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β −1 ∗ δ −1 )
∼ â ∗ b̂ ∗ â−1 ∗ b̂−1 .

Logo:

i2 (z) = [â] [b̂] [â]−1 [b̂]−1 .


Por abuso de linguagem, denotando a = [â] e b = [b̂], temos o resultado.

De forma completamente análoga, podemos aplicar o teorema de de Seifert-Van Kam-


pen á K, a garrafa de Klein. De fato, utilizando as mesmas notações.
Seja x0 ∈ U ∩ V , denotemos por δ um caminho entre x0 e x1 , α e β laços em x0 , que
representam a e b, respectivamente e

â = δ ∗ α ∗ δ −1 , b̂ = δ ∗ β ∗ δ −1 ,
como no desenho:
6.8. SEGUNDA APLICAÇÃO 141

b
x1 x
1

a a

x0
ε
δ

x1 x1
b

Figura 6.14: O laço na garrafa de Klein


O grupo π1 U, x0 tem como geradores [â] e [b̂]. Como S1 = S2 = ∅, pelo teorema de

Seifert-Van Kampen, temos que π1 T2 , x0 é gerado por [â] e [b̂].

Por outro lado, seja z = [ε] o gerador de π1 U ∩ V, x0 ∼= Z; então:

ε ∼ δ ∗ α ∗ β ∗ α−1 ∗ β ∗ δ −1
∼ (δ ∗ α ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ α−1 ∗ δ −1 ) ∗ (δ ∗ β ∗ δ −1 )
∼ â ∗ b̂ ∗ â−1 ∗ b̂.

Novamente por abuso de linguagem, temos:


π1 K, x0 ∼= {a, b / a b a−1 b = 1}.

Logo, podemos afirmar que o toro e a garrafa de Klein tem tipo de homotopia diferen-
tes. Caso contrário deveriam ter grupos fundamentais isomorfos.

6.8 Segunda Aplicação


Neste parágrafo determinaremos o grupo de homotopia das superfı́cies compactas e
conexas, isto é, variedadedes topológicas de dimensão 2, compactas e conexas.

Todos os resultados e notações utizados neste parágrafo são do livro [MV]. Faremos
algumas simplificações para facilitar sua melhor compreensão.

Essencialmente, conhecemos 4 exemplos de superfı́cies compactas:


142 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN
a a

a
a

Figura 6.15: A esfera e o plano projetivo real, respectivamente

b b

a a a

b b

Figura 6.16: O toro e a garrafa de Klein, respectivamente

A pergunta é, existem outras superfı́cies compactas, diferentes das citadas acima?

6.9 Soma Conexa de Superfı́cies


Sejam S1 e S2 superfı́cies compactas, conexas e disjuntas. Dados xi ∈ Si , i = 1, 2,
existem conjuntos abertos Ui ⊂ Si tal que:

Ui ≃ D e ∂Ui ≃ S 1 , i = 1, 2
onde D é um disco fechado em R2 e ≃ significa homeomorfo.

Definição 6.4. Dado qualquer homeomorfismo h : ∂U1 −→ ∂U2 , a soma conexa das superfı́cies
S1 e S2 é denotada e definida por:
 
S1 #S2 = S1 − U1 ⊔ S2 − U2 ∼
onde x ∼ h(x) para todo x ∈ ∂U1 .
6.9. SOMA CONEXA DE SUPERFÍCIES 143

A soma conexa de superfı́cies independe da escolha dos abertos e dos homeomorfis-


mos, envolvidos. Não é difı́cil ver que S1 #S2 é uma superfı́cie.
Por exemplo consideremos as duas superfı́cies, como no seguinte desenho:

S1
S2

Figura 6.17: S1 − U1 e S2 − U2

De ambas as superfı́cies foram removidos discos e identificadas nos bordos dos discos.
O seguinte desenho é a soma conexa de ambas as superfı́cies.

S1 # S 2

Figura 6.18: A soma conexa S1 #S2

A soma conexa não depende do homeomorfismo da identificação. A soma conexa é


compacta. Fica como exercı́cio que, para toda superfı́cie S:

S#S 2 ≃ S.
É possı́vel verificar que o conjunto de todas as superfı́cies compactas com a soma co-
nexa formam um semigrupo com identidade S 2 , isto é, um monoide.
Sabemos que o toro T2 pode ser representado como espaço quociente de um quadrado,
onde seus lados foram identificados da seguinte forma:
144 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

a a

Figura 6.19: O toro T2 tal que a ∼ a e b ∼ b

É comum em Topologia das Superfı́cies associar a cada superfı́cie uma palavra, a qual
arquiva, de forma únivoca, todas as informações topológicas da superfı́cie.
Estas palavras são formadas pelas letras das arestas na direção indicada pelas setas,
tal quando lidas,adicionamos um expoente -1, caso percorramos a aresta no sentido
contrário.
Na classificação das superfı́cies compactas, as palavras tem um papel central. Existe
uma grande quantidade de propriedades que envolvem as palavras associadas às su-
perfı́cies. Nós apresentaremos apenas exemplos desas palavras.
Note que temos as seguintes palavras:

S2 tem a palavra: a a−1


RP2 tem a palavra: aa
T2 tem a palavra: a b a−1 b−1
K tem a palavra: a b a−1 b.

Determinemos T2 #T2 . Consideremos dois toros disjuntos, representados por:

b d

a a c c

b d

Figura 6.20: Os toros menos um disco

Agora identificamos os bordos dos discos retirados:


6.9. SOMA CONEXA DE SUPERFÍCIES 145

b d

a c

a c

b d

Figura 6.21: Os toros identificados

Finalmente obtemos:
a
b c

a d

b c

Figura 6.22: A superfı́cie T2 #T2 .

Esta superfı́cie tem associada a palavra:

a b a−1 b−1 c d c−1 d−1 .


Identificando os lados, obtemos um bi-toro ou um 2-toro:

d c

a
b

Figura 6.23: O bi-toro T2 #T2


146 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Agora consideremos o plano projetivo real RP2 , que pode ser representado como um
espaço quociente de um disco, com a seguinte identificação:

Figura 6.24: O plano projetivo real RP2

Verefiquemos que:

K = RP2 #RP2 ,

isto é a soma conexa de dois planos projetivos é uma garrafa de Klein.

Consideremos duas cópias disjuntas de RP2 , como no desenho:

a b

a b

Figura 6.25: Os planos projetivos menos um disco

Abramos os discos e deformemos, contı́nuamente, do seguinte modo:


6.9. SOMA CONEXA DE SUPERFÍCIES 147

b
a

Figura 6.26: Os planos projetivos menos um disco

Colando, obtemos:
b

a
b

Figura 6.27: Soma dos planos projetivos

Agora façamos o seguinte corte, introduzindo novos lados c:


b b

a c c
b a b
c
c

a
a

Figura 6.28: Cortando e introduzindo outros lados

Fazendo uma rotaçõ e colamos pelo lado a e obtemos a garrafa de Klein:


148 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

c b c c
a a

b c
b

Figura 6.29: A garrafa de Klein

Mudando c por a, temos:

a a

Figura 6.30: A garrafa de Klein: a b a−1 b.

Um fato surpreendente é que a soma conexa de um toro e uma garrafa de Klein é


homeomorfa à soma conexa de 3 planos projetivos reais:

T2 #RP2 ≃ RP2 #RP2 #RP2 .

Denotemos por:

m T2 = T2 #T2 # . . . #T2 , m-vezes.

A superfı́cie m T2 é dita um m-toro ou toro de genero m.


6.9. SOMA CONEXA DE SUPERFÍCIES 149

Figura 6.31: Um 5-toro

Analogamente definimos:

n RP2 = RP2 #RP2 # . . . #RP2 , n-vezes.

Teorema 6.3. (Teorema de Classifição das Superfı́cies) Toda superfı́cie S, compacta é


homeomorfa a:

S∼
= S 2 #m T2 #n RP2 ,
para algum, m ≥ 0 e n ≥ 0.

Uma superfı́cie é dita orientável se não contem uma faixa de Möebius. Caso contrário
é dita não orientável.
Por exemplo, o plano projetivo e a garrafa de Klein são não orientáveis o toro e as
esferas são orientáveis.
a b

Faixa
a Faixa a

a b

Figura 6.32: O plano projetivo e a garrafa de Klein

Se S é uma superfı́cie compacta orientável, é possı́vel provar que:

S∼
= S 2 #m T2 .
O número m ≥ 0 é dito genero da superfı́cie. Analogamente, se S é uma superfı́cie
compacta não orientável, é possı́vel provar que:
150 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

S∼
= S 2 #n RP2 .
E o número n ≥ 1 é dito genero da superfı́cie.

6.10 Grupo Fundamental de uma Superfı́cie Compacta


Finalmente, também é possı́vel provar:
Se S uma superfı́cie compacta, orientável de genero m ≥ 1, então, S é homeomorfa ao
espaço quociente obtido de um polı́gono de 4 m lados, identificados aos pares, como
no desenho:
a1

b1 b1

a
a1 2

a
2

Figura 6.33: Polı́gono de 4m lados

A palavra associada a m T2 é:

a1 b1 a−1 −1 −1 −1
1 b1 . . . an bn am bm .

Se S é uma superfı́cie compacta, orientável de genero m ≥ 1; então, a fronteira do


polı́gono de 4m lados tem o mesmo tipo de homotopia que:

S 1 ∨ S 1 ∨ . . . ∨ S 1,
2m vezes.
De forma completamente análoga ao cálculo do grupo fundamental do toro, conside-
remos dois cı́rculos concêntricos, inscritos no polı́gono, de raios r2 > r1 .
Denotemos por U o complemento do disco de maior raio no polı́gono e V o interior do
disco de raio menor. O aberto U tem o mesmo tipo de homotopia que o buquê P2m ; V
tem o mesmo tipo de homotopia de um ponto e U ∩ V tem o mesmo tipo de homotopia
que S 1 .
Por outro lado, U, V e U ∩ V são conexos por caminhos e S = U ∪ V . Então:
6.10. GRUPO FUNDAMENTAL DE UMA SUPERFÍCIE COMPACTA 151


π1 U, x0 ∼= ao grupo livre gerado por 2m elementos a1 , b1 ,. . . am , bm ∼
= Z ∗ Z∗ ...∗ Z

π1 V, x0 ∼= ao grupo trivial {1}

π1 U ∩ V, x0 ∼= ao grupo cı́clico gerado por z

Z∗Z
r8
∗ ...∗ Z
i1 rrr j1
r rr
rrr  
rr i3
Z KKK / π1 S, x0
KKK O
KKK
j2
i2 KKK
K%
{1}
Como antes, i2 (z) = 1 e i1 (z) = a1 b1 a−1 −1 −1 −1 −1 −1
1 b1 a2 b2 a2 b2 . . . am bm am bm . Logo, temos
o seguinte teorema:

Teorema 6.4. Se S = S 2 #m T2 , então:


π1 S, x0 ∼=< a1 , b1 , . . . am bm / a1 b1 a−1 −1 −1 −1 −1 −1
1 b1 a2 b2 a2 b2 . . . am bm am bm = 1 > .

Se S uma superfı́cie compacta não orientável de genero n ≥ 1, então, S é homeomorfa


ao espaço quociente obtido de um polı́gono de 2 m lados, identificados aos pares, como
no desenho:
b1

a1 b1

b2
a1

a
2

Figura 6.34: Polı́gono de 2m lados

A palavra associada a n RP2 é:

a1 a1 b1 b1 . . . an an bn bn .
De forma análoga ao caso orientável, temos:
152 CAPÍTULO 6. TEOREMA DE SEIFERT - VAN KAMPEN

Teorema 6.5. Se S = S 2 #n RP2 , então:


π1 S, x0 ∼=< a1 , a2 , . . . an / a1 a1 a2 a2 a3 a3 . . . an an = 1 >

=< a1 , a2 , . . . an / a21 a22 a23 . . . a2n = 1 > .

Por exemplo:

π1 RP2 , x0 ∼=< a, a2 = 1 >∼
= Z2 .
Bibliografia

[MV] Vilches M.: Topologia Geral, Edição online: [Link]/˜calculo

[GG] Godbillon C: Elèments de Topologie Algèbrique, Boston, Allyn & Bacon

[EL2] Lima E.: Espaços de Recobrimento, Projeto Euclides, Impa - Brasil

[CK] Kosniowski C: A First Course in Algebraic Topology, Cambridge Univ. Press

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