Acadêmica: Elaine dos Santos Infantino Específico II
FAZENDO PERGUNTAS
É sempre mais importante levantar o problema do que resolvê-lo.
Lacan (1998b, p. 425)
Fazer perguntas
● A resistência do analista se manifesta ao dizer mais do que o necessário:
Quando o analista fala demais ou faz perguntas longas, ele está "tapando" o buraco
do inconsciente. O excesso de fala do analista geralmente serve para aliviar a
própria ansiedade, mas acaba confundindo o paciente e fazendo o essencial ser
esquecido.
● Quanto menos o analista se expressar, mais precisa será sua pergunta:
Perguntas curtas (ex: "Dificuldades?") são menos ambíguas e permitem que o
paciente projete nelas o que ele mesmo estava pensando. Se a pergunta é longa, o
paciente responde ao que o analista quer saber, e não ao que ele (paciente) precisa
descobrir.
● O analista deve usar as mesmas palavras e expressões do paciente: Na
psicanálise, as palavras são "significantes" únicos. Se você substitui a palavra do
paciente por um termo seu (mesmo que pareça sinônimo), o paciente sente que
você está desaprovando a linguagem dele ou perdendo o sentido emocional que
aquela palavra específica carregava.
● Evitar termos vagos e dar passos pequenos na exploração: Termos como
"abuso" ou "molestar" são amplos e podem significar coisas diferentes. Perguntar
detalhadamente sobre o ato (ex: "ele tocou em você?") ajuda o paciente a articular a
experiência real, em vez de se esconder atrás de um rótulo genérico.
● A tradução e o som das palavras como chaves do inconsciente:O inconsciente
brinca com os sons. Pedir para o paciente dizer palavras em sua língua nativa ou
observar palavras que soam iguais mas têm sentidos diferentes (como o exemplo de
"estoques") ajuda a decifrar sonhos e fantasias escondidas sob disfarces
linguísticos.
Deus está nos detalhes
Psicanálise significa permitir que o paciente elabore o saber
inconsciente que nele está, não em forma de profundidade, mas em
forma de um câncer. Lacan (1973-1974, 11 de junho, 1974)
● Psicanálise significa permitir que o paciente elabore o saber inconsciente: O
saber não está escondido em uma "profundidade" mística, mas nos detalhes do
discurso que parecem sem importância. O analista deve forçar o levantamento
desses detalhes para que as conexões apareçam.
● A importância de datas, idades e escolaridade para fazer conexões: Sem saber
exatamente quando as coisas aconteceram, o analista não consegue ligar um
evento traumático a uma mudança de comportamento. Perguntar a idade ajuda a
transformar uma "decisão consciente" em uma lógica inconsciente (como a ligação
entre os 14 anos e o afastamento da irmã).
Recebendo o que pedimos
● As respostas dependem em grande parte das perguntas que fazemos: Se o
analista faz perguntas indutivas, ele receberá o que ele mesmo sugeriu. Se ele deixa
"espaços em branco", ele permite que o paciente decida o que é mais importante
trazer para a sessão.
● Fazer perguntas abertas em vez de colocar palavras na boca do paciente: Usar
expressões como "E?", "Como assim?" ou simplesmente repetir a última palavra do
paciente com uma interrogação obriga o sujeito a elaborar o seu próprio saber, sem
a influência do julgamento do analista.
Não sei por quê
● A análise começa quando o paciente quer saber o porquê de suas
experiências: Muita gente vive no "desejo de não saber" (ignorância sobre os
próprios motivos). A função do analista, ao insistir na pergunta "por quê?", é ser a
causa que desperta no paciente o desejo de conhecer sua própria verdade.
● A resistência do analista pode ser evitar assuntos dolorosos: É mais fácil para o
analista deixar o paciente falar de coisas banais. No entanto, o desejo do analista
deve ser o de levar a análise adiante, encorajando o paciente a enfrentar temas
difíceis que ele está tentando contornar.
FINK, Bruce. Fundamentos da técnica psicanalítica: uma abordagem lacaniana para o
consultório. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, p. 55- 69, 2017.