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Peixes Venenosos À Vista

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BIOLOGIA

PEIXES
VENENOSOS
À VISTA
Butantan desenvolve
antídoto para quatro
espécies que podem causar
dor intensa em quem
se banha em rios e no mar
Gilberto Stam

52 | DEZEMBRO DE 2023
H
á 30 anos, sempre que vai à praia, a Nos registros médicos, cerca de 70% dos aci-
bióloga Mônica Lopes Ferreira, do dentes são atribuídos a arraias de água doce,
Instituto Butantan, aproveita para provavelmente os mais notificados porque as
coletar peixes venenosos. De volta lesões são profundas e doloridas. Com base em
ao laboratório, ela e sua equipe ex- suas próprias observações, porém, Haddad e
traem o veneno para desenvolver Ferreira consideram que os bagres, conhecidos
soros e tratar vítimas de acidentes como mandis de água doce, são os peixes que
causados por alguns tipos de animais mais causam acidentes, por viverem em toda a
do mar e de rios. Até agora, o grupo costa e em rios.
obteve sucesso com o bagre-amarelo (Cathorops De 126 pescadores do município de Miranda,
spixii), comum em toda a costa brasileira, a arraia em Mato Grosso do Sul, 38 haviam se machucado
de rios da Amazônia (Potamotrygon orbignyi), com bagres e, em Corumbá, 111 dos 355 pescadores
o niquim ou peixe-sapo-do-nordeste (Thalas- relataram lesões causadas por mandis, segundo
sophryne nattereri) e um parente próximo do estudo publicado em 2018 na Revista da Socieda-
peixe-leão, o peixe-escorpião (Scorpaena plumie- de Brasileira de Medicina Tropical. Nas praias, os
ri), encontrado nos recifes. Ferreira e o médico pescadores costumam descartar bagres pequenos
Vidal Haddad Júnior, da Universidade Estadual na areia, que podem ser pisados por banhistas.
Paulista (Unesp), do campus de Botucatu, esco- Há 30 anos estudando esses acidentes, Had-
lheram essas espécies por causarem acidentes dad tem observado que as pessoas não costumam
frequentes, com base em relatos de pescadores procurar atendimento médico porque, em geral, a
de vilas litorâneas do Nordeste e do Norte. dor das ferroadas passa após poucas horas, ainda
Testados em camundongos, os soros são pro- que as toxinas do veneno possam causar grandes
duzidos como aqueles usados contra picadas de danos ao organismo. “As infeções bacterianas são
serpentes ou escorpiões: doses minúsculas de comuns nos ferimentos e podem levar a compli-
veneno são inoculadas em cavalos, dos quais de- cações graves como amputação e sepse”, observa.
pois se extraem os anticorpos usados para tratar Ferreira acrescenta: “Os médicos raramente iden-
pessoas. Em testes em camundongos, os soros se tificam a verdadeira causa do ferimento, confun-
mostraram eficazes para deter os efeitos das to- dido com cortes de cacos de vidro ou ferroada de
xinas dessas quatro espécies, como descrito em siri, que não é venenoso e não causa ferimentos
um artigo publicado em maio na revista cientí- graves. Alguns médicos ficam surpresos quando
fica International Journal of Molecular Sciences. conto que peixe tem veneno”. O fato de esses
Novos testes e a produção em maior escala, no peixes não serem citados nos formulários de no-
entanto, dependem de o Ministério da Saúde tificação médica dificulta o trabalho.
(MS) reconhecer os acidentes com peixes como Em parceria com a Secretaria da Saúde de San-
um problema relevante de saúde pública. ta Catarina, a bióloga tem feito palestras para
De 2007 a 2013, de acordo com o levantamen- profissionais da área da saúde para aumentar a
to mais recente, publicado em 2015, o MS regis- notificação dos acidentes com peixes. Também
trou 4.118 acidentes com animais de rio e mar, tem ajudado a produzir folhetos informativos
incluindo ouriços e águas-vivas – ou 1,6 por dia. para a população. Haddad, por sua vez, publicou
“Como a notificação não é obrigatória, o número em 2007 um manual para profissionais da saúde
real certamente é muito maior”, afirma Haddad, chamado Animais aquáticos potencialmente peri-
FOTO KRIS MIKAEL KRISTERIA / WIKIMEDIA COMMONS

um dos autores do levantamento, publicado em gosos do Brasil: Guia médico e biológico.


2015 na Revista da Sociedade Brasileira de Medi- Em seu doutorado, quando atendeu no pronto-
cina Tropical. -socorro de Ubatuba entre 1998 e 1999, o médico
Existem quase 200 espécies conhecidas de constatou que não só os peixes perturbavam a
peixes venenosos que causam acidentes no Bra- paz dos moradores e turistas. Ali, os acidentes
sil – esse número aumenta pouco a pouco. “Re- mais comuns, cerca de metade deles, eram com
As toxinas dos centemente, reconhecemos os pintados [Pseudo- ouriços-pretos, um animal que não tem veneno
espinhos do
platystoma corruscans], usados para fazer isca à ativo em humanos e vive em colônias de até 12
peixe-escorpião podem
causar alterações milanesa nos bares brasileiros, como peçonhen- bichos, nas pedras. Os espinhos são tirados com
no ritmo cardíaco tos”, afirma Haddad. duas agulhas grossas, sem anestesia. “Já atendi

PESQUISA FAPESP 334 | 53


pacientes com até 50 espinhos, o que trava a fila que normalmente protegem os animais contra
do pronto-socorro”, relata Haddad. patógenos. Em alguns peixes, como as arraias, o
A bióloga do Butantan testemunhou episódios ferrão fica revestido pela pele e coberto de muco.
dramáticos. Anos atrás, em um posto de saúde O niquim é o único que injeta o veneno ativamen-
de Maceió, capital de Alagoas, ela conheceu um te, como as serpentes. Ele contrai os músculos
alfaiate que, 20 dias antes, pescava na lagoa de de glândulas que injetam o veneno por meio de
Mundaú, nos arredores da cidade, quando um quatro espinhos ocos, dois ao lado do corpo e
bagre que balançava na vara espetou sua mão. dois nas costas. É o que mais causa ferimentos
O efeito do veneno do peixe foi tão intenso que em quem pisa no animal sem perceber.
parte dos músculos já estava necrosada e sem Os venenos dos peixes funcionam de forma
Arraia de água doce,
movimento 20 dias depois, quando foi ao posto. parecida. Assim que entram na circulação san- causadora de lesões
O médico que o atendeu teve de amputar os de- guínea, geram uma intensa contração das arté- profundas e doloridas
dos indicador e médio da mão direita, e o alfaiate

F
teve de antecipar a aposentadoria.

erreira relata ter conhecido catadores


de marisco no litoral de Alagoas que
ficaram meses sem trabalhar após se-
rem atingidos pelos espinhos do ni-
quim, um peixe que fica enterrado em
águas rasas. Mergulhadores também
são vítimas frequentes: “As pessoas
têm o péssimo hábito de tocar aquilo
que observam e podem encostar no
peixe-escorpião, escondido nos recifes”, diz ela.
O veneno dessa espécie é o único que tem efeito
em todo o corpo, e não apenas local, e pode causar
problemas respiratórios e cardíacos.
Os venenos são compostos de proteínas e se
somam a toxinas do muco da pele dos peixes,

VEJA BEM ONDE PISA


As espécies que mais causam acidentes no Brasil vivem em águas marinhas rasas e profundas

Bagre-amarelo Niquim ou peixe-sapo Arraia de rios Peixe-escorpião


(Cathorops spixii) (Thalassophryne nattereri) (Potamotrygon sp.) (Scorpaena plumieri)

Descrição De águas costeiras De corpo achatado, com Corpo chato e Vive em águas profundas,
ou fluviais rasas, com até até 15 centímetros. Habita arredondado. Vive em nos recifes de corais do
2,8 metros águas rasas do Nordeste rios da América do Sul Nordeste ao Sul do país

Estrutura Espinhos nas costas Dois espinhos nas costas Um a quatro ferrões Espinhos nas
venenosa e nas nadadeiras e ao lado das brânquias na cauda nadadeiras

Efeitos Efeito local: dor intensa, Efeito local: dor intensa, Efeito local: dor intensa, Efeito local e sistêmico,
iniciais morte dos tecidos se não morte dos tecidos se não morte dos tecidos se não com alterações na respira-
do veneno for tratado e infecção for tratado e infecção for tratado e infecção ção e no ritmo cardíaco

FONTE VIDAL HADDAD JR. E MÔNICA LOPES FERREIRA

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PRIMEIROS SOCORROS
Como reconhecer e tratar acidentes com peixes

SINAIS NO CORPO CAUSADORES CUIDADOS MÉDICOS

Pedaços de ferrão Bagres marinhos, Colocar na área atingida água quente (cerca de
visíveis, dor intensa mandis, arraias 50 oC ) por 30 a 90 minutos, para reduzir a dor

Perfurações, raros Peixe-escorpião Retirar espículas ou fragmentos de ferrão


espinhos, dor intensa (mangangá), ou epitélio glandular e aplicar anestésico local
niquim (peixe-sapo)
Fazer exame radiológico se os sintomas
Ferimentos com bordas Arraias e bagres persistirem
azuladas ou pálidas, marinhos e fluviais
Aplicar vacina contra tétano
pedaços de ferrão,
perfurações, dor intensa

Cortes profundos, Cações, barracudas, Fazer uma lavagem intensiva e uma


dor moderada moreias, piranhas, exploração cirúrgica (procura por fragmentos
peixes-cachorro, traíras de ferrões) da área atingida

Antibióticos

Aplicar vacina contra tétano

FONTE HADDAD JR., V. MEDICAL EMERGENCIES CAUSED BY AQUATIC ANIMALS: A BIOLOGICAL AND
CLINICAL GUIDE TO TRAUMA AND ENVENOMATION CASES. 2021

rias e veias. O fechamento dos vasos sanguíneos elas subiram o rio Paraná, chegaram ao Parana-
causa inchaço, vermelhidão na pele, inflamação, panema e continuam se espalhando.
morte dos tecidos e infecções bacterianas. “A in- “Por volta de 2005, coletamos as primeiras
terrupção da circulação provavelmente é a causa arraias no rio Tietê, hoje com quase um terço
da dor intensa, que os pacientes descrevem como de seu curso ocupado por esses peixes”, relata

E
excruciante”, comenta Haddad. Haddad. Sua previsão é de que as arraias avancem
pelo Tietê e cheguem a Minas Gerais.
mbora usados como sinônimos, os Na estação reprodutiva, em julho e agosto, as
FOTO KLAUS RUDLOFF / [Link] INFOGRÁFICOS ALEXANDRE AFFONSO / REVISTA PESQUISA FAPESP

termos veneno e peçonha expressam arraias migram de áreas mais profundas para as
diferentes comportamentos, alerta rasas e se enterram no lodo. A pisada de visitantes
o biólogo Carlos Jared, também do no leito dos rios dispara um movimento reflexo
Butantan: “Animais peçonhentos, de contração do rabo no peixe, com um a qua-
como as serpentes, atacam, mordem tro ferrões, difíceis de serem removidos quando
e injetam o veneno quando vão se ali- enterrados na perna. Haddad recomenda andar
mentar ou se defender. Já os peixes arrastando o pé no leito do rio, principalmente no
usam o veneno apenas como forma Pantanal e na Amazônia, para afugentar as arraias.
de defesa, quando são pisados ou mordidos”. O tratamento recomendado contra aciden-
Os baiacus (Takifugu sp.), além de produzirem tes com peixes venenosos consiste em imergir o
veneno, inflam o corpo, dando aos predadores a membro atingido em água quente a uma tempe-
impressão de que seriam bem maiores, impos- ratura tolerável, remover o ferrão ou espinho e
síveis de serem comidos. Suas toxinas estão na restos que tenham se quebrado no corpo, lavar a
pele e em órgãos como o fígado, removidos antes ferida com água e sabão, procurar ajuda médica,
de serem consumidos. tomar os remédios receitados e fazer curativos
Em 1982, o fechamento das comportas da usi- até o ferimento desaparecer. n
na hidrelétrica de Itaipu gerou um imenso lago
que cobriu o salto de Sete Quedas, até então uma Os artigos científicos consultados para esta reportagem estão listados
barreira natural às arraias. Com o caminho livre, na versão on-line.

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