Topalg
Topalg
ALGÉBRICA
Mauricio A. Vilches
PREFÁCIO
Mauricio A. Vilches
Rio de Janeiro
4
Conteúdo
1 Homotopia 7
1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.2 Homotopia e Campos de Vetores na Esfera . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.3 Homotopia Relativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.4 Tipo de Homotopia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.4.1 Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.5 Espaços Contráteis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.6 Retratos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
1.7 Homotopia e Extensão de Funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
1.8 Homotopia de Caminhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
1.9 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2 Grupo Fundamental 31
2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
2.2 Mudança do Ponto Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.3 Grupos de Homotopias Abelianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.4 Homomorfismo Induzido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
2.5 Espaços Simplesmente Conexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
2.6 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
5
6 CONTEÚDO
4 Espaços de Recobrimentos 71
4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
4.2 Recobrimentos de -espaços . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
4.3 Generalizações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
4.4 Exercı́cios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
Bibliografia 121
Capı́tulo 1
Homotopia
1.1 Introdução
Nos capı́tulos seguintes, e são espaços topológicos;
com a topologia
induzida pela topologia usual de e todas as funções consideradas são contı́nuas.
Observações 1.
1. A função
é dita homotopia entre e .
2. A notação que se usa para indicar que é homotópica a é:
(')+*
3. A homotopia entre e é uma famı́lia a um parâmetro de funções contı́nuas entre
e , isto é, para cada ,-% :
/.
é contı́nua, onde 0. 1
"2, .
4. Intuitivamente, a homotopia ”deforma”continuamente em .
7
8 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
Exemplo 1.
1. Sejam
,
com a topologia discreta e + definidas por
e ; então
não é homotópica a .
2. Sejam
+
definidas por 1 "2
e " 2 ; logo '! .
De fato, definamos a seguinte homotopia:
+
2, 1 "2 , , #*
Claramente, é contı́nua, ) e
para todo % . Logo:
')*
2. Seja
um caminho; então '
, onde é o caminho constante, definido
por , 1 para todo ,-%
. De fato, consideremos:
&
, - , *
Logo, é contı́nua e ", , e ",
, .
3. Se
é contı́nua, então ' , onde para todo % . De
fato, consideremos:
+
"2, , *
Logo, é contı́nua; ) e "
) .
4. Sejam
contı́nuas; então ') . De fato, consideremos:
"2, , " , #*
é contı́nua, " " e " . Em geral, se é um espaço
Logo,
vetorial normado e +
são contı́nuas, então ' . De fato, podemos
definir a homotopia:
"2, , " , #*
Esta homotopia é dita linear. A propriedade ' ainda é válida se substituirmos
por um subconjunto convexo de .
5. (Poincaré -Bohl) Sejam um espaço vetorial normado e
+
contı́nuas tais que " " , para todo %&
; então ) ' .
De fato, notemos que a origem não pertence ao segmento de reta ; caso con-
trário, poderı́amos ter:
Proposição 2. Sejam contı́nuas tais que , para todo % ;
então ')
.
1.2. HOMOTOPIA E CAMPOS DE VETORES NA ESFERA 11
Consideremos a homotopia:
,
, " , *
, " ,
é bem definida e contı́nua pois , para todo % , o que equivale
ao segmento de reta " não conter a origem. Por outro lado, " e
" , para todo &% .
f(x)
H(x,t)
O n
S
g(x)
-f(x)
que '
3. Se ( ,então ; denotemos por " -% ; logo:
# * * * % * * * *
Por outro lado, sabemos que o grupo atua sobre se é ı́mpar; isto é, para todo
%
e todo %
temos que
***
% . Definamos:
2, !
#"%$ ,
logo,
é contı́nua;
!
e & .
12 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
Corolário 2. Se é contı́nua e não sobrejetiva, então ' , onde é uma função
constante.
Prova : Como
% . Seja
não
é sobrejetiva, então existe % tal que " , para todo
tal que " , para todo % ; logo " , isto é,
'
.
Definição 2. Um campo de vetores contı́nuos tangentes a é uma função contı́nua:
tal que " #2 para todo %
onde
é o produto interno euclidiano em
. Se 1! , então é dita singularidade
do campo .
ν (x)
n
S
Observações 3.
#2 * * * 2
* * * * * * 2 # 2 * * *2 #*
é um campo contı́nuo, sem singulariades e tangente a .
2.
Se existe um campo de vetores contı́nuo, sem singularidades e tangente a , então
'
.
De fato. Seja o campo e definamos por:
"
*
1.3. HOMOTOPIA RELATIVA 13
é contı́nua e ; logo
e ' . Por outro lado, seja
"2, 1 ,
,
é bem definida; " , ! e '
. Logo, por transitividade,
' *
3. Resumindo: em , temos:
i. Se é ı́mpar, então '
.
ii. Se existe um campo de vetores contı́nuo sem singularidades em , então '
.
iii. É possı́vel provar, utilizando conceitos mais avançados, que '
, implica em
ı́mpar.
Observações 4.
('+*
2. Durante a deformação, o conjunto permanece invariante.
3. Se ; então a homotopia relativamente a é a homotopia definida anterior-
mente.
14 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
Exemplo 2.
Sejam 2
definidas por:
, %$ , % $ ,
, $ , # $ , *
1. Se
, então não pode ser homotópica a , relativamente a . De fato,
se ' + , necessariamente deverı́amos ter , o que é falso.
, então ' . De fato, definamos
+ por:
, $ %$ , # $
2. Se
$ , # %$ , *
Note que ", - , para todo (, % e:
, ) ,
, ,
) $ *
3. Denotemos por
e seja:
0*
Então '
. De fato, definamos
& por:
"2, 1 , , #*
Logo, " , " . Em particular, para todo % , temos:
" 2, 1 , ,
, ,
$ /*
1.4. TIPO DE HOMOTOPIA 15
e
contı́nuas, tais que ' e ' .
Observações 5.
' *
3. Se e são homeomorfos, então ' . A recı́proca é, claramente, falsa.
4. Ser homotopicamente equivalente é, claramente, uma relação de equivalência.
1.4.1 Exemplos
1. '
.
%
De fato,
considere as funções tal que para todo e
a inclusão.
Por outro lado, seja
definida por:
2, ,
é contı́nua; " e ; então ' .
Como ! , .
2.
)' .
as funções
definida por "2, e
De fato, considere
a inclusão, isto é .
Por outro lado, seja
definida por:
"2, # "2,
16 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
logo,
é contı́nua e:
"2, # " 1 "2,
"2, # " 2, 1 "2, #*
Então
'
. Note que "
" ; logo,
.
S1 x IR
S1 x {0}
3. '
.
e
tal que definida
De fato, considere as seguintes funções
a inclusão. Por outro lado, seja por:
2, 1 , , "
logo,
é contı́nua e:
" "
" " #*
Então,
' . Note que 1 1$ " ; então
.
Definamos:
2 " *
é bem definida, pois:
" #*
Definamos:
2 2, , " , *
1
1/2
+
, 2, *
Logo, é um caminho contı́nuo que liga a " .
(
"2, 1
# , #*
Logo, " 1! " e 1 ; então ' .
+2
Corolário 3.
1. Se é contrátil e é conexo por caminhos, então, para todas contı́nuas,
temos que . ')
2. Se é contrátil, então, qualquer que seja e para todas +2 contı́nuas, temos
que, ') .
Prova : 1. Seja
' , definamos:
, !
,
('
2, 1 "2,
'
20 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
"
+
#2,
2, #*
Logo, "
" e # "
"
; então
' " *
Exemplo 4.
1.
'
, pois '
.
2. Seja
, onde
é um disco fechado no plano; então
'
. O espaço
é dito toro sólido.
1.6 Retratos
. é um retrato de se existe
Definição 6. Seja
inclusão
, o seguinte diagrama comuta:
contı́nua tal que com a
/
O ~ >
~~~
~
~~
Isto é,
. A função é dita retração entre e .
1.6. RETRATOS 21
Exemplo 5.
1. A esfera
é um retrato de
. De fato, podemos definir a seguinte
retração:
*
2. Seja a faixa de Möebius; então , o cı́rculo central é um retrato de . De fato,
definamos:
" " *
3.
é um retrato de
. De fato, definamos:
# - " # *
4. Se é um retrato de , então % $ , onde é a retração. Se é de
Hausdorff, temos que é fechado em .
&
"
" -%
para todo &%& .
Se é um retrato por deformação de , então é um retrato de .
Definição 8. Seja . é um retrato por deformação forte de , se existe retração
tal que:
' *
22 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
$
-%
2, 1
para todo % e %& .
Exemplo 6.
1. é um retrato por deformação forte de
. Basta utilizar a retração definida
anteriormente e utilizar uma homotopia linear.
T A
A A
Consideremos a retração
+ , definida por:
2 *
Definamos a homotopia
& por:
De fato, existe
'
e
.
24 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
contı́nua tal que ! ?
Em outras palavras, se é a inclusão, podemos obter o diagrama:
/
~ >
~~~
~~
~~
tal que
! ?
A seguir, estudaremos alguns casos particulares de extensão de funções.
Um retrato é uma extensão contı́nua da identidade de :
/
~ >
~~~
~
~~
/
~>
~~~
~
~~
Basta considerar e
.
1.8. HOMOTOPIA DE CAMINHOS 25
Prova : Seja
' tal que 1 , para todo &% . Definamos:
" 1
0 se
se *
é contı́nua (veja [MV]). Se
)
%
; se
, então
, então
0 ( %
; se
e se
, então
, então
" " !
.
Considere o seguinte diagrama comutativo:
/
| >
|||
||
||
ww;
/
ww
w
ww
$
ww
Logo,
' . De fato, "2, 1
, e:
"
1
1 "
" 1
" " #*
Definição 9. Sejam
caminhos contı́nuos tais que .
α α(1)=β(0)
α(0)
β(1)
Figura 1.11:
", 1
, se ,
, se ,
*
Note que
+ é um caminho contı́nuo tal que e .
Intuitivamente, para definir no intervalo ”dobramos a velocidade” de cada
caminho, isto é, reparametrizamos os caminhos pelos homeomorfismos lineares:
0
,- ,
e
, , *
α∗β
α(1)=β(0)
α(0)
β(1)
0 1/2 1
*
α(1)=β(1)
1
H
s
0 t 1
α(0)=β(0)
x0 β
Lema 1. Sejam #
caminhos tais que ' , -' e ;
então:
-' #*
β1
α1
β0
α0
Figura 1.15:
Prova : Sejam
' e
' as homotopias respectivas; definamos
por:
, , se ,
, se ,
*
Claramente
é contı́nua. Por outro lado:
", , se ,
, se ,
, se ,
, se ,
, #
1.8. HOMOTOPIA DE CAMINHOS 29
e:
", , se ,
, se ,
,, se
se
,
, *
", #*
Por outro lado,
Definição 11. Seja
um caminho ligando
e . O caminho inverso de é
denotado por e definido por:
, , *
x1
α−1
x
0
Figura 1.16: e
Note que
tem o mesmo percurso que , mas se inicia em e termina em .
Denotaremos por:
# '
*
30 CAPÍTULO 1. HOMOTOPIA
1.9 Exercı́cios
1. Sob que condições a homotopia relativa é uma relação de equivalência?
2. Sejam ! ,
espaço topológico, e +
contı́nuas. Se para
todo %& -% , verifique que ' .
, e
3. Seja um espaço vetorial normado. é dito estrela de vértice " se para todo
% o segmento
de reta " % . Verifique que se é uma estrela de vértice " ,
então ' " .
4. Verifique que o cı́rculo central é um retrato por deformação forte da faixa de
Möebius .
5. Sejam +2 tais que ' . Verifique que para todo , temos
'! .
6. Denotemos por:
1
'
1
7. Sejam / (
% . Denotemos por:
"2 02 1
$ / *
Verifique que ' é uma relação de equivalência em "2 /2 .
8. Sejam
contı́nua e ! caminhos tais que esteja
definido. Verifique que 1' .
Capı́tulo 2
Grupo Fundamental
2.1 Introdução
Fixemos %& e denotemos por:
$
2
+
isto é, o conjunto das classes de homotopias de caminhos fechados em
.
.
O ponto
2 temos que . Logo é um
é dito base de $
Dados
caminho em
% $
, fechado em ; então %
$
$ $ $
Lema 2. Este produto em está bem definido.
$
2
31
32 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
-' #*
Primeiramente escrevemos:
", 1
, se ,
, se ,
e:
", 1
, se ,
, se ,
*
' '
Denotemos por
por:
e as respectivas homotopias; definamos:
, , se ,
, se ,
*
é contı́nua. Por outro lado:
", , se ,
, se ,
, se ,
, se ,
, #
", , se ,
, se ,
, se ,
, se ,
, #*
e
.
Teorema 1. $
2 com o produto definido por (12) é um grupo, isto é, satisfaz às seguintes
propiedades:
%
para todo
2 .
2
$
*
, 1
, se ,
, se ,
1, se ,
,
se ,
, se , *
0 α 1/4 β 1/2 γ 1
", 1 , se ,
, se ,
, ,
se
, se ,
,
se , *
0 α 1/2 β 3/4 γ 1
t
0 α 1/4 β 1/2 γ 1
ii) Para , temos , , com , % e ", com , % . , com ,-%
Determinemos os segmentos de reta que ligam os pontos a e a
:
i) ,1
é o segmento de reta que liga a .
ii) ,
é o segmento de reta que liga a . Então, para arbitrário,
devemos ter:
", com , %
definidos por ,
, , e , , " , 1,
,
respectivamente. Finalmente, definamos a homotopia por:
, ,
se
,
" , se ,
" , se , *
2.1. INTRODUÇÃO 35
é contı́nua, e:
, ,
se
,
, se ,
, ,
se
", #
, ,
se
,
, se ,
, ,
se
", #
$ ; logo
'
, isto é:
*
", 1
, se ,
se ,
Consideramos o seguinte diagrama:
α
1
t
0 α 1/2 ex 1
0
Como antes:
i) O segmento de reta que liga os pontos a é ,1 .
ii) Consideramos o homeomorfismo:
+
,- , *
Definamos a homotopia
por:
, ", se ,
se , *
é contı́nua, e:
, , se ,
se ,
,
", , se ,
se 1,
,
$ ; logo ' e:
*
A prova de que é análoga.
Elemento inverso : Dado 1% $ 2 , consideramos
nido por
o caminho inverso de
", , ; então % $ . Provaremos que
defi-
+
isto é,
' . Logo,
.
Novamente:
,
, se ,
, se ,
Consideramos:
2.1. INTRODUÇÃO 37
ex
1 0
t
0 α−1 1/2 α 1
Figura 2.5: Homotopia entre e
Como antes:
i) O segmento de reta que liga os pontos a é ,1 1 e o segmento de
reta que liga os pontos a é , .
ii) Consideramos os homeomorfismos:
,- ,
,- , *
1 , , ", , *
e
Definamos a homotopia
( por:
", ,
se
",
" ,
se ,
se , *
é contı́nua, e:
",
, se ,
, se ,
*
", , $ , logo:
*
38 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
A prova de que
, é análoga.
é dito grupo fundamental de
, ou grupo de Poincaré de
, ou primeiro
$
grupo de homotopia de .
Exemplo 7.
$
2
*
Em geral, se é convexo, então para todo " % temos que:
$
" *
2. Seja com a topologia induzida pela usual de . Os únicos caminhos fechados em
% são os caminhos constantes; logo:
$
2
*
Em geral, o cálculo do grupo fundamental de espaços topológicos é bastante difı́cil.
Os parágrafos seguintes tem o objetivo de apresentar propriedades dos grupos funda-
mentais a fim de obter exemplos não triviais.
$
2 ' $
&2
isto é, os grupos $
2 e$
&2 são isomorfos.
2.2. MUDANÇA DO PONTO BASE 39
Prova : Seja
um caminho tal que e . Definamos:
$ $
&2
*
é um isomorfismo não canônico de grupos, isto é, depende da classe de homotopia
de .
x
x0 1
*
Não é difı́cil ver que
. De fato, para todo % $
2 :
*
*
Analogamente,
.
40 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Exemplo 1.
% 2 é um grupo
Seja
(união disjunta). Se
, então $ . Por outro lado,
se %
Portanto, $
2
, mostraremos no próximo capı́tulo que $
e$ não podem ser isomorfos.
2 não trivial.
' $ &2 $
2
quaisquer que sejam os pontos básicos / %& .
Seja
um grupo. O centro de e é denotado por
e definido por:
%
para todo %
isto é, o conjunto dos elementos de que comutam. Não é difı́cil verificar que o centro
de um grupo é um subgrupo.
x1
ξ
x0
Figura 2.7:
pois
% $ .
2.3. GRUPOS DE HOMOTOPIAS ABELIANOS 41
'
Logo,
; então % &2 .
$
Corolário 6. $
2 é abeliano se, e somente se não depende de .
e um caminho ligando
e ; então é um caminho
ligando e ; pela proposição anterior:
% $ 2
Como +
% $ &2 temos que $
, isto é:
$
$ 2
$ *
Observações 6.
Definição 13. O grupo é dito topológico se também é um espaço topológico tal que a operação
do grupo e a aplicação:
são contı́nuas.
Exemplo 8.
,-%
para todo . Note que
Podemos definir através de (2.1) um novo produto em
: $
.
$ $ $
2 0 -+ *
Utilizamos a seguinte notação:
+ *
Como antes, denotemos o caminho constante por , 1! , para todo , % .
Lema 3. Sejam :
2.3. GRUPOS DE HOMOTOPIAS ABELIANOS 43
1. Sejam
-' e - ' ,
,
, ; então
as respectivas homotopias. Definamos
' .
2. Utilizamos as definições de cada produto:
, 1 ",
,
, , se ,
, , , *
se ,
Observações 7.
1. Fazendo
, na segunda parte do lema, temos:
' 1 ' *
Logo,
(2.2)
Logo,
* (2.3)
Teorema 3. Se é um grupo topológico, então $
produtos definidos em $ coincidem.
é um grupo abeliano. Além disso, os
44 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
1. Considere
como grupo topológico e ; então $
é um grupo abelia-
no.
2. Considere
3. $
#2 é um grupo abeliano.
como grupo topológico; então $ é um grupo abeliano.
Observe que não utilizamos todas as propriedades do grupo topológico. Isto nos indica
que é possı́vel enfraquecer a hipótese da estrutura de grupo. Essencialmente utiliza-
mos a identidade, sendo a operação do grupo contı́nua.
3. 1' .
4. Se % $ &2 , então % $ 1 " .
Lema 4. Se é contı́nua, então
$ 2 + $ 1 "
é um homomorfismo de grupos.
Prova : Sejam e %
&2 , então
$
)
) *
O homomorfismo é dito induzido por .
2.4. HOMOMORFISMO INDUZIDO 45
Exemplo 10.
1. Utilizando a projeção estereográfica; , temos:
"
$
"
" $ 2 *
2.
. Então:
$ $
2, *
3. Sabemos que
e
; então: :
0 "
*
$
$
0 $
$
Corolário 8. Seja
uma retração e
a inclusão; então:
é tal que
e
+ +
é tal que
.
46 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
Lema 5. Sejam e conexos por caminhos +2 funções contı́nuas, tais que ')
e os homomorfismos induzidos:
$
$
1 $
2 $
1
onde !
e
. Então, existe um caminho ligando a tal que $
.
Isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
$
2
/$
1
MMM
MMM
MMMM
1
&
$
Prova : Observe que não é evidente que as homotopias preservem os pontos bases dos
grupos.
Por hipótese existe homotopia ; logo, necessariamente, durante a homotopia,
')
que para todo % :
&2
deve existir um caminho que liga a , isto é, existe . Devemos provar , " /2,
$
* $
, se ,
, 1 / , se ,
, # se ,
, se ,
Note que ", ", # ; por outro lado, ' e
" / ,
se
, 1, ,
se
",
,
se ,
, , se ,
Logo,
",
", , , " , e
.
2.4. HOMOMORFISMO INDUZIDO 47
$
&2 $
é um isomorfismo de grupos.
*
Logo,
é, necessariamente, isomorfismo; então é sobrejetiva e é injetiva.
Por um argumento análogo, de , obtemos que é injetiva e é sobrejetiva. 1 '
Corolário 9. Se é contrátil, então
$
2 ' *
Corolário 10. Se
é um retrato por deformação ou um retrato por deformação forte,
então a retração induz um isomorfismo:
$
2 $
2 *
Observações 8.
1. Em geral, como veremos mais adiante, as propriedades de não são herdadas por
2. Se $
&2 '!$ 1
. Por exemplo, se é injetiva, não necessariamente é injetiva.
1.
é um retrato por deformação de
. Então:
$
' $
' $
2. O cı́rculo central é um retrato por deformação da faixa de Möebius . Então:
$
2
2 ' *
'$ $
$
1 '$ 2
$
1
onde $
$
1 é o produto direto de grupos.
$
1 $ $
. Se
i)
está bem definida, isto é, se devemos provar que
, existe
Consideremos
", '
" , ",
homotopia correspondente.
e ; então: ,
, " ", ",
",
, , ", *
"
,
Logo,
.
ii)
0 % 2 1 , seja ",
é um homomorfismo, pois " e são homomorfismos.
iii)
, ", %
; então $
1 é tal que:
é sobrejetiva. De fato, para todo
$ $
Exemplo 12.
1. Sabemos que $
'$
2, ; logo:
"
2,
2,
$
$
$
*
$ $
Em geral, "
; logo:
$
"
" $
" $
*
2. Considere o toro ; então:
$ - $
$
*
3. Considere o toro sólido
; então:
$
" $
$
" $
*
2.5 Espaços Simplesmente Conexos
Definição 14. é simplesmente conexo se é conexo por caminhos e
$
+ %&*
Proposição 13. é simplesmente conexo se, e somente se para todos
tais que
e
, tem-se . '
Prova : Sejam e caminhos ligando a %
; então
% $
. Se
é simplesmente conexo, então
; logo
; logo ' .A
recı́proca é imediata.
Exemplo 13.
Lema 6. Seja um espaço topológico tal que , onde e são subespaços abertos
simplesmentes conexos e é conexo por caminhos. Então é simplesmentes conexo.
50 CAPÍTULO 2. GRUPO FUNDAMENTAL
% $ &2 tal que % . Como é contı́nua, temos que
Prova : Seja
é uma cobertura do compacto . Logo, existe (por que?) uma
partição de : $, , )* * * , , tal que , #2, ou , #2,
. Se dois intervalos consecutivos , #2, e , 2, são tais que , 2, e , 2,
pertencem ambos a ou , eliminamos o ponto comum , ; logo, podemos considerar
", % . Por outro lado, como é conexo por caminhos, podemos ligar a
", por um caminho :
Para cada , definamos:
1 ", , , # *
Logo, " , e , ; como '
, então:
' * * * #*
α(t1 ) α2
α (t2)
α1
η1
α (ti-1 )
η2
x0
αi
α (ti )
η
i
Figura 2.8:
' então ' *
Logo $
.
.
2.5. ESPAÇOS SIMPLESMENTE CONEXOS 51
onde
" e " ; ambos os conjuntos são abertos
e contráteis; logo, são abertos e simplesmente conexos. Por outro lado, sabemos que
'
, logo é conexo por caminhos. Pelo lema, temos que é simplesmente
conexo, para todo . Veja [MV].
Observações 9.
1. Provaremos nos próximos parágrafos que não é simplesmente conexo.
2. Por outro lado, segue do teorema de Stokes que não é contrátil.
Exemplo 14.
1.
é simplesmente conexo se . De fato, '
.
2. Sejam
e
esferas tais que
"
, com
. Consideremos
; então
$
&2 *
a
b
m
Sn S
Figura 2.9:
Considere
% , %
tais que
" ; !$
e
, claramente
' '
e é conexo por caminhos; então é simplesmente conexo.
3. Para
$
/ $
" / $
2
se .
Notamos que existem exemplos em que a reunião de espaços simplesmente conexos
não é necessariamente simplesmente conexo, mesmo que tenham um ponto comum.
(Verifique!).
2.6 Exercı́cios
1. Prove que
definido por , 1
, é um homeomorfismo.
2. Complete todos os detalhes da prova do teorema anterior.
3. Se consideramos
,(
2 /2
o conjunto das classes de caminhos que ligam
), com a mesma operação definida anteriormente para $
a
,o
2
conjunto /2
é um grupo? Justifique sua resposta.
4. Seja
&2
$ *
Verifique que:
$
2 &2 '
onde é a homotopia de caminhos.
( &
e %& tais que /2 1 , ' e '
, onde
#
&
" e /2 .
são definidas por
seja um -espaço. Verifique que:
Com as notações anteriores,
Este capı́tulo é crucial para obter novos exemplos de grupo fundamental e estudar,
em particular, as técnicas gerais que apressentaremos nos próximos capı́tulos. Para
calcular $
estudaremos uma série de conceitos novos que serão naturalmente
estendidos a espaços topológicos em geral.
3.1 Introdução
Seja %
, fixado; todo caminho em
fechado em , arbitrário
tem que dar um múltiplo inteiro de ”voltas” ao redor de . Provaremos que essen-
cialmente, existe somente uma única classe de caminhos fechados não homotópicos a
uma constante em .
A idéia básica deste capı́tulo é comparar caminhos de com caminhos de via o
homeomorfismo local. (Veja [MV]):
#"
,-
", . *
53
54 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
IR
exp
S1
Figura 3.1:
caminho
Provaremos que para todo caminho fechado em , existe um único
que liga a origem com , logo , tal que
. Em ", ,
outras palavras, existe um único que torna o seguinte diagrama comutativo:
?
/
O caminho é dito levantamento do caminho com ponto inicial em .
Fixando uma orientação em , se o caminho fechado em
percorre vezes no
sentido positivo (em relação à base canônica de ), diremos que o número de voltas
do caminho é ; caso contrário que é . Este número inteiro é dito o grau do caminho
. Definamos:
$
2
onde
. Provaremos que é um isomorfismo de grupos. A prova segue dos
seguintes teoremas:
Lema 7. Sejam
aberto e #" . Então:
1.
%
onde a união dos abertos
%
é disjunta.
3.1. INTRODUÇÃO 55
Prova :
1.
Sem perda de generalidade
podemos supor que o aberto de
é da forma
#" $ , 2,%
. Logo, &
; então
#"
para todo . Claramente,
$% é a união disjunta dos abertos
.
#"
a continuidade de
. Seja
fechado.
Como V+n é limitado então
é compacto; por outro lado
-
é um homeomorfismo; então
é de Hausdorff; logo
é compacto e, em particular,
fechado.
?
/
2,
#", , # ,
,
. Definiremos (indutivamente) levantamentos sobre da se-
guinte forma:
56 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
α(a
~
k)
IR
W
exp
Sk
I f([a k , ak+1 ]) S1
ak ak+1 f
Figura 3.2:
é uma união
3. Aplicando o lema anterior, temos que #" disjunta de aber-
tos tal que #" é um homeomorfismo para cada (
é um aberto tal que %
).
para
algum %
. Note que
é único. % %
Qualquer extensão é conexo por caminhos e
leva em (
é contı́nua).
Como
#"
tal que #"
é homeomorfismo, existe uma única função
, onde !
#"
. Definimos:
1 se
se
*
é contı́nua (
) e única por construção. Indutivamente obtemos .
#*
3.2. CÁLCULO DO GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO 57
xx
<
xxx
xx
xx
/
Como corolário do lema anterior, temos o seguinte teorema de monodromia para a
aplicação #" , dizendo que caminhos homotópicos tem o mesmo grau.
1 *
' . Então, existe um único levantamento
com . Analogamente, existem levantamentos
Prova : Considere uma homotopia
para e para . Como , , , temos ", , e ", ", .
2, - - ; então 2, é um caminho entre e . Mas, 2, %
#" . Portanto 2, é constante e .
Estamos agora em condições de calcular o grupo fundamental do cı́rculo.
Teorema 6. Seja ; então, temos um isomorfismo de grupos:
*
$
Em outras palavras, $
2 é um grupo cı́clico infinito gerado por , onde o caminho
é tal que , 1
",
.
Prova : Definimos a aplicação:
$
58 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
2 #*
Por outro lado, . Consideremos
definida por:
, se ,
",
, se , *
O caminho é bem definido em ,- . Como é um inteiro, temos que
e, portanto, pela unicidade do levantamento . Então:
então,
# " 1 *
$ "
$
2
o que é absurdo.
2. Seja o cilindro
; então:
$
$
2 $
*
3.3. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DO ISOMORFISMO 59
Dos capı́tulos anteriores sabemos que é um retrato por deformação de .
Um gerador do grupo $ "
é a classe de homotopia do cı́rculo central ",
, #
#" . Um caminho fechado em é homotópico a vezes o gerador , quando
é o número de vezes que o caminho fechado intersecta transversalmente a geratriz
.
S1 x IR
S1
α
$
" *
3. Considere o toro
; então:
*
$ $ $
Todo caminho fechado é homotópico a " , onde " é o número de vezes que o
caminho fechado intersecta transversalmente o paralelo e é o número de vezes que
o caminho fechado intersecta tranversalmente o meridiano com o seguinte cuidado:
fixando uma direção, contamos positivamente as passagens para um lado e negativa-
mente para o outro.
$
/ +
+ "
Figura 3.5: é homotópico a "
$
" $
*
5. O cı́rculo central é um retrato por deformação da faixa de Möebius . Então:
$
2 '$
2 '$
' *
6. A esfera , ( ) não é homeomorfa a
***
, ( -vezes). De fato,
se fossem homeomorfas, terı́amos que:
$
$
$
2
$
2
***
o que é absurdo.
7. Pelo mesmo argumento anterior, não é homeomorfa a
.
Corolário 14. (Teorema Fundamental da Álgebra) Todo polinômio não constante com co-
eficientes em possui uma raiz em .
3.3. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DO ISOMORFISMO 61
Prova : Sem perda de generalidade podemos supor que o polinômio tem a forma:
"
*
Se " não possui raı́zes, para cada número real
, definimos:
, 1 ""
, *
"
,
"
onde , , ,
define um caminho fechado em
com ponto base . Seja
, , se , )
, se , *
Note que:
,
", 1
", 1 , *
Logo, é contı́nua. Por outro lado , 1 ", ) que é o caminho constante em
e , +, , isto é , então
$ 2
o que é uma contradição.
Corolário 15. (Teorema do ponto fixo de Brouwer para n=2) Seja tal que
. Toda função contı́nua
possui um ponto fixo, isto é, existe
tal que %
1
.
" %
Prova : Suponhamos que para todo . Definamos
do seguinte modo: %
é obtido da interseção de
com a semi-reta de origem
em e que passa por .
r(x)
h(x)
1
S
O
x
é aberta e que para todo
aberto, temos:
*
Por outro lado,
+ é um homeomorfismo local.
De fato. Seja " (%
; então " . Seja
vizinhança de que
não contem
nenhum ponto antı́poda de seus pontos, isto é, . Logo, é uma
vizinhança de " , tal que:
e
é um homeomorfismo sobre .
3.4. GRUPO FUNDAMENTAL DO ESPAÇO PROJETIVO REAL 63
Observações 10.
1. A vizinhança do lema anterior, também é chamada vizinhança distinguida do
ponto " .(%
2. Como no caso de , mostraremos que
também tem a propriedade
do levantamento dos caminhos.
, 2, % tal que
",
Proposição 14. Sejam
único caminho
tal que ", $ e
e
. Existe um
, isto é, temos o seguinte diagrama
comutativo:
{{{
{=
{{
{{
/
Prova : Observemos que proposição é válida se:
1.
e
é uma vizinhança distinguida do ponto / , tal que
% . Logo,
. De fato, suponha que e denotemos por $
$ .
,-% ,
se
, 1 ,
,-% *
se
O caso geral, segue dos casos 1. e 2. De fato, como é compacto, então podemos
decompor numa reunião finita de subintervalos compactos justapostos, isto é
&* * * tais que , para cada , onde é uma vizinhança
distinguida.
A unicidade de segue do fato de que se supomos que existem tais que
, então para todo , % devemos ter , 1 , ou ", 1 ", ; utilizando
o produto interno de , temos , ", , para todo , % ; por outro lado,
como é conexo, o produto interno anterior deve ser constante. Logo, se ", ", ,
então ", ", para todo ,-% .
Note que o levantamento de um caminho fechado em nem sempre é um caminho
fechado em , pois cada caminho em possui dois levantamentos; além disso, um
deles é fechado se, e somente se ambos são fechados. De fato, se é tal que
e se é fechado, o caminho fechado possui um levantamento fechado. Se
os extremos do caminho são antipodais, é um caminho fechado em que possui
levantamento não fechado.
64 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
e considerando % " %
caminhos fechados de base " , denotemos por os correspondentes +
levantamentos com origem em . Com as notações anteriores, temos que se, e
somente se . '
Prova : Se 1
são tais que , como é simplesmente conexo,
temos ' .
Se ' , como , e . Por
, com ponto base " . A classe dos caminhos cujo levantamento é fechado e os que
possuem o levantamento aberto. Logo:
Teorema 7. Para :
$ " ' *
Geradores do grupo $ " .
Seja
$ $ # # * * * um caminho em , logo e $
& . O caminho fechado em
!
. Logo, gera $
não é homotópico a uma constante. Note que
" .
Corolário 16. (Teorema de Borsuk-Ulam para n=2) Não existe
contı́nua
tal que 1 "
, para todo %
.
Prova : Se tal função existe, então "
, para todo % . Então,
induz no
quociente
tal que o seguinte diagrama comuta:
'
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 65
. Por outro lado sabemos que $ "
Isto é, $ "
e $ "
. Logo, deve ser um homorfismo trivial, pensados
como grupos aditivos. Seja um caminho em que liga o polo norte ao polo sul
de ao longo de
meridiano de comprimento fixo; então é um gerador de
$ "
. Como o polo norte e o polo sul são pontos antipodais de
pontos, são identificados em ; logo
, estes
é não trivial em $ " . Por
outro lado:
+ !
o que é uma contradição.
$
" *
Por outro lado, é formado pelas matrizes
de ordem 2, tais que suas colunas
formam uma base ortonormal positiva de ; logo estas colunas devem ser e
,
onde
%
. Então,
e consequentemente: '
$
#" *
66 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
Definição 15. Denotamos e definamos por o espaço vetorial , com o produto determinado
pelas seguinte regras:
*
Observações 11.
se
.
3. Não é difı́cil verificar que
, para todo % .
4. Pelo ı́tem anterior, definimos a norma em :
*
Esta norma coincide com a norma usual de e
0 (3.1)
para todo % .
5. Se )
, podemos definir o inverso de por:
*
6. Não é difı́cil verificar que o produto definido em é não comutativo. Portanto,
não é um corpo.
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 67
onde e"
% & % . Com estas identificações, os elementos de são ditos quatérnios
reais e os de são ditos quatérnios puros.
De 3.1, temos que e são ortogonais e que pode ser considerada como:
%
*
De forma análoga à , tem uma estrutura de grupo induzido pelo produ-
to de . Como a multiplicação definida em é bilinear, logo contı́nua, segue que é
um grupo topológico.
Proposição 16.
1.
, isto é, o centro do grupo são os quatérnios reais.
2. % se, e somente se
$ .
3. Se % é tal que "
"
, para todo
" % , então % . Em particular, se % ,
então
, isto é, .
Prova : 1. Seja
% ; então
logo,
e
. Analogamente:
logo, ! e .
2. Se
% , então
. Reciprocamente, seja
, então
#*
Como
% , temos
que e % ou
e e . Logo, se
$ , então % .
; então . Por outro lado
3. Seja
donde ! .
68 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
uma isometria. A equação
relação à base 0 é
3.5.3 Cálculo do Grupo Fundamental de
Seja % ; definamos:
"( *
" "
A função é naturalmente linear; na verdade, é um isomorfismo de espaços vetoriais,
com inversa
"
"
.
Por outro lado, e é uma isometria. De fato:
"
"
0* " "
3.5. GRUPO FUNDAMENTAL DE GRUPOS ORTOGONAIS 69
Sejam # % , então:
" "
"
"
"
" #*
Teorema 8. A aplicação:
é um homomorfismo contı́nuo sobrejetivo.
Logo,
, isto é, se, e somente se
.
Corolário 17.
' *
70 CAPÍTULO 3. GRUPO FUNDAMENTAL DO CÍRCULO
De fato, de [MV], sabemos que
e:
/
v;
vv
vv
vv
vv
Como é uma bijeção contı́nua, compacto e é de Hausdorff, então é um
homeomorfismo.
Logo, obtemos o seguinte teorema:
Teorema 9.
$
# $
" ' *
Capı́tulo 4
Espaços de Recobrimentos
4.1 Introdução
Neste capı́tulo generalizaremos todas as idéias sobre levantamento de funções, estu-
dadas no capı́tulo anterior e utilizadas no cálculo do grupo fundamental do cı́rculo e
do espaço projetivo real.
Sejam , espaços topológicos e "
uma função contı́nua.
O aberto é dito vizinhança distinguida se:
"
onde
%
é uma famı́lia de abertos de , dois a dois disjuntos, tais que:
"
é um homeomorfismo.
Definição 16. Uma aplicação de recobrimento (ou simplesmente um recobrimento) é uma fun-
ção "
contı́nua, sobrejetiva e tal que todo possui uma vizinhança distinguida. %&
Observações 12.
71
72 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
"
~
X
Vβ
p-1(x)
Vα
U X
x
Exemplo 15.
1. Se "
é um homeomorfismo, então
& 2
" é um recobrimento.
2. Do capı́tulo anterior:
é um recobrimento.
4.1. INTRODUÇÃO 73
IR
exp
S1
Figura 4.2:
"
2, - # ,
.
4. Em geral,
é um recobrimento. Por outro lado, "
" , onde * * * , ( -vezes) e:
" , #2, * * * , , # ", #* * * ,
5.
é um recobrimento.
, também é um recobrimento do toro, onde:
"
injetiva.
7. Por um argumento similar ao anterior
" , onde "
não é um recobri-
mento.
8. Seja
, 1 e:
#
*
é um recobrimento. Note que é a mudança de coordenadas polares e
que a variável angular toma infinitos valores separados por múltiplos de $ .
9. A aplicação "
definida por " 2 1$ é um recobrimento. De fato:
"
e " é um homeomorfismo sobrejetivo.
Lema 10.
1. Sejam e
funções contı́nuas tais que e são homeomorfis-
mos locais sobrejetivos; então é um homeomorfismo local sobrejetivo.
2. Se "
é um homeomorfismo local sobrejetivo com fibra finita e tal que é de
Hausdorff, então " é uma aplicação de recobrimento.
Prova :
1. Exercı́cio.
2. Seja
; então " %
. Como
é de Hausdorff, existem * * *2
vizinhanças abertas de tais que
se
. Por outro lado, " sendo um
"
*
Denotemos por:
*** e
Logo:
"
e"
+ é um homeomorfismo. Então, "
+ é um recobrimento.
4.1. INTRODUÇÃO 75
Observação 1.
A cardinalidade de "
é chamada o número de folhas do recobrimento. Logo, um
recobrimento com as hipóteses do corolário possui um número finito de folhas.
Exemplo 16.
1. A aplicação:
+
,-+
",
é um recobrimento de infinitas folhas.
2. A aplicação:
"
+
+
é um recobrimento de folhas. De fato, " é um homeomorfismo local sobrejetivo,
é compacta, de Hausdorff e "
tem cardinalidade . (São as raı́zes -ésimas da "
unidade).
3. Seja
, onde
é a projeção canônica;
é um recobrimento?
A resposta é negativa, pois
, isto é a fibra não é finita.
1. " é aberta.
76 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
Prova :
1. Exercı́cio.
2. Como " é contı́nua e aberta, então ! é aberto se, e somente se "
é aberto
em .
Exemplo 2.
"
é um recobrimento.
Primeiramente definamos:
"
a aplicação quociente. Por outro lado, a faixa de Möebius também pode ser definida
como:
onde , " , , % e ,-% . Denotemos por:
"
a aplicação quociente. Note que " é aberta, pois se é aberto:
"
"
onde:
2, " , *
Isto é, "
!
" . Como é sobrejetiva e é de Hausdorff, então é um homeomor-
fismo. Note que
e "
possui uma cobertura determinada pelos abertos "
e:
"
" -
e
-
" "
Definição 17. A ação do grupo sobre é dita totalmente descontı́nua se para todo % ,
existe vizinhança de tal que
!
para todo % .
e
Observação 2.
1. Seja
definida por , onde é o ponto antipodal de ; então
"
, com a composta de funções é um grupo. atua descontinuamente
sobre . De fato, se
é um aberto contido num dos hemisférios, temos:
*
78 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
2 *
Esta ação é totalmente descontı́nua; basta considerar abertos de diâmetro menor que
.
"
é um recobrimento.
Prova : Note que "
vizinhança de %&
; então "
é contı́nua, sobrejetiva e aberta. Seja
é uma vizinhança de " e
uma
"
"
*
é uma famı́lia de abertos disjuntos de
e "
"
é um homeomor-
fismo.
Exemplo 18.
1. Considere a ação de
sobre , definida por . Então:
"
+ '
)
*
!$ "
pois
e , !
.
Observação 3.
Se é um grupo infinito a ação livre pode não ser totalmente descontı́nua. Isto é:
"
pode não ser um recobrimento, ainda que a ação seja livre e de Hausdorff.
80 CAPÍTULO 4. ESPAÇOS DE RECOBRIMENTOS
Exemplo 19.
1. Seja
tal que:
/ * * * -%
***
*
Sejam
" # * * * %por:
tais que " é primo e os são primos relativos a " ; definamos
# * * * / # * * * #*
é um homeomorfismo tal que
. Consideremos como -espaço com a
seguinte ação:
/ * * * 1 / * * *
#
onde % * * * " . Esta ação é livre. De fato, se:
/ * * * / * * * #
então: com
e Como / # * * * %
, existe
!
para algum , logo:
e
" . Como
" e " é primo, então
" . Isto é, é a
identidade de . Logo, a ação é livre e é de Hausdorff; então:
"
" * * *
onde " ***
é um recobrimento.
O espaço " * * * é cha-
mado lenticular. Note que * * * .
2. Seja o grupo gerado pelos homeomorfismos
definidos por:
" e " *
Sabemos que , é a garrafa de Klein. A ação:
+ " " #
é livre,
é de Hausdorff; então " é um recobrimento. Note que
não é
isomorfo a , pois
é não comutativo e satisfaz à relação .
4.3. GENERALIZAÇÕES 81
4.3 Generalizações
A seguir, apresentaremos as generalizações das propriedades de levantamento dos ca-
minhos e das homotopias, estudadas no capı́tulo anterior. A maioria das provas são
idênticas.
?
/
()
Isto é, " .
Lema 11. Sejam #" um recobrimento e ,( ) levantamentos de
, isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
?
/
aberto e fechado e como é conexo, então ! . Seja % ; então existe vizinhança
é um homeomorfismo, para todo % . Se $% , então
e"
% ( *
Se % , então " #+ % e " " . Por outro
lado, " é um homeomorfismo; temos que
" " . Logo, todo elemento de
possui uma vizinhança contida em , isto é, é aberto.
Se
%
, então e % % , para
tais que
; logo,
Prova : Exercı́cio.
@
/
zz
z<
zz
zz
zz
/
Corolário 20. Se
&
#" é tal que é conexo, então a cardinalidade da fibra "
é
independente de .
Prova : Para todo %& , definiremos uma bijeção entre "
" e"
. Seja:
" " "
definida da seguinte forma: Dado um caminho que liga a , então para cada %
"
"
, existe um único levantamento tal que ; definamos:
#*
está bem definida pois % "
. Analogamente, definimos
utilizando
,
1
isto é . Logo, é uma bijeção.
4.4. EXERCÍCIOS 83
4.4 Exercı́cios
1. Sejam "
e"
recobrimentos. Verifique que:
" &
"
é um recobrimento.
2. Sejam "
, e " . Se " e são recobrimentos, é um
recobrimento? Verifique.
" - " #*
Verifique que esta ação é totalmente descontı́nua.
$
2 "
onde " .
Prova : Definamos:
$
2 "
" #
por
, onde é o único levantamento de tal que ; logo, pela
unicidade dos levantamentos, é bem definida. Agora, consideremos:
" $
&2
definida da seguinte forma:
$% e
+
um caminho tal que
e . Logo, o
Sejam
caminho
"
" )
é tal que
" e " ; então
determina uma única classe de homotopia %
$ . Definamos:
1 " *
está bem definida, pois para todos e tais que e , temos
' relativamente a ; então não depende do caminho escolhido. Claramente
e são inversas.
85
86 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Exemplo 20.
1. Seja
Denotemos por
as bijeções:
; então:
#" *
2. Seja
, onde "
"
; então:
"
*
3. Em geral, seja
" , onde " * * * ; então:
"
*** *
4.
( ) ), onde
é a projeção canônica, é um recobrimento de folhas e:
2
*
5. Seja
, onde , é a faixa de Möebius e é a projeção
canônica; então:
2 &%
*
"
$
$
2
é um monomorfismo.
Prova : Sejam $
% tal que " " 2 ; então, " " . Logo,
existe uma homotopia " ' " ; consideremos o único levantamento de ;
portanto
'
; logo:
+ *
5.1. CRITÉRIO GERAL DE LEVANTAMENTO 87
Observações 13.
$ .
2
1. Como " é um monomorfismo, podemos considerar $ como um subgrupo de
$
então $
2
*
um recobrimento e , % ; então todos os subgrupos
são conjugados em &2 . Se % é fixado, toda classe
Teorema 15. Sejam " "
$
"
"
$
$
definida por 1
$
&2
é um isomorfismo de grupos. Definamos:
$
&2
por 2 1 " "
. Logo, obtemos o seguinte diagrama comutativo:
2
$ $
&2
são conjugados
$ $
*
" $
" $
"
Seja
um levantamento
$
.
de
tal que
; denotemos por
; então
?
/
88 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
rrr
8
$
2
r r
rr
rrr
$ $
/
$ "
$ *
Observação 4.
O teorema geral de levantamento nos dá as condições necessárias e suficientes para
a existência de levantamentos de um espaço topológico. Este teorema é um exemplo
do que estuda a Topologia Algébrica. Um problema puramente topológico, como a
existência de uma função contı́nua (sob certas condições) é reduzido a uma condição
puramente algébrica (uma relação entre grupos e homomorfismos).
Sejam #"
um recobrimento e contı́nua. Se é conexo e localmente conexo
por caminhos, então existe um levantamento de se, e somente se
$ "
$
onde " e .
Suponhamos que
, onde e
. Sejam
$ " $ "
%arbitrário e o caminho em tal que e ; então, é um
caminho em tal que e ) . Pelo teorema de levantamento
dos caminhos, existe um único levantamento tal que e
" !
. Logo, definamos:
&
onde 1$ e 1 .
5.1. CRITÉRIO GERAL DE LEVANTAMENTO 89
1. é bem definida. De fato, seja outro caminho em tal que ! e 1 ;
então é tal que
! , isto é, % $ ; então:
% $ *
Por outro lado:
$
" $ ; então existe % $
tal que:
+ " *
Logo:
' '
'
' " #*
Denotemos por
"
; então
1
*
Nesta parte da prova utilizamos somente a hipótese de que é conexo por caminhos.
% ; então %
2.
é contı́nua. Sejam aberto e
uma vizinhança distinguida de "
"
/
onde cada é homeomorfo a e para algum
. Logo, como e % %
são vizinhanças de consideramos
. Note que "
também é
uma vizinhança distinguida, pois
é distinguida e "
. Por outro lado, é
contı́nua e
"
é uma vizinhança de . Como é localmente conexo por &%
caminhos, existe um caminho ligando uma vizinhança de tal que "
Mostraremos que . Primeiramente ; se , existe um caminho % %
en ligando a ; logo, pela definição de temos , onde é o
único levantamento de tal que , pois:
"
e "
*
"
"
"
90 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
onde os
são disjuntos aos pares, cada é homeomorfo a "
e pelo menos um
%
; como
segue que
. Provamos que %
e portanto , isto é, todo elemento de possui uma
vizinhança totalmente contida em ; logo é contı́nua.
Existem exemplos que mostram que a hipótese de ser localmente conexo por cami-
nhos não pode ser retirada para a prova de que o levantamento é contı́nuo.
&
+
Corolário 21. Sejam um recobrimento e um espaço simplesmente conexo e lo-
"
calmente conexo por caminhos; então toda função contı́nua admite levantamento
.
Prova : Se é simplesmente conexo e localmente conexo por caminhos, sempre temos
que:
$ !
"
$ *
Exemplo 21.
e e
levantamentos de e , respectivamente,
de ponto inicial tal que " %
. Então, se, e somente se 1%
" $ .
Prova : Seja
" $ %
. Denotemos por o levantamento do caminho
, a partir do ponto ; logo, é um caminho fechado. Os caminhos +
são definidos por:
,
, e , 1
, #*
e
. Note que e são levanta-
mentos de e , respectivamente:
Analogamente,
,
,
", #*
Em particular, nas hipóteses da proposição, temos o seguinte corolário:
Corolário 22. Dado um caminho fechado em , seu levantamento, com inı́cio em %
"
"
é fechado se, e somente se " $ . %
Basta considerar como um caminho constante em , na proposição anterior.
Observações 14.
1. Lembremos que
' ; logo:
$
$
' *
2. O toro ; logo:
$
$
'
*
3. Será possı́vel afirmar que, em geral:
$
'
Se a reposta for afirmativa, por exemplo, terı́amos que:
$
" * * * ' *
Se é um -espaço, tal que age de forma totalmente descontı́nua sobre , então:
92 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
{ {{
=
{{
{{
{{
/
Sejam
é um homomorfismo de grupos.
% $
tal que ; isto é, % .
Consideremos e levantamentos de e . Note que não é definido, pois
$
; por outro lado:
1 /
1$ /*
Seja
e definamos:
*
Note que:
/
#*
é um levantamento de . De fato,
.
; logo:
1 /
1
$
*
Então:
*
Lema 12.
2 , onde
$ é o homomorfismo induzido pela projeção
e
é o núcleo de .
5.2. GRUPO FUNDAMENTAL E -ESPAÇOS 93
Prova : %
, se, e somente se
o único levantamento de tal que
se, e somente se
. Logo, se, e somente se %
$
, onde
2
é
e
; então:
%
*
$
$
1 $
2
$ ' *
Teorema 17. Com as notações e as hipóteses do lema anterior, temos:
$
&2
$ ' *
é sobrejetiva. Veja o capı́tulo do grupo fundamental de
Prova :
$
' *
Prova : Exercı́cio. (Veja o caso
).
Exemplo 22.
1. Como antes, consideremos como -espaço; então:
$
" * * * $
'
pois é simplesmente conexa, ( ).
$
$
' *
3. Sabemos que a faixa de Möebius é homeomorfa a como -espaço.
Logo:
$
$
' *
Assim, obtemos o mesmo resultado obtido nos capı́tulos anteriores.
{{{
{=
{{
{{
/
Por outro lado sabemos que:
/ $
é definida por 2 " ; como e é um isomorfismo de grupos,
então " 2 é não trivial, logo gera $ 0 .
5.3 Transformações de Recobrimentos
Sejam
" 2 e
" recobrimentos sobre .
1. é contı́nua.
?
/
Observação 5.
2 2
, e
% % %
contı́nua tal que e o seguinte diagrama comuta: 1
?
/
#2
dos levantamentos. Denotemos por " o único levantamento de " :
?
/
Exemplo 23.
1. Sejam "
+
e "
definidas por " & e " (
,
respectivamente.
Como "
$
'
e"
$
' , temos:
"
$
'
"
$
' *
Pela proposição anterior segue que existe homomorfismo de recobrimentos, onde
temos o seguinte diagrama comutativo:
}>
}}}
}}
}}
/
Note que
é tal que .
Em geral, sejam:
" "
96 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
"
$
' '
" $ !
o qual é equivalente a que divide , isto é, temos o seguinte diagrama comutativo:
}>
}}}
}}
}}
/
onde 1! .
2. Sejam "
e " tais que " 2, & #" #", e
" 2, # "", , respectivamente.
, ' e " $ 2, ' , temos:
Como " $
2, ' " $ , ' *
" $
vv;
vv
vv
v
vv
/
Note que
é tal que 2, #" # , .
#" 2 e
é um recobrimento.
" e
" , a função
é um isomorfismo de recobrimento, se:
1. é um homeomorfismo.
2. O seguinte diagrama comuta:
?
/
Observações 15.
1. Se existe isomofismo entre
" 2 e
" 2 , dizemos que os recobrimentos
são isomorfos.
2. Os isomorfismos de recobrimentos também são chamados transformações de reco-
brimentos.
recobrimentos
tais que e
" 2 e
" 2
são cone-
e
% % %
homeomorfismo tal que
e o seguinte diagrama comuta:
?
/
?
?
/ /
98 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
#
mente conexos e localmente conexos por caminhos. Então, existe um homeomorfismo, tal que o
seguinte diagram comuta:
?
/
#2
e
são conexos
, e % % %!
homeomorfismo tal que " " e ,
então:
"
$
"
$
Observação 6.
2
2
, e % %
"
% &2
estão na mesma classe de conjugação em $ .
Prova A prova segue do corolário anterior e do teorema 16.
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 99
Observações 16.
1. Se
#"
4. Note que é um
, -espaço com a ação:
"
,
"
Dos teoremas anteriores, segue imediatamente:
%
Corolário 26. Sejam
#"
1. Seja
; então para cada % , temos:
*
As translações são automorfismos tais que , para todo . Por outro $%
lado sabemos que
. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos; '
então:
,
1 % &%
*
100 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
2. Seja
; então, para cada %
" , temos:
- " #*
As translações são automorfismos tais que
, para todo
- %
. Por outro lado sabemos que "
. Logo, estes são todos os possı́veis -'
automorfismos; então:
, " " % " -% *
3. Em geral, seja
" ; então, para cada % , temos:
+
+ *
As translações são automorfismos tais que , para todo . Por outro
%
lado sabemos que "
. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos; '
então:
,
"
1
% %
*
4. Seja
. Como sabemos
' . Logo, estes são todos os possı́veis
automorfismos; então:
,
onde
5. Sejam
é função antı́poda.
, onde é a faixa de Möebius e ; então para cada
% , temos:
-
" - #*
são automorfismos tais que . Por outro lado , para todo %
sabemos que
'
. Logo, estes são todos os possı́veis automorfismos; então:
,
" # % %
*
onde são disjuntas aos pares e cada é homeomorfa a . Logo, existe um % tal
que &%
. Seja
" : (% , 2
i) Se
ii) Se
, então sabemos que
, como "
" segue que % , para algum % .
. Veja o capı́tulo anterior.
iii) Se
, então e . Logo, se , então % e %
. Por outro lado, é conexo por caminhos pois e são localmente conexos
por caminhos e os também são conexos por caminhos. Por outro lado, note que
" e:
como % , para algum % , temos que ; logo ; a ação
é totalmente descontı́nua.
Teorema 20. Se é conexo e localmente conexo por caminhos e
é um subgrupo
normal de 2 , então:
" $
2
$
,
"
Prova : Se "
é um subgrupo normal de $
&2 , sabemos que:
$
"
, então " 1 " . Isto é, o grupo , "2 identifica ca-
da elemento de da mesma forma que os identifica a aplicação de recobrimento " . Lo-
go, existe uma bijeção entre e
" . Por outro lado, e
" ,
,
2
tem a topologia quociente determinada por " e , respectivamente. Logo:
, " *
&
Corolário 27. Seja
"
um recobrimento tal que
&é2 conexo e localmente conexo por
, onde 1$ , então
, 2 *
caminhos. Se " $ é um subgrupo normal de $ "
Exemplo 25.
1. Seja
. Como é simplesmente conexo, temos que:
"
$ 2
,
" *
Por outro lado, sabemos que:
,
"
1
% %
*
Logo, pelo teorema 20, obtemos novamente que:
*
2. Seja
. Como é simplesmente conexa ( ! ), temos que:
$
, *
Por outro lado, sabemos que:
,
onde é a função antı́poda. Pelo teorema 20, obtemos novamente que:
*
%
"
3. Seja
$
2
"
'!
tal que " , (
é normal em e:
); então como $
2 ' , temos que
,
2 ' *
" $ " $
Isto é, ,
"
é um grupo finito de ordem . Pelo teorema 20, obtemos nova-
mente que:
*
4. Seja
, onde é a faixa de Möebius e . Como é simples-
mente conexo, temos que:
$
,
*
Por outro lado, sabemos que:
,
" # % %
*
5.3. TRANSFORMAÇÕES DE RECOBRIMENTOS 103
*
5. Seja
, onde é a garrafa de Klein. Como
é simplesmente conexo, temos
que:
, '$ 2
'
onde é o grupo gerado pelos homeomorfismos
definidos por:
e #
com a relação . Logo, os automorfismos são:
, # % -% *
Note que:
"
" #*
Pelo teorema 20, obtemos novamente que:
*
6. Seja
"
. Como
é simplesmente conexo, então:
, "
'$
" #2 ' *
Pelo teorema 20, obtemos novamente que:
" #*
Observações 18.
1. Sabemos que o teorema 18 determina completamente os possı́ves recobrimentos de
um espaço, salvo isomorfismo, pela classe de conjugação dos subgrupos " $ .
A recı́proca será verdadeira? Isto é, dada uma classe de conjugação de subgrupos de
$
existe um recobrimento " tal que " $ pertence a esta classe
de conjugação? Em geral, a resposta a esta questão é negativa.
2. Note que sempre temos o recobrimento
gação do subgrupo $ .
correspondente à classe de conju-
104 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Exemplo 26.
1.
é o recobrimento universal de
.
3. Analogamente,
* * *# é o recobrimento universal de .
é o recobrimento universal de .
4. Em geral,
não é um recobrimento universal de .
5.
6.
, onde é a faixa de Möebius e é o recobrimento universal
de .
7.
, onde é a garrafa de Klein, é o recobrimento universal de .
Observações 19.
1. O recobrimento universal é associado ao subgrupo
. $
2. O número de folhas
base. Por exemplo,
do recobrimento
tem infinitas folhas e ,
universal é a ordem do grupo fundamental da
tem 2 folhas.
Proposição 23. Seja & recobrimento universal de . Para todo
#2 tal que
é conexo, existe
#"
?
/
&% %
*
Observações 20.
1. Pela proposição 21 e a proposição anterior, temos que:
2
existe homomorfismo
tal que
é um recobrimento de . Isto
justifica o nome de recobrimento universal.
?
/
5.4. APLICAÇÕES 105
5.4 Aplicações
Um problema bastante complicado é determinar todos (a menos de isomorfismo) os
recobrimentos de um espaço dado. Neste parágrafo, estudaremos alguns exemplos
com a hipótese de que o espaço de recobrimento é conexo. Utilizaremos o seguinte
corolário dos parágrafos anteriores.
Teorema 21.
conexo
Seja
#" $
e localmente
conexo por caminhos possuindo recobrimento
. Dado &2 um subgrupo, existem um recobrimento 2 e
universal
"
% , tais que:
*
"
" $
*
A relação de equivalência está definida por:
se, e somente se, existe % tal que *
Demos a a topologia quociente determinada pela projeção canônica:
*
Definamos a seguinte aplicação:
"
+
+ " #*
~?
~~~
~~
~~
/
106 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
' *
$
Note que para verificar que " $ , basta verifica que o seguinte diagrama
comuta:
$
2
$
onde
, & " , e são isomorfismos e
é a inclusão. De fato, como
!
, então:
"
" $
$
*
Consideremos o diagrama comutativo:
~?
~~~
~~
~~
/
tal que
e
,
isto é:
"
*
"
; logo:
"
"
" *
5.4. APLICAÇÕES 107
Note que
. Logo, e
e são
levantamentos de
partindo de .
Pela unicidade dos levantamentos:
*
5.4.1 Recobrimentos de
,
Seja
$
, ( '
) a esfera unitária. Como , (
é simplesmente conexa, então
$
" '
,
onde é a função antı́poda.
ii) e:
é recobrimento trivial.
Logo, todo recobrimento
" é isomorfo a um destes recobrimentos.
).
i) é o recobrimento universal de
que é associado ao subgrupo , onde:
*
De fato, ' . O grupo de automorfismos é:
,
1! % %
*
Note que #"
, para todo % .
o recobrimento trivial.
iii) Os subgrupos ,( % ) são associados aos recobrimentos:
"
*
5.4. APLICAÇÕES 109
'
pois:
% *
Por exemplo, seja o subgrupo que tem como subgrupo correspondente pelo iso-
morfismo:
% *
Todos os pontos de são equivalentes a um elemento de por ; logo é
, salvo
e que são equivalentes, isto é:
'
*
Note que a aplicação
+ induz " , que corresponde a dar 4 vezes a volta ao
redor do cı́rculo.
Sejam
o toro e . Sabemos que $ é um grupo cı́clico infinito com 2
geradores, isomorfo a . Logo, os possı́veis subgrupos são:
i) Subgrupos cı́clicos com um gerador.
ii) Subgrupos cı́clicos com dois geradores.
O recobrimento universal do toro: :
*
O grupo de automorfismos é:
,
" % -% *
110 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Compondo com o homeomorfismo:
, temos:
"
, - #
, *
i) Subgrupos gerados por um gerador.
Os subgrupos gerados por vetores paralelos a :
(
" % -%
"
2,
, #*
), tem
como subgrupo correspondente pelo isomorfismo:
" % -%
5.4. APLICAÇÕES 111
Os subgrupos
gerados por vetores são, em geral, faixas do tipo:
" 1 "
Figura 5.3:
112 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Figura 5.4:
"
#*
Se
, temos que
brimentos finitos de .
0 3
0 1 2
O número de recobrimentos de
folhas é determinado pela fatoração de . Por
exemplo, para recobrimentos de folhas temos:
*
). Denotemos: .
i) é o recobrimento universal de associado ao subgrupo , onde:
*
'
De fato,
,
. O grupo de automorfismos é:
"
# % -%
*
Note que . Isto é:
*
0 1 2
*
Os recobrimentos:
" #*
Por exemplo :
0 1 2
ii) Se é ı́mpar, é uma faixa de Möebius. De fato:
#*
116 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
Por exemplo :
0 1 2 3
Isto é:
"
#*
i) Consideramos e:
"
onde " é a projeção canônica.
É possı́vel provar que se é par, então:
'
e se é ı́mpar, então:
'
onde é a faixa de Möebius.
Por exemplo, seja
-
. Logo,
%
" %
logo,
-' .
ii) Os subgrupos
tais que , ) e . Consideramos
e a projeção canônica:
"
*
É possı́vel provar que se é par, então:
'
e se é ı́mpar, então:
' *
118 CAPÍTULO 5. RECOBRIMENTO E GRUPO FUNDAMENTAL
" *
Então, se é par:
" "
" " #*
Logo,
'
.
Se é ı́mpar:
+ *
Logo,
' .
O seguinte recobrimento é determinado pelo subgrupo gerado por
e :
0 2
Prova :
1. Sejam # % "
, como é conexo por caminhos, existe um caminho tal que
e . Definamos " , então:
" "
logo, % $
2 e 1 .
2. Segue da definição da ação.
3. Seja 1% $
2 ; denotemos por o único levantamento de tal que e
"
. Logo, ; consideremos caminho em tal que
e
, então:
*
" " "
5.6 Exercı́cios
%
1. Um recobrimento
" $
"
é normal de $
2
é dito regular se para algum
. Verifique que se $
o subgrupo
, então todos % 2
os levantamentos de são caminhos fechados ou não são fechados.
2. Seja #" um recobrimento tal que , onde
de forma totalmente descontı́ua sobre . Prove que "
& é um grupo que age
é regular.
"
. .
2, *
121